quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Les Bleus, uma equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga quanto o futebol

Jogadores franceses posam para uma fotografia da equipa antes do jogo internacional amigável de futebol entre França e Irlanda do Norte, no Estádio Pierre-Mauroy em Villeneuve-d'Ascq, norte de França, a 8 de Junho de 2026, antes do Mundial FIFA 2026. AFP - SAMEER AL-DOUMY

Les Bleus, uma equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga quanto o futebol

História

Desporto

A equipa francesa é regularmente destacada por alguns observadores que acreditam que, devido ao número de jogadores de origem africana que a compõem, não é "francesa o suficiente". Uma controvérsia que não é novidade, pois a selecção nacional tem sido, desde o início, alvo de ataques racistas.

Publicado : 21/06/2026

Por:

Stéphanie TROUILLARD

Em 2022, após a final perdida contra a Argentina, os Bleus (Azuis – côr da selecção de futebol francesa – NdT) foram alvo de gozo pela presença de muitos jogadores de origem estrangeira no seu plantel. "A minha equipa africana perdeu", tuitou o Presidente queniano, William Samoei Ruto, após a derrota, anexando uma montagem fotográfica dos 15 jogadores "africanos" da equipa francesa, especificando o país de origem de cada um deles.

Mais recentemente, poucos dias antes do início do Mundial de 2026, Éric Zemmour, presidente do partido de extrema-direita Reconquête (Reconquista – NdT), disse numa entrevista à Sud Radio que a selecção "não representa realmente toda a França", mas acima de tudo "os subúrbios e a imigração árabe-muçulmana". "Acho que os franceses estão envergonhados com a imagem que esta equipa francesa transmite. A imprensa estrangeira goza regularmente connosco dizendo que é uma equipa africana", acrescentou.

Estas críticas racistas aos Les Bleus não são novas. No seu mais recente livro "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904" (Éditions du Détour), o historiador François da Rocha Carneiro mostra que as declarações feitas por Éric Zemmour tiveram muitos precedentes.

Cosmopolitismo inicial

Quando foi criada no início do século XX, a equipa francesa era composta principalmente por futebolistas de "uma elite parisiense de classes bastante privilegiadas", segundo este especialista da selecção francesa que dedicou a sua tese à sua história. Mas na década de 1920, "o seu recrutamento era muito mais amplo geograficamente em toda a França, bem como nos departamentos argelinos". "Notamos a presença dos Pieds-Noirs antes de os árabes da Argélia ou do Norte de África serem por sua vez seleccionados na década de 1930", descreve François da Rocha Carneiro.

A equipa francesa disputou o primeiro jogo da sua história a 1 de Maio de 1904 em Uccle, contra a Bélgica, perante 1.500 espectadores. Resultado final 3-3. © Federação Francesa de Futebol

A ler:  Estes Blues que morreram pela França durante a Grande Guerra

Para este doutor em história, investigador associado na CREHS (Universidade de Artois), este "recrutamento imperial" não representa um problema imediato. "Há apenas algumas pequenas farpas sobre os 'jogadores negros', como diziam na altura, e dois em particular: Raoul Diagne, filho de Blaise Diagne, e o marroquino Larbi Ben Barek. Mas são duas personagens muito diferentes, uma é filho de um deputado, enquanto a outra nunca será cidadã francesa", afirmou.

Com a profissionalização do futebol no início dos anos 1930, os clubes franceses são aurorizados a deixar jogar três futebolistas estrangeiros. Este recrutamento está orientado para a América Latina e Europa Central. Estes atletas vêm para França por razões económicas ou políticas, enquanto as tensões aumentam no velho continente. Após alguns anos no campeonato francês, alguns deles obtiveram a nacionalidade francesa e puderam usar a camisola azul.

Este "cosmopolitismo" da selecção não agradou aos jornais de extrema-direita, e em particular à Action française, que denunciava a presença de Gusti Jordan, nascido na Áustria, ou de Désiré Korany, Jules Mathé e Edmond Weiskopf, originalmente da Hungria. Ela acusa-os de serem "estranhos à raça francesa".


A equipa francesa de futebol durante um jogo amigável contra a Hungria a 13 de Março de 1939. De pé: Julien Darui, François Bourbotte, Gusti Jordan, Etienne Mattler e Raoul Diagne. Agachados: Roger Courtois, Larbi Ben Barek, Alfred Aston, Oscar Heisserere, Emond Weiskopf. © Imprensa desportiva


 A ler: Futebol: devemos o Mundial a... um francês!

