Os objectores de consciência culturais: esses jovens franceses muçulmanos
que entraram em dissidência
Por Khider Mesloub. Em França, o debate sobre a imigração fica geralmente confinado a uma
alternativa simplista: integração ou comunitarismo, assimilação ou
separatismo, adesão aos «valores da República» ou rejeição dos mesmos. Esta
abordagem, no entanto, deixa escapar uma dimensão essencial do fenómeno: a
recusa de certas normas culturais dominantes pode resultar não de uma
incapacidade de integração, mas de uma escolha consciente e assumida, baseada
em convicções morais, familiares ou religiosas. Uma parte dos jovens franceses de origem magrebina e de famílias muçulmanas poderia, assim, ser descrita, por extensão metafórica do termo, como composta por «objectores de consciência culturais». Não no sentido jurídico do termo — a objecção de consciência designa, historicamente, a recusa do serviço militar ou do porte de armas por motivos de convicção moral —, mas no sentido sociológico: o de indivíduos que opõem a sua consciência e o seu sistema de valores a certas imposições assimilacionistas da sociedade francesa. Não se trata, evidentemente, de afirmar que todos os jovens de origem magrebina adoptariam esta atitude. As trajectórias são múltiplas, os graus de religiosidade muito diferentes e as relações com a cultura familiar extremamente variáveis. Alguns reivindicam uma assimilação completa, outros constroem uma identidade composta, outros ainda manifestam uma vontade explícita de preservar normas herdadas do seu meio familiar ou religioso. É esta última atitude que merece ser analisada. DO OBJECTOR MILITAR AO
OBJECTOR CULTURAL O objector de consciência clássico depara-se com uma contradição: o
Estado exige-lhe que pratique um acto que as suas convicções lhe proíbem.
Quando o serviço militar era obrigatório, ele podia afirmar, em essência:
«Pedem-me que empunhe as armas; a minha consciência proíbe-me de o fazer. » O objector cultural encontra-se numa situação diferente, uma vez que, na
maioria das vezes, nenhuma lei lhe ordena que adopte os comportamentos que
recusa. A pressão é mais social do que jurídica. O seu raciocínio poderia, no
entanto, ser formulado da seguinte forma: «Esperam que eu adopte certas
normas culturais francesas; as minhas convicções impedem-me ou dissuadem-me
de as adoptar. » A mudança conceptual é importante. Permite distinguir a integração social da assimilação cultural. Um jovem
de origem imigrante pode falar francês, prosseguir os estudos, trabalhar,
pagar os seus impostos, participar na vida económica e respeitar as leis, ao
mesmo tempo que recusa certas práticas que se tornaram comuns na sociedade
francesa. Pode, portanto, estar objectivamente integrado na sociedade sem
desejar confundir-se culturalmente com ela. INTEGRAR-SE SEM
NECESSARIAMENTE SE ASSIMILAR Esta distinção é frequentemente obscurecida no debate público francês. A
integração pressupõe, essencialmente, a participação numa sociedade e a
aceitação das suas regras jurídicas comuns. A assimilação vai muito mais
além: implica uma convergência de comportamentos, de referências e, por
vezes, de representações morais. Ora, é precisamente a esta segunda exigência
que alguns jovens de origem imigrante podem opor resistência. Recusar-se a beber álcool, manter certas prescrições alimentares,
praticar regularmente uma religião, privilegiar certas concepções familiares,
observar regras de recato ou desejar transmitir uma identidade cultural
específica aos seus filhos não significa automaticamente afastar-se da
sociedade francesa. Significa simplesmente: vivo nesta sociedade, mas não
considero que todas as suas normas culturais devam tornar-se as minhas. Esta
posição torna-se problemática do ponto de vista jurídico quando uma prática
entra efectivamente em contradição com a lei ou com os direitos de outrem.
