quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Iémen, Arábia Saudita, Líbano: Por quem os sinos tocam?

 


Iémen, Arábia Saudita, Líbano: Por quem os sinos tocam?

René Naba / 1 DE DEZEMBRO DE 2021 / EM Actualités, Décryptage

A Arábia Saudita perante o duplo desafio do Iémen e do Líbano

1. Iémen: A guerra a portas fechadas de um estado desordeiro; um passeio de saúde que se transforma num pesadelo

2. Líbano-Arábia Saudita: O Caso Georges Cordahi; o Líbano refém da fúria de Mohammed bin Salman.

A Arábia Saudita, o maior e mais rico país árabe, conduz, simultaneamente, uma guerra militar contra o Iémen, o país árabe mais pobre, e uma guerra económica contra o Líbano, o menor país árabe, sem que o resultado seja garantido para este 5.º cliente de armamento mundial, nem para este gigante da economia mundial, membro do G20.

Mas nesta prova de força, o líder do Islão sunita enfrenta, na verdade, dois adversários temíveis, duas personalidades carismáticas com um currículo militar infinitamente mais prestigiado do que o seu: No Líbano, Hassan Nasrallah, chefe do Hezbollah, xiita, e no Iémen, Abdel Malik Al Houthi, líder dos Ansar Allah, pertencente ao que o wahabita considera ser o Islão sectário.

Rumo à constituição de um reduto saudita-americano no Sul do Iémen.

A guerra à porta fechada de um estado renegado: um passeio que se transforma em pesadelo.

O baptismo de fogo do Rei Salman Ben Abdulaziz no Iémen, a 25 de Março de 2015, dois meses após subir ao trono, queria ser uma demonstração de força e vigor do monarca, após dez anos de letargia induzida pelo seu predecessor nonagenário, Abdallah.

Obra do seu filho, Mohamad bin Salmane, o príncipe herdeiro, a expedição punitiva deste monarca octogenário, que além disso sofria de uma doença incapacitante (Alzheimer), contra o país árabe mais pobre, transformou-se num pesadelo. O passeio de saúde virou uma viagem ao fim do inferno. 

O soberano, prudente, havia, no entanto, tomado todas as precauções: Para a primeira guerra frontal da dinastia wahhabita desde a fundação do Reino há quase um século, uma coligação de sete países foi formada, alinhando 150.000 soldados e 1.500 aviões. Uma força-tarefa apoiada por mercenários de empresas militares privadas do tipo Blackwater, de má memória, e a conivência tácita das ‘Grandes Democracias Ocidentais’.

O castigo deveria ser exemplar e dissuadir qualquer um de se levantar contra a hegemonia saudita na região, particularmente os Houthi, seita schismática do Islão sunita ortodoxo, sobretudo porque a dinastia wahhabita considera o Iémen como sua reserva absoluta, sua zona de segurança, este país situado à direita (Yamine) no caminho para Meca, segundo o seu significado etimológico. Mas «A tempestade da firmeza» revelou-se desastrosa, apesar do bloqueio naval da 5.ª Frota americana na zona (Golfo Pérsico-Oceano Índico), e apesar do poderoso apoio da França num mini-desembarque de tropas leais em Adén, desde a base militar francesa em Djibouti. 

Apesar do enquadramento francês das tropas dos Emirados Árabes Unidos assegurado pelo destacamento da Legião Estrangeira estacionado na base francesa do Abu Dhabi, «Zayed Military City»; apesar do estabelecimento de uma base traseira saudita na cidade portuária de Assab (Eritreia), sobre o Mar Vermelho, para o recrutamento e a formação de quadros do exército lealista pró-saudita.

Um desastre absoluto apesar da presença de pilotos mercenários franceses e americanos, operando nas fileiras sauditas, atraídos por prémios da ordem de 7.500 dólares por missão aérea. Como bónus, um Bentley oferecido pelo príncipe Walid Ben Talal para cada um dos 100 pilotos sauditas que participaram no bombardeamento do Iémen. Sem dúvida uma forma muito pessoal de desenvolver o patriotismo, o sentido do dever e o gosto pelo sacrifício nas forças armadas sauditas.