 

"A era dos ritais (italianos – NdT) e polaks (polacos – NdT)"

Na década de 1950, a equipa francesa viu a aparição de filhos de imigrantes polacos e italianos. "Foi a era dos ritais e polaks", resume François da Rocha Carneiro. A lendária equipa de 1958, que conseguiu chegar às meias-finais de um Mundial na Suécia pela primeira vez, incluía Raymond Kopa, Maryan Wisniewski, Roger Piantoni e Bernard Chiarelli. "No entanto, estes intervenientes não são directamente alvo de ataques, mas sim caricaturas ao destacar os seus nomes estrangeiros", observa o historiador.

O avançado francês Maryan Wisnieski (centro, direita) é felicitado pelo colega Roger Piantoni após marcar o primeiro golo da sua equipa, enquanto o avançado Jean Vincent (à esquerda) assistia a 19 de Junho de 1958 em Norrköpping, durante os quartos-de-final do Mundial entre França e Irlanda do Norte. A França qualificou-se para as meias-finais graças a uma vitória por 4-0 sobre a Irlanda do Norte. AFP - EQUIPA

Durante a década de 1970, os comentários racistas pretendiam ser "positivos". Originário da Guadalupe e Senegal, Marius Trésor e Jean-Pierre Adams formam a espinha dorsal dos Les Bleus e são apelidados de "a guarda negra". "Reconhecemos as suas qualidades, mas referem-se a particularidades relacionadas com a cor da pele e origem geográfica. Os negros correm rápido como leões ou tigres. Está a ser construída toda uma mitologia, mesmo que não tenha intenção de ser ofensiva", diz o autor de "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904".

Fotografia tirada a 11 de Outubro de 1974, mostrando os jogadores da selecção francesa de futebol, Marius Trésor (à direita) e Jean-Pierre Adams, a saírem de Paris de comboio para Bruxelas para enfrentar a equipa belga como parte das qualificações para o Campeonato Europeu. AFP - -

Nos anos 90, a extrema-direita voltou a atacar Les Bleus. Durante o Euro 1996, o líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, apontou para a composição da equipa e listou os nomes daqueles que não considerava suficientemente franceses: "Desailly nasceu no Gana, Martins tem dupla nacionalidade portuguesa, tendo optado pela nacionalidade francesa para poder fazer parte desta equipa, Lamouchi é tunisino nascido em França, Loko congolês nascido em França, Zidane argelino nascido em França, Madar tunisino nascido em França, Djorkaeff arménio nascido em França."

Para François da Rocha Carneiro, ele só "aproveita os leitmotivs da imprensa de extrema-direita para os aplicar à selecção, mas isso não quer dizer que a França os aceite". Como prova, depois da vitória histórica no Mundial de 1998, os franceses elogiam a diversidade e a imagem de uma equipa "Preta, Branca, Beur (magrebina – NdT)".

A ler: Futebol: Zinedine Zidane, futuro treinador dos Les Bleus?


Os jogadores da selecção francesa celebram a vitória frente ao Brasil após a final do Mundial, a 12 de Julho de 1998, no Stade de France em Saint-Denis, a norte de Paris. Da esquerda para a direita: Thierry Henry, Laurent Blanc, o capitão Didier Deschamps a segurar o troféu, Bernard Diomède, Marcel Desailly e Alain Boghossian. AP - Michel Lipchitz

De "França Negra, Branca, Beur" a "caïds" (“rufias” – NdT)

Mas quando os fracassos se sucedem, a retórica racista não demora a regressar. "Com o jogo interrompido entre França e Argélia em 2001, a eliminação do Mundial em 2002, a bola de Zidane em 2006, o caso Zahia e a greve de Knysna em 2010, toda esta sequência será lida apenas através do prisma da raça", diz o historiador. "Argumentos racistas e islamofóbicos são usados para denunciar falhas que são, na verdade, essencialmente desportivas e, por vezes, humanas."

O clímax foi alcançado no Mundial de 2010, realizado na África do Sul. Quando os jogadores decidiram não treinar em apoio a Nicolas Anelka, que foi excluído da equipa por ter tido uma altercação com o treinador Raymond Domenech, foram acusados de "serem miúdos dos subúrbios, escória ou chefes". "Estamos a visar particularmente jogadores muçulmanos, como Franck Ribéry, ou jogadores negros como o capitão Patrice Evra", diz François da Rocha Carneiro.

