Declaração sobre o ataque americano à Venezuela (4 de Janeiro de 2026)
“Por GIGC/IGCL . Em http://www.igcl.org/Communique-sur-l-attaque-1358
A revista Révolution ou Guerre (Maio de 2026) nº 33
está disponível em fr_rg33_260424
Declaração sobre o ataque americano à Venezuela (4 de Janeiro de 2026)
O ataque americano à Venezuela e o sequestro do seu presidente Maduro na noite de 2 para 3 de Janeiro marcam uma nova etapa na corrida para a guerra imperialista generalizada. Ninguém duvidará realmente disso. « Ninguém mais questionará a dominação americana no hemisfério ocidental », declarou Trump durante essa mesma conferência de imprensa. A intervenção americana fora de qualquer quadro jurídico internacional ou mesmo nacional significa que o momento é de pura e simples força militar, sem pretensão de legalidade, e que esta tendência é agora definitiva. Tal como a Sociedade das Nações, em meados da década de 1930, sobretudo a partir da invasão da Etiópia pelo italiano mussoliniano, se tinha tornado uma casca vazia, a ONU já não conta. Já não existe. Não haverá regressos. O direito do mais forte e da canhoneira já não se disfarça, não se esconde mais atrás de qualquer direito internacional.
As regras do jogo imperialista que prevaleciam desde
1945 já não existem. E muitos já não podem participar nele. Apenas os Estados
Unidos, a China e, num grau menor, a Rússia, possuem agora as cartas para se
sentarem à mesa do jogo, para grande desgosto das velhas potências europeias,
que têm estado excluídas desde a eclosão da guerra na Ucrânia. Tendo em conta
os precedentes estabelecidos pela política externa de Trump, nenhuma regra
formal impede a China de impor um bloqueio naval, ou até de invadir Taiwan, e
as ameaças militares americanas sobre… a Gronelândia enquadram-se na ordem do
possível, senão do provável, para grande receio da Dinamarca e dos europeus.
Trump também ameaçou o México, a Colômbia e Cuba[ 1 ]. Mesmo a burguesia canadiana, que faz parte há muito do bloco imperialista
dirigido pelos Estados Unidos, terá de começar a preocupar-se, tendo em conta a
vontade dos Estados Unidos de tomar à força tudo o que puderem.
O assalto a Caracas não tinha apenas como objectivo
colocar as mãos no petróleo venezuelano e privar a China e, de passagem, Cuba.
Também é necessário pressionar e isolar ainda mais os governos sul-americanos
que ainda não estão alinhados com as políticas trumpistas. Em particular, o
Brasil de Lula está na linha de mira. Depois do Panamá, da Argentina de Milei,
depois do Chile, do Equador, do Peru, etc., o continente da América do Sul e
Central está a ser posto na linha. A garra americana estende-se e ameaça. O
acesso da China e de outros concorrentes, especialmente europeus, aos mercados
da América do Sul tornar-se-á cada vez mais difícil e a sua influência e
presença imperialista irão diminuir na mesma proporção.
À hora em que escrevemos, o destino da Venezuela ainda
não está definido quanto à equipa no poder. Este episódio sublinha a
incapacidade da Rússia e da China de projectar o seu poder muito para além das
suas costas, uma capacidade que apenas os Estados Unidos possuem por enquanto.
Foram impotentes para impedir os bombardeamentos americanos e o rapto de
Maduro, que havia encontrado um enviado do governo chinês poucas horas antes de
ser capturado pelas forças americanas. Isso só pode incitar os sucessores, sejam
do regime em vigor ou da oposição pró-americana – igualmente corrupta e sempre
foi assim [ 2 ] – a responder aos ditames
americanos. «Os Estados Unidos fornecerão uma visão de como a Venezuela
deve ser governada e esperarão que o governo interino a implemente durante um
período de transição, sob a ameaça de uma nova intervenção militar[ 3 ]».
Em contrapartida, as outras potências imperialistas,
começando pela China e provavelmente também os europeus, serão reforçadas na
convicção de que apenas medidas de ordem militar podem assegurar a sua
sobrevivência, já que, no final, só a força conta. A corrida
mundial aos armamentos vai ainda acelerar. Pior ainda, a ofensiva americana
para excluir a China do continente americano insere-se na política imperialista
clássica do imperialismo americano, conhecida como «containment», a mesma que
estrangulava cada vez mais o Japão nos anos 1930 e que o levou a lançar-se na
aventura de Pearl Harbor. Não podemos aqui antecipar a eficácia desta política
de estrangulamento da China hoje. No entanto, não há grandes dúvidas de que
esta não poderá deixar de reagir de alguma forma, inclusive acelerando o
desenvolvimento do seu poder naval, correndo caso contrário o risco de aceitar
os ditames americanos.
