segunda-feira, 10 de agosto de 2026

«O fracasso de uma utopia, Jerusalém, capital eterna e indivisível de Israel»

 


«O fracasso de uma utopia, Jerusalém, capital eterna e indivisível de Israel»

 

Maurice Buttin / 24 DE novembrO DE 2025 / NOS MEdias

 

«O fracasso de uma utopia, Jerusalém, capital eterna e indivisível de Israel» A História da Palestina e do Sionismo por Maurice Buttin – Edições Karthala.


Rumo ao fim da ideologia nacional sionista?

Por René Naba

O tema, até então, constituía um tabu absoluto. Observadores perspicazes, uma minúscula minoria, pensavam nisso secretamente; outros, igualmente raros, murmuravam-no às escondidas. Ele, por sua vez, escreve-o preto no branco num livro de grande impacto, que abala os preconceitos e sacode o torpor letárgico da fauna político-mediática ocidental.

Trata-se de Maurice Buttin, o homem do caso Ben Barka, o escândalo político-judicial retumbante que abalou a França na década de 1960, durante o mandato do presidente Charles De Gaulle, autor do livro «O fracasso de uma utopia: Jerusalém, capital eterna e indivisível de Israel», Edições Karthala.

Uma enorme pedra atirada para a água por um homem nada tímido, que repugna à dissimulação e às tortuosidades da linguagem e do pensamento, levando a pensar num possível fim da ideologia nacional sionista.

Maurice Buttin é colaborador do site https://www.madaniya.info/, onde apresenta esta obra a 29 de Novembro de 2025, por ocasião do 78.º aniversário da resolução de 29 de Novembro de 1947 sobre o plano de partilha da Palestina, que coincide com o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano.

Como figura habitual nos fóruns públicos — como atestam os seus antecedentes — e em consonância com a sua fé cristã, os seus compromissos humanistas e a sua prática como jurista, Maurice Buttin repreende uma opinião pública ocidental traumatizada por tantas covardias. «Será que os cristãos têm de sentir vergonha duas vezes: pelo anti-semitismo europeu secular [que permitiu o Holocausto] e pelo abandono dos palestinianos [que permite um novo genocídio]?», exclamou ele um dia.

Como reincidente impenitente, sem receio do anátema nem da litania de acusações que se abate sobre quem quer que desafie a doutrina oficial ocidental — anti-semitismo, revisionismo, negacionismo e até mesmo teorias da conspiração —, Maurice Buttin aborda sem rodeios este tema altamente tabu.

De carácter pedagógico, o filme questiona as razões que desencadearam o «dilúvio de Al-Aqsa», o ataque do Hamas contra Israel, a 7 de Outubro de 2024, evocando os 56 anos de ocupação, repressão e humilhação sofridos pelo povo palestiniano; as centenas de milhares de vítimas das guerras de 2008-09, 2012, 2014, 2021 e 2023/25; o genocídio dos habitantes de Gaza, com a destruição de 70 % da cidade; a nova «limpeza étnica» prevista para as populações.

Daí deduz, logicamente, o fim da ideologia nacional sionista, tal como aconteceu com o fascismo, o franquismo e o nacional-socialismo.

A ler sobre este ponto, o capítulo 13 da obra «O fim do nacional-sionismo: os doze tributos que Israel terá de pagar para sobreviver»

Trechos selecionados

•    1. Que Israel reconheça e aplique finalmente o Direito Internacional

•    2. Que Israel ponha fim a 76 anos de impunidade

•    3. Que Israel acabe com a equação «anti-sionismo» = «anti-semitismo»!

•    4. Que Israel reconheça o papel fundamental da resistência palestiniana, violenta e não violenta, o papel da campanha «Boicote, Desinvestimento e Sanções» e a resiliência do povo palestiniano no fim da ocupação.

•    5. Que Israel abandone a sua obsessão pela «segurança» e recupere a sua alma.

•    6. Que Israel admita o fim do regime de apartheid em vigor.

•    7. Que Israel reconheça o desprezo e a humilhação sofridos pelos palestinianos desde a sua criação, em 1948.

