A Controvérsia de
Poitiers 1-2
René Naba / 10 de novembro de 2014 / em Culture, Société
Última
atualização a 10 de Novembro de 2014
I. A Batalha de Poitiers provavelmente
nunca aconteceu
Poitiers, um
grande centro da controvérsia colonial, disputa com Toulouse o lugar de uma
batalha mítica, que provavelmente nunca aconteceu, em todo o caso certamente
não em Poitiers, se é que alguma vez aconteceu, e que no entanto alimenta a
lenda francesa e o seu cortejo de fantasias. Mas ninguém ignora isso, toda
consciência se forma ao se opor, e isso poderia explicar o facto de Poitiers se
reivindicar como um feito de armas francês… virtual. Uma magra consolação para
um império em fase inexorável de relegação a nível das Nações, no momento em
que o Islão se eleva ao 2º lugar das grandes religiões em França.
No entanto,
a verdade histórica obriga-nos a proclamá-lo urbi et orbi: a guerra de Poitiers
provavelmente nunca aconteceu. Mais prosaicamente, ao saber da morte do califa,
o príncipe Abdel Rahman levantou o cerco de Poitiers para regressar à Andaluzia
e participar na guerra de sucessão. Ao fim do inverno, Carlos Martel constatou
o levantamento do cerco, três meses depois da partida das tropas árabes. Cheio
de espanto e descrença, deixou escapar um grito de alívio tão forte que os seus
seguidores o interpretaram como uma vitória. Quanto ao feito em Toulouse,
consistiu em perseguir os rastos das tropas de retaguarda árabes durante a sua
passagem pela região de Midi-Pirenéus. Um feito glorioso que se aproxima mais
de vaidade. Rendamos, no entanto, graças ao príncipe Abdel Rahman, chefe das tropas
árabes, por ter dado pretexto para Poitiers, e a Carlos Martel, o Mestre dos
céus, por ter forjado a consciência francesa e a sua identidade nacional com
base num anti-arabismo primário.
Treze
séculos depois, o que resta deste feito de armas? Poitiers transformou-se num
importante destino turístico, graças à recriação do campo de batalha, a sua
vida universitária ameaçada por um novo bárbaro, Jean-Pierre Raffarin, o antigo
primeiro-ministro centrista, responsável pelo deslocamento de universidades
para a sua vila de Chasseneuil-du-Poitou, Charles Martel, uma marca de cerveja,
muito apreciada pelos sedentos do Front National, 732, um efémero código
secreto do assessor de Bruno Gollnisch, o eterno candidato ao magistério da
formação de extrema direita; uma ambição irrisória, se alguma vez houve,
comparada com a lenda, com a história e, sobretudo, com a paixão que este feito
suscitou no imaginário francês. E ao lado da magnífica catedral de Poitiers, no
próprio recinto que deveria ser o perímetro de defesa da cidade, ergue-se agora
uma esplêndida mesquita, uma pré-figuração, sem dúvida, da convivialidade
islâmico-cristã e franco-árabe. Para grande vexame de Brigit Bardot e dos
nostálgicos do Império Francês. Tudo isso para isto?
A França
está imersa no seu legado colonial, embora não queira admiti-lo, e talvez sem
se dar conta. As suas cidades e aldeias reflectem-no e a sua língua está
impregnada dele, “sem que os franceses se apercebam”, de uma maneira que nunca
é pensada.
Muito poucos
sabem que Ramatuelle, uma vila sorridente no sul de França, tem a sua origem
numa acção de graças de migrantes «infiéis» que chegavam a porto seguro,
invocando a misericórdia de Deus (Rahmatou Llah), Carcassonne, de uma rainha
árabe (Karkachouna). Que a França comunica com o exterior através do intermédio
(tourjoumane, intérprete) dos seus diplomatas. Que as Medalhas Fields
atribuídas aos seus matemáticos resultam da sua maestria na Álgebra e no
Logaritmo (al jabr, al khawarizmi), que os graus do exército francês são
emprestados à ordenação árabe do Almirante (Amir al Bahr, o senhor dos mares),
ao capitão (Al Qabda – a firmeza) e, por extensão, Qobtane, o homem que
assegura o controlo. Que a maior crise de raiva nunca é melhor expressa do que
na linguagem do bled (al bilad, o país), especialmente quando alguém lhe
"quebra os glaouis", despertando, em resposta, vontade de os
"foder", sem dúvida o termo mais usado na língua francesa, à frente
dos exorbitantes direitos alfandegários (diwan, sofá colocado à entrada das
cidades para cobrar impostos), dos quais gostaríamos de estar isentos, bem como
os honorários do psicanalista após passar pelo seu divã, a não ser que se
recorra ao álcool (al kouhoul) para curar as feridas do corpo, bem como as
feridas do coração, a menos que se celebre a alquimia (al kimia') da bela
simbiose linguística franco-árabe.
