sábado, 10 de outubro de 2026

Protestos no Ensino Secundário em França: O Estado Burguês Responde à Ira da Juventude Proletária com Cassetetes da Polícia, Vamos Organizar a Resposta de Classe!

 


Protestos no Ensino Secundário em França: O Estado Burguês Responde à Ira da Juventude Proletária com Cassetetes da Polícia, Vamos Organizar a Resposta de Classe!

As escolas da República Francesa estão em ebulição. A partir do bloqueio de uma escola secundária em Créteil, a 18 de Setembro, as mobilizações dos alunos do ensino secundário proliferaram rapidamente por todo o país, especialmente nos bairros mais carenciados. As suas reivindicações e queixas são múltiplas: contratação de professores para compensar as horas de aula não ministradas devido à falta de docentes, renovação de escolas degradadas e em mau estado, falta de material escolar, salas de aula superlotadas, a revogação do Parcoursup – o sistema ultra-elitista que decide se e para onde os estudantes vão para a universidade, que visa reproduzir a dominação de classe e separar os chamados «bons» estudantes dos «maus», ou seja, separar os jovens burgueses destinados às «Grandes Escolas» do sistema de ensino superior francês dos jovens operários destinados a entrar no mercado de trabalho e a serem explorados o mais rapidamente possível.

Não é por acaso que o movimento teve início, na maioria das vezes, nos liceus «profissionais» dos bairros da classe operária, em oposição aos liceus «gerais». Estes jovens, filhos e filhas de operários e eles próprios futuros operários, são as primeiras vítimas das escolas da República e da sua meritocracia de fachada. São os primeiros a sentir os ataques de austeridade do Estado burguês, ataques que se intensificarão nos próximos anos. São também eles que «estudam» em escolas com falta de pessoal e de materiais, em edifícios degradados e onde não há qualquer possibilidade de mobilidade social. Trata-se de uma educação de classe que reproduz massivamente as desigualdades de origem. Agora, o movimento chegou mesmo à Bélgica francófona.

Na sociedade capitalista, a escola não pode libertar os jovens operários. Pelo contrário, é um poderoso meio de segregação, que visa esmagar, doutrinar, classificar e fazê-los acreditar que têm as mesmas oportunidades que todos e que só através do trabalho conseguirão uma situação melhor. O que este movimento expressa é a descrença na fábula da igualdade de oportunidades. Para eles, atacar as escolas é manifestar o seu legítimo repúdio por estas instituições odiadas.

Não se enganem: estas reivindicações vão além da situação dos liceus em França. Trata-se de uma revolta contra todo o sistema que já não lhes promete um futuro, a não ser um futuro de estudar e trabalhar na miséria, para depois partirem para a guerra. O que aqui se expressa é uma exigência de dignidade, uma recusa em aceitar passivamente esta vida miserável.

Perante este movimento espontâneo, a burguesia teve apenas uma resposta: enviar as suas milícias (CRS e BRAV-M, forças policiais com reputação de ultra-violência) para reprimir os jovens operários, a fim de os silenciar. Os resultados já são alarmantes: mais de 5 000 detenções em apenas alguns dias e vários olhos perdidos. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, declarou assim, a 2 de Outubro, que «não há qualquer ordem de contenção nem ordem para não utilizar todas as armas à disposição das forças de segurança interna» contra os estudantes do ensino secundário.(1) A mensagem é clara. Os jovens estão a defender-se da melhor forma que podem, com todos os meios à sua disposição, e só podemos regozijar-nos por isso.

Atacar o Estado, os seus símbolos e as suas forças de repressão demonstra uma compreensão do antagonismo entre eles e estas instituições que lhes são estranhas, que são irremediavelmente suas inimigas.

Mas esta compreensão ainda é parcial e confusa, como demonstra a presença de demasiadas bandeiras francesas, palavras de ordem de esquerda, exigências por uma «verdadeira escola para o povo» e interpretações da Marselhesa. Isto também é demonstrado por aqueles que desejam liderar este movimento. Os falsos amigos da classe operária são numerosos, inclusive entre a sua juventude. Em primeiro lugar, a France Insoumise, com o seu candidato presidencial Jean-Luc Mélenchon. Depois de tentarem tirar partido do movimento, aparecendo nos piquetes sob aplausos estrondosos e com as eleições de 2027 em mente,(2) estes humanistas apelam agora à «não-violência» e pedem para não se responder às «provocações» da polícia. Pedem para dar a outra face! O secretário-geral do Partido «Comunista» francês, por seu lado, «condena» os manifestantes violentos e os jovens «delinquentes».

