sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Violência de classe



Violência de classe


Ridha Klouche

 

Para Karl Marx, o capitalismo não se impôs naturalmente pela simples virtude do comércio ou do livre mercado, mas foi gerado numa imensa violência histórica e material à escala planetária. 

Na sua obra principal, O Capital, esta ideia é conceptualizada através da teoria da chamada acumulação primitiva. A célebre citação que resume o seu pensamento afirma que «o capital nasce no mundo todo ensopado de sangue e imundíce por todos os poros, da cabeça aos pés». 

Aqui está como a violência e a subsistência material (a comida) se articulam na génese do capitalismo segundo Marx:

1. A Violência: A expropriação e o nascimento do proletariado 

Para que o capitalismo nascesse, foi necessário arrancar os camponeses às suas terras. Este é o fenómeno histórico das cercas (enclosures) na Inglaterra:

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A espoliação das terras: Os senhores e o Estado cercaram as terras comuns (os comunais) onde os camponeses viviam e cultivavam a sua própria comida.

A criação da força de trabalho: Privados dos seus meios de produção e das suas terras, esses camponeses não tinham mais nada. Para sobreviver, foram forçados a migrar para as cidades para vender a única coisa que lhes restava: a sua força de trabalho. É o nascimento da classe operária (o proletariado).

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O terror do Estado: Aqueles que recusavam este novo sistema de salário e se tornavam vagabundos eram sujeitos a leis de extrema violência (chicote, marca a ferro em brasa, tortura) para os forçar a entrar na fábrica.

Desenraizados e tornados vagabundos, foram enforcados aos milhares cf. Marx

2. A comida: A dependência vital do trabalhador

Nos sistemas feudais ou de produção mercantil simples, os indivíduos podiam produzir a sua própria comida. O capitalismo quebra essa autonomia:

Marxists Internet Archive

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A mercantilização das necessidades vitais: Ao separar o trabalhador da terra, o capitalismo transforma os alimentos em mercadorias que é obrigatório comprar para sobreviver. 

O estômago como meio de pressão: Marx nota que a coerção capitalista já não precisa usar o chicote no dia a dia (ao contrário da escravatura). Usa uma violência mais subtil: a fome. O trabalhador «livre» submete-se à exploração e aceita um salário inferior ao valor que produz porque as suas necessidades vitais imediatas (alimentar-se, ter onde morar) o obrigam.

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3. A violência mundial: Escravatura e Colonialismo

O crescimento inicial do capitalismo europeu não se limitou às fronteiras das fábricas. Marx demonstra que o sistema teve uma necessidade estrutural de violência internacional para acumular os seus primeiros grandes capitais:

O saque colonial e a conquista de mercados mundiais.

O tráfico de humanos e a escravatura nas plantações (principalmente de algodão e açúcar), que forneceram as matérias-primas fundamentais para a industrialização europeia.

Para aprofundar os textos originais sobre este processo histórico, podem consultar a secção dedicada à chamada acumulação primitiva no Marxists Internet Archive

Marxists Internet Archive

https://www.marxists.org

K. Marx - Um capítulo inédito do Capital (Apresentação)

É nesse sentido que a violência ou o Estado é um agente económico (Engels). [45]. O que distingue, portanto, a produção especificamente capitalista de ...

UQAM

https://www.classiques.uqam.ca

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Leitura do Capital de Marx - Os Clássicos das ciências sociais

 

Fonte: facebook de Ridha Klouche

Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



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