Índice
Os meus anos no beco sem saída do nacionalismo ou a nação acima da
luta de classes.............................................................................................................. 8
Os meus anos no beco sem saída maoísta ou o socialismo num só país.................... 15
A crise de Outubro de 1970...................................................................................... 17
Alguns outros eventos importantes no Quebec e no mundo que me influenciaram 25
Os clandestinos dos Jogos Olímpicos de 1976......................................................... 33
Anos 89 e 90: colapsos da União Soviética e dos seus países satélites …………… 41
A luta entre a burguesia Mohawk e as burguesias canadiana e quebequenses noVerão...................................................... 42
Uma dissertação que joga a favor da democracia burguesa....................................... 43
A cimeira das Américas no Quebec em Abril de 2001.............................................. 48
Anexos
I- Posições de base do Grupo Internacional da Esquerda Comunista.................. 53
II-
O « cada um por si »........................................................................................ 56
III- O marxismo e a polícia..................................................................................... 56
IV- O terrorismo, uma arma de guerra da burguesia.............................................. 57
V- Um circo de escuridão e mentira: a Assembleia Nacional................................ 59
VI- Excerto de A Questão do sindicalismo no Québec......................................... 60
VII- Dados sobre grandes empresas do Québec..................................................63
VIII- Origem da Esquerda Comunista....................................................................... 67
IX- O proletariado da Grécia mostra-nos o caminho!............................................. 68
X- X- Crítica da brochura pelo GIGC................................................................... 70
Do nacionalismo ao internacionalismo
Esta brochura tem como objectivo comentar a minha actividade política como militante, baseando-me no meu conhecimento actual das posições da Esquerda Comunista.
Este gesto tem ao mesmo tempo o objectivo de fazer uma auto-crítica das minhas actividades passadas (por exemplo, uma crítica à corrente maoísta na qual estive envolvido durante muito tempo) e de mostrar que essas mesmas actividades eram alheias ao proletariado. De facto, escrevi sobretudo esta brochura para que jovens operárias e operários não repitam os mesmos erros e conheçam as políticas da Esquerda Comunista, o verdadeiro campo proletário. Aprender com as nossas lutas e erros do passado é um aspecto importante do marxismo.
Aqui conto a minha vida de militante, não para a destacar, mas antes para fazer um balanço crítico dos grupos e organizações políticas que estiveram no centro de grande parte da minha vida. Estes movimentos nacionalistas e/ou de esquerda desviaram e ainda desviam operárias, operários e estudantes da luta pelo socialismo e pelo internacionalismo. Parte deste texto provém de conferências feitas em 1986. Foi amplamente revisto e foram feitos acrescentos importantes com a perspectiva revolucionária da Esquerda Comunista [ver Anexo I sobre as posições de base de um dos grupos da Esquerda Comunista].
Talvez se dê importância a mais à repressão das forças policiais no texto. Mas sem querer subestimar a polícia, posso dizer que um tipo de activismo, aventureiro e desligado da classe operária, praticado entre outros por nacionalistas radicais, anarquistas e maoístas como o Partido Comunista do Canadá (marxista-leninista) (PCC (m-l)) na época, pôde aumentar consideravelmente essa repressão. No entanto, não se deve ser legalista e apenas reter que as forças policiais se mostram o braço armado da burguesia, o seu organismo de defesa diário, que será cada vez mais feroz à medida que se desenvolve a luta consciente da classe operária.
As minhas origens
Nasci em 1946 de um pai agricultor e de uma mãe operária que tinha saído da fábrica da Belding Corticelli em Pointe-St-Charles para se estabelecer na quinta do marido em Boucherville.
Como é que eu me envolvi politicamente até este ponto? É preciso saber que não nascemos revolucionários. São as condições sociais – em contraste com os problemas familiares ou psicológicos – que nos fazem tornar revolucionários. Não nego que a vida familiar possa ainda assim ter uma influência positiva ou negativa no desenvolvimento das ideias revolucionárias de uma pessoa, mas é principalmente a pertença de classe dessa família que conta.
Sendo filho de um agricultor, os estudos eram pouco importantes para o meu pai. Assim, desde o quinto ano do ensino primário, o meu pai quis-me retirar da escola para continuar a tradição familiar, apesar da oposição da minha mãe e das minhas tias Alice e Adrienne, ou seja, explorar a quinta da família e também eu me tornar agricultor. Eu gostava muito de aprender na escola e era o primeiro da turma. Eu chorava para voltar à escola no início de cada ano lectivo. Mesmo que muitas vezes faltasse nas duas primeiras semanas do calendário escolar, acabava por regressar à escola. Esta pressão do meu pai para que eu deixasse a escola persistiu até ao décimo primeiro ano (o Sec. IV hoje).
O trabalho na quinta era realmente muito duro. Eu tinha de me levantar às 6 da manhã todos os dias da semana, desde os seis anos, trabalhar do dia à noite durante todas as férias de Verão, participar na ordenha das vacas durante todo o ano e, por volta das 18h, fazer os meus trabalhos e lições, e ir cedo para a cama. Tinha muito bons resultados na escola primária e não queria tornar-me agricultor.
No início dos anos 60, as terras eram vistas do alto como diversas formas geométricas tingidas de verde. Alguns anos mais tarde, essas ricas terras agrícolas não eram mais do que tabuleiros cobertos de escamas representando empresas industriais e armazéns, percorridos por fitas de alcatrão. O desenvolvimento do capitalismo selvagem tinha feito o seu caminho. A nostalgia pela União Camponesa não me atinge, voltar atrás é impossível.
Quase todos os agricultores tinham vendido a sua quinta ou tinham sido expropriados para a construção da estrada transcanadiana. Não havia futuro para o filho de um agricultor. O meu pai tinha vendido a sua terra. Ele era um péssimo negociador perante os especuladores com o seu capital financeiro; foi o agricultor que a vendeu ao preço mais baixo. Foi por isso que teve de trabalhar como motorista de autocarro escolar até que a surdez o impediu de continuar.
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A primeira vez que ouvi falar do «comunismo» foi em 1956, durante a invasão da Hungria pelo imperialismo russo. A nossa professora, completamente dominada pela fé católica, como quase todos os francófonos do Quebec nos anos 50, aterrorizava-nos em relação aos estalinistas, que ela chamava de comunistas. Ela falava-nos do cardeal Mindszenty, condenado à prisão perpétua em 1948. Havia que desconfiar desses súbditos de Satanás, dizia ela, que podiam levar-nos directamente ao inferno. De certa forma, ela tinha razão, porque os estalinistas mantiveram gerações de operárias e operários no inferno do capitalismo de estado.
Na vida, aprendi que a nossa inteligência não é só inata; é também em grande parte adquirida, graças às nossas interacções com os outros e às contribuições das suas experiências no nosso desenvolvimento pessoal [ver Anexo II o « cada um por si »].
Então eu falava sobre a minha saída da escola com vizinhos e especialmente com duas das minhas tias, Alice e Adrienne. Menciono isso porque não agi sozinho. Na sociedade capitalista, os media destacam sobretudo a estrela, o homem ou a mulher de negócios “self made”. Formamo-nos com a ajuda dos outros: pais, amigos e membros de diferentes classes sociais. Os indivíduos podem passar de uma classe para outra. Marx e Engels, de origem burguesa, representaram a classe operária consciente. Louis Laberge, operário na Canadair, tornou-se líder da FTQ. Graças ao sindicalismo, ele passou tão bem para o campo da burguesia que recebeu elogios do mundo dos negócios e dos políticos no seu funeral de Estado.
Em 1964, começo a frequentar cursos universitários de física e o que me preocupa bastante é o início da guerra americana contra o Vietname sob a instigação de Kennedy. Ele foi o primeiro a enviar soldados para lá. Lembro-me de longas discussões com amigos, chegando a atrapalhar as aulas com os nossos comentários. No início de Agosto de 1964, dois destroyers norte-americanos que se aventuraram nas águas territoriais do Norte do Vietname sofreram disparos por parte dos norte-vietnamitas. Pelo menos, foi o que os serviços secretos americanos alegaram (as tripulações dos navios em questão mais tarde negaram a realidade dessa agressão). Este incidente no golfo do Tonquim deu ao presidente Johnson o pretexto para uma intervenção militar. Mais tarde, ele deu ordem para começar a bombardear o território do Vietname do Norte como forma de retaliação. Foi o evento que serviu de desculpa para invadir o Vietname do Sul e enviar centenas de milhares de soldados para esse país. Isso teve consequências sobre toda uma geração de militantes norte-americanos e europeus.
Devia haver eleições no Vietname em 1954 e os estalinistas de Hô Chi Min tinham fortes hipóteses de ser eleitos; por isso, os americanos ajudaram um grupo de militares do Sul a dar um golpe de estado, o que anulou as eleições. É também um exemplo da inutilidade do parlamentarismo e das eleições para a burguesia, que estão sempre sujeitos às contingências das lutas entre fracções da burguesia ou às lutas entre os imperialismos.
A guerra do Vietname foi um dos conflitos mais sangrentos que confrontou os dois grandes blocos imperialistas que dominavam o mundo nas décadas após a Segunda Guerra Mundial: os EUA e a URSS. Houve 54.000 soldados americanos e mais de 2,5 milhões de vietnamitas mortos durante esta guerra.
Isso teve consequências para mim porque foi o meu primeiro envolvimento político militante. Esta guerra durou mais de 10 anos. Caí na armadilha durante esses anos ao apoiar a luta de libertação nacional vietnamita.
A citação abaixo mostra bem a que beco sem saída as lutas de libertação nacional levam o proletariado nos países da periferia capitalista.
«
A época histórica em que as
lutas de libertação nacional podiam representar um elemento de progresso no
mundo capitalista terminou com a Primeira Guerra Imperialista em 1914. O
carácter mundial do capitalismo na época imperialista significava que a
aparente diversidade das formações sociais no mundo não era reflexo de uma
variedade de diferentes modos de produção. Assim, não há razão para que o
proletariado adopte estratégias de acção revolucionária distintas nas
diferentes partes do globo. O trabalho de Marx já tinha estabelecido a
distinção entre o modo de produção e as formações sociais que lhe correspondem
mais ou menos. A experiência histórica da sociedade de classes confirma que
diferentes formações sociais, produtos de diferentes histórias, podem existir
sob o modo de produção capitalista, mas que, no entanto, todas são dominadas
pelo imperialismo, que tira partido das diferenças nacionais, étnicas e
culturais para manter a sua própria existência. Tal como as camadas sociais e
as tradições variam em várias regiões e países, as formas de dominação política
da burguesia também variam. No entanto, em todos os casos, o verdadeiro poder
que elas representam é sempre o mesmo: o capitalismo. A ideia de que a questão
nacional permanece em aberto em certas regiões do mundo, e que, em
consequência, o proletariado pode colocar a sua própria estratégia e tácticas
em segundo plano em prol de uma aliança com a
burguesia nacional (ou pior, com uma
das frentes imperialistas), deve ser absolutamente rejeitada. Só quando o
proletariado se unir para defender os seus próprios interesses de classe é que
a base de qualquer opressão nacional será abalada. As organizações
revolucionárias rejeitam todas as tentativas que prejudicam a solidariedade de
classe vindas de ideologias de separação racial ou cultural. »
Plataforma do Bureau Internacional para o Partido Revolucionário 1997 (BIPR)1
E antes disso, em 1915, Rosa Luxemburgo tinha afirmado nas teses sobre as tarefas da social-democracia:
«Para qualquer nação oprimida, a liberdade e a
independência não podem surgir da política dos Estados imperialistas e da
guerra imperialista. As pequenas nações, cujas classes dirigentes são
brinquedos e cúmplices dos seus camaradas de classe dos grandes Estados, não
passam de peças no jogo imperialista das grandes potências e, tal como as
massas operárias das grandes potências, são usadas como instrumentos durante a
guerra para serem sacrificadas depois da guerra aos interesses capitalistas.»
O partido estalinista de Ho Chi Minh exterminou fisicamente a maioria dos militantes da oposição de esquerda internacionalista, bem como os trotskistas, e em 1945, em Saigão, ajudou os “imperialistas estrangeiros” a esmagar a Comuna Operária. Isso permitiu que o partido estalinista ficasse completamente submetido aos ditames do imperialismo russo. O proletariado e a pequena propriedade camponesa pagaram em milhões de vidas humanas os compromissos com o poder colonial francês, os nacionalistas burgueses e estalinistas. Gostaria muito de conhecer este ponto de vista da Esquerda comunista durante os anos 60 e 70. Ao nacionalismo do Vietcongue era preciso opor o internacionalismo proletário e denunciar os vários imperialismos presentes ali. No Vietname, eram principalmente os imperialistas franceses, japoneses, americanos, russos e chineses.
Em 1975, um capitalismo de estado que já existia no Norte começou a ser construído no Sul. Durante os anos 90, o capitalismo privado ganhou cada vez mais importância. A classe operária vietnamita pagou e continua a pagar um preço muito alto pelo nacionalismo desses dirigentes estalinistas.
De 1964 até ao final dos anos 70, para além da guerra do Vietname, vários acontecimentos influenciaram-me. Aqui estão alguns deles:
De 1959 a 1963, houve uma luta entre os diferentes partidos estalinistas nos países supostamente comunistas; houve uma cisão entre a China e a Albânia, por um lado, e a URSS, por outro. Dois destes países chegaram mesmo a entrar em conflitos armados: a China e a URSS. Esta última cessou as suas relações diplomáticas com a China e a Albânia. Na URSS, tal como na China e na Albânia, predominava o capitalismo de Estado, mesmo que, em palavras, os dirigentes se afirmassem socialistas ou comunistas. Naquela altura, eu não sabia nada sobre a Esquerda comunista e nem sequer sobre a sua existência.
Em 1966 começa a revolução cultural na China, liderada por Mao Tsé-Tung, que pôs em marcha milhões de jovens chineses para supostamente « mudar » a sociedade. Na realidade, era para consolidar o poder estalinista de Mao.
«Este evento deu origem a uma das piores falsificações da História, na qual participaram com um raro fervor os ideólogos burgueses de todos os lados. Movido por uma incrível sede de poder, Mao ia jogar em dois tabuleiros. Por um lado, apoiava-se nos quadros de um exército habilmente reorganizado pelo ministro da Defesa pró-maoísta, Lin Biao, em função do golpe de Estado previsto, e amplamente instruído pelo “Pequeno Livro Vermelho”; por outro lado, apelava à formação dos famosos “Guardas Vermelhos”, recrutados entre as camadas da pequena burguesia estudantil, excitada e seduzida por cargos no Estado. Estas duas forças irão confrontar-se cada vez mais directamente, arrastando grandes fracções do proletariado, mergulhando todo o país na guerra civil e na miséria, num caos indescritível, que era exactamente o objectivo procurado por Mao para culpar os dirigentes e tirar proveito de tudo. É exactamente isso que ele fará, aliás, depois de três anos de horrores sob a direcção do "grande timoneiro", de massacres na população, de purgas massivas no PCC, até ao seu regresso ao poder em 1968, que marcará a sentença de morte física para esses "Guardas Vermelhos" que tinham sido enganados pelo seu slogan "Não te esqueças da luta de classes". O número de mortos resultante dos combates e da fome é incalculável. Mas, centenas de milhares, avançados como cifra pelos media ocidentais, Mao, com um cinismo completo, dirá ele próprio no fim da sua vida que estavam muito aquém da realidade! » Excerto do nº 269 de Junho de 1997 da Révolution Internationale da Corrente Comunista Internacional (CCI).
Em 1967, Che Guevara é capturado e executado na Bolívia. O seu «internacionalismo» não tinha nada a ver com o internacionalismo proletário, que é a abolição das fronteiras e das nações. Guevara e Castro promoveram o slogan nacionalista «A pátria ou a morte», o que está em completa contradição com a afirmação marxista «Os proletários não têm pátria».
Em 1968, a URSS invade a Checoslováquia. Um movimento nacionalista anti-imperialista russo é esmagado.
No mesmo ano, houve Maio de 68 em França com, por um lado, o movimento estudantil e a sua ideologia pequeno-burguesa e, por outro, a entrada em cena da classe operária com 10 milhões de grevistas. Um fenómeno nunca visto nos últimos 40 anos.
Nos Estados Unidos, durante os anos 60 e início dos anos 70, também houve a revolta dos negros um pouco por todo o território americano, com cidades americanas a arder. Tanques da guarda nacional percorriam as ruas dos bairros negros de Chicago e Detroit para esmagar as revoltas dos negros. Era uma luta pela igualdade entre negros e brancos.
Um grupo, os Black Panthers, defendia a luta armada como única forma de se defender contra a repressão policial. As forças policiais americanas, incluindo o FBI, eliminaram fisicamente vários membros dos Black Panthers.
Um grupo de jovens brancos, filhas e filhos da burguesia americana, os The Weathermen, cometeram atentados durante os anos 1970 contra bases e centros de recrutamento militar americanos. Os The Weathermen eram uma organização terrorista americana criada em 1969 e baseada na idéia de um comunismo mundial emergente do terceiro-mundo, mais do que da classe operária.
A 4 de Maio de 1972, o exército americano matou quatro estudantes que se opunham à guerra do Vietname no campus da universidade de Kent.
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Após a morte de Maurice Duplessis em 1959, testemunhou-se no Quebec a 'revolução' tranquila, o surgimento de um nacionalismo mais populista, mais enganador. Esta 'revolução' tranquila foi uma reorganização importante das relações capitalistas ao nível do Estado que ajudou a burguesia quebequense a desenvolver-se, com o Estado a colmatar a falta de capitais dos capitalistas quebequenses. A Société générale de financement e a Caisse de dépôt et de placement foram criadas principalmente para este fim. Da mesma forma, para servir esta classe exploradora, também foram necessários ajustes na educação e nas relações laborais. É neste novo terreno de exploração da classe operária que o movimento nacionalista se desenvolveu, chegando até à tese da soberania-associação proposta pelo PQ, associação, claro, com os capitalistas das outras províncias. Na realidade, é um projecto de renegociação da constituição canadiana que daria mais espaço à burguesia quebequense.
Houve a Expo 67, as acções terroristas do FLQ que culminaram com a crise de Outubro de 70, múltiplas manifestações pelo direito de trabalhar em francês, sendo a mais importante a McGill francesa. Estas manifestações, tal como a acção do FLQ, reflectiam a acção ideológica da pequena burguesia e de uma fracção da grande burguesia.
Até ao início dos anos 60, era impossível ser atendido em francês em Montreal. Em alguns lugares na zona oeste da cidade, tanto a empregada francófona quanto o cliente tinham de falar um com o outro em inglês. Para conseguir emprego, os proletários francófonos tinham muitas vezes de ser bilingues, mesmo para trabalhar como varredor na cidade de Montreal. Na Universidade de Montreal, universidade francesa, nas ciências, 80% do material estava em inglês, sem contar alguns cursos.
Durante os meus estudos universitários, eu ia a debates ao almoço. Todos os políticos da burguesia vinham dar a sua volta: Jean Lesage, primeiro-ministro, René Lévesque, ministro liberal dos recursos naturais, François Aquin, que tinha saído do partido liberal e foi o primeiro deputado independentista, Jean Chrétien, Doris Lussier para espalhar a ideologia dominante. Essa ideologia dominante era a forma de pensar dos políticos no âmbito dos partidos políticos da burguesia e do parlamentarismo, com o objectivo de modernizar o Estado capitalista quebequense. Todos esses debates ao almoço eram temperados com uma pitada de nacionalismo canadiano ou quebequense, dependendo do político convidado.
Os meus anos no beco sem saída do nacionalismo quebequense ou a nação
acima da luta de
classes
A 24 de Julho de 1967, eu trabalhava na Exposição Universal. Estava um dia muito bonito naquela manhã e vários pavilhões reflectiam a luz do sol como gigantescos espelhos. Depois de sair do metro, com o meu passe de empregado, dirigi-me para o pavilhão onde trabalhava como «bus-boy». No dia anterior, o general De Gaulle tinha lançado o seu grito da câmara municipal de Montreal "Viva o Quebec livre!". De Gaulle mostrava-se como o fiel representante do imperialismo francês em concorrência com o imperialismo canadiano e americano; queria assim colocar as suas peças ao lado da burguesia nacionalista do Quebec.
Andava assim livremente antes de começar o trabalho e chegava perto do pavilhão da França, pavilhão que agora se tornou um lugar onde se vende caro o sonho: o Casino de Montreal.
Estava na rectaguarda de uma fila de agentes da RCMP que bloqueava o acesso a uma ponte que me deveria levar ao trabalho. O meu trabalho começava ao meio-dia e chegaria atrasado se passasse por outro caminho. O patrão não aceitava nenhum atraso. Decidi, bem audaciosamente, afastar os polícias por trás, dizendo a mim mesmo que a multidão à frente deles os afastaria e que eu poderia passar. Para meu grande espanto, vários dos polícias lançaram-se sobre mim enquanto deixavam passar alguns dos manifestantes nacionalistas. Isso resultou numa noite na prisão, onde pude constatar pessoalmente que as prisões eram masmorras para proletários, jovens ou velhos. Duas semanas depois, fui absolvido porque tinha sido acusado de «perturbar a paz»; porém, eu não tinha gritado, só tentei passar através de um cordão de polícias.
Esta estadia forçada na prisão pôs-me em contacto com nacionalistas. Alguns meses mais tarde, em Janeiro de 1968, tornei-me membro da Rassemblement pour l’Indépendance Nationale liderado por Pierre Bourgault (RIN). Este partido, para além da independência do Quebec, defendia também várias nacionalizações como a Bell Telephone. Para mim, as nacionalizações eram socialismo. Ainda não tinha percebido que o Estado não é neutro, é sempre o instrumento de dominação de uma classe social sobre outra.
Um dos fundadores do socialismo científico, Engels, tinha escrito «…nem a transformação em sociedade anónima, nem a transformação em propriedade do Estado eliminam a qualidade de capital das forças produtivas. Para as sociedades anónimas (e os trusts), isso é evidente. E o Estado moderno não é, por sua vez, senão a organização que a sociedade burguesa se dá para manter as condições externas gerais do modo de produção capitalista contra invasões vindas tanto dos operários como de capitalistas isolados. O Estado moderno, seja qual for a sua forma, é uma máquina essencialmente capitalista: o Estado dos capitalistas, o capitalismo colectivo em ideia. Quanto mais ele faz passar forças produtivas para a sua propriedade, mais se torna capitalista colectivo na prática, mais explora cidadãos. Os operários continuam a ser assalariados, proletários. A relação capitalista não é suprimida, pelo contrário, é levada ao seu extremo.» O Anti-Dühring.
O programa do RIN apenas respondia aos interesses da pequena-burguesia e da fracção ascendente da burguesia quebequense ávida de capital. O Estado revelou-se o instrumento ideal para o fornecimento de capital a esta burguesia em ascensão.
Em 24 de Junho de 68, participei nos distúrbios do «segunda-feira do cacetete» durante a parada nacionalista de São João Baptista contra o futuro Primeiro-Ministro canadiano Pierre-Elliot Trudeau. Por sorte, não fui preso, embora tivesse havido 290 detenções.
Durante o Verão de 68, trabalhei na Régie des alcools (a SAQ). Mal tinha passado um mês desde que fui contratado, uma greve foi declarada pelo sindicato. Essa greve durou seis meses sem que o sindicato (CSN) propusesse uma greve de solidariedade com outros operários.
A invasão da Tchecoslováquia pelas tropas do imperialismo russo apenas me confirma a minha opinião de que a URSS não é um país socialista.
Em 1969, ouço com interesse a rádio que anuncia os atentados à bomba da Frente de Libertação do Quebec (FLQ). Os seus alvos já não são apenas anglófonos como antes, mas agora incluem mais lugares como a Bolsa de Montreal.
As acções de minorias armadas e/ou o terrorismo jogam sempre a favor da política da burguesia, independentemente de quem as utilize. Assim, a acção do FLQ permitiu a um partido burguês como o PQ erguer-se como defensor pacífico das instituições estabelecidas, por um lado, e, por outro lado, ao Estado intensificar a sua repressão contra aqueles que não tinham nada a ver com o FLQ. A acção do FLQ, mesmo havendo alguns operários no seu seio, não reflectia de forma alguma um início de consciência de classe revolucionária, mas sim um populismo operário. O facto de membros do FLQ terem podido treinar em campos na Argélia e na Jordânia mostra que eram brinquedos inconscientes das contradições inter-imperialistas. Os meios de comunicação denunciavam hipócritamente a violência do FLQ. Esqueciam e esquecem ainda muito facilmente o grande número de operários mortos ou feridos no trabalho. Segundo dados recolhidos pela Associação das Comissões de Acidentes de Trabalho do Canadá, 1 055 mortes relacionadas com acidentes de trabalho foram registadas no Canadá em 2007, o que representa um aumento de 50 por cento em relação a 1996, ano em que foram registadas 703 mortes.
Em Fevereiro de 1969, estudantes da Universidade Sir Georges William (que se tornou Concordia) ocuparam a universidade durante doze dias para denunciar o racismo dentro das suas paredes. Em Março, uma manifestação pelo McGill francês mobilizou entre 15 000 a 20 000 pessoas. O cégep Maisonneuve foi ocupado pelos estudantes. Em Junho, realizou-se uma operação anti-congresso da União Nacional no Quebec. A 24 de Junho, durante o desfile nacionalista do Dia de São João Baptista, um símbolo foi demolido. Colocamo-nos no fim do desfile, atrás do último carro alegórico, aquele com a estátua de papel machê de São João Baptista. Quando digo ‘nós’, é o gangue da Margem Sul… Os Rose, Francis Simard, etc., filhos de operários ou agricultores. Esta estátua substituía a criança que representava São João Baptista acompanhado do seu carneiro. Esta criança e o seu carneiro tinham sido raptados porque se acreditava que, para as elites do Québec, sobretudo religiosas, o carneiro simbolizava a submissão dos operários quebequenses. Por isso, inverte-se o símbolo nacional e destrói-se a estátua. Nós destruímos outro símbolo de submissão. A manifestação que se seguiu, no entanto, continuou a «tradição» de partir vidros, especialmente de lojas exclusivamente em inglês. Sempre que havia uma manifestação com mais de 1 000 pessoas era sempre a mesma «tradição» e não me lembro de manifestações com menos de 1 000 pessoas. Obviamente, eu participava dessas manifestações.
Demorou vários anos até que essa parada nacionalista voltasse à rua Sherbrooke.
Durante o Inverno e a Primavera de 69, eu era professor do secundário e muitas vezes tinha dificuldade em dar as minhas aulas porque passava parte da noite a preparar folhetos ou a colocar cartazes por todo o lado.
No Verão de 69, muitos jovens desempregados e estudantes não sabiam onde passar as férias e a Gaspésie era a resposta do momento. Esses jovens desempregados e estudantes encontravam-se na Maison du Pêcheur em Percé, criada pelo grupo da Rive Sud. Podiam ficar lá por quase nada e visitar a Gaspésie. Este lugar também foi um centro de recrutamento para o FLQ. A polícia local, para os expulsar, molhou os residentes da Maison du Pêcheur com água fria do mar. Lembro-me das viagens que fazíamos para lá: Montreal-Percé numa só viagem e vice-versa. Uma dessas viagens marcou a minha memória quando voltávamos a Montreal: a partir de Amqui, tínhamos pintado a palavra STOP e todos os sinais bilíngues ou apenas em inglês. O nosso nacionalismo québécois levou-nos a remover todas as bandeiras canadianas que tínhamos visto ao longo do caminho. O meu carro estava cheio delas... Ignorantes como éramos, nós nem sabíamos que a palavra STOP era francesa desde 1792.
