Les Bleus, uma equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga quanto o futebol
História
Desporto
A equipa francesa é regularmente destacada por alguns observadores que acreditam que, devido ao número de jogadores de origem africana que a compõem, não é "francesa o suficiente". Uma controvérsia que não é novidade, pois a selecção nacional tem sido, desde o início, alvo de ataques racistas.
Publicado : 21/06/2026
Por:
Em 2022, após a final perdida contra a Argentina, os Bleus (Azuis – côr da selecção de futebol francesa – NdT) foram alvo de gozo pela presença de muitos jogadores de origem estrangeira no seu plantel. "A minha equipa africana perdeu", tuitou o Presidente queniano, William Samoei Ruto, após a derrota, anexando uma montagem fotográfica dos 15 jogadores "africanos" da equipa francesa, especificando o país de origem de cada um deles.
Mais recentemente, poucos dias antes do início do Mundial de 2026, Éric
Zemmour, presidente do partido de extrema-direita Reconquête (Reconquista –
NdT), disse numa
entrevista à Sud Radio que a selecção "não representa
realmente toda a França", mas acima de tudo "os subúrbios e a
imigração árabe-muçulmana". "Acho que os franceses estão
envergonhados com a imagem que esta equipa francesa transmite. A imprensa
estrangeira goza regularmente connosco dizendo que é uma equipa africana",
acrescentou.
Estas críticas racistas aos Les Bleus não são novas. No seu mais recente
livro "Bleus,
histoire de l'équipe de France de football depuis 1904" (Éditions du
Détour), o historiador François
da Rocha Carneiro mostra que as declarações feitas por Éric
Zemmour tiveram muitos precedentes.
Cosmopolitismo inicial
Quando foi criada no início do século XX, a equipa francesa era composta principalmente por futebolistas de "uma elite parisiense de classes bastante privilegiadas", segundo este especialista da selecção francesa que dedicou a sua tese à sua história. Mas na década de 1920, "o seu recrutamento era muito mais amplo geograficamente em toda a França, bem como nos departamentos argelinos". "Notamos a presença dos Pieds-Noirs antes de os árabes da Argélia ou do Norte de África serem por sua vez seleccionados na década de 1930", descreve François da Rocha Carneiro.
![]() |
| A equipa francesa disputou o primeiro jogo da sua história a 1 de Maio de 1904 em Uccle, contra a Bélgica, perante 1.500 espectadores. Resultado final 3-3. © Federação Francesa de Futebol |
A ler: Estes Blues que morreram pela França durante a Grande Guerra
Para este doutor em história, investigador associado na CREHS (Universidade de Artois), este "recrutamento imperial" não representa um problema imediato. "Há apenas algumas pequenas farpas sobre os 'jogadores negros', como diziam na altura, e dois em particular: Raoul Diagne, filho de Blaise Diagne, e o marroquino Larbi Ben Barek. Mas são duas personagens muito diferentes, uma é filho de um deputado, enquanto a outra nunca será cidadã francesa", afirmou.
Com a profissionalização do futebol no início dos anos 1930, os clubes
franceses são aurorizados a deixar jogar três futebolistas estrangeiros. Este
recrutamento está orientado para a América Latina e
Europa Central. Estes atletas vêm para França por razões económicas ou
políticas, enquanto as tensões aumentam no velho continente. Após alguns anos
no campeonato francês, alguns deles obtiveram a nacionalidade francesa e
puderam usar a camisola azul.
Este "cosmopolitismo" da selecção não agradou aos jornais de
extrema-direita, e em particular à Action française, que denunciava a presença
de Gusti Jordan, nascido na Áustria, ou de
Désiré Korany, Jules Mathé e Edmond Weiskopf, originalmente da Hungria. Ela
acusa-os de serem "estranhos à raça francesa".
A ler: Futebol: devemos o Mundial a... um francês!
"A era dos ritais (italianos – NdT) e polaks (polacos – NdT)"
Na década de 1950, a equipa francesa viu a aparição de filhos de imigrantes
polacos e italianos. "Foi a era dos ritais e polaks", resume François
da Rocha Carneiro. A lendária equipa de 1958, que conseguiu chegar às
meias-finais de um Mundial na Suécia pela
primeira vez, incluía Raymond Kopa, Maryan
Wisniewski, Roger Piantoni e Bernard Chiarelli. "No entanto, estes
intervenientes não são directamente alvo de ataques, mas sim caricaturas ao
destacar os seus nomes estrangeiros", observa o historiador.