O ataque americano contra a Venezuela torna Taiwan
mais directamente ameaçada. Embora a China não disponha da capacidade de
projecção de poder dos Estados Unidos, possui os meios e a motivação
necessários para exercer poder coercivo perto das suas próprias costas. Pode
estrangular economicamente Taiwan e pressionar através da apreensão de navios
comerciais. Pode também pressionar os Estados Unidos ao limitar as exportações
de gálio e de terras raras, dois minerais estratégicos que constituem
matérias-primas importantes para qualquer projecto americano de repatriamento
da fabricação de chips electrónicos de ponta, actualmente concentrada em
Taiwan. Mesmo antes da última escalada com a Venezuela, a China tinha anunciado
a construção de nove porta-aviões até 2035. A corrida para a guerra está bem
lançada e o assalto à Venezuela só pode convencer os últimos hesitantes da sua
realidade.
No caso da Venezuela, o proletariado local e
internacional deve abster-se de qualquer apoio a um campo ou outro, tanto ao
campo de Maduro chamado «bolivariano» como ao campo pró-americano chamado
«democrático». Apoiar um ou outro campo só poderia agravar ainda mais a
situação dos operários e assalariados do país, nem que seja pelo facto de só
poderem servir de carne para canhão em caso de conflito armado. Uma participação,
ou mesmo apenas um apoio passivo, a um campo ou outro só poderia prejudicar
qualquer resistência futura às condições de exploração, salários, empregos,
repressão, etc., que não poderão senão piorar, independentemente do governo.
O mesmo se aplica aos proletários dos países vizinhos
da América Central ou do Sul, Colômbia ou Brasil em particular, bem como ao
proletariado internacional em geral. É provável que forças de esquerda tentem
organizar manifestações de apoio contra o "imperialismo ianque". Isto
já acontece nos Estados Unidos, onde se realizaram manifestações contra a
intervenção americana nas principais cidades, Nova Iorque, Chicago, São
Francisco, Washington, etc., no dia 3 de Janeiro. O mesmo ocorre na Europa e no
Canadá. A pedido da France Insoumise e do PCF, realizou-se em Paris uma
manifestação expressiva de algumas centenas de pessoas. Certamente, não é
participando nela que os proletários podem prestar qualquer tipo de
solidariedade efetiva aos operários da Venezuela, ou mesmo à sua população como
um todo. O único terreno em que podem expressar a sua solidariedade de classe
encontra-se na luta contra o seu próprio capitalismo, incluindo contra os
governos de esquerda anti-americanos, ou pelo menos anti-Trump, dos presidentes
Lula – Brasil – e Gustavo Petro – Colômbia.
Acima de tudo, o ataque americano interpela ainda mais
o proletariado das principais potências imperialistas que nos estão a
precipitar para o drama, começando, claro, pelos Estados Unidos. A burguesia
americana empenha-se numa corrida para a frente que, apesar das fanfarronadas
de Trump e da sua equipa, mal consegue mascarar uma espécie de pânico face ao
seu declínio e à afirmação crescente e massiva do poder chinês. «Os
Estados Unidos nunca permitirão que potências estrangeiras roubem o nosso povo[ 4 ] e nos expulsem do nosso hemisfério», afirma Trump. Mas, para hoje defender
os seus interesses imperialistas ao nível exigido pela situação, a burguesia
americana terá também de redobrar os seus ataques contra o seu próprio proletariado.
O mesmo se aplica inevitavelmente aos outros rivais imperialistas. Eles devem
atacar a sua própria classe operária se quiserem ter sequer um lugar à mesa do
jogo.
É uma corrida contra o tempo que se estabeleceu entre o capitalismo e o proletariado cada vez mais miserável. O primeiro, encurralado, precipita-nos na guerra. O segundo deve enfrentar o agravamento das suas condições de vida e de trabalho devido à própria preparação geral para a guerra. Revolução proletária internacional ou guerra imperialista generalizada, tal é a alternativa perante a qual a humanidade se encontra. A responsabilidade histórica do proletariado, classe explorada e revolucionária ao mesmo tempo, bem como a das suas minorias comunistas, é por isso ainda mais comprometida.
O GIGC, 4 de Janeiro de 2026
1. https://www.axios.com/2026/01/03/trump-maduro-venezuela-mexico-sheinbaum2
2. A burguesia
venezuelana sempre foi uma burguesia parasitária, vivendo da renda petrolífera.
Isso resultou no facto de que o pessoal de que se munia para governar o país
sempre foi dos mais corruptos.3
3. New York Times,Trump Plunges the U.S.
Into a New Era of Risk in Venezuela, 3 de Janeiro de 2026.
4. Ou seja, a burguesia
americana considera que o petróleo venezuelano lhe pertence.
Fonte: Communiqué
sur l’attaque américaine contre le Venezuela (4 janvier 2026) – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa
por Luis Júdice

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