Com o tempo, a coligação acabou por fragmentar-se: o Catar, seguido de Marrocos e Sudão retiraram-se desta aliança monárquica, enquanto as grandes potências militares muçulmanas (Paquistão, Egipto, Turquia, Argélia) recusaram a oferta de se lançarem nesta aventura que consideravam arriscada em todos os aspectos.

Feito sem precedentes nos anais da estratégia mundial, uma coligação petro-monárquica, firmemente apoiada por três potências ocidentais – membros permanentes do Conselho de Segurança, com direito de veto, supostamente responsáveis por manter a paz no Mundo –, mestres dos céus e do mar, entregou-se, sem qualquer punição, a uma agressão caracterizada contra o país árabe mais pobre, enfrentando adversários furtivos com equipamento rudimentar, sem alcançar o menor sucesso militar notável.

A Arábia Saudita, traumatizada pelo ataque às instalações petrolíferas da ARAMCO pelos houthis descalços, a 14 de Setembro de 2019 – em retaliação a bombardeamentos aéreos massivos sauditas contra o Iémen –, vive num estado de pânico com a ideia da perda de Ma’rib, a antiga capital do Reino de Sabá e da mítica Rainha de Sabá; uma hipótese cuja perspectiva teme tornar-se motivo de escárnio universal.

Quatro meses após a queda de Cabul, a queda de Ma’rib no Iémen não só mancharia duradouramente o prestígio tanto dos líderes da contra-revolução árabe – a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos – como dos seus padrinhos ocidentais (Estados Unidos, Reino Unido, França), mas constituiria, ao mesmo tempo, um poderoso sinal de motivação para os contestatários da hegemonia israelo-americana na região, reforçando a posição do Irão nas negociações sobre o programa nuclear iraniano e enfraquecendo os países árabes que tinham pactuado com Israel.

Para evitar um destino fatal, os ocidentais fizeram vista grossa à mobilização ao lado das forças das monarquias do petróleo da Al Qaeda e dos combatentes do partido Al Islah, a vertente iemenita da Irmandade Muçulmana – ambos listados como organizações terroristas.

Uma pista de aterragem americana em Rayyan, no Hadramaut.

E, paralelamente à criação de um centro de espionagem britânico para vigiar as comunicações telefónicas dos houthis, os americanos procederam ao acompanhamento das tropas atacantes e começaram a expandir o aeroporto de Rayyan, no distrito de Moukalla, na província de Hadramaut, no sul do Iémen, a 480 km de Aden, para receber aviões de grande porte C-130. 

A pista de aterragem foi construída, como era de esperar, à custa dos sauditas, com, como bónus, a recepção em Riade de uma delegação de 20 personalidades da comunidade judaica americana, em grande estilo. Um gesto destinado a tornar a opinião conservadora saudita mais receptiva a uma normalização entre Israel e a Arábia Saudita. 

Assim, portanto, sem recear a contradição, mas num impulso de sobrevivência, a Arábia Saudita, o inimigo mais intransigente de Israel em termos teóricos, prepara-se para integrar a nova ordem regional sob o império israelita.

Em coerência com a posição constante da dinastia wahhabita, que realizou o maior desvio do combate árabe, apoiando o Iraque contra o Irão na mais longa guerra convencional da história contemporânea (1979-1988), desviando-o do principal campo de batalha, a Palestina, despejando milhares de milhões de dólares, e, sobretudo, desviando a juventude árabe e muçulmana para o Afeganistão, a milhares de km do campo de batalha palestiniano, contra um inimigo ateu, é certo, mas aliado dos Árabes, a União Soviética, o principal fornecedor de armas de nada menos que seis países árabes (Síria, Iraque, Argélia, Líbia, Sudão e Iémen), um útil contrapeso, em suma, à hegemonia americana. 

Cabe notar que a pista de aterragem de 300 metros para aviões-carga americanos destina-se, não a abastecer uma população cercada há 6 anos e atingida pela pandemia de Covid e pelas destruições massivas infligidas às infraestruturas do país pelos seus agressores, mas mais para transportar material de emergência para despejar directamente no campo de batalha.

Tudo acontece como se os sauditas e os americanos parecessem ter de fazer luto pelo norte do Iémen, agora quase inteiramente sob controlo dos Houthis, para se concentrarem no sul do Iémen, que assim surge como destinado a funcionar como o último reduto petrolífero monárquico, face ao desastre militar que se desenha.

