22 de Outubro de
2026 Robert Bibeau
Por Amar Djerrad
A ideologia wahhabi-salafista é percebida por muitos pensadores e teólogos como um enorme obstáculo que bloqueia o mundo muçulmano ao afastar a razão, a modernidade e os avanços científicos. Alimentada por interesses financeiros, mantém os crentes sob influência através de mecanismos de persuasão, adesão consentida e uma disciplina moral rigorosa, especialmente em relação às mulheres. Diante desta dominação sobre a fé, torna-se necessário analisar os mecanismos políticos, históricos e teológicos deste pensamento para emancipar as mentes e mobilizar as consciências.
I – Expansionismo wahhabi-salafista e
resistência das nações
Enquanto o mundo muçulmano enfrenta desafios científicos e tecnológicos
consideráveis, alguns sectores rígidos continuam a paralisar o pensamento ao
impor um fechamento identitário enraizado em antigas tradições, o que os mantém
fora do progresso contemporâneo. Perante esta contradição moral, esta
preocupação desmesurada com questões íntimas e esta resistência à reflexão
racional, torna-se imperativo pôr em evidência esta manipulação e controlo
sobre a interpretação religiosa, revelando os fundamentos históricos, políticos
e psicológicos que alimentam a sua expansão nas sociedades muçulmanas.
Percebido como um mecanismo de subjugação para alguns e uma oportunidade
lucrativa para outros, o islão-salafismo transformou-se numa formidável máquina
de controlo social e político. Ao substituir a riqueza espiritual da mensagem
corânica por um sistema arbitrário de prescrições e proibições, estes
movimentos realizaram uma façanha notável: a de colocar milhões de crentes sob
a dominação dos interesses particulares de uma elite de pregadores e dos seus financiadores.
Para combater esse desvio e libertar as consciências perdidas, a luta deve
acontecer simultaneamente nos planos teológico, societal, racional e histórico.
Para entender porque este discurso fatalista está em todo o lado hoje em
dia, é preciso estudar como ele se propaga: através do wahhabismo. Este
movimento nasceu no século XVIII de um acordo entre o poder político e a
religião. No século XX, tornou-se um produto que se exporta para todo o lado,
financiado pelo dinheiro do petróleo. Com milhares de milhões de dólares,
destruiu gradualmente as formas tradicionais, locais e abertas de islão para as
substituir por um retraimento sobre si mesmo e uma oposição ao progresso. É
esta ideologia que apoiou a Al Qaida e outros movimentos islamistas.
Perante esta ofensiva, é imperativo
sublinhar que os próprios países muçulmanos estão empenhados com determinação
contra este extremismo, muitas vezes à custa de sacrifícios consideráveis. O
exemplo mais marcante continua a ser o da Argélia. Confrontada nos anos 1990
com uma insurreição armada bárbara liderada por grupos terroristas islâmicos —
nomeadamente o GIA (Grupo Islâmico Armado) — a nação argelina teve de travar
uma guerra total e implacável durante dez anos (a Década Negra) para vencer e
neutralizar esses movimentos fanáticos. Esta vitória militar e ideológica
recorda que as primeiras vítimas do islamismo são os próprios muçulmanos, e que
a resistência ao obscurantismo é uma questão de sobrevivência nacional.
Actualmente, este «falso islamismo paralelo» atravessa uma grande crise de viabilidade moral, política e económica no cenário mundial. Confrontado com os distúrbios provocados pelo extremismo, o regime saudita, liderado pelo rei Mohammed bin Salman, está a levar a cabo uma transformação profunda da sociedade e da esfera religiosa, impondo uma disciplina rigorosa aos principais responsáveis religiosos, obrigando-os a rever as suas orientações doutrinárias. Esta retoma de controlo provocou uma divisão dentro do movimento. Alguns chouyoukh (anciões – NdT) submeteram-se, admitindo publicamente que haviam deturpado o ensino religioso, enquanto os dissidentes foram silenciados ou forçados ao exílio.
II – Mecanismos
psicológicos da submissão voluntária
O wahhabismo-salafismo recorre a uma estratégia de subjugação psicológica e social particularmente insidiosa. Mantendo as populações em precariedade material e intelectual, esta corrente estabelece uma relação de dependência. As dificuldades de subsistência e a ausência de perspectivas são então exploradas: a doutrina justifica a miséria social atribuindo-a a uma suposta falta de fé dos fiéis. Este círculo vicioso permite intensificar o doutrinamento, com os indivíduos à procura de um refúgio espiritual junto daqueles que perpetuam a sua vulnerabilidade.
Para recrutar e manter as suas tropas sob controlo, estes grupos sectários
não inventam nada: aplicam mecanismos psicológicos de manipulação de massas
muito eficazes, elaborados para explorar a fraqueza humana.
· A primeira etapa consiste em quebrar a auto-estima do indivíduo. Ao agitar constantemente o espectro do castigo da sepultura, do fim do mundo e dos tormentos do inferno por cada pequeno desvio das suas regras, os recrutadores mergulham a vítima numa ansiedade. Uma mente assustada e culpabilizada é fácil de controlar e está pronta para obedecer para encontrar a sua "salvação".
