domingo, 19 de julho de 2026

Relatos da vida de um imigrante em Portugal

 


Relatos da vida de um imigrante em Portugal

Permitam-me atribuir um rosto humano à imigração que procura em Portugal um espaço de acolhimento, trabalho, segurança e estabilidade – financeira e securitária, entre outras.

E esse rosto, no caso presente, tem um nome: IBRAHIM JALLOH, vulgarmente conhecido por TISCO (como, aliás, o passarei a tratar a partir de agora). O Tisco, que nasceu em 1967 na Serra Leoa, em África, decidiu imigrar para a Jamaica onde viveu durante alguns anos e onde aderiu à filosofia e modo de vida rasta. É um ser humano bondoso, honesto, solidário, amigo, trabalhador, criativo, que, apesar do que a seguir se relata, continua a acreditar de que todo o homem ou mulher é intrinsecamente bondoso.

Encantado com os relatos de amigos que lhe referiam que Portugal era um país que acolhia muito bem os imigrantes, decidiu vir para o nosso país, faz agora 27 ANOS!!!, Instalou-se em Lisboa à procura de trabalho, estabilidade e segurança, um paradigma para a esmagadora maioria dos imigrantes que escolhem o nosso país para viver e trabalhar.

Começou a trabalhar na construção civil, um trabalho que não exigia grande qualificação. Aforrou o suficiente para seguir o seu sonho: ser estilista. Inscreveu-se na prestigiada escola MODATEX, onde adquiriu, com excelência, as competências para vir a estabelecer-se, por conta própria, como aquilo que o próprio qualifica de artesão da moda aficana, na capital portuguesa.

O seu trabalho é largamente apreciado pela comunidade africana, como o comprova a sua vasta carteira de clientes. Para alcançar esse sucesso e, pelo caminho, assegurar os rendimentos necessários a provir as suas necessidades e, mais tarde, as da sua família, alugou, há mais de 13 anos,no mesmo edifício, sito na Rua dos Anjos, nº 47 e 47-A, uma loja e um pequeno apartamento.

A loja não tem o clássico conceito de porta aberta ao público. Funciona à porta fechada como atelier onde recebe a sua clientela – mulheres, homens e crianças -, propõe os seus modelos conceptuais, retira as medidas para as várias peças de roupa que confecciona – casacos, calças, saias, blusas, camisas, etc. – que seguem para a mesa de corte, depois para a costura e finalmente para a prova e consequente aprovação dos clientes.

Um verdadeiro artesão! Que, como seria de esperar de qualquer criativo, ainda por cima com uma filosofia rasta, não se sente confortável para lidar com tarefas mecânicas e administrativas, como a contabilidade. Para isso, contratou uma contabilista que dá pelo nome de TINA (o seu nome real é outro mas, por motivos legais, não o mencionarei neste espaço).

A dita senhora, como qualquer personagem especializada na “arte” da manipulação, conseguiu aperceber-se das fragilidades do TISCO em matéria de questões de contabilidade e gestão financeira e “tomou de assalto” o acesso às plataformas digitais em que o TISCO estava inscrito, mormente na Segurança Social Directa e na AT (Autoridade Tributária, vulgo Finanças). Com uma frequência estonteante, solicitava ao TISCO transferências bancárias, em montantes variáveis, alegando que se destinavam a pagamentos devidos àquelas entidades.

Entretanto, volvidos alguns anos, e quando começou a ser pressionada para explicitar melhor ao que se destinavam as verbas que exigia, a dita TINA entrou em modo de desaparecida em combate”. E, hoje, só se sabem duas coisas: que ela vive em Braga e que ainda se encontra registada como contabilista na respectiva Ordem.

Depois de complexas diligências para retomar o controlo dos acessos aos sites da Segurança Social e das Finanças, e com a ajuda de um profissional muito conceituado – que tem estado a colaborar com ele pro bono – eis que o TISCO é confrontado com a dura realidade, que desconhecia até então. Estava devedor à Segurança Social de 50  Mil Euros !!! – entre dívida e juros de mora, e a dívida às Finanças ascendia a quase 2 mil euros.

Contactadas de urgência, conseguiu-se estabelecer com ambas as entidades PLANOS PRESTACIONAIS. Só o da Segurança Social – o de mais elevado montante – deverá ser pago em 12 anos. O relativo às Finanças deverá acabar dentro de 4 a 6 mêses e é de um montante infinitamente inferior. Como poderão facilmente imaginar, o esforço financeiro exigido para assumir estes compromissos, a que temos de juntar, rendas da casa e da loja, alimentação e outras despesas comuns – água, luz, comunicações, despesas escolares com os filhos, etc. – é enorme e fragiliza extraordinariamente a programação financeira de qualquer pessoa, sobretudo quando essa pessoa vive, exclusivamente, do seu trabalho.

Pois bem, como um mal parece nunca vir só, desde o início dos anos 20 deste século, emergiu uma nova frente da luta do TISCO. Os herdeiros do prédio onde se insere a sua loja e a sua residência, de forma absolutamente ilegal, decidiram comunicar-lhe que não pretendiam renovar esses contratos. De forma soez e traiçoeira, e perante a reacção do TISCO que procurou apoio jurídico na Junta de Freguesia de Arroios, em Lisboa, “fecharam-se em copas” e não revelaram mais qualquer presumível acção futura. O TISCO foi depositando, a conselho do advogado, as rendas que o senhorio recusava, numa conta aberta na CGD para esse fim.