Shabwa, a antiga capital da região de Hadramaut, deverá ser o palco do próximo confronto. A antiga Sobota, segundo Plínio, foi uma etapa essencial da rota do incenso, entre o Mediterrâneo, a Índia e o Egipto.

Ao transformar o seu bastião no Sul do Iémen, na intersecção do Mar Vermelho, do Oceano Índico e do Golfo Pérsico, os americanos esperam assim, não conseguindo inverter o rumo da guerra, atrasar o desfecho final enquanto um braço de ferro opõe os americanos e o Irão sobre o nuclear iraniano. A retirada precipitada das tropas pró-monárquicas do perímetro do porto de Hodeida, único acesso marítimo do Norte do Iémen, agora sob controlo Houthi, simultaneamente à retirada das tropas do Abu Dhabi das suas principais posições militares no Sul do Iémen, apoia esta tese.

Riad e o Abu Dhabi receiam, na verdade, um efeito dominó, semelhante ao esquema afegão, que provocaria uma queda em cascata das suas posições militares tanto no Norte do Iémen como em grandes partes do Sul do Iémen, privando-os de qualquer possibilidade de negociações para uma saída honrosa do seu atoleiro iemenita. A queda de Ma’arib colocaria o Norte do Iémen sob o controle dos Houthis, e colocaria este país, de posição altamente estratégica, na zona de influência tácita do Irão.

Na verdade, os americanos parecem cépticos quanto ao desfecho da guerra e envolvem-se numa luta defensiva, fortificando o Sul do Iémen para tentar acalmar o entusiasmo dos seus aliados petro-monárquicos e, sobretudo, para tentar fazer raciocinar o «condutor bêbado», segundo a expressão do diplomata americano Robert Malley à revista Foreign Policy, que levou ao desastre iemenita: o príncipe herdeiro saudita.

Sobre as consequências da queda de Ma’rib, vê o seguinte link:

O Sul do Iémen, que outrora era o único país do Mundo árabe com um regime de república marxista, foi forçado a fundir-se com o Norte do Iémen, sob a pressão combinada da Arábia Saudita e dos EUA, na sequência da implosão da União Soviética, na década de 1990. Este tandem deverá novamente separá-lo, pelo menos a zona de Aden, devido aos seus reveses militares na península arábica.

·         https://www.renenaba.com/la-lutte-pour-le-pouvoir-dans-le-sud-yemen-prosovietique/

 

Iémen: Um polígono de tiro.

Mercados, postos de combustível, campos, hospitais, incluindo os centros de saúde da Médicos Sem Fronteiras, o Iémen foi transformado, há muito tempo, num polígono de tiro, sem suscitar o menor protesto e muito menos sanções. Nada foi poupado. Todos os alvos são legítimos. 

Os bombardeamentos em todas as direcções provocaram grandes restricções nas importações, uma escassez de produtos de primeira necessidade e uma inflação correlativa, nomeadamente de combustível e medicamentos. 

A amplitude da crise é imensa neste país, onde o acesso dos actores humanitários é extremamente limitado. E neste país de 46 milhões de habitantes, os encarregados de sepultar estão sobrecarregados com as mortes da Covid-19. 

No sexto ano da guerra, a coligação reduziu-se como uma pele de chagrim, agora limitada ao dueto belicista do Golfo, os príncipes herdeiros da Arábia Saudita, Mohamad Bin Salman, e do Abu Dhabi, Mohamad Bin Zayed. Isto demonstra a dimensão da desilusão, que explica a extrema irritabilidade do Reino da Arábia Saudita.

O equilíbrio da dissuasão

No outono de 2021, os Houthis inauguraram uma nova estratégia baseada no "equilíbrio da dissuasão". Em resposta aos ataques aéreos maciços das monarquias petrolíferas contra as suas posições para quebrar o cerco de Ma’arib, os Houthis atacaram simultaneamente, com recurso a drones, a 20 de novembro de 2021, a base militar do Rei Abdullah em Riade (com 4 drones), a anexação militar do aeroporto civil do Rei Abdullah em Jeddah, assim como a refinaria de petróleo da ARAMCO nesta cidade portuária situada no Mar Vermelho, e finalmente alvos militares nas províncias de Jazan e Najran, duas antigas províncias iemenitas anexadas pelo Reino na década de 1930. 