Durante a década de 1970, os comentários racistas pretendiam ser "positivos". Originário da Guadalupe e Senegal, Marius Trésor e Jean-Pierre Adams formam a espinha dorsal dos Les Bleus e são apelidados de "a guarda negra". "Reconhecemos as suas qualidades, mas referem-se a particularidades relacionadas com a cor da pele e origem geográfica. Os negros correm rápido como leões ou tigres. Está a ser construída toda uma mitologia, mesmo que não tenha intenção de ser ofensiva", diz o autor de "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904".
Nos anos 90, a extrema-direita voltou a atacar Les Bleus. Durante o Euro 1996, o líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, apontou para a composição da equipa e listou os nomes daqueles que não considerava suficientemente franceses: "Desailly nasceu no Gana, Martins tem dupla nacionalidade portuguesa, tendo optado pela nacionalidade francesa para poder fazer parte desta equipa, Lamouchi é tunisino nascido em França, Loko congolês nascido em França, Zidane argelino nascido em França, Madar tunisino nascido em França, Djorkaeff arménio nascido em França."
Para François da Rocha Carneiro, ele só "aproveita os leitmotivs da
imprensa de extrema-direita para os aplicar à selecção, mas isso não quer dizer
que a França os aceite". Como prova, depois da vitória histórica no
Mundial de 1998, os franceses elogiam a diversidade e a imagem de uma
equipa "Preta, Branca, Beur (magrebina – NdT)".
A ler: Futebol:
Zinedine Zidane, futuro treinador dos Les Bleus?
De "França Negra, Branca, Beur" a "caïds" (“rufias” –
NdT)
Mas quando os fracassos se sucedem, a retórica racista não demora a
regressar. "Com o jogo interrompido entre França e Argélia em 2001, a
eliminação do Mundial em 2002, a bola de Zidane em 2006, o caso
Zahia e a greve
de Knysna em 2010, toda esta sequência será lida apenas através
do prisma da raça", diz o historiador. "Argumentos racistas e
islamofóbicos são usados para denunciar falhas que são, na verdade,
essencialmente desportivas e, por vezes, humanas."
O clímax foi alcançado no Mundial de 2010, realizado na África do Sul.
Quando os jogadores decidiram não treinar em apoio a Nicolas Anelka, que
foi excluído da equipa por ter tido uma altercação com o treinador Raymond Domenech,
foram acusados de "serem miúdos dos subúrbios, escória ou chefes".
"Estamos a visar particularmente jogadores muçulmanos, como Franck Ribéry, ou
jogadores negros como o capitão Patrice Evra", diz François da Rocha
Carneiro.
A ler: Quem
traiu a equipa francesa? "Le Bus" revela o lado oculto do fiasco de
2010
Alguns anos mais tarde, os avançados estrela Karim Benzema e Olivier Giroud, muitas vezes rivais durante a sua carreira, também não são tratados da mesma forma. Em Janeiro de 2024, o advogado do antigo craque do Real Madrid apresenta queixa contra o ministro do Interior Gérald Darmanin, que o acusou de ter ligações conhecidas com a Irmandade Muçulmana.
Diz-se que ele faria
uma espécie de proselitismo. O que é que dizem a Olivier Giroud, que diz que
reza antes de cada jogo? A mim, isso não me choca. Mas ele é cristão e isso não
é um problema. Quando é o Benzema que diz que é crente, é preciso acreditar que
é o islão a religião que causa problema", denuncia Me Hugues Viguier.
No seio da equipa actual de França, essa estigmatização ainda é sentida. Numa vídeo publicado na véspera do primeiro jogo dos Bleus contra o Senegal pela Federação Francesa de Futebol, Rayan Cherki, que também tem nacionalidade italiana pelo pai e nacionalidade argelina pela mãe, denunciou este racismo: "Não sei porquê algumas pessoas não gostam de mim. Consigo perceber que tenho um perfil que incomoda... talvez por ter uma barba demasiado grande, talvez por ser um pouco demasiado moreno."
"O que torna a França forte hoje"
A questão dos binacionais também surge regularmente. Os jogadores em
questão têm de "provar ainda mais", como se não fossem totalmente
franceses. "Quando também são originários de Portugal ou de Itália,
não se lhes faz nenhuma crítica; mas quando são do Senegal, da Costa do
Marfim ou da Argélia, aí sim. É realmente paradoxal", nota François da
Rocha Carneiro.