A ler: Quem traiu a equipa francesa? "Le Bus" revela o lado oculto do fiasco de 2010


O capitão francês Patrice Evra (2.º a partir da direita) aquece com o colega de equipa Franck Ribéry (3.º da esquerda) durante uma sessão de treino no Campo dos Sonhos em Knysna, a 21 de Junho de 2010, durante o Mundial de 2010 na África do Sul. AFP - PATRICK HERTZOG

Alguns anos mais tarde, os avançados estrela Karim Benzema e Olivier Giroud, muitas vezes rivais durante a sua carreira, também não são tratados da mesma forma. Em Janeiro de 2024, o advogado do antigo craque do Real Madrid apresenta queixa contra o ministro do Interior Gérald Darmanin, que o acusou de ter ligações conhecidas com a Irmandade Muçulmana.

Diz-se que ele faria uma espécie de proselitismo. O que é que dizem a Olivier Giroud, que diz que reza antes de cada jogo? A mim, isso não me choca. Mas ele é cristão e isso não é um problema. Quando é o Benzema que diz que é crente, é preciso acreditar que é o islão a religião que causa problema", denuncia Me Hugues Viguier.

O avançado francês Olivier Giroud (à esquerda) sai do campo ao lado do avançado francês Karim Benzema durante o jogo amigável de futebol do Euro 2016 França contra Sérvia no estádio Matmut Atlantique em Bordéus, a 7 de Setembro de 2015. AFP - FRANCK FIFE

No seio da equipa actual de França, essa estigmatização ainda é sentida. Numa vídeo publicado na véspera do primeiro jogo dos Bleus contra o Senegal pela Federação Francesa de Futebol, Rayan Cherki, que também tem nacionalidade italiana pelo pai e nacionalidade argelina pela mãe, denunciou este racismo: "Não sei porquê algumas pessoas não gostam de mim. Consigo perceber que tenho um perfil que incomoda... talvez por ter uma barba demasiado grande, talvez por ser um pouco demasiado moreno."



"O que torna a França forte hoje"

A questão dos binacionais também surge regularmente. Os jogadores em questão têm de "provar ainda mais", como se não fossem totalmente franceses. "Quando também são originários de Portugal ou de Itália, não se lhes faz nenhuma crítica; mas quando são do Senegal, da Costa do Marfim ou da Argélia, aí sim. É realmente paradoxal", nota François da Rocha Carneiro.

A ler: Taça do Mundo-2026: Michael Olise, diamante misterioso

 

Michael Olise em acção durante o jogo do Grupo I de futebol do Mundial entre França e Senegal em East Rutherford, Nova Jérsia, perto de Nova Iorque, a 16 de Junho de 2026. Foto AP/Steve Luciano - Steve Luciano

Para o historiador, a equipa tricolor não é afinal mais do que o reflexo "da globalização" e da nossa história: "Quase todos os jogadores que hoje estão na selecção francesa vêm de antigas colónias francesas. Temos essa tradição de imigração. Nem sequer está no ADN dos Bleus, mas sim no ADN da França."

Rayan Cherki concorda com a mesma ideia. O médio de 23 anos, que está na sua primeira Taça do Mundo, defende valorizar a riqueza deste grupo: "É uma equipa de França magnífica, com muita diversidade, com muitas histórias diferentes. E é isso que faz a força da França hoje."

 

Fonte: Les Bleus, une équipe de France "pas si française", une polémique vieille comme le foot - France 24

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

Les Bleus, uma equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga quanto o futebol

História

Desporto

A equipa francesa é regularmente destacada por alguns observadores que acreditam que, devido ao número de jogadores de origem africana que a compõem, não é "francesa o suficiente". Uma controvérsia que não é novidade, pois a selecção nacional tem sido, desde o início, alvo de ataques racistas.

Publicado : 21/06/2026

Por:

Stéphanie TROUILLARD

Jogadores franceses posam para uma fotografia da equipa antes do jogo internacional amigável de futebol entre França e Irlanda do Norte, no Estádio Pierre-Mauroy em Villeneuve-d'Ascq, norte de França, a 8 de Junho de 2026, antes do Mundial FIFA 2026. AFP - SAMEER AL-DOUMY

Em 2022, após a final perdida contra a Argentina, os Bleus (Azuis – côr da selecção de futebol francesa – NdT) foram alvo de gozo pela presença de muitos jogadores de origem estrangeira no seu plantel. "A minha equipa africana perdeu", tuitou o Presidente queniano, William Samoei Ruto, após a derrota, anexando uma montagem fotográfica dos 15 jogadores "africanos" da equipa francesa, especificando o país de origem de cada um deles.

