sábado, 14 de fevereiro de 2026

O crepúsculo das independências nacionais na era do imperialismo multipolar

 


O crepúsculo das independências nacionais na era do imperialismo multipolar

14 de Fevereiro de 2026 Robert Bibeau


Por Khider Mesloub e Robert Bibeau

A era das lutas pela independência nacional acabou; agora tudo gira em torno das dependências coloniais. O capital imperialista não tolera mais os caprichos dos movimentos de libertação nacional, nem as rebeldias dos combatentes pela independência. De agora em diante, os povos devem alinhar-se com a mundialização americano-sionista, integrar-se na nova configuração geo-política colonialista ou serão brutalmente apagados da história.

As grandes epopeias do século XX — da FLN argelina ao Viet Minh vietnamita, do MPLA angolano à FRELIMO moçambicana — parecem ser eras passadas. O que ontem parecia uma marcha irresistível rumo à soberania é hoje apenas uma memória tolerada, contanto que não inspire mais ninguém. Publicamos inúmeros artigos sobre   "  lutas de libertação nacional sob a égide das burguesias locais após o colonialismo ocidental  ":  https://les7duquebec.net/page/2?s=colonialisme (pode encontrar as versões em Língua Portuguesa no blogue “Que o Silêncio dos Justos Não Mate Inocentes”)

A punição dos países rebeldes  

A normalização agora é alcançada através de guerras, embargos ou desestabilização. O Iraque, culpado por querer existir fora do controle ocidental, foi esmagado por duas invasões sucessivas, arruinado por sanções e desmantelado. A Líbia de Khaddafi, que sonhava com uma África financeiramente independente, foi pulverizada em 2011 pela OTAN. A Síria, resistente aos planos geo-políticos de Washington e Telavive, mergulhou numa guerra sem fim.

Na América Latina, o Chile de Salvador Allende foi derrubado em 1973 por ousar nacionalizar a sua riqueza. A Venezuela chavista, por muito tempo apresentada como um bastião de resistência à hegemonia americana, acabou por sofrer o destino reservado às potências consideradas independentes demais: após anos de sanções, bloqueios financeiros e tentativas de desestabilização, Washington passou da pressão económica à intervenção directa. No início de 2026, uma operação militar dos EUA em Caracas levou à captura do presidente Nicolás Maduro, oficialmente acusado de narco-terrorismo, e à instalação de um governo interino imediatamente reconhecido e controlado pelos Estados Unidos. Essa mudança abrupta transformou um Estado antes recalcitrante numa potência agora alinhada aos interesses estratégicos e petrolíferos de Washington, ilustrando, quase caricaturalmente, o método contemporâneo de império: estrangular economicamente, derrubar politicamente e, em seguida, integrar à força à sua órbita. Em todos os lugares, o mesmo aviso: nenhuma nação tem o direito de se desviar da linha imperial. Veja nossos artigos sobre o caso da Venezuela: Resultados da pesquisa por “venezuela” – os 7 de Quebec (pode encontrar as versões em Língua Portuguesa no blogue “Que o Silêncio dos Justos Não Mate Inocentes”)

Rússia: O Retorno das Anexações Clássicas


Mas a erosão da independência nacional não é um fenómeno exclusivamente ocidental. A era imperial não é prerrogativa de um único bloco imperial: ela agora permeia todo o sistema internacional.

A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 foi um lembrete contundente de que a lógica das grandes potências permanece fundamentalmente a mesma. Sob o pretexto de proteger as populações de língua russa e defender a sua "profundidade estratégica", o regime de Vladimir Putin anexou a Crimeia em 2014 e, oito anos depois, absorveu unilateralmente diversas regiões ucranianas: Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson.

Quaisquer que sejam as justificações apresentadas, trata-se de um retorno flagrante aos métodos do século XIX: redesenhar fronteiras à força, negar aos povos vizinhos o direito de escolher livremente o seu destino e desafiar directamente a soberania de um Estado reconhecido. Este precedente ucraniano confirma uma realidade perturbadora: no mundo contemporâneo, a independência nacional já não tem grande peso diante das ambições geo-políticas das grandes potências, sejam elas americanas, europeias, chinesas ou russas. A era imperial já não reconhece campos morais, apenas esferas de influência.

