Comunicado sobre a situação em França após as recentes
manifestações (GIGC)
31 octobre 2026Robert Bibeau14 Views0 Comments
Par le GIGC. Communiqué sur la situation en
France – 26 octobre 2026. Sur Communiqué sur la situation en France – 26 octobre 2026 –
Révolution ou Guerre
«
Cuidado com a raiva das pessoas racionais. Ao longo da manifestação parisiense,
aliás, ouvem-se poucas palavras de ordem sobre o poder de compra ou o forte
aumento do preço dos combustíveis, mas uma fúria poderosa expressa-se contra o
Estado, contra o governo, e sobretudo contra as forças de ordem, com o
universal “ACAB” (“All cops are
bastards”, ou seja, “todos os polícias são uns bastardos”), mil vezes cantado, seguido de “E toda
a gente odeia a polícia”. » (Le Monde,
25 de Outubro de 2026[1], artigo sobre a manifestação parisiense
de 24 de Outubro de 2026)
O repórter do jornal Le Monde faz um relato bastante fiel
tanto do ponto de vista do desenrolar da manifestação parisiense de 24 de
Outubro quanto do seu significado político. Oficialmente, participaram 250 000
manifestantes, apesar das proibições e das mudanças de última hora no percurso
feitas pela polícia. De facto, esta política de proibição total ou parcial das manifestações,
sob a ameaça de uma repressão cada vez mais violenta, não conseguiu impedir que
centenas de milhar de pessoas – quase tantas quanto em 17 de Outubro – se
manifestassem por todo o país, incluindo locais como Lyon, onde qualquer
manifestação era proibida. É ainda mais notável considerando que, após as
violentas manifestações do dia 17 e ao longo da semana que levou ao dia 24, a
saturação diária, sistemática e renovada em todos os media, jornais e canais de
notícias em directo sobre as violências, os saques e os vândalos não cessou de
crescer ao longo dos dias e isso até ao sábado da manifestação.
No entanto, a semana de bombardeamento mediático sobre as
violências foi muito mais eficaz em termos ideológicos e políticos. O resultado
foi que os lemas das manifestações de sábado já não eram um «todos juntos»
contra o custo de vida, condições de trabalho e de estudo escandalosas e
miseráveis, e a favor do aumento dos salários ou outros; mas sim em defesa do
direito de manifestar, da democracia, no terreno do anti-racismo e contra a
repressão policial. Este fenómeno foi acentuado pela organização de uma
manifestação em Orleães contra a realização do congresso do Rassemblement
national da extrema-direita nessa mesma cidade. Depois, pelo aproveitamento mediático
do ataque assassino de um racista[2] contra imigrantes de «cor», que matou uma
pessoa e feriu várias num subúrbio parisiense, em Trappes. Qual foi o lema mais
repetido nas manifestações de 24? Siamo tutti antifascisti. O anti-fascismo tomou o lugar da luta de
classes proletária. A deslocação da confrontação do terreno da defesa das
condições de vida e de trabalho de 17 de Outubro para o da ameaça racista,
xenófoba e repressiva tornou-se então dominante, com na rectaguarda a
perspectiva da vitória de Marine Le Pen nas eleições presidenciais de 2027.
Enquanto todos os meios de comunicação burgueses se admiravam na semana
anterior ao dia 17 pelo facto de uma mobilização de massas acontecer em plena
campanha eleitoral presidencial, a semana de 17 a 24 também conseguiu reverter
a mobilização em curso e transformá-la num momento da campanha presidencial.
A grande combatividade e raiva que se manifestaram novamente nas
manifestações massivas e determinadas deste sábado, dia 24, deslizaram então do terreno de classe para
o terreno burguês da democracia. A linha de polarização já não era contra o
Estado, mas em defesa do Estado contra a extrema-direita e a repressão policial.
Como diz o jornalista do Monde, «ouvem-se poucas palavras de ordem sobre o
poder de compra ou o forte aumento do preço dos combustíveis, mas uma fúria
poderosa manifesta-se contra o Estado.»
