segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Teorias da decadência, teoria do colapso, curso catastrófico do capital e crise final

 


Teorias da decadência, teoria do colapso, curso catastrófico do capital e crise final

17 de Agosto de 2026 Robert Bibeau

 


Por  Gérard Bad.   Fonte :  http://spartacus1918.canalblog.com/archives/2009/07/18/14433667.html

 Teorias da decadência, teoria do colapso, curso catastrófico do capital e crise final.

Vamos primeiro apresentar os diferentes argumentos sobre a teoria da decadência e a teoria do colapso, bem como as suas variantes. Para alimentar o debate, começamos pelo Grupo Comunista Internacionalista (GCI), recorrendo a excertos do seu artigo  «Tteorias da decadência : decadência da Teoria » publicado em 1985 (no nº 23 de Comunismo).

Neste artigo, o GCI dirige-se essencialmente ao Grupo Comunista Internacionalista (GCI), do qual faz parte, e tem a vantagem de elevar o debate sobre a teoria das crises. O texto critica a «periodização» e o conceito de capitalismo ascendente, depois senilmente decadente. Em seguida, passaremos às teorias da decadência, e às variantes que fazem o julgamento das forças produtivas.

 Introdução do GCI

« A própria origem das teorias decadentistas (teorias da “mudança de período” e da “abertura de uma nova fase capitalista: a do seu declínio”…) encontram-se “estranhamente” nos anos 30, teorizadas tanto pelos estalinistas (Varga) como pelos trotskistas (o próprio Trotsky) e por alguns sociais-democratas (Hilferding, Sternberg,…) e académicos (Grossmann). É portanto na sequência da derrota da vaga revolucionária de 1917-23 que alguns produtos da vitória da contra-revolução começaram a teorizar um longo período de “estagnação” e de “declínio”. Esta teorização permitiu assim a posteriori manter uma coerência formal entre as “conquistas do movimento operário do século anterior” (estamos a falar, naturalmente, das “conquistas” burguesas da social-democracia: o sindicalismo, o parlamentarismo, o nacionalismo, o pacifismo, a “luta pelas reformas”, a luta pela conquista do Estado, o rejeitar da acção revolucionária …) e, devido à « mudança de período » (argumento clássico para justificar todas as revisões/traições do programa histórico), o surgimento de « novas tácticas » próprias desta « nova fase », que vão desde a defesa da « pátria socialista » pelos estalinistas até ao « programa de transição » de Trotsky, passando pelo rejeitar da forma sindical em favor da dos conselhos para os « ultra-esquerdistas » (Cf. Pannekoek: Os Conselhos Operários – ed. Bélibaste).

 

Comentário: Aqui acho que seria necessário denunciar a tese das “conquistas” para a classe operária sob o modo de produção capitalista. Conquistas não existem – toda conquista ou vantagem pode ser posta em causa e retirada pela burguesia; “conquista” é um conceito reformista. 

Também seria importante sublinhar aqui que a teoria da decadência implica que o MPC desmoronará por si só sem necessidade de uma acção revolucionária do proletariado, com a qual discordamos profundamente.


Aqui o GCI não hesita em colocar os pés na questão da teoria da decadência e passa em revista o que considera um desvio da teoria, na pura tradição bordiguista de restauração do programa comunista. Em seguida, o GCI indica as razões para a promoção das diferentes teorias que negam a totalidade/globalidade do capital. Cada uma agarrando-se a um ramo da economia política marxista, para dele fazer o eixo que determina o todo, sem realmente se dar conta de que os tomos I / II-III do Capital são uma representatividade, no seu movimento, do ser capital em processo. Noutras palavras, cada uma destas teorias prende-se apenas a um ramo de uma suposta economia política marxista, enquanto que em O Capital Marx procurou, num processo de crítica da economia política, descrever e reproduzir o movimento histórico mundial do capital (que é uma relação social que define uma sociedade na sua totalidade e não um sector – a economia – da actividade humana)

Do ponto de vista do GCI, ele tem razão em criticar as “múltiplas” teorias que vão desde a “saturação dos mercados” até ao “imperialismo: estádio supremo do capitalismo”, do “terceiro estágio do capitalismo” à “dominação real”, do “parar do desenvolvimento das forças produtivas” à “tendencial queda da taxa de lucro”… O que nos interessa num primeiro momento é o conteúdo comum a todas estas teorias, a visão moralizadora e civilizadora que elas implicam.