A França tem
um sério problema de memória, do qual quer tirar partido, ocultando os seus
aspectos mais horríveis, que acabam por enganá-la. Desvios repetitivos são como
resíduos mal digeridos da história conturbada deste país, que explicam os
desvios do debate público em França. O único país que é periodicamente
atravessado pelo debate sobre a identidade nacional, sinal evidente de uma
patologia de memória.
Mais de
cinquenta anos depois da independência da Argélia, os reflexos coloniais de
França continuam fortes. E, para acabar com este falso debate e no interesse de
relações harmoniosas entre as duas margens do Mediterrâneo, é importante
proclamar as seguintes verdades, com números a apoiar.
A imigração
ultramarina em França é uma imigração de «créditos» que não podem ser ocultados
nem pelo falso debate sobre o «papel positivo» da colonização, nem pelo activismo
dos grupos de pressão «pieds noirs », essas falsas vítimas da colonização,
vítimas sem dúvida do poder colonial.
II. Imigração árabe-africana para França,
uma "imigração de créditos"
A análise aqui não se reduz ao Islão em França, mas
também se aplica além dos muçulmanos, a toda a diversidade da população
francesa, árabes, africanos ou asiáticos, negros ou brancos, muçulmanos ou cristãos,
budistas, agnósticos, laicos ou ateus. A nível europeu, a França apresenta uma
especificidade em relação a outros grandes países de imigração, nomeadamente a
Alemanha e o Reino Unido.
A. O caso da Alemanha:
Uma imigração de parceria económica. A imigração
muçulmana é maioritariamente turca. As relações são lineares entre a Alemanha e
a Turquia, onde não existe nenhum passivo colonial entre estes dois antigos
aliados da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A imigração é praticamente
homogénea, tanto na sua estrutura demográfica (principalmente turcos) como na
sua natureza económica. As relações com o Islão são geridas directamente pelo
ministério turco dos assuntos religiosos, que nomeia os imãs e fornece
programas profanos ou religiosos em língua turca para a comunidade turca na
Alemanha, que dispõe de duas gráficas para a impressão dos grandes jornais
turcos vendidos na Europa Ocidental. Uma imigração de parceria económica. Uma
sub-contratação do Islão, em suma, pelo país de origem.
B. O caso do Reino Unido:
A imigração é ultramarina, principalmente de origem
indo-paquistanesa asiática. O passivo colonial é atenuado no que diz respeito
ao Reino Unido, devido à contribuição dos povos de pele morena no esforço de
guerra durante os dois conflitos mundiais (1914-1918 / 1939-1945) e às
condições de acesso à independência da Índia e do Paquistão. Na Grã-Bretanha,
ao contrário da França, a contribuição ultramarina no esforço de guerra inglês
foi de carácter paritário, o grupo dos países anglo-saxónicos pertencente à
população Wasp (White Anglo Saxon Protestant) – Canadá, Austrália, Nova
Zelândia – forneceu efectivos aproximadamente iguais aos povos de pele morena
do império britânico (indianos, paquistaneses, etc.). Seguiu-se a proclamação
da Independência da Índia e do Paquistão em 1948, após a guerra, ao contrário,
também aqui, da França, que se envolveu em dez anos de guerras coloniais
ruinosas (Indochina, Argélia).
C. A especificidade da imigração em
França:
A imigração
de pele morena em França é uma imigração de crédito, resultante de um tributo
de sangue, sem paralelo nos anais, que faz com que, por esse motivo, os
imigrantes em França devam ser recebidos de braços abertos enquanto as
instâncias do país estão constantemente a tentar fazê-los entrar pela porta de
serviço. Julguem vocês mesmos. A contribuição global das colónias para o
esforço de guerra francês na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ascendeu a
555.491 soldados, dos quais 78.116 foram mortos e 183.903 foram afectados à rectaguarda
no esforço económico de guerra, de forma a compensar o recrutamento de soldados
franceses na frente. A Argélia, por si só, forneceu 173.000 combatentes
muçulmanos, dos quais 23.000 foram mortos, e 76.000 trabalhadores participaram
no esforço de guerra, em substituição dos soldados franceses enviados para a
frente. A contribuição total dos três países do Magrebe (Argélia, Tunísia,
Marrocos) ascendeu a 256.778 soldados, 26.543 mortos e 129.368 trabalhadores. A
África negra (África Ocidental e África Equatorial) ofereceu 164.000
combatentes (33.320 mortos), a Indochina 43.430 combatentes e 1.123 mortos), a
Ilha da Reunião 14.423 combatentes e 3.000 mortos, e a Guiana-Antilhas (23.000
combatentes, 2037 mortos).