Muitos, incluindo dentro do campo revolucionário, verão na raiva
anti-polícia e contra o Estado um sinal positivo tanto do ponto de vista da
mobilização actual como do ponto de vista histórico. Verão nisso um
enfraquecimento considerável da mistificação democrática, ou mesmo as primeiras
tentativas de disputar à burguesia o seu poder político. Tal como lhes será
tentador ver na vontade dos coletes amarelos de se dirigir ao Eliseu e aos
locais de poder durante a manifestação do dia 17, ou mesmo nos incêndios nas
câmaras municipais, uma vontade e uma
consciência crescentes de colocar a questão do poder político.
Nós, pelo contrário, pensamos
que esta aparente radicalidade marca um retrocesso político da mobilização e o
sucesso da manobra ideológica e política conduzida por todo o aparelho de
Estado desde 17 de Outubro. Cada um, governo, partidos de direita e
extrema-direita, partidos de esquerda, extrema-esquerda, sindicatos e
sindicalismo de base, joga o seu papel de prender os trabalhadores e os futuros
trabalhadores hoje estudantes ou liceais que estão nas ruas numa falsa
alternativa: iliberalismo-democracia, fascismo-anti-fascismo,
racismo-anti-racismo, direito de manifestação-proibição e repressão, etc. « A fúria contra o Estado » que o
nosso jornalista destaca não é contra o Estado, mas em defesa do Estado
democrático burguês, da República, quaisquer que sejam as consciências
individuais das “pessoas sensatas” e por muito revoltadas que estejam, ou até
por mais radical que seja a sua postura. Neste sentido, parece-nos que a
compreensão da situação e a orientação que defendíamos com outros[3] depois do dia 17 foram globalmente confirmadas:
«Para nós, este dia não podia senão marcar uma
viragem: ou abria caminho para uma entrada mais ou menos rápida na luta de setores
da classe operária, aproveitando a porta que os estudantes tinham aberto, e
assim abria uma nova perspetiva para esta mobilização; ou os trabalhadores não
iam além de simpatias e apoios individuais – sem dúvida numerosos, mas não
coletivos – e esperavam pelo dia de ação dos sindicatos previsto para 5 de
novembro, cujo objetivo, toda a gente sabe, não é mais do que controlar a
mobilização, deixar escapar o vapor, voltar com todos ao âmbito sindical e
assim apagar o incêndio. (...)
No momento em que escrevemos, após o dia 17 e o
bombardeamento mediático e governamental sobre as violências e os saqueadores,
por um lado, e a substituição de um dia de ação sindical no dia 5 de novembro
em vez de uma entrada imediata dos trabalhadores na luta pelas suas reivindicações
nas quais todos se reconhecem, parece pouco provável – esperemos que estejamos
errados – que setores significativos do proletariado entrem numa luta imediata
e massiva. Para isso, seria necessário não só que saíssem da atitude de espera
e hesitação mostrada até agora, mas sobretudo que assumissem conscientemente a
confrontação política com os sindicatos que se opõem, e se vão opor, a qualquer
greve imediata sob o pretexto de preparar o dia 5 de novembro. Para já, resulta
que as palavras de ordem e orientações do nosso folheto continuam sempre
válidas no momento em que escrevemos.» (comunicado de 18 de
outubro). Ver o artigo aqui :
Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes:
Seguindo o Movimento dos Estudantes do Ensino Secundário, Vamos Todos Lutar
contra a Austeridade e os Sacrifícios Planeados para Preparar uma Guerra
Generalizada!
O dia 17 de facto marcou
uma viragem, infelizmente não no sentido do desenvolvimento da luta no terreno
proletário. Não houve qualquer entrada em luta por parte de sectores mais ou
menos amplos da classe operária, o que teria permitido dar uma perspetiva de
classe clara à mobilização[4]. Na sua ausência, o caminho ficou livre
para a contra-ofensiva burguesa. Como já referimos, a campanha política dos
media e dos partidos sobre as violências e o marco da jornada sindical de 5 de
novembro são as duas mandíbulas da armadilha que se estão a fechar, impedindo
qualquer alternativa de classe significativa. Não surgiu nenhuma luta operária
para assumir o seu lugar, nem sequer entre os professores (certamente de
férias) que, no entanto, têm as mesmas
reivindicações que os estudantes do secundário, e a direcção da mobilização no
terreno económico, ou seja, contra os ataques aos salários e às condições de
trabalho. (Ver artigo: Que
o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: NEM UM CÊNTIMO PARA O ARMAMENTO, TODO
O DINHEIRO PARA A EDUCAÇÃO!)
