As tensões transformam-se em chamas e espalham-se por
todo o Médio Oriente (Alastair Crooke)
15 de Agosto de
2026 Robert Bibeau
Por Alastair Crooke –
29 de Julho de 2026 – Source Conflicts Forum
O silêncio em torno do resultado da reunião de ontem com Netanyahu no Salão Oval fala por si. Nenhum reponsável do governo dos EUA veio ao aeroporto recebê-lo, e não foi estendido tapete vermelho. A visita foi acelerada. Israel está à deriva – com a sua estratégia de "Grande Israel" agora a ser afectada devido à falta de tropas e consistência.
O antigo Provedor de Justiça das IDF, Major-General Yitzak Brik, prevê (Ma'ariv, 26 de Julho) que a crise que envolve as intervenções israelitas "é apenas um prelúdio para a catástrofe que paira sobre nós":
"Em futuras guerras contra o Irão, a ameaça
aumentará dez vezes, ao ponto de perder completamente a capacidade de interceptar
mísseis balísticos iranianos. Estes mísseis provavelmente atingir-nos-ão: em
centros urbanos, alvos estratégicos, infraestruturas de produção e económicas,
institutos científicos e tecnológicos, instituições de ensino, hospitais e
indústrias vitais, e esmagar-nos-ão completamente."
Trump – afinal, ao que parece – percebeu que a guerra que iniciou para
esmagar o Irão se virou contra ele e o está a destruir. Na verdade, ele não tem
nenhuma solução militar disponível, a não ser parar de cavar o buraco em que se
está a afundar cada vez mais.
Entretanto, o Irão já não lhe permite continuar a sua manipulação regular de desencadear guerra
cinética (supostamente para pressionar o Irão) e depois (nas segundas-feiras
seguintes) falar sobre "negócios iminentes" para manipular os
mercados do petróleo e os preços das acções. Na segunda-feira passada,
uma queda curta no mercado fez com que o preço do
crude Brent caísse 7,7%.
O Irão, além disso, tem a intenção de controlar o ritmo do conflito, que (de qualquer forma) está prestes a intensificar-se devido aos esforços dos Estados Unidos para aumentar a pressão sobre o país de modo que os Estados Unidos possam ostensivamente obrigar o Irão a aceitar uma «paz» ditada.
Mas, em vez de pressionar o Irão, a estratégia de Trump está a inflamar a região e corre o risco de se transformar numa escalada descontrolada.
Os últimos desenvolvimentos – incluindo o Iémen a declarar «um cerco por um cerco» contra os portos
aéreos e marítimos sauditas, e os ataques a duas grandes refinarias da Aramco que destruíram o oleoduto saudita para
o Mar Vermelho – levaram a Arábia Saudita a um conflito tanto com o Iémen, como
também em conflito (em conjunto com o CENTCOM) com as milícias da Unidade de
Mobilização Popular (UMP) iraquiana, que os sauditas culpam pela destruição da
refinaria (mesmo que o Hash’d al-Shaabi o negue veementemente). Estes dois
episódios mostram, no entanto, o quanto a «guerra de Trump» está a
desestabilizar uma região já frágil.
Ontem, a Arábia Saudita, com os Estados Unidos, realizou ataques aéreos
importantes em pelo menos seis cidades iraquianas, matando pelo menos 20
pessoas e ferindo dezenas de membros da UMP.
Porque é que a Arábia Saudita atacaria Hash'd e não o Iémen? Bem,
provavelmente porque o AnsarAllah retaliaria com mísseis, destruindo o que
resta da infraestrutura petrolífera da Arábia Saudita.
Ao tomar conhecimento dos ataques dos
EUA às posições de Hash'd, e no espírito de "um ataque a um membro do Eixo ser um ataque a todos", O Irão seguiu
em frente lançando mísseis balísticos em bases americanas na Jordânia.
