« Democracia » capitalista:
Uma piada levada demasiado a sério
O Estado britânico está um
bocado enrascado. A sua fachada democrática, a ideia de que os políticos são
servidores públicos e que, no fim de contas, temos o poder de decidir como o
país deve ser governado, está a começar a desmoronar-se.
O Partido Trabalhista em Apuros
Andy Burnham, assumindo
o lugar do extremamente impopular Keir Starmer, é agora o quinto
primeiro-ministro em quatro anos, o sétimo desde o referendo do Brexit há 10
anos. Para quem já esqueceu, Starmer inicialmente derrubou a administração
conservadora debilitada eleita em 2019 sob Boris Johnson, que foi substituído
por Liz Truss, que foi substituída por Rishi Sunak. Na altura, o Labour
aproveitou-se do colapso total do partido Tory, que passou de 14 milhões de
votos, 43,6% dos votos, sob Johnson, para 6,8 milhões de votos, 23,7% dos
votos, sob Sunak. Agora é o Reform UK que pretende capitalizar este colapso,
substituindo os Tories como o novo partido de direita.
Desde as eleições gerais
de 2024, realizaram-se cinco eleições suplementares – estas foram conquistadas
pelo Reform UK ao Partido Trabalhista (Runcorn e Helsby, em Maio de 2025), o
Partido Verde ao Partido Trabalhista (Gorton e Denton, em Fevereiro de 2026),
uma reeleição do SNP (Arbroath e Broughty Ferry, em Junho de 2026), os
Conservadores ao SNP (Junho de 2026) e uma reeleição do Partido Trabalhista
(Makerfield, em Junho de 2026). Duas destas eleições deveram-se ao facto de os
deputados ao Parlamento britânico exercerem simultaneamente funções como deputados
ao Parlamento escocês, o que agora é contrário às regras do Parlamento escocês.
Outras duas devem-se — pelo menos em parte — ao mau comportamento dos
deputados. Uma foi uma manobra política flagrante para levar Burnham (impedido
pela máquina do Partido Trabalhista de se candidatar em Gorton e Denton em Fevereiro)
ao Parlamento, para que pudesse ser nomeado sucessor de Starmer. Isto acabou
por acontecer e, na segunda-feira, 20 de Julho, Burnham tornou-se líder do
Partido Trabalhista e primeiro-ministro.
Apenas dois anos após a
sua vitória, Starmer está fora. Apenas dois primeiros-ministros sobreviveram a
eleições desde o referendo do Brexit — May (por pouco) em 2017 e Johnson em
2019 — e nenhum primeiro-ministro britânico cumpriu um mandato completo desde
Cameron em 2010. A democracia britânica, frequentemente considerada uma das
mais estáveis, encontra-se em crise há já algum tempo.
Uma Eleição Suplementar Absurda
E agora, Nigel Farage
demitiu-se do cargo de deputado por Clacton, o que desencadeou mais uma eleição
suplementar. O objectivo era tentar pôr um ponto final nas investigações
levadas a cabo pelos órgãos de fiscalização parlamentares sobre «presentes» não
declarados no valor de 5 milhões de libras, oferecidos pelo criptomilionário
Christopher Harborne. Todos nós já recebemos esse tipo de presentes, não há
necessidade de os declarar, obviamente. Desde a sua demissão — e o anúncio de
que se recandidatará —, os principais partidos (e os Verdes) anunciaram que não
se oporão a ele. O principal adversário é uma figura chamada Conde Binface, um
candidato-piada, que pode até vir a ganhar — embora haja uma cavalgada de
outros 32 candidatos a concorrer.
Existe uma tradição de
candidatos outsiders concorrerem contra deputados desacreditados — Martin Bell
fê-lo em Tatton em 1997, vencendo Neil Hamilton — e também de candidatos-piada
se apresentarem às eleições. Em Hartlepool, H’Angus, o Macaco (a mascote da
equipa de futebol local), foi eleito presidente da câmara três vezes entre 2000
e 2013. Nenhum deles agiu no cargo de forma particularmente diferente dos
outros titulares de cargos públicos. H’Angus, o Macaco, enquanto presidente da
câmara de Hartlepool, distribuiu bananas às crianças em idade escolar, mas não
combateu de forma significativa a pobreza infantil na sua cidade. Martin Bell
destituiu um deputado corrupto, mas, como vimos nos 25 anos desde que ele
deixou o parlamento, tratava-se apenas de um sintoma específico contra o qual
lutava – Westminster continua tão corrupta agora como estava nos últimos dias
do governo de Major.
Precisamos de uma democracia operária!
Os operários não podem
usar o circo eleitoral para defender os seus interesses. A ascensão de Burnham
ao poder, após a sua manobra nas eleições suplementares, não vai alterar
substancialmente a situação dos operários na Grã-Bretanha. Não se trata de
encontrar melhores políticas, mas sim de dar uma nova imagem a um governo
trabalhista em sérias dificuldades. A farsa das eleições suplementares em
Clacton dará à comunicação social algo de que falar durante o Verão, mas nada
de substancial mudará, quer Farage seja reeleito, quer o «Conde Binface» o
destitua. O problema para os nossos governantes é que não têm respostas para a
crise capitalista em curso – mudar o pessoal no comando não salvará o navio que
se afunda. Quer o novo capitão tenha trabalhado na sala das máquinas, no
escritório do comissário de bordo ou tenha sido o comediante no salão dos
passageiros, o navio está em sérios apuros.
Só a classe operária tem
o poder de mudar o sistema e pôr fim à ridícula farsa em Westminster. Quando o
fizer, precisará dos seus próprios órgãos de decisão. Ao longo da história do
movimento da classe operária, vemos surgir as mesmas formas organizacionais:
assembleias de massas, comités de greve e, em última instância, conselhos operários.
É através desses órgãos que os operários podem verdadeiramente recuperar o
controlo das mãos dos políticos, dos patrões e dos ricos que nos tomam por
tolos. Isso é a democracia operária. Mas também precisamos de uma organização
de revolucionários com consciência de classe em todo o mundo – não para nos
envolvermos em jogos políticos, mas para apresentar a perspectiva de uma nova
sociedade e o caminho para lá chegar. Não somos essa organização nem o seu
único núcleo, mas esperamos fazer parte do processo e exortamos aqueles que
concordam connosco a participarem agora no diálogo que pode criar a ferramenta
de que a classe operária precisará na sua tarefa de reconstituir radicalmente a
sociedade.
O artigo acima é retirado da edição actual (n.º 76) do Aurora, boletim da
Organização dos Operários Comunistas.
Notas:
Imagem: Jpdfive (CC
BY-SA 4.0), en.wikipedia.org
Terça-feira, 11 de Agosto de 2026
Fonte: Capitalist
"Democracy": A Joke Taken Too Far | Leftcom
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
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