Mas, enquanto essa fronteira não for ultrapassada, estamos perante,
principalmente, um conflito de normas culturais e não perante uma violação da
ordem jurídica. A
CONSCIÊNCIA CONTRA A IMPLICAÇÃO ASSIMILADORA A expressão «objector de consciência cultural» permite, assim, esclarecer sob uma perspectiva diferente certos comportamentos habitualmente interpretados como sinais de «não integração». Pois recusar uma norma pressupõe, por vezes, conhecê-la. O jovem que recusa conscientemente certas práticas da sociedade francesa não está alheio a ela. Pelo contrário, pode conhecê-las perfeitamente, uma vez que cresceu no seio delas. Observa-as diariamente na escola, na universidade, nas empresas, nos meios de comunicação social, nas redes sociais e entre os seus amigos. A sua recusa pode, portanto, não ser a de um estrangeiro que ignora os costumes do país, mas sim a de um indivíduo socializado em França que faz uma selecção cultural. Aceita certas normas e rejeita outras. Adopta a língua, mas mantém uma religião. Partilha certas formas de sociabilidade, mas recusa outras. Utiliza as tecnologias e participa plenamente na modernidade económica, mantendo, ao mesmo tempo, concepções familiares herdadas dos seus pais ou avós. A integração produz, então, paradoxalmente, as próprias condições da objecção: é preciso conhecer uma norma para decidir conscientemente não a adoptar. Integrar-se, mas a que valores? A questão da integração é quase sempre colocada num único sentido: por que razão alguns jovens de origem magrebina e muçulmana se recusariam a aderir plenamente aos valores da sociedade francesa? Mas esta interrogação esconde outra, muito menos frequentemente formulada: a que valores se lhes pede, exactamente, que adiram? Pois a França à qual os seus pais ou avós foram instados a integrar-se já não é exactamente aquela em que vivem hoje. As normas sociais, as representações da família, da sexualidade, da religião, da nação e das relações internacionais mudaram profundamente. O «objector de consciência cultural» não rejeita, portanto, a França enquanto comunidade política. Rejeita aquilo que considera serem certas orientações ideológicas da França contemporânea. A sua objecção torna-se, assim, selectiva: adere à liberdade, à igualdade jurídica, à solidariedade social, aos serviços públicos ou ao princípio republicano da cidadania, ao mesmo tempo que rejeita certas evoluções políticas e culturais, nomeadamente a viragem neo-fascista e os desvios sociais, que considera incompatíveis com as suas próprias convicções. A RECUSA DE UMA FRANÇA VISTA
COMO REACCIONÁRIA E DISCRIMINATÓRIA Primeiro paradoxo : alguns desses jovens filhos da imigração podem
considerar que a sociedade que lhes reprova o suposto conservadorismo conhece
ela própria um poderoso movimento de extrema-direita. Endurecimento do
discurso sobre a imigração, polémicas repetidas em torno do islão,
desconfiança em relação a certas expressões de religiosidade muçulmana,
progresso eleitoral da direita neo-fascista : tudo isto alimenta, em
alguns jovens franceses muçulmanos, a sensação de que lhes é pedido que se
«integrem» numa sociedade que, ao mesmo tempo, os rotula como um problema. A
objecção assume então uma dimensão política: por que razão deveria eu assimilar-me
inteiramente a uma sociedade cujas correntes políticas questionam
constantemente a minha própria legitimidade para fazer parte dela? Já não se
trata apenas de um apego sentimental às origens familiares. A preservação de
uma identidade distinta pode tornar-se uma reacção à experiência — real ou
sentida — da estigmatização. Esta objecção pode também ser alimentada pela percepção do racismo e da
discriminação. Um jovem francês de origem magrebina pode ter frequentado toda
a sua escolaridade em França, falar apenas ou principalmente francês,
conhecer perfeitamente os códigos sociais franceses e, mesmo assim, ter a
sensação de ser constantemente remetido para uma origem estrangeira. A
exigência de integração parece-lhe, então, contraditória: pede-se-lhe que
prove continuamente a sua pertença a uma sociedade que, na sua opinião,
continua a perguntar-lhe de onde ele «realmente» vem. Nesta configuração, a
manutenção voluntária de uma identidade magrebina ou muçulmana pode assumir
uma dimensão contestatória. O que era transmitido como herança familiar
torna-se, por vezes, uma identidade reivindicada precisamente porque é
sentida como desvalorizada ou suspeita. A assimilação deixa então de parecer
uma promessa de igualdade e pode ser interpretada como uma exigência
unilateral: apaga uma parte de ti mesmo e talvez sejas finalmente considerado
plenamente francês. Os muçulmanos rezam durante o Eid
al-Fitr no velódromo de Champ-Fleuri, em Saint-Denis da Reunião, na ilha
francesa da Reunião, no Oceano Índico, a 26 de Junho de 2017, no início do
feriado do Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadão. Os muçulmanos de todo o mundo celebram
o Eid al-Fitr, que marca o fim do mês do Ramadão, após a observação do novo
crescente lunar. / AFP PHOTO / Richard BOUHET QUANDO A PRÁTICA RELIGIOSA SE
TORNA RESISTÊNCIA CULTURAL A resistência cultural não assume necessariamente as formas espectaculares
da contestação política. Pode manifestar-se nos gestos mais comuns da vida
quotidiana. A jovem francesa muçulmana que opta por usar o véu, tal como o
jovem francês muçulmano que frequenta regularmente a mesquita, não são,
evidentemente, apenas por esses actos, militantes ou resistentes. Podem
simplesmente praticar a sua religião. Mas quando estas práticas são
conscientemente mantidas face ao que percebem como uma imposição para que
ocultem a sua singularidade, podem adquirir uma dimensão adicional: a prática
religiosa torna-se então uma afirmação de identidade e resistência cultural.
