sábado, 21 de fevereiro de 2026

A colonização bate às portas de Jabal Amel! O povo libanês resiste


A colonização bate às portas de Jabal Amel! O povo libanês resiste

21 de Fevereiro de 2026 Robert Bibeau

Por Ali Srour (Líbano)

À medida que o Estado estende a sua soberania a todo o seu território, as características desta nova fase tornam-se cada vez mais claras para os libaneses, particularmente no sul. Sem qualquer dissuasão política ou militar, dezenas de colonos israelitas cruzaram a fronteira entre o Líbano e a Palestina ocupada na semana passada e entraram na cidade libanesa de Yaroun “como conquistadores”. “Aqui, plantei o cedro, e aqui está o Líbano diante de nós. Tudo isso é herança dos nossos ancestrais, uma terra magnífica e incomparável. Tudo isso nos pertence”, exclamou Uri Tzafon, membro do movimento de colonização, acrescentando: “Ocupamos esta área e agora devemos estabelecer-nos aqui”.


O Sul no epicentro da tempestade

Do lado libanês, o governo e as autoridades políticas permaneceram em completo silêncio, como se nada tivesse acontecido. O mesmo se aplica à comunidade internacional e às suas forças, presentes no sul do Líbano há décadas. Vale ressaltar que "qualquer actividade de colonização nos territórios ocupados" é considerada ilegal pela Quarta Convenção de Genebra, que, no caso dos colonatos na Cisjordânia, tornou-se praticamente letra morta.
Do lado israelita, as forças de ocupação alegaram que "um grupo de 20 colonos judeus se reuniu perto da fronteira e que apenas duas pessoas cruzaram a cerca antes de serem detidas e devolvidas ao território israelita".

No entanto, o Canal 12 israelita refutou a versão dos factos apresentada pelas forças israelitas, afirmando que reportagens e vídeos confirmaram que mais de duas pessoas cruzaram a cerca no meio de dezenas de extremistas reunidos, incluindo mulheres e crianças, pertencentes ao movimento de extrema-direita pró-colonato. Segundo o canal, esse movimento, financiado e ideologicamente apoiado por grupos pró-Israel nos Estados Unidos e na Europa, tentou plantar árvores em território libanês com o objectivo deliberado de promover o estabelecimento de colonatos israelitas, defendendo uma "correcção histórica" ​​através da "retoma" da actividade de colonatos no Líbano.

Embora o exército israelita tenha descrito o incidente como "grave" e uma violação criminosa que põe em risco civis e soldados, as incursões do movimento de colonatos intensificaram-se consideravelmente nos últimos tempos, ganhando popularidade entre muitos israelitas. Essa escalada ocorre após tentativas anteriores de grupos extremistas de colonos de cruzar a fronteira síria sob a bandeira do chamado "Grande Israel" e baseando-se em supostas justificações bíblicas.

Ironicamente, o movimento de colonização utilizou deliberadamente o plantio de árvores para projectar uma imagem de desenvolvimento ambientalmente responsável e civilizado para os seus projectos de colonização. Isto contrasta fortemente com a realidade de mais de dois anos de bombardeamentos israelitas com artilharia e fósforo, bem como de ataques aéreos que frequentemente visaram vastas florestas, muitas vezes com o único objectivo de destruir o ambiente nas zonas fronteiriças, estendendo-se às vezes profundamente no sul de Israel. No mês passado, as forças de ocupação culminaram esta política ao lançar produtos químicos tóxicos sobre as florestas das aldeias fronteiriças, erradicando assim toda a vegetação.


Incursões repetidas

Em Janeiro de 2024, o soldado israelita Yisrael Sokol, de 24 anos, foi morto durante a ofensiva na Faixa de Gaza. Segundo diversos artigos na media judaica, Sokol sonhava não apenas com a criação de colonatos israelitas em Gaza, mas também com a possibilidade de se estabelecer no Líbano. O seu irmão, Yaakov Sokol, relata que eles haviam discutido esse plano de viver no Líbano: "É uma terra que deveria estar nas nossas mãos."

Após a morte de Yisrael Sokol em Gaza naquele ano, Amos Azaria, um professor universitário actuante no crescente movimento para estabelecer colonatos israelitas em Gaza, participou numa shevá, um período tradicional de luto de sete dias no judaísmo após um funeral. A sua conversa com a família Sokol levou à fundação da organização pró-colonatos "Uri Tzafon". Em poucos meses, o grupo cresceu consideravelmente, principalmente em grupos de WhatsApp, atraindo milhares de membros extremistas de todo Israel. Desde então, os líderes do movimento têm partilhado regularmente imagens da agressão em curso contra o Líbano nessas plataformas virtuais, juntamente com sugestões detalhadas de novos nomes hebraicos para substituir os de cidades libanesas.