Para o falante de árabe, para mais detalhes sobre o equilíbrio dadissuasão, cf este link 

A guerra do Iémen desenrola-se à porta fechada. Nenhuma voz da grande consciência humana, nem Bernard Kouchner, fundador dos "Médicos sem Fronteiras", nem Bernard Henry Lévy, o teórico do botulismo, ambos habituados a levantar a voz – um pelo Darfur, o outro pelo Curdistão iraquiano – se deu ao trabalho de denunciar este massacre em circuito fechado. Muito menos a terceira grande consciência, o herdeiro Raphaël Glucksman, o novato na vociferação humanitarista pró-Uigures.

Um sinal adicional da conivência ocidental: o novo presidente da Interpol, a organização de coordenação das polícias do mundo, é um torturador reputado vindo de um regime com obsessão pela segurança. O general Ahmed Nasser al-Raisi, inspector-geral do Ministério do Interior dos Emirados Árabes Unidos (EAU), foi de facto eleito como líder da agência que reúne os serviços de polícia de 194 países.

A caça ao Líbano: uma operação de distracção

O caso Georges Cordahi: o Líbano refém da fúria de Mohammad bin Salman

Num contexto tão trágico, a recente ofensiva contra o Líbano, tomando como pretexto uma declaração de M. Georges Cordahi, que qualificou de «absurda» a guerra no Iémen, anterior à sua nomeação como ministro da Informação, aparece em muitos aspectos como uma operação de distracção de um país em pleno desespero contra outro país que se quer manter refém da sua intemperança.

Uma guerra contra a liberdade de expressão de um país refém das pulsões erráticas de um príncipe psicopata.

A declaração de M. Cordahi apresentava-se como uma constatação de bom senso, de grande banalidade, mas esta verdade óbvia deu origem ao primeiro caso de sanção retroactiva nas relações internacionais. E, sinal de grande coragem, a Arábia Saudita quis castigar um membro do governo de um país à beira da apoplexia financeira e não o Qatar, proprietário do canal Al Jazeera que difundiu as suas palavras.

Sintomática de uma incoerência evidente, a ofensiva das monarquias petrolíferas contra o Líbano coincidiu com a primeira visita de um líder do Abu Dhabi, na pessoa do ministro dos Negócios Estrangeiros dos Emirados, Sheikh Abdullah Ben Zayed, a Damasco, desde o início da guerra na Síria, há dez anos, enquanto a Síria constitui, paradoxalmente, o principal apoio do Hezbollah no Líbano. 

Enquanto o Líbano atravessa uma das piores crises económicas da sua história, a Arábia Saudita proibiu a importação para o Reino de produtos agrícolas libaneses e, num gesto teatral, retirou o seu embaixador do Líbano, Walid Boukhary.

O diplomata tinha, na verdade, sido afastado das suas funções alguns meses antes por incumprimento dos deveres do seu cargo. Mas foi novamente enviado a Beirute para, em concertação com Samir Geagea, líder das milícias cristãs das Forças Libanesas, estabelecer um plano de batalha em vista da próxima campanha legislativa libanesa, que terá lugar em Maio de 2022, da qual os ocidentais e as petro-monarquias desejam vê-lo sair vitorioso para obrigar o Hezbollah a desarmar.

Postura curiosa e absurda, aliás, de Samir Geagea, cujo discurso soberanista mal disfarça a sua lealdade às duas grandes teocracias do Médio Oriente, Israel, durante a guerra civil libanesa (1975-2000), e depois à Arábia Saudita, os dois países mais antagónicos ao pluralismo libanês. Um soberanista que, aliás, fez da mendicidade uma arte junto dos seus benfeitores das petro-monarquias, apresentando-se como o defensor oficial dos seus interesses face ao Hezbollah.