Esse mecanismo não é novo. Em 1953, o Irão de Mossadegh foi derrubado por querer nacionalizar o seu petróleo. Em 1954, a Guatemala de Arbenz sofreu o mesmo destino por desafiar os interesses americanos. Patrice Lumumba no Congo, Thomas Sankara no Burkina Faso e tantos outros líderes do Sul Global pagaram com a vida pelo seu desejo de soberania nacionalista em benefício da burguesia nacional . A independência política só é aceite sob a condição de permanecer sob protectorado imperialista… como enfatizamos no nosso livro *  Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Questão Nacional e Revolução Proletária Sob o Imperialismo Moderno, de Robert Bibeau


O internacionalismo proletário está a afirmar-se na política mundial, um claro indício das profundas transformações na economia, na política e na ideologia das sociedades que vivem sob o modo de produção capitalista. Contudo, os proletários revolucionários devem realizar uma análise retrospectiva da corrente reformista do pensamento nacional-socialista que tenta ressurgir neste período de profunda crise económica sistémica. Lições devem ser extraídas dessa rejeição do nacionalismo reaccionário. Neste trabalho, propomos dissecar a política de esquerda em relação às lutas de libertação nacional no século XX, a era do triunfo do nacional-socialismo de esquerda dentro do movimento operário. O proletariado não tem pátria, e a guerra nacionalista, supostamente anti-imperialista, travada pelo direito da burguesia nacionalista chauvinista de controlar o seu Estado-nação (democrático, fascista ou socialista) e de saquear a mais-valia nacional para garantir a acumulação de capital, não leva a uma luta proletária revolucionária para derrubar e erradicar o modo de produção capitalista. Na fase imperialista, toda luta de libertação nacional é reformista ou reaccionária, nunca revolucionária proletária. Para demonstrar essa tese, apresentamos e comentamos os textos de diversos intelectuais, incluindo Mattick , Souyri , MacNally , Luxemburgo e o Operário Comunista .

Palestina: o símbolo máximo do nacionalismo burguês genocida. Veja nossos artigos:  https://les7duquebec.net/?s=palestine (pode encontrar as versões em Língua Portuguesa no blogue “Que o Silêncio dos Justos Não Mate Inocentes”)

O exemplo mais trágico continua a ser o dos palestinianos . Desde 1948, o seu povo tem sido sistematicamente desapropriado, expulso, confinado, bombardeado, exterminado e submetido a genocídio. O seu território nacional/colonial diminui ano após ano, os seus direitos desaparecem e a sua própria existência é negada pela burguesia nazi-israelita racista e sionista . Como o exemplo palestiniano demonstra tragicamente, um povo pode hoje ser vítima de limpeza étnica e genocídio , à vista de todos, sem que nada impeça o funcionamento da máquina colonial/imperial. A Palestina tornou-se o laboratório contemporâneo da guerra e do apagamento de nações em resistência. Veja o nosso artigo: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: A luta de libertação nacional do povo palestiniano contra o neo-colonialismo (1947-2026)

O Saara Ocidental: o enterro programado da auto-determinação burguesa nacional

A este quadro deve-se agora acrescentar o caso emblemático do Saara Ocidental. Antiga colónia espanhola até 1975, este território deveria, segundo o direito internacional, alcançar a auto-determinação. Uma Missão das Nações Unidas – a MINURSO – foi criada em 1991 para organizar um referendo que permitisse ao povo saarauí escolher entre a independência e a anexação por Marrocos. Este referendo nunca aconteceu. Durante quase meio século, Marrocos ocupou de facto o território, marginalizando progressivamente a Frente Polisário e a República Árabe Saarauí Democrática. O que deveria ser uma descolonização incompleta transformou-se numa anexação silenciosa. A mudança diplomática acelerou-se nos últimos anos. Em 2020, os Estados Unidos reconheceram oficialmente a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental em troca da normalização das relações entre Rabat e Israel. A União Europeia e a França, na prática, apoiaram esta medida.