Para a
Segunda Guerra Mundial (1939-1945): O primeiro exército de África que
desembarcou na Provença (sul de França), a 15 de Agosto de 1944, permitiu abrir
uma segunda frente em França após o desembarque de 6 de Junho de 1944 na
Normandia. Este exército de 400.000 homens contava com 173.000 árabes e africanos
nas suas fileiras. De Junho de 1940 a Maio de 1945, cinquenta e cinco mil
(55.000) argelinos, marroquinos, tunisinos e combatentes da África negra foram
mortos. 25.000 deles serviam nas fileiras do exército de África.
Durante a
campanha de Itália, marcada pela famosa batalha de Monte Cassino, que abriu o
caminho para Roma e, por isso, celebrada como a grande vitória francesa da
Segunda Guerra Mundial, dos 6.255 soldados franceses mortos, 4.000, ou seja,
dois em cada três, eram originários do Magrebe e entre os 23.500 feridos,
15.600, ou um terço, eram do Magrebe. Ahmad Ben Bella, um dos futuros líderes
da guerra de independência argelina e primeiro presidente da Argélia
independente, esteve entre os feridos na Batalha de Monte Cassino. O mesmo se
aplica à campanha alemã: dos 9.237 mortos, 3.620 eram praças do Magrebe, e dos
34.714 feridos, 16.531 eram norte-africanos.
A França
decidiu em 13 de Julho de 2010 alinhar as pensões de todos os antigos
combatentes residentes no estrangeiro, fosse qual fosse a sua nacionalidade,
por ocasião da comemoração do cinquentenário da independência da África
francófona. Este alinhamento deverá beneficiar cerca de 30 000 pessoas dos
aproximadamente 173 000 combatentes indígenas que constituíam a espinha dorsal
do primeiro exército de África. Epílogo de sessenta anos de uma aberração
moral, esta medida, no entanto, não tem efeito retroactivo e não diz respeito
aos antigos combatentes que faleceram sob o regime da « cristalização » das
pensões. A generosidade francesa parece parcimoniosa. Parece, em retrospectiva,
como um acerto de contas final.
Assim, cinco
séculos de colonização intensa pelo mundo ainda não banalizaram a presença dos
«morenos» em solo francês, assim como treze séculos de presença contínua,
materializada em cinco vagas de emigração, não conferiram ao Islão o estatuto
de religião autóctone em França, onde o debate, há meio século, gira em torno
da compatibilidade do Islão com a República, como que para afastar a ideia de
uma integração inevitável deste grupo étnico-identitário com os povos de
França, o primeiro de tal importância sedimentado fora da esfera eurocêntrica e
judaico-cristã.
As
interrogações são reais e fundamentadas, mas pela sua repetição (Islão e
modernidade, Islão e laicidade), as variações sobre este tema parecem sobretudo
remeter ao velho debate colonial sobre a assimilação dos indígenas, como se
quisesse demonstrar o carácter inassimilável do Islão no imaginário francês,
como se quisesse mascarar as antigas fobias chauvinistas francesas, apesar da
mistura ocorrida no Norte de África e das uniões acessórias do ultramar
colonial, apesar da mistura demográfica no sul de França desde a conquista da
Septimânia em 719, e o povoamento dos Pirenéus pelos 150 000 Mouriscos que
fugiam à Inquisição espanhola em 1610, apesar das sucessivas vagas de
refugiados do século XX da Europa, de África, da Indochina, do Médio Oriente e
de outros lugares.
Para além
das discussões especulativas, sobre se « o Islão é compatível com a República
ou, pelo contrário, se a República é compatível com o Islão », a realidade
tratou ela própria de responder ao principal desafio intercultural da sociedade
francesa no século XXI. Compatível ou não, fora de qualquer suposição, o Islão
está agora bem presente na República de forma duradoura e substancial, assim
como a demografia francesa reflecte uma estrutura inter-racial e a sua
população uma configuração cromática.
Primeiro
país europeu em termos da importância da sua comunidade muçulmana, a França é
também, proporcionalmente à sua superfície e população, o maior centro
muçulmano do mundo ocidental. Com quase seis milhões de muçulmanos, dos quais
dois milhões com nacionalidade francesa, conta com mais muçulmanos do que pelo
menos oito países membros da Liga Árabe (Líbano, Kuwait, Qatar, Bahrein,
Emirados Árabes Unidos, Palestina, Comores e Djibuti). Ela poderia, neste
sentido, justificar uma adesão à Organização da Conferência Islâmica (OCI), o
fórum político pan-islâmico que reúne cinquenta e dois Estados de vários
continentes, ou pelo menos dispor de um assento de observador.
