Desvinculação dos Emirados e pressões migratórias: Espanha
paga a sua oposição ao hégemon
21 de Agosto de 2026 Robert Bibeau
Por Hanane Ben
O anúncio não passou
despercebido e sugere questões muito mais complexas do que uma simples
arbitragem comercial. Os investimentos dos Emirados no sector energético
espanhol abrandaram de facto após o fracasso de duas grandes operações.
Por um lado, a empresa de energias renováveis Masdar retirou-se da primeira
fase do projecto de hidrogénio verde "Vale da Andaluzia", um
ambicioso projecto de mais de mil milhões de euros liderado pela empresa
espanhola Moeve, e agora procura vender a sua participação a actores franceses
e espanhóis.
Por outro lado, o grupo emiradense Taqa desistiu de adquirir uma grande
participação no gigante espanhol do gás e electricidade Naturgy, terminando
negociações no valor de dezenas de milhares de milhões de euros sem chegar a um
acordo.
A origem destas manobras remonta ao início de 2022, durante a visita
oficial de Pedro Sánchez aos Emirados Árabes Unidos para selar uma parceria
estratégica. Apenas algumas semanas após esta reunião, o chefe do governo
espanhol fez uma reviravolta espectacular na questão do Saara Ocidental ao
alinhar a posição de Madrid com a de Rabat. Foi na sequência desta
reaproximação política e sob o impulso desta aliança maligna contra os
interesses da Argélia que ocorreu a tentativa de tomada de poder da Naturgy na
Primavera de 2024.
Mas, perante o grupo emiradense Taqa, a Argélia — o principal fornecedor de
gás de Espanha com quase 30% das suas importações — deu um ultimato firme:
qualquer tomada de controlo pelo Abu Dhabi levaria à interrupção imediata do
fornecimento de gás à Península Ibérica (representando cerca de 5 mil milhões
de m³ por ano transportados pelo gasoduto Medgaz, 51% controlada pela
Sonatrach).
Embora a Naturgy tenha tentado moderar o entusiasmo alegando que não
existia nenhuma cláusula contratual que previsse a rescisão em caso de
alteração accionista, esta postura não tranquilizou ninguém. Argel disse que
estava pronto para ir até ao fim. Perante esta determinação inabalável, o
silêncio embaraçoso dos Ministérios da Economia e dos Negócios Estrangeiros
espanhóis reflectia toda a febre de Madrid.
Abu Dhabi não negociava em nome próprio, mas actuava como braço de uma
estratégia dupla: promover os interesses estratégicos de Marrocos enquanto
servia como uma lebre financeira para facilitar a transferência de activos
energéticos-chave para grandes fundos anglo-americanos como a BlackRock.
Apanhado entre o risco de asfixia energética e a pressão da sua coligação a
exigir um "escudo anti-aquisição", o infeliz Primeiro-Ministro
espanhol não teve outra escolha senão deixar a operação abortar.
Avaliada em mais de 25 mil milhões de euros — um recorde em Espanha — esta
transação colossal foi finalmente enterrada, selando o fracasso estratégico do
Abu Dhabi perante a firmeza de Argel.
Para além destes fracassos financeiros, este duplo revés energético destaca
o jogo perigoso de Pedro Sánchez.
Ao selar uma aliança de interesses com os dois países vassalos, Emirados e
Marrocos, à custa da Argélia — o que provocou a suspensão abrupta do tratado
bilateral de amizade com duas décadas — o chefe do governo espanhol pensava
estar a garantir o seu apoio político.
As áreas cinzentas em torno do escândalo
de espionagem Pegasus, do qual o próprio
Sánchez foi vítima, deixam dúvidas: terá sido a sua reviravolta no Saara
Ocidental um cálculo cínico ou resultado de pressão directa? Em todo o caso,
Madrid está agora a descobrir da pior forma a precariedade destas alianças com
actores intimamente ligados ao eixo do mal de Telavive e Washington.
Espanha encontra-se agora na mira e fugas concordantes indicam que o
abrupto desligamento dos Emirados Árabes Unidos do projecto de hidrogénio no
"Vale da Andaluzia" responderia, de facto, às instruções da entidade
sionista destinadas a punir Madrid e enfraquecer ainda mais a sua posição
estratégica.
A ironia desta deriva diplomática é impressionante. Apesar do alinhamento
cego de Pedro Sánchez com as teses marroquinas relativas ao Saara Ocidental,
Rabat e os seus patrocinadores nada pouparam à Espanha.
Pelo contrário, as posições assertivas de Madrid a favor da Palestina e as
suas reservas quanto à guerra sionista americana contra o Irão colocaram
finalmente o reino ibérico na mira.
Ao querer jogar em vários níveis, Pedro Sánchez isolou-se. Espanha
encontra-se agora mais vulnerável do que nunca, presa entre a pressão dos
Estados Unidos e da entidade sionista genocida, que visa o controlo estratégico
do Estreito de Gibraltar, e as ambições territoriais expansionistas do regime
de Makhzen em Ceuta e Melilla. Uma dura lição de geo-política em que Madrid, depois
de sacrificar a sua aliança com Argel, descobre que cedeu tudo sem nunca
receber nada em troca.
Fonte: Algeria54
(Enviado por A. Djerrad)
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice

Sem comentários:
Enviar um comentário