A ler: Taça do Mundo-2026: Michael Olise, diamante misterioso
Para o historiador, a equipa tricolor não é afinal mais do que o reflexo "da globalização" e da nossa história: "Quase todos os jogadores que hoje estão na selecção francesa vêm de antigas colónias francesas. Temos essa tradição de imigração. Nem sequer está no ADN dos Bleus, mas sim no ADN da França."
Rayan Cherki concorda com a mesma ideia. O médio de 23
anos, que está na sua primeira Taça do Mundo, defende valorizar a riqueza deste
grupo: "É uma equipa de França magnífica, com muita diversidade, com
muitas histórias diferentes. E é isso que faz a força da França hoje."
Fonte: Les
Bleus, une équipe de France "pas si française", une polémique vieille
comme le foot - France 24
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
Les Bleus, uma equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga quanto o futebol
História
Desporto
A equipa francesa é regularmente destacada por alguns observadores que acreditam que, devido ao número de jogadores de origem africana que a compõem, não é "francesa o suficiente". Uma controvérsia que não é novidade, pois a selecção nacional tem sido, desde o início, alvo de ataques racistas.
Publicado : 21/06/2026
Por:
Jogadores franceses
posam para uma fotografia da equipa antes do jogo internacional amigável de
futebol entre França e Irlanda do Norte, no Estádio Pierre-Mauroy em
Villeneuve-d'Ascq, norte de França, a 8 de Junho de 2026, antes do Mundial FIFA
2026. AFP - SAMEER AL-DOUMY
Em 2022, após a
final perdida contra a Argentina, os Bleus (Azuis – côr da
selecção de futebol francesa – NdT) foram alvo de gozo pela
presença de muitos jogadores de origem estrangeira no seu plantel. "A
minha equipa africana perdeu", tuitou o Presidente queniano, William
Samoei Ruto, após a derrota, anexando uma montagem fotográfica dos 15 jogadores
"africanos" da equipa francesa, especificando o país de origem de
cada um deles.
Mais recentemente, poucos dias antes do início do Mundial de 2026, Éric
Zemmour, presidente do partido de extrema-direita Reconquête (Reconquista –
NdT), disse numa
entrevista à Sud Radio que a selecção "não representa
realmente toda a França", mas acima de tudo "os subúrbios e a
imigração árabe-muçulmana". "Acho que os franceses estão
envergonhados com a imagem que esta equipa francesa transmite. A imprensa
estrangeira goza regularmente connosco dizendo que é uma equipa africana",
acrescentou.
Estas críticas racistas aos Les Bleus não são novas. No seu mais recente
livro "Bleus,
histoire de l'équipe de France de football depuis 1904" (Éditions du
Détour), o historiador François
da Rocha Carneiro mostra que as declarações feitas por Éric
Zemmour tiveram muitos precedentes.
Cosmopolitismo inicial
Quando foi criada no início do século XX, a equipa francesa era composta
principalmente por futebolistas de "uma elite parisiense de classes
bastante privilegiadas", segundo este especialista da selecção francesa
que dedicou a sua tese à sua história. Mas na década de 1920, "o seu
recrutamento era muito mais amplo geograficamente em toda a França, bem como
nos departamentos argelinos". "Notamos a presença dos Pieds-Noirs
antes de os árabes da Argélia ou do Norte de África serem por sua vez seleccionados
na década de 1930", descreve François da Rocha Carneiro.
A equipa francesa
disputou o primeiro jogo da sua história a 1 de Maio de 1904 em Uccle, contra a
Bélgica, perante 1.500 espectadores. Resultado final 3-3. © Federação Francesa
de Futebol
A ler: Estes
Blues que morreram pela França durante a Grande Guerra
Para este doutor em história, investigador
associado na CREHS (Universidade de Artois), este
"recrutamento imperial" não representa um problema imediato. "Há
apenas algumas pequenas farpas sobre os 'jogadores negros', como diziam na
altura, e dois em particular: Raoul Diagne, filho de Blaise Diagne, e o
marroquino Larbi Ben Barek. Mas são duas personagens muito diferentes, uma é
filho de um deputado, enquanto a outra nunca será cidadã francesa",
afirmou.