III. Uma república xenófoba
A primeira
grande ruptura geo-estratégica da época contemporânea, a Primeira Guerra Mundial
(1914-1918), um derramamento humano, desperdício económico, provocará, a nível
da geo-estratégia, um progressivo declínio da Europa em favor dos Estados
Unidos, a nível demográfico, uma inversão dos fluxos migratórios, e a nível da
psicologia dos europeus, o duro aprendizado do fenómeno exógeno, da cultura da
alteridade, a negação do egocentrismo, uma verdadeira revolução mental.
Com 1,4
milhões de mortos e 900 mil inválidos, a França lamentará a perda de 11 por
cento da sua população activa devido ao primeiro conflito mundial, às quais se
deveriam somar os estragos económicos: 4,2 milhões de hectares devastados, 295
000 casas destruídas, 500 000 danificadas, 4.800 km de linhas ferroviárias e
58.000 km de estradas a restaurar, 22 900 fábricas a reconstruir e 330 milhões
de m³ de trincheiras por preencher.
Os primeiros
trabalhadores imigrantes, kabiles, chegaram a França já em 1904 em pequenos
grupos, mas a Primeira Guerra Mundial provocou um efeito de aceleração levando
a um recurso massivo aos «trabalhadores coloniais», aos quais se sobrepuseram
os reforços dos campos de batalha contabilizados de forma diferente. Durante a
primeira década do século XX, a França já contava com 1,1 milhões de
estrangeiros em 1906, ou seja, 2,7 por cento da população. Vinte anos depois, o
número duplicava, com 2,5 milhões de estrangeiros, incluindo 1,3 milhões de
trabalhadores da Europa, da Ásia e de África registados em 1926.
O indígena
distante cede o lugar ao imigrante próximo. De curiosidade exótica que se exibia
nos zoos humanos para glorificar a acção colonial francesa, o melanoderme
tornar-se-á progressivamente um dado permanente da paisagem humana da vida
quotidiana metropolitana, a sua presença sentida como uma constricção,
exacerbada pela diferenciação dos modos de vida entre imigrantes e
metropolitanos, pelas flutuações económicas e pelas incertezas políticas do
país de acolhimento
Paradoxalmente, no período entre as duas guerras
(1918-1938), a França vai favorecer a criação de uma «República Xenófoba»,
matriz da ideologia vichysta e da «preferência nacional», mesmo que necessite
urgentemente de mão de obra. Embora tenham ajudado a tirar a França do estado
de ruína, os trabalhadores imigrantes seriam mantidos em suspeita,
monitorizados num grande «ficheiro central». Para obter o cartão de residência
tinham de pagar um imposto equivalente, por vezes, a meio mês de salário, que
servia como fonte de receita adicional para o Estado francês, e ainda eram
vistos como portadores de um triplo perigo: perigo económico para os seus concorrentes
franceses, perigo sanitário para a população francesa, na medida em que os
estrangeiros – particularmente os asiáticos, africanos e magrebinos – eram
considerados presumivelmente portadores de doenças, e perigo para a segurança
do Estado francês.
IV. As cotações bolsistas dos
trabalhadores coloniais
Cerca de
duzentos mil «trabalhadores coloniais» (200 000) seriam assim importados do
Norte de África e do continente negro por verdadeiras corporações de
exploração, como a «Société générale de l’immigration» (SGI), para colmatar a
falta de mão-de-obra francesa, principalmente na construcção e na indústria
têxtil, substituindo os soldados franceses que partiram para a frente de
batalha. Na coorte de trabalhadores imigrantes, inicialmente vindos
principalmente de Itália e da Polónia, os magrebinos receberão uma atenção
especial por parte das autoridades.
Um « Gabinete
de vigilância e protecção dos indígenas norte-africanos responsável pela
repressão de crimes e delitos » foi criado a 31 de Março de 1925. Um gabinete
especial só para os Magrebinos, precursor do « serviço das questões judaicas »
que o regime de Vichy implementaria em 1940 para a vigilância dos cidadãos
franceses de « raça judaica » ou de « fé israelita » durante a Segunda Guerra
Mundial. O nome do órgão diz muito sobre a opinião do governo francês e as suas
intenções em relação a eles. O fenómeno foi-se intensificando com a 2.ª Guerra
Mundial e os gloriosos anos trinta do pós-guerra (1945-1975) que se seguiram à
reconstrucção da Europa, onde a necessidade de « carne para canhão » e de
mão-de-obra abundante e barata provocaria um novo fluxo migratório de igual
importância ao anterior.