Em Setembro de 69, tive que tomar uma decisão política importante. Os meus amigos, a gangue da Rive Sud, ainda não eram felquistas, mas eu sabia que se permanecesse na região metropolitana, acabaria por me tornar membro, não tanto por convicção, mas mais por amizade ou pela pressão dos meus pares. Seria obrigado indirectamente.
Sendo professor, o meu sindicato decidiu enviar cartas de demissão como forma de pressão durante as negociações. É preciso admitir que, como forma de pressão, não era a mais eficaz e também não era uma acção muito mobilizadora. Então, enviei rapidamente a minha carta de demissão e, poucos dias depois de a ter enviado, o sindicato avisou-me, com atraso, que esse meio de pressão tinha sido retirado. Como a minha carta já tinha sido enviada, encontrei-me sem emprego. Casei-me e voltei a estudar na universidade de Sherbrooke para iniciar um mestrado em física.
Cerca de três semanas depois da minha chegada a Sherbrooke, comecei a militância no Comité de Acção da Liga de Integração Escolar, o CALIS. Apesar de todas as minhas acções políticas, ainda ia à missa e, poucos minutos antes do fim deste rito religioso de outro tempo, distribuía folhetos em francês no Quebec e colocava-os nos pára-brisas dos carros.
Em Outubro de 69, 200 mulheres manifestaram-se contra o regulamento anti-manifestações aprovado pela administração do prefeito Drapeau. O objectivo deste regulamento era conter qualquer movimento de contestação em Montreal. 165 das 200 mulheres presentes foram presas. Também se realizou uma manifestação importante dos taxistas contra o monopólio Murray Hill. Em Novembro, também houve manifestações pela libertação de prisioneiros políticos. E na mesma linha, mesmo que seja em Janeiro de 70, organizei uma manifestação em Lennoxville, perto de Sherbrooke, contra a universidade anglófona com o slogan «Universidade Bishop para os operários ».
Este activismo dos anos 60, esta ação para «fazer alguma coisa» sem pensar, é geralmente perpetuado por anarquistas ou activistas revolucionários. Através destas acções, a experiência das lutas revolucionárias da classe operária mundial é rejeitada e até caricaturada. Um exemplo desta ignorância completa do marxismo é a seguinte citação retirada do livro de Francis Simard Para acabar com Outubro: «Nós éramos contra as discussões teóricas sobre uma vírgula ou uma frase da crítica do programa de Gotha por Marx». Esta ausência ou desrespeito pelas conquistas práticas do proletariado levou os militantes dos anos 60 à morte política e à desocupação. Muitos anarquistas no início dos anos 2000 encontraram-se na mesma situação. Eles lembram-me aquelas galinhas, na quinta da família, cuja cabeça eu tinha de cortar para o jantar. Elas continuavam a andar sem cabeça. Esses activistas, tal como alguns anarquistas, lançavam-se em todo o tipo de actividades ou manifestações sem fazer o balanço das suas acções. Isso era verdade nos anos 60 e continua a ser nos anos 2000 com as manifestações repetidas que mobilizam cada vez menos participantes contra as cúpulas económicas. Um partido revolucionário internacional, uma 'cabeça', eles não precisam disso e lançam-se aqui e ali em acções políticas que os atiram directamente para a panela do reformismo. Eles repetem os mesmos erros há anos.
Durante a organização das manifestações, havia sempre duas tendências políticas, mas realmente nenhuma revolucionária. Por exemplo, durante a manifestação McGill Français, alguns organizadores promoviam o slogan « McGill francês » enquanto outros promoviam « McGill para os operários ». (Eram estes últimos que eu apoiava, mesmo sendo membro do partido quebequense no distrito de Taillon desde Fevereiro de 69). Eu qualificaria estes últimos como de esquerda capitalista, pois apesar de tomarem o “lado” dos operários, o seu ponto de vista estava limitado à reforma de uma universidade sem atacar os próprios fundamentos da sociedade capitalista como um todo e sem uma perspectiva internacionalista proletária.
Lembro-me de uma reunião preparatória para esta manifestação, que teve lugar nas velhas instalações do cégep do Velho Montreal na rua Sherbrooke. Havia pessoas de vários grupos, de tendência esquerdista e/ou nacionalista. Durante o encontro, que teve lugar no auditório, algumas pessoas repararam que a polícia nos filmava a partir do camarim do projector. Mario Bachand (foi assassinado em Paris em circunstâncias nebulosas nas quais o RCMP esteve envolvido) interveio para proteger os polícias porque vários dos rapazes e raparigas presentes queriam atacá-los e dar-lhes uma surra. No entanto, destruímos o filme deles. No dia seguinte, Mario Bachand, um dos organizadores da manifestação, foi espancado pela polícia e esteve preso alguns dias. Eu conto este incidente para mostrar que nunca se deve confiar nas autoridades policiais, eles são sempre os defensores do sistema capitalista, quer você os defenda ou não um dia, eles só serão fiéis à burguesia. [Ver anexo III Marxismo e polícia.] Esta manifestação, como era a «tradição das manifestações em 68-69», era mais ou menos pacífica. Fomos até à Universidade McGill e depois dispersámo-nos seguindo o percurso habitual, ou seja, a rua Sherbrooke em direcção ao Oeste e a rua Sainte-Catherine Oeste. Tínhamos connosco cocktails molotov e pedras. As montras do Banco Real foram quebradas como de costume. Nesta manifestação, como na anterior, houve sempre mais de cem detenções e feridos: cerca de quinze manifestantes e dois a três polícias. Essa era a «tradição das manifestações em 68-69». Partias para uma manifestação, não sabias quando voltarias, e se alguma vez voltasses sem problemas, cheiravas sempre a gás lacrimogéneo. Tive sorte na manifestação da McGill porque não fui preso.
Em Junho, o partido da União Nacional realiza o seu congresso no Quebec. Este partido está no poder com Jean-Jacques Bertrand, primeiro-ministro. Nós estamos a organizar uma manifestação. Quando digo nós, é mais uma vez o grupo da Rive-Sud… Todos nós estávamos no Partido Quebequense não porque concordássemos com este partido, mas mais porque era um ponto de encontro. Tínhamos deixado o RIN que, no seu último congresso, tinha votado a sua dissolução no Outono de 68, convidando os seus membros a juntar-se ao PQ. Para mobilizar o maior número de pessoas possível para a manifestação no Quebec, era necessário colocar cartazes em Montreal. Não tínhamos dinheiro como os partidos políticos e muito menos como as agências de publicidade que poluem a cidade com os seus anúncios a incitar-nos a consumir. Portanto, sem dinheiro para anúncios nos jornais… E recordemos que afixar cartazes é proibido. Então formámos várias equipas para patrulhar o centro da cidade e os bairros operários durante a noite. A minha equipa, ou seja, o Paul Rose e eu, colávamos os nossos cartazes para convidar os operários e estudantes a virem protestar no Quebec. Eu tinha de dar aulas de manhã, mas infelizmente fomos apanhados pela polícia perto da loja Morgan, perto da rua Sainte-Catherine, às três e meia da manhã.
Um carro parou ao nosso lado: eram polícias à civil. Eles saíram com as suas espingardas e gritaram-nos «Mãos ao alto!». Ao levantar as mãos, todos os cartazes escondidos debaixo do meu casaco caíram no chão. Agora tinham provas. O juiz condenou-nos a pagar 7$ (equivalente a 50$ hoje). Mesmo assim, passámos quase um dia detidos.
Há uma tradição nacionalista de que infelizmente me lembro. É a comemoração da rebelião de 37-38 que se chama Festa dos Patriotas. Um ano, para essa comemoração, o gangue da Margem Sul decidiu fazer uma acção para essa festa. Tínhamos feito stencils, um stencil por letra, para formar Quebec Livre. Então, durante a noite anterior à comemoração de domingo, de Chambly até Saint-Denis-sur-le-Richelieu, imprimimos no asfalto «Quebec Livre». No camião, cada rapaz e cada rapariga tinha a sua letra; um carro à frente e outro atrás para a vigilância. Fazíamos isso a cada três ou quatro quilómetros até Saint-Denis-sur-le-Richelieu. Infelizmente, esse slogan nacionalista demorou mais de dois anos a ser completamente eliminado da estrada.
Na Primavera de 1969, saí do PQ por causa da corrupção que já começava a instalar-se nesse partido burguês. Convencemos Pierre Bourgault, antigo líder do RIN, a ser candidato no concelho de Taillon. Os ex-membros do RIN eram muito mal vistos nesse partido. Havia também um tipo, antigo membro do RIN, que queria ser candidato do Partido Quebequense no mesmo concelho. Estava a ser preparada uma convenção para escolher o candidato oficial do partido para o concelho. Esse candidato tinha ligações com a máfia da Rive-Sud. O número de membros aumentava todos os dias; residentes de Montreal com moradas falsas faziam-se passar por habitantes da Rive-Sud. Provámos tudo isso a Camille Laurin e ao conselheiro político de René Lévesque, Jean-Roch Boivin. Isso não deu em nada, disseram-nos que eles estavam a jogar o jogo eleitoral. Foi então que percebemos que as manobras eleitorais eram normais para esses políticos burgueses. Então houve uma assembleia. Camille Laurin presidiu essa assembleia, que teve lugar num porão de igreja em Ville Jacques-Cartier (agora Longueuil), e a máfia local estava lá com os seus seguranças. Fomos expulsos da assembleia (o gangue da Rive-Sud) pelos capangas da máfia, à vista e ao conhecimento de Camille Laurin, que não reagiu de todo. Gritámos contra o gangue de bandidos que estava lá. Segundo algumas pessoas que ficaram, a assembleia decorreu depois de forma totalmente normal. O que fez com que um grande número de membros do condado de Taillon tivesse abandonado o partido.
Nas eleições de Abril de 70, houve dois candidatos do PQ: o candidato oficial do PQ e outro candidato do PQ, mas não reconhecido pelo partido. O candidato oficial do PQ foi apoiado pela máfia local, que o abandonou quinze dias antes das eleições porque ele já não tinha dinheiro. A máfia local apoiou então a União Nacional. O candidato liberal acabou por ser eleito. Já não tínhamos muitas ilusões sobre o PQ, mas isto foi a cereja no topo do bolo.
A luta dos taxistas contra Murray Hill
Em Outubro de 69, os polícias de Montreal estavam em greve. Os taxistas eram muito militantes porque lhes tiravam o sustento pelo monopólio Murray Hill no aeroporto de Dorval (agora chamado aeroporto Pierre-Elliot-Trudeau). Eles protestavam frequentemente contra esta empresa. Então aproveitaram o ataque das forças repressivas para ir manifestar-se em frente à garagem da empresa. Os manifestantes empurraram um autocarro da empresa, em chamas, em direcção às portas da garagem. Os guardas de segurança da empresa dispararam contra os manifestantes, matando um deles… Ironia do destino, era um polícia infiltrado entre os manifestantes. Houve manifestantes que foram alvejados e gravemente feridos, entre eles Jacques Lanctôt e Marc Carbonneau. Eu não estava lá, estava em Sherbrooke como um tigre enjaulado… O tempo de chegar a Montreal em uma hora e meia e estaria tudo acabado. Durante a noite, devido ao pedido do prefeito Drapeau, o exército chegou para substituir os polícias que estavam sempre ao ataque. Foi como um ensaio para Outubro de 70.
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O movimento pelo direito de trabalhar em francês e de ter serviços em francês nos comércios era sempre muito forte. Claro, muito poucos militantes faziam a ligação com a luta contra o capitalismo. Os empresários anglófonos, com a cumplicidade de empresários francófonos e de políticos ao seu serviço, não faziam nada para que isso mudasse. Esta luta era sempre rigidamente controlada por grupos nacionalistas de esquerda ou de direita que não faziam qualquer ligação com uma luta anti-capitalista da classe operária. Outras manifestações tiveram lugar em diferentes cidades do Quebec pela libertação dos felquistas Vallières e Gagnon. Chamava-se Operação Libertação porque estes dois felquistas estavam na prisão há três anos sem qualquer acusação. Nós pedíamos a sua libertação. Dez mil pessoas manifestaram-se em Montreal gritando «SOS FLQ». Muitos tinham entendido que não era através de petições que a sua libertação seria obtida.
Em Janeiro, organizo uma manifestação contra a universidade anglófona Bishop nos subúrbios de Sherbrooke. A nossa agitação foi, portanto, baseada no lema « Bishop's é o nosso dinheiro, tem de desaparecer, é inútil. » Distribuímos panfletos e colamos autocolantes pela cidade. A manifestação ocorre a 29 de Janeiro e estavam –25 °C. Cerca de 75 pessoas aparecem em frente à universidade Bishop, com mais de trezentos estudantes anglófonos à nossa espera. A polícia está presente, à espera de uma batalha entre os dois grupos.
Naquela altura, havia dois maoístas em Sherbrooke e, durante uma assembleia preparatória para essa manifestação, um deles tinha-me denunciado publicamente como um reaccionário. Isso abalou-me, eu que me considerava um tipo de esquerda, ser chamado de reaccionário que tentava dividir francófonos e anglófonos, operários francófonos e operários anglófonos. Durante a manifestação, um desses dois militantes, Lori Rice, impediu que os estudantes anglófonos nos atacassem. Nessa altura, comecei a colocar-me sérias questões sobre o nacionalismo, sobre para onde conduzia a luta pela defesa do francês sem fazer distinções de classes sociais. Foi a partir dessa época que me tornei simpatizante de um grupo maoísta (de Março de 1970 até o Verão de 71). É preciso estar “ao serviço do povo”, diziam-me os dois jovens estudantes maoístas. Para um jovem como eu, que tinha recebido uma educação judaico-cristã, era muito motivador.
Esta palavra povo, muito usada pelos esquerdistas, tal como as palavras nação e cidadão, carregava uma ambiguidade que escondia as classes sociais e o que era ainda mais importante, era que este termo deixava de lado o papel histórico revolucionário da classe operária.
Os meus anos no beco sem saída maoísta ou o socialismo num só país
Antes de falar sobre esse período maoísta da minha vida, gostaria de citar um texto da Esquerda Comunista sobre o maoísmo.
«O maoísmo não tem nada a ver, nem com o marxismo, nem com a classe operária. A facção de Mao só assumiu o controle do Partido Comunista Chinês depois dos massacres de operários em Xangai e Cantão em 1926-1927. Mao fundou o PCC sobre o «bloco das quatro classes», e a sua tomada do poder na China em Outubro de 1949 não foi uma Revolução proletária. O que Mao fez foi copiar os aspectos brutais da planificação do capitalismo de Estado estalinista e instituiu um regime arbitrário que resultou em milhões de mortes (mais de trinta milhões de mortes, só durante o «Grande Salto em Frente» de 1958.)
A partir do final dos anos sessenta, o maoísmo afirmou-se como uma corrente marxista e fez algumas incursões no meio pequeno-burguês estudantil das metrópoles. Aqui, como na periferia do capitalismo, os maoístas, enquanto lutavam por estabelecer o seu lugar na ordem imperialista, incentivaram os seus apoiantes a comportarem-se como intermediários da classe dominante chinesa. Na Ásia, África e América do Sul, os seus aderentes juntaram-se às facções armadas que apoiavam os movimentos de libertação nacional e/ou os senhores da guerra da Esquerda democrática, enquanto as facções da burguesia disputavam a partilha do bolo capitalista. Por sorte, as contorções e as viragens dos líderes chineses e dos seus apoiantes tornaram-nos cada vez menos credíveis nos seus esforços para apresentar as suas posições políticas como provenientes de uma abordagem marxista.
Trotsky e Trotskysmo4, publicado pelo Communist Workers Organisation.
Então, criámos um jornal estudantil no campus da Universidade de Sherbrooke. Chamava-se L'Estrien Rouge. Réal Caouette, deputado creditista, acabou por nos fazer publicidade sem querer. Quando saiu o primeiro número, Caouette denunciou-o na Câmara dos Comuns em Ottawa. A nossa tiragem subiu, como é óbvio, até às 650 cópias por mês. Mas, no fundo, a grande vencedora desta publicidade involuntária foi a própria burguesia, que conseguiu fazer acreditar mais uma vez que os maoístas eram comunistas. No primeiro número, denunciávamos Marc-André Lavallée, que queria concorrer como candidato do Parti Québécois em Sherbrooke na convenção. Ele tinha estado em conluio com uma empresa americana, Corning Glass, porque trabalhava no Centre Hospitalier de l'Université de Sherbrooke (CHUS). Por isso, não se apresentou à convenção. E nós tínhamos, sem querer, participado no circo eleitoral.
Durante uma pequena manifestação em Ottawa, o grupo de maoístas – que mais tarde se tornou o PCC (m-l) – protestava contra a agressão americana no Vietname. Durante uma hora, passeámos em frente à embaixada americana protegida por soldados. Divertíamo-nos em passar-lhes os nossos cartazes a vinte centímetros do nariz. Por outro lado, ao mesmo tempo e no mesmo local, neo-nazis manifestavam-se para apoiar a agressão americana. Estes neo-nazis procuravam claramente a confusão e – com a ajuda da polícia (sic !) –acabaram por se precipitar sobre nós numa notável altercação. Resultado: houve treze detenções entre cerca de cinquenta manifestantes. Aqueles que ficaram decidiram ir manifestar-se em frente à embaixada soviética porque a URSS e os Estados Unidos eram duas potências imperialistas. Para o PCC (m-l), a URSS só era uma potência imperialista desde a chegada ao poder dos “revisionistas” com o Khruschev. Segundo eles, a URSS sabotava a luta do povo vietnamita contra o imperialismo americano, enquanto a China “socialista” estava do lado do povo. A realidade era muito diferente, era uma guerra entre potências imperialistas, incluindo a China, à custa dos proletários e camponeses vietnamitas.
Os manifestantes detidos em frente à embaixada americana foram condenados a dois meses de prisão, incluindo Lori Rice, um dos maoístas de Sherbrooke. Eles até fizeram uma greve de fome de cerca de vinte dias. Claro que estes militantes, conscientemente ou não, estavam a jogar para o imperialismo chinês em ascensão.
Incansavelmente, a guerra do Vietname continuava. Então, um país vizinho que na altura era «neutro», o Camboja, foi vítima de um golpe de estado organizado com a ajuda dos serviços secretos americanos. A partir daí, três tipos de guerra decorriam simultaneamente na Indochina: uma guerra inter-imperialista no Vietname, principalmente conduzida por soldados americanos; uma no Camboja, onde se enfrentavam vietnamitas pró-americanos e cambojanos; e, finalmente, uma guerra no Laos fomentada pela CIA. Portanto, três tipos de guerras que cinco anos mais tarde levaram à vitória do imperialismo russo sobre o imperialismo americano no Vietname e no Laos, e à vitória do imperialismo chinês no Camboja.
Mao, com a sua estratégia para reforçar o imperialismo chinês, fez uma declaração em Maio de 70 que pedia « aos povos de todo o mundo que se unam para derrubar os agressores americanos e os seus lacaios ». Nunca poderemos sublinhar isto o suficiente: o chamado internacionalismo maoísta não é o internacionalismo proletário; pior, é contrário aos verdadeiros interesses do proletariado. Na prática, ele pedia às burguesias dos países da periferia capitalista e a outras potências imperialistas que o apoiassem na sua luta para consolidar o capitalismo de Estado chinês. É isto que Mao quis dizer no seu discurso «povos de todo o mundo».
Em Sherbrooke, o nosso pequeno grupo de maoístas decidiu colocar cartazes a relatar esta declaração. Portanto, íamos colocando os nossos cartazes enquanto nos deslocávamos com o meu velho Renault que já não tinha marcha-atrás. Formámos uma equipa de três pessoas para fazer isso.
Enquanto eu colocava um cartaz (ainda durante a noite) na sede do PQ e perguntava se o cartaz estava bem colocado, ouvi um "sim" vindo de uma voz que eu não reconhecia. Viro-me e vejo que estava frente a um polícia. Tivemos três atitudes diferentes: o maior dos três, um tipo que parecia muito robusto, começou por lamentar-se, depois declarou-se culpado e foi multado; o meu companheiro Mo declarou-se inocente e foi absolvido; quanto a mim, nunca me apresentei no tribunal.
Em Julho de 70, dei a volta a alguns países da Europa, aproveitando algumas ocasiões para visitar maoístas de quem tinha o contacto. Em França, Itália, Alemanha e Bélgica, consegui encontrar directamente alguns militantes maoístas. Em França, encontrei um quebequense, membro de um dos muitos partidos « comunistas ». Na altura, havia dois partidos « comunistas »: um pró-soviético, o PCF, e um pró-chinês declarado ilegal desde Junho de 68. O quebequense era membro deste último partido. A literatura produzida por este partido maoísta era proibida e ele distribuía um jornal, a Humanité Rouge, em papel azul. Durante esta viagem, trouxe para o Canadá uma mala cheia de propaganda maoísta em várias línguas. Infelizmente, hoje pergunto-me quantos militantes ingénuos e ignorantes foram recrutados, assim como eu, para estas organizações ao serviço do capital!
Em Agosto de 70, de volta a Montreal, eu trabalhava como técnico químico. Durante esse mês, revi os irmãos Rose e Francis Simard. Era óbvio para mim que, se eles não eram membros do FLQ, estavam muito próximos disso. Nós brigámos bastante sobre a acção terrorista, sobre o que ela representava teoricamente para o proletariado, obviamente sem entrar em nenhum detalhe técnico, especialmente sobre os sequestros. Eu achava que sequestros não dariam resultado e que, de qualquer forma, seriam substituídos por outros iguais ou piores. [Ver Anexo IV O terrorismo, uma arma de guerra da burguesia]. Ficámos nesse debate fundamental para a classe operária: revolução internacional proletária ou acções burguesas: terrorismo e sequestro.
A crise de Outubro
A 5 de Outubro, ocorreu o sequestro de James Richard Cross, alto funcionário britânico. A 8 de outubro, houve a difusão do manifesto do FLQ pelas ondas de rádio.
A 10 de Outubro, o governo de Robert Bourassa recusa qualquer negociação.
Uma hora mais tarde, em St-Lambert, é o sequestro de Pierre Laporte pela célula Chénier dos irmãos Rose, Francis Simard e Bernard Lortie.
Os últimos pedidos do FLQ eram a leitura do manifesto e a reintegração dos 66 trabalhadores da Lapalme que ainda lutavam para recuperar os seus empregos. Tratava-se de 450 camionistas da empresa privada Lapalme, a quem o governo federal tinha retirado um importante contrato de transporte postal. Eram trabalhadores que tinham sido despedidos de forma injusta pelo federal sem qualquer compensação. A libertação dos prisioneiros políticos tinha sido abandonada. Mas estes novos pedidos eram ainda demasiado para o Estado federal.
A 15 de Outubro, à noite, enquanto o exército estava nas ruas, o governo do Québec rejeitou as condições do FLQ e ofereceu a libertação condicional de cinco presos políticos, permitindo ao mesmo tempo que os sequestradores saíssem do país. Bourassa pediu a Ottawa para invocar a Lei de Medidas de Guerra. No dia seguinte, pela primeira vez no país, o primeiro-ministro do Canadá, Pierre Elliot Trudeau, proclamou a Lei de Medidas de Guerra em tempo de paz. Estes dois sequestros deram ao Estado a desculpa necessária para prender quase quinhentas pessoas.
Eu continuava sempre activo, como maoísta, em Sherbrooke para ajudar na publicação do Estrienn Rouge.
Na quinta-feira, 15 de Outubro, ao ir distribuir panfletos para denunciar as detenções, fomos presos na auto-estrada 10 do Estrie. A polícia revistou o motor, a mala, os nossos panfletos estavam no banco de trás. Os polícias não os viram. Conseguimos entregá-los na universidade de Sherbrooke.
Na mesma noite, no centro Paul-Sauvé em Montreal houve uma assembleia de mais de 3000 nacionalistas que apoiavam o Manifesto do FLQ.
A 17 de Outubro, a polícia encontra o cadáver de Pierre Laporte.
A 18 de Outubro, como ainda nos restam alguns panfletos e eu não gosto de desperdiçar, voltamos a Sherbrooke. Fomos lá dois casais. A minha parceira e eu e outro casal. Conseguimos chegar a Sherbrooke por estradas secundárias porque as principais estavam muito mais vigiadas.
Distribuímos os nossos panfletos na residência das estudantes da U. de S. R., e quando estávamos no último quarto, policiais à paisana apanharam-nos. Fomos detidos e perguntámos aos polícias o que fariam às nossas companheiras? Os polícias responderam que não tinham nada contra elas e que estavam livres.
Três semanas depois, ainda na prisão, soube que meia hora após a nossa detenção, as nossas companheiras tinham sido presas enquanto nos esperavam no carro. Fomos levados para a prisão de Sherbrooke e as mulheres para a prisão Tanguay em Montreal. Na prisão de Sherbrooke, tiraram-me as impressões digitais à força após doze tentativas e levaram-nos para a prisão Parthenais em Montreal durante três dias. Para mostrar o medo que tinham de nós, estive algemado pelas mãos e pelos pés (algo que normalmente era reservado a criminosos perigosos) com a Lori Rice durante toda a viagem de Sherbrooke a Montreal. Após os três dias em Parthenais , eles mandaram-nos de volta para a prisão de Sherbrooke.
Durante três semanas, nada de rádio, nada de televisão, nada de jornais, nenhum contacto com advogados ou com os nossos pais. A lei das medidas de guerra permitia isso durante três semanas. Também estávamos completamente isolados dos presos comuns. Havia uma dezena de pessoas detidas connosco na região de Sherbrooke. Todos os dias, algumas eram libertadas. Depois de três semanas, acabei sozinho com o Mo.
Sobre as pessoas que tinham sido detidas, para dar um exemplo da exageração das medidas tomadas pelo Estado durante esta «crise», havia entre nós um quebequense que, ao chegar recentemente dos Estados Unidos, encontrando-se num restaurante da província, riu-se ao ler um artigo sobre a morte de Laporte no Journal de Montréal. No mesmo restaurante, também estava a comer um polícia. Quando este ouviu, achou suspeito e decidiu prendê-lo. Ele passou dez dias na prisão por ter achado aquilo engraçado. Não era politizado de todo. Ao fim das três semanas, o meu camarada anglófono, Lori Rice, foi imediatamente expulso para o Reino Unido. Quanto a nós, Mo e eu, passávamos todas as semanas pelo tribunal, mas o julgamento era sempre adiado. Estávamos acusados de ser simpatizantes do FLQ, o que era completamente falso.
Os meus pais tinham contratado um advogado que era um patife, uma podridão que se gabava de ter estudado com Jérôme Choquette, o ministro da justiça do Québec. Esse mesmo que pessoalmente se opunha à nossa libertação sob caução.
Em Novembro, houve a captura dos raptores de James Cross. O regime castrista aceitou, nessa altura, recebê-los. Alguns anos mais tarde, eles puderam refugiar-se em França.