Em seguida, o GCI demonstra o carácter não dialéctico das teorias da decadência.

 « A dinâmica das sociedades de classes (diz o GCI) não é como uma montanha com o seu declive ascendente, o seu cume e o seu declive descendente, mas ao contrário – de acordo com a dialéctica materialista – cada vez mais um antagonismo entre a classe dominante e a classe revolucionária, e isto até à resolução desta contradição numa unidade superior (negação da negação) correspondente à superação dos dois polos da unidade anterior, ou seja, como um novo movimento de dois polos contraditórios. As visões decadentes são portanto metodologicamente visões anti-dialéticas correspondendo, não ao ponto de vista proletário, mas ao burguês do evolucionismo e do imediatismo (= gradualismo). » e citar Bordiga a seguir (Bordiga: Reunião de Roma 1951 in Invariance No.4) (Bordiga: « Diálogo com os mortos » 1956).

O GCI, sem grande dificuldade, prova que até os defensores do «decadentismo ou decadentismo e meio» são obrigados a reconhecer o imenso desenvolvimento das forças produtivas.

« Para o grupo « Socialismo ou Barbárie », que também nesta questão se manifestou como um precursor do revisionismo moderno, tanto nas questões ditas económicas como nas suas implicações políticas), é directamente liquidado pela simples constatação feita por alguns decadentes eles próprios:

« A produção industrial mundial, em 1848, ultrapassava em 36% o nível de 1937 e em 74% o de 1929. Entre 1878 e 1948, a produção industrial mundial aumentou 11 vezes. Durante o mesmo período, a população da Terra passou de 1.500 para 2.300 milhões de habitantes, ou seja, um aumento de cerca de 50%. » (Castoriadis: « A consolidação temporária do capitalismo mundial », Socialisme ou Barbarie No.3 – 1949)

Depois o GCI ainda reforça bem a ideia, com exemplos sobre todos os aspcetos ideológicos da manutenção do capitalismo, para acabar com esta conclusão:

« As visões decadentes, na sua essência metodológica burguesa, negação da dialéctica materialista, culto ao Progresso, à Evolução, à Civilização, à Ciência, à Moral… são, portanto, concepções estranhas ao ponto de vista comunista e constituem directamente obstáculos à compreensão e à prática invariável do proletariado que luta pela defesa dos seus interesses históricos. Ontem, hoje, amanhã, os comunistas defendem (e caracterizam-se) pela defesa da invariância do programa revolucionário: revolução social mundial, ditadura do proletariado para a abolição do trabalho assalariado, comunidade humana mundial.»

O GCI tenta depois mostrar como, desde as suas origens, o capital se apresenta como um ser mundial, como um estado mundial em relação ao proletariado. Rejeitamos todos os nacionalismos, o direito dos povos à auto-determinação, a libertação nacional, etc., tão bem criticados por Rosa Luxemburg. O GCI, para apoiar os seus argumentos, cita Marx:

« A descoberta das regiões auríferas da América, a redução dos indígenas à escravatura, o seu enterro nas minas ou a sua exterminação, os primórdios da conquista e do saque nas Índias Orientais, a transformação de África numa espécie de coelheira comercial para a caça às peles negras, esses são os métodos idílicos de acumulação primitiva que marcaram a aurora da era capitalista. Logo a seguir, irrompe a guerra mercantil; tem o globo inteiro como palco. Começando com a revolta da Holanda contra a Espanha, ela atinge proporções gigantescas na cruzada da Inglaterra contra a Revolução francesa e prolonga-se até aos nossos dias em expedições de piratas, como as famosas guerras do ópio contra a China. » (Marx: O Capital)

Desta citação, o GCI tira a seguinte conclusão:

« O que Marx demonstra aqui de forma magistral, para além do facto da existência, desde o alvorecer do capitalismo, do mercado mundial como “palco” da civilização capitalista, é o carácter directamente imperialista do capital, o qual não precisou de esperar uma ou outra data para se afirmar através do saque sistemático do globo; não precisou de esperar por um “estágio supremo” para ser competitivo à escala planetária, ou seja: imperialista. Tanto a essência do capital é mundial, como esta é diretamente imperialista.

Aqui o GCI está totalmente em desvio, confundindo a mundialização da época mercantil e colonial com o conceito de imperialismo da época do capitalismo imperialista. 