Quando posta
à prova dos factos, a política árabe de França, dogma sagrado por excelência,
revelou-se ser uma grande mistificação, um argumento de venda do complexo
militar-industrial francês. Que se julgue. A história é testemunha disso.
A
contribuição dos árabes para o esforço de guerra francês em 1914-1918 para a
reconquista da Alsácia-Lorena foi franca e massiva. Sem contrapartida. A
França, em troca, vinte anos depois dessa contribuição, expressou a sua
gratidão à sua maneira, ao amputar a Síria do distrito de Alexandreta, em 1937,
para a ceder à Turquia, seu inimigo da Primeira Guerra Mundial. No seguimento
da Segunda Guerra Mundial, a França, reincidente, carbonizou a primeira
manifestação autonomista dos argelinos, em Sétif, no próprio dia da vitória
aliada, 9 de Maio de 1945, uma repressão que viria a ser retrospectivamente
vista como uma aberração do espírito provavelmente única na história do mundo,
cujos efeitos ainda se fazem sentir nos dias de hoje.
Dez anos
mais tarde, em 1956, em conjunto com Israel e a Grã-Bretanha, a França lançou
uma «expedição punitiva» contra o líder do nacionalismo árabe, Nasser, culpado
de ter tentado recuperar a sua única riqueza nacional, o «Canal de Suez».
Estranha
combinação, aliás, essa “expedição de Suez” entre os sobreviventes do genocídio
nazi (os israelitas) e um dos seus antigos carrascos, a França, que sob Vichy
foi a ante-sala dos campos da morte. Estranha combinação para qual luta? Contra
quem? Contra os árabes? Aqueles mesmos que foram amplamente solicitados durante
a Segunda Guerra Mundial para derrotar o regime nazi, ou seja, o ocupante dos
franceses e o carrasco dos israelitas? A não ser que se trate de uma forma
elaborada da excepção francesa, teríamos sonhado com uma melhor expressão de
gratidão.
Se Nicolas Sarkozy pôde presidir um país situado no campo da Democracia,
deve-o, certamente, às «Cruzes Brancas» dos cemitérios americanos da Normandia,
mas também ao sacrifício de cerca de quinhentos mil combatentes do Mundo árabe
e africano que ajudaram a França a libertar-se do jugo nazi, enquanto uma
grande parte da população francesa praticava a colaboração com o inimigo.
Quinhentos
mil combatentes na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), tantos ou mais na
Segunda Guerra Mundial (1939-1945), na altura não se falava em rastreio
genético, «teste de ADN» ou «imigração escolhida» para o seu recrutamento, nem
em «limite de tolerância» pelo sangue que derramaram em abundância por uma
guerra que lhes parecia ser «uma querela entre brancos».
V. O Charme francês ou o Mito da Grandeza
O comentário
não é trivial. Reflecte uma realidade indiscutível: a última grande vitória
militar francesa remonta a dois séculos: Austerlitz (1805). Claro que houve
Valmy e a Ponte de Arcole. Depois Austerlitz. Depois mais nada... Seguiu-se
Waterloo (1815), contra os ingleses, Sedan (1870), contra os alemães, Fachoda
(1898), que bloqueou completamente o acesso da França às fontes do Nilo, no
Sudão. Quase um século de desastres militares ininterruptos, compensados, é
certo, pelas conquistas coloniais, nomeadamente a Argélia.
Parece que
as expedições coloniais são paliativos úteis para os desastres nacionais e, por
transposição para o debate contemporâneo, os imigrantes seriam desvarios
indispensáveis para as dificuldades internas.
VERDUN 1916
e Rethondes I (o armistício de 11 de Novembro de 1918), cem anos depois de
Waterloo, irão fechar o parêntese nefasto. Mas aí, os franceses não estão
sozinhos. Já não podem reivindicar a vitória só para si. É uma «vitória aliada»
que terão de partilhar com os seus aliados britânicos e americanos, mas também
com os novos chegados à cena internacional: os Basanés. 550.449 soldados de
ultramar, dos quais 173.000 argelinos, ou seja, 20 por cento das forças e 10
por cento da população do país, irão participar no esforço de guerra de França.
78.116 ultramarinos cairão no campo de honra, o equivalente à totalidade da
população de Fréjus, Beaucaire e Henin Beaumont, os três bastiões da
extrema-direita francesa contemporânea.
O pensamento
pode parecer sacrilégio, mas corresponde, aí também, à realidade: Verdun é,
nesse sentido, tanto uma vitória francesa quanto uma vitória árabe e africana.