Queríamos sair da prisão. Jovens e ingénuos, decidimos então fazer uma greve de fome para sermos ouvidos, pedindo ao mesmo tempo aos presos políticos de Parthenais que fizessem o mesmo, o que eles recusaram. Nós, os dois casais, decidimos, no entanto, com teimosia, seguir com o nosso plano e iniciámos uma greve de fome durante cerca de quinze dias, contentando-nos apenas com água ou chá. Claro que isso não fez mais nada além de nos fazer perder peso. De facto, ameaçavam-nos com a ida para Montreal se continuássemos com a nossa acção. No entanto, sabíamos que outro preso político fazia greve de fome há cerca de quarenta dias e mantinham-no vivo por via intravenosa. Assim, cessámos a nossa greve de fome.
Em Dezembro, os outros presos políticos finalmente decidiram fazer greve de fome. Nós decidimos não participar, mas as nossas duas mulheres decidiram, por sua vez, retomar novamente esta acção uma segunda vez. A greve de fome terminou na véspera de Natal. Mais uma vez, este meio de pressão não produziu nenhum resultado.
Os irmãos Rose e Francis Simard foram presos a 28 de Dezembro num buraco que tinham feito, debaixo da fornalha, no alicerce da casa de campo de Michel Viger.
Ao ler o livro de Francis Simard, aprendi que eles tinham negociado a libertação de alguns poucos presos políticos que ainda estavam encarcerados, antes de se renderem. O que estava claro era que a nossa libertação sob fiança dependia inteiramente da captura dos Rose e Simard. Assim, saímos sob fiança no dia seguinte, 29 de Dezembro.
Mais tarde, em Maio de 71, tentaram novamente julgar-nos, todos juntos, os dois casais. No entanto, conseguimos finalmente obter julgamentos separados, e eu fui o escolhido para ir primeiro à frente do juiz. Como eu estava preso por outra acção política que explicarei mais adiante, foi o Mo que passou primeiro em tribunal antes dos outros três. Mo pediu para ser julgado por um júri. Estávamos todos acusados de ter ajudado, apoiado e ser membros do FLQ, o que era completamente falso. Éramos simpatizantes maoístas e as duas mulheres, elas, apenas tiveram o azar de serem nossas esposas. Mo foi absolvido pelo júri e alguns dos seus membros vieram, depois da sentença, apertar a mão do meu camarada bem à frente do juiz. O ponto em que a defesa se apoiou residia no facto de que poder distribuir panfletos para informar a população representava um direito democrático.
No folheto vindo do PCC(m-l), dizia-se que tinha havido centenas de detenções, que pessoas tinham sido espancadas, que um dia tudo isso teria um preço alto e que o povo acabaria por se revoltar. Quando és atacado por espingardas, a única maneira de te defender face a pessoas que têm espingardas é também ter espingardas. Este texto refletia o aventureirismo típico dos maoístas, um aventureirismo completamente desligado da classe operária. O PCC (m-l) baseava-se na citação de Mao 'o poder está na ponta da espingarda’, que não pertence de forma alguma ao corpus teórico do marxismo. É a consciência da classe operária que é o factor determinante, mesmo que a violência seja inevitável no processo da revolução.
Depois da minha libertação em Dezembro, voltei ao meu trabalho (Metals and Alloy) para buscar o meu último cheque porque, depois de todos aqueles incidentes, obviamente não quiseram recontratar-me. Quando saí, a língua de trabalho era principalmente o inglês. Eu não tinha feito nenhuma acção política no local de trabalho, mas quando os chefes souberam que tinha sido preso sob acusações de simpatia pelo FLQ, ficaram tão assustados que o francês começou a predominar na empresa. Os pequenos chefes francófonos, uns admiráveis tolos, acolheram-me como um herói. Em Janeiro, fui contratado como professor de física no Cégep de Granby para o semestre de Inverno, cargo que mais uma vez tive de perder no Outono por causa de outra prisão.
Durante esse período de julgamento, bem perto do Cégep, havia uma dúzia de operárias em greve há nove meses na World Wide Gum, uma fábrica de cartões coleccionáveis de desportistas profissionais como, por exemplo, jogadores de baseball. Elas eram sindicalizadas na CSN e alguns ‘peões’ continuavam a produção. O sindicato, como é a «tradição» durante longos conflitos, mantinha as operárias num espaço durante dias, para que ganhassem o seu magro subsídio de greve. Eu apoiava essa greve com estudantes do cégep e, depois de me encontrar com a representante das grevistas, que também estava em greve, decidimos fazer um folheto e percorrer as fábricas sindicalizadas na CSN para falar da luta delas. Numa das fábricas, um dirigente enfurecido até tentou atropelar-me com o carro no parque de estacionamento da empresa. Graças a um operário da fábrica, consegui escapar.
Uma semana após esta distribuição de panfletos às portas de fábricas com sindicatos da CSN, lemos no jornal local de Granby – a Voix de l’Est – um artigo no qual a CSN nos denuncia e diz que não precisa do nosso apoio.
A nossa visão dos sindicatos era semelhante à da NEFAC hoje (a Northeastern Federation of Anarchist-Communists): uma crítica aos chefes sindicais e às direcções sem realmente ir mais longe.
No entanto, o papel do sindicato nesta luta era claro: durante nove meses, tratava-se de confinar as operárias numa sala, de não suscitar qualquer forma de solidariedade activa na região de Granby e entre os outros proletários sindicalizados da CSN e de denunciar aqueles que as apoiavam abertamente. Mesmo que esta luta fosse apenas de natureza económica, o facto de tornar pública a luta dos grevistas era demais para a central sindical. Alguns dias após a publicação deste artigo na Voix de l’Est, a greve terminou sem sequer ser possível conhecer as condições de retorno ao trabalho das operárias. Tentei várias vezes retomar contacto com a representante, mas nunca consegui encontrá-la.
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Em todo o mundo, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, ainda havia manifestações particularmente violentas contra a guerra do Vietname. Na Dinamarca, por exemplo, o consulado americano tinha sido incendiado. Na Suécia, em Paris, em Londres, as embaixadas e consulados americanos eram fisicamente atacados. A seguir à declaração de Mao um ano antes, (Povos do mundo, uní-vos para derrubar os agressores americanos e os seus lacaios!), os maoístas canadianos decidiram organizar uma manifestação que se dirigiria ao consulado americano em Montreal. Por isso, cobri a cidade de Granby com cartazes e distribuí folhetos com estudantes para esta manifestação.
O evento teve lugar a 20 de Maio de 71 e começou no Carré St-Louis. Havia perto de quinhentas pessoas e uma chuva muito forte caía sobre Montreal. No canto das ruas St-Denis e Sherbrooke, os megafones da polícia gritavam que a manifestação era ilegal, sempre por causa do regulamento aprovado por Drapeau, o prefeito de Montreal nessa época. Nós continuámos na mesma, mas no canto da Sherbrooke com St-Urbain, havia várias centenas de polícias à nossa espera. Estávamos equipados com 2x4 que nos serviam como mastros para as bandeiras vermelhas. Diante da nossa “insistência” em continuar a manifestação, a primeira linha de polícias caiu, mas a segunda linha fez-nos cair. A minha companheira foi uma das primeiras pessoas detidas. Atiraram-na para uma carrinha da polícia, mas ela conseguiu escapar do veículo porque, no fervor dos polícias a descarregar os seus cassetetes sobre os manifestantes, nunca a viram fugir. Eu fui detido com mais de sessenta outros manifestantes. Durante uma semana em Parthenais, as autoridades judiciais recusaram-se a libertar-nos sob fiança. Manifestantes tinham vindo de Ontário, mas apenas aqueles que viviam no Québec conseguiram obter fiança depois de uma semana.
Um mês depois, tivemos o nosso julgamento. Polícias vieram testemunhar com os braços em gesso, assim como manifestantes igualmente magoados. Fomos acusados de participação numa manifestação ilegal, o que nos valeu um mês de prisão. No entanto, para quem já tinha antecedentes criminais, eram dois meses de prisão mais 100$ de multa. Durante a audição desta condenação pelo juiz (fomos julgados em grupos de cinco para que o tribunal se livrasse mais rapidamente do caso), tínhamos uma instrucção estúpida vinda da direcção do PCC (m-l), que consistia em mostrar-lhe o nosso punho. O resultado não se fez esperar: uma multa adicional de 100$ assim como mais um mês de prisão para os que não tinham antecedentes e, dois meses de prisão adicionais para aqueles que já tinham.
Sendo professor de colégio, tinha estudantes que tinham participado na manifestação. Os polícias foram falar com os pais deles para me acusar de rapto de menores; no entanto, eu fazia as reuniões à vista e com o conhecimento dos pais e, às vezes, em casa deles. Em alguns casos, os pais até apoiavam a nossa causa, então a tentativa de me acusar de rapto de menores caiu por terra.
Passei, portanto, o Verão de 71 em Bordéus. Politicamente, a acção dos maoístas tinha sido jogar o jogo do imperialismo chinês que Mao estava a desenvolver sobre os cadáveres de milhões de camponeses e proletários. Os militantes maoístas eram peões na luta de Mao contra as outras potências imperialistas, incluindo o imperialismo russo. Aliás, os maoístas usam frequentemente o termo povo para apagar o papel do proletariado. O termo povo permite-lhes incluir a burguesia de países imperialistas dominados – nesse momento – pelo imperialismo americano e russo.
Quando saí da prisão de Bordéus, tendo perdido toda possibilidade de emprego no Cégep de Granby, trabalhei como manobrador de automóveis em estacionamentos, de oito a doze horas por dia com salário mínimo.
De Agosto de 71 a Abril de 72, entrei numa semi-clandestinidade porque nessa época, a polícia detinha militantes por qualquer motivo. Por exemplo, a polícia prende um militante em Montreal, leva-o para Montérégie para um bosque e, como ele não quer colaborar, os polícias à civil abandonam-no no bosque às três da manhã. Eram ameaças que alguns militantes podiam ver realizarem-se. Viver numa semi-clandestinidade significava continuar a trabalhar, mas a dar falsas moradas para a residência, para o telefone, etc.
No Verão de 71, o Partido Comunista do Canadá Marxista-Leninista (PCC M-L), criado em 1970, viu mais de 90% dos seus militantes francófonos abandonarem-no. O facto de quase todas as reuniões do partido em Montreal decorrerem em inglês foi um factor importante. A direcção aventureira e provocadora durante a manifestação de 20 de Maio foi outro factor importante. Como em qualquer organização ao serviço do capital, a cisão não se fez com base política clara e não se tratava de uma facção. Anos mais tarde, soube que a direção do PCC (M-L) tinha ponderado assassinar um simpatizante, líder da cisão, mas que, segundo eles, as condições não eram propícias para cometer tal acto.
Militei alguns meses, durante a existência do Movimento Revolucionário Operário (MRO) dirigido por Pierre Dupont, que, algum tempo depois do desaparecimento do MRO, acabou como jornalista na televisão da Radio-Canada. Este pequeno grupo não questionava fundamentalmente o estalinismo e a sua variante maoísta.
No Outono, a 29 de Outubro, teve lugar outro evento: a grande manifestação em frente aos escritórios da La Presse, no centro de Montreal, pelos trabalhadores do jornal que estavam em greve há alguns meses. A manifestação era ilegal (sempre as mesmas regras). Houve mais de 15.000 manifestantes. Fui um deles e foi outra grande oportunidade para ver o quão furiosa a polícia podia ficar perante este tipo de evento. Provavelmente tinham recebido ordens para subjugar os manifestantes e, como qualquer força repressiva pertencente ao Estado burguês, nunca questionaram as ordens que receberam. Deve dizer-se que, ao contrário das manifestações nacionalistas dos anos anteriores, esta era composta maioritariamente por proletários, enquanto as dos anos 68-69 eram maioritariamente compostas por pequeno-burgueses e estudantes. Foi toda uma escaramuça… 200 detenções, 300 feridos e mesmo, infelizmente, uma pessoa faleceu: a manifestante Michelle Gauthier. Durante a manifestação, alguns manifestantes também reconheceram um estudante que era um delator. Este conseguiu escapar dos manifestantes subindo a toda a velocidade para um carro da polícia… Certamente, os manifestantes não teriam poupado a sua pele. Após a violenta dissolução da manifestação, os participantes agrupavam-se às centenas e todos tinham na memória um ou uma dos seus, feridos pelas forças de ordem do capital.
Naquela altura, eu tinha a sorte de poder ficar na casa de várias pessoas espalhadas por todo o território do Quebec graças a contactos que tínhamos em Hull, Sherbrooke, Quebec… A maioria dessas pessoas eram proletários simpatizantes da causa. Podíamos ficar lá dois a três dias e eles pediam desculpa por não poderem fazer mais por nós naquele momento. Eles sentiam-se constrangidos por a sua única ajuda ser poder-nos alojar. Era a mesma coisa com os taxistas. Por exemplo, durante uma manifestação, se tivéssemos de fugir, subíamos para o táxi e o motorista ficava feliz por nos transportar gratuitamente.
Em 71-72, começou uma forma de condicionamento e até de sabotagem das manifestações pelos militantes do PQ. Estes agitavam com frases tipo «esperemos pelas eleições», «os deputados vão resolver isso». O parlamentarismo, que era ridicularizado entre os operários, voltou a fascinar mais proletários com a subida do PQ. O desvio da classe operária para a democracia burguesa nos últimos 100 anos levou à sua derrota e passividade. As eleições são um terreno onde o proletariado não tem lugar verdadeiro, excepto quando chega a altura de colocar um X de quatro em quatro anos para pôr no poder burgueses do mesmo tipo [ver Anexo V Um circo de escuridão e mentira: a Assembleia Nacional].
Em 71-72, o FLQ praticamente desapareceu. Tudo o que restou foi o jornal "Nous vaincrons", distribuído clandestinamente e de forma esporádica.
A 16 de Julho de 1974, ocorreu uma provocação policial: uma bomba explodiu nas mãos do agente Robert Samson, no momento em que o polícia ia secretamente colocar o artefacto na residência em Montreal da família Steinberg, proprietária de uma cadeia de lojas de alimentação que estava em greve. Mais tarde, em Março de 1976, durante o seu julgamento, o agente provocador admitiu ter estado envolvido, em nome da GRC, noutras actividades duvidosas. Solicitação de explicações, ele mencionou a "Operação Bricole", nome de código dado à intrusão ilegal, perpetrada a 7 de Outubro de 1972, nas instalações da Agência de Imprensa Livre do Québec (APLQ), uma agência de notícias de esquerda, durante a qual foram subtraídos documentos.
Uma experiência de luta memorável foi a do Front Comun de 1971-72:
« A principal reivindicação era um salário de pelo menos 100$ por semana para todos os funcionários do Estado. Na altura, em greve no Cégep Édouard-Montpetit, eu estava atento a tudo o que se passava nos locais de trabalho no Québec, e apercebi-me de que os sindicatos estavam realmente a perder o controlo sobre as operárias e os operários durante esta luta. Assim, era possível ver por toda a província ocupações de cidades, como a de Sept-Îles, primeiros passos de conselhos operários, ocupações de estações de rádio para informar a classe operária sobre as reivindicações laborais, apelos à solidariedade, bloqueios de estradas, paralisações ilegais de fábricas para apoiar o sector público, ocupações de locais de trabalho e várias outras manifestações. [O líder do PQ René Lévesque denunciou os eventos de Sept-Îles como «palhaçadas».] O Estado gerido pelos liberais acabou por conseguir subjugar as operários e os operários através da repressão policial e de várias detenções. No entanto, foi preciso que o Estado cedesse um pouco: a principal reivindicação, os 100$ por semana, foi alcançada. Os três líderes: Marcel Pépin da CSN, Louis Laberge, já mencionado, da FTQ e Yvon Charbonneau da CEQ foram condenados à prisão. Estas três condenações permitiram ao governo liberal desviar a luta reivindicativa para a exigência da sua libertação. Além disso, sindicalistas da CSN dividiram ainda mais a classe operária ao formarem outra central sindical, a CSD. As centrais sindicais acabaram por retomar o controlo ideológico do movimento ao redistribuir amplamente três brochuras.: ““Contemos apenas com os nossos próprios meios” da CSN, “O Estado, engrenagem da nossa exploração” da FTQ e “A escola ao serviço da classe dominante” da CEQ. Apesar dos seus títulos chamativos, os ideólogos das centrais não questionavam fundamentalmente a ditadura imposta pela burguesia com a ajuda do seu governo, do seu Estado. Em meados dos anos 70, a FTQ tornou-se o ramo sindical oficial da burguesia nacionalista quebequense as outras centrais continuaram igualmente nacionalistas, mas de forma mais subtil; talvez com a excepção da CSD, que optou pela burguesia nacionalista canadiana… Enfim, o que não é muito melhor!" Excerto de Do sindicalismo crítico à crítica do sindicalismo, Testemunho de um ex-sindicalista irritado de Réal Jodoin.
Durante essa Frente Comum, no mês de Maio, eu fazia piquete com a minha parceira grávida em frente ao hospital Hôtel-Dieu e, no mês de Junho do mesmo ano, tornei-me pai de um menino.
Desde o fim da Frente Comum, os militantes que não acreditam no Partido Quebequense perceberam que era preciso organizar-se de forma mais séria, que era necessário fazer um trabalho de educação política junto das operárias e dos operários. Surgiu, então, em todo o Quebec e também nas outras províncias, uma infinidade de células e grupos que se reivindicavam do marxismo. Em Montreal, são os Comités de Acção Política (os CAPS) que predominam, por exemplo, o CAP St-Jacques. Estes CAPS diziam-se marxistas, mas eram, na verdade, sociais-democratas. Uma parte dos seus militantes de origem burguesa ou pequeno-burguesa chegaram mesmo a abandonar os estudos para se tornarem operários em fábricas nos anos 70. Na fábrica, praticavam o economicismo «olhando para o traseiro político dos operários» e fora dela, eram sociais-democratas.
Durante o ano de 72, eu fui um simpatizante do Movimento Revolucionário Estudantil do Quebec, que publicava o jornal Le Partisan. Não sendo estudante, não me sentia no meu lugar. A maioria dos militantes do MREQ tornou-se membro da Liga Comunista, que mais tarde se tornou o Partido Comunista Operário (PCO), outra organização maoísta. Durante décadas, proletários e estudantes foram desviados por essas organizações maoístas para uma falsificação ideológica que, sob o pretexto de socialismo, propagava um capitalismo de Estado...
E, para eles, tudo o que esses regimes faziam ao proletariado era justificado.
Infelizmente, nessa época, eu ainda não tinha consciência de que o maoísmo é uma verdadeira armadilha para o proletariado.
Em Outubro de 72, Charles Gagnon publicou um folheto: Por um Partido Proletário. Na altura, achei a publicação deste folheto muito importante porque destacava a necessidade de criar um partido revolucionário no Quebec e que uma das primeiras etapas era fazer um jornal para conduzir a luta ideológica contra a ideologia burguesa dominante na classe operária. O jornal publicaria os ganhos das diferentes revoluções no mundo, mencionaria todas as lutas que os trabalhadores travariam no Quebec, no Canadá e noutros lugares do mundo. O folheto estava repleto de citações de estalinistas: Le Duan do partido dos trabalhadores do Vietname, Foto Çami do partido do trabalho albanês, Charles Bettelheim, maoísta francês, assim como citações de Mao Tsé-tung. O partido a criar seria do tipo estalinista com o postulado do «socialismo num só país». Eu não tinha consciência de que isso era, na verdade, um retrocesso para os proletários quebequenses que poderiam ser atraídos mais tarde por uma futura organização do Capital, criada após a publicação deste folheto. Voltarei mais à frente a falar sobre esta organização.
Outros acontecimentos importantes no Québec e no mundo que me influenciaram
No dia 11 de Setembro de 1973, ocorre um golpe militar no Chile fomentado pela CIA, que causou oficialmente mais de 3 000 mortes, mas na realidade aproximou-se de 10 000 nos meses seguintes.
Em Dezembro de 1974, chega ao fim o regime dos coronéis na Grécia.
Em Abril de 1975, os estalinistas vietnamitas tomam o poder no Vietname do Sul, o que significa a derrota aí do imperialismo americano e, ipso facto, a vitória do imperialismo russo.
Em Maio do mesmo ano, os Khmer Vermelhos (maoístas) também tomam o poder no Camboja... Assim, é uma derrota para o imperialismo americano e russo, em benefício do imperialismo chinês.
Em Março de 1975, torno-me pai pela segunda vez, de um menino.
No dia 12 de Maio de 1975, cerca de sessenta grevistas ocuparam a fábrica nº 2 da United Aircraft (Pratt & Whitney) após dezasseis meses de greve. Os pontos em disputa eram: horas extra voluntárias, horário de trabalho de doze horas, subsídio de custo de vida, recontratação de um grevista, aumento salarial igual para todos. Todos esses pontos acabaram por se resumir ao reconhecimento legal do sindicato. A luta era rigidamente controlada pela burocracia sindical da FTQ, da qual Robert Dean fazia parte, ele que mais tarde se tornaria futuro ministro péquista. Também contou com o apoio de uma grande comitiva de nacionalistas, deputados e futuros deputados e ministros péquistas (Robert Bisaillon, René Lévesque, Pierre Marois, Robert Burns, Claude Charron, etc.). A tal ponto que o emblema dos grevistas é uma flor-de-lis em metal, feita a partir de pregos que os grevistas vendem. Na sequência dessa ocupação, 34 grevistas foram duramente espancados e agredidos pela polícia durante as suas prisões. Mais de 100.000 operários e operárias fizeram greve ilegalmente a 20 de Maio de 1975 para apoiar os mesmos. Nenhum foi recontratado e, em Maio de 1977 (seis meses após a tomada de poder pelo PQ), três deles foram condenados a penas de prisão e multas! Esta ocupação, que isolou ainda mais um grupo de operários dos outros, acabou mais uma vez por favorecer o sindicato e os nacionalistas.
Trinta anos mais tarde, o partido «comunista» do Quebec e a burocracia sindical comemoraram os «34 Charlie’s», 34 operários que lhes foram extremamente úteis na luta dos políticos do PQ contra o governo liberal de Robert Bourassa. Um ano e meio depois, o PQ chegava ao poder com o apoio da FTQ… E o burocrata responsável pela greve, Robert Dean, foi nomeado ministro!
No Quebec, houve várias Frentes Comuns das centrais sindicais: a de 72 já mencionado, e outras em 76, em 79 e a última em 82. Naquele ano …« O Estado, então gerido por um governo do PQ, decidiu baixar os salários das trabalhadoras e trabalhadores do sector público em 20% durante um período de três meses, bem como fazer outros cortes na função pública para "sanear" as finanças do Estado. …O que é irónico no meu caso é que perdi o meu posto de professor e acabei por aceitar temporariamente um posto de funcionário no Ministério da Indústria e do Comércio. O governo tinha alegado que o dinheiro poupado à custa das professoras e professores iria para os beneficiários de assistência social, o que, afinal, nunca aconteceu. No entanto, o orçamento e o número de empregados triplicou no Ministério da Indústria e do Comércio. Ajudar o capitalismo de acordo com o livre comércio, esses eram os verdadeiros objectivos da burguesia nacionalista quebequense… Uma greve ilimitada foi votada em 1983: greve legal no início, que o governo tornou ilegal depois. Apesar da ilegalidade, essa greve continuou mesmo assim durante mais dois dias. É preciso também mencionar que a CSQ, na época, ficou sozinha durante essa greve sem o apoio dos outros sindicatos. Alguns anos mais tarde, foi a CSN que se encontrou sozinha depois de uma frente comum das direcções. E ainda, mais tarde em 1999, os outros sindicatos também abandonaram a federação das enfermeiras (FIIQ) durante a sua greve ilegal. Cada um tem o seu turno de ser o bom e o mau!…»
Trecho de Do sindicalismo crítico à crítica do sindicalismo, Testemunho de um ex-sindicalista irritado de Réal Jodoin.
Em 1976, para lutar contra o congelamento dos salários, os sindicatos canadianos organizam uma actividade de «desabafo», ou seja, um dia de greve com a participação de um milhão de operárias e operários em todo o Canadá. Trata-se sobretudo de criar a ilusão de combatividade sindical no proletariado, enquanto canalizam a energia dos sindicalizados mais militantes. Assim, de forma alguma se trata de uma greve geral para os sindicatos após o resultado negativo da sua pequena greve. Eles tinham cumprido a sua actividade de sabotagem.
Em França, houve a luta das LIP. Eram operários e operárias de relógios que, perante o fecho de uma fábrica, ocuparam a fábrica, fizeram com que os patrões ficassem presos e produziram relógios durante um ano! Isso mostrava que a classe operária podia facilmente assegurar a produção de uma fábrica sem os patrões, mesmo com muitos problemas na distribuição e venda da sua produção. Mas acima de tudo, era uma lição para o proletariado retirar do fracasso de uma forma de luta autonómica que não vê como a concorrência capitalista pode esmagar facilmente estes pequenos projectos idealistas. O Estado burguês está sempre presente para reprimir a classe operária e garantir que a classe burguesa pode continuar sempre a sua exploração.
Vamos ver como os esquerdistas do EL viam esse fracasso: «A luta da LIP em França… e a luta da Firestone no Canadá foram dois casos em que as teses marxista-leninistas se verificaram completamente. O movimento operário desencadeava a luta, esta ganhava amplitude, radicalizava-se e colocava a questão do regime económico e político; graças à sua combatividade, os operários em luta conseguiam gerar um amplo movimento de apoio popular, de tal forma que os poderes políticos e judiciais não podiam ignorá-lo, ou seja, não podiam reprimi-lo, e as lideranças sindicais viam-se obrigadas a agir…
Sobre a crise do movimento marxista-leninista Charles Gagnon 1981.
Um projecto semelhante às LIP é criado com o encerramento da Regent Knitting em Saint-Jérôme. É o projecto auto-gerido da Tricofil em Fevereiro de 75 que consegue manter-se até 82 com a ajuda do governo pequista (sic!). Como em todos estes tipos de projectos, surgem confrontos entre todas as operárias e os operários e aqueles que eles tinham nomeado como quadros. A tal ponto que três operários são despedidos por actividade sindical. A auto-gestão rima com auto-exploração. Os proletários de um tipo de empresa assim lidam continuamente com a competitividade do mercado capitalista. Eles abandonam a sua luta histórica pelo socialismo para um pequeno projecto isolado que procura apoios do Estado nacional. Os esquerdistas querem fazer-nos acreditar que é uma «alternativa», mas esta suposta alternativa serve para desviar a classe operária da sua organização visando a abolição total do capitalismo na terra. A classe operária não é corporativista nem nacionalista, é internacionalista..
Depois, houve a eleição de Ronald Reagan, que se tornou presidente dos Estados Unidos em 80. Em Outubro de 81, houve milhões e milhões de manifestantes pacifistas no mundo contra o perigo de uma guerra nuclear mundial. Em Junho de 82, um milhão de pessoas manifestaram-se em Nova Iorque pela paz em frente à ONU. Aqui gostaria de esclarecer que nunca os pacifistas conseguiram parar uma guerra. A única força capaz de parar uma guerra, como a história demonstrou, é a classe operária quando faz a revolução. Por exemplo, a insurreição de Outubro na Rússia acabou com a guerra. O pacifismo é uma ilusão pequeno-burguesa que tende a desviar o proletariado do seu estrito terreno de classe. É um instrumento frequentemente usado pela burguesia para defender os sectores “pacifistas” e “democráticos” da classe dominante.
No Quebec, desde o início dos anos 2000, pacifistas reunidos no Colectivo ‘Fracasso da Guerra’ negam que seja o capitalismo que cause as guerras. Eles valorizam o circo eleitoral ao querer que a retirada das tropas canadianas do Afeganistão seja um tema principal. Para valorizar ainda mais a democracia burguesa, pedem mais transparência e consulta pública sobre os verdadeiros desafios desta guerra. O Coletivo quer insuflar um pouco de vida em instituições moribundas.