Foi com grande espanto e consternação, portanto, que no passado dia 16 de Julho de 2026, se deu conta da chegada de uma carrinha de caixa aberta que estacionou, com metade do rodado em cima do passeio, frente à sua loja, o 47A da Rua dos Anjos, em Lisboa. Da carrinha saíram o alegadamente o “novo inquilino” e três operários que este arregimentou para forçarem as grades de protecção da loja, arrombarem e extraírem (com recurso a serra eléctrica) as duas fechaduras da porta de entrada e, depois de assegurado o acesso à loja, começassem a despejar dezenas de grandes sacos com toneladas de entulho para impedirem o acesso à loja e ao seu recheio (que se estima terem entre stock de tecidos, maquinaria diversa e outros equipamentos, uma valor de várias dezenas de milhar de euros). Não fora a exigência do TISCO em que colocassem a corrente e o cadeado que podem ver numa das fotos publicadas e o acesso à loja teria sido altamente facilitado a qualquer “amigo do alheio

Como moro na mesma rua e tenho, por razões humanitárias, ajudado o TISCO a organizar-se e a dar maior coesão e foco à sua vida, este telefonou-me de imediato a alertar-me para o que se estava a passar. Imediatamente, desloquei-me ao local da “invasão” e confrontei os alegados invasores. Um gorila, certamente praticante de ginásio, revelando elevados níveis de testosterona, quando eu pretendia entrar na loja, já com demasiados sacos de entulho na sua entrada, barrou-me o caminho. Perguntei-lhe se, para conseguir esse objectivo, se dispunha a espancar um idoso de 76 anos de idade, como é o meu caso. Em tom ameaçador, e enquanto, com o seu corpo continuava a barrar a minha entrada, limitou-se a dizer, em tom arrogante e sobranceiro, que não tinha intenções de o fazer mas, que para isso, era necessário que eu não “tentasse passar por cima de um jovem de 29 anos!!!”.

Face a esta desigualdade de forças, decidi, então, chamar a PSP que enviou 2 agentes da sua Esquadra do Martim Moniz. Qual não foi o meu espanto quando, perante a situação, e mesmo tendo as duas partes apresentado “provas” da sua legitimidade quanto ao espaço em causa – o TISCO apresentado o contrato de arrendamento com o, sabe-se agora, antigo proprietário, e o gorila apresentando um contrato de arrendamento com um novo proprietário cuja existência era desconhecida (por nunca lhe ter sido comunicada) do TISCO -, os dois agentes, numa manifesta ausência de imparcialidade, decidiram permitir que a “invasão” se consumasse, porque, alegaram, como o caso era de natureza cível e não criminal, teria de ser o Tribunal a decidir sobre qual das partes tinha realmente legitimidade para se reclamar como inquilina do dito espaço, já que a PSP é uma força policial de âmbito criminal e, portanto, nada podia fazer para impedir aquela acção de alegada invasão.

E isto apesar de eu, quer na altura junto aos mencionados agentes, quer posteriormente junto do graduado e chefe, durante a nossa deslocação à Esquadra do Martim Moniz, na parte da tarde do mesmo dia, ter tentado que a PSP entendesse que, na prática, o que estava a acontecer é que a PSP, ao facilitar a prossecução da alegada invasão, estava a decidir – ILEGALMENTE – pelo Tribunal, única entidade que terá legitimidade para decidir sobre quem tem razão neste caso. No mínimo, o que se esperaria da PSP é que ordenasse a suspensão da acção de despejo até que o Tribunal decidisse qual das partes tinha legitimidade para ocupar aquele espaço.

No dia seguinte, 17 de Julho de 2027, deslocámo-nos ao Ministério Público no Campus da Justiça, em Lisboa, e apresentámos queixa. Entretanto, no meio de toda esta tormenta maquiavélica, este sábado recebemos um ofício da Ordem dos Advogados a comunicar ao TISCO o nome da advogada que tinha sido nomeada – no âmbito do processo contra a TINA, mas que também tomará conta deste caso – para defender o TISCO.

Neste sábado, 18 de Julho de 2026, o TISCO foi, também, confrontado, com o corte da água na sua residência. Alguém (vá-se lá saber quem???!!!) escavacou a parede das escadas que dão acesso à sua residência e, provavelmente com a mesma picareta, furou o tubo onde corre a água, impedindo que esta fluísse para a casa do TISCO, onde este reside com a esposa e dois filhos menores, um de ano e meio e outro de 5 anos. É o que faz a ganância de obter lucros nem que, para isso, se tenha de esmagar, humilhar e privar de habitação e espaço de trabalho, terceiros.

Este caso é mais um, entre muitos, revelador de qual a lei que protege os inquilinos e, sobretudo,  (não) proteje os imigrantes. Um caso que não devia merecer o vosso silêncio ou distanciamento. O TISCO precisa da vossa ajuda e solidariedade. Uma das formas de solidariedade passa por lhe garantir os meios financeiros que o habilitem a procurar soluções para o curto e médio prazo, mormente para cobrir as despesas para eventuais novos contratos de arrendamento, noutras localizações, e quer para o espaço loja/atelier, quer para o espaço residencial.

Com esse propósito decidiu o TISCO solicitar a solidariedade de TODOS e TODAS, divulgando a sua conta bancária onde poderão fazer chegar os seus donativos. Ele agradece, desde já, todo o apoio e solidariedade que espera de vós.

 


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