Certamente, a «carne para canhão» era apresentada como pouco valiosa face à
qualidade dos estrategas do Alto Comando. Mas o facto está aí também
demonstrado: após Verdun muitos tinham acreditado ingenuamente que a França se
tinha reconciliado com a vitória. Pois não. 1940 e Rethondes Bis (a capitulação
de Montoire a 21 de Junho de 1940) provarão o contrário.
Monte
Cassino (1944) lavou a honra francesa, mas a maior vitória francesa da Segunda
Guerra Mundial é uma vitória mista: Cem mil (100.000) soldados aliados, contra
60.000 alemães, bem como 4000 cidadãos do Magrebe, tiveram de pagar com as suas
vidas por esta vitória. 4.000 oriundos do Magrebe entre os 6.300 mortos nas
fileiras francesas, ou seja, dois terços do efectivo. Monte Cassino é,
portanto, tanto uma vitória aliada como uma vitória francesa, árabe e africana.
O mesmo padrão aplica-se no domínio naval. O último feito militar francês –
controverso, é certo – remonta a Abouquir (1799).
Depois foi a vez de Trafalgar (1805), Toulon (1942), o
Charles de Gaulle e a sua hélice em falta durante a Guerra do Afeganistão
(2001), a primeira guerra do século XXI, por fim as peripécias do antigo
orgulho da frota francesa, o Clemenceau, em 2005. Teríamos sonhado com um
tratamento melhor para o De Gaulle e para o Clemenceau, afinal de contas dois
personagens notáveis da História de França.
Vitoriosa com os seus antigos colonizados, a França
voltará a conhecer a derrota quando se levantar contra eles. Queimado em Dien
Bien Phu (1954) contra o Vietname, a primeira vitória de um país do Terceiro
Mundo sobre um país ocidental, assim como na Argélia (1954-1962).
VI. O tríptico republicano (Liberdade,
Igualdade, Fraternidade), o mito fundador da excepção francesa
A liberdade:
A colonização é a negação da Liberdade. A colonização não é, de modo algum, « a
valorização das riquezas de um país transformado em colónia », segundo a
definição mais recente do diccionário « Le Petit Robert », Edição – 2007.
A liberdade
e a colonização são propriamente antinómicas. Porque a colonização é a
exploração de um país, a espoliação das suas riquezas, a escravização da sua
população em benefício de uma Metrópole da qual, de facto, é um mercado cativo,
o reservatório das suas matérias-primas e o despejo do seu excedente
demográfico, da sua mão-de-obra e da sua sobrepopulação, o volante regulador do
desemprego e da inflacção nas sociedades ocidentais. Contrária aos ideais de
Liberdade, Igualdade e Fraternidade, os princípios fundadores da Revolução
Francesa, a colonização foi o coveiro do ideal republicano. Terá sido assim
mesmo quando figuras ilustres francesas, como Léon Blum, a consciência moral do
socialismo, já tentaram celebrar os seus benefícios como um dever de fazer
chegar a civilização aos povos primitivos.
Por
transposição para o debate contemporâneo, a retórica de Léon Blum é comparável
à da nova consciência da nova esquerda francesa, o filósofo André Glucksmann,
apresentando a invasão americana do Iraque em 2003 como uma contribuição
ocidental para a instauração da democracia em solo árabe e não como a tomada de
controlo americana sobre os campos petrolíferos desse país.
« O fardo do
homem branco », teorizado pelo inglês Rudyard Kipling, é um álibi conveniente,
o tema recorrente em todas as expedições predadoras do mundo ocidental.
A Igualdade:
A exceção francesa é uma singularidade.
Primeiro
país a ter institucionalizado o terror como modo de governo, com Maximilien de
Robespierre, durante a Revolução Francesa (1794), a França será também o
primeiro país a inaugurar a pirataria aérea, em 1955, com o desvio do avião dos
líderes históricos do movimento independentista argelino Ahmad Ben Bella,
Mohamad Khider, Mohamad Boudiaf e Krim Belkacem, dando assim o exemplo aos
militantes do terceiro mundo na luta pela sua independência.
A
reincidência na singularidade é também uma característica da excepção francesa:
de facto, este país jacobino, igualitário e igualador vai destacar-se ainda
mais por ser o único país no mundo a ter oficializado o «gobino-darwinismo
jurídico», a ter codificado no Direito «a teoria da desigualdade das raças»,
uma codificação feita sem discernimento, para promover não a igualdade, mas a
segregação.