Com a profissionalização do futebol no início dos anos 1930, os clubes
franceses são aurorizados a deixar jogar três futebolistas estrangeiros. Este
recrutamento está orientado para a América Latina e
Europa Central. Estes atletas vêm para França por razões económicas ou
políticas, enquanto as tensões aumentam no velho continente. Após alguns anos
no campeonato francês, alguns deles obtiveram a nacionalidade francesa e
puderam usar a camisola azul.
Este "cosmopolitismo" da selecção não agradou aos jornais de
extrema-direita, e em particular à Action française, que denunciava a presença
de Gusti Jordan, nascido na Áustria, ou de
Désiré Korany, Jules Mathé e Edmond Weiskopf, originalmente da Hungria. Ela
acusa-os de serem "estranhos à raça francesa".
A equipa francesa de
futebol durante um jogo amigável contra a Hungria a 13 de Março de 1939. De pé:
Julien Darui, François Bourbotte, Gusti Jordan, Etienne Mattler e Raoul Diagne.
Agachados: Roger Courtois, Larbi Ben Barek, Alfred Aston, Oscar Heisserere,
Emond Weiskopf. © Imprensa desportiva
A ler: Futebol:
devemos o Mundial a... um francês!
"A era dos ritais (italianos – NdT) e polaks (polacos – NdT)"
Na década de 1950, a equipa francesa viu a aparição de filhos de imigrantes
polacos e italianos. "Foi a era dos ritais e polaks", resume François
da Rocha Carneiro. A lendária equipa de 1958, que conseguiu chegar às
meias-finais de um Mundial na Suécia pela
primeira vez, incluía Raymond Kopa, Maryan
Wisniewski, Roger Piantoni e Bernard Chiarelli. "No entanto, estes
intervenientes não são directamente alvo de ataques, mas sim caricaturas ao
destacar os seus nomes estrangeiros", observa o historiador.
O avançado francês
Maryan Wisnieski (centro, direita) é felicitado pelo colega Roger Piantoni após
marcar o primeiro golo da sua equipa, enquanto o avançado Jean Vincent (à
esquerda) assistia a 19 de Junho de 1958 em Norrköpping, durante os
quartos-de-final do Mundial entre França e Irlanda do Norte. A França
qualificou-se para as meias-finais graças a uma vitória por 4-0 sobre a Irlanda
do Norte. AFP - EQUIPA
Durante a década de 1970, os comentários racistas pretendiam ser
"positivos". Originário da Guadalupe e Senegal, Marius
Trésor e Jean-Pierre Adams formam a espinha dorsal dos Les Bleus e são
apelidados de "a guarda negra". "Reconhecemos as suas
qualidades, mas referem-se a particularidades relacionadas com a cor da pele e
origem geográfica. Os negros correm rápido como leões ou tigres. Está a ser
construída toda uma mitologia, mesmo que não tenha intenção de ser
ofensiva", diz o autor de "Bleus, histoire de l'équipe de France de
football depuis 1904".
Fotografia tirada a 11
de Outubro de 1974, mostrando os jogadores da selecção francesa de futebol,
Marius Trésor (à direita) e Jean-Pierre Adams, a saírem de Paris de comboio
para Bruxelas para enfrentar a equipa belga como parte das qualificações para o
Campeonato Europeu. AFP - -
Nos anos 90, a extrema-direita voltou a atacar Les Bleus. Durante o Euro
1996, o líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen,
apontou para a composição da equipa e listou os nomes daqueles que não
considerava suficientemente franceses: "Desailly nasceu no Gana, Martins tem
dupla nacionalidade portuguesa, tendo optado pela nacionalidade francesa para
poder fazer parte desta equipa, Lamouchi é
tunisino nascido em França, Loko congolês nascido em França, Zidane argelino
nascido em França, Madar tunisino nascido em França, Djorkaeff arménio nascido
em França."
Para François da Rocha Carneiro, ele só "aproveita os leitmotivs da
imprensa de extrema-direita para os aplicar à selecção, mas isso não quer dizer
que a França os aceite". Como prova, depois da vitória histórica no
Mundial de 1998, os franceses elogiam a diversidade e a imagem de uma
equipa "Preta, Branca, Beur (magrebina – NdT)".
A ler: Futebol:
Zinedine Zidane, futuro treinador dos Les Bleus?