Duas novas frentes – a Frente Hash'd
al-Shaabi-Iraqi e a Frente Iémen-Arábia Saudita – foram assim adicionadas à
fornalha regional. Mas há outros potenciais pontos críticos a ferver em segundo
plano: no Líbano, o ministro da defesa israelita gaba-se de que:
"Vinte e quatro aldeias libanesas, com centenas de anos, foram
destruídas. Todos os edifícios, não casa a casa, mas aldeias inteiras [foram
arrasados]. A sua destruição é completa. Têm de perceber: entre 15.000 a 20.000
casas nestas 24 aldeias foram destruídas — e hoje 70 por cento de Gaza foi
destruída."
Mais importante ainda, o Ministro da
Segurança Nacional israelita, Ben Gvir, prometeu iniciar uma guerra de
colonatos contra os palestinianos que vivem na Cisjordânia para forçar um êxodo
"voluntário" dos
palestinianos. Ben Gvir argumenta que a preparação para as eleições israelitas
representa o melhor momento para desencadear uma crise que acredita poder
forçar a evacuação de aldeias palestinianas inteiras.
Como se este caos não bastasse, a 25 de Julho, mísseis americanos atingiram
o quartel-general da Guarda Revolucionária na zona de Ziba Kenar, no Mar
Cáspio, na província de Gilan.
O comentador MK Bhadrakumar salienta que:
"O Mar Cáspio é uma rota de abastecimento estrategicamente vital entre
a Rússia e o Irão. Bandar Anzali é para Teerão o que o porto de Odessa é para
Kiev, onde recebe abastecimentos de armas ocidentais. Portanto, o ataque
ucraniano a um navio comercial iraniano no Mar Cáspio, nas águas territoriais
da Rússia, no sábado, o primeiro ataque deste tipo desde o início da guerra
russo-ucraniana, está longe de ser um incidente. Kiev reivindicou a
responsabilidade por danificar um navio iraniano, sinalizando que uma das zonas
seguras mais estáveis da Eurásia está agora vulnerável às consequências directas
do conflito ucraniano.
O New York Times e o Wall Street Journal relatam que este ataque ucraniano
prenuncia uma fusão das duas guerras — a guerra da Ucrânia com a Rússia e a
guerra EUA-Israel contra o Irão. Isto sugere que o ataque ucraniano ao navio
iraniano pode muito bem ser uma decisão calibrada de Washington, com a Ucrânia
a agir em conjunto com o bombardeamento norte-americano da província de Gilan,
no Irão.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov,
disse esta semana que o alegado ataque da Ucrânia a um navio iraniano no Mar
Cáspio deve ser visto como um ataque ao próprio Irão, argumentando que o
incidente sublinhou a necessidade de eliminar aquilo que
descreveu como uma ameaça representada por Kiev. Acusou a Ucrânia de alargar o
âmbito do que chamou de "ataques terroristas".
Então, o que se passa? Não está claro se
o ataque ucraniano ao navio iraniano (que matou um marinheiro iraniano), que
Kiev disse transportar um carregamento de armas, foi simplesmente um grito
infantil de Zelensky para atrair a atenção e o interesse de Trump ("Daddy"), ou algo mais importante. Zelensky, em várias ocasiões, queixou-se de
que a guerra no Irão está a sugar a atenção do Ocidente da "sua" guerra contra a Rússia. Foi isto uma tentativa de realinhar Trump
com a guerra na Ucrânia?
Todas estas correntes convergiram em
Washington com o funeral de Estado de Lindsay Graham, numa altura em que Laura
Loomer – uma influenciadora MAGA em queda de audiência, mas que Trump adora e
ouve – realizou uma pirueta muito pública de 180°,
emergindo subitamente como a maior fã e promotora da Ucrânia (talvez em vez do
falecido Lindsay Graham).
A internet está repleta de especulações
de que a sua amplamente divulgada "conversão paulina" poderá marcar
um ponto de viragem político significativo nos Estados Unidos. No entanto, pode
também ser um momento efémero que rapidamente desaparecerá. Loomer não tem
influência entre os jovens MAGA, mas ainda assim faz parte da base Trump de
maiores de 65 anos que assistem à Fox News.
No entanto, argumenta-se actualmente que
a mudança radical nas simpatias de Loomer marca o início de uma operação
psicológica básica destinada a fazer os americanos pensar que a "América intervencionista" pode ser consistente com a "América em Primeiro Lugar"
e que, por isso, é aceitável apoiar um confronto militar contra a Rússia. O
Efeito Tear, por assim dizer, é apresentado como uma resposta ao verdadeiro
MAGA, Pat Buchanon, que mantém a sua frase (e o título do seu livro): "Uma República – Não um Império: A Recuperar o Destino da América."