Mais recentemente, poucos dias antes do início do Mundial de 2026, Éric Zemmour, presidente do partido de extrema-direita Reconquête (Reconquista – NdT), disse numa entrevista à Sud Radio que a selecção "não representa realmente toda a França", mas acima de tudo "os subúrbios e a imigração árabe-muçulmana". "Acho que os franceses estão envergonhados com a imagem que esta equipa francesa transmite. A imprensa estrangeira goza regularmente connosco dizendo que é uma equipa africana", acrescentou.

Estas críticas racistas aos Les Bleus não são novas. No seu mais recente livro "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904" (Éditions du Détour), o historiador François da Rocha Carneiro mostra que as declarações feitas por Éric Zemmour tiveram muitos precedentes.

Cosmopolitismo inicial

Quando foi criada no início do século XX, a equipa francesa era composta principalmente por futebolistas de "uma elite parisiense de classes bastante privilegiadas", segundo este especialista da selecção francesa que dedicou a sua tese à sua história. Mas na década de 1920, "o seu recrutamento era muito mais amplo geograficamente em toda a França, bem como nos departamentos argelinos". "Notamos a presença dos Pieds-Noirs antes de os árabes da Argélia ou do Norte de África serem por sua vez seleccionados na década de 1930", descreve François da Rocha Carneiro.

A equipa francesa disputou o primeiro jogo da sua história a 1 de Maio de 1904 em Uccle, contra a Bélgica, perante 1.500 espectadores. Resultado final 3-3. © Federação Francesa de Futebol

A ler:  Estes Blues que morreram pela França durante a Grande Guerra

 

Para este doutor em história, investigador associado na CREHS (Universidade de Artois), este "recrutamento imperial" não representa um problema imediato. "Há apenas algumas pequenas farpas sobre os 'jogadores negros', como diziam na altura, e dois em particular: Raoul Diagne, filho de Blaise Diagne, e o marroquino Larbi Ben Barek. Mas são duas personagens muito diferentes, uma é filho de um deputado, enquanto a outra nunca será cidadã francesa", afirmou.

Com a profissionalização do futebol no início dos anos 1930, os clubes franceses são aurorizados a deixar jogar três futebolistas estrangeiros. Este recrutamento está orientado para a América Latina e Europa Central. Estes atletas vêm para França por razões económicas ou políticas, enquanto as tensões aumentam no velho continente. Após alguns anos no campeonato francês, alguns deles obtiveram a nacionalidade francesa e puderam usar a camisola azul.

Este "cosmopolitismo" da selecção não agradou aos jornais de extrema-direita, e em particular à Action française, que denunciava a presença de Gusti Jordan, nascido na Áustria, ou de Désiré Korany, Jules Mathé e Edmond Weiskopf, originalmente da Hungria. Ela acusa-os de serem "estranhos à raça francesa".

A equipa francesa de futebol durante um jogo amigável contra a Hungria a 13 de Março de 1939. De pé: Julien Darui, François Bourbotte, Gusti Jordan, Etienne Mattler e Raoul Diagne. Agachados: Roger Courtois, Larbi Ben Barek, Alfred Aston, Oscar Heisserere, Emond Weiskopf. © Imprensa desportiva

 

A ler: Futebol: devemos o Mundial a... um francês!

 

"A era dos ritais (italianos – NdT) e polaks (polacos – NdT)"

Na década de 1950, a equipa francesa viu a aparição de filhos de imigrantes polacos e italianos. "Foi a era dos ritais e polaks", resume François da Rocha Carneiro. A lendária equipa de 1958, que conseguiu chegar às meias-finais de um Mundial na Suécia pela primeira vez, incluía Raymond Kopa, Maryan Wisniewski, Roger Piantoni e Bernard Chiarelli. "No entanto, estes intervenientes não são directamente alvo de ataques, mas sim caricaturas ao destacar os seus nomes estrangeiros", observa o historiador.

O avançado francês Maryan Wisnieski (centro, direita) é felicitado pelo colega Roger Piantoni após marcar o primeiro golo da sua equipa, enquanto o avançado Jean Vincent (à esquerda) assistia a 19 de Junho de 1958 em Norrköpping, durante os quartos-de-final do Mundial entre França e Irlanda do Norte. A França qualificou-se para as meias-finais graças a uma vitória por 4-0 sobre a Irlanda do Norte. AFP - EQUIPA

Durante a década de 1970, os comentários racistas pretendiam ser "positivos". Originário da Guadalupe e Senegal, Marius Trésor e Jean-Pierre Adams formam a espinha dorsal dos Les Bleus e são apelidados de "a guarda negra". "Reconhecemos as suas qualidades, mas referem-se a particularidades relacionadas com a cor da pele e origem geográfica. Os negros correm rápido como leões ou tigres. Está a ser construída toda uma mitologia, mesmo que não tenha intenção de ser ofensiva", diz o autor de "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904".

