terça-feira, 13 de outubro de 2026

A nova era das revoltas

 


A nova era das revoltas

Sábado, 10 de outubro de 2026  

Relatório da reunião televisiva29 de setembro de 2026


A reunião online de terça-feira à noite começou retomando o ensaio de Joshua Clover Riot. Strike. Motim. Uma nova era de revoltas (2023), comentada na edição nº 55 da revista n+1.

O texto parte das lutas do século XVIII para delinear a sua tese central sobre a natureza do conflito de classes nos diferentes períodos históricos. A primeira fase, a das revoltas na Inglaterra, tem início nas zonas rurais, deve-se à acumulação primária capitalista, desenvolve-se em torno dos portos marítimos, das grandes feiras e nos locais de circulação de mercadorias, e envolve populações que uma transformação económica reduz literalmente à fome. Com o desenvolvimento subsequente do capitalismo, verifica-se uma progressiva deslocação das lutas dos locais de circulação para os de produção, as fábricas, onde a greve se torna a arma para melhorar as condições de vida dos assalariados. A terceira e última fase coincide com os processos de desindustrialização, sobretudo nas economias avançadas (Europa e EUA), e traz a luta de volta ao território. A expulsão da força de trabalho da indústria acarreta a impossibilidade de sobrevivência para milhões de operários (basta pensar nas revoltas dos negros americanos na década de 1960). Chega-se assim ao confronto aberto com os aparelhos repressivos que intervêm para defender o status quo. Não é por acaso, portanto, que nas últimas décadas os manifestantes tenham ocupado de forma permanente as ruas e as praças (Primaveras Árabes, Acampadas, Occupy Wall Street, etc.).

Segundo Clover, a formação da Comuna de Oakland (2011-2012) é um caso emblemático tanto para a recuperação da memória histórica da Comuna de Paris quanto para a tentativa de criar relações diferentes das existentes. As revoltas da chamada Geração Z estão ligadas ao que está escrito no texto, especialmente em relação ao crescimento da população excedente – o exército dos sem reserva – à escala planetária.

A revolta 1.0, que passa também pelo ludismo, é uma primeira manifestação do conflito de classes, seguida pelo ciclo de greves e, por fim, pela revolta 2.0, que se manifesta na fase de crise histórica do  capitalismo senil e recorre a meios de coordenação extremamente poderosos. O esquema proposto por Clover é eficaz, mas deve ser interpretado com uma lógica difusa: as greves não desapareceram — o próprio Clover reconhece isso, ao observá-las tornarem-se territoriais — e o proletariado continua a lutar para defender as suas condições de vida. Em vez disso, passou-se para um nível superior, em que a greve está integrada numa dinâmica mais ampla.

Já desde os primeiros anos da década de 1920, a Esquerda Comunista «italiana» opôs-se à ideia de ocupar as fábricas, defendendo, em vez disso, a organização territorial e a ocupação dos locais do poder burguês. No artigo «O operaísmo italiano e o seu 1968 ao longo de vinte anos» "O obreirismo italiano e o seus 68 longos vinte anos " (n+1, n.º 14), traçámos uma continuidade entre o «ordinovismo» gramsciano e o obreirismo dos anos 60 e 70. Hoje, a correção da orientação da Esquerda é evidente: o proletariado espalhou-se pelo território, o assalariado trabalha lado a lado com outros assalariados por períodos cada vez mais curtos, em condições de precariedade crescente. Na China, os trabalhadores com emprego flexível — os «gig-workers» — ultrapassam os 200 milhões, e muitos passam da indústria para os serviços, realizando uma miríade de «biscates». O emprego fixo, os contratos e o culto ao trabalho tendem a desaparecer, enquanto até a figura do patrão em carne e osso cede o lugar a um algoritmo. Para trabalhar, é cada vez mais necessário aceder a plataformas online através de aplicações, e por isso milhões de operários familiarizaram-se com estas tecnologias. O que é hoje o proletariado? É certamente o operário de fábrica, mas também aquele que, sem reservas, nunca trabalhará, ou o trabalhador precário que exerce dois ou três empregos para sobreviver.