A época mercantil foi exclusivamente o saque e o comércio de escravos. O capitalismo imperialista foi assimilado à exportação de capitais e à partilha do mundo para se apropriar das matérias-primas de que a dominação real do capital necessitava. Enquanto o termo «imperialista» se apresentava como um adjectivo do capitalismo, para mostrar a sua violência para a partilha do mundo, não havia razão para pôr em causa este termo. Mas assim que este se torna um corpo doutrinal que supera o capitalismo (o seu estádio supremo), o imperialismo capitalista de Lenine, onde o capitalismo é rebaixado ao nível de adjectivo para nos fazer engolir «as lutas de libertação nacionais», já não concordamos.

Outro dos erros de Lenine foi alegar que, em 1916, no momento de escrever o seu livrinho, o desenvolvimento das forças produtivas dentro do capitalismo e a divisão das zonas de influência e dos sectores de exploração das forças produtivas estavam completos e a partilha terminada, e que tinha começado a fase degenerativa do capitalismo e da nova repartição. Estas duas épocas (mercantil e capitalista) parecem confundir-se pela violência das intervenções, mas são bem distintas, pois o período burguês distingue-se de todos os outros (e é a única periodização aceitável).

« Esta constante mudança na produção, esta permanente perturbação de todo o sistema social, esta agitação e esta insegurança contínuas distinguem a época burguesa de todas as anteriores. » (O Manifesto Comunista)

Esta distinção é a seguinte:

 « É a tendência inevitável do capitalismo submeter em todos os pontos o modo de produção, colocando-o sob a dominação do capital. Dentro de uma sociedade nacional determinada, isso acontece necessariamente, nem que seja pela transformação de todo trabalho em trabalho assalariado através do capital. Quanto aos mercados estrangeiros, o capital força a propagação do seu modo de produção pela concorrência internacional. » (Marx: Grundrisse – Tomo II)

No que nos diz respeito, o único saque que nos interessa é o da força de trabalho, os outros não são mais do que roubos entre capitalistas ou actos de bandidos. O CGI conclui:

« Ver assim, nos mercados chamados ‘extra-capitalistas’, o próprio motor do desenvolvimento capitalista (pois estes seriam a ‘única procura solvente’ – tese de Rosa Luxemburgo), é essencialmente não perceber que o verdadeiro problema é a produção necessariamente sempre mais elevada de mais-valia – de mais-valia excedente (e não a sua realização, mas aceitando que é essa não realização que impede e arruina a sua produção) e, assim, a troca entre produção capitalista e produção ‘extra-capitalista’ é um absurdo, pois significa directamente a existência e a dominação do mercado mundial, significa pelo facto dessa troca a destruição (inexistência) dos chamados ‘mercados extra-capitalistas’ que, na própria tese de Luxemburgo, desaparecem ao primeiro intercâmbio. »

Vai notar que a parte a negrito isola uma das manifestações do capital, para a opor a outra: a produção de mais-valia versus a realização da mais-valia. Ao fazer isso, o GCI, e ele não é o único, bloqueia o próprio movimento do capital na altura da esfera de produção, enquanto outros, como PI, travam esse movimento na altura da circulação das mercadorias (a realização da mais-valia pela venda). A crise, já que é este o nosso tema, pode disparar, dependendo da situação, em tal ou qual etapa dos três ciclos da metamorfose do capital.

Os três ciclos de reprodução do capital

« Os três ciclos têm o mesmo objetivo, o mesmo incentivo: a produção de mais-valia. A forma da figura 1 indica-o claramente; o mesmo se aplica à figura 11, que começa por P, a produção de mais-valia. Quanto à figura 111, o ciclo começa pelo valor aumentado de mais-valia e termina num valor contendo uma nova mais-valia, mesmo que o movimento se reproduza na mesma escala. (aqui seria interessante, se forem citadas, mostrar estas três figuras 1, 11 e 111).

 

Enquanto M – A é A – M para o comprador, e A – M é M – A para o vendedor, a circulação do capital representa simplesmente a metamorfose ordinária das mercadorias, e as leis que foram desenvolvidas em relação a estas últimas (vol. 1, cap. 111, 2) sobre a quantidade de dinheiro em circulação aplicam-se aqui. Mas assim que não nos limitamos a esse lado formal e estudamos, na sua ligação real, as transformações dos diferentes capitais individuais considerados como movimentos parciais da reprodução do capital total da sociedade, já não se pode explicar o fenómeno apenas pela simples mudança de forma do dinheiro e da mercadoria.