Fotografia tirada a 11 de Outubro de 1974, mostrando os jogadores da selecção francesa de futebol, Marius Trésor (à direita) e Jean-Pierre Adams, a saírem de Paris de comboio para Bruxelas para enfrentar a equipa belga como parte das qualificações para o Campeonato Europeu. AFP - -

Nos anos 90, a extrema-direita voltou a atacar Les Bleus. Durante o Euro 1996, o líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, apontou para a composição da equipa e listou os nomes daqueles que não considerava suficientemente franceses: "Desailly nasceu no Gana, Martins tem dupla nacionalidade portuguesa, tendo optado pela nacionalidade francesa para poder fazer parte desta equipa, Lamouchi é tunisino nascido em França, Loko congolês nascido em França, Zidane argelino nascido em França, Madar tunisino nascido em França, Djorkaeff arménio nascido em França."

Para François da Rocha Carneiro, ele só "aproveita os leitmotivs da imprensa de extrema-direita para os aplicar à selecção, mas isso não quer dizer que a França os aceite". Como prova, depois da vitória histórica no Mundial de 1998, os franceses elogiam a diversidade e a imagem de uma equipa "Preta, Branca, Beur (magrebina – NdT)".

A ler: Futebol: Zinedine Zidane, futuro treinador dos Les Bleus?

Os jogadores da selecção francesa celebram a vitória frente ao Brasil após a final do Mundial, a 12 de Julho de 1998, no Stade de France em Saint-Denis, a norte de Paris. Da esquerda para a direita: Thierry Henry, Laurent Blanc, o capitão Didier Deschamps a segurar o troféu, Bernard Diomède, Marcel Desailly e Alain Boghossian. AP - Michel Lipchitz

De "França Negra, Branca, Beur" a "caïds" (“rufias” – NdT)

Mas quando os fracassos se sucedem, a retórica racista não demora a regressar. "Com o jogo interrompido entre França e Argélia em 2001, a eliminação do Mundial em 2002, a bola de Zidane em 2006, o caso Zahia e a greve de Knysna em 2010, toda esta sequência será lida apenas através do prisma da raça", diz o historiador. "Argumentos racistas e islamofóbicos são usados para denunciar falhas que são, na verdade, essencialmente desportivas e, por vezes, humanas."

O clímax foi alcançado no Mundial de 2010, realizado na África do Sul. Quando os jogadores decidiram não treinar em apoio a Nicolas Anelka, que foi excluído da equipa por ter tido uma altercação com o treinador Raymond Domenech, foram acusados de "serem miúdos dos subúrbios, escória ou chefes". "Estamos a visar particularmente jogadores muçulmanos, como Franck Ribéry, ou jogadores negros como o capitão Patrice Evra", diz François da Rocha Carneiro.

A ler: Quem traiu a equipa francesa? "Le Bus" revela o lado oculto do fiasco de 2010

O capitão francês Patrice Evra (2.º a partir da direita) aquece com o colega de equipa Franck Ribéry (3.º da esquerda) durante uma sessão de treino no Campo dos Sonhos em Knysna, a 21 de Junho de 2010, durante o Mundial de 2010 na África do Sul. AFP - PATRICK HERTZOG

Alguns anos mais tarde, os avançados estrela Karim Benzema e Olivier Giroud, muitas vezes rivais durante a sua carreira, também não são tratados da mesma forma. Em Janeiro de 2024, o advogado do antigo craque do Real Madrid apresenta queixa contra o ministro do Interior Gérald Darmanin, que o acusou de ter ligações conhecidas com a Irmandade Muçulmana.

Diz-se que ele faria uma espécie de proselitismo. O que é que dizem a Olivier Giroud, que diz que reza antes de cada jogo? A mim, isso não me choca. Mas ele é cristão e isso não é um problema. Quando é o Benzema que diz que é crente, é preciso acreditar que é o islão a religião que causa problema", denuncia Me Hugues Viguier.

O avançado francês Olivier Giroud (à esquerda) sai do campo ao lado do avançado francês Karim Benzema durante o jogo amigável de futebol do Euro 2016 França contra Sérvia no estádio Matmut Atlantique em Bordéus, a 7 de Setembro de 2015. AFP - FRANCK FIFE

 

No seio da equipa actual de França, essa estigmatização ainda é sentida. Numa vídeo publicado na véspera do primeiro jogo dos Bleus contra o Senegal pela Federação Francesa de Futebol, Rayan Cherki, que também tem nacionalidade italiana pelo pai e nacionalidade argelina pela mãe, denunciou este racismo: "Não sei porquê algumas pessoas não gostam de mim. Consigo perceber que tenho um perfil que incomoda... talvez por ter uma barba demasiado grande, talvez por ser um pouco demasiado moreno."

