sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A controvérsia de Poitiers 2/2

 


A controvérsia de Poitiers 2/2

 

René Naba / 12 DE NOVEMBRO DE 2014 / EM CultureSociété

Última atualização a 12 de novembro de 2014

Os morenos da França: Pela grandeza da França e não pela sua megalomania ou pelo seu nanismo político

Paris – O debate é cíclico, como uma fuga para a frente, como se fosse para desviar a atenção dos graves problemas estruturais de França, do abissal défice das suas finanças públicas, da falência e impunidade das suas elites, da deliquescência do seu tecido social, da docilidade da sua imprensa, da inconsistência do debate público multipartidário, da necrose dos seus circuitos de decisão. 

O debate é cíclico sobre um tema único nas suas várias formas, o véu, a burca, os minaretes, o papel positivo da colonização, como uma fuga para a frente, como se fosse para ocultar o essencial, a dívida de honra de França para com os seus imigrantes, tanto pela defesa da sua independência – duas vezes no mesmo século, durante as duas guerras mundiais, um facto raríssimo na história –, como pela sua contribuição para o prestígio de França pelo Mundo.

A obra benéfica que é prioritário iniciar não é um trabalho de exaltação chauvinista propício a todos os excessos, mas um trabalho de «desconstrução» dos mitos fundadores da grandeza francesa, uma leitura fractal da história de França, para fundamentar a identidade nacional num conhecimento concreto e não idealizado da história de França e para cimentar a unidade nacional tendo em conta as diversas componentes da população nacional e não na estigmatização do estrangeiro.

A não ser que se abdique perante os defensores da anglo-esfera, a não ser que se envolva num fantástico isolamento, a não ser que se tape os olhos numa fantástica cegueira, o debate não se poderia reduzir a um duelo narcisista entre a França e ela própria a exibir-se perante o restante do mundo, em nome da excepção francesa. Mas sim a um debate sobre o posicionamento da França dentro do seu espaço natural de actuação, a Francofonia, garantia do seu impacto e justificativa do seu estatuto de grande potência, membro permanente do conselho de segurança. Um estatuto com o qual nunca teria sonhado considerando o seu desempenho fraco durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), mas do qual é devedora pela posse de um império ultramarino e pela lógica dos blocos no auge da Guerra Fria.

O ressentimento é forte, na medida da usurpação. É de esperar que a celebração em 2010 do Ano de África em França, com a participação das tropas africanas no desfile de 14 de Julho, dê a oportunidade de uma reabilitação da imagem do «Bougnoule» (Árabe – NdT) no imaginário francês e da reabilitação da contribuição da «pequena gente da república» para a grandeza de França. Que tal não desagrade aos intelectuais da corte, a excepcionalidade francesa é uma singularidade que se vive como impunidade, uma especificidade que se vive como superioridade.

Primeiro país a ter institucionalizado o terror como modo de governo, com Maximilien de Robespierre, durante a Revolução Francesa (1794), a França é também o primeiro país a inaugurar a pirataria aérea, em 1955, com o desvio do avião dos líderes históricos do movimento independentista argelino (Ahmad Ben Bella, Mohamad Khider, Mohamad Boudiaf e Krim Belkacem), dando assim o exemplo aos militantes do terceiro mundo em luta pela sua independência.

A reincidência na singularidade é também uma característica da excepcionalidade francesa: este país jacobino, igualitário e igualitarista vai também distinguir-se por ser o único país no mundo a ter oficializado o «gobino-darwinismo jurídico», codificando no Direito «a teoria da desigualdade das raças», uma codificação feita sem discernimento, para promover não a igualdade, mas a segregação.

A «Pátria dos Direitos do Homem» e das compilações jurídicas modernas – o código civil e o código penal – é, de facto, o país da legislação discriminatória, o país da codificação da abominação, o país do «Código Negro» da escravatura, na Monarquia, do «Código do Indigenato» na Argélia, na República, que pôs em prática com as «exposições etnológicas», esses «zoos humanos» criados para fixar no imaginário colectivo dos povos do terceiro mundo a ideia de uma inferioridade duradoura dos «povos de cor» e, como consequência, a superioridade da raça branca… como se o branco não fosse uma cor, mesmo que os seus defensores o vivam como imaculado, o que está longe de ser o caso, a julgar pelas torpezas da sua História.