Num ciclo que se renova constantemente, cada ponto é, ao mesmo tempo, um momento inicial e um momento final. Não é o mesmo num ciclo interrompido, onde cada ponto não marca o início e o fim de um movimento. Assim, vimos que, não só cada um dos ciclos pressupõe (implicitamente) os outros, como o renovar do ciclo sob uma forma implica o seu cumprimento nas outras formas. A diferença é, portanto, entre eles, puramente formal, puramente subjetiva; só existe para quem a observa.

Se considerarmos cada ciclo como uma expressão especial do movimento realizado por diferentes capitais industriais isoladamente, essa diferença existe sempre apenas como uma diferença individual. Mas na realidade, cada capital industrial apresenta-se simultaneamente nas três formas. Os três ciclos de reprodução do capital realizam-se, sem interrupção, lado a lado. É assim que uma fração do capital, funcionando como capital-mercadoria, se transforma em dinheiro, enquanto outra sai da produção para entrar, como novo capital-mercadoria, na circulação.

O ciclo M’… M’ é portanto continuamente descrito e o mesmo acontece com os outros dois. A reprodução do capital em cada uma das suas formas e em cada um dos seus estágios é tão ininterrupta quanto as metamorfoses dessas formas e a sua sucessão nos três estágios. O ciclo total resulta aqui da combinação das suas três figuras.» (1) (CAPÍTULO IV do Capital T 2 - AS TRÊS FIGURAS DO PROCESSO CÍCLICO).

No seu movimento, o capital assume duas formas: a do capital dinheiro e a do capital mercadoria; a sua forma durante a fase de produção é a do capital produtivo (não está claro produtivo, não é uma forma; meios de produção – ferramentas – maquinaras seria uma forma comparável a dinheiro e mercadoria??). Estas três formas de capital não são autónomas, elas são apenas «formas funcionais particulares do capital industrial, que as assume as três sucessivamente» (T II p. 57 ed. Moscovo)

Isso resulta no facto de que o ciclo total do capital só funcionará desde que, em cada fase, passe sem interrupção de um estado para outro. Se ao longo dos três ciclos o capital ficar preso numa fase, há crise. Na fase A-M, o capital dinheiro fica retido como tesouro; se for na fase de produção, os meios de produção ficam paralisados e os operários sem trabalho. Na última fase M’-A’, que é a da circulação das mercadorias, estas acumulam-se sem conseguir vender-se. Por exemplo, para o capital mercadoria, o período de circulação é o momento em que o produto é colocado no mercado e assume a forma de mercadoria.

Em suma, a dificuldade de transformar a mercadoria em dinheiro, de realizar a mais-valia através da venda, é que a mercadoria tem obrigatoriamente de ser convertida em dinheiro para que a mais-valia seja concretizada.

Por outro lado, o dinheiro não precisa de ser imediatamente convertido em mercadoria. Daqui resulta que a venda e a compra podem ser separadas. É essa separação que contém as sementes da crise, porque permite que as diferentes fases da circulação do capital se dissolvam e se tornem "autónomas". A crise surge então como o acto violento destinado a reunir as diferentes fases do processo de produção, que se tinham tornado autónomas umas das outras.

Commentário : (seria bom definir o conceito – de CRISE que tu introduziste. Além disso, acima falas em REUNIFICAR, ACHO QUE ESTE NÃO É O TERMO CERTO, AS FASES NÃO FORAM DESUNIFICADAS, UMA DAS FASES FOI PARALISADA E RESOLVER A CONTRADIÇÃO CONSISTE EM REACTIVAR ESSA FASE PARA QUE ELA DEIXE DE BLOQUEAR TODO O CICLO – TODO O PROCESSO de reprodução ampliada do capital ???)

Na crise actual, é em primeiro lugar o carácter fictício do capital que aparece como o elemento perturbador. Mais tarde, a crise vai estender-se aos dois outros ciclos do capital e, portanto, ao capital total. Tudo isto vem, portanto, relativizar fortemente os debates sobre a crise catastrófica, o decadentismo, a crise final…

As manifestações da crise financeira

No capitalismo mercantil e industrial, o crédito tem apenas um papel puramente técnico. É só um adiantamento sobre vendas ou sobre produção futura. É a falta de venda das mercadorias (ou/ e o não reembolso do crédito) que o faz parecer «supérfluo», como dinheiro que não tem equivalente em valor realizável (o que de facto é).

