Protestos no Ensino Secundário
em França: O Estado Burguês Responde à Ira da Juventude Proletária com
Cassetetes da Polícia, Vamos Organizar a Resposta de Classe!
As escolas da República
Francesa estão em ebulição. A partir do bloqueio de uma escola secundária em
Créteil, a 18 de Setembro, as mobilizações dos alunos do ensino secundário
proliferaram rapidamente por todo o país, especialmente nos bairros mais
carenciados. As suas reivindicações e queixas são múltiplas: contratação de
professores para compensar as horas de aula não ministradas devido à falta de
docentes, renovação de escolas degradadas e em mau estado, falta de material
escolar, salas de aula superlotadas, a revogação do Parcoursup – o sistema
ultra-elitista que decide se e para onde os estudantes vão para a universidade,
que visa reproduzir a dominação de classe e separar os chamados «bons»
estudantes dos «maus», ou seja, separar os jovens burgueses destinados às
«Grandes Escolas» do sistema de ensino superior francês dos jovens operários
destinados a entrar no mercado de trabalho e a serem explorados o mais
rapidamente possível.
Não é por acaso que o
movimento teve início, na maioria das vezes, nos liceus «profissionais» dos
bairros da classe operária, em oposição aos liceus «gerais». Estes jovens,
filhos e filhas de operários e eles próprios futuros operários, são as
primeiras vítimas das escolas da República e da sua meritocracia de fachada.
São os primeiros a sentir os ataques de austeridade do Estado burguês, ataques
que se intensificarão nos próximos anos. São também eles que «estudam» em
escolas com falta de pessoal e de materiais, em edifícios degradados e onde não
há qualquer possibilidade de mobilidade social. Trata-se de uma educação de
classe que reproduz massivamente as desigualdades de origem. Agora, o movimento
chegou mesmo à Bélgica francófona.
Na sociedade
capitalista, a escola não pode libertar os jovens operários. Pelo contrário, é
um poderoso meio de segregação, que visa esmagar, doutrinar, classificar e
fazê-los acreditar que têm as mesmas oportunidades que todos e que só através
do trabalho conseguirão uma situação melhor. O que este movimento expressa é a
descrença na fábula da igualdade de oportunidades. Para eles, atacar as escolas
é manifestar o seu legítimo repúdio por estas instituições odiadas.
Não se enganem: estas
reivindicações vão além da situação dos liceus em França. Trata-se de uma
revolta contra todo o sistema que já não lhes promete um futuro, a não ser um
futuro de estudar e trabalhar na miséria, para depois partirem para a guerra. O
que aqui se expressa é uma exigência de dignidade, uma recusa em aceitar
passivamente esta vida miserável.
Perante este movimento
espontâneo, a burguesia teve apenas uma resposta: enviar as suas milícias (CRS
e BRAV-M, forças policiais com reputação de ultra-violência) para reprimir os
jovens operários, a fim de os silenciar. Os resultados já são alarmantes: mais
de 5 000 detenções em apenas alguns dias e vários olhos perdidos. O ministro do
Interior, Laurent Nuñez, declarou assim, a 2 de Outubro, que «não há qualquer
ordem de contenção nem ordem para não utilizar todas as armas à disposição das
forças de segurança interna» contra os estudantes do ensino secundário.(1) A
mensagem é clara. Os jovens estão a defender-se da melhor forma que podem, com
todos os meios à sua disposição, e só podemos regozijar-nos por isso.
Atacar o Estado, os seus
símbolos e as suas forças de repressão demonstra uma compreensão do antagonismo
entre eles e estas instituições que lhes são estranhas, que são
irremediavelmente suas inimigas.
Mas esta compreensão
ainda é parcial e confusa, como demonstra a presença de demasiadas bandeiras
francesas, palavras de ordem de esquerda, exigências por uma «verdadeira escola
para o povo» e interpretações da Marselhesa. Isto também é demonstrado por
aqueles que desejam liderar este movimento. Os falsos amigos da classe operária
são numerosos, inclusive entre a sua juventude. Em primeiro lugar, a France
Insoumise, com o seu candidato presidencial Jean-Luc Mélenchon. Depois de
tentarem tirar partido do movimento, aparecendo nos piquetes sob aplausos
estrondosos e com as eleições de 2027 em mente,(2) estes humanistas apelam
agora à «não-violência» e pedem para não se responder às «provocações» da
polícia. Pedem para dar a outra face! O secretário-geral do Partido «Comunista»
francês, por seu lado, «condena» os manifestantes violentos e os jovens
«delinquentes».