Para falantes de árabe,  para aprofundar este tema, veja este link  . A mendicidade elevada à arte pelos 3 G (Samir Geagea, líder das Forças Libanesas, Sami Gemayel, líder do partido falangista, e Walid Joumblatt, líder do Partido Socialista Progressista)

MBS um psicopata

A tentativa de assassinato do Rei Abdullah da Arábia Saudita, bem como a agressão contra o Iémen, em 2015, seguida da prisão arbitrária do primeiro-ministro libanês em exercício Saad Hariri, em 2017, do esfolamento do jornalista saudita Jamal Khashoggi, em 2018; finalmente, a chantagem exercida sobre o Líbano na sequência de um tráfico de captagon com destino ao reino saudita, de facto, levaram o antigo chefe dos serviços de segurança sauditas, Saad Al Jabri, numa entrevista à cadeia americana CBS no final de Outubro de 2021, a qualificar o príncipe herdeiro saudita de «psicopata» e o Abu Dhabi, mesmo sendo o seu melhor aliado, de «perdedor, impulsivo».

A desfragmentação mental de uma larga parte da população libanesa, a servilidade de não menos larga parte da classe política ao petrodólar saudita bate-lhes com uma cegueira política aliada a uma abjecta covardia e obscurece a razão dos dirigentes, levando a esta constatação desconcertante:

A Arábia Saudita, que se dedicou meticulosamente a espezinhar a soberania libanesa e abusou do seu poder financeiro para lhe quebrar a espinha, é exaltada, enquanto o Irão é condenado por ter quebrado o bloqueio económico que afecta o Líbano, fornecendo-lhe combustível. 

As petro-monarquias favoreceram o afluxo massivo de terroristas islâmicos na Síria com o objectivo de neutralizar o último país no campo de batalha que não tinha feito pactos com Israel; e é o Hezbollah que os detém repentinamente no Líbano, um dilúvio que teria sido fatal, a propósito, principalmente para os cristãos libaneses.

Além disso, paradoxalmente, são as petromonarquias mais obscurantistas do mundo árabe que recebem uma permanente reverência por parte da liderança cristã, incluindo o Patriarcado maronita, enquanto a formação paramilitar xiita é alvo de uma perversa operação de diabolização e criminalização. 

Um raro exemplo de aberração mental, acompanhado de uma não menos rara ingratidão de um conglomerado de derrotados de todas as guerras conduzidas pelos israelitas e pelos ocidentais contra o Líbano ao longo de meio século... desde o assassinato do seu pupilo Bachir Gemayel, em 1982, e da partida forçada da Força Multinacional Ocidental do Líbano, em 1984.

A chantagem permanente da Arábia Saudita sobre o Líbano, um despejo das torpezas reais.

A Arábia Saudita exerce uma chantagem permanente sobre o Líbano, que considera um despejo das torpezas reais, usando como pretexto o prestígio regional do Hezbollah, a formação político-militar xiita, e a considerável audiência do seu líder Hassan Nasrallah. 

Para lembrar, o reino já tinha conseguido a demissão do ministro dos Negócios Estrangeiros, Charbel Wehbé, por ter feito críticas à política saudita. Os apoiantes de Georges Cordahi dentro do poder libanês opuseram-se à demissão do ministro da Informação para não condicionar o funcionamento do governo ao humor e aos caprichos de um príncipe impulsivo e compulsivo.

O jihadista saudita

Em 2014, a detenção de Majed el-Majed foi anunciada a 1 de Janeiro pelas autoridades libanesas. Majed el-Majed era suspeito de ter sido o chefe das brigadas Abdallah Azzam, um grupo jihadista ligado à al-Qaida que tinha, entre outras coisas, reivindicado um atentado em frente à embaixada do Irão em Beirute em novembro, causando 25 mortes. Gravemente doente, Majed el-Majed morreu levando consigo todos os seus segredos para a cova. 

As circunstâncias da sua captura e desaparecimento estiveram envoltas em grande mistério. O exército libanês esperou nove dias antes de confirmar oficialmente a sua detenção, para anunciar no dia seguinte a sua morte… devido à deterioração do seu estado de saúde. Riade teria exigido discretamente a sua extradição… oficialmente para ser interrogado e julgado no reino, na prática para o proteger da curiosidade dos investigadores libaneses.

Uma vez garantida a morte do jihadista, a Arábia Saudita voltou atrás na sua promessa de atribuir uma doação de mil milhões de dólares ao exército libanês.

