sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O ventre dos homens: o capitalismo aumenta os seus lucros à custa dos doentes

 


O ventre dos homens: o capitalismo aumenta os seus lucros à custa dos doentes

28 de Agosto de 2026 Robert Bibeau



Por Khider Mesloub. 

O ventre dos homens: o capitalismo aumenta os seus lucros à custa dos doentes

Em França, hoje em dia basta percorrer as ruas, sentar-se na esplanada de um café, frequentar centros comerciais ou observar as praias no Verão para notar um fenómeno que se tornou quase banal: a barriga proeminente impôs-se como uma das características físicas mais comuns entre os homens adultos. O que outrora era excepção tornou-se agora um traço comum da paisagem social. A barriga transborda agora das cinturas, estica as camisas e altera a silhueta de uma parte significativa da população masculina. Por se ter generalizado, o fenómeno da barriga tornou-se quase invisível. Esta metamorfose corporal, tão visível que acaba por passar despercebida, merece, no entanto, ser questionada. Porque o corpo nunca se transforma independentemente das condições materiais de existência. Quando um mesmo fenómeno afecta simultaneamente milhões de indivíduos, deixa de ser uma simples questão de comportamentos individuais para se tornar o produto de uma organização económica e social que deixa a sua marca até nos corpos.

O corpo degradado pelo capital

A barriga não é apenas um acumular de gordura. É a marca física de um sistema económico. O capitalismo não produz só mercadorias; também produz corpos. Ele molda os hábitos alimentares, organiza o tempo de trabalho, determina os ritmos de vida, impõe a sedentaridade e transforma a fisiologia humana. O corpo torna-se assim o terreno em que se inscrevem os estigmas da organização social. 

A humanidade nunca teve tanta abundância alimentar. No entanto, essa abundância vem acompanhada de uma degradação constante da qualidade nutricional. A indústria agro-alimentar já não alimenta a população; alimenta a rentabilidade dos seus accionistas. Os alimentos ultra-processados, saturados de açúcares, gorduras e aditivos, são concebidos para estimular o consumo contínuo em vez de satisfazer as necessidades biológicas. Quanto mais os consumidores comem, mais os lucros crescem. A obesidade torna-se assim não um acidente, mas uma das consequências previsíveis de um sistema capitalista baseado no consumo sem limites.

Da opulência aristocrática ao fast food em massa

Durante séculos, a barriga protuberante era um atributo das classes privilegiadas. O excesso de peso era um sinal de alimentação abundante em sociedades onde a maioria da população vivia sob a ameaça constante da escassez. Ela simbolizava riqueza, ócio e acesso a comida inacessível às classes trabalhadoras. Hoje, a situação mudou. A barriga já não é um sinal de privilégio social; tornou-se um fenómeno de massa. Esta inversão histórica revela uma mudança profunda do capitalismo. A abundância de alimentos democratizou-se, mas sob a forma de comida industrial de baixa qualidade nutricional. A barriga contemporânea já não é a da opulência aristocrática; é a da fast food industrial, do sedentarismo e da degradação das condições de vida.

Paralelamente, o capitalismo moderno reduz constantemente as oportunidades para actividade física. Os trabalhadores passam os seus dias sentados à frente de um ecrã. Os deslocamentos fazem-se de carro. Os elevadores substituem as escadas. Mesmo os tempos de lazer tornam-se digitais. O corpo humano, moldado durante centenas de milhares de anos para andar, correr, carregar e fazer esforço, está agora condenado à imobilidade. A barriga surge então como o resultado lógico desta contradição entre a nossa herança biológica saudável e o nosso ambiente capitalista tóxico.

A esta sedentariedade soma-se outra violência mais discreta: o stress permanente. O stress não é apenas um estado psicológico; constitui uma condição normal do funcionamento do capitalismo contemporâneo. A insegurança no emprego, a pressão constante por desempenho, a aceleração dos ritmos de trabalho, os objectivos cada vez mais exigentes e a hiperconexão mantêm um estado de alerta crónico. O corpo responde a esta pressão com desequilíbrios hormonais que favorecem o armazenamento de gordura abdominal. A barriga torna-se assim a tradução biológica de um sofrimento social.

A generalização do fenómeno do ventre torna-o paradoxalmente invisível. Ao tornar-se a norma, esta alteração da saúde deixa de ser percebida como uma patologia para aparecer como uma evolução corporal normal, ocultando assim a natureza patogénica do capitalismo.

Transformar o corpo doente num mercado lucrativo

Esta lógica encontra o seu prolongamento numa enorme economia da reparação. O mesmo sistema capitalista que fabrica corpos doentes desenvolve depois uma enorme economia da reparação: dietas, ginásios, suplementos alimentares, medicamentos para emagrecer, cirurgia bariátrica, coaching, aplicações de saúde e a indústria do bem-estar. O capital realiza assim um duplo lucro: vende as causas do problema antes de comercializar as suas supostas soluções. 

O capitalismo já não se limita a explorar o trabalho das pessoas; explora agora os seus organismos. Fabricam-se as patologias, vendem-se os remédios, transforma-se cada deterioração física numa oportunidade comercial e cada sofrimento numa fonte de lucro. Os corpos tornam-se um dos últimos territórios da acumulação capitalista.

A barriga dos homens constitui, portanto, muito mais do que uma questão estética. É o revelador silencioso de uma civilização capitalista que transforma os indivíduos em consumidores imóveis, alimenta os seus organismos com produtos alimentares industriais, submete-os a um stress constante e depois faz comércio das doenças que ela própria contribui para produzir. O capitalismo não marca apenas as paisagens, as cidades ou as relações sociais; acaba por moldar os corpos em si. O abdómen proeminente de milhões de homens surge assim como a assinatura biológica de um sistema capitalista cujas contradições se inscrevem agora até na própria carne. O que muitas vezes é tomado como uma fraqueza individual revela, na realidade, o poder de um sistema capitalista patogénico capaz de deformar os corpos tanto como intoxicar as consciências.

 Khider MESLOUB

 

Fonte: Le ventre des hommes : le capitalisme gonfle ses profits aux dépens des malades – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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