Os ricos condenam a «violência popular» e planeiam a
violência militar
22 de Outubro de
2026 Robert Bibeau
Apertem os cintos, estamos a ir direito ao muro
Por Andrea Zhok para Thomas Fazi, 18 de Outubro de
2026
Reflexões sobre a revolta dos jovens em França.
O que se segue é a tradução de um artigo de Andrea
Zhok, publicado inicialmente em italiano no seu canal do Telegram. À sua análise,
impecável como sempre, acrescentarei apenas que o problema, na minha opinião,
toca na realidade uma dimensão muito mais profunda, porque vai além da simples
privação socio-económica, das desigualdades e do regime tecno-fascista. Na
minha visão, estas explosões de violência reflectem também o vazio niilista em
que as sociedades ocidentais se atolaram — uma revolta desesperada contra um
sistema cada vez mais incapaz de garantir o bem-estar material básico, mas
também contra uma sociedade totalmente incapaz de dar sentido à vida dos
cidadãos. Quando a ausência de perspectiva, a angústia, o vazio emocional e o
desespero se instalam, resulta inevitavelmente numa depressão colectiva — ou uma
explosão de violência
As imagens das chamas a engolirem a câmara municipal
de Limoges, em França, e o colapso do seu campanário deram a volta ao mundo. Tais
episódios só podem ser condenados, tal como só se podem denunciar os saques que
acompanharam as manifestações em muitas regiões de França.
E, no entanto, se nos ficarmos por este nível de reflexão,
nada mais faremos senão entregar-nos ao exercício clássico do conservadorismo pequeno-burguês
— que tem a sua razão de ser, mas cuja miopia alcança proporções extremas.
Limitar-se a falar sobre carros incendiados e montras partidas, sem aprofundar
a reflexão, mostra simplesmente que ainda não se compreendeu a gravidade da
situação.
O que estamos a testemunhar em França — e, de formas
diferentes, em muitos outros países europeus agora (Espanha, Portugal, Albânia,
Bélgica e, desde ontem, Itália também) — é tudo menos um evento irracional.
Alguns eventos da história só parecem irracionais a quente, mas revelam a sua
racionalidade evidente com um pouco de distância.
Racional não significa indolor, nem isento de
injustiça.
Devemos treinar-nos para conciliar dois níveis de
análise: um em que actos e indivíduos específicos podem ser qualificados como
bárbaros, violentos e destrutivos, e outro em que podemos (e devemos)
reconhecer que a história não é mais do que um rio carregado de destroços e
cadáveres, que nenhum belo discurso pode deter.
O que acontece obedece a uma racionalidade colectiva
implacável, mesmo que aqueles que nela participam muitas vezes a compreendam
apenas de forma limitada, ou nem sequer a compreendam.
Já há muitos anos, os povos da Europa percebem as suas
classes dirigentes como organismos tecnocráticos anónimos — um muro sem rosto,
movido pela sua própria inércia, avançando em “piloto automático”, totalmente
indiferente às necessidades da população. A aposta dessas elites
tecno-financeiras foi conseguir adormecer as consciências com o ópio do povo de
hoje, os media (entretenimento e infotretenimento), e domar os recalcitrantes
com medidas restrictivas (uma bastonada aqui, uma conta bancária fechada ali,
um ajuste na lei eleitoral hoje, uma eleição anulada amanhã, e assim
sucessivamente).
O postulado geral dos líderes europeus — tácito e
incontestável — é que não se raciocina com a plebe: joga-se simplesmente com a
cenoura e o pau.
Tudo o que é dito publicamente é sempre uma mentira
interessada, sem excepção — excepto nos raros casos em que a verdade pode por
si só servir um objectivo. O discurso público transformou-se numa encenação sem
fim que já nem se preocupa em manter sequer uma aparência de credibilidade.
Assim, ninguém com bom senso acredita verdadeiramente
que a Rússia se prepara para nos invadir, mas isso não impede legiões de
mediocridades institucionais de repetirem todos os dias essas absurdidades com
o ar mais sério. E claro, todos sabem que, segundo este cenário de conto de
fadas espalhado a todo o vapor por meios de comunicação ao serviço do poder, a
única coisa que importa — o único critério constante conforme as circunstâncias
— é a intenção de dispor arbitrariamente dos recursos públicos e desviá-los em
favor de interesses privados.
Em resumo, as classes dirigentes há muito que se
habituaram a tratar a população como um rebanho sem cérebro, a quem não se deve
quaisquer esclarecimentos racionais e que convém manipular, por um lado, com
elogios bem direccionados e privilégios adequados, e, por outro, reduzindo o
seu potencial de acção.
E este mecanismo pode funcionar, e de facto funciona
durante muito tempo. Até deixar de funcionar.
E deixa de funcionar no dia em que demasiadas pessoas
têm demasiado a perder para se permitirem continuar a dormir. "Ter
demasiado a perder" não significa necessariamente "morrer de
fome". Numa sociedade moderna, as pessoas conhecem privações insuportáveis
muito antes de "morrerem de fome".
Hoje em dia, por exemplo, não ter meios para usar um
carro ou aceder à internet significa, para a maioria das pessoas, estar cortado
do mundo, do trabalho, da vida social, da própria vida. E que os carros e os
telemóveis tenham sido antes produtos de luxo não importa nada: agora eles são
o novo critério de referência para “fazer parte da sociedade”, o que separa a
vida da não-vida.
As classes populares, tratadas como animais de carga,
alimentadas de vez em quando com pão e circo, trabalhos lixados e produtos
milagrosos difundidos na televisão, não são — e não serão — receptivas, no dia
em que este sistema colapsar, aos discursos sobre a boa conduta pública, o
respeito pela propriedade, a veneração dos monumentos, etc.
Aqueles que incendeiam carros, edifícios históricos e
lojas são cultural e socialmente desprovidos. Os verdadeiros culpados, aqueles
que devem prestar contas, são as elites no poder que cultivaram e quiseram essa
privação, convencidas de que ela serviria aos seus interesses.
Hoje, a panela de pressão está prestes a explodir.
Mesmo que a revolta se acalme, isto é apenas o começo, porque as classes
dirigentes europeias não estão em posição — nem material nem culturalmente — de
mudar de rumo. Portanto, apertem os cintos, estamos a ir de encontro ao
desastre.
Traduzido por Spirit of Free Speech
FONTE : https://ssofidelis.substack.com/p/attachez-vos-ceintures-on-fonce-droit
Título introdutório ao vídeo e nota de RB traduzidos para Língua Portuguesa por Luis Júdice


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