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A Oficina operária
De todos os grupos que conheci antes da Esquerda Comunista, apenas um era realmente proletário, tanto do ponto de vista das ideias como da sua composição. É o Atelier Ouvrier (AO), cuja origem remonta a Março de 72. Foi à volta de uma luta perdida por culpa do sindicato que operárias e operários da camisa, pele, calçado e caminhos-de-ferro se reuniram para formar o grupo. Muito rapidamente, a sua análise levou-os a compreender que a derrota se devia às próprias estruturas do sindicalismo. Eles precisavam agir para “pressionar” o sindicato ou actuar por fora, criando comités de luta. Numa segunda fase, escreveram: “é porque acreditávamos que as lutas económicas não levam automaticamente à consciência dos interesses políticos de classe dos operários [que procuramos], através desta reflexão, ultrapassar esta situação.” Os militantes do AO procuram uma organização política revolucionária… Infelizmente, eles serão recuperados por uma organização de esquerda. [ver Anexo VI Excerto de A Questão do sindicalismo no Québec]
Paralelamente, o EDJ (Equipe do Jornal que deu origem ao grupo maoísta En Lutte! na Primavera de 73) tem ligações com a AO. Até ao seu primeiro congresso em Novembro de 74, EL (En Lutte!) tem a mesma posição em relação aos sindicatos que a AO. Um caderno sobre sindicalismo, criticando os sindicatos como sendo intrinsecamente integrados no Estado, chega mesmo a ser publicado. As discussões sobre os textos preparatórios para o 1º congresso pelo comité fundador do EL, do qual eu fazia parte, regressam à posição clássica dos estalinistas. São as direcções sindicais que devem ser substituídas. Uma militante da AO e eu defendemos o mesmo ponto de vista. São feitas críticas de economicismo e esquerdismo à AO: economicismo porque se gasta demasiado tempo a estudar as amarras que são a convenção colectiva e não o suficiente a mobilizar os proletários para o grupo m-l; esquerdismo porque os sindicatos são denunciados. Hoje eu diria que a denúncia do sindicalismo pela AO não ia tão longe quanto a feita pela Esquerda Comunista. Mas já era demasiado para a maioria dos m-l do comité fundador. O debate sobre o sindicalismo foi praticamente nulo durante o primeiro congresso e a posição clássica dos estalinistas prevaleceu. Mais tarde, houve uma atitude tipicamente estalinista. Uma directiva da direcção (da qual eu já não fazia parte) ordenou a todos os militantes que destruíssem todas as cópias do caderno crítico do sindicalismo porque um caderno mais em conformidade com a linha estalinista iria substituí-lo.
No seu texto A questão do sindicalismo no Quebec, a AO responde à crítica do economicismo: «Por que o nosso trabalho não é económico.
É simplista pensar que o que faz um trabalho ser económico é o facto de tratar de condições económicas de trabalho, assim como é igualmente absurdo chamá-lo de legalista porque se refere a um acordo colectivo. Finalmente, e da mesma forma, um trabalho não é ideológico porque transmite ideias novas, mesmo que sejam «marxistas-leninistas» na sua forma. Uma luta é ideológica porque tende a destruir todas as formas da ideologia burguesa e pequeno-burguesa dentro da classe operária principalmente e a substituí-la pela ideologia proletária. Essa substituição só se realiza e só pode realizar-se através e na acção dos actores, iluminados por uma linha correcta.».
Ao integrar-se na EL, a AO, seja qual fosse a sua origem de classe e a sua tendência inicial, foi apanhada na engrenagem da ideologia maoísta e deixou de fazer parte do que se chama o pântano esquerdista, um pântano ambivalente em relação aos seus interesses reais e instintivamente proletários, do qual poderia ter emergido uma consciência de classe verdadeira, afiada, visando organizar-se em torno de uma organização internacionalista: a única ameaça verdadeira para a burguesia.
EL posteriormente ajudou e apoiou, através de militantes e de propaganda, a criação do Comité de Solidariedade com as Lutas Operárias (CLSO). Este comité era fruto de uma coligação de grupos de esquerda e de grupos populares que apoiavam as lutas operárias sem criticar o sindicalismo. A sua actividade era muito semelhante ao que a NEFAC faz hoje. Em Setembro de 75, o CSLO foi dissolvido. 6
A Equipa do jornal Em Luta!
Em Fevereiro de 1973, participei então da criação da Equipa do jornal En Lutte! (EDJ) que se tornaria em 74 a Organização Marxista-leninista do Canadá En Lutte! (OMLC). A ignorância, mais uma vez, dos feitos da Esquerda comunista, levou-me a militar numa outra organização estalinista, menos má que o PCC (m-l), aventureira e dogmática mas mais perigosa ideologicamente. Demiti-me desta organização seis meses antes da sua dissolução em Maio de 82.
O folheto que está na base da formação da EL, Pour un Parti Prolétarien, escrito por Charles Gagnon, aplica as teses estalinistas no Québec e no Canadá:
1° É o postulado estalinista do «socialismo num só país»».
2° Não há nenhuma análise da instauração do capitalismo de estado na Rússia em meados da década de 20. O fracasso da vaga revolucionária, especialmente na Alemanha em 1919-23, que levou ao isolamento da revolução proletária russa no início dos anos 20, não é mencionado.
3° O autor destaca a luta de libertação nacional do Quebec numa primeira edição para depois a abandonar nas edições seguintes (Decisão do 1.º congresso da EL em Novembro de 74), mas apoiando as lutas de libertação nacional no mundo. Na altura da decadência do capitalismo desde o fim da Primeira Guerra Mundial, esse apoio significa apoiar burguesias nacionais que se baseiam numa potência imperialista contra outra. Exemplo: Cuba, que se libertou do imperialismo americano tornando-se cada vez mais submetida ao imperialismo russo. Assim, Cuba foi fornecedora de carne para canhão do bloco russo nas guerras africanas (Etiópia, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique) e no Iémen do Sul, guerras que custaram a vida a milhares de operários cubanos.
4° A crítica às direcções sindicais e não aos próprios sindicatos. Aliás, os membros do Atelier Ouvrier criticaram essa abordagem marxista-leninista da questão sindical. Ao tornarem-se membros da EL, foram obrigados a fazer uma auto-crítica porque tinham sido «economicistas».
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O objectivo do EDJ era publicar regularmente um jornal que fosse distribuído por todo o Quebec. O número pré-lançamento foi publicado no último dia de Abril de 73 e distribuído no dia seguinte na manifestação do primeiro de Maio. Uma anedota engraçada: neste número pré-lançamento, tirado em 10 000 cópias, havia um erro inacreditável. A frase de Marx «Proletários de todos os países, uní-vos» tinha-se transformado durante a impressão em «Proprietários de todos os países, uní-vos». Foi então necessário, durante a noite anterior à manifestação de 1 de maio, corrigir este erro nas 10 000 cópias.
O jornal, de oito a dez páginas, começou a ser publicado regularmente em Setembro de 73, duas vezes por mês. Éramos apenas dez militantes a fazer sair o jornal En Lutte! Era preciso encontrar operários, grevistas; era preciso escrevê-lo; era preciso discutir em conjunto cada um dos artigos. Esta era uma das razões pelas quais os artigos não eram assinados e também por segurança, porque a polícia gostaria de conhecer os nomes dos signatários. Era preciso distribuí-lo; isso significava, portanto, aparecer à porta das fábricas às 5h, 6h e 7h da manhã para vendê-lo. Todos os militantes, no início, tinham de ir, professores, estudantes, desempregados. No entanto, assim que um militante subia na hierarquia estalinista, ficava dispensado desta tarefa.
Também havia outros grupos maoístas no Quebec (um ano depois em todo o Canadá) que precisávamos encontrar para discutir as nossas ideias políticas. O horário individual da dezena de militantes, no início, era de cerca de trinta horas por semana dedicadas à produção, à circulação do jornal e às reuniões internas e externas. Reuniões até tarde da noite, fins de semana inteiros. Isso não ajudava em nada a vida de casal. Paguei o preço pessoalmente, especialmente quando a minha parceira proletária não era militante e tínhamos filhos. Era esse o tipo de militância numa organização maoísta. Melhorou depois com a chegada de novos membros, porque não teríamos conseguido manter este activismo por muito tempo.
Nós difundimos o jornal En Lutte! por todo o Canadá com uma tiragem de 10.000 exemplares por semana a partir de 1977.
O objectivo da Organização Marxista-leninista do Canadá En Lutte! (OMLC) era difundir um jornal. Esse jornal permitiria reunir os elementos mais revolucionários da sociedade, que deveriam estar principalmente entre a classe operária, para criar apenas um partido revolucionário canadiano. Esse partido seria o líder de uma revolução socialista no Canadá. Claro, na perspectiva estalinista da OMLC, esse partido seria estalinista. Basear-se-ia portanto no estalinismo-maoísmo da teoria do socialismo num só país, que é uma forma de nacionalismo a centenas de léguas do internacionalismo proletário.
Nas eleições tanto federais como provinciais, o jornal sempre se pronunciou a favor da anulação do boletim de voto. As eleições dão-lhe a escolha entre várias pessoas que irão jogar o jogo dos exploradores nos próximos três ou quatro anos. Esta posição sobre a anulação era uma posição completamente burguesa, pois dava a entender que havia possibilidades parlamentares para as operários e os operários. A posição da Esquerda Comunista é que não há nada a esperar das eleições e do parlamento. Deve-se promover a abstenção total. São os conselhos operários – ou outra forma de organização ainda mais eficaz para o proletariado, mas que este ainda não encontrou – que serão os representantes da classe operária, guiada e não dirigida por um partido revolucionário internacional.
A polícia continuou o seu trabalho de espionagem.
De facto, durante algum tempo, num grande apartamento situado no 3939 da rua St-Denis, havia um membro e a sua parceira simpatizante que lá ficavam e dois dos quartos estavam reservados para En Lutte! A certa altura, o militante que lá vivia contou-nos que tinha ouvido um barulho por volta das 3 da manhã na noite anterior. Então, examinei um dos quartos que nos era reservado e notei um pequeno risco numa parede perto do tecto. Ao levantar a tinta que se estava a soltar, reparei no que parecia ser um pequeno pedaço de tubo, que afinal era um pedaço de microfone. Tínhamos tomado posse do lugar há apenas três semanas quando a polícia já estava a instalar o seu posto de vigilância no imóvel anexo que estava desocupado... Diante dessa espionagem policial, tivemos uma atitude questionável. Fingimos que não tínhamos visto nem ouvido nada. Durante um ano, tomávamos cuidado com as palavras como se não soubéssemos que havia microfones. Alguns anos depois, soubemos que a GRC instalava microfones em todo o lado, como na Agência de Imprensa Livre do Quebec e na casa de activistas. Lembro-me de, a esse respeito, ter sido filmado por um polícia à paisana, mesmo quando estava a atravessar uma rua tranquila, voltando da gráfica com os jornais do En Lutte! Esse tipo de prática é, aliás, um dos modus operandi mais antigos usados pela polícia para intimidar as pessoas, colocando em causa, de uma forma ou de outra, a ordem estabelecida.
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Até Novembro de 74, En Lutte! era um grupo que defendia a independência do Québec. No vocabulário maoísta, isso significava tomar posições políticas a favor da luta de libertação nacional do Québec, desde que fosse dirigida pelo partido revolucionário da classe operária.
Hoje, adopto a ideia de que desde que o capitalismo entrou na sua fase de decadência durante a Primeira Guerra Mundial, as lutas de libertação nacional visam apenas fazer com que os proletários tomem partido por uma fracção ou outra da burguesia. Essas lutas levam-nos a confrontar-nos uns com os outros, podendo chegar até à guerra, onde ainda é o proletariado quem morre na linha da frente.
O excerto abaixo de Socialismo ou Barbárie da Communist Worker’s Organisation (CWO), secção britânica do Bureau International pour le Parti Révolutionnaire, escrito em 1994, é muito claro sobre este ponto." Àqueles que dizem que Marx apoiava certos movimentos independentistas ou que Lénine apoiava uma política de apoio à auto-determinação, respondemos que um «marxismo» tão mecanicista não é marxismo de todo. Marx escrevia numa época em que podia ver que o capitalismo estava a desenvolver a classe operária, novas tecnologias, maquinaria e o pensamento científico. Tudo o que era necessário para tornar o comunismo possível. Consequentemente, Marx e Engels apoiaram certos movimentos nacionalistas quando achavam que estes podiam livrar-se do feudalismo e de outras estruturas sociais pré-capitalistas. Essa foi a base de uma nova área de desenvolvimento capitalista. Durante este período ascendente do capitalismo, era possível que novas nações capitalistas independentes emergissem e, assim, alargassem os fundamentos da classe operária, essa futura sepultadora do capitalismo. No entanto, desde a abertura desta fase presente de dominação imperialista do planeta, qualquer tal formação capitalista independente não é possível. Foi Luxemburgo e não Lénine quem melhor compreendeu esta realidade, apesar da sua análise errada das raízes do imperialismo. O desenvolvimento subsequente do capitalismo durante este século apenas confirmou a justeza da posição de Luxemburgo sobre a questão nacional. Lénine tinha previsto que a luta política das nações coloniais provocaria uma enorme crise do sistema. Na realidade, isso não aconteceu porque, quando ocorreu a descolonização, isso apenas teve o efeito de reduzir os custos militares do imperialismo. Não alterou em nada a relação económica. Em vários casos, a descolonização por si só foi parte integrante da luta inter-imperialista porque foi imposta pelos EUA às potências imperialistas mais antigas, após a sua emergência como poder imperialista dominante em 1945.
Certamente, nesta era do imperialismo, podemos afirmar que nenhuma potência imperialista é independente, já que todos os Estados fazem parte de uma hierarquia na qual existem apenas graus de dominação. Esses Estados na periferia do sistema estão em posição de fraqueza. Aí, a burguesia local usará ocasionalmente um discurso «anti-imperialista» (ou seja, nacionalista) para esconder o facto de que ela não se tornou senão uma parte integral da dominação mundial do capitalismo sobre a classe operária. O único caminho seguro para a emancipação dos proletários do planeta é a guerra de classes internacional, não o apoio a qualquer máfia burguesa de libertação nacional. O objectivo do proletariado é a abolição de todos os Estados-nação e de todas as fronteiras.»
Durante o primeiro congresso da En Lutte!, em Novembro de 74, uma votação unânime posicionou-se a favor da unidade de todos os operários canadianos e quebequenses. O congresso, após algumas resoluções, percebeu que os operários quebequenses tinham os mesmos inimigos que os operários canadianos e, portanto, estes tornavam-se os seus principais aliados. O raciocínio era que líderes políticos francófonos como René Lévesque, bem como líderes económicos como os que estão à frente da Bombardier ou da Donohue, talvez tivessem interesse em criar um Québec «independente» capitalista com os seus selos, a sua bandeira e os seus dólares – mesmo que, na altura, vários nacionalistas estivessem prontos a optar pelo dólar americano como moeda quebequense. Esta resolução foi uma mudança organizacional muito importante e provocou a difusão do jornal, bem como encontros com grupos maoístas em todo o Canadá. Isto resultou na produção de um jornal bilingue a cada duas semanas em 1975 e na impressão do mesmo jornal todas as semanas em 1976. Por outro lado, apesar desta resolução que parecia expandir o campo de acção política do proletariado quebequense, limitado a delimitações provinciais, En Lutte! continuou, no entanto, no vácuo político da teoria estalinista para a edificação do socialismo num único país. O apoio às lutas de libertação nacional, que se resume a apoiar uma burguesia em detrimento de outra (posição, claro, completamente anti-proletária), continuou assim nos países da periferia capitalista.
Durante os anos 75, 76 e 77, o EL juntou muitos pequenos grupos maoístas tanto no Quebec como nas outras províncias, sem contar toda uma panóplia de indivíduos. O número de membros nessa altura rondava os 350.
O En Lutte! encontrava assim outros grupos maoístas/marxistas-leninistas com vista a debater ou mesmo a conquistá-los.
Lembro-me de um convite para debater da parte do PCC (m-l). A carta deles não era outra senão Rhéal Mathieu, que mais tarde se tornou um líder nacionalista de extrema-direita. Eu estava presente nesse encontro e havia outros dois membros do EL comigo. Do outro lado da mesa, Hardial Bains e dois membros do seu «partido» enfrentavam-nos.
Este « partido» nunca teve nada em comum com um verdadeiro partido proletário internacionalista. Foi fundado em 1970 completamente desligado das lutas da classe operária. Como todos os maoístas, promovia o conceito estalinista do «socialismo num só país». O guru do «partido», Hardial Bains, achava-se o «Mao canadiano». Havia pelo menos um ponto em comum com Mao, como veremos mais à frente. Uma enorme rotatividade de membros do «partido» devia-se, entre outras coisas, às suas provocações com a polícia. O seu quadro de membros nunca ultrapassou as cinquenta pessoas. Nos meios esquerdistas, o PCC (m-l) era sobretudo conhecido como o partido do 2x4, nome dos paus que usava nas manifestações não apenas contra os polícias, mas também contra os grupos que queriam colocar-se à frente do seu cortejo nas demonstrações. Da China, no início dos anos 70, depois para a Albânia, passou depois a apoiar Cuba nos anos 90, em resumo, de um capitalista de estado a outro.
Noutro momento, discutimos a cisão que ocorreu no Verão de 71 no PCC (m-l). Um dos líderes dessa cisão foi Pierre Dupont, que fundou no Outono de 71 o Movimento Revolucionário Operário (MRO), que só durou uma temporada. Continuava a ser um grupo maoísta que só criticava o aventureirismo do PCC (m-l), o seu isolamento em relação aos francófonos e, finalmente, o egocentrismo do guru Hardial Bains. Mesmo tendo sido apenas um simpatizante do PCC (m-l), Bains contou-nos que o seu partido tinha contemplado na época o seu assassinato, mas que as condições então não eram favoráveis para tal. (sic!) Este "Mao canadiano" não disse mais sobre este ajuste de contas que ponderava. O PCC (m-l) situava-se claramente na linha política dos maoístas. Desde o PCC de Mao, passando pelos maoístas no Nepal ou no Peru, sem falar dos khmers vermelhos, o assassinato de opositores políticos, dentro ou fora do seu grupo, fazia parte dos seus costumes políticos.
Maoístas de Halifax, Toronto e Vancouver já tinham aderido à organização. Mas para desenvolver ou consolidar o OMLC em todo o país, foram enviados quebequenses para outras províncias com o objectivo de divulgar as posições de En Lutte!. Militantes mudavam-se voluntariamente para lugares como Vancouver ou Edmonton em nome da organização. Como o desemprego era mais baixo naquela época, era relativamente fácil para eles encontrar trabalho e integrar-se para fazer agitação política com vista a recrutar novas forças.
O En Lutte! organizava então conferências para a unidade dos marxistas-leninistas. Por exemplo, numa dessas conferências, no Cégep Édouard-Montpetit, 3.000 pessoas vieram assistir. Cerca de mil pessoas ligadas à organização também assistiam regularmente aos encontros do 1º de Maio, às festas do 8 de Março e aos aniversários do En Lutte! Na mesma época, o Partido Comunista Operário, maoístas mais “puros” do que o EL, tinha assistências semelhantes nas suas reuniões públicas. Só os oradores dentro da “linha correcta” maoísta podiam falar. Internacionalistas do campo proletário nunca poderiam expressar-se livremente, porque certamente teriam destruído as figuras de Estaline e Mao, ao mesmo tempo em que pulverizavam a teoria do socialismo num só país e a sua concepção nacionalista e sectária de um partido que não tinha nada de proletário.
Os clandestinos dos Jogos Olímpicos de 76
Quando os Jogos Olímpicos chegaram a Montreal, em 1976, soubemos que as forças policiais tinham de fazer detenções pouco antes de começarem. Alguns membros do comité central e mais umas quantas pessoas numa situação parecida com a minha (várias detenções) decidiram então ou disfarçar-se, ou esconder-se durante toda a duração dos jogos. Em Abril, um agente da GRC veio duas vezes chatear a minha companheira, dizendo-lhe que queria mesmo ver-me. Eu não tinha tido problemas com a polícia desde 1971. No fim, uma noite, dois polícias conseguiram encontrar-me em casa. Como não tinham qualquer mandado, disse-lhes que não queria saber nada deles e que podiam desaparecer imediatamente. Um dos polícias disse-me que me ia prender no próximo Verão. Por isso passei o período dos jogos escondido nos Estados Unidos.
Houve de facto detenções, mas não foram as dos militantes; a polícia divertiu-se mais a perseguir os sem-abrigo e outros vagabundos indesejados para limpar a cidade durante os Jogos, metendo-os na prisão ou «deportando-os» fora da Ilha de Montreal.
No Quebec, desde Novembro de 76, é o partido Québécois que está no poder. A primeira lei aprovada por este partido visava impedir qualquer tipo de investigação sobre a construção do estádio olímpico. Nenhuma investigação deveria revelar como alguns capitalistas quebequenses se enriqueceram fraudulentamente durante a construção do estádio, com a cumplicidade dos sindicatos da construção. Um pequeno exemplo: guindastes eram alugados a um custo exorbitante de 1 000$ por dia; também se assegurava que um segundo guindaste estivesse disponível caso o primeiro quebrasse; e um terceiro caso, infelizmente, o segundo se partisse! O novo governo do Quebec aprovou – através de um imposto especial sobre o tabaco – que os fumadores e fumadoras arcassem com os custos gigantescos da construção do estádio; quer dizer, portanto, que foi em grande parte o proletariado que pagou por ele, uma vez que o proletariado compõe a maior parte da população de qualquer país!
Um acidente envolvendo o Primeiro-ministro Lévesque mostra que a aplicação das leis nunca é a mesma dependendo da classe social a que se pertence. No dia 5 de Fevereiro de 77, Lévesque atropelou mortalmente um homem durante a noite depois de passar a noite com amigos. Será que Lévesque usava óculos? Será que tinha bebido demais? Nunca soubemos. Lévesque safou-se muito bem. Nenhuma investigação foi convocada e ele teve direito a um motorista privado logo no dia seguinte ao «acidente».
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Depois de afirmar que os «objectivos a mais longo prazo de difusão do
programa e de mobilização operária estagnaram em boa medida» e que «talvez só haja um terreno [as lutas de
libertação nacional] no qual realmente
avançámos», as campanhas de apoio às lutas de libertação nacional
continuavam: Salvador, Irão, Irlanda e Nicarágua. Artigos no jornal e na
revista eram publicados, fundos eram recolhidos e até militantes foram enviados
para a Nicarágua quando os sandinistas chegaram ao poder. Na Primavera de 80,
EL condena o terrorismo da OLP. No entanto, e isto não é sem recordar o Partido
Comunista Revolucionário (PCR) que apoia os maoístas no Nepal, os maoístas de
EL tinham «então compreendido que era
inútil considerar essas lutas como devendo ou podendo conduzir ao socialismo de
forma imediata e deixámos de criticar os partidos ou frentes que aí estavam
envolvidos do ponto de vista da luta imediata pelo socialismo» Sobre a
crise do movimento marxista-leninista, Charles Gagnon 1981.
Esta única citação é suficiente para mostrar que EL estava completamente fora do campo proletário e ao serviço da burguesia, fosse ela qual fosse. Os operários já não se juntavam, mas a organização avançava realmente no seu apoio às lutas nacionais nos países mencionados acima. EL não criticará os partidos ou frentes que misturam os interesses da burguesia com os dos proletários desses países porque não se trata de uma luta pelo socialismo. Depois disto, era de admirar que a adesão dos proletários estagnasse?
Outro tema que me tocou particularmente foi o financiamento desta organização. Posso falar disso com conhecimento de causa, já que fui responsável nacional das finanças da organização durante vários anos. Por volta de 1978, em determinado momento, chegámos mesmo a fazer uma campanha de financiamento a nível nacional, campanha que angariou 147 500$. Quando penso nesse dinheiro retirado do bolso dos operários e das operárias para uma organização do capital, não é motivo para nos orgulharmos. Em luta! Tinha também uma vasta gama de iniciativas para disseminar o marxismo-leninismo: uma editora, uma prensa de impressão (as Presses Solidaires) que também imprimiam para os sindicatos, uma companhia de teatro (o Théâtre de la Shop), livrarias no Quebec, Montreal, Toronto e Vancouver, uma companhia de cantores e uma agência de distribuição de brochuras, filmes e discos. Todas essas empresas tinham uma multidão de permanentes 7 que, juntamente com a maioria dos eleitos liberados do seu trabalho diário, possuíam assim um peso político importante na organização. Eu nunca fui permanente e sempre penso que uma verdadeira organização revolucionária deve ter o mínimo possível de militantes permanentes.
A partir de 1976, uma revista teórica chamada Unidade Proletária8 (produzida em inglês e francês) começou a ser publicada com artigos mais aprofundados do que o único jornal En Lutte!. No entanto, os artigos baseavam-se no maoísmo e no marxismo-leninismo e, portanto, estavam sempre a léguas das ideias que eu defendo actualmente, ou seja, as posições políticas gerais da corrente da Esquerda Comunista. Aliás, a própria existência da Esquerda Comunista era ignorada pelos militantes.
Uma revista internacional em francês, inglês e espanhol (Forum International) foi publicada desde 1977. Esta revista publicou artigos de diferentes grupos estalinistas: maoístas, marxistas-leninistas, pró-albaneses. Algumas vezes, militantes do En Lutte! iam para outros países ajudar grupos a melhor se organizarem. O En Lutte! era financeiramente independente de qualquer grupo ou país no mundo. No entanto, os seus jornais e revistas promoveram o capitalista de Estado chinês e albanês que eles chamavam de socialismo.
O En Lutte! afirmava que a China tinha sido socialista até à morte de Mao, mas que depois, sem haver levantes operários, passou para o capitalismo de estado. Dialéctica estranha, porque se a China tivesse sido realmente socialista, a classe operária teria reagido fortemente para não perder o poder.
Diante da evidência do carácter reaccionário da teoria dos Três Mundos, o EL! acaba por denunciar essa ideia maoísta. De facto, essa teoria eliminava completamente a luta da classe operária contra a burguesia. Segundo ela, existiam duas superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética, que constituíam o primeiro mundo. O segundo mundo era representado pelos países imperialistas sob a influência dos países do primeiro mundo. O terceiro mundo era todos os outros países, incluindo os países «socialistas» como a China. Regimes do chamado terceiro mundo, por mais corruptos que fossem, como, por exemplo, a Roménia de Ceaușescu e o Chile de Pinochet, deviam ser apoiados quando estavam em luta contra o primeiro mundo! Um partido maoísta como o partido «comunista» operário (PCO) chegou mesmo a apoiar o imperialista canadiano ao apoiar as vontades de independência da burguesia canadiana contra o imperialismo americano. Quanto ao partido «comunista» chinês, este chegou mesmo a apoiar acções do imperialismo americano contra o imperialismo soviético. De facto, para os maoístas chineses, o inimigo principal era o imperialismo soviético; isso levou mesmo a China a conceder ajuda financeira ao regime de Pinochet no Chile porque este era contra o imperialismo russo.