· Em troca deste medo, lisonjeiam o ego do novo membro, dando-lhe o título de "salvo" ou de membro do "grupo dos sobreviventes" (elfirqa ennajia; الفرقة الناجية). Este título ajuda a reduzir uma forte dissonância cognitiva: para justificar a violência psicológica e as regras absurdas, a mente do adepto convence-se de que o sacrifício vale a pena. O indivíduo esquece a sua precariedade social acreditando possuir a verdadeira fé. Este sentimento de superioridade moral compensa as desilusões do mundo real.
· O pensamento salafista elimina toda subtilidade e complexidade para impor uma visão simples e reconfortante da vida moderna: o lícito (halal) versus o ilícito (haram), o puro versus o impuro, o crente versus o descrente. Esta leitura simplista dispensa o indivíduo de qualquer reflexão e da responsabilidade pelas próprias escolhas. Ao aceitar a ideia fatalista (de que tudo já está “escrito”), o adepto livra-se de qualquer culpa, vendo-se apenas como um executante de um plano divino.
· Através da obrigação de romper com tudo o que é diferente, o membro é forçado a afastar-se da família, dos amigos e da sua cultura nacional. Privado dos seus pontos de referência habituais, a pessoa torna-se inteiramente submissa ao grupo e às palavras dos seus mestres.
III – A tradição
perante o desafio da racionalidade
Outro método de manipulação salafista baseia-se quase exclusivamente na «tradição» transmitida pelos escritos antigos. Para justificar as suas interpretações delirantes, os chouyoukh sacralizaram um conjunto de relatos, nomeadamente os hadiths de al-Boukhari, correndo o risco de contradizer directamente os versículos corânicos e de manchar a dignidade das acções do Profeta, que o Corão descreve como possuindo uma «moralidade eminente».
Para afirmar a sua autoridade, os pregadores wahhabitas privilegiam o corpo
de hadiths de Al-Boukhari, compilado sob a dinastia abássida num contexto de
lutas políticas.
· Muitos estudiosos questionam a exclusividade deste trabalho, vendo-o como uma compilação tardia de relatos heterogéneos. Al-Boukhari é então percebido como um executor, ou até mesmo como um «testa-de-ferro» (ou homem de palha) que serviu, em vida ou postumamente, os interesses políticos dos califas da época.
· Alguns chegam a afirmar que o Alcorão precisa mais da Sunnah do que o contrário; como se as palavras e os actos do Profeta surgissem do nada. Outros aceitam o que chamam de «amamentação do adulto» (Radâ’ al-Kabîr) para estabelecer laços de parentesco baseando-se, segundo eles, num hadith. Mas a maioria dos estudiosos muçulmanos rejeita esta ideia irrazoável. Quando esses relatos contradizem claramente o Alcorão, a corrente salafista contorna o problema abusando do conceito de ab-rogação (versículos chamados «mansukh»). Este processo permite-lhes declarar inoperantes certos preceitos corânicos em favor de tradições que servem os seus interesses.
· Alguns pensadores questionam o consenso (ijmâ) tradicional — embora muitos muçulmanos o considerem uma fonte de direito — vendo-o como um desvio. Para estes críticos, só a revelação (Deus e o Profeta) detém a legitimidade legislativa. O parecer unânime dos eruditos religiosos, portanto, não pode mudar nem criar regras divinas. O seu argumento baseia-se neste versículo do Corão: «Ou terão parceiros [para Deus] que estabeleceram para eles leis religiosas que Allah nunca permitiu?» (Sura 42, versículo 21).
Para libertar as consciências, é importante:
· Denunciar a personificação insidiosa: Querer atribuir sentimentos humanos a Deus, como faz o salafismo, acaba por limitar a sua transcendência. A acção de Deus vai além desta visão simplista. Ela afirma-se antes como a fonte da justiça e o guia da nossa responsabilidade moral.
· Fazer um exame atento dos textos antigos: Os muçulmanos devem distinguir entre a Revelação e este charlatanismo feito de lendas antigas — completamente inventadas, muitas vezes absurdas e contrárias ao sentido do Alcorão — que visavam captar a atenção das multidões e manipular os seus sentimentos.
· Para evitar críticas, o meio salafista criou uma frase estranha: «Eddinou binaqli oua layssa bi eleaqli» (A religião transmite-se, não se pensa), chegando mesmo a proibir a filosofia. Este obscurantismo total condena-os a uma estagnação material e moral inevitável.
Para sensibilizar as populações vítimas de manipulação, convém revelar a sua incoerência manifesta:
· Exigir coerência ou ascetismo: Se o progresso moderno e a racionalidade são obra de “infiéis” (koufar), por que é que esses pregadores de barba bem pagos se apressam a usar a Internet, aviões, comboios, smartphones, ar-condicionado, frigoríficos, carros, medicina moderna, etc.? Tirar proveito da ciência enquanto a amaldiçoam é a própria definição de duplicidade.