O fenómeno é particularmente interessante entre as gerações nascidas em
França. Já não se trata necessariamente de reproduzir mecanicamente os
costumes dos pais. Uma jovem pode decidir usar o véu, mesmo que a sua mãe não
o use. Um jovem pode frequentar a mesquita com mais assiduidade do que o seu
pai. A tradição deixa então de ser apenas herdada: pode ser reapropriada,
reconstruída e reivindicada. A mensagem implícita dirigida à sociedade é então diferente: «Sou
francês, mas não considero que tornar-me francês exija tornar-me
culturalmente semelhante a vocês. » Nesta perspectiva, o véu pode ser dotado, por quem o usa, de um
significado que vai além da mera prescrição religiosa: torna-se uma afirmação
pública de uma pertença que a pressão assimiladora supostamente relegava para
a esfera privada. Da mesma forma, a frequência à mesquita pode significar
mais do que o cumprimento de um ritual: pode contribuir para preservar uma
comunidade, uma memória e um sistema de valores num ambiente amplamente
secularizado, ou mesmo islamófobo. Existe aqui um paradoxo notável. Durante muito tempo, uma certa concepção
da assimilação pressupunha que a sucessão das gerações conduziria
mecanicamente ao desaparecimento da religião e dos particularismos herdados
da imigração. No entanto, acontece que se verifica exactamente o contrário: a
terceira geração pode recuperar uma identidade que a segunda tinha
parcialmente abandonado. Este fenómeno não significa uma rejeição da França.
Pode traduzir a recusa de uma equação específica: França = assimilação
cultural = desaparecimento da diferença religiosa e cultural. O objector de
consciência cultural opõe-se precisamente a essa equação. Afirma que pode ser
francês sem renunciar ao Islão, cidadão sem se tornar culturalmente
indiferenciado, integrado económica e socialmente sem aceitar que a sua
integração seja medida pelo grau de invisibilidade da sua religião e da sua
cultura de origem. A sua prática torna-se verdadeiramente «resistência»
quando responde conscientemente a uma pressão que ele percebe como
assimiladora: quanto mais lhe é dado a entender que a sua diferença deve
desaparecer para provar a sua integração, mais ele pode sentir-se tentado a
torná-la visível para afirmar que ela também tem o seu lugar na sociedade. É assim que a imposição assimiladora pode produzir exactamente aquilo que
pretende combater. Ao querer fazer desaparecer uma identidade, contribui para
a transformar num estandarte. A jovem que usa voluntariamente o seu véu ou o
jovem que mantém a sua prática religiosa podem então encarnar uma nova
figura: já não a do imigrante hesitante entre duas culturas, mas a do francês
muçulmano que se recusa a escolher entre a sua cidadania e a sua consciência.