Para memória, mas é preciso recordar? As três grandes figuras tutelares do século XX pela sua contribuição à moral universal terão sido três personalidades do terceiro mundo colonizado: Mahatma Gandhi (Índia), Nelson Mandela (África do Sul) e, para o espaço francófono, o martinicano Aimé Césaire, três apóstolos da não-violência, uma consagração que soa como um desaforo para os países ocidentais com o seu cortejo de nazismo, fascismo, totalitarismo e esclavagismo. E, por mais doloroso que possa ser para o nosso orgulho nacional, temos de reconhecer que a França, em contraposição, terá sido o único grande país europeu na articulação maior dos dois grandes flagelos do Ocidente da época contemporânea, «as inclinações criminosas da Europa democrática» o tráfico de escravos e a exterminação dos judeus, ao contrário da Grã-Bretanha que praticou exclusivamente o tráfico de escravos, sem de todo participar na exterminação dos judeus, ao contrário até da Alemanha que concebeu e realizou, ela, a solução final da questão judaica, mas sem participação significativa no tráfico de escravos. O dever da verdade não constitui, portanto, segundo uma análise chauvinista, uma patranha assimilável ‘às lágrimas do homem branco’, mas um acto de coragem moral de salubridade pública.

Errar é humano, mas repetir o erro é diabólico. Para o evitar, importa lembrar que a identidade francesa era vichista sob Pétain e a esmagadora maioria dos franceses identificava-se com ela, enquanto era ferozmente combatida pelos métèques da República.

A identidade francesa, a sua honra e grandeza vivem-se e reivindicam-se no «papel positivo» da colonização com o Doutor Albert Schweitzer de Lambaréné (Gabão), e nos 955.491 soldados coloniais do ultramar que combateram por França durante as duas guerras mundiais (1914-1918, 1939-1945), incluindo 113.000 «indígenas da República» mortos em campo de honra, regando duradouramente os sulcos de França com o seu «sangue impuro». 113.000 indígenas mortos por França, o que equivale à população combinada das cidades de Fréjus, Henin-Beaumont e Beaucaire, os três redutos da Frente Nacional, sem que nessa altura se falasse em «limite de tolerância», muito menos em teste de ADN ou de charters da vergonha, mas de sangue a derramar em abundância. A identidade francesa vive-se e reivindica-se no « privilégio da terra de França », que libertava qualquer escravo no momento em que pisava o solo francês, a França terra de asilo e não na França da « Vénus Hotentote » e dos « zoos humanos ». Na França de Valmy e da Ponte d’Arcole e não na da auto-destruiçao da frota francesa de Toulon ou da expedição punitiva ao Suez. Na « França Livre » e não na França de Sétif (Argélia) e de Thiaroye (Senegal).

Na França das convicções republicanas e não na dos traidores cosmopolitas que desvalorizam o compromisso político. No Prefeito Jean Moulin e não no Prefeito Maurice Papon, nos imigrantes do grupo Manouchian, esses párias do Cartaz Vermelho, e não na França vichista, cúmplice do nazismo, em Guy Môquet e não no seu delator, o ministro do interior da época, e nos seus capangas da polícia francesa, fornecedores dos seus carrascos alemães.

No general Jacques Pâris de la Bollardière, a consciência do exército francês durante a guerra da Argélia (1956-1962), e não no general Paul Aussarresses, o torturador dos maquis argelinos. No matemático Maurice Audin e no portador de malas Francis Jeanson, e não no portador de sacos de farinha mediático, Bernard Kouchner, o apoiante mercantilista dos ditadores africanos, o desagregador do Mundo Árabe, do sul do Sudão ao Curdistão, as novas plataformas operacionais de Israel nas duas extremidades do Mundo Árabe.

Na França do discurso de Phnon Penh (Charles de Gaulle) e de Cancun (François Mitterrand) e não na França do discurso de Dakar sobre o homem africano «ainda não suficientemente entrado na história» (Nicolas Sarkozy) e do discurso de Túnis sobre a divisão racial do trabalho entre franceses e árabes na bacia do Mediterrâneo: «Para nós a inteligência, para vocês a força de trabalho» (Nicolas Sarkozy ibidem).

Na França da bela língua revolucionária francesa de Voltaire, de Aimé Césaire, de Frantz Fanon, de Léopold Sédar Senghor e de Kateb Yacine, que carregam em si o brilho da França, e não naquela do «Casse toi pauv’con», aquele verlan argótico tão detestado pela classe política tão detestável pelos seus excessos de linguagem e comportamento.