O resultado é que todo o
aparelho político estatal da burguesia pôde ocupar todo o terreno durante toda
a semana e assim desviar a atenção das reivindicações económicas para o terreno
da defesa da ordem republicana de um lado e, do outro, da democracia e do
direito de manifestar. A raiva de classe, que tendia a afirmar-se até 17 de
outubro – mesmo que ainda muito confusa – desviou-se para o terreno burguês e
tornou-se raiva cidadã.
Não há quase dúvidas de que a participação
maciça e a raiva existente obrigam as forças burguesas a intercalar outros
dias, pelo menos um, de manifestação ou outro para preencher o vazio que separa
24 de Outubro de 5 de Novembro – mais de dez dias. Não há quase dúvidas também,
segundo nós, de que a já anunciada para o próximo sábado virá confirmar a
mudança de uma linha de confrontação que se polariza em torno das
reivindicações económicas, e portanto de confrontação entre classes sociais,
para uma que polariza as forças “autoritárias” anti-democráticas contra as
forças democráticas. Uma dúvida? “Para o acto
III, no sábado, 31 de Outubro, apelamos
a concentrações e a sit-in em frente à Assembleia Nacional e em todas as
câmaras municipais de França, para a defesa das liberdades públicas.
Nesse dia, manifestaremos pela liberdade de manifestar, e por todas as
nossas liberdades,” afirma o principal site dos coletes amarelos cuja
influência é significativa. (https://www.17octobregiletjaune.net/)
Nessas condições, é claro que as orientações de luta imediata e
de agitação que ainda podíamos avançar na semana passada já não são adequadas à
nova situação. A perspectiva e as palavras de ordem de extensão e generalização
da luta a toda a classe operária, a possibilidade de entrada em luta de
sectores operários, acabam por se encontrar de facto assimiladas ou associadas
ao dia de acção sindical de 5 de Novembro.
A atitude de esperar para ver, de hesitação, que apontávamos na semana passada e contra a qual alertávamos os operários, deixou toda a liberdade à burguesia para ocupar o terreno mediático e enfraquecer assim qualquer potencialidade, não só de emergência de luta operária significativa até ao dia 5, mas também de transformar esta luta num momento de generalização, de uma forma ou de outra, da mobilização operária sobre reivindicações de classe. (Ver artigo: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: A INSURREIÇÃO POPULAR INTERPELA A VANGUARDA DO PROLETARIADO)
Uma vez afastada (salvo
acidente) a ameaça de uma extensão e generalização aos sectores da classe
operária, como em Maio de 1968, por exemplo, a burguesia intensificou o seu
controlo sobre o curso dos acontecimentos. Ela quase os dita directamente.
Basta-lhe, sobretudo através dos sindicatos e dos dias de acção, marcar o ritmo
das manifestações de acordo com o nível de combatividade e manter-se na prancha
para surfar na onda de combatividade e raiva agora direccionada principalmente
contra… a polícia.
Vamos evitar um esquema absoluto. Embora nos pareça improvável
que uma dinâmica proletária possa impor-se agora a partir desta mobilização, da
sua própria dinâmica, não podemos excluir que aconteça um evento “fortuito”,
fora da mobilização, que abra a porta a uma inversão do curso actual, num clima
geral de raiva e descontentamento que, esse sim, não desapareceu e que só
poderia favorecer isso. Pode ser uma greve ou luta operária surgindo aqui ou
ali. Pode ser um excesso da repressão ou um acidente. Ou ainda, uma
redistribuição das cartas devido a um desenvolvimento de mobilizações
idênticas, ou da mesma natureza, que se exprimiram posteriormente na Bélgica,
em Itália, em Portugal, em Espanha, na Albânia, mesmo na Alemanha.
Porque não deixa de ser verdade que o descontentamento e a
vontade de lutar tendem a generalizar-se um pouco por todo o mundo. As
manifestações “contra a vida cara” multiplicam-se na Europa e muitas vezes
assumem as mesmas características de massa e de confronto com a repressão
policial. O mesmo acontece em muitos outros países, como aconteceu recentemente
na Bolívia. Para preparar a guerra imperialista generalizada imposta pelas
contradições económicas do capitalismo mundial, todas as classes dominantes são
forçadas a atacar a sua população e, em particular, a sua classe operária, o
seu proletariado. Manifestações, revoltas, greves em massa, ou seja, confrontos
de classes, haverá e já há.