Os jogadores da selecção
francesa celebram a vitória frente ao Brasil após a final do Mundial, a 12 de Julho
de 1998, no Stade de France em Saint-Denis, a norte de Paris. Da esquerda para
a direita: Thierry Henry, Laurent Blanc, o capitão Didier Deschamps a segurar o
troféu, Bernard Diomède, Marcel Desailly e Alain Boghossian. AP - Michel
Lipchitz
De "França Negra, Branca, Beur" a "caïds" (“rufias” –
NdT)
Mas quando os fracassos se sucedem, a retórica racista não demora a
regressar. "Com o jogo interrompido entre França e Argélia em 2001, a
eliminação do Mundial em 2002, a bola de Zidane em 2006, o caso
Zahia e a greve
de Knysna em 2010, toda esta sequência será lida apenas através
do prisma da raça", diz o historiador. "Argumentos racistas e
islamofóbicos são usados para denunciar falhas que são, na verdade,
essencialmente desportivas e, por vezes, humanas."
O clímax foi alcançado no Mundial de 2010, realizado na África do Sul.
Quando os jogadores decidiram não treinar em apoio a Nicolas Anelka, que
foi excluído da equipa por ter tido uma altercação com o treinador Raymond Domenech,
foram acusados de "serem miúdos dos subúrbios, escória ou chefes".
"Estamos a visar particularmente jogadores muçulmanos, como Franck Ribéry, ou
jogadores negros como o capitão Patrice Evra", diz François da Rocha
Carneiro.
A ler: Quem
traiu a equipa francesa? "Le Bus" revela o lado oculto do fiasco de
2010
O capitão francês
Patrice Evra (2.º a partir da direita) aquece com o colega de equipa Franck
Ribéry (3.º da esquerda) durante uma sessão de treino no Campo dos Sonhos em
Knysna, a 21 de Junho de 2010, durante o Mundial de 2010 na África do Sul. AFP
- PATRICK HERTZOG
Alguns anos mais tarde, os avançados estrela Karim Benzema e Olivier
Giroud, muitas vezes rivais durante a sua carreira, também não são tratados
da mesma forma. Em Janeiro de 2024, o advogado do antigo craque do Real
Madrid apresenta queixa contra o ministro do Interior Gérald Darmanin, que
o acusou de ter ligações conhecidas com a Irmandade Muçulmana.
Diz-se que ele faria
uma espécie de proselitismo. O que é que dizem a Olivier Giroud, que diz que
reza antes de cada jogo? A mim, isso não me choca. Mas ele é cristão e isso não
é um problema. Quando é o Benzema que diz que é crente, é preciso acreditar que
é o islão a religião que causa problema", denuncia Me Hugues Viguier.
O avançado francês Olivier Giroud (à esquerda) sai do campo ao lado do
avançado francês Karim Benzema durante o jogo amigável de futebol do Euro 2016
França contra Sérvia no estádio Matmut Atlantique em Bordéus, a 7 de Setembro
de 2015. AFP - FRANCK FIFE
No seio da equipa actual de França, essa estigmatização ainda é sentida.
Numa vídeo publicado na véspera do primeiro jogo dos Bleus contra o Senegal
pela Federação Francesa de Futebol, Rayan Cherki, que também tem nacionalidade
italiana pelo pai e nacionalidade argelina pela mãe, denunciou este racismo:
"Não sei porquê algumas pessoas não gostam de mim. Consigo perceber que
tenho um perfil que incomoda... talvez por ter uma barba demasiado grande,
talvez por ser um pouco demasiado moreno."
"O que torna a França forte hoje"
A questão dos binacionais também surge regularmente. Os jogadores em
questão têm de "provar ainda mais", como se não fossem totalmente
franceses. "Quando também são originários de Portugal ou de Itália,
não se lhes faz nenhuma crítica; mas quando são do Senegal, da Costa do
Marfim ou da Argélia, aí sim. É realmente paradoxal", nota François da
Rocha Carneiro.
A ler: Taça do
Mundo-2026: Michael Olise, diamante misterioso
Michael Olise em acção
durante o jogo do Grupo I de futebol do Mundial entre França e Senegal em East
Rutherford, Nova Jérsia, perto de Nova Iorque, a 16 de Junho de 2026. Foto
AP/Steve Luciano - Steve Luciano
Para o historiador, a equipa tricolor não é afinal
mais do que o reflexo "da globalização" e da nossa história:
"Quase todos os jogadores que hoje estão na selecção francesa vêm de
antigas colónias francesas. Temos essa tradição de imigração. Nem sequer está
no ADN dos Bleus, mas sim no ADN da França."