•    8.º Que Israel aceite finalmente fazer a paz

•    9.º Que Israel tenha a coragem de destruir os muros que cercam as cidades e aldeias palestinianas, incluindo em Jerusalém; de abandonar os colonatos, de controlar os colonos; e de reconhecer o direito ao regresso dos refugiados.

•    10. Que Israel deixe de ser um Estado europeu implantado no Médio Oriente.

•    11. Que Israel tome consciência da questão demográfica

•    12. Que Israel evite uma guerra civil

Conclusão geral

No prólogo, escreve o autor, pretendo recordar a notável declaração de Pierre Mendès-France, antigo presidente do Conselho de Ministros em 1954/55, de Nahum Goldmann, presidente do Congresso Judaico Mundial, e de Philip Klutznick, importante personalidade judaica nos Estados Unidos, publicada no *Le Monde* de 3 de Julho de 1982 «A paz não se concebe entre amigos, mas entre inimigos que lutaram e sofreram. O nosso sentido da história judaica e os imperativos do momento levam-nos a afirmar que chegou a hora do reconhecimento recíproco de Israel e do povo palestiniano. (…) O que se impõe agora é chegar a um acordo entre os nacionalismos israelita e palestiniano.

É como se as 12 recomendações deste roteiro corressem o risco de ressoar na mentalidade israelita como uma nova versão dos 12 trabalhos de Israel.

A análise dos capítulos conduz a uma constatação esmagadora: a evolução política de Israel trazia em si os germes da própria decomposição do projecto sionista inicial.

Através das represálias indiscriminadas ordenadas pelo poder israelita contra a população civil palestiniana de Gaza, o «Dilúvio de Al-Aqsa» fez desmoronar os mitos fundadores do Estado hebraico, sobre os quais prosperou durante 70 anos o projecto sionista inicial: – Do kibutz socialista «que fertiliza o deserto sob a protecção do exército mais moral do mundo, movido pela pureza das armas»… O supremacismo racialista da extrema-direita governamental de Benyamin Netanyahu pôs fim à imunidade mediática israelita e, consequentemente, à paralisia do debate público ocidental sobre a questão judaica no contexto do genocídio hitleriano.

Não é irrelevante notar, a este respeito, que todos aqueles que incutiram no imaginário ocidental o leitmotiv segundo o qual «Israel, a única democracia do Médio Oriente, constitui a vanguarda do Mundo Livre face à barbárie árabe-muçulmana», terão contribuído grandemente para esta deriva e são por isso responsáveis, ignorando que, desde a adopção da Lei de Israel, Estado-nação do povo judeu, aprovada a 19 de Julho de 2018 pelo Knesset como uma das leis fundamentais de Israel, o Estado hebraico é agora uma etnocracia.

Para se convencer do fim da imunidade mediática de Israel, basta observar a evolução do presidente Emmanuel Macron, que, no início do seu primeiro mandato presidencial, demonstrou um entusiasmo pró-israelita, desrespeitoso para com os palestinianos, visitando à meia-noite o presidente da Autoridade Palestiniana em Ramallah, Mahmoud Abbas, à meia-noite, como se apertar a mão de um líder palestiniano fosse uma doença vergonhosa, chegando mesmo a preconizar a constituição de uma coligação internacional contra o Hamas, antes de liderar um movimento internacional destinado a conduzir ao reconhecimento de um Estado palestiniano independente, como se, com o seu zelo tardio, quisesse apagar da memória colectiva a adopção, por iniciativa do seu partido, de uma lei que equipara a crítica a Israel ao anti-semitismo, a Lei IRHA.

·         https://www.renenaba.com/macron-en-israel-les-palestiniens-en-catimini-la-honte-de-la-france/

Na mesma linha, Rony Brauman, antigo presidente da Médicos Sem Fronteiras, afirmará, sem rodeios: «Israel é apresentado como uma democracia, mas é um regime que tortura, coloniza, pratica o apartheid e o genocídio», contestando veementemente o estatuto democrático de um Estado cujas práticas, segundo ele, lembram os tempos sombrios do apartheid sul-africano.

A declaração de Rony Brauman encontra-se neste   link .

O que pensa de tudo isto François Hollande, ele, o socialista, que entoa uma canção de amor a Israel na cozinha do ultra-direitista Benyamin Netanyahu? Tanta inversão de valores expõe o seu autor a uma decadência moral.