Na França do Abbé Pierre e não na de Brice Hortefeux, aquela de «um típico de Auvergne está bem, mas quando há demasiados, olhem os estragos». Na França de Yannick Noah (Roland Garros 1982) e de Zinedine Zidane (Taça do Mundo 1998) e da «equipa de futebol negra, negra, negra, chacota da Europa» (Alain Finkielkraut), mas ainda assim orgulho da França, e não na França dos bairros «pure white, blancos» do Presidente socialista de Évry, Manuel Valls.
Neste contexto, a leitura pública da carta do jovem resistente comunista fuzilado Guy Môquet poderia ter tido valor pedagógico e terapêutico se este exercício tivesse sido acompanhado da denúncia dos seus carrascos, neste caso a polícia francesa, a polícia, ou seja, a base do poder securitário do actual primeiro-ministro francês. Tal denúncia teria sido vista como um acto de coragem e responsabilidade e não como aconteceu, como uma operação de falsificação da história, um exercício de aproveitamento demagógico, um acto de desvio memorial.

A noção de identidade nacional surge, nesta perspetiva, como uma noção relativa. Para a sua perenidade, a identidade nacional deve basear-se em valores universais, imutáveis e não sujeitos a variações consoante considerações eleitoralistas.

Aliás, o debate ganharia em clareza se a confusão não fosse mantida ao mais alto nível do Estado com a nomeação de um reservista do exército israelita, Arno Klarsfeld, para o cargo de conselheiro em plena guerra de destruição israelita do Líbano (Julho de 2006), ou a de um dirigente do American Jewish Committee, Valérie Hoffenberg, encarregue de acompanhar, em nome de França, as negociações israelo-palestinianas… tudo isto enquanto proclamava bem alto a proibição de importar para França o conflito israelo-palestiniano. Um presidente que fantasia sobre «as ovelhas que se degolam nas banheiras» e que, no entanto, procura regularmente a hospitalidade das banheiras dos palácios reais árabes, de Doha a Rabat, tomando a iniciativa de estigmatizar uma componente da população por motivos ocultos e mesquinhos de caráter eleitoral.

Neste sentido, "as ovelhas que são abatidas nas banheiras" (Nicolas Sarkozy), assim como os "ruídos e cheiros das famílias imigrantes" que são geneticamente prolíficas (Jacques Chirac), permanecerão uma mancha indelével no discurso político francês e desonrarão os seus autores. Se não tivermos cuidado, abririam caminho a excessos fascistas no comportamento político francês.

Enganemo-nos, com todo o respeito mais uma vez pelos escritores do salonnard (sacana – NdT), o povo de pele escura de França está lá e verdadeiramente presente, duradouramente ancorado no panorama político e social francês, aqueles cujo "papel positivo" nunca foi solenemente celebrado, excepto de forma incidental, quando não foi simplesmente negado ou controverso.

Em França, não o país anfitrião, mas o país de eleição. Determinados a defender a elevada ideia que têm de França e que a França quer entregar-se ao mundo, determinados a defender a grandeza de França e não a sua megalomania, a sua grandeza e não o seu nanismo político.

Combater todos aqueles que enfraquecem a economia com uma gestão arriscada, todos aqueles que desacreditam a política através de conluio escandaloso. Todos aqueles que poluem a imagem de França, com empregos fictícios e responsabilidades fictícias, com "desaparecimento de receitas", com comissões retroactivas e despesas de representação, com delitos de insider e abuso de bens sociais. Esses senhores das fragatas de Taiwan, da Clearstream e do Angolagate. Do Crédit Lyonnais e da Compagnie Générale des Eaux. Da Elf Aquitaine e da EADS, da Executive Life e da Pechiney American-Can. Dos mercados da Ile de France e dos HLM de Paris, da MNEF e da Urba-Gracco. Dos escândalos de Dominique Strauss-Khan e Jérôme Cahuzac, até ao caso Bettencourt e ao financiamento líbio das campanhas presidenciais.

Aqueles que desvalorizam a sua justiça com casos de Outreau (O nome refere-se ao famoso "caso Outreau", um grave escândalo de abuso infantil e um dos maiores erros judiciais da história da justiça francesa – NdT), ocorrido no final dos anos 90 e início dos anos 2000, escutas telefónicas ilegais, triagem selectiva e os “charters da vergonha”. Que desvalorizam os seus nacionais com insultos raciais, ataques a imigrantes, delinquência e o Kärcher.

Contra a “França de baixo” que governa o país, a França das manobras baixas e dos cálculos mesquinhos, das “zonas sem lei e dos privilégios”, das nomeações por conveniência e dos apartamentos oficiais. A França que se recusa a dar um empurrão ao salário mínimo, mas que exacerba o antagonismo social ao reforçar a riqueza dos mais afortunados, dando-lhes um “escudo fiscal” em plena crise bancária. A França que “cristaliza” e reduz ao mínimo as pensões dos antigos combatentes “morenos” do exército francês, mas que aumenta em 70 por cento o salário dos ministros endinheirados.