Aqui está o que diz o Gabinete Internacional do Partido Revolucionário na sua plataforma: « Na China, através de um percurso diferente, chega-se ao mesmo resultado, ou seja, a um capitalismo de Estado que ainda hoje procura o seu papel dentro do sistema imperialista internacional. A diferença essencial na história chinesa é que nunca conheceu uma revolução proletária semelhante ao Outubro russo de 1917. A história do regime chinês actual começa com a trágica derrota do movimento proletário de Cantão e Xangai em 1927. Seguiu-se uma guerra nacional conduzida por um bloco de classes em que a população camponesa serviu de tropa de choque. Terminou com o estabelecimento de um regime sob os auspícios estalinistas, e baseado no mesmo tipo de relações capitalistas de Estado altamente centralizadas. Este regime, que rompeu com a esfera de influência russa nos anos 60, sob a bandeira do neo-estalinismo, acabou por se orientar para os Estados Unidos nos anos 70. Mas estas mudanças, aparentemente contraditórias, eram o resultado de tentativas de manter o controlo da economia e de incentivar a acumulação de capital. A China nunca foi uma potência proletária, e a ideologia do maoísmo não era mais do que um meio de doutrinar as massas para que sacrificassem os seus interesses em benefício do capital nacional.»
A posição do En Lutte!, durante o referendo de 1980, colocou-o ainda mais formalmente – perante a classe operária – no campo dos partidos políticos parlamentares ao expressar apenas a preocupação de que a questão do referendo fosse clara. No sistema democrático parlamentar, só podem ser expressas opiniões políticas burguesas. O EL, portanto, defendeu a anulação no referendo enquanto o PCO defendeu a abstenção. Então, o EL criou um comité para a anulação, que era ilegal porque, de acordo com a lei dos pequistas, todos os votantes deviam estar sob os guarda-chuvas do SIM ou do NÃO. Foi publicada uma brochura intitulada Nem federalismo renovado, nem soberania-associação. Ela foi distribuída por todo o Canadá. Onde estão os interesses do proletariado numa escolha tão podre? Longe de tudo isso, longe das questões parlamentares que sempre servem apenas aos interesses da burguesia, seja qual for. Repetamo-lo ainda uma vez: apesar de toda a aparência de proletarismo, En Lutte! nunca fez parte do campo do proletariado. As posições de esquerda que propagava, como todas as posições de esquerda em geral, não fizeram mais do que favorecer a burguesia ao semear confusão entre a nossa classe.
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No Verão de 80, organizei uma viagem à Albânia com uma vintena de membros e simpatizantes. Foi toda uma confusão para lá chegar porque o Canadá não tinha absolutamente nenhum vínculo com este país, um dos resultados da Guerra Fria. Na Albânia, os estalinistas de Enver Hoxha assumiram o poder durante a Segunda Guerra Mundial. Durante as disputas inter-imperialistas entre russos e chineses, a Albânia posicionou-se no campo do imperialismo chinês. Em 76-77, as contradições entre os estalinistas puros albaneses e os estalinistas maoístas agravaram-se e a Albânia orientou-se para o imperialismo francês e o dos países escandinavos. Porque, na era da decadência actual, em que o capitalismo conseguiu expandir a sua dominação por todo o globo, cada país se torna imperialista. Assim, enredados na lama estalinista do marxismo-leninismo, preparávamo-nos para uma viagem à Albânia como os muçulmanos para Meca. Visitámos este pequeno país de dois milhões de habitantes durante duas semanas. Visitámos fábricas, um hospital, uma creche, museus, uma cooperativa, um centro dentário e ainda me esquecerei de outros. Que decepção foi para a maioria de nós! Em primeiro lugar, foi completamente impossível encontrar líderes do Partido do Trabalho da Albânia, o partido estalinista que geria o capitalismo de Estado albanês, que só reconhecia a seita do PCP (m-l). Em segundo lugar, o nacionalismo albanês estava presente em todo o lado e o nosso ideal de «internacionalismo proletário», mesmo através da lente do marxismo-leninismo, sofreu um golpe.
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Ainda a polícia e os seus mercenários
Outro incidente com as forças policiais em Katevale (Sainte-Catherine d’Hatley) em Estrie, a 29 de Setembro de 78. Militantes de EL e de grupos populares tinham alugado um campo por um fim de semana para formação. Cerca de vinte agentes da GRC rodearam então o local da reunião. O objectivo deles? É bem provável que se tratasse, mais uma vez, de uma manobra repressiva para atrapalhar o trabalho de alguns militantes e intimidar os mais jovens. Foi preciso sair dali. Alguns militantes conseguiram sair do campo sem que os polícias se apercebessem e telefonaram a jornalistas sempre à procura de notícias sensacionais. Eles disseram-lhes que havia uma reunião pacífica a decorrer num campo bastante tranquilo de Katevale e que cerca de vinte agentes da polícia à civil a rodeavam neste momento. Certamente, isso foi suficiente para os jornalistas se dirigirem ao local, o que atrapalhou o trabalho dos polícias para proceder às detenções. Fotografámos alguns deles, alguns vestidos de caçadores. Após esta falha monumental, a Sûreté du Québec afirmou não estar a par desta reunião nem da actividade dos seus agentes aí. No entanto, ao mesmo tempo, estes polícias mentirosos revistavam carros na vila de Katevale. Obviamente, os media burgueses falaram muito pouco desta grande operação da polícia que correu mal.
Vamos ficar um pouco pelo mesmo tema. Na Primavera de 70, numa livraria maoísta em Montreal, o fogo foi posto (foi um incêndio criminoso) enquanto havia um rapaz da livraria lá dentro. Ele tinha tentado apagar o fogo com as mãos e com panos, queimando-se bastante no processo. A polícia chegou quase imediatamente depois de o fogo ter começado e procedeu à prisão do responsável pela livraria. Este foi condenado a seis meses de prisão, supostamente porque tinha posto fogo à sua própria livraria para fazer publicidade à causa maoísta. A prova é que ele se tinha queimado as mãos ao pôr o fogo!
Ao meio-dia de um Verão de 77, enquanto saía do centro de adultos onde ensinava, ouvia rádio e ouvi que, na fábrica Robin Hood, tinham acabado de disparar contra os operários em greve. Decidi ir expressamente ao local para ver do que se tratava. Foi então que soube que "os assassinos de aluguer" da companhia tinham acabado de disparar contra os operários. Felizmente, nenhum grevista tinha sido ferido. No entanto, do outro lado da rua, uma bala atravessou a janela de um apartamento e acertou numa parede logo acima da cama onde um bebé estava a dormir a sesta. Assim, no local do tiroteio, vejo os seguranças e/ou assassinos de aluguer a retirarem-se para o terreno da companhia. A polícia chegou pouco tempo depois. Ninguém conseguiu encontrar uma forma de reagir a este tiroteio. Eu então agitei os grevistas dizendo que «os guardas da empresa acabaram de vos disparar em frente a todos e a polícia não faz nada, são assassinos, é preciso detê-los.» Portanto, pressionámos os polícias para prender esses potenciais assassinos… Diante da nossa insistência, duas viaturas da polícia entraram no recinto da fábrica… Meia hora depois, as viaturas da polícia saíam a toda velocidade, com, ao que nos parecia, nenhum guarda lá dentro, apenas polícias. Soubemos depois que os polícias tinham deixado que eles se deitassem no banco de trás para não serem vistos. Claro, era de esperar, quando foram a julgamento, todos foram absolvidos. Segundo o juiz, estavam a agir dentro da lei; estavam encarregados de defender a propriedade privada de Robin Hood. Os grevistas deviam permanecer no passeio e não invadir um ou dois metros do terreno da empresa, caso contrário os capitalistas e os seus guardas de segurança tinham o direito de disparar contra eles.
Há outros exemplos do facto de o Estado não ser neutro, de ser um instrumento de repressão para proteger a propriedade dos capitalistas. Nas Regent Knitting Mills em St-Jérôme, antes de fechar, houve incidentes semelhantes: operários foram espancados porque ousaram dar alguns passos no terreno da empresa.
Dissolução do grupo maoísta En Lutte !
A partir de 1980, o En Lutte! teve cada vez mais dificuldade em mobilizar operários, especialmente operários. Durante toda a sua existência, o En Lutte! só teve uma minoria de operários e operárias como membros. A organização era composta por muito mais professores de cégeps, universidades e estudantes do que por proletários. Como o EL tinha defendido a anulação no referendo de 80, muitos militantes saíram após a vitória do NÃO, alguns argumentaram que devia ter-se proposto votar SIM mas um Sim crítico (sic). Françoise David, que fundou o Québec Solidaire (QS), fazia parte desse grupo.
Além disso, após a dissolução, alguns tornaram-se anti-comunistas porque associavam o comunismo ao estalinismo, outros optaram pelo nacionalismo quebequense à moda feminista polvilhado de social-democracia, como uma das dirigentes da organização Françoise David. Houve também quem tenha simplesmente se juntado às fileiras feministas burguesas ou social-democratas. Quanto a outros, enriqueceram graças às empresas que criaram.
O programa estalinista do EL já não era defendido – e com reservas – senão por uma pequena minoria: os comités dos trinta. Eu juntei-me a essa minoria durante algum tempo até ao seu desaparecimento algumas semanas após a dissolução da organização. Quanto à maioria, defendia posições social-democratas.
A OMLC En Lutte! dissolveu-se em Maio de 82 com 187 votos a favor da sua dissolução, 25 contra e 12 abstenções. EL não conseguiu encontrar nos seus estudos estalinistas a força teórica e política para tirar lições da sucessão de derrotas na Alemanha, Rússia, etc. Não percebeu que o isolamento da Rússia revolucionária no início dos anos 20 era a principal causa da sua rápida degeneração. Esse era o ponto principal que mostrava claramente que EL não estava no campo proletário.
Na verdade, EL foi uma óptima escola de formação para quadros e dirigentes de organizações da burguesia. Foi a mesma coisa com outras formações estalinistas rivais. Aqui estão alguns exemplos, mas a lista é muito incompleta. De EL, houve Françoise David, uma das líderes do QS; François Saillant, candidato do QS e dirigente do Front d'action populaire en réaménagement urbain (FRAPRU); Raymond Legault, dos pacifistas do Collectif Échec à la guerre; André Paradis, da Ligue des Droits et Libertés; André Lavallée, [ex-director adjunto da ex-ministra pequista Louise Harel] presidente de bairro de Montreal pelo partido do prefeito Tremblay; Monique Séguin e Diane Fortier, ex-presidentes da Alliance des profs de Montréal; jornalistas de meios de comunicação como Christian Rioux no Devoir e advogados sindicais. Do PCO, houve Marc Laviolette, ex-presidente da CSN e militante do PQ; Gilles Duceppe, líder do Bloc Québécois; Pierre-Paul Roy, ex-chefe de gabinete de Gilles Duceppe e antigo conselheiro de Lucien Bouchard; Jean-François Lisée, jornalista e ex-líder do PQ, e Roger Rashi no QS e na Alternativas. Do PCC (m-l), houve Arnold August, presidente da agência de viagens Voyages Culture Cuba; Pierre Dupont, jornalista na Radio-Canada. Da União Bolchevique, houve Pierre Dubuc, director do Aut’Journal e candidato à liderança do PQ. Da Mobilisation, houve Pierre Baudet nas Alternativas. Esses indivíduos introduziram entre a classe operária a posição nacionalista do «socialismo num só país». Estas pessoas, no fundo, nunca traíram, apenas continuaram a política da burguesia, mas de outra forma.
Eu já tinha pedido para sair desde Outubro de 81 depois de ter investido nove anos da minha vida política nesta organização. Não foi porque eu estava consciente de que En Lutte! tinha sido uma organização estalinista, mas sim porque achava que, há um ano, a organização estava a tender cada vez mais para a social-democracia. As minhas actividades políticas militantes em grupos ou partidos nacionalistas e de esquerda fizeram-me perder tempo, dinheiro, dias de liberdade e, sobretudo, desorientaram-me na vontade de fazer parte activa da luta pelo comunismo. Alguns dirão que ao militar nesses grupos, eu me politizei. De modo nenhum e, pior ainda, os hábitos e ideias adquiridos em grupos de esquerda atrasaram o meu conhecimento de um marxismo verdadeiramente vivo. O activismo nesses grupos ou partidos tornou-me cúmplice dessas organizações do capital, envolvendo elementos conscientes do proletariado no mesmo problema que eu enquanto semeava confusão entre eles. Não existe qualquer continuidade entre o activismo nesses grupos do campo político burguês e o campo proletário. Deixar que se acredite que os revolucionários possam percorrer um caminho ou "partilhar uma experiência" com grupos maoístas é, no melhor dos casos, abrir-se ao frentismo... que a Esquerda Comunista sempre combateu. Deixar acreditar que poderia haver qualquer ligação, qualquer abordagem ou investigação comum ao marxismo-leninismo ou ao maoísmo com a Esquerda Comunista, na construção do partido comunista, é abrir a porta a todas os compromissos organizacionais e políticos, ou até ao entrismo, que a Esquerda Comunista justamente combateu. Esses militantes devem fazer o balanço do seu passado político e romper politicamente com ele. É uma condição indispensável para conseguir desenvolver uma actividade revolucionária liberada, na melhor medida possível, dos restos do esquerdismo, tanto na compreensão das questões políticas como nas questões organizacionais. Esta é a razão principal desta obra.
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Não abordei o trotskismo e os trotskistas nesta autobiografia política. A razão é bem simples: é que nunca militei, de perto ou de longe, em nenhuma das suas organizações. Considero que as organizações trotskistas são tão nocivas para o proletariado quanto os maoístas. Para mais informações, sugiro a leitura do folheto Trotski, o trotskismo, os trotskistas: Da revolução ao reformismo. O folheto é uma tradução de um texto da Communist Workers Organisation datado de Outubro de 2000. A sua publicação em francês é fruto dos esforços do Groupe Internationaliste Ouvrier (Canadá) e de Bilan et Perspective (França).
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Paralelamente,
eu tinha sempre militado na CEQ e na Aliança dos Professores e continuei a
militar nessas organizações de sabotagem das lutas operárias até 2002. Para
mais detalhes sobre o resumo que faço dos meus trinta anos de compromisso
sindical, veja o folheto «Do sindicalismo crítico à crítica do sindicalismo,
Testemunho de um ex-sindicalista indignado».
O facto de eu ter chegado a rejeitar os sindicatos enquanto órgão proletário não significa que eu não participe nas lutas dos meus irmãos e irmãs do ensino, muito pelo contrário. Participando, por exemplo, nas assembleias de professores, faço propostas para que as nossas lutas saiam do enquadramento corporativista sindical, para que se estendam a outras trabalhadoras e trabalhadores com bases comuns.
Depois da dissolução da EL, juntei-me a alguns militantes que se encontravam regularmente para criticar o «marxismo» de Estaline e, sobretudo, a sua visão idealista das ciências. Este pequeno grupo de discussão intelectual teve uma existência breve, que não ultrapassou um ano. Um dos seus temas de debate foi o caso Lyssenko.
Um cientista favorito de Estaline, Lyssenko atacou a genética de forma agressiva, o que fez com que ela fosse finalmente qualificada como “pseudo-ciência burguesa” e banida em 1948 pela URSS. Muitos cientistas submeteram-se às teorias de Lyssenko, que tinha a aprovação do comité central do partido estalinista. A consolidação do capitalismo de estado na Rússia fez-se em todos os níveis da sociedade. A “inquisição” estalinista teve resultados prejudiciais mesmo para a ciência burguesa. Assim, os cientistas publicaram cartas nas quais confessavam os seus erros e elogiavam a sabedoria do partido estalinista. Aqueles que se recusaram a fazê-lo perderam os seus cargos. Alguns foram até enviados para campos de trabalho, outros desapareceram para sempre. De facto, nos anos 30, o Estado de Estaline tentou desacreditar os intelectuais universitários considerados burgueses e frequentemente formados no estrangeiro, para os substituir por «filhos do povo», cuja ascensão dependia do Estado e que, neste caso, eram muito mais maleáveis. Para mais detalhes, leia o romance As Vestes Brancas de Vladimir Doudintsev, 1967. Este é o destino trágico de um cientista que se recusou a submeter-se às teses de Lysenko, que havia condenado a genética.
Depois do naufrágio dos m-l, continuei a vaguear no mar do activismo como os passageiros da jangada da Medusa sem saber muito bem para onde ia. Na prática, enfiava-me ainda mais no reformismo e no nacionalismo sem nem me aperceber. A ideologia burguesa é das mais insidiosas.
A luta contra os pesticidas numa cidade suburbana
Em 89, fundei um Grupo para Acabar com os Pesticidas (GFP). Estava enojado com os suburbanos que queriam um relvado igual a um tapete verde de mesa de bilhar e envenenado pelos vapores dos pesticidas. Foi a minha pequena onda ecológica no sentido de “pensar localmente e agir localmente”, slogan de que alguns anarquistas gostam especialmente.
O presidente da câmara ultra-conservador da cidade tinha, como pessoa de contacto sobre pesticidas, um representante do monopólio Chemlawn. Este monopólio sabia como se intrometer nos conselhos municipais onde havia uma forte oposição ao uso de pesticidas químicos. Aliás, quando uma proibição dos pesticidas químicos foi votada por outro conselho municipal alguns anos mais tarde, a Chemlawn já tinha o seu pesticida “ecológico”. Os Verdes chegam mesmo a promover este monopólio dizendo que «a indústria vai adaptar-se a esta nova realidade e vai oferecer soluções alternativas, como já acontece com algumas empresas» (incluindo a Chemlawn!). (Memória apresentada ao Grupo de reflexão sobre pesticidas em meio urbano pela Coligaçzão para as alternativas aos pesticidas).
No entanto, para os operários e operárias, nada mudou, o monopólio continua sempre a acumular a mais-valia. Falo desta luta para mostrar que ainda é possível ganhar algumas migalhas sem que isso ponha em causa todo um sistema político e económico, um regime económico que, pela própria premissa da sua existência (a necessidade de acumular valor de troca, de obter lucros), destruiu o meio ambiente terrestre até causar o efeito de estufa. Aliás, essas poucas migalhas ganhas nunca passam de uma ilusão de vitória onde as corporações financeiras, em conjunto com os políticos, aceitam ceder a parte nesta mistificação que chamamos democracia.
Na realidade, para estas empresas, a sua suposta protecção do ambiente pode servir duplamente os seus interesses e tornar-se lucrativa politicamente. Para políticos pequenos ou grandes como Al Gore, isso permite desviar as massas operárias e trabalhadores da luta contra a causa da destruição do ambiente, ou seja, a busca do lucro. Há uma verdade incómoda que eles não vão dizer: é que o verdadeiro responsável por esta ameaça das alterações climáticas é o sistema capitalista com a sua inevitável corrida desenfreada aos lucros. Completamente ao contrário da realidade (onde a satisfação das necessidades depende de uma dialéctica permanente com o seu ambiente), para as empresas capitalistas, o florescimento e a sobrevivência dos seus negócios não se encontram na preservação ambiental ou no desenvolvimento da satisfação das necessidades humanas: encontram-se na capacidade imediata de ganhar o mais rapidamente possível mais-valia; e isso, não importa as repercussões a curto ou longo prazo.
Anos 89 e 90: colapso da União Soviética e dos seus países satélites
Esse colapso não foi uma surpresa para mim. Nenhum desses países era comunista. A sua suposta economia planificada não tinha nada a ver com o socialismo. Era realmente um tipo de economia capitalista totalitária concentrada no imperialismo, que estava em conflito com outro tipo de economia capitalista mais liberal. As tentativas de reformas do capitalismo de estado de Gorbatchov não conseguiram convencer a burguesia russa, cujos altos dirigentes estavam no partido "comunista". A ruína económica devida à corrida armamentista foi um dos factores desse colapso. A passagem de um capitalismo de estado dominante para um capitalismo privado, mas apoiado e regulado pelo estado, aconteceu relativamente de forma tranquila para todas as fracções da burguesia, incluindo os membros do PC estalinista. A Revolução russa de Outubro de 1917 será sempre uma inspiração brilhante para mim. Ela demonstrou que os proletários podiam derrubar a classe burguesa. Foi o isolamento da classe operária russa que destruiu as possibilidades revolucionárias de 1917. O que aconteceu na Rússia nos anos 20 e depois, não tem nada a ver com o comunismo: era apenas um capitalismo de Estado em plena construção. Nunca houve uma sociedade comunista em qualquer lugar do mundo. A revolução de Outubro de 1917 na Rússia foi o primeiro passo de uma revolução comunista mundial numa onda revolucionária internacional que pôs fim à guerra imperialista e se prolongou por vários anos. O fracasso dessa onda revolucionária, especialmente na Alemanha em 1919-23, condenou a revolução na Rússia ao isolamento e a uma rápida degeneração. O estalinismo não foi produto da revolução russa, mas o seu coveiro. A maior mentira da burguesia há gerações é repetir que o estalinismo é comunismo.
A luta
entre a burguesia Mohawk e as burguesias canadiana e quebequense no verão de 90
A 11 de Março de 1990, os Mohawks de Kanehsatake iniciam uma vigília pacífica no Pinhal para protestar contra a ampliação do campo de golfe pela câmara municipal de Oka, no que eles consideram ser o seu território ancestral.
A 11 de Julho, a SQ ataca os Mohawks ocupantes. Um polícia da Unidade de Intervenção (SWAT) é mortalmente ferido. O culpado nunca foi encontrado, mas há indícios de que poderia ter sido morto acidentalmente pelos seus colegas. Após este ataque, os Mohawks erguem barricadas. Em Kahnawake, na Margem Sul, os Mohawks bloqueiam as auto-estradas que levam à ponte Mercier, em solidariedade com Kanehsatake.
A 14 de Agosto, o exército instala-se próximo dos territórios Mohawks.
A 20 de Agosto, o exército chega a Oka e Châteauguay para substituir a SQ nas barricadas.
A 28 de Agosto, quando o exército se aproximava de Kahnawake, carros que transportavam mulheres, crianças e idosos a fugir do exército foram apedrejados por manifestantes nacionalistas à saída da ponte Mercier, em Ville La Salle. Presente no local, a SQ não fez nada para os deter. Um ancião mohawk, Joe Armstrong, morreria alguns dias depois de um ataque cardíaco.
A 29 de Agosto, desmantelamento das barricadas que bloqueavam a entrada da ponte Mercier.
A 29 de Setembro, os Mohawks de Kanehsatake foram detidos e levados ou à base militar de Farnham ou à sede da Sûreté du Québec em Montreal. Algumas das pessoas detidas foram vítimas de brutalidade policial.
O Estado do Quebec e os seus meios de comunicação, com demagogos como Gilles Proulx, fizeram tudo durante a luta para alimentar o ódio entre os proletários mohawks e quebequenses.
Juntei-me ao Grupo de solidariedade com os Autóctones que foi criado no dia seguinte ao ataque armado da SQ. Naquele Verão, o Grupo organizou várias actividades em apoio às reivindicações nacionalistas dos líderes Mohawks. Por exemplo, bloquear a avenida René Lévesque durante várias horas em frente aos escritórios do então primeiro-ministro, Robert Bourassa.
Eu ainda estava atolado no nacionalismo, embora fosse o dos Mohawks. Essa crise era na verdade uma luta entre duas classes sociais burguesas que usavam o nacionalismo Mohawk, por um lado, e o nacionalismo quebequense ou canadiano, por outro.
Os activistas Mohawks agiram completamente sem se importar com os problemas que causavam a dezenas de milhares de operários ao fechar a ponte Mercier. A solidariedade de classe era uma de frente unida entre proletários e Mohawks da burguesia. Não era pela causa dos proletários Mohawks que a elite indígena lutava, mas pela 'Terra e apenas pela Terra.'
O Grupo de solidariedade com os Indígenas fala na sua brochura, O Julgamento dos Mohawks, página 101, de luta de libertação nacional, da nação Mohawk que se defende, de solidariedade com a nação Mohawk. Este Grupo acabou, na prática, por tomar partido pelos capitalistas Mohawk na sua luta contra os capitalistas do Quebec e do Canadá. O estado federal, juntamente com o estado do Quebec, assumia a liderança da repressão.
A solidariedade entre operárias e operários vem muito antes das lutas das burguesias. A burguesia nacionalista quebequense estava zangada no Verão de 1990 porque a sua luta contra o Acordo do Lago Meech passava para segundo plano, por um lado, e por outro lado queria assumir totalmente o controlo do seu território. Aliás, ministros do PQ já disseram que a presença de um eventual exército quebequense serviria para esmagar levantes indígenas caso se formasse um Quebec capitalista “independente”.
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Na esteira da ocupação das terras dos Mohawks e da primeira guerra no Iraque que se preparava, o exército canadiano estava a recrutar. Assim, no Centro Sainte-Croix, centro de formação para adultos, no âmbito de um dia de portas abertas sobre diferentes profissões e escolas profissionais, o exército canadiano veio recrutar (informar, segundo a sua linguagem hipócrita). Fiz propaganda contra a presença do exército no Centro. Por vezes, o exército vem recrutar nos centros de formação para adultos junto destes jovens proletários. Nunca há denúncias, pior ainda, esses recrutamentos são feitos em colaboração com os conselheiros de formação.
Uma dissertação que joga a favor da democracia burguesa
Durante o segundo referendo sobre a independência do Quebec em 95, o PQ criou comissões sobre o Futuro do Quebec. Essas comissões tinham o objectivo oculto de manipular a opinião pública através da apresentação de pareceres feitos por nacionalistas de todo o tipo. No entanto, para surpresa dos nacionalistas, um grande número de organizações populares, grupos de mulheres, de estudantes e sindicatos apresentaram reivindicações reformistas a realizar num Quebec independente. Era completamente ilógico pensar que este projecto de soberania da burguesia quebequense tivesse algum aspecto positivo para a classe operária. Os proletários só têm uma pátria, o mundo inteiro. Deixado politicamente a mim mesmo, favoreci a democracia burguesa apresentando um parecer à comissão da Montérégie.
Obviamente, eu não estava nem a favor do SIM nem do NÃO, mas o texto estava sempre impregnado de uma profunda mentalidade esquerdista quando escrevi nesta memória: «As ilusões de uma solução 'nacional' para a crise social devem ser varridas pelas duras realidades da mundialização da economia capitalista. Para isso, precisamos de ferramentas: sindicatos (livres de certas direcções actuais submissas aos ditames do mercado e do PQ), grupos populares, grupos de mulheres, associações estudantis. Estas ferramentas são úteis e deveríamos usá-las mais, mas ainda nos faltam outras ferramentas: programas e organizações revolucionárias para acabar com este sistema desumano que nem sempre existiu e que não é eterno como afirmam os defensores do livre mercado.»
Eu ainda confiava em organizações como os sindicatos e grupos populares que devem a sua existência ao Estado capitalista, graças a leis e regulamentos que os enquadram e aos subsídios regulares que recebem. Todos esses organismos reformistas nunca vão defender os interesses das operárias e dos operários. Os indivíduos que deles fazem parte têm até mais dificuldades em ver as perspectivas revolucionárias internacionais. O hábito da democracia burguesa (eleições, lobby, comissões parlamentares, espectáculo dos deputados no parlamento) afasta essas pessoas de qualquer acção visando a criação de um partido mundial da classe operária. Por exemplo, na Frente de Acção Popular em reorganização urbana, o responsável François Saillant (ex-mao do EL) está no cargo há cerca de vinte anos e o seu grupo é um frequentador habitual de apresentações de pareceres mais ou menos inúteis a universidades ou comissões parlamentares. Esses sindicatos e grupos populares tentam continuamente revitalizar o parlamentarismo através das suas propostas mais ou menos realistas no quadro do sistema que tentam ajustar, pouco ou mal, quer as suas vontades sejam reais ou apenas oportunismos individuais.