Sobre este tema, consulte estes dois links

 

Sobre o tropismo pró-israelita dos socialistas franceses, vê este link

 

O receio de cumplicidade em genocídio abala o apoio europeu a Telavive

Foram necessários dezoito meses de massacres de civis e uma banalização dos discursos genocidas ao mais alto nível do Estado israelita para que Londres, Ottawa e Bruxelas considerassem a possibilidade de exercer pressões económicas sobre Telavive. Enquanto o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu confirma a sua intenção de assumir o controlo total de Gaza, a reacção tardia e tímida destas potências ocidentais coloca a «diplomacia dos valores» perante as suas contradições, como se lê nesta revista mensal.

Em conclusão, Maurice Buttin defende a solução de dois Estados com base no direito internacional. Ele acredita, no futuro, na reconciliação dos dois povos, israelita e palestiniano, tal como os ingleses e os franceses se reconciliaram após cem anos de hostilidade, ou como os franceses e os alemães após as três guerras sangrentas de 1870, 1914, 1939 e um novo genocídio?», exclamou ele um dia perante uma audiência estupefacta.

O advogado, natural de Marrocos, destacou-se na defesa dos nacionalistas marroquinos que lutavam pela independência contra o protectorado francês, nomeadamente da USFP (União Socialista das Forças Populares), antes de assumir o caso de Mehdi Ben Barka, o líder da esquerda marroquina e figura de proa da Tricontinental, raptado em Paris pelos serviços secretos marroquinos com a cumplicidade de agentes franceses e israelitas, e que morreu sob tortura.

Figura mítica da oposição democrática marroquina, o antigo professor de matemática de Hassan II foi raptado em Outubro de 1965, em Paris, com a cumplicidade do Mossad, e queimado vivo por capangas marroquinos, um mês após a realização da cimeira árabe de Casablanca. Principal opositor socialista ao rei Hassan II e líder do movimento do Terceiro Mundo e pan-africanista, Mehdi Ben Barka foi raptado enquanto tentava, na sua qualidade de «representante itinerante da revolução», federar os movimentos revolucionários do Terceiro Mundo com vista à Conferência Tricontinental que se realizaria em Janeiro de 1966, em Havana, com o objectivo de fazer convergir «as duas correntes da revolução mundial: a corrente surgida com a Revolução de Outubro e a da revolução nacional libertadora». Para o historiador René Galissot, «é neste ímpeto revolucionário da Tricontinental que reside a causa profunda do rapto e do assassinato de Ben Barka».

Sobre este caso, consulte estes dois links:

https://www.renenaba.com/mehdi-ben-barka/

https://www.renenaba.com/la-jordanie-et-le-maroc-deux-voltigeurs-de-pointe-de-la-diplomatie-occidentale/

Consciente da sua enorme responsabilidade neste caso, o advogado, com um tom premonitório, dirá: «No dia em que atravessar o Rubicão, ou seja, quando me deslocar a Paris para o primeiro julgamento do caso Ben Barka, em Setembro de 1966, não serei eu a deixar Marrocos… mas sim Marrocos a deixar-me! Estar-me-á proibido regressar ao país após a minha alegação.». De facto, só regressará a Marrocos 17 anos mais tarde, na companhia do presidente François Mitterrand, por ocasião da visita oficial do presidente francês.

Maurice Buttin é vice-presidente da Associação de Solidariedade Franco-Árabe (ASFA), fundada pelo ministro Louis Terrenoire em 1974, membro da Associação França-Palestina Solidariedade, vice-presidente do Comité de Vigilância para uma Paz Real no Médio Oriente e administrador das associações «Pour Jérusalem» e «Amis de Sabeel-France».

Maurice Buttin é autor das seguintes obras:

Ben Barka, Hassan II, De Gaulle. O que sei sobre eles (Karthala)

O confinamento do povo palestiniano, edição do CVPR-PO

Table des matières

Prefácio por Henri Marchal

Cap. 1 O sionismo

Cap. 2 O sionismo religioso ao longo da história e na actualidade.

