terça-feira, 18 de agosto de 2026

As deambulações de um embusteiro libanês no seio da classe dominante (1 de 2)

 


As deambulações de um embusteiro libanês no seio da classe dominante (1 de 2)

18 de Agosto de 2026 Robert Bibeau



Por René Naba. Em Les déambulations d’un mystificateur libanais au sein de la classe dirigeante 1/2 – Madaniya

As deambulações de um mistificador libanês dentro da classe dominante libanesa, indicativo da ganância e da servilidade da elite libanesa. 

Um libanês assumindo a personalidade fictícia de um príncipe saudita abusou da confiança de personalidades libanesas, tanto políticos como banqueiros, duas profissões normalmente experientes em manobras, intervindo até na reeleição do Mufti da República Libanesa, Cheikh Abdel Latif Dériane, um cargo tradicionalmente reservado aos sunitas, assim como na nomeação do primeiro-ministro Nawaf Salam. 

A mistificação revelou, por consequência, a ganância, a servilidade e a ingenuidade crédula da classe dirigente libanesa, assim como o seu gosto por ingerências estrangeiras.

O relato desta fraude é narrado pelo diário libanês Al Akhbar num dossier em dois volumes datado de 6 e 7 de Janeiro de 2026, cujos links são mencionados no final do texto.

Aproveitando o vazio criado na comunidade sunita libanesa pela saída da vida política libanesa do antigo primeiro-ministro, Saad Hariri, para se apresentar como o «padrinho» da comunidade, tornando-se o governador oculto do Líbano, paralelamente às instâncias estatais. A ponto de o criminoso ter o poder de decisão no funcionamento da mais alta instituição religiosa sunita, Dar El Fatwa, assim como no órgão judicial a ela associado.

Para além dos sunitas, este simulador teve a ousadia de se intrometer nas consultas parlamentares para a escolha de um primeiro-ministro, sugerindo o nome de Nawaf Salam como sendo o candidato dos sauditas.

Melhor ainda, personalidades de primeira linha – reputadas por serem velhos frequentadores do meio político e, além disso, em contacto regular com a embaixada da Arábia Saudita no Líbano para solicitar instrucções –, como o ex-primeiro-ministro Fouad Siniora, o deputado de Beirute Fouad Makhzoumi, que aspirava à liderança do governo, e, surpreendentemente, o chefe das Forças Libanesas, Samir Geagea, foram todos enganados por este trapaceiro, provocando a ira da embaixada.

·         Sobre Samir Geagea, cf este link
https://www.madaniya.info/2025/02/09/samir-geagea-le-chef-des-forces-libanaises-un-parfait-zombie-criminogene/

·         Sobre Fouad Siniora, cf este link
https://www.madaniya.info/2018/02/19/fouad-siniora-le-gouverneur-de-lombre-du-clan-saoudo-americain-au-liban/

O estratagema

O estratagema era imbatível: Para ganhar credibilidade, o simulador, um indivíduo sem recursos chamado Moustapha Housbane, assumiu o nome de Abou Omar e dirigia-se às suas vítimas com o sotaque dos beduínos da Península Arábica, que dominava na perfeição. Por precaução extra, actuava em nome do seu empregador, que o remunerava, Cheikh Khaldoun Aramit.

Abou Omar interveio assim junto de um antigo primeiro-ministro para favorecer a nomeação de um próximo à liderança de um serviço de segurança do Líbano, eliminando os seus concorrentes. Esta última interferência levou o poder saudita a tomar medidas urgentes junto do governo libanês para proteger os serviços de informações do exército de qualquer intervenção e prevenir qualquer interferência nas suas investigações.

O sector bancário

Abou Omar conseguiu contornar o congelamento de activos que afecta os depositantes libaneses desde a crise do sistema bancário que assola o país desde 2020. Este sacana conseguiu desbloquear os activos do seu empregador, Cheikh Khaldoun Oureimit, solicitando directamente a intervenção do presidente da associação das bancas libanesas, o Sr. Samir Sfeir. Ao longo de uma longa conversa cheia de bajulações, fez ver ao banqueiro que esses fundos pertenciam a uma associação de caridade, a "Associação para o Desenvolvimento e Sensibilização das Famílias", um organismo presidido, na realidade, pela própria esposa de Cheikh Aramit, o manipulador. 

Como na fábula de Jean de La Fontaine "O corvo e a raposa", em que "todo lisonjeador vive à custa de quem o escuta", Abou Omar conseguiu assim a liberação dos fundos dessa associação, enquanto todos os depositantes libaneses continuam privados de acesso às suas contas bancárias.