«Prisão dourada» para o príncipe do captagon

Em 2015, a Arábia Saudita voltou a estar no centro das atenções, com o envolvimento do filho do antigo governador de Medina, o segundo local mais sagrado do Islão, num tráfico de estupefacientes. 

O príncipe Abdel Mohsen Ben Walid Ben Abdel Aziz foi interceptado com os seus 4 cúmplices no aeroporto de Beirute, a 27 de Outubro de 2015, enquanto se preparava para embarcar num avião real saudita com 2 toneladas de captagon e uma grande quantidade de cocaína contidas em 40 malas diplomáticas. 

Para o leitor árabe, a continuação neste link: http://www.raialyoum.com/?p=33522  

O príncipe do captagon, uma figura verdadeiramente augustíssima, foi literalmente alojado numa «prisão dourada» dentro do edifício que abriga os escritórios de combate às drogas em Beirute, no local chamado «Makhfar Hbeich». Uma sala espaçosa foi especialmente preparada para ele, com ar condicionado, televisão e um telemóvel para as suas comunicações externas, com um guarda retirado do efectivo de vigilantes a fazer as vezes de office boy, uma assinatura ao «Free Delivery» para as suas duas refeições diárias, além de uma segunda assinatura diária a um serviço de lavandaria (lavandaria a sério, não branqueamento de dinheiro) para a limpeza das suas roupas. Um tratamento real para um criminoso real, aplicando o princípio não da igualdade dos cidadãos perante a Lei… mas sim do princípio de submissão ao Rei dólar.

·         Para aprofundar este ponto, veja este link: O captagon, um poderoso factor de embrutecimento dos zombies criminosos petrolíferos monárquicos https://www.madaniya.info/2017/08/20/liban-le-captagon-le-nerf-de-la-guerre-de-syrie-un-puissant-facteur-dabrutissement-des-zombies-criminogenes-petro-monarchiques/

O rapto de Saad Hariri

O auge do delírio foi alcançado em 2017 com o sequestro de M. Saad Hariri, primeiro-ministro em exercício do Líbano, um caso único nos anais internacionais; uma ilustração patológica de um comportamento errático de um dinasta que encarna, quase que de forma caricatural, a versão beduína dos Bórgia do século XXI, cujo sequestro constitui o modo preferido de eliminar qualquer contestação. Saad Hariri só recuperou a liberdade graças à intransigência do duo formado pelo presidente da República Michel Aoun e Sayyed Hassan Nasrallah, o líder da formação político-militar xiita.

Sobre Saad Hariri, veja este link:  https://www.madaniya.info/2017/11/05/saad-hariri-un-homme-aux-ordres/

Com total impunidade, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salmane voltará a agir no ano seguinte, supervisionando à distância o esquartejamento de um dos seus opositores, outrora um leal servo dos serviços de informação sauditas, o jornalista Jamal Khashoggi, no consulado saudita em Istambul... Antes de, no ano seguinte, em 2019, proceder a uma operação de destabilização da Jordânia, três anos após o bloqueio do Qatar. Quatro crimes com total impunidade.

Sobre Jamal Khashoggi, «não um modelo de liberdade de imprensa, mas um puro produto da matriz wahabita takfirista, este link» https://www.madaniya.info/2018/10/19/arabie-saoudite-jamal-khashoggi-non-un-parangon-de-la-liberte-de-la-presse-mais-un-pur-produit-de-la-matrice-wahhabite-takfiriste/

O confronto com o Líbano foi, na verdade, desencadeado pelos reveses militares da Arábia Saudita no Iémen e pela recusa do Irão em atender aos pedidos sauditas para intermediação junto aos Houthis. 

Ele coloca frente a frente o país árabe mais rico e maior, quinto comprador mundial de armamento, e o menor país árabe, cujo mercantilismo notório só é igualado pelo seu activismo, provavelmente o mais intenso do mundo árabe, com um histórico militar de prestígio, ao contrário do seu rival real. Por causa do Hezbollah, exactamente, a pedra no sapato dos sauditas. 

Ah, o pesadelo vivido pela dinastia wahhabita, onde, numa sequência de golpes, o Irão os remete aos Houthis e ao Hezbollah libanês para encontrar uma saída honrosa para o conflito no Iémen, enquanto Sanaa exibia fotos de Georges Cordahi como forma de agradecimento pela declaração do ministro da informação libanês.