Rayan Cherki concorda com a mesma ideia. O médio de 23
anos, que está na sua primeira Taça do Mundo, defende valorizar a riqueza deste
grupo: "É uma equipa de França magnífica, com muita diversidade, com
muitas histórias diferentes. E é isso que faz a força da França hoje."
Fonte: Les
Bleus, une équipe de France "pas si française", une polémique vieille
comme le foot - France 24
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
Les Bleus, uma
equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga
quanto o futebol
História
Desporto
A equipa francesa é
regularmente destacada por alguns observadores que acreditam que, devido ao
número de jogadores de origem africana que a compõem, não é "francesa o
suficiente". Uma controvérsia que não é novidade, pois a selecção nacional
tem sido, desde o início, alvo de ataques racistas.
Publicado : 21/06/2026
Por:
Jogadores franceses
posam para uma fotografia da equipa antes do jogo internacional amigável de
futebol entre França e Irlanda do Norte, no Estádio Pierre-Mauroy em
Villeneuve-d'Ascq, norte de França, a 8 de Junho de 2026, antes do Mundial FIFA
2026. AFP - SAMEER AL-DOUMY
Em 2022, após a
final perdida contra a Argentina, os Bleus (Azuis – côr da
selecção de futebol francesa – NdT) foram alvo de gozo pela
presença de muitos jogadores de origem estrangeira no seu plantel. "A
minha equipa africana perdeu", tuitou o Presidente queniano, William
Samoei Ruto, após a derrota, anexando uma montagem fotográfica dos 15 jogadores
"africanos" da equipa francesa, especificando o país de origem de
cada um deles.
Mais recentemente, poucos dias antes do início do Mundial de 2026, Éric
Zemmour, presidente do partido de extrema-direita Reconquête (Reconquista –
NdT), disse numa
entrevista à Sud Radio que a selecção "não representa
realmente toda a França", mas acima de tudo "os subúrbios e a
imigração árabe-muçulmana". "Acho que os franceses estão
envergonhados com a imagem que esta equipa francesa transmite. A imprensa
estrangeira goza regularmente connosco dizendo que é uma equipa africana",
acrescentou.
Estas críticas racistas aos Les Bleus não são novas. No seu mais recente
livro "Bleus,
histoire de l'équipe de France de football depuis 1904" (Éditions du
Détour), o historiador François
da Rocha Carneiro mostra que as declarações feitas por Éric
Zemmour tiveram muitos precedentes.
Cosmopolitismo inicial
Quando foi criada no início do século XX, a equipa francesa era composta
principalmente por futebolistas de "uma elite parisiense de classes
bastante privilegiadas", segundo este especialista da selecção francesa
que dedicou a sua tese à sua história. Mas na década de 1920, "o seu
recrutamento era muito mais amplo geograficamente em toda a França, bem como
nos departamentos argelinos". "Notamos a presença dos Pieds-Noirs
antes de os árabes da Argélia ou do Norte de África serem por sua vez seleccionados
na década de 1930", descreve François da Rocha Carneiro.
A equipa francesa
disputou o primeiro jogo da sua história a 1 de Maio de 1904 em Uccle, contra a
Bélgica, perante 1.500 espectadores. Resultado final 3-3. © Federação Francesa
de Futebol
A ler: Estes
Blues que morreram pela França durante a Grande Guerra
Para este doutor em história, investigador
associado na CREHS (Universidade de Artois), este
"recrutamento imperial" não representa um problema imediato. "Há
apenas algumas pequenas farpas sobre os 'jogadores negros', como diziam na
altura, e dois em particular: Raoul Diagne, filho de Blaise Diagne, e o
marroquino Larbi Ben Barek. Mas são duas personagens muito diferentes, uma é
filho de um deputado, enquanto a outra nunca será cidadã francesa",
afirmou.
Com a profissionalização do futebol no início dos anos 1930, os clubes
franceses são aurorizados a deixar jogar três futebolistas estrangeiros. Este
recrutamento está orientado para a América Latina e
Europa Central. Estes atletas vêm para França por razões económicas ou
políticas, enquanto as tensões aumentam no velho continente. Após alguns anos
no campeonato francês, alguns deles obtiveram a nacionalidade francesa e
puderam usar a camisola azul.