(Claro que qualquer mudança na opinião pública americana a favor do
intervencionismo militar dos EUA será bem-vinda em Israel.)
Será que esta mudança pode levar Trump a tornar-se mais pro-activo em
relação à Ucrânia? Não sabemos. Loomer prometeu a Trump um briefing completo
sobre a sua viagem à Ucrânia e o seu encontro com Zelensky. Trump vai ouvir?
Conseguiria ouvir sem prestar atenção? Quem sabe?
O ponto aqui é que a campanha de "relações públicas" para fazer a Ucrânia parecer uma "vencedora" – embora empiricamente falsa – está a
ganhar força entre pelo menos um segmento da opinião americana. Michael Wolff,
observador e biógrafo de longa data de Trump, nota que:
"A reviravolta de 180° de Loker em relação à
Ucrânia está "obviamente já em curso [ou seja, a ganhar impulso]. Zelensky
está agora na cidade... Ele vai passar tempo com Trump. E Trump, sim, como
poderia ele não perceber que a vantagem está bem do lado da Ucrânia neste
momento?
Num sentido geral, o aspecto da política externa desta administração tem
sido um desastre completo. O caso iraniano é um desastre completo. O
alinhamento com a Rússia é obviamente uma má escolha. Zelensky [anteriormente]
retratado como um perdedor é agora um vencedor – tudo o resto é agora visto
como "más escolhas" [da parte de Trump]. Neste
contexto, ele [Trump] precisa urgentemente de um sucesso. E a Ucrânia começa a
parecer o que poderá ser o seu [sucesso] — a aproveitar o funeral de Lindsay
Graham para mudar para uma estratégia mais eficaz em relação à Ucrânia. A sua
morte pode acabar por ser uma grande manobra de relações públicas. Bingo. Sim.
A Rússia está em apuros."
Claro que é chocante como as elites
ocidentais podem ser manipuladas por estas incessantes campanhas de "relações públicas". Ainda assim, os comentários de Wolff são mais do que trivialidade
da coluna de mexericos. Reflectem uma psicose colectiva que está a instalar-se.
Não há nada de racional nisso, mas sim movido por interesses monetários e
cabalas que têm os seus próprios objectivos.
Veja o diagrama: Zelensky quer
apresentar-se como um "vencedor" aos olhos da
Europa e de Trump. A Europa está a instá-lo a lançar os seus mísseis
profundamente na Rússia para forçar a Rússia a conceder um cessar-fogo. Trump
no G7 expressa a sua aprovação para ataques na Rússia. O primeiro dente da roda
dentada envolve-se em ataques com drones a refinarias russas. Com as palavras
de Trump no G7, os punhos da roda dentada aumentaram ainda mais e atingiram
agora o nível de ataques a vidas civis russas (ataques a hangares Wildberries
e abates em campos de Verão) com mísseis de
ogivas de maior alcance e mais potentes.
A Ucrânia dispara em simultâneo contra um navio iraniano no Mar Cáspio. O
IRGC ameaça retaliação. O CGRI ameaça o Reino Unido (e Chipre) pelo seu
envolvimento crescente na guerra contra o Irão.
A Europa pensa que a Rússia está apenas a fazer bluff e continua a lançar
ataques de mísseis em profundidade contra a Rússia. No entanto, a Rússia não
pode permitir que estas agressões continuem e se intensifiquem. Entretanto, o
Médio Oriente está silenciosamente em chamas. O Irão não sucumbirá à coerção de
Trump; (A China também não aceitará a pressão das sanções dos EUA).
Simplesmente não existe uma solução militar disponível para Trump. O melhor
que pode fazer é evitar que os conflitos se transformem numa guerra única mundial.
Alastair Crooke
Traduzido por Wayan, revisto por Hervé,
para o Saker Francophone. As tensões transformam-se em chamas e espalham-se
pelo Médio Oriente | O Saker francófono
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice

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