Um exemplo mais recente vem de um texto intitulado UniEs para o futuro do Quebec e do mundo, assinado por dezenas de grupos sociais a 26 de Agosto de 2007. Ele mostra-nos bem a Santa Aliança entre a burguesia e este caldeirão de grupos populares, sindicatos e grupos religiosos.
Estes grupos financiados pelo Estado ou pelas contribuições dos proletários são ardentes defensores da democracia burguesa e gostam de o fazer saber. É, entre outras coisas, uma das suas justificações para a busca perpétua de subsídios junto do Estado.
«É verdade, somos cansativos porque é preciso, porque numa democracia que avança através de debates públicos e não pela violência, o progresso social só se consegue através de um trabalho incessante e da insistência digna de trazer para a ribalta considerações humanistas que nunca ficarão fora de moda.»
Sim, eles são cansativos, mas nunca se cansarão de repetir a mesma baboseira: todos são bondosos, somos todos cidadãos iguais, viva o debate com os políticos e os homens e mulheres de negócios, etc. Tentam fazer crer que há um progresso social enquanto as condições dos proletários recuam em todos os sentidos com a decadência do capitalismo.
Ao mesmo tempo que negam a existência da luta de classes, mostram uma tolerância nauseante em relação à classe dos exploradores e exploradoras. «Somos o futuro do Québec não apenas na tolerância, mas na fraternidade, porque para nós, mulheres e homens, jovens e idosos, francófonos, anglófonos, alófonos e povos indígenas, crentes, não praticantes, agnósticos e ateus, heterossexuais, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e transgéneros, ricos, pobres e classe média, poderosos e humildes, pessoas saudáveis e pessoas com deficiência, famílias pequenas, grandes, recompostas e monoparentais, urbanos, rurais e suburbanos, somos acima de tudo seres humanos, cidadãos de um Québec que tem tudo a ganhar se cada um puder florescer e viver plenamente. E acreditamos que é preciso fazer todos os esforços possíveis para nos explicarmos uns aos outros e nos compreendermos melhor, para que a liberdade de uns se prolongue onde começa a dos outros.. »
Segundo eles, para que a utopia de um capitalismo com rosto humano possa continuar, «é preciso fazer todos os esforços possíveis para se explicarem uns aos outros e se entenderem melhor, para que a liberdade de uns se estenda até onde começa a dos outros.» Por isso, defendem o nacionalismo, «o futuro do Quebec, a colaboração entre classes, a 'fraternidade' com os ricos e poderosos dos 'cidadãos de um Quebec que têm tudo a ganhar para que cada um possa florescer e viver plenamente'.
Noutras palavras, que o operário e a operária trabalhem com respeito pelo seu patrão e este fará o mesmo, claro, se houver debate e tolerância de ambos os lados. Que merda maldita este jargão de grupos e sindicatos completamente integrados no Estado capitalista.
Lista de uma parte desses signatários :
A cimeira socio-económica de 1996
As centrais sindicais conluiaram-se com o governo pequista de Lucien Bouchard para atingir o Déficit Zero durante a cimeira económica de 1996. Patronato, estado e sindicatos, de mãos dadas em todos os sentidos da palavra, concordaram pelo bem-estar da economia capitalista do Québec. Eu denunciava esse acordo sempre que podia, mesmo que ainda não visse claramente o facto de que os sindicatos, há vários anos, são instituições organicamente ligadas ao Estado para sabotar as lutas das operárias e dos operários. Nenhum sindicato convocou uma assembleia geral sobre este acordo para o Déficit Zero. Era sempre a continuação da defesa do capitalismo de estado que ajuda o privado. Foram cortados 37 000 postos de trabalho, fechados cerca de dez hospitais e houve ainda vários outros cortes em certos programas sociais, etc.
A acção real dos sindicatos e dos grupos populares nos momentos de crise do capitalismo é um trabalho de concertação insidioso que permite ao Estado burguês reduzir os impostos e taxas às empresas cortando no «encargo» social. Dizer que esta banda de vendidos pensou fazer-nos acreditar por um momento que o Estado reduziria o encargo fiscal das operárias e operários por causa deste acordo.
Outro resultado desta política do Estado, sobre o Défice Zero, foi a esmagamento da greve dos 45 500 enfermeiras e enfermeiros do Québec no Verão de 99. Foram-lhes impostas multas de várias dezenas de milhões de dólares. Lucien Bouchard, primeiro-ministro pequista, baseou-se na lei do Défice Zero para recusar os pedidos das enfermeiras e enfermeiros.
Demonstro [ver Anexo VII Dados sobre as grandes empresas do Quebec] que o capitalismo no Quebec atingiu há vários anos o estágio do imperialismo, entre outras razões para criticar certos demagogos nacionalistas que querem fazer-nos acreditar que o Quebec é quase uma colónia do Canadá. O Canadá é um país imperialista e o Quebec independente também o seria. A economia do Quebec corresponde bem à definição de imperialismo que engloba os cinco traços fundamentais seguintes:
1) Concentração da produção e do capital atingida a um grau de desenvolvimento
tão elevado que criou os monopólios, cujo papel é decisivo na vida económica;
2) Fusão do capital bancário e do capital
industrial e
criação, com base nesse «capital financeiro», de uma oligarquia financeira;
3) A exportação de capitais, ao contrário da exportação de
mercadorias, ganha uma importância especial;
4) Formação de uniões internacionais monopolistas de capitalistas que
partilham o mundo;
5) Fim da partilha territorial do globo entre as grandes potências capitalistas. Excerto de Lénine, O Imperialismo, fase superior do capitalismo.
Existem monopólios no Quebec, quer sejam estatais ou privados, isso não muda nada em relação ao seu objectivo: explorar a força de trabalho aqui e noutros lugares do mundo. Tudo isso para acumular capital a favor da burguesia quebequense, tão parasitária quanto qualquer outra burguesia de outros países. Empresas como a Bombardier fecham fábricas no Canadá para investir em países da periferia capitalista. As operárias e os operários dessas fábricas, que tinham salários relativamente bons, acabam, de um dia para o outro, no desemprego e na assistência social.
A decadência do capitalismo também acentua a produção de capital fictício. Cada vez mais espaço é dado à especulação e são criados novos produtos financeiros para isso. A economia baseia-se cada vez mais nestas atividades parasitárias. Burgueses especuladores como Vincent Lacroix da Norbourg, Madoff, Earl Jones e Conrad Black, há cada vez mais, e nem todos são apanhados. É todo o sistema capitalista que está em falência, mas os media, obedientes à classe dominante, querem fazer-nos acreditar que é por causa de tipos miseráveis como Lacroix ou Madoff.
Nos últimos trinta anos, as crises financeiras repetem-se regularmente: o crash de 1987 nos mercados accionistas, depois em 1990 com o colapso das caixas de poupança americanas, em 1994 a crise do mercado de obrigações dos EUA, em 1997 e 1998, as crises financeiras que afectaram países como Tailândia, Coreia e Hong Kong e depois a Rússia e o Brasil, e finalmente houve a explosão da bolha da Internet em 2000-2001, a crise na Argentina. Desde Agosto de 2007, um novo e assustador choque tem-se manifestado ao nível financeiro com a explosão da bolha imobiliária (Subprime) e com a falência em cascata de muitos e importantes bancos de créditos hipotecários, tendo repercussões económicas e sociais terríveis, incluindo uma grave recessão nos Estados Unidos. Desde Setembro de 2008, a burguesia mundial nacionalizou bancos e companhias de seguros em falência e injectou dinheiro nos bancos centrais para manter o crédito, um dos meios do capitalismo para superar a sua sobreprodução. É a classe operária mundial que paga do seu próprio bolso com o seu sangue e suor (Ver o anexo IX O proletariado da Grécia mostra-nos o caminho!). Parece que ainda não atingimos o fundo relativamente à gravidade da situação actual, outras consequências desastrosas ainda são esperadas. Agora são países como a Grécia, a Irlanda, Portugal, Espanha e Itália que estão à beira da falência, sem contar com muitos estados americanos. Repetiram-nos à exaustão que a crise era uma crise imobiliária e depois uma crise financeira. Na realidade, não se trata de nenhuma das duas. A crise imobiliária esconde causas estruturais mais profundas.
Marx descreveu muito bem este tipo de crise: “Actualmente, a causa última de uma crise real resume-se sempre à oposição entre a miséria, a limitação do poder de consumo das massas, e a tendência da produção capitalista para multiplicar as forças produtivas, como se estas tivessem como única limitação a extensão absoluta do consumo de que a sociedade é capaz” (O Capital, livro III, tomo II).
Os políticos, os altermundialistas e os sindicalistas gostam de usar os termos globalização e neo-liberalismo em vez de capitalismo. Isso está relacionado com o que aconteceu nos últimos vinte anos. Por um lado, houve saltos tecnológicos que permitiram que qualquer produto, seja qual for, pudesse ser fabricado e montado em qualquer lugar do mundo (por exemplo, os comboios da Bombardier); por outro lado, foi o início do desmantelamento dos sistemas de protecção social. A cimeira socio-económica de 96 foi apenas uma das muitas intervenções do Estado desde o início dos anos 90.
« .., o Estado começou a desmantelar a assistência, a previdência e a saúde, tal como a escola e a investigação. Mas, o duplo endividamento e lucros baixos e portanto menos impostos provenientes dos sectores produtivos e de menores possibilidades de auto-financiamento, torna insuportável o peso do Estado social que teve de ser gradualmente reduzido, provocando graves consequências cuja conclusão ainda não se vê. A sociedade capitalista actual vive um paradoxo desconhecido nas décadas anteriores, com potencialidades tecnológicas jamais vistas na história da humanidade: produz-se cada vez mais, mas a taxas de crescimento inferiores, e uma parte cada vez menor dessa riqueza é destinada ao Estado social. » Para uma definição do conceito de decadência BIPR Dezembro de 2003
O Québec é uma parte interessada no imperialismo canadiano com os seus monopólios que investem por todo o mundo e que deslocam as suas empresas para comprar força de trabalho o mais barata possível. Como todas as potências imperialistas, está em luta contra outras potências imperialistas, como o Brasil. Pensemos no estado do Québec que ajuda a Bombardier na sua luta contra o construtor aeronáutico brasileiro Embraer com a ajuda do estado federal canadiano. É importante notar que entre os imperialistas há por vezes acordos, por vezes lutas, dependendo de vários factores, como a subida das lutas de classe ou as crises económicas. Mas o que domina é o cada um por si. O estado é o garantidor do seu desenvolvimento, organizando deslocações ao estrangeiro para eles, colóquios, a Cimeira das Américas, votando leis sobre o livre comércio, a desregulamentação e a repressão da nossa classe. Durante o período de decadência, o capitalismo privado não poderia existir sem a supervisão permanente e a ajuda do capitalismo de Estado.
A cimeira das Américas no Quebec em Abril de 2001
Dirigentes de empresas, meios de comunicação e empresas estatais prepararam-se para a Cimeira das Américas durante uma conferência internacional sobre energia realizada em Montreal a 14 de Fevereiro de 2001. É muito interessante ler o convite para esta conferência:
« … A 12.ª Conferência Internacional sobre Energia organizada pela Hydro-Québec e pela Gaz Métropolitain decorrerá este ano, pela primeira vez, no âmbito da Conferência de Montreal. Num momento em que a desregulamentação do sector energético levanta sérias questões na opinião pública, esta nova vertente da Conferência, acessível a todos os participantes registados, explorará o tema da energia num contexto de livre comércio.
Na véspera da importante Cimeira das Américas, que reunirá no Quebec 34 chefes de Estado de outros tantos países do continente, os numerosos convidados e especialistas da Conferência de Montreal oferecem uma oportunidade privilegiada para reflectir sobre as grandes questões que estarão no centro da Cimeira do Quebec. Esta 7.ª edição da Conferência reveste-se, no contexto, de uma importância particular para os dirigentes de empresas e de grandes organizações que terão de se adaptar às mudanças que o projecto de expansão da zona de livre comércio das Américas implica "declarou o presidente fundador da Conferência de Montreal, senhor Gil Rémillard.
Fazer negócios com delegações estrangeiras
O formato único da Conferência de Montreal permitirá oferecer, como no passado, sessões especiais destinadas a líderes empresariais e empreendedores sobre os aspectos práticos e jurídicos das trocas comerciais internacionais, abordando, por exemplo, a avaliação de riscos, o financiamento de projectos e o ambiente económico e jurídico de vários países, como Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Jamaica, México, República Dominicana, Uruguai e Venezuela, que representarão o seu respectivo país e estarão à disposição dos participantes da Conferência.
Parceiros
A 7.ª edição da Conferência de Montreal é organizada
em colaboração com o Banco Inter-americano de Desenvolvimento e conta com o
apoio especial do governo do Canadá, bem como com a participação activa do
governo do Québec. Vários patrocinadores também tornam possível a realização
deste fórum, incluindo a Bombardier, PowerCorporation do Canadá, Hydro-Québec,
Gaz Métropolitain, BCE, Alcan, Air Canada, a Sociedade para a Expansão das
Exportações, o Banco de Desenvolvimento do Canadá, a Caisse de dépôt et
placement du Québec, CAE, o Instituto Inter-americano de Cooperação para a
Agricultura, SNC-Lavalin, o Fundo de Solidariedade da Federação dos
Trabalhadores do Québec, os jornais La Presse e The Gazette, entre muitos
outros parceiros.»
Todos esses burgueses, altos funcionários, representantes dos meios de comunicação e da FTQ através do seu Fundo de solidariedade, preparavam-se para a cimeira do Quebec. O Estado capitalista, canadiano e quebequense, está bem representado pela Sociedade para a Expansão das Exportações, pelo Banco de Desenvolvimento do Canadá e pela Caixa de Depósito e Investimento do Quebec. A organização da conferência «beneficia da colaboração especial do governo do Canadá e da participação activa do governo do Québec.»
Estes lobos que vivem do suor e do sangue dos proletários em todo o mundo estavam bem protegidos: 7 000 polícias, centenas de soldados com granadas lacrimogéneas, balas de plástico e borracha, centenas de prisões e dezenas de feridos.
Toda essa matilha das forças da ordem serve, por um lado, para proteger dezenas de políticos corruptos de todo o continente como Bush, Jean Chrétien e Bernard Landry, homens e mulheres de negócios e altos funcionários; e por outro lado, para atacar dezenas de milhares de manifestantes, operárias e operários da indústria e dos serviços, professoras e professores, profissionais de saúde, estudantes, reformados, desempregadas e desempregados, trabalhadores precários e por aí fora.
Durante esta cimeira, pude constatar que a segurança sindical tinha desviado os manifestantes para parques de estacionamento a quilómetros da manifestação. Qual foi mesmo o sentido desta marcha cidadã em direcção a um parque de estacionamento municipal, longe de onde decorreu toda a acção ligada à Cimeira? Podíamos resumir os discursos ultrapassados dos líderes sindicais com a seguinte frase: “Uma acção cidadã no âmbito da sociedade civil (não se deve falar de classes sociais aqui) pode fazer a mundialização ceder”. Eles clamavam e continuam a clamar que não existem classes sociais, que o Estado é neutro. Também se pôde ver a mobilização de esquerdistas e de grupos comunitários para a defesa da democracia burguesa. São os especialistas do movimento alter-mundialista que dão um passo atrás para defender um «bom capitalismo» contra um «mau capitalismo». Para eles, os proletários transformados em meros cidadãos deveriam lutar por leis e regulamentos contra as acções das multinacionais no quadro da democracia burguesa. Estes especialistas em activismo – estes animadores sociais – opõem-se à acção revolucionária de um proletariado que poderia tomar consciência dos seus interesses com vista a uma sociedade comunista à escala mundial.
Desde a Primeira Guerra Mundial, o capitalismo é um sistema social em decadência. Deixou de ser capaz de conceder reformas e melhorias a favor da classe operária. Já não existem fracções capitalistas, burguesas, progressistas em que o proletariado possa apoiar-se na sua própria luta. O Parlamento deixou de ser um órgão de reformas, como diz a Internacional Comunista (2.º congresso) "o centro de gravidade da vida política saiu completamente e de forma definitiva do Parlamento". A tarefa essencial do proletariado reside na destruição de todas as instituições estatais burguesas, incluindo o Parlamento, onde deve estabelecer a sua própria ditadura sobre as ruínas do sufrágio universal e outros vestígios da sociedade burguesa.
Descoberta da existência da Esquerda comunista
A passagem do maoísmo para o marxismo não se faz facilmente. Os hábitos e ideias adquiridos em grupos maoístas são um obstáculo ao conhecimento do marxismo e à sua aplicação concreta ao nível das lutas de classe e dentro das organizações da Esquerda comunista. As minhas primeiras ideias sobre a Esquerda comunista desenvolveram-se em 2001-2002 ao ler o jornal Notes Internationalistes (N.I.) publicado pelo Groupe International Ouvrier (GIO9), o afiliado canadiano do Bureau International pour le Parti Révolutionnaire (BIPR).
Ao consultar o site do BIPR, descobri um marxismo que se tinha enriquecido ao longo dos anos nas diferentes lutas de classe e nos debates entre os vários grupos do campo proletário. Um balanço que mostrava o isolamento da classe operária que tinha tomado o poder em Outubro de 1917, que mostrava que a sociedade russa dos anos 20 não passava de um capitalismo de estado planificado, sem nada a ver com a ditadura do proletariado. A principal causa desta derrota foi o fracasso da vaga revolucionária alemã de 1919-1923, que condenou a revolução na Rússia ao isolamento e a uma rápida degenerescência.
A maior mentira que o PCC (m-l), En Lutte!, o PCO e que o atual PCR e outros grupos maoístas têm repetido durante décadas é que o regime estalinista da URSS era uma representação do comunismo. Neste ponto, os maoístas mostram bem que são organizações do capital, fazendo acreditar que o estalinismo é uma sociedade em que o proletariado exerce a sua ditadura. Ao contrário de Marx e Lenine, eles repetem a doutrina de Estaline de que é possível estabelecer o «socialismo num só país». Para envolver jovens militantes nesta doutrina, os maoístas fizeram-me acreditar, e ainda o dizem, que a repressão estalinista foi grandemente exagerada pelos media burgueses. Segundo eles, Estaline teria cometido alguns erros, mas, pouco importa, no fim de contas, era ainda assim a ditadura do proletariado na URSS. Fomos fortemente encorajados a ler uma caricatura do marxismo que são Os princípios do leninismo de Estaline. Não é fácil sair do «marxismo-leninismo», esta invenção de Estaline que rejeita o poder dos comités operários e associa o partido comunista directamente ao Estado. Em todos estes grupos marxista-leninistas, as críticas à degeneração da revolução russa e da 3.ª Internacional por opositores internacionalistas de Estaline, como a Esquerda Italiana (Bordiga), a Esquerda germano-holandesa (Anton Pannekoek e Herman Gorter) e a Esquerda comunista russa de Gavril Miasnikov, eram completamente ignoradas [ver Anexo VIII sobre a origem da Esquerda comunista]. Também era fortemente desaconselhado ler os escritos de Trotsky, mesmo os anteriores a 1924, assim como os de Rosa Luxemburgo.
Para os maoístas e os marxistas-leninistas, o capitalismo começou na URSS e na China depois da morte de Estaline e de Mao. Khruchchev e os «revisionistas» teriam sido os destruidores do socialismo. A realidade era que o capitalismo de estado russo precisava de ser modernizado, particularmente para responder às necessidades militares da guerra fria, e esse era o objectivo dos «revisionistas». A classe operária russa não se revoltou porque não era a sua sociedade que estava a ser transformada, mas sim a forma da sua exploração. Os comunistas tinham sido eliminados física e politicamente por Estaline e os seus capangas, que se tinham apropriado do partido comunista russo criado pela classe operária.
Na China, já em 1928, depois da repressão dos movimentos proletários em Xangai e Cantão, os operários deixaram de militar no partido. Mais tarde, houve uma guerra civil liderada por um bloco de classes em que a camponesa serviu de carne para canhão. Acabou com a instauração de um regime subordinado à Rússia estalinista. A China nunca foi um estado proletário e o maoísmo foi apenas uma forma de mobilizar os camponeses pobres e os operários para se sacrificarem pelos interesses do capital nacional. Mao, por seu lado, estava motivado por uma incrível sede de poder, copiou os aspectos brutais da planificação do capitalismo de Estado estalinista e instaurou um regime arbitrário que resultou em milhões de mortes (mais de trinta milhões de mortos só durante o "Grande Salto em Frente" de 1958).
Outro ganho importante da Esquerda comunista que me tirou da minha torpeza “marxista-leninista” dizia respeito à degeneração da 3.ª Internacional. Esta tinha promovido a táctica de Frentes Unidas ou Frentes Populares, como aconteceu em Espanha, em França e na China. Estas frentes misturavam os interesses de uma fracção da burguesia com os do proletariado e, no fim, não serviam senão para desviar a classe operária dos seus objectivos revolucionários últimos. Para os maoístas, isso significa “aderir às massas” e, para o conseguir, criam comités, frentes, sindicatos, etc., com o rótulo de vermelho para enganar os operários e fazê-los acreditar que são organizações de defesa dos seus interesses.
Por exemplo, o PCR criou em 2008 um desses comités vermelhos: o comité Fahad. Este comité apoia burguesias árabes escrevendo num panfleto distribuído em Janeiro: « que a influência do islamismo sobre os povos não se deve ao integrismo medieval, mas ao facto de que as organizações islâmicas também lutam contra as burguesias vendidas [sic] aos imperialistas… ». Ao contrário dos maoístas, eu penso que a proliferação das organizações e do terrorismo “islâmico” é uma expressão do desespero das classes capitalistas menores nos países mais duramente oprimidos pelo imperialismo. Os maoístas acabam por apoiar, em última análise, a implicação do proletariado num dos campos da burguesia.
Outra divergência importante que descobri é a concepção do partido. Para os maoístas, a classe operária toma o poder através do seu «partido». Nos países da periferia capitalista, são frentes unidas que tomam o poder ao promover as reivindicações da democracia burguesa. O exemplo dos maoístas nepaleses é um exemplo flagrante, com a sua reivindicação de eleições proporcionais. Segundo a teoria do «socialismo num só país», eles criam um partido por país e chegam a criar, em alguns países, um partido por nação. Todas as organizações que o proletariado criou ao longo da sua história foram sempre organizações internacionais. As duas frases do Manifesto do Partido Comunista: «Os operários não têm pátria» e «Proletários de todos os países, uni-vos» sempre foram um princípio fundamental que os revolucionários marxistas chamaram de internacionalismo proletário.
Os partidos maoístas são partidos burgueses que usam o terror dentro das suas fileiras para resolver lutas de clãs, não há espaço para fracções.
Para a Esquerda comunista:
1° o partido é internacional e internacionalista
2° é a concretização organizacional política revolucionária dos proletários com consciência de classe
3° o papel deste partido não será tomar o poder em nome da classe operária, mas participar na unificação das suas lutas assim como no seu controle pelos próprios operários
4° só a classe operária na sua totalidade, através dos seus próprios órgãos autónomos (comités operários, sovietes) pode instituir o socialismo
5° esta tarefa não pode ser delegada, mesmo ao Partido de classe mais consciente.
Estas conquistas da Esquerda Comunista respondiam amplamente às minhas questões sobre as minhas actividades passadas e, sobretudo, a 'Que fazer nos anos 2000?'
No Outono de 2004, a crítica aos sindicatos feita pela Esquerda Comunista levou-me a fazer um balanço dos meus trinta anos como militante sindical. (Ver o folheto Do sindicalismo crítico à crítica do sindicalismo. Testemunho de um ex-sindicalista indignado.)
Também tomei conhecimento de outro grupo da Esquerda Comunista, a Fracção Interna do Corrente Comunista Internacional (FICCI).
O seu último folheto internacional, co-assinado com os comunistas internacionalistas de Montreal, destaca a realidade actual do sistema capitalista agonizante e coloca o proletariado perante as suas responsabilidades históricas como única classe revolucionária, a única capaz de pôr fim a este sistema infernal [ver Anexo IX O proletariado da Grécia mostra-nos o caminho!].
« Nunca esquecer que o socialismo, desde que se tornou uma ciência, exige ser tratado como uma ciência, ou seja, ser estudado », aconselhava Engels. Todo militante revolucionário deve, portanto, estudar os programas e plataformas dos grupos e organizações do campo proletário. Além da Tendência Comunista Internacional (TCI), da Fracção da Esquerda Comunista Internacional (FGCI) e dos Comunistas Internacionalistas Klasbatalo12 (CIK), é também necessário estudar as posições políticas da antiga Corrente Comunista Internacional (CCI) e do Partido Comunista Internacional (O proletário/Programa comunista) (PCInt).
Esta visão geral das diferenças fundamentais entre organizações de esquerda e aquelas da Esquerda comunista é, sem dúvida, bastante incompleta, e convido o leitor a consultar por si mesmo a literatura e os sites da Esquerda comunista. Estes grupos e organizações são numerosos e isso não é necessariamente negativo. Há divergências entre eles de ordem política e organizacional. Estas divergências podem também reflectir experiências diferentes do proletariado ou oportunismo. Estes desacordos não devem ser escondidos aos proletários. Isso significa ter debates sérios acima de considerações pessoais, não os sufocar com resoluções de comités e não encobrir o fundo desses debates. Considero mesmo, embora tenha divergências com a TCI, que é a única organização do campo proletário em torno da qual poderiam se referir forças comunistas. Pela sua continuidade orgânica directa com a Esquerda italiana, pelo seu programa, pela sua existência organizacional internacional e pelas suas posições em relação ao aumento das lutas actuais, a TCI continua, na minha opinião, a ser a única organização que hoje tem meios para ser um verdadeiro polo de referência internacional.
Réal Jodoin realjodoin@yahoo.fr
1.ª edição em Fevereiro de 2008, seguida de actualizações em 2013 e 2023.
Anexo I
Posições básicas do Grupo Internacional da
Esquerda Comunista
O GIGC considera e define todas as
suas actividades, internas e externas, em função e como momentos da luta pela
constituição do partido político mundial do proletariado, ferramenta
indispensável para o derrube do capitalismo e o estabelecimento da sociedade
comunista.
Além da intervenção nas lutas do
proletariado, o GIGC trava esta luta especialmente no campo proletário
internacional. Este é composto por grupos políticos revolucionários que
defendem e partilham as posições de classe do proletariado, em particular o
internacionalismo proletário e a necessidade da ditadura de classe do
proletariado.
O GIGC reivindica-se das Primeira,
Segunda e Terceira Internacionais e da luta das fracções de esquerda no seu
seio. Muito particularmente, reivindica-se da luta da fracção de esquerda do PC
de Itália dentro da Internacional Comunista contra a sua degenerescência estalinista
e das contribuições programáticas que pôde desenvolver e legar-nos até hoje.
Apenas o proletariado, classe
explorada e revolucionária ao mesmo tempo, é capaz de destruir o capitalismo e
instaurar o comunismo, a sociedade sem classes. A consciência desta revolução,
a consciência comunista, é produzida pela luta histórica do proletariado. Para
que possa materializar-se, defender-se e desenvolver-se, o proletariado produz
minorias comunistas que se organizam em partido e que têm como função
permanente portar esta consciência comunista e devolvê-la a todo o
proletariado.