A questão não é tanto se elas acontecem, mas como torná-las
eficazes do ponto de vista das reivindicações. Ora, para que sejam «eficazes»,
ou seja, que façam recuar os ataques da burguesia, ou mesmo apenas os travem, é
preciso impor a esta última uma relação de forças. Para que esta seja, no
mínimo, favorável, toda luta deve tender a envolver todo o proletariado e as
camadas sociais que o rodeiam na luta em massa, o «todos juntos». Para assumir
esta orientação política de generalização da luta de classes, o proletariado e
as suas minorias mais combativas não podem evitar enfrentar as forças políticas
burguesas, e o conjunto do aparelho de Estado capitalista, como nos mostra,
mais uma vez, a mobilização actual em França. A defesa das condições de vida e
de trabalho e as reivindicações de classe trazem em si a confrontação real com
o conjunto do aparelho de Estado capitalista – e não com tal ou qual fracção ou
órgão específico deste. O seu esquecimento, provocado pela campanha mediática
de 17 a 24, leva à impotência e ao fracasso.
Em vez de reafirmar as reivindicações e a dinâmica de classe
iniciais do movimento que partiu dos liceus, a manifestação massiva e combativa
de 24 de Outubro veio sancionar e validar a sua relegação para segundo plano,
senão mesmo o seu esquecimento.
Para os revolucionários, é da
maior importância ter em conta esta inversão da dinâmica da luta, a abertura de
um curso de recuo e de confusão, a fim de adaptar a sua intervenção em
conformidade. Continuar a apelar à
extensão desta mobilização, quando agora se situa no terreno burguês da defesa
da República e da democracia, equivaleria objectivamente a reforçar a burguesia.
De facto e muito provavelmente, o cariz agitador das orientações e palavras de
ordem que prevaleciam até então, e que se pode resumir pela extensão e
generalização da luta aos sectores operários, vai dar lugar às advertências e à
denúncia das mistificações e armadilhas de ordem democrática.
No entanto, os grupos comunistas e os revolucionários devem
manter-se atentos a qualquer expressão ou manutenção, mais ou menos ampla, mais
ou menos localizada ou limitada, de reivindicações em defesa das condições de
vida e de trabalho e apoiá-las ao máximo. Certamente, é pouco provável que tais
expressões, se surgirem, consigam inverter a dinâmica actual. Mas podem ajudar
a limitar o recuo e a confusão que se instalam e estabelecer uma linha de
defesa mínima que permita às minorias mais claras do proletariado agrupar-se e
preparar as lutas futuras.
Neste caso, a responsabilidade
dos revolucionários é precisamente adaptar a sua intervenção e as suas
orientações em conformidade.
GIGC, 26 octobre 2026
[1]. Um dia de forte mobilização sem incidentes graves: «O
direito de manifestar é tão importante quanto o direito de voto» (https://www.lemonde.fr/politique/article/2026/10/25/une-journee-de-forte-mobilisation-sans-incidents-majeurs-le-droit-de-manifester-est-aussi-important-que-le-droit-de-vote_6799929_823448.html
) .
2.
Provavelmente desequilibrado, mas tanto mais influenciado pelo racismo
anti-imigrante propagado pelo Rassemblement national e pelos partidos de
direita tradicionais.
3. Os
camaradas do Grupo revolucionário internacionalista da TCI em França e os
simpatizantes próximos das nossas duas organizações, ou mesmo – uma vez não
sendo costume – a Corrente comunista internacional.
4. Houve de
facto alguns locais de trabalho, o tecnocentro SNCF de Châtillon, o pessoal do
hospital Tenon, que se puseram em greve no dia 13 de Outubro. Mas se estas
mobilizações muito raras dos sectores mais tradicionalmente combativos do proletariado
só podem nos alegrar, também não devem criar ilusões. Na realidade, elas
escondem uma situação muito mais apática. Isto é ainda mais importante porque
muitas organizações esquerdistas, ao se agarrarem a estas lutas mais do que
minoritárias, tendem a pintar um quadro de uma situação que está longe da
dinâmica actual - alguns chegando mesmo a falar de situações
pré-revolucionárias!…
Fonte : Communiqué sur la situation en
France suite aux manifestations récentes (GIGC) – les 7 du quebec
Este comunicado foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice



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