A França, que enche de « stock options e de paraquedas dourados » os gestores em falência, como os da Vinci e Carrefour, que recicla a fraude em respeitabilidade, promovendo ao Conselho de Estado, o templo da virtude republicana, como recompensa por serviços prestados na distracção da justiça, tal ministro da justiça, que passou para a história como o mais famoso interceptor de helicópteros das crónicas judiciais internacionais (Jacques Toubon), promovido agora à função de Mediador da República. 

Em poucas palavras, contra esta postura de desprezo e irresponsabilidade, a peculiar teoria do « bode expiatório à francesa » que isenta o responsável de qualquer responsabilidade através de uma espécie de privilégio anti-democrático, tirando a sua justificação de uma ideologia proto-fascista inerente a uma parte da cultura francesa.

Contra a criminalização da política, este estado de coisas sintomático da França contemporânea, como testemunha « O registo criminal da República », com um balanço revelador onde se contam, apenas na década de 1990, novecentos (900) eleitos acusados, seja por delinquência financeira, seja por crimes contra bens e pessoas, incluindo crimes sexuais, enquanto a «tolerância zero» em relação à criminalidade de colarinho branco deveria, no entanto, ser um imperativo categórico da ordem republicana, em virtude do princípio da exemplaridade do Estado.

Nunca um país pareceu mais preocupado em enaltecer o seu passado. Todas as variações do calendário desfilam em comemoração: Bi-milenário do baptismo de Clóvis (1996), que marca a união da França à Cristandade, 1500.º aniversário da proclamação do Édito de Nantes (1598), que pôs fim à guerra religiosa entre Católicos e Protestantes, Bi-centenário da Revolução Francesa (1989), centésimo quinquagésimo aniversário da abolição da escravatura (Maio de 1998), Centenário do manifesto acusador de Émile Zola contra a segregação politico-religiosa («J’accuse», Janeiro de 1998), sexagésimo aniversário da libertação da França, quinquagésimo aniversário da V República, e finalmente o quadragésimo aniversário da revolta estudantil de Maio de 1968… como se a França quisesse compensar o seu recuo tímido sobre si mesma, buscando na sua glória passada a esperança do seu futuro.

Não vejam aqui nenhuma interferência partidária ou eleitoral, mas qualquer pessoa preocupada com o estatuto da França — seja francês de origem ou francês de escolha — deve entregar-se a tal introspecção, uma medida de salubridade pública, tanto é verdade que a história de hoje é a memória de amanhã e que é importante ser firme na denúncia das derivações contemporâneas para evitar dolorosas reminiscências da memória futura.

 

René Naba

Jornalista-escritor, antigo chefe do Mundo Árabe e Muçulmano ao serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral do RMC Médio Oriente, chefe de informação, membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos Humanos e da Associação Euro-Árabe de Amizade. De 1969 a 1979, foi correspondente rotativo no gabinete regional da Agence France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu a guerra civil jordano-palestiniana, o "Setembro Negro" de 1970, a nacionalização de instalações petrolíferas no Iraque e na Líbia (1972), uma dúzia de golpes de Estado e sequestros de aviões, bem como a Guerra do Líbano (1975-1990) a 3.ª guerra árabe-israelita de Outubro de 1973, as primeiras negociações de paz egípcio-israelitas em Mena House, Cairo (1979). De 1979 a 1989, esteve à frente do mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral do RMC Médio Oriente, responsável pela informação, de 1989 a 1995. Autor de "Arábia Saudita, um reino das trevas" (Golias), "De Bougnoule a selvagem, uma viagem pela imaginação francesa" (Harmattan), "Hariri, de pai a filho, empresários, primeiros-ministros" (Harmattan), "As revoluções árabes e a maldição de Camp David" (Bachari), "Media e Democracia, a captura do imaginário um desafio do século XXI" (Golias). Desde 2013, é membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo para os Direitos Humanos (SIHR), sediado em Genebra. É também Vice-Presidente do Centro Internacional Contra o Terrorismo (ICALT), Genebra; Presidente da instituição de caridade LINA, que opera nos bairros do norte de Marselha, e Presidente Honorário do 'Car tu y es libre' (Bairro Livre), que trabalha para a promoção social e política das áreas periurbanas no departamento das Bocas do Ródano, no sul de França. Desde 2014, é consultor no Instituto Internacional para a Paz, Justiça e Direitos Humanos (IIPJDH), sediado em Genebra. Desde 1 de Setembro de 2014, é responsável pela coordenação editorial do site https://www.madaniya.info  e apresenta uma coluna semanal na Rádio Galère (Marselha), às quintas-feiras das 16h às 18h.

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Fonte: La controverse de Poitiers 2/2 - Madaniya

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice





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