Este "cosmopolitismo" da selecção não agradou aos jornais de
extrema-direita, e em particular à Action française, que denunciava a presença
de Gusti Jordan, nascido na Áustria, ou de
Désiré Korany, Jules Mathé e Edmond Weiskopf, originalmente da Hungria. Ela
acusa-os de serem "estranhos à raça francesa".
A equipa francesa de
futebol durante um jogo amigável contra a Hungria a 13 de Março de 1939. De pé:
Julien Darui, François Bourbotte, Gusti Jordan, Etienne Mattler e Raoul Diagne.
Agachados: Roger Courtois, Larbi Ben Barek, Alfred Aston, Oscar Heisserere,
Emond Weiskopf. © Imprensa desportiva
A ler: Futebol:
devemos o Mundial a... um francês!
"A era dos ritais (italianos – NdT) e polaks (polacos – NdT)"
Na década de 1950, a equipa francesa viu a aparição de filhos de imigrantes
polacos e italianos. "Foi a era dos ritais e polaks", resume François
da Rocha Carneiro. A lendária equipa de 1958, que conseguiu chegar às
meias-finais de um Mundial na Suécia pela
primeira vez, incluía Raymond Kopa, Maryan
Wisniewski, Roger Piantoni e Bernard Chiarelli. "No entanto, estes
intervenientes não são directamente alvo de ataques, mas sim caricaturas ao
destacar os seus nomes estrangeiros", observa o historiador.
O avançado francês
Maryan Wisnieski (centro, direita) é felicitado pelo colega Roger Piantoni após
marcar o primeiro golo da sua equipa, enquanto o avançado Jean Vincent (à
esquerda) assistia a 19 de Junho de 1958 em Norrköpping, durante os
quartos-de-final do Mundial entre França e Irlanda do Norte. A França
qualificou-se para as meias-finais graças a uma vitória por 4-0 sobre a Irlanda
do Norte. AFP - EQUIPA
Durante a década de 1970, os comentários racistas pretendiam ser
"positivos". Originário da Guadalupe e Senegal, Marius
Trésor e Jean-Pierre Adams formam a espinha dorsal dos Les Bleus e são
apelidados de "a guarda negra". "Reconhecemos as suas
qualidades, mas referem-se a particularidades relacionadas com a cor da pele e
origem geográfica. Os negros correm rápido como leões ou tigres. Está a ser
construída toda uma mitologia, mesmo que não tenha intenção de ser
ofensiva", diz o autor de "Bleus, histoire de l'équipe de France de
football depuis 1904".
Fotografia tirada a 11
de Outubro de 1974, mostrando os jogadores da selecção francesa de futebol,
Marius Trésor (à direita) e Jean-Pierre Adams, a saírem de Paris de comboio
para Bruxelas para enfrentar a equipa belga como parte das qualificações para o
Campeonato Europeu. AFP - -
Nos anos 90, a extrema-direita voltou a atacar Les Bleus. Durante o Euro
1996, o líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen,
apontou para a composição da equipa e listou os nomes daqueles que não
considerava suficientemente franceses: "Desailly nasceu no Gana, Martins tem
dupla nacionalidade portuguesa, tendo optado pela nacionalidade francesa para
poder fazer parte desta equipa, Lamouchi é
tunisino nascido em França, Loko congolês nascido em França, Zidane argelino
nascido em França, Madar tunisino nascido em França, Djorkaeff arménio nascido
em França."
Para François da Rocha Carneiro, ele só "aproveita os leitmotivs da
imprensa de extrema-direita para os aplicar à selecção, mas isso não quer dizer
que a França os aceite". Como prova, depois da vitória histórica no
Mundial de 1998, os franceses elogiam a diversidade e a imagem de uma
equipa "Preta, Branca, Beur (magrebina – NdT)".
A ler: Futebol:
Zinedine Zidane, futuro treinador dos Les Bleus?
Os jogadores da selecção
francesa celebram a vitória frente ao Brasil após a final do Mundial, a 12 de Julho
de 1998, no Stade de France em Saint-Denis, a norte de Paris. Da esquerda para
a direita: Thierry Henry, Laurent Blanc, o capitão Didier Deschamps a segurar o
troféu, Bernard Diomède, Marcel Desailly e Alain Boghossian. AP - Michel
Lipchitz
De "França Negra, Branca, Beur" a "caïds" (“rufias” –
NdT)
Mas quando os fracassos se sucedem, a retórica racista não demora a
regressar. "Com o jogo interrompido entre França e Argélia em 2001, a
eliminação do Mundial em 2002, a bola de Zidane em 2006, o caso
Zahia e a greve
de Knysna em 2010, toda esta sequência será lida apenas através
do prisma da raça", diz o historiador. "Argumentos racistas e
islamofóbicos são usados para denunciar falhas que são, na verdade,
essencialmente desportivas e, por vezes, humanas."