A expressão mais elevada desta
consciência, o partido – ou, na sua ausência, as frações ou grupos comunistas –
constitui e deve assumir a liderança política do proletariado. Em particular, o
partido é o órgão que, sozinho, pode conduzir o proletariado à insurreição e à
destruição do Estado capitalista, e ao exercício da ditadura do proletariado.
O partido organiza-se e funciona com
base nos princípios que regem a luta revolucionária do proletariado, o internacionalismo
proletário e o centralismo como momentos da sua unidade internacional e do seu
combate. O partido constitui-se desde o início, funciona e intervém como
partido internacional e centralizado. O GIGC constitui-se desde o início,
funciona e intervém como grupo internacional e centralizado.
O partido, tal como o GIGC,
fundamenta o seu programa, princípios, posições políticas e acção na teoria do
materialismo histórico. Explicando o curso da história pelo desenvolvimento da
luta de classes e reconhecendo o proletariado como classe revolucionária, é a
única concepção do mundo que se coloca do ponto de vista desta. É a teoria do
proletariado revolucionário.
Só após a insurreição vitoriosa e a
eliminação do Estado burguês é que o proletariado poderá organizar-se como
classe dominante sob a direcção política do seu partido. A sua dominação de
classe, a ditadura do proletariado, exerce-se através dos conselhos operários,
ou sovietes. Estes só podem manter-se como organização unitária do proletariado
se se tornarem órgãos de insurreição e órgãos da ditadura de classe, ou seja,
adoptando as palavras de ordem do partido.
A ditadura do proletariado consiste
em usar o poder de classe das suas organizações de massa, os conselhos ou
sovietes, para abolir o poder económico da burguesia e garantir a transição
para uma sociedade comunista sem classes. O Estado do período de transição, da
ditadura de classe, entre o capitalismo e o comunismo é chamado a desaparecer
com o desaparecimento das classes, do próprio proletariado e do seu partido, e
com o advento da sociedade comunista.
Desde a Primeira Guerra Mundial em
1914, a guerra imperialista generalizada e o capitalismo de Estado são as
principais expressões da fase histórica de decadência do capitalismo.
Perante o desenvolvimento
incessante do capitalismo de Estado, o proletariado só pode opor a busca da sua
unidade em todas as suas lutas, mesmo as mais limitadas ou localizadas,
assumindo a sua extensão e generalização. Toda a luta operária, mesmo a mais
limitada, confronta-se com o aparelho de Estado como um todo, ao qual o
proletariado só pode opor a perspectiva e a arma da greve geral (greve de
massas).
Na época do capitalismo de Estado
dominante, os sindicatos como um todo, a direcção como secções de base, são órgãos
plenos do Estado burguês no meio operário. Eles visam manter a ordem
capitalista nas suas fileiras, enquadrar a classe operária e prevenir,
contrariar e sabotar qualquer luta proletária, em particular qualquer extensão,
generalização e centralização dos combates proletários. Qualquer defesa dos
sindicatos e do sindicalismo é contra-revolucionária.
Na época do capitalismo de Estado
dominante, todas as fracções da burguesia são igualmente reaccionárias. Todos
os chamados partidos ditos operários, «socialistas», «comunistas», as
organizações de esquerda radical (trotskistas, maoístas, anarquistas), ou ainda
aqueles que se apresentam como anti-capitalistas, constituem a esquerda do
aparelho político do capital. Todas as tácticas de frente popular, frente anti-fascista
ou frente única que misturam os interesses do proletariado com os de uma fracção
da burguesia, servem apenas para conter e desviar a luta do proletariado. Toda a
política de frente com partidos de esquerda da burguesia é
contra-revolucionária.
Na época do capitalismo de Estado
dominante, o parlamento e as campanhas eleitorais, e de maneira geral a
democracia burguesa, já não podem ser usados pelo proletariado para se afirmar
como classe e para desenvolver as suas lutas. Qualquer apelo a participar nos
processos eleitorais e a votar só reforça a mistificação que apresenta essas
eleições como uma escolha real para os explorados e, por isso, é
contra-revolucionário.
O comunismo exige a abolição
consciente, pelo proletariado, das relações sociais capitalistas: a produção de
mercadorias, o trabalho assalariado e as classes. A transformação comunista da
sociedade pela ditadura do proletariado não significa nem auto-gestão, nem
nacionalização da economia. Qualquer defesa de uma ou outra é contra-revolucionária.
Os países ditos « socialistas » ou
mesmo « comunistas », a ex-URSS e os seus satélites da Europa de Leste, a
China, Cuba, o Vietname, ou ainda a Venezuela de Chávez, não foram senão formas
particularmente brutais da tendência universal para o capitalismo de Estado.
Qualquer apoio, mesmo crítico, ao carácter supostamente socialista ou
progressista desses países é contra-revolucionário.
Num mundo agora totalmente dominado
pelo capitalismo e em que o imperialismo se impõe a todos os Estados, qualquer
luta de libertação nacional, longe de constituir algum movimento progressista,
resume-se, na verdade, a um momento do confronto constante entre imperialismos
rivais. Qualquer defesa da ideologia nacionalista, do « direito dos povos de se
auto-governarem», de qualquer luta de libertação nacional é hoje
contra-revolucionária.
Pelo seu próprio conteúdo, as lutas
fragmentadas, anti-racistas, feministas, ecológicas e outros aspectos da vida
diária, longe de reforçar a unidade e autonomia da classe operária, tendem,
pelo contrário, a dividi-la e a diluí-la na confusão de categorias particulares
(raças, sexos, jovens, etc.). Toda ideologia e movimento que defenda o
identitarismo, o anti-racismo, etc., em nome da interseccionalidade das lutas,
são ideologias e movimentos contra-revolucionários.
Expressão das camadas sociais sem futuro histórico e da decomposição da pequena-burguesia, quando não é directamente a emanação da guerra que os Estados travam permanentemente, o terrorismo constitui sempre um terreno privilegiado para as manipulações e provocações de ordem policial da burguesia. Defendendo a acção secreta de pequenas minorias, situa-se em completa oposição à violência de classe, que depende da acção de massas consciente e organizada do proletariado.
O GIGC combate, a partir de hoje, para que o futuro partido se constitua com base programática nos princípios e posições anteriores. A constituição formal do partido torna-se necessária assim que a intervenção, as orientações e as palavras de ordem dos grupos ou fracções comunistas se tornam elementos materiais permanentes da situação imediata e factores directos da relação de forças entre as classes. Assim, a luta pela constituição formal do partido torna-se necessária e urgente.
Agosto de 2021
Anexo II
O « cada um por si »
«O
"cada um por si" seria uma característica do homem. É
incontestavelmente uma característica do homem burguês, do "self-made
man", daquele "que se fez sozinho", mas isso não passa de uma
expressão ideológica da realidade económica do capitalismo e não tem nada a ver
com a "natureza humana". Caso contrário, teríamos de considerar que
essa "natureza humana" se transformou radicalmente desde o comunismo
primitivo ou mesmo desde o feudalismo com a sua comunidade aldeã. De facto, o
individualismo faz uma entrada maciça no mundo das ideias quando os pequenos
proprietários independentes surgem no campo (abolição da servidão) e na cidade.
Pequeno proprietário que teve sucesso - nomeadamente arruinando os seus
vizinhos - o burguês adere com fanatismo a essa ideologia e atribui-lhe o
título de "natural".. » Revue Révolution internationale #62 CCI
«Não é
a consciência dos homens que determina o seu ser, é inversamente o seu ser
social que determina a sua consciência». (Marx, «Contribuição para a crítica da economia política», prefácio).
Anexo III
O
marxismo e a polícia
…O facto de o papel da polícia ser regularmente colocado no centro das notícias mostra a posição crucial e aparentemente contraditória que ocupa nesta sociedade. No âmbito do seu trabalho, eles realizam coisas que parecem positivas. Por exemplo, os polícias podem acabar com brigas, prender assassinos loucos e, se acreditarmos na mitologia televisiva moderna, ajudar idosos a atravessar a rua em cruzamentos perigosos. No entanto, qualquer grevista que tenha lidado com eles num conflito sabe que eles intervêm sempre do lado dos interesses do patrão, qualquer pessoa com conhecimento do sistema judicial sabe que todos e todas mentem sob juramento, e qualquer um que tenha crescido num bairro operário foi testemunha ou vítima dos seus abusos. Obviamente, os capitalistas, os políticos e políticas e os seus jornalistas apenas se referem à primeira face das suas actividades para promover activamente a polícia. Os liberais que fazem ‘copwatch’ e outros apologistas críticos da polícia geralmente minimizam a segunda face para se concentrarem nos 'abusos' individuais e reivindicarem comissões de controlo 'comunitárias' e investigações sobre incidentes isolados.
Estas duas concepções não ajudam absolutamente nada na compreensão do papel da polícia nesta sociedade e na determinação da atitude que a classe operária e os revolucionários devem adoptar em relação a ela. A questão não é de «profissionalismo» ou de abusos. Também não se trata de tentar distinguir a boa polícia da canalha. Isso só disfarça o papel da polícia na sociedade com base em definições puramente emocionais e moralistas. Tentar compreender uma instituição política analisando apenas uma das suas componentes é como tentar determinar a estrutura geológica de uma região estudando alguns grãos de areia ou umas pázinhas de estrume. Claro que podem existir indivíduos de certa bondade na polícia. Essas pessoas podem até ser bons membros da sua família ou vizinhos simpáticos. Mas isso pouco importa. Porque, quando são chamados a cumprir o seu dever, esses 'bons' polícias não hesitarão em quebrar a sua greve e bater-lhe, tal como os 'maus' polícias, aliás, porque essa é a sua função…
A polícia é a primeira linha de defesa constituída
por um «grupo de homens armados» destinado a proteger os interesses da classe
dominante. Se a sua verdadeira função fosse combater o crime, ela colocaria atrás
das grades todos os capitalistas do planeta, porque são eles os verdadeiros
criminosos e o seu regime, a verdadeira fonte de toda a criminalidade.
Ao contrário do proletário,
cujo interesse é livrar-se da dominação capitalista, a existência da polícia está directamente ligada à manutenção do
Estado e das relações de propriedade burguesas. Nesse sentido, os polícias
e os carcereiros (screws) em nada fazem parte da classe operária, como os
sindicatos gostariam de nos fazer acreditar…
Notas Internacionalistas 2002-03-01
Anexo IV
… O terrorismo, uma arma de guerra da burguesia
O terrorismo surge, na história, como o modo de expressão das classes sociais que não têm um futuro histórico e cuja própria sobrevivência é posta em causa pela evolução objectiva da sociedade.
No virar do século XIX para o XX, as camadas da pequena-burguesia, os artesãos em processo de proletarização, os lojistas e pequenos proprietários rurais arruinados, etc., deram origem a uma forma de terrorismo, de violência individual e sem perspectiva histórica. Na Europa Ocidental (França, Itália, etc.) assim como na Rússia (Narodniks), essas expressões retrógradas tiveram por vezes um eco mesmo dentro de uma classe operária em processo de constituição e formação política. A experiência da luta, a Revolução de Outubro, a Internacional Comunista resolveram esta questão há quase um século.
O que se vê sobretudo desde a última metade do século XX, nas relações inter-imperialistas, é que o terrorismo se tornou uma ferramenta essencial para as potências grandes e médias na concorrência feroz que as opõe umas às outras. Lembramo-nos de grupos do estilo "bando Baader" ou "Brigadas Vermelhas" que fizeram manchete nos anos 1970 e do qual hoje é claro que eram manipulados pelos serviços secretos russos ou americanos da época. Está claro que os serviços ocidentais usavam os mesmos tipos de grupos e manipulações, embora se saiba menos sobre esses bastidores. O que permanece e deve ficar totalmente claro para os revolucionários e para a sua classe hoje, é que o terrorismo se tornou definitivamente uma arma nas mãos das potências imperialistas no âmbito dos seus confrontos e da preparação das frentes de guerra.
Que os actos terroristas causem dezenas ou centenas de vítimas entre as populações civis é realmente de pouca importância aos olhos de uma classe cuja única perpetuação como classe dominante significa todos os dias, a cada hora, o suplício da fome, da miséria, da morte, da sobre-exploração para milhões de proletários e sub-proletários do terceiro mundo.
Mas, tanto quanto o "terror ordinário" dos Estados capitalistas tem a função de manter a população operária sob o jugo, tanto o terrorismo elevado ao estatuto de meio de pressão e intimidação dirigido aos Estados imperialistas concorrentes não se destina, propriamente, à classe operária. Mesmo que sejam operários as primeiras vítimas destes actos de guerra imperialista.
Equivocar-se neste ponto, entender o terrorismo como um ataque directo e direccionado aos operários, é não compreender a natureza de classe do terrorismo actual, é ignorar o papel que a campanha anti-terrorista desempenha prioritariamente, que é directamente destinada aos proletários com o objectivo de os engajar atrás das bandeiras nacionais. É tornar-se, de uma forma ou de outra, talvez com as melhores intenções do mundo, cúmplice das campanhas nacionalistas e chauvinistas da burguesia.
É mesmo a burguesia de todos os países centrais que primeiro suscitou, encorajou, financiou e alimentou no plano político e militar o terrorismo que hoje pretende combater. Desde os atentados de 11 de Setembro de 2001, tem-se feito muitas referências às conexões de todas as naturezas entre o que se convencionou chamar a rede Al-Qaïda e o Estado dos EUA, e o mesmo se aplica aos campos de treino dos diferentes grupos terroristas que foram amplamente favorecidos e supervisionados pelas grandes potências, como no Afeganistão, no Paquistão ou mesmo em solo britânico.
E quando vemos os atentados a multiplicarem-se em
regiões tão centrais como os EUA, iniciadores da "guerra contra o
terrorismo", a Espanha, uma das "opositoras" à intervenção
militar dos EUA no Iraque e hoje o Reino Unido, regiões do mundo entre as mais
"vigiadas", "informadas" e dotadas com os meios preventivos
mais sofisticados contra o terrorismo, então não pode haver mais dúvidas sobre
o sentido dos atentados que os atingiram.
Desde Setembro de 2001, a burguesia internacional
percebeu perfeitamente todo o proveito que podia tirar dos atentados às Torres
Gémeas em Nova Iorque para avançar para a sua solução bélica.
"É um momento que se deve aproveitar. O
caleidoscópio foi sacudido. Todas as peças estão em movimento. Em breve, elas
vão voltar ao lugar. Antes que isso aconteça, vamos reorganizar este mundo que
nos rodeia." É assim que Tony Blair, dirigindo-se ao Partido Trabalhista por ocasião
da conferência do Partido Trabalhista a 2 de Outubro de 2001, comenta o evento
que acabara de ocorrer em Nova Iorque. Ou seja: os atentados de 11 de Setembro
criaram uma situação que abre a possibilidade de um reordenamento das forças no
tabuleiro imperialista, devemos saber explorá-la da melhor forma para os nossos
interesses.
O uso imperialista desses
atentados está claro hoje. É em nome de um vasto plano de 'guerra contra o
terror' que primeiro serão conduzidas as intervenções militares no Afeganistão
e depois no Iraque…
Agosto de 2005 Bulletin #32 de la Fraction interne
du CCI
Anexo V
Um circo de escuridão e mentira: a Assembleia
Nacional
As
eleições são o melhor meio que os homens de negócios e os seus servos políticos
encontraram para desviar o proletariado da sua tarefa histórica: a emancipação
de toda a humanidade. É um terreno onde ele não tem lugar verdadeiro, excepto
quando chega a altura de fazer um X de quatro em quatro anos para colocar no
poder burgueses do mesmo tipo, como os Charest, Marois, David, Dumont, etc...
O
desvio da classe operária para a democracia burguesa nos últimos 100 anos levou
à sua derrota e passividade. Os “cidadãos”, como dizem os políticos e os
sindicalistas, querendo fazer esquecer a existência da classe operária, estão
presos numa escolha kafkiana: escolher entre partidos políticos que, na
prática, não se opõem realmente em termos de ideias, mas que estão obcecados em
tomar o poder governamental.
Tudo isto, no momento em que a crise ameaça cada vez mais o capitalismo: problemas ambientais e impossibilidade do desenvolvimento sustentável na corrida louca pelos lucros que representa o clímax do sistema capitalista, desemprego e precariedade crescentes, desculpa do terrorismo para impedir qualquer oposição crítica à ordem económica e política, e polarização dos nacionalismos para uma deflagração mundial.
Abster-se é recusar o poder burguês, é recusar a sua legitimidade, é o recusar da sua extorsão diária da mais-valia a partir do trabalho da classe operária.
Operárias,
operários, devemos estar conscientes de que as eleições não mudam nada.
O chantagem com encerramentos tipo Olymel vai continuar. Os sindicatos que gritam que é preciso «Agir juntos pelo Quebec» continuam a tentar-nos a votar em diferentes clones. Os verdadeiros decisores não são os deputados; são os homens e mulheres de negócios, os altos funcionários das empresas estatais, enfim, todos os que possuem os meios de produção e detêm os comandos de empresas como Bombardier, Québecor, Olymel, Hydro-Québec e uma eventual Eole Inc. O objectivo deles: a procura do lucro para os seus accionistas e dirigentes. Entre eles, também devemos contar com os altos dirigentes das empresas estatais, essas mesmas empresas estatais que estão em simbiose com as suas irmãs do sector privado. Por exemplo, o fornecimento de electricidade a custos acessíveis às PME ou a qualquer monopólio, seja com a Hydro-Québec ou a Eole Inc., é um dos aspectos da estreita relação entre o capitalismo estatal do Quebec e o capitalismo privado. Da CSN passando pelo Québec Solidaire até aos Verdes, esta «nova geração» política só quer melhorar «a economia do Québec» em benefício das empresas e criar empregos, mas cada vez mais precários. Este grupo de arrivistas nunca vai dizer que, numa economia capitalista, o emprego é apenas temporário e que o retrocesso nos salários é cada vez mais permanente. Perante a desilusão que o Capital cria, a solução deles não é derrubá-lo, mas prolongar a sua existência, a sua democracia, a sua exploração da força de trabalho da nossa classe. Tentam fazer-nos votar porque acreditam que o capitalismo é eterno, então, segundo eles, temos de lidar com isso!
Abster-se não será
suficiente
O crescimento da abstenção nas eleições revela o desinteresse cada vez maior das operárias e operários. No entanto, isso nunca será suficiente. Vamos deixar de pedir ao Estado burguês através de petições, votos ou marchas à 'Françoise David'. A ditadura da burguesia deve ser destruída e substituída pela ditadura do proletariado dirigida pelos conselhos operários. É a perspectiva da luta da nossa classe contra a classe dos parasitas da nossa força de trabalho que deve motivar-nos. Proletários, devemos unir-nos participando na construção de um partido proletário internacionalista, um partido anti-estalinista!
Os comunistas internacionalistas, Montréal Março
de 2007
Anexo VI
Excerto de A Questão do sindicalismo no Québec
Este texto de 71 páginas, publicado em Dezembro de 73 pelo Atelier Ouvrier, analisa ponto por ponto as cláusulas de um acordo colectivo de operários do calçado. Dois operários e uma secretária faziam parte dele, assim como uma intelectual, e eles tinham alguns simpatizantes, como eu. Estes militantes completamente ignorantes das conclusões da Esquerda Comunista chegaram a uma posição muito semelhante sobre os sindicatos. O nascimento do Atelier Ouvrier remonta a Março de 1972 até à sua dissolução na Primavera de 74. Estes membros, após uma auto-crítica, encontraram-se em En Lutte! Considero que este desaparecimento do Atelier Ouvrier foi um retrocesso para a classe operária, porque eles passaram para um grupo estalinista. O grupo En Lutte! considerava que era necessário mudar as direcções sindicais, sem ir mais longe na sua análise dos sindicatos. Os erros dos sindicatos eram devidos a direcções corruptas e não ao facto de que o sindicalismo está completamente integrado no sistema capitalista e no seu Estado.
…« B. Considerações gerais sobre o sindicalismo
O sindicalismo nem sempre existiu. Surgiu com o capitalismo, ou seja, o modo de produção focado na busca do lucro máximo em vez da satisfação das necessidades humanas.
À medida que o capitalismo se desenvolvia, expandia-se de um país para outro, de uma indústria para outra, o sindicalismo por sua vez alargava as suas fileiras.
Assim, já se pode dar uma primeira definição de sindicalismo que completaremos mais adiante. O sindicalismo surge primeiro como a FORMA DE ORGANIZAÇÃO CAPITALISTA DA CLASSE OPERÁRIA. Vamos esclarecer estes termos.
O sindicalismo é a forma de organização capitalista da classe operária. Ou seja, é o modo de agrupamento dos operários que tentam defender os seus interesses económicos – salários e condições de trabalho – contra os patrões. Mas esta forma de se organizar é chamada de capitalista porque corresponde ao nascimento e ao desenvolvimento do capitalismo, por volta do século XIX. Antes, os operários estavam organizados de outra maneira porque os patrões da época dominavam de forma diferente e porque as condições de trabalho e produção também eram diferentes.
Esta forma de se organizar é chamada de capitalista também porque obedece, com algumas diferenças, às mesmas regras de funcionamento que a da empresa capitalista. Esta última afirmação tem dois sentidos. Primeiro, significa, como dizíamos acima, que o sindicalismo se desenvolveu paralelamente ao capitalismo. Depois, significa que nas suas estruturas, na sua organização interna, nas suas REGRAS DE FUNCIONAMENTO, a sua hierarquia, o sindicalismo funciona mais ou menos como a empresa capitalista.
Ou seja, no sindicalismo, há a BASE e o TOPO. O topo decide pela base, que não tem muito a dizer. Em poucas palavras, há CHEFES no sindicalismo como há nas empresas. Além disso, mesmo que inicialmente o sindicalismo tenha sido construído para defender os interesses dos operários, hoje parece mais frequentemente que são os operários que existem para financiar o sindicalismo. De facto, o sindicalismo já não tem o fervor dos inícios.
Porquê? Porque se tornou numa INSTITUIÇÃO RESPEITÁVEL DO SISTEMA ESTABELECIDO. Porque o sistema actual passou leis que regem o funcionamento do sindicalismo, das lutas operárias, das queixas, da negociação, etc... Estas LEIS LIMITAM a acção do sindicalismo e, assim, ENREDAM a classe operária num QUADRO JURÍDICO que lhes ata os pés e as mãos.
A terceira razão pela qual o sindicalismo é considerado a forma de organização capitalista da classe operária reside precisamente neste último ponto. Devido às numerosas LEIS QUE REGULAM a prática sindical, o sindicalismo é obrigado a manter relações com o ESTADO, mais particularmente com o MINISTÉRIO DO TRABALHO.
Assim, o sindicalismo encontra-se sempre numa situação de DEPENDÊNCIA em relação aos poderes públicos. Uma das provas disso é dada pelos múltiplos relatórios que as centrais sindicais enviam ao governo para que este não aja de forma demasiado desfavorável à população.
Mas esta intervenção do ESTADO no domínio das relações laborais teve um efeito crucial sobre o sindicalismo. De facto, no início do século XIX não se fazia distinção – com razão, aliás – entre a luta económica dos operários e os combates políticos que eles travavam para se libertarem dos patrões.
As lutas económicas sobre as condições de trabalho e os salários não estavam tão separadas ao nível da ORGANIZAÇÃO DOS OPERÁRIOS das lutas políticas como hoje. No entanto, há mais de cem anos, as intervenções do Estado no domínio das relações laborais delimitavam as regras da prática sindical, o seu campo de acção, etc... Paralelamente, o sindicalismo, especialmente o norte-americano, aperfeiçoava-se na negociação colectiva e deixava a outros a tarefa de levar a cabo as acções políticas. É daí que vem a separação entre luta económica e combate político. No entanto, para a classe operária, luta económica e combate político deveriam ser uma só e mesma coisa, uma implicando a outra.»
Após as críticas de economistas por parte dos m-l de En Lutte! sobre o seu trabalho, aqui está a sua resposta: (os sublinhados e as aspas não são meus)
« Porque é que o nosso trabalho não é economicista
É simplista pensar
que o que faz um trabalho ser economicista é que ele trate de condições económicas
de trabalho, assim como é igualmente absurdo qualificá-lo de legalista porque
visa um acordo colectivo. Por fim, e da mesma forma, um trabalho não é
ideológico porque transmite ideias novas, ainda que sejam
"marxista-leninistas" na sua forma. Uma luta é ideológica
porque tende a destruir todas as formas de ideologia burguesa e pequeno-burguesa
dentro da classe operária principalmente e a substituí-la pela ideologia
proletária. Essa substituição só se opera e só pode operar-se pela acção
dos actores, esclarecidos por uma linha correcta.
Em Que Fazer? Lénine lutará com determinação contra o economicismo: «Em vez de apelar em marcha em frente, em consolidar a organização revolucionária e em expandir a actividade política, apelava-se a voltar atrás, para a única luta sindicalista. Proclamou-se que “a base económica do movimento está obscurecida pela tendência de nunca esquecer o ideal político”». O texto do Atelier Ouvrier mostra claramente que ele não era economicista quando escrevem: «Ora, para a classe operária, a luta económica e o combate político deveriam ser uma só e mesma coisa. Um implicando o outro.»
Vamos relembrar a posição básica do GIGC: Na época do capitalismo de Estado dominante, os sindicatos como um todo, a direcção como secções de base, são órgãos completos do Estado burguês no meio operário. O objectivo deles é manter a ordem capitalista nas suas fileiras, enquadrar a classe operária e prevenir, contrariar e sabotar qualquer luta proletária, em particular qualquer extensão, generalização e centralização dos combates proletários. Qualquer defesa dos sindicatos e do sindicalismo é contra-revolucionária.
Anexo VII
Dados
sobre grandes empresas do Quebec
Estes monopólios do Quebec fazem parte das
300 maiores empresas do Canadá. Eles
reflectem muito bem a existência de um imperialismo canadiano com uma base
muito sólida no Quebec. Quase todos os dados são de Julho de 2021. Fonte: Revista Les Affaires.
Monopólios Número
total de empregados Quebec Couche-tard (Alimentação) 135000 7955
Couche-Tard é uma das maiores empresas norte-americanas do sector de alojamento, com uma rede combinada de mais de 7000 lojas. Este monopólio do Quebec está presente no Canadá e em 49 estados norte-americanos. Possui 3072 lojas em nove países da Europa e em Hong Kong e 9042 em nove países da Ásia.
Garda World (Corporação de segurança) 122000 16000
Em 2007, a Garda adquiriu a
empresa californiana ATI Systems, tornando-se o segundo maior transportador de
valores na América do Norte. Oferece os seus serviços através de 500 locais
espalhados por 45 países na América do Norte, Europa, África, Ásia e Médio
Oriente. Torna-se também o quinto maior actor mundial em segurança física e
transporte de valores, com um volume de negócios de 3,5 mil milhões de dólares.
ABB
Canadá 105000 2390
Automatização de processos, robótica e electrificação
METRO alimentação 90000 59660
Metro com Metro Plus, Super C, Brunet, Première Moisson, Food Basics, as farmácias Brunet e Jean Coutu, Richelieu e Marché Ami é um monopólio na distribuição de alimentos e produtos farmacêuticos no Quebec e no Ontário.
Raymond Chabot Grant Thorton 58229 2648
Serviços
de contabilidade e serviços de consultoria.