A despeito de quem quer que seja: o Líbano continua a ser o único país no mundo a ter revogado um tratado internacional (o tratado de paz com Israel em 1983) sob pressão popular; o único que conseguiu a retirada militar israelita sem negociações, sem tratado de paz, sem reconhecimento, conquistando pelo caminho o título invejável de «Vietname de Israel» pelo efeito traumático na sua capital, Beirute. E Beirute, o cemitério de todos os seus ocupantes, tanto da Força Multinacional Ocidental (Estados Unidos, França) como dos israelitas. 

O relatório do «The Brookings Doha Center Report» de Maio de 2014, por Charles Lister.

Como recordação para o impulsivo príncipe saudita e para os seus insignificantes bajuladores libaneses. 

O Hezbollah, com um currículo militar infinitamente mais prestigioso do que o do seu carrasco saudita, capaz de deixar pálidos muitos dos protagonistas dos conflitos do Médio Oriente, distinguir-se-á por uma série de vitórias magistral e impressionantemente brilhantes, tanto contra Israel como na Síria, suscitando a admiração de muitos especialistas militares ocidentais. Nestes vários teatros de operações, o Hezbollah aperfeiçoou a sua estratégia, optando por um «método complexo» de combate, uma combinação de operações de guerrilha e guerras frontais, associando os métodos de guerra de um exército regular aos métodos da guerra de guerrilha.

No Líbano, no seu próprio território e num ambiente favorável, no sul do Líbano de maioria xiita, ele travará uma guerra defensiva através da guerrilha contra Israel. Na Síria, em terreno hostil contra jihadistas, ele conduzirá guerras frontais em campo aberto.

Na Síria, operará em conjunto com o seu alter ego iraniano, o general Qassem Soleimani, chefe da prestigiada «Brigada de Jerusalém» dos Pasdaran, - cuja transcrição em árabe soa como baionetas ao vento, «Faylaq Al Qods Lil harath As Saouri Al Irani» -: Faylaq Al Qods, «Brigada de Jerusalém», como para lembrar a permanência da reivindicação iraniana e xiita na luta pela libertação da Palestina.

O curso da guerra na Síria levou o Hezbollah a envolver-se em combates com tanques e veículos blindados, embora o seu ponto forte fosse a infantaria. Permitir-se-ia o luxo, caso único nas anais militares, de derrubar a barreira de Damasco, Yabroud, a 15 de Março de 2014, no mesmo dia do referendo de anexação da Crimeia à Rússia, na data comemorativa do 3º aniversário da revolta popular na Síria.

«O Hezbollah conseguiu assumir um papel distintivo e crescente na direcção das operações do exército sírio durante ofensivas importantes das forças governamentais. Em Qoussayr (Junho de 2013), o Hezbollah assumiu directamente o comando das operações, assumindo, paralelamente, a vigilância aérea permanente do campo de batalha, através de drones», observou o «The Brookings Doha Center Report», na sua edição de Maio de 2014 assinada por Charles Lister.

Hassan Nasrallah versus Bander Ben Sultan: KO em pé.

Filho do príncipe Sultan Ben Abdel Aziz, ministro saudita da defesa inamovível durante meio século, o antigo «Great Gatsby» da vida diplomática americana impôs-se como o homem forte do Reino devido à doença de uma grande parte da equipa dirigente, afectada por patologias incapacitantes. 

Entronizado pelo general David Petraeus, o antigo chefe do serviço de informações americano, Bandar Ben Sultan, o capo di tutti capi dos grupos terroristas, era visto como o novo homem providencial da estratégia saudita-americana. 

Por cinco vezes, no entanto, Bandar levou a pior contra Hassan Nasrallah, tanto na Síria como no Líbano, assim como contra os israelitas, com os quais os sauditas eram aliados objectivos, obrigando-o a tomar o caminho do exílio, arrastando na sua queda toda a sua família, o irmão mais velho, Khaled Ben Sultan, vice-ministro da defesa e proprietário do jornal «Al Hayat», e o mais novo, Salman Ben Sultan, o chefe operacional do PC conjunto islamo-atlantista em Amã. Veja a esse respeito as declarações do general Welsley Clark, antigo comandante-chefe da NATO (1997-2000): «Os nossos aliados e nós criámos o Daesh para combater o Hezbollah».