· Dar prioridade ao trabalho: Enquanto o resto da humanidade avança graças à inteligência e ao esforço, o discurso rigorista esforça-se por manter o mundo muçulmano na imobilidade e no atraso tecnológico. Deus não intervém a favor da inércia; ele apoia quem age com discernimento.
IV – As mulheres, eternos bodes expiatórios
Incapazes de formular um pensamento estruturado sobre ciência, tecnologia ou progresso material, os pregadores das ruas e dos espaços digitais escolheram o seu alvo preferido: a mulher. O discurso salafista revela uma obsessão patológica que expressa uma frustração sexual profunda e uma fragilidade masculina acentuada.
Do ponto de vista comportamental, a
doutrina explora as frustrações emocionais e sexuais resultantes de uma
separação rigorosa entre os géneros. Os pensadores salafistas contornam este
obstáculo material através de dois mecanismos:
· O sacrifício em nome da jihad é incentivado pela perspectiva de recompensas paradisíacas (acesso às Houris; as Virgens - NdT). É até garantido que, após a morte, contrairão casamento nas suas sepulturas. Esta exploração da juventude, em particular, está cristalizada num ditado popular do Magrebe: "Confia-me o teu filho para que ele pereça no lugar do meu".
· No mundo real, este movimento utiliza textos e costumes antigos do passado para justificar casamentos precoces com raparigas menores de idade. Baseia-se no exemplo do casamento do Profeta com Aisha, afirmando que ela tinha 9 anos na altura. No entanto, muitos estudiosos mostraram, ao comparar a informação histórica disponível, que Aisha provavelmente tinha entre 17 e 18 anos na altura deste casamento.
– Sobre o niqab e o jilbab:
Hoje em dia, o niqab e o jilbab situam-se entre dois pólos opostos.
Eles representam um duplo paradoxo: apresentados como símbolos de autonomia
pessoal nos contextos em que são proibidos, transformam-se em ferramentas de
dominação estrutural quando o seu uso se torna obrigatório.
Mesmo que se aceite o princípio de que a mulher é livre de cobrir a cabeça,
tornar o niqab e o jilbab — que escondem todo o corpo — uma obrigação religiosa
constitui uma farsa teológico-vestimentária. Isto é resultado de uma
interpretação arbitrária e fanática por parte de chouyoukh claramente guiados por preocupações de ordem sexual.
Afirmar que a vontade divina consiste em esconder completamente a mulher é
insinuar que o Criador teria cometido um erro ao lhe dar um rosto, cabelo e
mãos, o que se assemelha a uma forma de associacionismo (shirk). No entanto, o versículo continua explícito: «… e que elas baixem o
véu sobre os seus peitos …» (Surata An-Nour, 24:31; walyadribna bi-khumurihinna âla juyubihinna…).
Enquanto as mulheres permanecerem marginalizadas ou oprimidas, o progresso
e o bem-estar continuarão fora do alcance do mundo muçulmano.
– Confrontar esta visão tirânica exige uma desconstrução metódica:
• Recusar a dualidade moral: Porque o dogma actual exige que as mulheres sejam invisíveis, mudas, dóceis e submissas, enquanto privam totalmente os homens dos seus impulsos ou actos abjectos.
• Educar as mulheres: De facto, é precisamente porque o seu conhecimento preocupa estes charlatães que se esforçam por limitar o seu acesso à educação. A consciência colectiva emergirá do reconhecimento das mulheres como seres autónomos, intelectualmente equivalentes e moralmente responsáveis.
Conclusão: Engano comercial e despertar das consciências
O ditado popular exprime-o com precisão: « Rabi iqathar ettnouha bach iichou elfayqine » (Que Deus multiplique
os ingénuos para que prosperem os lúcidos). Os responsáveis por estes
movimentos sectários acumulam fortunas explorando a ignorância intelectual dos
seus seguidores, reduzindo os crentes a simples "carne para canhão",
enquanto eles próprios e os seus próximos desfrutam dos recursos terrestres que
o Criador destinou para toda a humanidade.
Tentar encaixar a modernidade do século XXI numa estrutura social de
quatorze séculos atrás é uma aberração destrutiva. A libertação da
espiritualidade muçulmana requer desmontar a barreira comercial que é
representada pela ideologia wahhabo-salafista. É apoiando-se no exemplo das
comunidades muçulmanas que resistiram à barbárie que a fé poderá reconstruir-se
em torno dos seus fundamentos autênticos: equidade, generosidade, conhecimento
e razão.
Amar Djerrad
——
Para aprofundar o tema, aqui está esta
selecção de vídeos (em árabe), entre as centenas disponíveis nas redes sociais,
que ilustram os temas abordados neste artigo:
https://www.facebook.com/reel/3083845441785778
https://www.facebook.com/reel/619049267347614
Fonte: L’Imposture
wahhabo-salafiste : Démonter le dogme, libérer les consciences – les 7 du
quebec


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