WSP
Global (Groupe) 47000 2270
Serviços de engenharia, gestão
de projectos e consultoria
Desjardins (Movimentos das
caixas) 43504 4890
Esta antiga cooperativa de Poupança, cuja origem remonta ao início do século XX, encaixa-se muito bem no grupo de empresas capitalistas canadianas. Parte dos seus rendimentos vem de fora do Quebec. Assim, a filial do Movimento das Caixas Desjardins na Flórida, fundada em 1992, tem activos de centenas de milhões. O Desenvolvimento Internacional Desjardins (DID) é um componente do Movimento Desjardins que, há 35 anos, apoia instituições financeiras em cerca de vinte países de África, América Latina, Caraíbas, Ásia e Europa Central e de Leste. O DID é parceiro da Agência Canadiana de Desenvolvimento Internacional (ACDI), do governo do Quebec, do Banco Mundial, assim como de outros organismos multilaterais.
SNC-Lavallin 38000 3000
É a empresa de engenharia mais importante do mundo. Tem empregados em mais de cem países, incluindo França, Espanha, Brasil e Estados Unidos. Está presente, entre outros, no sector da defesa, principalmente em contratos de empreiteiro de defesa, fornecendo também serviços de operação e manutenção à Marinha canadiana, bem como apoio no estrangeiro às Forças Canadianas em infraestruturas e logística em locais remotos. A SNC-Lavalin fabrica grandes quantidades de munições. Esta empresa está envolvida em vários escândalos de corrupção.
CGI 31000 6000
O Grupo CGI está muito presente nos Estados Unidos, na Europa e na Índia. Está em parceria com o Banco Nacional.
Power Corporation du Canada 29907 2705
A
família Desmarais tinha em 2018 uma fortuna estimada em 8 mil milhões.
Banque Nationale du Canada 26517 16633
O Banco teve de remover 575 milhões de dólares dos seus livros devido aos seus investimentos em papel comercial (Subprime) em 2008. Qualquer empresa capitalista é obrigada a inserir-se no sistema imperialista, senão corre para a sua perdição. Assim, o Banco Nacional tem investimentos, entre outros, nos Estados Unidos, Camboja, Tailândia e noutros lugares.
Hydro-Québec mais de 22000 21168
Em 2006, a Hydro-Québec vendeu as suas subsidiárias internacionais na China, nos Estados Unidos, na Costa Rica, na Austrália, no Panamá, no Peru e no Chile. A venda da sua subsidiária no Chile a um consórcio canadiano trouxe-lhe um lucro de 813 milhões de dólares. Em 2021, o lucro líquido desta empresa capitalista estatal foi de 3,564 mil milhões.
Bombardier 14100 7500
Depois de acumular muito capital durante a economia de guerra: apoio e treino de pilotos da NATO, contrato de manutenção dos caças canadianos CF-18 e das aeronaves Sherpa americanas, co-desenvolvimento de drones americanos, aviões comerciais vendidos para fins militares, pontes móveis para o Exército dos EUA, desenvolvimento do CI-327, um avião de descolagem vertical. Desde 2021, a empresa voltou-se para os jactos de negócios.
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BRP (Bombardier Produits récréatifs) 14500 |
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2750 |
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Dollarama 10100 |
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3200 |
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Quebecor 10000 A Quebecor está presente em vários países. Pierre Karl Péladeau, um antigo líder do Parti Québécois, tem uma fortuna de 2,42 mil milhões de dólares. |
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9900 |
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Familiprix 6450 |
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Point
S Canada/Pneus Unimax 6600 6000
Concepção e gestão de complexos residenciais maioritariamente para idosos.
O lucro da empresa é o
principal critério da empresa antes da saúde dos residentes.
Caisse de dépôt et placement
du Québec 1391 1216
A Caisse de dépôt et de placement du Québec, empresa do capitalismo de estado, tem 396,6 mil milhões de activos sob gestão. Possui activos em milhares de empresas em mais de quinze países, incluindo Japão, Alemanha, Brasil, Índia, França, Polónia, China, Reino Unido, Coreia do Sul e Estados Unidos, entre outros. Um exemplo de que esta empresa estatal faz parte do imperialismo: uma das suas subsidiárias, Ivanhoe Cambridge, possui ou gere centros comerciais no Brasil. A Caisse teria investimentos no Québec no valor de mais de 78 mil milhões de dólares. A crise capitalista do sistema financeiro internacional em 2008 causou perdas financeiras de 39,8 mil milhões à Caisse de dépôt et de placement. Vale a pena notar que em 2008, Henri Massé, ex-presidente da FTQ, e em 2010, Claudette Charbonneau, ex-presidente da CSN, faziam parte do Conselho de Administração da Caisse. Em 31 de Dezembro de 2021, a CDPQ avaliava o seu investimento na Allied Universal em mais de 1,5 mil milhões, o que a tornava o principal accionista, uma empresa britânica ligada a vários escândalos.
Saputo 17000 2000
A família Saputo tem uma fortuna estimada em 5,5 mil milhões. A Saputo fez aquisições no Reino Unido, na Argentina e nos Estados Unidos (Alto Dairy). A empresa é o 11.º maior transformador de laticínios do mundo e o mais importante no Canadá.
Cascades 11714 4279
Agropur coopérative 7700 2840
A cooperativa Agropur é a maior cooperativa de laticínios do Canadá. A Agropur e a Adecoagro (presente na Argentina, no Brasil e no Uruguai) chegaram a um acordo para formar uma joint venture com o objectivo de desenvolver novas actividades de laticínios na América do Sul. A Agropur também investiu até 200 milhões comprando nos EUA a Trega Foods, no Wisconsin, e a Schoeder Milk, no Minnesota.
Transcontinental 8054 2285
Presente nos Estados Unidos e na América Latina. Adquiriu sete instalações da empresa americana Quad-Graphics no Canadá. Estas aquisições e vendas resultaram em despedimentos de trabalhadores, especialmente em Louiseville, na Maurícia. A Transcontinental é líder em embalagens flexíveis na América do Norte e a maior gráfica no Canadá. A empresa tem 43 fábricas de produção
Energir ( antes Gaz Metro) ~2500 1595
A Gaz Métro é o principal distribuidor de electricidade em Vermont, após a aquisição em 2011 da Central Vermont Public Service, que fundiu com a Green Mountain Power Corporation, que possui desde Abril de 2007.
Cirque du Soleil 3600 não-disponível
O Cirque está presente permanentemente nos Estados Unidos, no Japão e em Dubai. Guy Laliberté vendeu a empresa em 2015. A sua fortuna seria de 1,4 mil milhões, o que permitiu a este burguês ir ao espaço por um custo de 41,8 milhões. O fundo americano TPG Capital detém assim 55% das acções do Cirque du Soleil; o fundo chinês Fosun International, 25%; a Caisse de dépôt et placement du Québec, 20%.
Fundos de « solidariedade » FTQ 585 585
Esta empresa totalmente capitalista da FTQ e da CSQ tem investimentos importantes em grandes empresas como a Cogeco Cable, Metro, SSQ Société d’assurance-vie, Stella Jones, Transcontinental, Hydro-Québec e o Banco Laurentiano do Canadá. Nos últimos dez anos, o Fundo investiu 2,3 mil milhões no capital de risco.
O Fundo de «solidariedade» da FTQ (com a CSQ) mostra o quanto os sindicatos estão implicados nos investimentos imperialistas. A 31 de Maio de 2022, o Fundo estava em parceria com cerca de 3600 empresas capitalistas.
Os números sobre estes abutres capitalistas provêm do jornal LaPresse Affaires e de sites na internet: Le classement des 300 des plus grandes entreprises du Québec | LesAffaires.com
Segundo o L’Action nationale
“Cerca de cem canadianos-franceses enriqueceram. Eles consideram-se iguais aos canadianos de língua inglesa. Eles têm razão. Mas esses sucessos não são suficientes. Uma nação deve possuir uma rede de empresas capitalistas ou cooperativas, suficientemente poderosas para fornecer emprego duradouro a todas as pessoas aptas para o trabalho. Estamos longe desse objectivo. .... A influência desses gigantes [As multinacionais estrangeiras] só será contrabalançada se as quebequenses e os quebequenses estabelecerem e fizerem funcionar empresas do mesmo tamanho.” Rosaire Morin Décembre 1998 em L’Action nationale.
Para continuar o desenvolvimento de monopólios quebequenses, os nacionalistas precisam de manter a ideologia burguesa dominante de que é o governo federal que oprime a nossa classe e não o capitalismo americano, quebequense, canadiano ou outro. Rosaire Morin quer-nos fazer acreditar que as «empresas capitalistas ou cooperativas [querem] proporcionar emprego duradouro a todas as pessoas aptas para trabalhar.» Na realidade, é a extorsão da mais-valia sobre as costas da classe operária que elas querem e ao máximo possível. O Estado, tanto federal como provincial, está ao serviço dessas empresas capitalistas.
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Anexo VIII
Origem da Esquerda Comunista
Desde o início dos anos 1920, começa a surgir um processo de degeneração na IC (Internacional Comunista ou 3ª Internacional) recentemente fundada. Como consequência da não expansão da revolução proletária (da qual Outubro de 1917 foi a primeira e única fase bem-sucedida) à escala internacional, este processo levou imediatamente, no movimento comunista, ao surgimento de uma série de reacções políticas essencialmente de esquerda, mais ou menos importantes e organizadas (tendências, fracções, oposições, cisões, etc.).
As fracções de esquerda mais importantes, mais conhecidas, e que estão
entre as primeiras a surgir, são a Esquerda Italiana (Bordiga), a Esquerda
Germano-Holandesa (Anton Pannekoek e Herman Gorter) e a Esquerda Comunista
Russa de Gavril Miasnikov. Estas são tradicionalmente e com justeza agrupadas
sob o termo «Esquerda Comunista». Por muito diversas que sejam, todos os
componentes da Esquerda Comunista reconhecem-se principalmente nos dois primeiros congressos da IC (enquanto Trotski, por
exemplo, assim como os seus «seguidores», reivindicam os 4 primeiros
congressos). Elas reivindicam a Revolução de Outubro na Rússia (1917) mas
caracterizam-se por uma perspectiva crítica quanto ao seu desenvolvimento
posterior. Elas travam as suas principais lutas na IC, nos PC e depois fora,
quando, na maioria, serão excluídas. Assim, encontram-se a lutar especialmente
contra a «bolchevização» dos PC, contra a teoria do «Socialismo num só país»
defendida por Estaline. Caracterizam-se também por uma denúncia muito virulenta
da social-democracia e por uma rejeição de todas as políticas de frentes
unidas, populares, anti-fascistas, etc., que implicam a aliança da classe
operária com outras camadas da sociedade e com fracções da burguesia. A
Esquerda Comunista apresenta-se mundialmente como anti-parlamentar
(«abstencionista» para a esquerda italiana). De certa forma, o seu principal
reconhecimento deve-o a Lenine, que a critica em «A doença infantil do comunismo». Quem lhe dará a resposta mais
completa será Herman Gorter através da sua «Resposta
a Lenine».
Ao longo do tempo, os dois ramos principais da GC, a Esquerda alemã e a Esquerda italiana, vão tender a afastar-se cada vez mais politicamente um do outro. Divergências importantes de concepções vão mesmo aparecer, desenvolver-se dentro de cada um e acabar por se concretizar em organizações diferentes. Um certo número de grupos políticos actuais (nomeadamente aqueles que derivam da Esquerda italiana) continua a reivindicar-se da Esquerda Comunista (GC – Gauche Communiste – NdT)).
Hoje em dia, um equívoco é frequentemente feito ao confundir a Esquerda Comunista com o que se chama de “ultra-esquerda”. As organizações actuais que se reivindicam da GC querem dar continuidade a uma corrente histórica, enquanto aquelas que pertencem à ultra-esquerda são puramente “modernistas” e vão mesmo ao ponto de rejeitar qualquer filiação com as correntes do passado.
As diferentes vertentes da Esquerda Comunista na história:
• A Esquerda Comunista de Itália (cf.: Esquerda comunista italiana e bordiguismo)
• A Esquerda Comunista Germano-Holandesa (cf.: Comunismo de conselhos)
• A Esquerda Comunista russa, “decistas” e depois o Grupo Operário Comunista de Gavril Miasnikov
• A Esquerda Comunista belga (1936-1940)
• A Esquerda Comunista em França
• A Esquerda Comunista inglesa (Sylvia Pankhurst, Guy Aldred, etc..)
Anexo IX
O proletariado da Grécia mostra-nos o caminho ! (Março de 2010)
Movimentos sociais que se multiplicam, se sucedem, se encontram, se acumulam, eis a situação que a Grécia tem vivido nas últimas semanas; situação que os meios de comunicação burgueses, em todo o mundo, se esforçam por esconder, ou pior, deturpar. Os seus meios de informação mostram assim que a classe capitalista internacional tem medo de que esta situação se espalhe, que o actor principal desta fervilhante tragédia grega, o proletariado, sirva de exemplo para os operários de outros países.
O proletariado grego reage com força
O último plano do governo deste país prevê ataques enormes, como o aumento do IVA para 21%, a redução dos salários (corte de 60% do 14º mês e 30% do 13º), o congelamento das reformas no sector público e privado, o grande aumento dos impostos sobre o álcool, tabaco e gasolina, e o aumento de impostos (impostos municipais e prediais). Estes ataques violentos afectam directa e essencialmente o proletariado. O capitalismo quer assim fazer o proletariado pagar pela sua crise.
Esta situação é da responsabilidade total e inteira da burguesia, não apenas a nível nacional, pelo colapso geral deste país e pelos ataques de hoje; este é o verdadeiro significado das 'recomendações' da União Europeia, com a burguesia alemã à frente, e do FMI, que estão aí para 'apoiar' Papandreu, o primeiro-ministro grego, ou seja, forçar a burguesia grega a fazer o seu proletariado pagar.
Actualmente, este tipo de ataques já está a acontecer também em Espanha e em Portugal. São os mesmos que vão atingir o proletariado dos outros países nas próximas semanas.
Perante estes ataques, multiplicam-se as lutas: greves, manifestações, delegações massivas, assembleias, por toda a Grécia, para se oporem ao plano escandaloso da burguesia. Em todos os sectores, em todas as categorias, os proletários mobilizam-se para expressar a sua raiva e a sua recusa em sofrer esta situação de que só o capitalismo é responsável.
Estes proletários mostram o caminho aos seus irmãos de classe em todo o mundo
- Eles expressam
massivamente a sua raiva e recusa às políticas governamentais e patronais
anti-operárias através da luta, e não por meios estéreis como aqueles propostos
pela democracia burguesa (eleições, referendo, diálogo social, negociações
sindicais, etc.). E eles encorajam-nos a fazer o mesmo, se não ainda mais. -
Eles manifestam porque hoje já não têm escolha, com uma determinação à prova de
tudo, que os leva a enfrentar directamente tudo o que impede a sua luta
legítima: multiplicam os confrontos com as forças de ordem capitalistas
enviadas pelo governo do 'socialista' Papandreu; expulsam manu-militari das
suas manifestações todos os 'falsos amigos', incluindo especialmente os chefes
sindicais cujas organizações são cúmplices da política do governo. Para os
proletários de todo o mundo, esta determinação dos operários gregos merece ser saudada
e adoptada.
- Embora ainda dispersos e ainda se
exprimindo dentro da armadilha do corporativismo (encorajados nisso pelos
sindicatos), os seus esforços vão claramente no sentido de se encontrarem, de
unir a sua luta à dos outros, de expressar mutuamente a sua solidariedade,
porque se dão conta de que as suas preocupações e interesses são os mesmos; é
isso que se viu na vontade expressa pelos operários das diferentes
manifestações - que os sindicatos tinham conscientemente organizado em locais
diferentes para os fazer convergir, a fim de se reunirem todos juntos e unirem
as suas forças.
Para que o proletariado imponha uma relação de forças que faça a burguesia ceder, a procura da unidade das suas lutas é indispensável e até vital. Esta unidade obtém-se pela extensão e solidariedade activa de cada movimento aos outros sectores e corporações, através do envio de delegações massivas para as fábricas e empresas das redondezas. Nada é pior, nem tão fonte de derrota, do que de uma frente social fragmentada e dispersa; é isso que favorece os capitalistas e isso, na maioria das vezes, graças ao trabalho de sabotagem dos sindicatos.
Os confrontos que estão a decorrer na Grécia mostram-nos que só poderemos realmente desenvolver a nossa luta, multiplicar os nossos combates e reuni-los num frente comum massiva e poderosa se os tomarmos em nossas mãos, para os dirigir, controlar e organizar. E isso através das nossas Assembleias gerais, que devem reunir o máximo de operários, que devem decidir as grandes orientações e reivindicações da nossa luta, que devem nomear os nossos delegados eleitos e revogáveis a qualquer momento, delegados que nos representarão nos comités de greve. Não deixemos a nossa "guerra" de classes nas mãos de supostos "especialistas"!
A crise do capitalismo só pode piorar. Não vamos ter ilusões e não ouçamos as mentiras dos nossos governos e dos media que estão ao serviço da classe capitalista! Hoje, já há alguns países no coração do capitalismo cujos Estados estão à beira da falência, Espanha, Itália e sobretudo a Grã-Bretanha, mesmo com o endividamento a ser generalizado. Toda a classe capitalista internacional tem de fazer o proletariado pagar a sua crise, em todos os sectores, públicos e privados, activos, desempregados e reformados, e em todos os países, em todos os continentes, desde a periferia do capitalismo até ao seu centro. Nenhum de nós escapará a isto. Não vamos ter ilusões!
Como os nossos irmãos de classe na Grécia, devemos recusar o destino que o capitalismo nos reserva e entrar na luta em massa, organizar uma frente de lutas, ampla, compacta e poderosa que faça recuar a burguesia.
É assim que seremos capazes de tomar consciência de que o capitalismo é um sistema em plena falência, que só pode levar a humanidade a mais miséria ainda e à sua destruição através de uma guerra generalizada, que é absolutamente necessário derrubá-lo e que a única força capaz de o fazer somos nós, o proletariado internacional.
PARA A BURGUESIA MUNDIAL, É O PROLETARIADO, EM TODOS
OS PAÍSES, QUE DEVE PAGAR O PREÇO DA CRISE DO SEU SISTEMA.
O FRACASSO CAPITALISTA NÃO TEM OUTRA SAÍDA SENÃO A
GENERALIZAÇÃO E O APROFUNDAMENTO DA MISÉRIA DE TODOS OS EXPLORADOS, ENQUANTO SE
EXIGE DELES O SACRIFÍCIO DA SUA VIDA NUMA GUERRA MUNDIAL, COMO JÁ ACONTECEU EM
1914 E EM 1939.
EM TODO O LADO, HOJE, OS PROLETÁRIOS DEVEM RECUSAR OS ENORMES SACRIFÍCIOS QUE LHES SÃO IMPOSOS PELA BURGUESIA PARA QUE, AMANHÃ, POSSAM TER FORÇA PARA ELIMINAR ESTA CLASSE E O SEU SISTEMA BARBARO.
9 de Março de 2010 Les Communistes Internationalistes Klasbatalo
A Fracção interna da Corrente Comunista Internacional (México, França)
Critica da brochura pelo GIGC
Não achamos que o GIGC possa assumir o documento – o folheto – do camarada. Porquê? Por duas razões principais na nossa opinião: primeiro, trata-se de um documento escrito por um camarada sobre a sua experiência pessoal, que marca um – certo – nível e um momento de ruptura individual com uma experiência de esquerda particular que não é a do grupo como um todo. Mas, sobretudo, e mais importante, mesmo que o documento represente uma ruptura política individual significativa com o maoísmo, parece-nos largamente insuficiente e ainda carregado de uma relativa confusão em termos de ruptura, com o nacionalismo e o maoísmo, que o grupo como tal não pode assumir. Lembram-se da crítica que vos fizemos em 2007 a respeito do vosso projeto de carta ao GIO na sequência dos seus artigos sobre o Gagnon? A brochura manifesta os mesmos erros e concessões, na sua abordagem, à ideologia e às posições maoístas e esquerdistas. Exemplos: – «o internacionalismo maoísta é contra o internacionalismo proletário» – haveria então possibilidade de um internacionalismo maoísta, de um internacionalismo diferente do proletário? (p.16); – «o debate sobre o sindicalismo foi praticamente nulo durante o primeiro congresso e a posição clássica dos estalinistas passou» – haveria possibilidade de um debate em termos de classe dentro de um grupo maoísta? (p.27); – «não há nenhuma análise da instauração do capitalismo de Estado na Rússia (...) O fracasso da vaga revolucionária, em particular na Alemanha em 19-23 (...) não é mencionado» – poderia ser diferente num grupo stalinista? (p.30); – «a crítica às direções sindicais e não aos sindicatos em si» – mesmo comentário do anterior (p.29); – «o congresso, na sequência de resoluções, dava-se conta de que os entre os trabalhadores e trabalhadoras quebequeses tinham os mesmos inimigos que os trabalhadores e trabalhadoras canadenses » – poderia haver progressos do ponto de vista da classe trabalhadora numa organização burguesa? (p.31); – e ao mencionar a publicação bilíngue, abre-se a porta para o facto de uma certa aspiração internacionalista poder ter existido dentro deste grupo maoista a ponto de parecer – há fortes probabilidades de que um Victor, ou mesmo um MLabb16, o entendam assim, o que pode explicar o sentimento deste último de estar completamente de acordo – lamentar que «isso permaneceu ainda com a teoria stalinista do socialismo num só país» como se pudesse ser de outra forma! – «EL não criticará os partidos ou frentes que misturam os interesses da burguesia com os proletários desses países porque não é uma luta pelo socialismo. Há de se estranhar depois disso que a adesão dos proletários estagne» (p.34) – como se fosse de lamentar que os proletários não adiram a este partido maoísta.... Há outras formulações deste tipo no documento que deixam a porta aberta à ideia de que o maoísmo possa, ou poderia, representar um momento de clarificação política do ponto de vista proletário. Se deixarmos essa porta aberta, então o maoísmo não está do lado burguês. Claro que o documento contém tanto passagens de denúncia clara das posições maoístas quanto passagens que são claras sobre o papel do maoísmo em relação aos indivíduos revoltados e que querem inscrever-se na luta pela revolução comunista (p.39): «as minhas atividades políticas militantes...» Todas as passagens que acabámos de citar são, por si só, perigosas e exprimem a dificuldade que o autor sentia na altura para romper em profundidade com o maoísmo e a sua própria história. Sejamos claros, com este documento, o camarada exprimia a força das suas convicções e a sinceridade do seu compromisso revolucionário: poucos militantes que passaram pelo esquerdismo, tendo lá permanecido tanto tempo, com responsabilidades, têm capacidade para querer romper com décadas de compromisso, de sacrifícios e de formas de pensar. Nesse sentido, este documento de ruptura individual merece ser saudado. Mas, ao mesmo tempo, é preciso salientar os seus limites. A abordagem que anima o documento é a mesma, no fundo, que aquela que tínhamos criticado no vosso projecto de carta crítica ao GIO em 2007 (reencaminhamos-vos o ficheiro anexo).
É por isso que não considerámos útil voltar à brochura. É também por isso que não podemos, como GIGC, assumir esta brochura. E se nós, o grupo, tivéssemos de a distribuir a alguns camaradas, isso deveria ser como um exemplo – interessante – de ruptura incompleta com o esquerdismo, incompleta porque ainda se situa no modo de reflexão, nos desvios, nos reflexos ou ainda no terreno do esquerdismo em termos de "abordagem", mesmo que as posições políticas sejam denunciadas como burguesas. E destacando essas fraquezas políticas.
Leiam Revolução
ou guerra
1 O BIPR tornou-se agora a Tendência Comunista Internacional (TCI)
2 A religião é o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, assim como é o espírito das condições sociais das quais o espírito está excluído. Ela é o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória do povo é a exigência que formula a sua verdadeira felicidade. Exigir que renuncie a uma situação ilusória é exigir que renuncie a uma situação que precisa de ilusões. A crítica da religião está, portanto, no seu cerne, a crítica do vale de lágrimas, cuja auréola é a religião. A crítica da religião destrói as ilusões do homem para que ele pense, aja e molde a sua realidade como um homem sem ilusões que atingiu a idade da razão, para que ele gire em torno de si mesmo, ou seja, em torno do seu sol real. A religião não é senão o sol ilusório que gira em torno do homem enquanto o homem não gira em torno de si mesmo.
Marx. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.
3 Para ler Os anarquistas contra a classe operária - Proletários, saiam das organizações anarquistas! publicado pelos Comunistas Internacionalistas-Klasbatalo em 2010.
4 Na altura do capitalismo de Estado dominante, todas as fracções da burguesia são igualmente reaccionárias. As organizações de esquerda (trotskistas, maoístas, anarquistas), ou ainda as que se apresentam como anti-capitalistas, constituem a esquerda do aparelho político do capital. Todas as tácticas de frente popular, frente anti-fascista ou frente única que misturam os interesses do proletariado com os de uma fracção da burguesia, só servem para conter e desviar a luta do proletariado. Toda política de frente com partidos de esquerda da burguesia é contra-revolucionária.
5 Tornou-se depois deputado liberal federal e foi recompensado pelos seus serviços em Agosto de 2004 ao ser nomeado embaixador do Canadá na UNESCO.
6 Nota adicionada em 2013: A assembleia popular autónoma de Montreal (APAM) faz um trabalho económico semelhante, sendo um pouco mais crítica em relação aos sindicatos.
7 En Lutte! tinha 68 empregados em 1978 entre 378 membros, ou seja, 18%, o que é enorme e reflecte o burocratismo das organizações estalinistas.
8 Christian Rioux, o director da En Lutte, pôde continuar o seu trabalho de escritorinho como jornalista no Devoir.
9 A 4 de janeiro de 2017, o GIO dissolveu-se.
Este afiliado canadiano da TCI foi dominado pelo esquerdismo.
10 Mao, o « grande timoneiro »(sic), chega
mesmo a dar uma nota a Estaline: 70% bom e 30% mau
11 Gramsci não faz parte da Esquerda italiana.
Gramsci colocou essas qualidades ao serviço da contra-revolução, da teoria do
socialismo num só país, dos caminhos nacionais para o comunismo. O seu caminho
não é o meu.
12 O Grupo Internacional da Esquerda Comunista é fruto da fusão do
CIK-Klabastalo e da FGCI, que se haviam dissolvido previamente em novembro de
2013.
13 Desde o
início dos anos 2000, o CCI afastou-se cada vez mais das suas posições
revolucionárias para cair no oportunismo e no sectarismo.
14 A oposição de Esquerda é uma outra e importante reacção (diferente da GC) à degeneração da IC. Só surge na segunda metade dos anos 1920 e a sua principal figura é Trotsky.
15 Desenvolveram uma análise crítica do Estado soviético que, mais tarde (nos anos 1930), levou à posição segundo a qual a URSS se tornou um Estado capitalista com a forma de «capitalismo de Estado».
16 Dois militantes que na prática não
abandonaram o maoísmo.
17 Os comunistas
internacionalistas Klasbatalo e a Fracção dissolveram-se para formar em
novembro de 2013 o Grupo Internacional
da Esquerda Comunista (GIEC)
Para receber estas brochuras por download ou impressas, basta escrever para:intleftcom@gmail.com
Mail do autor realjodoin@yahoo.fr
Mail do Groupe International de la Gauche Communiste (GIGC)17
Site do Groupe International de la Gauche Communiste www.igcl.org
Esta brochura foi traduzida para Língua
Portuguesa por Luis Júdice
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