Abou Omar tentou afastar altos funcionários do gabinete do primeiro-ministro sob o pretexto de que eles se opunham à atribuição de uma carga de chumbo armazenada no porto de Beirute. Curiosamente, e por mais paradoxal que pareça, o próprio filho de Abou Omar acabou por ganhar o concurso, levantando questões sobre a transparência do processo seguido pela comissão de atribuição de concursos e, de passagem, sobre a influência que Abou Omar poderia exercer sobre ela.

A lentidão da reacção saudita face ao escândalo

Perante a dimensão do escândalo, personalidades políticas intervieram para encobrir o caso, porque as revelações que dele teriam resultado teriam colocado a questão da credibilidade das pessoas envolvidas, independentemente da sua credulidade. Mas a Arábia Saudita exerceu fortes pressões para que este assunto não fosse enterrado. 

A questão que se coloca, no entanto, é saber por que razão o reino saudita demorou tanto a reagir às acções deste delinquente. A resposta mais provável para este atraso deve-se à burocracia saudita. 

Não é indiferente notar, contudo, que o secretário-geral do Conselho de Ministros da Arábia Saudita, Nizar Ben Salmane Al Alloul, foi destituído das suas funções e as suas atribuições confiadas ao Príncipe Yazid Ben Farhane, responsável pelo dossier libanês. Esta transferência de competências colocou a questão de saber se Abou Omar não seria, na verdade, uma marioneta nas mãos do antigo secretário-geral do Conselho de Ministros saudita Nizar Ben Salmane Al Alloul.

O facto intrigante é que Abou Omar tinha os mecanismos que lhe permitiam decifrar os códigos secretos sauditas. Foi o que aconteceu na nomeação de Nawaf Salam para o cargo de primeiro-ministro.

Para o falante de árabe, veja estes links :

·         Al Akhbar 6 janvier 2026

·         Al Akhbar 7 Janvier 2026

Os aliados da Arábia Saudita em dificuldade

Fouad Makhzoumi e Fouad Siniora, possíveis danos colaterais do embusteiro. 

O caso do embusteiro acabou por ser levado à justiça, mas este desenvolvimento judicial não acalmou a fúria dos sauditas. 

Para agravar a situação, esta fraude surgiu mesmo quando o Líbano se encontra na véspera das eleições legislativas. Muitos deputados em funções tinham pedido a opinião do falsificador sobre a oportunidade da sua candidatura, correlacionando isso com um possível apoio saudita ao seu envolvimento na campanha eleitoral. 

A preocupação deles é grande: o embaixador da Arábia Saudita em Beirute, Walid Al Boukhary, furioso, garantiu, de facto, que todos os que se deixaram enganar por Abou Omar serão privados do apoio saudita, como sanção pela sua inconsistência política.

O embaixador estaria mesmo a considerar favorecer o surgimento de uma nova geração política sunita com a aproximação das próximas eleições legislativas. 

O Reino da Arábia Saudita está particularmente consternado pelo facto de personalidades tão experientes na vida política como o ex-primeiro-ministro Fouad Siniora e Samir Geagea, o líder das Forças Libanesas, terem podido ser assim tão facilmente enganadas. 

Circunstância agravante: nem Fouad Siniora, nem Fouad Makhzoumi, candidato a primeiro-ministro, acharam por bem alertar a embaixada saudita sobre o caso de Abou Omar. 

A raiva dos sauditas em relação a Fouad Makhzoumi é ainda maior porque este político deu pessoalmente a Abou Omar o chip do seu número britânico. 

((NDLR: o chip contém um circuito integrado, encarregado de processar e controlar as diferentes funções do telefone, desde chamadas, mensagens até à ligação à internet.))

Mas a antiga directora da Agência Nacional de Informação (ANI), Laure Sleimane, intercedeu em favor do Sr. Makhzoumi junto à embaixada saudita, pedindo clemência do reino em relação a uma personalidade que se considera possível candidato a primeiro-ministro. 

No entanto, a ira saudita poupou a Dar El Fatwa, já que o Reino, líder do mundo muçulmano, não deseja mostrar a mínima irritação em relação à autoridade religiosa sunita suprema no Líbano, preocupado em preservar a mais alta autoridade religiosa sunita libanesa. 

Ah, a ganância e a servilidade de uma grande parte da classe política libanesa, incluindo os soberanistas, o seu negócio, como Samir Geagea e Fouad Siniora, que rastejam ao primeiro estalar de dedos do estrangeiro.

O procurador-geral junto do Tribunal de Recurso de Beirute apresentou finalmente, no dia 12 de Janeiro de 2026, uma queixa contra os três criminosos, o mandante Khaldoun Oureimit e o seu filho Mohammad, bem como contra o alegado Abou Omar. 

As acusações incluem, entre outras, fraude, usurpação de identidade, extorsão, falso testemunho e atentado contra as relações entre o Líbano e a Arábia Saudita.

 

Fonte: Les déambulations d’un mystificateur libanais au sein de la classe dirigeante 1/2 – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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