"O que torna a França forte hoje"

A questão dos binacionais também surge regularmente. Os jogadores em questão têm de "provar ainda mais", como se não fossem totalmente franceses. "Quando também são originários de Portugal ou de Itália, não se lhes faz nenhuma crítica; mas quando são do Senegal, da Costa do Marfim ou da Argélia, aí sim. É realmente paradoxal", nota François da Rocha Carneiro.

 

A ler: Taça do Mundo-2026: Michael Olise, diamante misterioso

 

Michael Olise em acção durante o jogo do Grupo I de futebol do Mundial entre França e Senegal em East Rutherford, Nova Jérsia, perto de Nova Iorque, a 16 de Junho de 2026. Foto AP/Steve Luciano - Steve Luciano

Para o historiador, a equipa tricolor não é afinal mais do que o reflexo "da globalização" e da nossa história: "Quase todos os jogadores que hoje estão na selecção francesa vêm de antigas colónias francesas. Temos essa tradição de imigração. Nem sequer está no ADN dos Bleus, mas sim no ADN da França."

Rayan Cherki concorda com a mesma ideia. O médio de 23 anos, que está na sua primeira Taça do Mundo, defende valorizar a riqueza deste grupo: "É uma equipa de França magnífica, com muita diversidade, com muitas histórias diferentes. E é isso que faz a força da França hoje."

 

Fonte: Les Bleus, une équipe de France "pas si française", une polémique vieille comme le foot - France 24

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

Les Bleus, uma equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga quanto o futebol

História

Desporto

 

 

A equipa francesa é regularmente destacada por alguns observadores que acreditam que, devido ao número de jogadores de origem africana que a compõem, não é "francesa o suficiente". Uma controvérsia que não é novidade, pois a selecção nacional tem sido, desde o início, alvo de ataques racistas.

Publicado : 21/06/2026

Por:

Stéphanie TROUILLARD

Jogadores franceses posam para uma fotografia da equipa antes do jogo internacional amigável de futebol entre França e Irlanda do Norte, no Estádio Pierre-Mauroy em Villeneuve-d'Ascq, norte de França, a 8 de Junho de 2026, antes do Mundial FIFA 2026. AFP - SAMEER AL-DOUMY

Em 2022, após a final perdida contra a Argentinaos Bleus (Azuis – côr da selecção de futebol francesa – NdT) foram alvo de gozo pela presença de muitos jogadores de origem estrangeira no seu plantel. "A minha equipa africana perdeu", tuitou o Presidente queniano, William Samoei Ruto, após a derrota, anexando uma montagem fotográfica dos 15 jogadores "africanos" da equipa francesa, especificando o país de origem de cada um deles.

Mais recentemente, poucos dias antes do início do Mundial de 2026, Éric Zemmour, presidente do partido de extrema-direita Reconquête (Reconquista – NdT), disse numa entrevista à Sud Radio que a selecção "não representa realmente toda a França", mas acima de tudo "os subúrbios e a imigração árabe-muçulmana". "Acho que os franceses estão envergonhados com a imagem que esta equipa francesa transmite. A imprensa estrangeira goza regularmente connosco dizendo que é uma equipa africana", acrescentou.

Estas críticas racistas aos Les Bleus não são novas. No seu mais recente livro "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904" (Éditions du Détour), o historiador François da Rocha Carneiro mostra que as declarações feitas por Éric Zemmour tiveram muitos precedentes.

Cosmopolitismo inicial

Quando foi criada no início do século XX, a equipa francesa era composta principalmente por futebolistas de "uma elite parisiense de classes bastante privilegiadas", segundo este especialista da selecção francesa que dedicou a sua tese à sua história. Mas na década de 1920, "o seu recrutamento era muito mais amplo geograficamente em toda a França, bem como nos departamentos argelinos". "Notamos a presença dos Pieds-Noirs antes de os árabes da Argélia ou do Norte de África serem por sua vez seleccionados na década de 1930", descreve François da Rocha Carneiro.

A equipa francesa disputou o primeiro jogo da sua história a 1 de Maio de 1904 em Uccle, contra a Bélgica, perante 1.500 espectadores. Resultado final 3-3. © Federação Francesa de Futebol

A ler:  Estes Blues que morreram pela França durante a Grande Guerra

 

Para este doutor em história, investigador associado na CREHS (Universidade de Artois), este "recrutamento imperial" não representa um problema imediato. "Há apenas algumas pequenas farpas sobre os 'jogadores negros', como diziam na altura, e dois em particular: Raoul Diagne, filho de Blaise Diagne, e o marroquino Larbi Ben Barek. Mas são duas personagens muito diferentes, uma é filho de um deputado, enquanto a outra nunca será cidadã francesa", afirmou.