Já não é: «Sou muçulmano apesar de ser francês.» É: «Sou francês e muçulmano,
e recuso que me obriguem a sacrificar um para provar o outro. » É precisamente nesta afirmação que pode nascer a figura do novo objector
de consciência cultural: um cidadão que não rejeita a sociedade em que vive,
mas se recusa a pagar a sua pertença com o abandono das suas convicções. A PALESTINA COMO RUPTURA POLÍTICA E MORAL Outra linha de divisão diz respeito à política internacional, em particular à questão israelo-palestiniana. Para uma parte da juventude francesa de origem magrebina ou muçulmana, a causa palestiniana ocupa um lugar simbólico considerável. Pode ser vista simultaneamente como uma questão anti-colonial, humanitária e política. Assim, o apoio diplomático ou militar prestado a Israel por certos governos ocidentais, ou, de forma mais geral, o que é percebido como um tratamento assimétrico do conflito israelo-palestiniano, pode provocar uma profunda ruptura com o discurso institucional francês. Para o objector cultural de que aqui se trata, a Palestina pode assim tornar-se o símbolo de uma contradição: como aderir sem reservas às orientações de um Estado que se considera que defende, ou defendeu, uma política internacional contrária às suas próprias convicções? A fractura mais profunda é talvez cultural. Uma parte da juventude muçulmana continua ligada a uma concepção tradicional da família, do casal, da filiação, do recato e da sexualidade. Pode, portanto, entrar em conflito com certas evoluções da sociedade francesa no que diz respeito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, às representações de género ou à visibilidade social das pessoas LGBT. Alguns jovens, nomeadamente quando raciocinam com base em convicções religiosas conservadoras, podem qualificar estas evoluções de «decadentes». O PARADOXO DE UMA SOCIEDADE
QUE CELEBRA A DIVERSIDADE MAS EXIGE ADESÃO Estamos aqui perante uma das contradições mais interessantes da França contemporânea. A sociedade afirma de bom grado que cada um deve ser livre para construir a sua identidade, escolher as suas convicções, definir o seu modo de vida e emancipar-se das normas tradicionais. Mas o que acontece quando essa liberdade produz precisamente o contrário do que se esperava? O que acontece quando um jovem de origem imigrante usa a sua autonomia não para romper com a religião dos seus pais, mas para a praticar ainda mais? Quando uma jovem reivindica livremente uma concepção religiosa do recato? Quando um indivíduo recusa certas normas sexuais contemporâneas sem querer proibi-las aos outros? Quando um jovem francês de origem magrebina reivindica simultaneamente a sua cidadania francesa e o seu apego à Palestina? A liberdade individual não pode ser autêntica se só se aplicar às escolhas culturalmente aprovadas. É aqui que a figura do objector de consciência cultural adquire todo o seu significado. O jovem francês de origem imigrante volta contra a sociedade moderna um dos seus próprios princípios: a soberania do indivíduo sobre a sua consciência. Diz-lhe, em essência: ensinaram-me que devia pensar por mim próprio; aceitem, portanto, que eu não pense como vocês. A INTEGRAÇÃO NÃO PODE
SIGNIFICAR A RENDIÇÃO DA CONSCIÊNCIA O problema de fundo não é, portanto, que alguns jovens de origem
imigrante recusem qualquer integração. É que o termo «integração» abrange
exigências muito diferentes. Respeitar a lei comum é uma coisa. Renunciar a
qualquer crítica à sociedade francesa é outra. É possível ser cidadão francês
e combater politicamente o racismo. É possível ser francês e denunciar a
política do seu governo em relação a Israel e à Palestina. É possível ser
muçulmano praticante e respeitar integralmente os direitos das pessoas LGBT,
mantendo, ao mesmo tempo, pessoalmente, uma moral sexual religiosa. É
possível, finalmente, pertencer plenamente à comunidade política sem
considerar a cultura maioritária como um modelo ao qual se deva conformar em
todos os aspectos. O objector de consciência cultural surge, então, não como aquele que proclama: «Recuso a França», mas como aquele que afirma: «Recuso que a minha pertença à França esteja condicionada ao abandono da minha consciência.» Toda a questão democrática reside nesta distinção. Uma sociedade pode legitimamente impor as suas leis comuns. Pode combater as discriminações e proteger cada um contra as violações dos seus direitos. Mas se pretender também determinar aquilo em que cada cidadão deve acreditar intimamente, aprovar e considerar como moral, já não exige apenas a integração: exige o alinhamento das consciências. UMA ASSIMILAÇÃO TORNADA MAIS
DIFÍCIL DE IMPOR Esta resistência cultural deve também ser contextualizada no âmbito das
transformações contemporâneas. As grandes migrações europeias dos séculos XIX
e XX ocorreram num mundo em que os laços com o país de origem podiam
enfraquecer-se rapidamente. As distâncias eram consideráveis, as comunicações
difíceis e as culturas minoritárias dispunham de poucos meios para manter as
suas referências no dia a dia. O mundo digital alterou profundamente esta
situação. A Internet, os canais por satélite, as redes sociais, as
comunicações instantâneas e a facilidade de viajar permitem agora viver
simultaneamente em vários espaços culturais. Uma pessoa nascida em Rouen,
Lyon ou Marselha pode manter contacto diário com pessoas que vivem em Argel,
Dacar, Casablanca, Tunes ou noutro qualquer lugar do mundo. O antigo mecanismo de assimilação, baseado na dissolução progressiva das
referências culturais familiares, depara-se assim com novas resistências. A
identidade já não está condenada a escolher entre duas pertenças exclusivas.
