A luta de classe revolucionária do proletariado
Uma vez desaparecida a burguesia que, como grupo de
pessoas físicas, se opunha ao proletariado, ainda se pode falar da luta de
classe revolucionária do proletariado e que forma ela assume?
A resposta de Bordiga é afirmativa e está estreitamente ligada à definição que ele dá da classe proletária como força social. O conceito de força implica, por um lado, um aspecto “material” e “impessoal”, e por outro, um aspecto “dinâmico”, de “movimento orientado”.
O movimento da classe proletária não deve ser entendido como o resultado de tantos actos de vontade consciente dos inúmeros elementos que compõem a classe. A sua causa deve ser procurada em factos físicos e materiais, ou seja, no desenvolvimento da contradição entre forças produtivas e relações de produção:
"Seria insuficiente dizer que o determinismo marxista elimina como causas motoras dos factos históricos (como de costume não se confunda a causa motor com o agente operante) a qualidade e a actividade de pensamento ou de luta de homens de valor excepcional, e substitui-os pelas classes, entendidas como colectividades estatísticas de indivíduos, deslocando simplesmente os factores ideais da consciência e da colectividade do uno para os muitos... Trata-se de inverter o lugar da causa e de a retirar da consciência ideal, para o facto físico e material.» ([A. Bordiga], ibid.)
[...]
Esse movimento tem, no entanto, uma direcção histórica precisa: a superação das formas de produção capitalistas. É precisamente com base na direcção do seu movimento que a classe se define como tal, e não, portanto, enquanto grupo social definido estatística e sociologicamente com base num critério estático de selecção económica, de acordo com a fonte ou o montante dos seus rendimentos:
[...]
«A classe não se define pela demonstração de resultados, mas pela posição histórica face à gigantesca luta com que a nova forma geral de produção supera, derruba e substitui a antiga.» ([A. Bordiga], «Dança de marionetas, da consciência à cultura»)
«Classe não indica uma simples página do registo do recenseamento, mas sim um movimento histórico, uma luta, um programa histórico. Uma classe que ainda não encontrou o seu programa é quase desprovida de sentido. O programa determina a classe.» ([A. Bordiga], ibid.)
No entanto, a consciência ou, melhor dizendo — afirma
Bordiga —, o conhecimento [...] da direcção do movimento, do seu ponto de
chegada na forma de programa histórico da classe, não é alcançado
individualmente por todos os seus membros, nem mesmo pela maioria destes, mas é
alcançado colectivamente pela classe através da colectividade impessoal do
partido, do qual, enquanto organismo de luta, podem fazer parte elementos
provenientes de todas as classes sociais.
O confronto de classes configura-se, portanto, não tanto como uma luta entre dois grupos sociais definidos estatística e sociologicamente, mas como um confronto entre duas forças sociais antagónicas e dois alinhamentos organizacionais e políticos, enquanto agentes dessas forças
[...]
Por um lado, os capitalistas, «entendidos não como detentores do capital, mas como promotores e defensores do sistema capitalista» ([A. Bordiga], «Gracidamento della prassi»). O seu «programa de classe» encontra-se já concretizado na existência e na perpetuação das formas de produção capitalistas e encontra no Estado — ou melhor, nos Estados, pois essa classe é cada vez mais internacional — o seu órgão, enquanto aparelho político e militar que defende esse sistema e assegura a sua reprodução mundial.
Por outro lado, os comunistas revolucionários que visam a superação desse sistema baseado no domínio do trabalho morto sobre o trabalho vivo, e têm no partido comunista internacional o órgão de realização desse programa histórico.
Sendo essas formações cada vez mais internacionais, a forma definitiva do confronto de classes só pode, para Bordiga, assumir-se como um confronto entre o partido comunista internacional, por um lado, e o conjunto dos aparelhos estatais, por outro, pela destruição ou pela conservação do modo de produção capitalista mundial.
Na sociedade russa, tão capitalista como a ocidental, mantém-se, portanto, válido para o proletariado o objectivo da revolução comunista defendida por Marx, apesar de a burguesia ter desaparecido: consiste, de facto, na abolição do próprio proletariado, único facto com o qual desaparece também para sempre o domínio do capital:
«A nossa classe define-se pela reivindicação de que ela própria, nas estatísticas da quantidade e da qualidade, e sobretudo ela própria (pois o desaparecimento já em curso das classes inimigas representa pouco ou nada), desapareça no nada.» ([A. Bordiga], «Alfa a Onorio», 9 de Julho de 1951)
[...]
(Extraído de Liliana Grilli, «Amadeo Bordiga: capitalismo soviético e comunismo»)
Fonte: mural de facebook de Ernesto Román
Traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice

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