Com o desenvolvimento do capitalismo financeiro, (tu introduzes o capitalismo financeiro, seria necessário defini-lo, o que é exactamente?) e a sua relativa autonomização (o que significa isto e quais são as consequências desta autonomização relativa?), o crédito torna-se o meio de antecipar produções futuras e de valorizar o próprio dinheiro (o que significa isto em marxismo, valorizar o próprio dinheiro?). Marx usará a fórmula segundo a qual o dinheiro deve trazer mais dinheiro como a árvore de pereiras dá peras (a citação de Marx parece contradizer a tua afirmação). A partir deste momento, a caixa de Pandora da especulação é aberta e o capital financeiro aparece como vigarista e profeta.

Quando a crise irrompe, não é só a sobreprodução (sobreprodução de mercadorias ou sobreprodução de meios de produção? ou sobreprodução de capital, que dá ao mesmo???) ou o carácter fictício das mercadorias (a sua não validação social) (não validação ou a sua não realização, logo sem mais-valia???) que faz aparecer a não realização dos signos monetários destinados a representá-las. Isso acontece sempre, claro, como nas crises imobiliárias e, mais perto de nós, na sorrateira crise dos subprimes (2007-2008…). Mas, na maioria das vezes, é o caráter fictício do “produto financeiro” que aparece neste momento. Este produto está ligado às mercadorias através de combinações de créditos que se sobrepõem e que devem ser pagos numa data determinada. Aqui a crise explode devido à impossibilidade, não só de vender as mercadorias, mas também de efectuar toda uma série de pagamentos baseados na venda dessas mercadorias dentro de um prazo específico. Esta é a forma típica das crises financeiras e monetárias.

O valor

É o auto-aumento do valor financeiro (seria necessário dar a definição marxista do conceito de valor e depois ver se VALOR financeiro é um conceito marxista) que se interrompe porque as expectativas de alta que o sustentavam foram travadas por alguma razão (um aumento das taxas de juro, a insolvência de alguns bancos ou de um país muito endividado, a subida dos preços do petróleo, ou qualquer coisa que possa desencadear vendas massivas de títulos por «precaução» e o pânico na bolsa).

O aumento da massa dos títulos financeiros é impulsionado pelo do crédito (nomeadamente a dívida pública, crédito concedido ao Estado), e amplificado pelos «efeitos de alavanca» dos «produtos financeiros» modernos, como os CDS ou outros CDO 2.

O valor (será que é a palavra certa VALOR) desses produtos financeiros é, em grande parte, fictício, e na medida em que não se baseia em trabalho materializado, transformado numa mercadoria, a sua desvalorização apenas penaliza a sua valorização virtual (avaliada por Patrick Artus para a crise de 2007-2009 em 26 000 mil milhões de dólares), capitalização de rendimentos hipotéticos, ou até simples aposta na evolução de «noções» (taxas, índices, etc.)

Isso significa que, ao contrário da época do capitalismo mercantil e industrial, na era do capitalismo financeiro não são mais os produtos fabricados que se desvalorizam primeiro, mas sim os «valores» em papel, o dinheiro... Não é trabalho materializado que não é validado socialmente (mau negócio, excesso de produção), é capital fictício que é constatado como tal, por não estar valorizado. Mas como o capital é mundial, é todo o processo de valorização/desvalorização do capital (financeiro, produtivo, comercial, industrial) que acaba por ser desvalorizado. É por isso que a crise financeira, que começa com quedas nos mercados de acções e moedas, é sempre uma crise do capital total.

Toda a crise provoca reacções em cadeia, destinadas a proteger o «verdadeiro dinheiro» soante e trepidante (o ouro). O ouro é rebaixado a apenas mais uma mercadoria. (Greenspan e os chineses pensam o contrário e acumulam ouro metálico). 