Pode tornar-se cumulativa: francesa pela cidadania e pela socialização,
magrebina pela memória familiar, muçulmana pela religião, europeia pelo
espaço de vida. Surge, no entanto, uma dificuldade quando a sociedade maioritária transforma implicitamente alguns dos seus hábitos em critérios de integração. O respeito pela lei é uma exigência legítima da comunidade política. A adopção de todos os costumes da maioria obedece a uma lógica totalmente diferente. Um Estado pode legitimamente exigir que todos os cidadãos respeitem as mesmas leis. Não pode, contudo, exigir — sem entrar em contradição com a liberdade individual — que cada um tenha exactamente os mesmos gostos, os mesmos hábitos alimentares, as mesmas convicções religiosas ou a mesma concepção da existência. A fronteira é, portanto, fundamental. A República pode exigir a obediência à lei; não pode exigir a uniformidade das consciências. É precisamente neste espaço situado entre a obrigação jurídica e a pressão social que se manifesta aquilo a que se poderia chamar a «objecção de consciência cultural», desenvolvida pelos jovens franceses de origem imigrante. O interesse do conceito reside também em evitar duas representações simetricamente simplificadoras. A primeira consiste em considerar toda a persistência cultural como prova de uma recusa da França. A segunda consistiria, inversamente, em apresentar qualquer reivindicação cultural como necessariamente emancipadora. Uma norma tradicional também pode ser constrangedora. A pressão familiar ou comunitária pode limitar a liberdade individual com a mesma certeza que uma pressão assimiladora. Um indivíduo pode sofrer a obrigação implícita de permanecer fiel ao seu grupo, tal como pode sofrer a de se afastar dele. O verdadeiro desafio continua, portanto, a ser a liberdade de consciência do indivíduo. Este deve poder conservar uma herança, tal como deve poder abandoná-la. Acreditar ou não acreditar. Transmitir certas tradições ou romper com elas. O objector de consciência cultural só é verdadeiramente um objector se a sua escolha decorrer da sua própria consciência e não de outra coacção colectiva que se substitua àquela que alega recusar. OS NOVOS DISSIDENTES DO
OCIDENTE Nesta perspectiva, o «objector de consciência cultural» deixa de ser
visto simplesmente como um jovem francês, de origem imigrante,
insuficientemente assimilado. Torna-se, em certos casos, um dissidente cultural:
um indivíduo socializado no Ocidente que rejeita conscientemente uma parte
das suas normas dominantes e contesta a pretensão destas de constituírem o
horizonte universal do progresso. O paradoxo é considerável. Durante décadas, o discurso dominante apresentou
a emancipação como uma ruptura com as tradições religiosas, familiares e
comunitárias. Ser moderno significava libertar-se das heranças, afastar-se
das antigas prescrições morais e conquistar cada vez mais autonomia
individual. Ora, eis que surge uma geração de origem imigrante, cujos
membros, em alguns casos, voltam essa autonomia contra o próprio modelo que
pretendia emancipá-los. Não querem ser libertados de todas as heranças
transmitidas pelos seus pais. Pelo contrário, alguns optam por as reaproveitar,
reinterpretar e, por vezes, transformá-las em recursos críticos face à
sociedade contemporânea. A reviravolta é impressionante: a autonomia que a modernidade ocidental deveria utilizar para dissolver as tradições torna-se precisamente o instrumento que permite a certos indivíduos de origem imigrante reivindicá-las livremente. Eles dizem, em essência: «Ensinaram-me a pensar livremente; utilizo precisamente essa liberdade para rejeitar alguns dos vossos valores.» A dissidência começa aqui. Já não consiste apenas em preservar algumas práticas específicas. Consiste em contestar a ideia de que a evolução cultural do Ocidente constituiria necessariamente o destino para o qual todas as sociedades e todos os indivíduos deveriam convergir. UMA DISSIDÊNCIA NASCIDA NO PRÓPRIO CORAÇÃO DO OCIDENTE No entanto, estes novos