Cap. 3 Os avanços políticos dos sionistas (1896-1947)

Cap. 4 O sionismo político laico (1947-1977)

Cap. 5 O sionismo de direita no poder (1977-1984)

Cap. 6 O sionismo político de coligação (1984-1992)

Cap. 7 Os trabalhistas no poder (1992-1996)

Cap. 8 O sionismo de direita no poder (1996-2009)

Cap. 9 O regresso de Benjamin Netanyahu (2009-2020)

Cap. 10 A extrema-direita no poder (2020-2023)

Cap. 11 7 de Outubro de 2023: o ponto de viragem da História

Cap. 12 As consequências de 7 de Outubro

Cap. 13 O fim do sionismo nacional

 

Os doze tributos que Israel terá de pagar para sobreviver

Conclusão geral

Sobre o mesmo tema, leia «O sonho de Israel acabou»! Editorial de Ben Dahan (Haaretz), 26 de Setembro de 2025

Em anexo, a tradução do editorial.

Entre as mais belas manifestações da consciência viva, dos frutos da liberdade intelectual e da força da convicção.

Durante a guerra contra Gaza e os ataques com foguetes da resistência, as nossas perdas ultrapassavam os 912 milhões de dólares a cada três dias, em custos com aviões de guerra, mísseis Patriot e combustível para os nossos veículos, sem contar com o uso massivo de munições e projécteis de todos os tipos.

E isto sem contar com a paralisação do comércio, o colapso da bolsa, a paralisia das instituições e dos estaleiros, a paralisação da agricultura e da indústria, a morte de milhões de aves nas explorações agrícolas, a suspensão de alguns aeroportos e comboios, ou ainda os custos associados ao acolhimento de refugiados nos abrigos.

Sem esquecer as destruições causadas pelos foguetes da resistência em casas, lojas, carros e fábricas.

Fomos nós que iniciámos esta guerra e avivámos as suas chamas, mas não a controlamos, e certamente não seremos nós a pôr-lhe fim.

O desfecho não será a nosso favor, sobretudo depois de as cidades árabes no interior de Israel se terem revoltado contra nós, quando pensávamos que tinham perdido a sua identidade palestiniana.

É um sinal nefasto para um Estado cujos políticos descobrem que os seus cálculos estavam errados e que as suas estratégias são incapazes de ver além dos seus planos imediatos.

O texto completo neste link

https://ancommunistes.fr/spip.php?article7388


O fracasso de uma utopia. «Jerusalém, capital eterna e indivisível» de Israel. A História da Palestina e do sionismo – Autor(es): Maurice BUTTIN

Resumo: O dia 7 de Outubro de 2023 marca um ponto de viragem na História do Médio Oriente. O autor relembra a história da Palestina e a do sionismo. Os anos de ocupação, repressão e humilhação sofridos pelo povo palestiniano; as centenas de milhares de vítimas das guerras; o genocídio dos habitantes de Gaza; a nova «limpeza étnica» prevista. Como consequência, prevê o fim da ideologia nacional-sionista, tal como aconteceu com o fascismo, o franquismo e o nacional-socialismo.

 

https://www.karthala.com/accueil/3640-l-echec-d-une-utopie-jerusalem-capitale-eternelle-et-indivisible-d-israel-l-histoire-de-la-palestine-et-du-sionisme.html

 

Maurice Buttin

Maurice Buttin, nascido a 10 de Dezembro de 1928[1] em Meknès, no Marrocos, é um advogado e escritor francês. Foi, nomeadamente, o advogado da USFP e da família Ben Barka, encarregado de investigar o rapto, o desaparecimento e o assassinato do opositor marroquino e líder do Terceiro Mundo Mehdi Ben Barka. Maurice Buttin frequentou durante muito tempo os militantes de esquerda marroquinos. Além disso, apoia a causa palestiniana. É vice-presidente da Associação de Solidariedade Franco-Árabe (ASFA) de Louis Terrenoire desde 1974[6] e fundador da Associação França-Palestina, vice-presidente do Comité de Vigilância para uma Paz Real no Médio Oriente e vice-presidente das Amizades Franco-Iraquianas[7].

 

 

TODOS OS ARTIGOS de Maurice Buttin

 

Fonte: "L'échec d'une utopie, Jérusalem, capitale éternelle et indivisible d’Israël" - Madaniya

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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