Apenas os títulos de Estados poderosos, e os de alguns grandes trusts que parecem valores seguros. Esses valores refúgio serão, portanto, essencialmente os títulos americanos, japoneses e, acessoriamente, europeus, cuja função é substituir o ouro nas suas funções de conservação de valor (veja-se o recente aumento do Iene). (Revê tudo isto camarada BAD, o Iene é a moeda mais sobrevalorizada – endividada e posta em risco tanto quanto o dólar e as obrigações das grandes empresas como a Apple – o Google vai colapsar como a GM quase faliu em 2009).

Pelo contrário, os títulos e as moedas dos países cujas capacidades de captação de riqueza social são mais baixas vão sofrer um colapso (caso actual dos chamados países emergentes, que na verdade são dependentes) e a dívida do terceiro mundo volta à tona. 

Dizer que a crise se manifesta primeiro na esfera financeira (essa é uma das formas da crise da actualidade) é dizer que são principalmente as suas instituições, os Bancos, as Bolsas, os seguros, mas também as moedas e títulos monetários dos Estados, que são atingidos, sendo estes os principais representantes do capitalismo financeiro.

Os preços das acções caem. Alguns bancos encontram-se em perigo por causa da insolvência dos devedores, já que os seus fundos próprios são muito inferiores a esses créditos evaporados (e, aliás, em grande parte constituídos por títulos financeiros agora desvalorizados). E como estão todos ligados uns aos outros por dívidas recíprocas, é todo o sistema bancário que corre o risco de colapsar como um castelo de cartas (o famoso risco sistémico dos subprimes e CDS). Quanto aos Estados em crise que já não podem pagar as suas dívidas, ainda mais quando o capital foge, têm de declarar falência (como o Estado argentino em 2001, e actualmente o Equador e a Grécia parecem ter se recuperado temporariamente…), desvalorizar a sua moeda, ou seja, desvalorizar o património nacional, ou recorrer ao FMI. As empresas dessas nações tornam-se então presas fáceis, adquiridas a preço baixo pelos trusts multinacionais/transnacionais (camarada BAD, evita o termo capital estrangeiro que tem uma conotação nacionalista chauvinista).

As pirâmides de créditos mostraram o carácter fictício dos processos de valorização em que se baseavam ao se transformarem num oceano de perdas. Os bancos estão sobrecarregados com créditos incobráveis ou duvidosos que têm de provisionar, utilizando os seus recursos reduzidos e até os seus próprios fundos, constituídos por activos agora desvalorizados. Em resumo, esses fundos derretem, e com eles a capacidade de crédito. Foi exactamente isso que aconteceu com a crise dos subprimes e que exigirá a intervenção dos bancos centrais e dos Estados, que irão injectar milhares de milhões em liquidez para salvar a representação do capital.

Não é que não haja “liquidez” suficiente, como afirmam os economistas, mas sim que ela deixou de circular (os bancos têm de fazer provisões constantemente, as empresas já não querem investir, etc.). E como todo o sistema capitalista se baseia no crédito, ocorre uma brutal contracção dos negócios. Isto é amplificado pela queda generalizada dos preços causada por essa contracção (deflacção), assim como pela diminuição do consumo (devido ao desemprego crescente, à paragem dos investimentos e aos comportamentos de poupança de "precaução" dos detentores de dinheiro).

Quando o crash financeiro acontece, é o movimento clássico da crise que se manifesta: colapso do preço das «mercadorias», fuga diante dos sinais que as representam e corrida para o «verdadeiro» dinheiro, aquele que supostamente conserva o valor. Pudemos verificar, recentemente, que a subida do preço das matérias-primas durou apenas pouco tempo, pela simples razão de que isso era um factor devastador para a taxa de lucro. O Capital, t. 3, cap. VI: «Efeitos das mudanças de preços».

Gérard Bad


Notas

 

1 Será necessário voltar a este conceito, filosófico, que se procura introduzir na economia, mas também na luta de classes. Camatte, desde 1974, abandona o tema da história – o proletariado – em favor de fórmulas gerais: «os homens e as mulheres», os «seres humanos», «a espécie e a comunidade humana», a «multidão»; na realidade, a dissolução do proletariado no povo tão criticada por Marx. Na verdade, um regresso ao materialismo filosófico.

2 CDO (Obrigações de Dívida Colateralizadas): Títulos lastreados em carteiras de créditos diversos (crédito bancário, crédito imobiliário, crédito ao consumo, etc.)

 

Fonte: Théories de la décadence, théorie de l’effondrement, cours catastrophique du capital et crise finale – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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