dissidentes não estão alheios ao mundo que contestam. É precisamente isso que distingue profundamente a sua situação da das gerações de imigrantes anteriores. Estes franceses de origem imigrante nasceram, muitas vezes, em França, frequentaram as suas escolas, falam francês, utilizam as mesmas tecnologias, acedem às mesmas plataformas, ouvem frequentemente a mesma música, frequentam as mesmas universidades e trabalham nas mesmas empresas que os outros jovens da sua geração. Conhecem, portanto, a sociedade francesa não a partir da sua periferia, mas a partir de dentro. A sua singularidade reside noutro aspeto: recusam que essa socialização implique a sua adesão ideológica e moral a todas as normas dominantes. Estão culturalmente familiarizados com o Ocidente, mas contestam algumas das suas orientações. Dominam os seus códigos sem os sacralizar. Beneficiam das suas liberdades sem considerar que estas os obriguem a aprovar todas as transformações sociais realizadas em seu nome. É por isso que a sua recusa nem sempre pode ser interpretada como uma sobrevivência mecânica da cultura dos pais. Pode tornar-se uma escolha reflexiva. Observam a sociedade em que cresceram, comparam-na com os valores familiares ou religiosos que lhes foram transmitidos e procedem à sua própria selecção. Adoptam certas normas, transformam outras e rejeitam algumas. Alguns podem, assim, rejeitar o que percebem como individualismo exacerbado, o enfraquecimento da solidariedade familiar, a hipersexualização da sociedade, a mercantilização das relações humanas ou certas concepções contemporâneas de género e sexualidade. Os mais críticos podem reunir estes fenómenos sob uma fórmula radical: «o Ocidente decadente». O termo «decadência» constitui, evidentemente, um julgamento moral e político. Mas esse julgamento merece ser analisado, em vez de simplesmente rejeitado. O que para uns parece ser uma ampliação das liberdades individuais pode, para outros, parecer uma dissolução dos pontos de referência colectivos. Enquanto alguns vêem a emancipação das antigas restricções familiares e sexuais, outros vêem o enfraquecimento da família e o desaparecimento dos quadros morais comuns. A dissidência começa precisamente quando o francês de origem imigrante se recusa a aceitar que a definição dominante de «progresso» lhe seja imposta como uma evidência. OS OBJECTORES CULTURAIS, NOVA VANGUARDA DA DISSIDÊNCIA Os jovens franceses de origem imigrante que assumem esta objecção de
consciência cultural talvez encarnem, à sua maneira, uma das novas vanguardas
da dissidência nas sociedades ocidentais contemporâneas. Não que formem um
grupo homogéneo, animado por uma consciência política comum, mas porque uma
parte deles opõe às imposições dominantes uma resistência que, precisamente,
menos se esperava das gerações nascidas, criadas e socializadas no Ocidente. O paradoxo é histórico. A dissidência esteve durante muito tempo
associada, no imaginário ocidental, àquele que se erguia contra uma sociedade
considerada autoritária, tradicional ou religiosa em nome da liberdade
individual. Hoje surge uma figura quase invertida: o francês de origem
imigrante que mobiliza essa mesma liberdade para resistir a certas normas
produzidas pela própria modernidade ocidental. Já não pede para ser libertado da tradição. Reivindica o direito de a
conservar. Não exige necessariamente mais individualismo; pode defender a
família, a transmissão de valores e as solidariedades colectivas. Não
considera a secularização integral das existências como o desfecho natural da
história. E, acima de tudo, recusa que aquilo a que o Ocidente contemporâneo
chama «progresso» seja erigido em verdade universal à qual toda a consciência