A « Pátria dos Direitos do Homem » e das compilações jurídicas modernas – o
código civil e o código penal – é também o país da codificação discriminatória,
o país da codificação da abominação: o país do « Código Negro » da escravatura,
sob a Monarquia, do « Código do indigenato » na Argélia, sob a República, que
aplicará com as « exposições etnológicas », esses « zoos humanos » criados para
fincar no imaginário colectivo dos povos do terceiro mundo a ideia de uma
inferioridade duradoura dos « povos de cor », e, por consequência, a
superioridade da raça branca como se o branco não fosse uma cor, mesmo que seja
imaculada, o que está longe de ser o caso.
Um único
número basta para demonstrar a inutilidade deste princípio de igualdade: três
membros do último governo da era chiraciana presidido por Dominique De Villepin
(2005) foram encarregados da implementação deste princípio nas suas diversas
vertentes: coesão social (Jean Louis Borloo), promoção da igualdade de
oportunidades entre franceses de origem e franceses naturalizados (Azouz Begag)
e, finalmente, a paridade entre homens e mulheres (Catherine Vautrin), sem
falar das amazonas de enfeite Rachida Dati (Justiça) e Rama Yade (Direitos
Humanos), a guarda mediática próxima do primeiro «presidente de sangue mestiço»
da França.
Este princípio de igualdade é, no entanto, um dos princípios fundadores da
República, consagrado como bem comum da nação há dois séculos. Porque é que não
se pensou em aplicá-lo antes? Dá para crer que a laicidade, esse conceito único
no mundo, só se tenha moldado para servir de disfarce a um chauvinismo
recorrente da sociedade francesa. Os brinquedos oferecidos ocasionalmente, não
aos mais merecedores mas aos mais dóceis, como um prémio de consolação, longe
de atenuar esta política discriminatória, sublinham a perfeita contradição com
a mensagem universalista de França. Expondo-a a dolorosos contratempos.
Fraternidade: O Bougnoule, a marca de estigmatização absoluta, o símbolo da
ingratidão absoluta: A fraternização nos campos de batalha aconteceu sim, mas a
fraternidade nunca.
Nunca nenhum país no mundo deveu tanto a sua liberdade
aos povos de pele escura e, no entanto, nenhum país no mundo reprimiu de forma
tão compulsiva os seus aliados coloniais, dos quais dependia fortemente para
sobreviver como grande nação. De Fraternidade, nada, mas como substituto, a
estigmatização, a discriminação e a repressão em abundância, com o seu séquito
de congelamento das pensões dos antigos combatentes de pele escura, «esquecidos
da república», um salário étnico, injusto e cínico de uma república tão
esquecida e ingrata como poucas.
VII. Considerações adicionais sobre a
especificidade do debate pós-colonial
O caso do Haiti:
Para lá do Código Negro da escravatura e do código do
indigenato, a França, outra incongruência do comportamento colonial francês, é
provavelmente o único país no mundo a ter exigido uma compensação financeira
para conceder a independência a uma das suas antigas colónias, no caso, o
Haiti, ao qual reclamará 150 milhões de francos ouro, um valor considerável
para a época, para lhe conceder a independência. Noutras palavras, a França
ocupou à força um território que não lhe pertencia, explorou as suas riquezas
e, em vez de indemnizar este país por tê-lo explorado, exige-lhe, pelo
contrário, uma compensação por um lucro futuro perdido de um bem que
inicialmente não lhe pertencia. Tal comportamento assemelha-se a práticas
mafiosas, nunca antes vistas na história colonial.
O caso dos "Pieds Noirs"
Os Pieds
Noirs, franceses repatriados da Argélia na sequência da Independência desse
país, constituem uma singularidade no panorama colonial mundial. A França é o
único país que introduz os pieds noirs no debate. Os colonos brancos das
colónias britânicas da Rodésia Nyassalândia, do Quénia, do Uganda, da Índia ou
do Paquistão não se organizaram em lobbies para encobrir a história colonial,
nem para influenciar o debate sobre a identidade nacional, nem, tampouco, para
reclamar e conseguir por razões eleitorais a aprovação de uma lei sobre o
«papel positivo da colonização».
Os Pieds Noirs fazem parte da colonização e só existem num único país, a
Argélia. É curioso que não tenha havido um fenómeno Pied Noir na África negra.
Por que privilegiá-los em detrimento das populações de outros países, quando o
código do indigenato não se aplicava a eles, prova irrefutável da sua pertença
à sociedade colonial. Parece pouco saudável, em termos de coerência
intelectual, pôr no mesmo nível a exploração, a opressão, a despersonalização
pluri-secular dos colonizados, a sua escravização e o tráfico de que foram
alvo, e as desventuras de antigos colonos, enganados pela política do seu
governo.