O ponto de viragem decisivo ocorreu em 31 de Outubro de 2025: nesse dia, o Conselho de Segurança da ONU adoptou a Resolução 2797. Pela primeira vez, um texto da ONU designou o plano de autonomia proposto por Marrocos em 2007 como a "referência principal" para as negociações políticas. Noutras palavras, a opção de independência por referendo, o cerne histórico da questão, foi relegada para segundo plano a favor de uma solução interna sob a soberania marroquina. Assim, quase sem alarde, uma das últimas grandes questões de descolonização do século XX chegou ao fim. O Saara Ocidental, legalmente não autónomo, tornou-se politicamente marroquino. A mensagem é clara: mesmo com o amparo do direito internacional, um povo não tem chance quando os interesses geo-estratégicos ditam o contrário.

Novas anexações: velho imperialismo


A lógica não se limita ao Magreb. A Gronelândia , subitamente declarada "estratégica" por Washington, está ameaçada de anexação por Donald Trump. O próprio Canadá está a ser forçado a conformar-se com o estatuto de mero território periférico. O mesmo cenário se repete em todos os lugares: as fronteiras só têm valor na medida em que servem aos poderes capitalistas. Veja os nossos artigos em https://les7duquebec.net/page/2?s=colonialisme  (pode encontrar as versões em Língua Portuguesa no blogue “Que o Silêncio dos Justos Não Mate Inocentes”)

O imperialismo contemporâneo já nem sequer precisa de exércitos de ocupação permanentes. Impõe dependências através de dívidas, sanções, bases militares e programas de ajustamento estrutural. Ontem, enviavam-se soldados; hoje, envia-se o FMI ou impõem-se tarifas (Trump). Ontem, impunham-se governadores coloniais; hoje, governos "reformistas". Ontem, falava-se de civilização; hoje, de governação. A forma muda, mas não a dominação.

A soberania nacional tornou-se uma ficção tolerada. Os Estados podem hastear bandeiras, mas não podem decidir o seu próprio destino. Podem votar, mas não podem desviar-se das regras estabelecidas pelo império.

As independências conquistadas ontem pela Índia, Argélia, Vietname ou Cuba parecem ser os últimos vislumbres de uma era que agora chegou ao fim.

A ordem mundial apresenta-se como defensora da lei, da “democracia” e das liberdades. Na realidade, reconhece apenas uma regra: a do mais forte. Integre-se ou desapareça. Submeta-se ou seja destruído. Tal é o novo dogma geo-político, o credo geo-estratégico. E ousam chamá-lo, com absoluto cinismo, de: “a ordem internacional baseada em regras”.

"A libertação dos povos não pode ser alcançada através da formação de estados burgueses separados e pseudo-independentes."

 Por trás da retórica da “democracia” e do direito internacional, o capitalismo mundial está a regressar à sua natureza original: predação, captura, colonização. Os povos não são mais libertados, são subjugados; os Estados não são mais soberanos, são compelidos a obedecer. Onde antes reinavam os administradores coloniais, agora dominam as multinacionais, as sanções e as intervenções militares. O sistema não cria mais, saqueia; não integra mais, anexa; não persuade mais, coage. A era da independência nacional está a chegar ao fim. O mundo está a retornar à sua antiga lei imperial: os poderosos decidem, os fracos submetem-se.

Em A Questão Nacional e a Autonomia (1908-1909), Rosa Luxemburgo escreve sem ambiguidade: “ O chamado ‘direito dos povos à auto-determinação’ nada mais é do que uma expressão metafísica, uma fórmula vazia, desprovida de conteúdo real, dentro da estrutura do capitalismo”. E esclarece imediatamente: “A libertação dos povos não pode ser alcançada pela formação de Estados independentes, mas apenas pelo derrube do capitalismo à escala internacional ” .

Esta observação lança uma luz impressionante sobre a situação actual. Os movimentos nacionalistas independentistas, longe de inaugurarem uma era de verdadeira soberania, provaram ser nada mais do que uma ilusão histórica. Desde o início do século XX, o revolucionário alemão afirmava que o futuro não residia na proliferação de novos Estados, mas na revolução proletária internacional . A história, um século depois, confirma essa afirmação: as soberanias proclamadas cederam uma após a outra ao império do capital. A verdadeira emancipação, portanto, não virá da manutenção de Estados-nação burgueses concorrentes e dominados, mas da sua transcendência dentro de uma comunidade humana livre de classes, fronteiras e todas as formas de dominação.

Khider MESLOUB

 

Fonte: Le crépuscule des indépendances nationales à l’époque de l’impérialisme multipolaire – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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