Mas a esquerda «reformista» não é a única armadilha. Os sindicatos também estão a tentar manter o controlo do movimento. A 2 de Outubro, os sindicatos dos alunos do ensino secundário dirigiram-se ao Ministério da Educação para negociar o fim dos protestos em troca de certas reivindicações, mas não foram ouvidos pelo governo. A aliança intersindical, por seu lado, apela a protestos contra o orçamento do Estado… daqui a um mês! A luta não é deles; a luta é dos operários e dos jovens operários, que devem organizar-se em Assembleias Gerais independentes para alargar o movimento.

A extrema-esquerda do capital, por seu lado, vê nestes protestos uma suposta «revolta revolucionária». A Révolution Permanente, com o seu sindicato Le Poing Levé, considera que a luta dos estudantes do ensino secundário é, na verdade, uma luta do «zbeul» (desordem) contra a «ordem». (3) Lá se foi a longa história da luta de classes: a história das sociedades de classes é, na verdade, determinada pela luta geracional entre a juventude anti-autoritária e a Autoridade. Esta versão vulgar do anarquismo — que vê em cada protesto supostamente «revolucionário» (4) uma oportunidade para uma recuperação política barata, cujo único resultado é um beco sem saída — revela o verdadeiro perigo que estes grupos representam para a consciência de classe. A mil léguas de distância da luta independente e autónoma do proletariado, a «Révolution Permanente» limita a luta ao inter-classismo, apelando a pseudo-convergências com as lutas dos estudantes universitários, dos agricultores ou mesmo dos Coletes Amarelos. Por verem revolução em todo o lado, mesmo quando esta só existe nos discursos, como é o caso hoje em dia, acabarão, tal como Ícaro, por queimar as suas asas.

Outra fraqueza deste movimento diz respeito à sua natureza de classe. A juventude não é uma classe. A juventude não é nem nunca foi a vanguarda do movimento revolucionário, ao contrário do que os grupos de esquerda (trotskistas, maoístas ou estalinistas) gostam de fingir. A juventude pode ser tanto burguesa como proletária, e os seus interesses de classe, por isso, diferem. A quem afirma que a juventude é um novo sujeito revolucionário, incluindo alguns membros da Esquerda Comunista, reafirmamos que a única classe revolucionária, enquanto classe explorada pelo capital, é o proletariado. Só a classe operária pode, através da sua luta, pôr fim à barbárie para a qual o capitalismo nos está a arrastar, devido ao seu lugar nas relações de produção. A juventude proletária tem reivindicações legítimas, mas estas só podem levar a algum lado se se afastar do inter-classismo dominante, evitar a armadilha democrática e unir-se a outros trabalhadores, não apenas ao pessoal docente ou aos estudantes universitários, como muitos de esquerda defendem, mas a toda a classe operária. Bloquear escolas secundárias e universidades não pode ser um fim em si mesmo. É através da generalização e extensão da luta em torno de consignas unitárias — contra a austeridade, a precariedade, a degradação das condições de vida, de trabalho e de estudo — que será possível derrubar não só os ataques incessantes de uma burguesia pronta para a guerra de classes, mas também os alicerces deste sistema baseado na exploração dos assalariados pelo capital. Isto pressupõe necessariamente um confronto directo com o Estado e as suas forças de repressão, uma vez que a burguesia hoje em dia já não cede reformas tão facilmente como antes, mas também com os seus apêndices que são os partidos burgueses de esquerda e os sindicatos. Só através da organização autónoma e independente do proletariado como um partido de classe internacional será possível articular estas reivindicações imediatas, a crise do capital e a necessidade de uma resposta revolucionária a uma burguesia que nos está a arrastar para a guerra.

Xav
Grupo revolucionário internacionalista
6 de Outubro de 2026

Notas:

Imagem: FreCha (CC BY-SA 4.0), commons.wikimedia.org

(1) contre-attaque.net

(2) Uma táctica que é claramente bem-sucedida, como demonstra a presença de inúmeras bandeiras e autocolantes do partido durante os protestos de 6 de Outubro, e os aplausos calorosos dos estudantes do secundário após cada intervenção dos representantes do partido.

(3) Révolution Permanente é um grupo trotskista associado ao morenismo. revolutionpermanente.fr

(4) Uma das palavras de ordem trotskistas dos anos 60 e 70 em França era 'tout ce qui bouge est rouge' (tudo o que mexe é vermelho), sendo Maio de 68 entendido como uma repetição de 1905. A pobreza do activismo!

Sexta-feira, 9 de Outubro de 2026

 

Fonte: High School Protests in France: The Bourgeois State Responds to the Wrath of Proletarian Youth with Police Batons, Let's Organise the Class Reply! | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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