Os
Pieds-Noirs são as vítimas privilegiadas do Estado colonial e não do estado
colonizado. É importante não banalizar o debate, colocar o colonizador e o
colonizado no mesmo plano, e mutatis mutandis, os perseguidores e os
perseguidos, sob o pretexto de um equilíbrio no tempo de fala: quinze minutos
para uns e quinze minutos para outros. Os Pieds-Noirs pertencem ao mesmo mundo
que o poder colonial: colonos, desfrutavam dos mesmos direitos e deveres que os
seus compatriotas em França. Não estavam sujeitos ao código do indigenato. Eram
colonos, a população autóctone eram os colonizados.
Portadores
da nacionalidade francesa, eles tinham a obrigação de defender a França durante
as duas guerras mundiais, os outros, indígenas, nada disso. É aí que está toda
a diferença que faz com que um grupo de nostálgicos do Império colonial francês
tome a República como refém e a submeta a chantagem eleitoral, proibindo
qualquer questionamento da doutrina oficial sobre a história colonial (ver, a
esse respeito, a polémica em torno do filme «Hors la Loi», de Rachid Bouchareb,
sobre os massacres de Sétif).
O paradoxo
francês reside neste facto que explica os desvios do debate público. Se o
«papel positivo da colonização» constitui agora um dogma inalterável do
pensamento francês contemporâneo, espera-se que esta intervenção neste colóquio
tenha contribuído para a demonstração do «papel positivo dos colonizados em
relação ao seu colonizador».
A abordagem
da componente colorida da sociedade francesa não deveria centrar-se na criação
de um estatuto de excepção para a sua comunidade com base nos cultos, rituais,
usos e costumes, de forma a sobrepor um gueto comunitário a outros guetos
comunitários, mas sim exigir a aplicação dos princípios fundadores da República
que respeitam a Liberdade, a igualdade e a fraternidade para todos.
Uma cultura de paz pressupõe o respeito pelos outros,
o reconhecimento da sua especificidade e da sua contribuição, e não a difamação
ou negação. Isto tem a ver com a saúde do debate público em França, com a sua
grandeza e com a sua honra.
Ilustração
Charles Martel na Batalha de Poitiers, datado e
assinado Steuben em 1837: http://fr.wikipedia.org/wiki/Fichier:Steuben_-_Bataille_de_Poitiers.png
René Naba
Jornalista-escritor, antigo chefe do
Mundo Árabe e Muçulmano ao serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do
director-geral do RMC Médio Oriente, chefe de informação, membro do grupo
consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos Humanos e da Associação
Euro-Árabe de Amizade. De 1969 a 1979, foi correspondente rotativo no gabinete
regional da Agence France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu a guerra civil
jordano-palestiniana, o "Setembro Negro" de 1970, a nacionalização de
instalações petrolíferas no Iraque e na Líbia (1972), uma dúzia de golpes de
Estado e sequestros de aviões, bem como a Guerra do Líbano (1975-1990) a 3.ª
guerra árabe-israelita de Outubro de 1973, as primeiras negociações de paz
egípcio-israelitas em Mena House, Cairo (1979). De 1979 a 1989, esteve à frente
do mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do
director-geral do RMC Médio Oriente, responsável pela informação, de 1989 a
1995. Autor de "Arábia Saudita, um reino das trevas" (Golias),
"De Bougnoule a selvagem, uma viagem pela imaginação francesa"
(Harmattan), "Hariri, de pai a filho, empresários, primeiros-ministros"
(Harmattan), "As revoluções árabes e a maldição de Camp David"
(Bachari), "Media e Democracia, a captura do imaginário um desafio do
século XXI" (Golias). Desde 2013, é membro do grupo consultivo do
Instituto Escandinavo para os Direitos Humanos (SIHR), sediado em Genebra. É
também Vice-Presidente do Centro Internacional Contra o Terrorismo (ICALT),
Genebra; Presidente da instituição de caridade LINA, que opera nos bairros do
norte de Marselha, e Presidente Honorário do 'Car tu y es libre' (Bairro Livre),
que trabalha para a promoção social e política das áreas periurbanas no
departamento das Bocas do Ródano, no sul de França. Desde 2014, é consultor no
Instituto Internacional para a Paz, Justiça e Direitos Humanos (IIPJDH),
sediado em Genebra. Desde 1 de Setembro de 2014, é responsável pela coordenação
editorial do site https://www.madaniya.info
e apresenta uma coluna semanal na Rádio
Galère (Marselha), às quintas-feiras das 16h às 18h.
Fonte: La
controverse de Poitiers 1/2 - Madaniya
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice

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