Ver o vídeo legendado em francês: https://www.youtube.com/watch?v=ml-piXRdnow
Para ir mais longe neste tema, ver este link:
https://www.renenaba.com/rapport-syrie-brookings-doha-center-report/

Em dois anos (2012-2014), o Hezbollah conseguiu, assim, frustrar seis ofensivas importantes dos jihadistas da Síria que visavam romper as linhas de defesa do partido xiita, usando vagas humanas, na zona fronteiriça sírio-libanesa. 

Portanto, no final desta sequência, a Arábia Saudita, ao conduzir uma guerra militar contra o país árabe mais pobre (Iémen) e uma guerra económica contra o menor país árabe (Líbano), mostra força perante os fracos, mas não só o desfecho não é garantido, como, pior ainda, o resultado poderia estar completamente longe das expectativas sauditas.

Num mundo multipolar, o grande erro do Líbano, no entanto, terá sido permanecer cativo do mercado ocidental e não ter procurado diversificar as suas relações económicas. Um erro imperdoável que o torna cativo das pulsões mortíferas dos antigos corsários da Costa dos Piratas. Uma lição a reter, mesmo que a desproporção das forças não jogue necessariamente a favor do mais forte. Cabul provou-o. Sanaa confirma-o diariamente perante os sauditas, precisamente. Beirute também, perante os sauditas e os israelitas, as duas teocracias do Médio Oriente. 

Para quem, então, soa o galope da morte? Do Iémen e do Líbano? Ou da esplendor wahhabita? Noutras palavras, da ordem doméstica árabe sob a hegemonia saudita na época do unilateralismo americano? Como é difícil ser depois de ter sido.

Para quem toca os sinos tocam? 

Nunca procures saber para quem os sinos tocam; eles tocam para ti.

Para ir mais longe sobre este assunto

Sobre o Yémen

Sobre o Líbano

 

René Naba

Jornalista-escritor, antigo responsável pelo Mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral da RMC Médio Oriente, responsável pela informação, membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo dos Direitos Humanos e da Associação de Amizade Euro-Árabe. De 1969 a 1979, foi correspondente itinerante no gabinete regional da Agência France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu, nomeadamente, a guerra civil jordaniano-palestiniana, o «Setembro Negro» de 1970, a nacionalização das instalações petrolíferas do Iraque e da Líbia (1972), cerca de uma dezena de golpes de Estado e sequestros de aviões, assim como a guerra do Líbano (1975-1990), a 3.ª guerra israelo-árabe de Outubro de 1973, as primeiras negociações de paz egípcio-israelitas no Mena House, no Cairo (1979). De 1979 a 1989, foi responsável pelo mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP[carece de referência], depois conselheiro do director-geral da RMC Médio Oriente, responsável pela informação, de 1989 a 1995. Autor de "A Arábia Saudita, um reino das trevas" (Golias), "Do Bougnoule ao selvagem, viagem no imaginário francês" (Harmattan), "Hariri, de pai para filho, homens de negócios, primeiros-ministros" (Harmattan), "As revoluções árabes e a maldição de Camp David" (Bachari), "Média e Democracia, a captura do imaginário, um desafio do século XXI" (Golias). Desde 2013, é membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos Humanos (SIHR), com sede em Genebra. Além disso, é vice-presidente do International Center Against Terrorism (ICALT), Genebra; Presidente da associação de caridade LINA, operando nos bairros Norte de Marselha, e Presidente de Honra de 'Car tu y es libre', (Quartier libre), trabalhando para a promoção social e política das zonas periurbanas do departamento das Bocas do Ródano, no sul de França. Desde 2014, é consultor no Instituto Internacional para a Paz, a Justiça e os Direitos Humanos (IIPJDH), com sede em Genebra. Desde 1 de Setembro de 2014, é responsável pela coordenação editorial do site https://www.madaniya.info  e apresentador de uma rubrica semanal na Radio Galère (Marselha), às quintas-feiras das 16h às 18h.

 

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Fonte: Yémen, Arabie saoudite, Liban : Pour qui sonne le glas ? - Madaniya

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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