deveria, em última análise, aderir. É neste sentido que o objector de consciência cultural, encarnado pelo jovem francês de origem imigrante, pode tornar-se um dissidente. Já não se contenta em dizer: «Deixem-me viver de forma diferente.» Coloca uma questão muito mais perturbadora: «Quem vos deu o poder de definir, para todos, o que é moderno, progressista, emancipador ou desejável? » E talvez seja aí que resida a dimensão mais subversiva desta nova dissidência: ela não nasce nas margens do Ocidente, mas entre os seus próprios filhos. Fala a sua língua, conhece as suas instituições, utiliza as suas tecnologias e domina os seus códigos, recusando-se, ao mesmo tempo, a ceder-lhe o monopólio da definição do progresso. A RECUSA DO CONSUMISMO E DO
INDIVIDUALISMO Esta objecção seria, no entanto, mal interpretada se a reduzíssemos
exclusivamente à religião, ao véu, à família ou à sexualidade. Pois o
Ocidente contemporâneo não é apenas aquele das transformações sociais. É
também aquele da mercadoria omnipresente, da publicidade, da concorrência
económica, da obsolescência acelerada, do consumo erigido em modo de
existência e do indivíduo constantemente chamado a construir-se como uma
empresa de si mesmo. A crítica pode, então, aliar-se, por um caminho
diferente, a certas críticas históricas ao capitalismo. Um jovem francês de origem imigrante, ligado à família alargada, à ajuda
mútua inter-geracional, às solidariedades comunitárias ou a certas obrigações
para com os pais, pode sentir uma certa distância em relação a uma sociedade
ocidental que valoriza fortemente a autonomia individual e na qual uma parte
crescente das relações sociais passa pelo mercado. A própria família torna-se, assim, um terreno de resistência. Enquanto a
modernidade capitalista tende a produzir indivíduos cada vez mais autónomos,
móveis e disponíveis para o mercado de trabalho e de consumo, certas culturas
familiares continuam a valorizar a permanência dos laços, a obrigação para
com os entes queridos, a ajuda mútua entre gerações e a pertença a um colectivo
que precede o indivíduo. A resistência já não é, portanto, apenas religiosa.
Pode assumir a forma de uma crítica social à modernidade capitalista,
nomeadamente através da recusa do trabalho alienante. Mas esta dissidência possui as suas próprias contradições. Quem critica o consumismo pode desejar os mesmos bens que os outros. Quem denuncia o individualismo pode passar horas nas plataformas digitais. Quem rejeita certos aspectos da modernidade ocidental pode adoptar plenamente as suas tecnologias, os seus estilos de vestuário e as suas práticas de consumo. Esta contradição não invalida a crítica. Revela, antes, uma situação característica das sociedades contemporâneas: é possível estar materialmente integrado num sistema, ao mesmo tempo que se contesta o seu universo moral. É precisamente por isso que estes jovens franceses de origem imigrante constituem uma figura sociologicamente interessante. Não vivem à margem da modernidade ocidental. Vivem no seu seio, utilizam os seus instrumentos e participam na sua economia, mas recusam-se a aderir-lhe totalmente. Não contestam, portanto, o Ocidente a partir de um «outro» cultural intacto. Contestam-no a partir do próprio interior das suas contradições. OS FILHOS DA INTEGRAÇÃO
TORNARAM-SE SEUS CONTESTADORES Assistimos, assim, a um fenómeno paradoxal: a própria integração gera os
seus próprios contestatários. Estes jovens franceses de origem imigrante
conhecem a sociedade francesa o suficiente para a poderem criticar a partir
de dentro. A sua dissidência não constitui, portanto, prova da sua
exterioridade em relação à França. Pelo contrário, testemunha a sua profunda
inserção nas suas contradições. São franceses, mas recusam que «francês» signifique culturalmente
assimilado. Vivem no Ocidente, mas recusam-se a considerá-lo o horizonte
insuperável da humanidade. Utilizam as liberdades proporcionadas por esta
sociedade para contestar certas orientações consideradas decadentes. A figura histórica do imigrante obrigado a integrar-se inverte-se, assim,
completamente. Já não estamos perante um indivíduo culturalmente situado na
periferia da sociedade francesa e que seria necessário conduzir para o seu
centro. Podemos estar perante um francês perfeitamente socializado que