Máquinas, que no capitalismo nos são estranhas (mesmo que falem connosco por meio de chatbots), não são o problema, mas parte da solução, já que nossa evolução é corpórea e extra-corpórea ao mesmo tempo, como mostra o feedback mão-trabalho-cérebro.

No ensaio As Grandes Demissões. O novo desprezo pelo trabalho e o tempo de retomarmos a vida (2023), comentada na edição n.º 54 da revista, Francesca Coin analisa o fenómeno de milhões de operários no mundo, sobretudo jovens, que questionam a lógica de trabalhar a todo o custo, dando origem a formas de recusa do existente (Antiwork, Tang ping, etc.).

Em Madrid, na sequência do despejo de uma idosa, teve início, 15 anos depois do movimento de 2011, uma nova «Acampada» na Puerta del Sol, contra as rendas elevadas e a crise habitacional. Os protestos dos últimos anos revelam uma tendência para sair à rua mais para procurar algo de novo do que para reivindicar algo. As últimas manifestações assumem as características típicas da «swarm intelligence», a inteligência de enxame, graças também ao uso massivo das redes sociais.

Milhões de seres humanos, ao interagirem entre si, podem gerar um comportamento inesperado e emergente. Isto faz lembrar o «nosso» esquema de reversão da práxis: impulsos fisiológicos levam os «átomos sociais» a assumir novas configurações e a dirigirem-se, sem terem plena consciência disso, para um «atractor» situado no futuro.

A dinâmica histórica avança a saltos, através de descontinuidades e bifurcações. No artigo «Num sentido amplo e restrito» (n+1, n.º 39),  vimos que na sociedade existem sempre conjuntos que se sobrepõem e que qualquer sistema complexo se altera em resposta aos estímulos que recebe do ambiente. Já hoje assistimos a manifestações que tendem a sincronizar-se em todo o mundo, através das redes sociais, dos sites e das plataformas. Entre as dissoluções em curso está a do líder de movimento, uma vez que os «átomos sociais» se polarizam e se auto-organizam, sem necessidade de alguém que os dirija.

Não foram apenas a indústria e os meios de comunicação que mudaram: foi o mundo que mudou. Não voltarão a ocorrer manifestações com as mesmas formas nem com a mesma linguagem do passado, e é por isso que criticamos o tercinternacionalismo. Para a Esquerda, a revolução não é uma questão de forma, mas de força.

Adam Greenfield, no ensaio «Emergência. Como sobreviver num mundo em chamas» (comentado no n.º 56 da revista n+1), relata o surgimento de uma rede de ajuda mútua após a passagem do furacão Sandy pela costa leste dos Estados Unidos. Para o autor, o movimento Occupy Sandy (2012) foi o ponto culminante de um processo iniciado anos antes: perante as catástrofes e a incapacidade do Estado de intervir, formam-se, de forma totalmente espontânea, estruturas de ajuda mútua. Segundo Greenfield, experiências semelhantes já se tinham verificado após a passagem do furacão Katrina (2005) e isto acontece porque vivemos num mundo sem refúgio e sem hospitalidade, no qual as antigas estruturas económicas e políticas se estão a desmoronar: «grande parte dos sistemas e das regras que moldam as nossas vidas serão varridos pela força dos acontecimentos».

O novo paradigma vai ganhando terreno na sociedade: primeiro é combatido, depois encontra espaço em pequenas minorias e, por fim, impõe-se quando a situação está madura (Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas). O Estado, com todo o seu poder, não consegue adaptar-se ao desenvolvimento das forças produtivas e torna-se um obstáculo ao seu desenvolvimento futuro. A única bússola que nos permite orientar-nos num contexto de «caos social e guerra» é o método de trabalho da Esquerda, baseado na dinâmica ontem-hoje-amanhã (No fio do tempo). Crise climática, crise económica, precariedade, desemprego, inflação, guerra, «vida sem sentido»: não faltam motivos para sair à rua. No entanto, a crise generalizada do capitalismo não basta para que a anti-forma se imponha: a revolução não é materialmente possível se a estrutura repressiva da classe dominante não ruir a partir de dentro.

 

Publicado em Teleriunioni settembre 2026

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Fonte: La nuova epoca delle rivolte

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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