Com a profissionalização do futebol no início dos anos 1930, os clubes franceses são aurorizados a deixar jogar três futebolistas estrangeiros. Este recrutamento está orientado para a América Latina e Europa Central. Estes atletas vêm para França por razões económicas ou políticas, enquanto as tensões aumentam no velho continente. Após alguns anos no campeonato francês, alguns deles obtiveram a nacionalidade francesa e puderam usar a camisola azul.

Este "cosmopolitismo" da selecção não agradou aos jornais de extrema-direita, e em particular à Action française, que denunciava a presença de Gusti Jordan, nascido na Áustria, ou de Désiré Korany, Jules Mathé e Edmond Weiskopf, originalmente da Hungria. Ela acusa-os de serem "estranhos à raça francesa".

A equipa francesa de futebol durante um jogo amigável contra a Hungria a 13 de Março de 1939. De pé: Julien Darui, François Bourbotte, Gusti Jordan, Etienne Mattler e Raoul Diagne. Agachados: Roger Courtois, Larbi Ben Barek, Alfred Aston, Oscar Heisserere, Emond Weiskopf. © Imprensa desportiva

 

A ler: Futebol: devemos o Mundial a... um francês!

 

"A era dos ritais (italianos – NdT) e polaks (polacos – NdT)"

Na década de 1950, a equipa francesa viu a aparição de filhos de imigrantes polacos e italianos. "Foi a era dos ritais e polaks", resume François da Rocha Carneiro. A lendária equipa de 1958, que conseguiu chegar às meias-finais de um Mundial na Suécia pela primeira vez, incluía Raymond Kopa, Maryan Wisniewski, Roger Piantoni e Bernard Chiarelli. "No entanto, estes intervenientes não são directamente alvo de ataques, mas sim caricaturas ao destacar os seus nomes estrangeiros", observa o historiador.

O avançado francês Maryan Wisnieski (centro, direita) é felicitado pelo colega Roger Piantoni após marcar o primeiro golo da sua equipa, enquanto o avançado Jean Vincent (à esquerda) assistia a 19 de Junho de 1958 em Norrköpping, durante os quartos-de-final do Mundial entre França e Irlanda do Norte. A França qualificou-se para as meias-finais graças a uma vitória por 4-0 sobre a Irlanda do Norte. AFP - EQUIPA

Durante a década de 1970, os comentários racistas pretendiam ser "positivos". Originário da Guadalupe e Senegal, Marius Trésor e Jean-Pierre Adams formam a espinha dorsal dos Les Bleus e são apelidados de "a guarda negra". "Reconhecemos as suas qualidades, mas referem-se a particularidades relacionadas com a cor da pele e origem geográfica. Os negros correm rápido como leões ou tigres. Está a ser construída toda uma mitologia, mesmo que não tenha intenção de ser ofensiva", diz o autor de "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904".

Fotografia tirada a 11 de Outubro de 1974, mostrando os jogadores da selecção francesa de futebol, Marius Trésor (à direita) e Jean-Pierre Adams, a saírem de Paris de comboio para Bruxelas para enfrentar a equipa belga como parte das qualificações para o Campeonato Europeu. AFP - -

Nos anos 90, a extrema-direita voltou a atacar Les Bleus. Durante o Euro 1996, o líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, apontou para a composição da equipa e listou os nomes daqueles que não considerava suficientemente franceses: "Desailly nasceu no Gana, Martins tem dupla nacionalidade portuguesa, tendo optado pela nacionalidade francesa para poder fazer parte desta equipa, Lamouchi é tunisino nascido em França, Loko congolês nascido em França, Zidane argelino nascido em França, Madar tunisino nascido em França, Djorkaeff arménio nascido em França."

Para François da Rocha Carneiro, ele só "aproveita os leitmotivs da imprensa de extrema-direita para os aplicar à selecção, mas isso não quer dizer que a França os aceite". Como prova, depois da vitória histórica no Mundial de 1998, os franceses elogiam a diversidade e a imagem de uma equipa "Preta, Branca, Beur (magrebina – NdT)".

A ler: Futebol: Zinedine Zidane, futuro treinador dos Les Bleus?