O clímax foi alcançado no Mundial de 2010, realizado na África do Sul.
Quando os jogadores decidiram não treinar em apoio a Nicolas Anelka, que
foi excluído da equipa por ter tido uma altercação com o treinador Raymond Domenech,
foram acusados de "serem miúdos dos subúrbios, escória ou chefes".
"Estamos a visar particularmente jogadores muçulmanos, como Franck Ribéry, ou
jogadores negros como o capitão Patrice Evra", diz François da Rocha
Carneiro.
A ler: Quem
traiu a equipa francesa? "Le Bus" revela o lado oculto do fiasco de
2010
O capitão francês
Patrice Evra (2.º a partir da direita) aquece com o colega de equipa Franck
Ribéry (3.º da esquerda) durante uma sessão de treino no Campo dos Sonhos em
Knysna, a 21 de Junho de 2010, durante o Mundial de 2010 na África do Sul. AFP
- PATRICK HERTZOG
Alguns anos mais tarde, os avançados estrela Karim Benzema e Olivier
Giroud, muitas vezes rivais durante a sua carreira, também não são tratados
da mesma forma. Em Janeiro de 2024, o advogado do antigo craque do Real
Madrid apresenta queixa contra o ministro do Interior Gérald Darmanin, que
o acusou de ter ligações conhecidas com a Irmandade Muçulmana.
Diz-se que ele faria
uma espécie de proselitismo. O que é que dizem a Olivier Giroud, que diz que
reza antes de cada jogo? A mim, isso não me choca. Mas ele é cristão e isso não
é um problema. Quando é o Benzema que diz que é crente, é preciso acreditar que
é o islão a religião que causa problema", denuncia Me Hugues Viguier.
O avançado francês Olivier Giroud (à esquerda) sai do campo ao lado do
avançado francês Karim Benzema durante o jogo amigável de futebol do Euro 2016
França contra Sérvia no estádio Matmut Atlantique em Bordéus, a 7 de Setembro
de 2015. AFP - FRANCK FIFE
No seio da equipa actual de França, essa estigmatização ainda é sentida.
Numa vídeo publicado na véspera do primeiro jogo dos Bleus contra o Senegal
pela Federação Francesa de Futebol, Rayan Cherki, que também tem nacionalidade
italiana pelo pai e nacionalidade argelina pela mãe, denunciou este racismo:
"Não sei porquê algumas pessoas não gostam de mim. Consigo perceber que
tenho um perfil que incomoda... talvez por ter uma barba demasiado grande,
talvez por ser um pouco demasiado moreno."
"O que torna a França forte hoje"
A questão dos binacionais também surge regularmente. Os jogadores em
questão têm de "provar ainda mais", como se não fossem totalmente
franceses. "Quando também são originários de Portugal ou de Itália,
não se lhes faz nenhuma crítica; mas quando são do Senegal, da Costa do
Marfim ou da Argélia, aí sim. É realmente paradoxal", nota François da
Rocha Carneiro.
A ler: Taça do
Mundo-2026: Michael Olise, diamante misterioso
Michael Olise em acção
durante o jogo do Grupo I de futebol do Mundial entre França e Senegal em East
Rutherford, Nova Jérsia, perto de Nova Iorque, a 16 de Junho de 2026. Foto
AP/Steve Luciano - Steve Luciano
Para o historiador, a equipa tricolor não é afinal
mais do que o reflexo "da globalização" e da nossa história:
"Quase todos os jogadores que hoje estão na selecção francesa vêm de
antigas colónias francesas. Temos essa tradição de imigração. Nem sequer está
no ADN dos Bleus, mas sim no ADN da França."
Rayan Cherki concorda com a mesma ideia. O médio de 23
anos, que está na sua primeira Taça do Mundo, defende valorizar a riqueza deste
grupo: "É uma equipa de França magnífica, com muita diversidade, com
muitas histórias diferentes. E é isso que faz a força da França hoje."
Fonte: Les
Bleus, une équipe de France "pas si française", une polémique vieille
comme le foot - France 24
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice









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