conhece esse centro, vive nele, mas se recusa conscientemente a adoptar todas
as suas normas. É por isso que a noção de «fracasso da integração» se torna
insuficiente. Ela pressupõe que a assimilação constituía o objectivo desejado
e que quem não o alcança seria incapaz de o fazer. Ora, o objector cultural
introduz uma hipótese ainda mais perturbadora: e se ele simplesmente não
quisesse ser assimilado? Não se trata, então, de uma incapacidade, mas de uma
recusa. Não se trata apenas de uma diferença herdada, mas de uma diferença
reivindicada. Não se trata de um défice de integração, mas de uma dissidência
cultural. É por isso que alguns destes jovens franceses de origem imigrante podem ser descritos como os novos objectores de consciência culturais: não como exilados que vivem mentalmente noutro lugar, mas como contestatários instalados no próprio coração da sociedade francesa que questionam. O Ocidente ensinou-lhes a autonomia individual, a liberdade de consciência e o direito de escolher as suas convicções. Hoje, alguns levam esses princípios à letra e voltam-nos contra a sociedade que os proclamou. Reivindicam até o direito de não quererem assemelhar-se a ela: o direito de praticar ostensivamente a sua religião, de usar o véu, de frequentar a mesquita, mas também de contestar as orientações geo-políticas dominantes e de afirmar o seu anti-sionismo. A INTEGRAÇÃO NÃO É A LEALDADE
CULTURAL É, afinal, aqui que a comparação com a objecção de consciência recupera
todo o seu significado. O objector militar afirmava que o Estado não podia
dispor inteiramente da sua consciência em nome da obrigação militar. O objector
cultural afirma, por sua vez, que a sociedade não tem qualquer direito
absoluto sobre a sua identidade, as suas convicções e a sua visão de uma vida
boa. Aceita a lei comum, mas recusa que esta se estenda a uma obrigação
implícita de conformidade cultural. Aceita a cidadania francesa, mas rejeita
a ideia de que essa cidadania deva conduzir ao apagamento da sua religião, da
sua memória familiar ou de alguns dos seus valores. Pois a integração social
não é uma lealdade cultural. Estar integrado significa participar na
sociedade, respeitar as suas leis e reconhecer os mesmos direitos aos outros
cidadãos. Isso não significa aprovar todas as suas evoluções (desvios)
políticas, morais ou culturais. Um cidadão não tem mais a obrigação de gostar
dos costumes dominantes do que tem de aprovar a política externa do seu
governo. É precisamente neste espaço que surge a figura do objector de consciência
cultural. Pode ser francês sem desejar tornar-se culturalmente intercambiável
com a maioria. Pode ser muçulmano sem estar alheio à nação. Pode frequentar
uma mesquita, manter uma moral religiosa, defender a Palestina ou criticar
certas evoluções da sociedade ocidental sem que essas posições constituam,
por si só, uma ruptura com a cidadania francesa. A sua objecção resume-se, em última análise, a uma fórmula: «Respeitarei
as leis comuns, mas não vos entregarei a minha consciência.» E talvez seja este o paradoxo mais marcante da assimilação contemporânea.
Uma sociedade que elevou a autonomia individual ao estatuto de valor supremo
descobre que alguns dos seus filhos, nomeadamente os de origem imigrante,
utilizam precisamente essa autonomia para se recusarem a assemelhar-se a ela. Estes novos objectores não são, portanto, os excluídos da integração.
Podem tornar-se os seus dissidentes culturais: suficientemente integrados para
conhecer as normas da sociedade francesa, suficientemente autónomos para as
examinar e suficientemente ligados à sua liberdade de consciência para
rejeitar algumas delas, ou mesmo combatê-las politicamente. A questão já não é, portanto: «Porque é que se recusam a integrar-se?»
Passa a ser: «Porque é que, para ser plenamente francês, seria necessário
pensar, acreditar e viver culturalmente como a maioria?» Khider MESLOUB |
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice





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