Os jogadores da selecção francesa celebram a vitória frente ao Brasil após a final do Mundial, a 12 de Julho de 1998, no Stade de France em Saint-Denis, a norte de Paris. Da esquerda para a direita: Thierry Henry, Laurent Blanc, o capitão Didier Deschamps a segurar o troféu, Bernard Diomède, Marcel Desailly e Alain Boghossian. AP - Michel Lipchitz

De "França Negra, Branca, Beur" a "caïds" (“rufias” – NdT)

Mas quando os fracassos se sucedem, a retórica racista não demora a regressar. "Com o jogo interrompido entre França e Argélia em 2001, a eliminação do Mundial em 2002, a bola de Zidane em 2006, o caso Zahia e a greve de Knysna em 2010, toda esta sequência será lida apenas através do prisma da raça", diz o historiador. "Argumentos racistas e islamofóbicos são usados para denunciar falhas que são, na verdade, essencialmente desportivas e, por vezes, humanas."

O clímax foi alcançado no Mundial de 2010, realizado na África do Sul. Quando os jogadores decidiram não treinar em apoio a Nicolas Anelka, que foi excluído da equipa por ter tido uma altercação com o treinador Raymond Domenech, foram acusados de "serem miúdos dos subúrbios, escória ou chefes". "Estamos a visar particularmente jogadores muçulmanos, como Franck Ribéry, ou jogadores negros como o capitão Patrice Evra", diz François da Rocha Carneiro.

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O capitão francês Patrice Evra (2.º a partir da direita) aquece com o colega de equipa Franck Ribéry (3.º da esquerda) durante uma sessão de treino no Campo dos Sonhos em Knysna, a 21 de Junho de 2010, durante o Mundial de 2010 na África do Sul. AFP - PATRICK HERTZOG

Alguns anos mais tarde, os avançados estrela Karim Benzema e Olivier Giroud, muitas vezes rivais durante a sua carreira, também não são tratados da mesma forma. Em Janeiro de 2024, o advogado do antigo craque do Real Madrid apresenta queixa contra o ministro do Interior Gérald Darmanin, que o acusou de ter ligações conhecidas com a Irmandade Muçulmana.

Diz-se que ele faria uma espécie de proselitismo. O que é que dizem a Olivier Giroud, que diz que reza antes de cada jogo? A mim, isso não me choca. Mas ele é cristão e isso não é um problema. Quando é o Benzema que diz que é crente, é preciso acreditar que é o islão a religião que causa problema", denuncia Me Hugues Viguier.

O avançado francês Olivier Giroud (à esquerda) sai do campo ao lado do avançado francês Karim Benzema durante o jogo amigável de futebol do Euro 2016 França contra Sérvia no estádio Matmut Atlantique em Bordéus, a 7 de Setembro de 2015. AFP - FRANCK FIFE

 

No seio da equipa actual de França, essa estigmatização ainda é sentida. Numa vídeo publicado na véspera do primeiro jogo dos Bleus contra o Senegal pela Federação Francesa de Futebol, Rayan Cherki, que também tem nacionalidade italiana pelo pai e nacionalidade argelina pela mãe, denunciou este racismo: "Não sei porquê algumas pessoas não gostam de mim. Consigo perceber que tenho um perfil que incomoda... talvez por ter uma barba demasiado grande, talvez por ser um pouco demasiado moreno."

"O que torna a França forte hoje"

A questão dos binacionais também surge regularmente. Os jogadores em questão têm de "provar ainda mais", como se não fossem totalmente franceses. "Quando também são originários de Portugal ou de Itália, não se lhes faz nenhuma crítica; mas quando são do Senegal, da Costa do Marfim ou da Argélia, aí sim. É realmente paradoxal", nota François da Rocha Carneiro.

 

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Michael Olise em acção durante o jogo do Grupo I de futebol do Mundial entre França e Senegal em East Rutherford, Nova Jérsia, perto de Nova Iorque, a 16 de Junho de 2026. Foto AP/Steve Luciano - Steve Luciano

Para o historiador, a equipa tricolor não é afinal mais do que o reflexo "da globalização" e da nossa história: "Quase todos os jogadores que hoje estão na selecção francesa vêm de antigas colónias francesas. Temos essa tradição de imigração. Nem sequer está no ADN dos Bleus, mas sim no ADN da França."

Rayan Cherki concorda com a mesma ideia. O médio de 23 anos, que está na sua primeira Taça do Mundo, defende valorizar a riqueza deste grupo: "É uma equipa de França magnífica, com muita diversidade, com muitas histórias diferentes. E é isso que faz a força da França hoje."

 

Fonte: Les Bleus, une équipe de France "pas si française", une polémique vieille comme le foot - France 24

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice








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