Mas a esquerda
«reformista» não é a única armadilha. Os sindicatos também estão a tentar
manter o controlo do movimento. A 2 de Outubro, os sindicatos dos alunos do
ensino secundário dirigiram-se ao Ministério da Educação para negociar o fim
dos protestos em troca de certas reivindicações, mas não foram ouvidos pelo
governo. A aliança intersindical, por seu lado, apela a protestos contra o
orçamento do Estado… daqui a um mês! A luta não é deles; a luta é dos operários
e dos jovens operários, que devem organizar-se em Assembleias Gerais
independentes para alargar o movimento.
A extrema-esquerda do
capital, por seu lado, vê nestes protestos uma suposta «revolta
revolucionária». A Révolution Permanente, com o seu sindicato Le Poing Levé,
considera que a luta dos estudantes do ensino secundário é, na verdade, uma
luta do «zbeul» (desordem) contra a «ordem». (3) Lá se foi a longa história da
luta de classes: a história das sociedades de classes é, na verdade,
determinada pela luta geracional entre a juventude anti-autoritária e a
Autoridade. Esta versão vulgar do anarquismo — que vê em cada protesto
supostamente «revolucionário» (4) uma oportunidade para uma recuperação
política barata, cujo único resultado é um beco sem saída — revela o verdadeiro
perigo que estes grupos representam para a consciência de classe. A mil léguas
de distância da luta independente e autónoma do proletariado, a «Révolution
Permanente» limita a luta ao inter-classismo, apelando a pseudo-convergências
com as lutas dos estudantes universitários, dos agricultores ou mesmo dos
Coletes Amarelos. Por verem revolução em todo o lado, mesmo quando esta só
existe nos discursos, como é o caso hoje em dia, acabarão, tal como Ícaro, por
queimar as suas asas.
Outra fraqueza deste
movimento diz respeito à sua natureza de classe. A juventude não é uma classe.
A juventude não é nem nunca foi a vanguarda do movimento revolucionário, ao
contrário do que os grupos de esquerda (trotskistas, maoístas ou estalinistas)
gostam de fingir. A juventude pode ser tanto burguesa como proletária, e os
seus interesses de classe, por isso, diferem. A quem afirma que a juventude é
um novo sujeito revolucionário, incluindo alguns membros da Esquerda Comunista,
reafirmamos que a única classe revolucionária, enquanto classe explorada pelo
capital, é o proletariado. Só a classe operária pode, através da sua luta, pôr
fim à barbárie para a qual o capitalismo nos está a arrastar, devido ao seu
lugar nas relações de produção. A juventude proletária tem reivindicações
legítimas, mas estas só podem levar a algum lado se se afastar do inter-classismo
dominante, evitar a armadilha democrática e unir-se a outros trabalhadores, não
apenas ao pessoal docente ou aos estudantes universitários, como muitos de
esquerda defendem, mas a toda a classe operária. Bloquear escolas secundárias e
universidades não pode ser um fim em si mesmo. É através da generalização e
extensão da luta em torno de consignas unitárias — contra a austeridade, a
precariedade, a degradação das condições de vida, de trabalho e de estudo — que
será possível derrubar não só os ataques incessantes de uma burguesia pronta
para a guerra de classes, mas também os alicerces deste sistema baseado na exploração
dos assalariados pelo capital. Isto pressupõe necessariamente um confronto directo
com o Estado e as suas forças de repressão, uma vez que a burguesia hoje em dia
já não cede reformas tão facilmente como antes, mas também com os seus
apêndices que são os partidos burgueses de esquerda e os sindicatos. Só através
da organização autónoma e independente do proletariado como um partido de
classe internacional será possível articular estas reivindicações imediatas, a
crise do capital e a necessidade de uma resposta revolucionária a uma burguesia
que nos está a arrastar para a guerra.
Xav
Grupo revolucionário internacionalista
6 de Outubro de 2026
Notas:
Imagem: FreCha (CC BY-SA
4.0), commons.wikimedia.org
(2) Uma táctica que é
claramente bem-sucedida, como demonstra a presença de inúmeras bandeiras e
autocolantes do partido durante os protestos de 6 de Outubro, e os aplausos
calorosos dos estudantes do secundário após cada intervenção dos representantes
do partido.
(3) Révolution
Permanente é um grupo trotskista associado ao morenismo. revolutionpermanente.fr
(4) Uma das palavras
de ordem trotskistas dos anos 60 e 70 em França era 'tout ce qui bouge est rouge' (tudo o que mexe é vermelho), sendo
Maio de 68 entendido como uma repetição de 1905. A pobreza do activismo!
Sexta-feira, 9 de Outubro de 2026
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice


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