No Verão de 2024, após o assassinato, por Israel, do comandante militar do Hezbollah, Fouad Shukr, o movimento de colonatos comemorou, declarando que o seu projecto "não era mais um sonho, mas uma realidade". Entre as operações simbólicas realizadas durante esse período, estava o lançamento de panfletos por drones e balões sobre aldeias libanesas na fronteira, com a mensagem: "Atenção! Esta é a terra de Israel, pertencente aos judeus. Vocês devem evacuar imediatamente."

Quando a agressão em larga escala contra o Líbano começou no final de Setembro de 2024, o movimento publicou um anúncio intitulado "É hora de se estabelecer no Líbano", acompanhado de um mapa mostrando terrenos e propriedades à venda. O mapa detalhava a localização dessas propriedades, desde a área ao sul do rio Litani, em Qasmiyeh, até os territórios palestinianos ocupados. Incluía quatro grandes cidades: Tiro, Bint Jbeil, Marjeyoun e Hasbaya, bem como todas as aldeias ao redor. O anúncio convidava os colonos a "seguirem para o norte", com terrenos a partir de 80.000 dólares.

A “incursão de Yaroun” não foi um incidente isolado. O movimento de colonatos explorou o período de ocupação israelita de aldeias fronteiriças durante mais de dois meses após o cessar-fogo. Em Janeiro de 2025, um grupo da organização “Uri Tzafon” cruzou a fronteira libanesa em direcção à cidade de Maroun al-Ras. Durante esse incidente, a organização montou tendas na cidade libanesa, um prelúdio para o estabelecimento de um colonato, alegando que o local era anteriormente chamado de “Mei Marom” e que era “antiga terra hebraica onde sacerdotes viviam, e nós retornaremos aos lugares onde os judeus viviam no Líbano”.


Um olhar em direcção ao Líbano

O movimento "Uri Tzafon" está a ganhar terreno na direita israelita, tanto entre o público em geral quanto entre os líderes políticos. O grupo realizou uma reunião em Junho.

Em 2024, o movimento de colonatos realizou a sua primeira conferência sob o lema "Modelos de Colonato Bem-Sucedidos do Passado e Lições do Sul do Líbano". Este evento marcou o lançamento do movimento "Uri Tzafon", que declarou que a primeira conferência tinha como objectivo "ocupar o Sul do Líbano até o Rio Litani e instalar judeus aí".

Nesse contexto, o movimento de colonatos insiste que “após a derrota do Hezbollah, Israel deve ocupar territórios no sul do Líbano”. Eliyahu Ben-Asher, membro fundador do “Uri Tzafon”, afirma que a verdadeira vitória no Médio Oriente reside na aquisição de terras e que, para garantir a preservação futura dos territórios conquistados, colonatos israelitas devem ser estabelecidos ali. Para atingir esse objectivo, ele acredita que a expulsão dos habitantes do sul do Líbano é essencial: “Não há maneira lógica ou razoável de administrar o sul do Líbano com uma população hostil”.

Por outro lado, Ori Tzafon invoca o que ela chama de "modelo dourado" aplicado por Israel nas Colinas de Golã após a ocupação e a limpeza étnica da maioria de seus habitantes na sequência da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Ben Asher argumenta que os colonatos no Golã trouxeram paz e segurança através do deslocamento em massa da população síria, seguido por cinquenta anos de calma nessa fronteira.

É importante notar que o plano estratégico para despovoar o sul do Líbano não é exclusivo do movimento de colonatos. O Instituto Alma de Estudos Estratégicos, localizado na fronteira norte da Palestina ocupada, partilha dessa visão. O instituto aplaude a actual política das forças israelitas, que resultou no deslocamento de moradores de aldeias fronteiriças, massacres diários, destruição sistemática de vilarejos e bombardeamentos contínuos em todo o sul do Líbano.

No entanto, o instituto enfatiza que essas medidas são insuficientes sem uma operação de deslocamento populacional em larga escala e a criação de uma zona de segurança permanente em território libanês. Para sublinhar a gravidade do projecto de colonatos no Líbano, Eliyahu Ben-Asher traça um paralelo entre o passado e o presente, entre a época em que as Colinas de Golã foram despovoadas e colonizadas, e hoje: “ Naquela época, o movimento de colonos tinha pouca influência sobre as políticas públicas. Hoje, ele reina absoluto sobre o território e molda as políticas governamentais e estatais. ”


Entre as aspirações de extremistas e movimentos de colonatos, o seu alinhamento com as recomendações de institutos israelitas especializados e a convergência de todos esses objectivos com a ambição declarada do chefe do poder político, Benjamin Netanyahu , de estabelecer um “Grande Israel”, o sul do Líbano encontra-se numa perigosa encruzilhada histórica, especialmente porque o despovoamento de aldeias fronteiriças tornou-se uma realidade generalizada mais de um ano após a declaração do cessar-fogo. Enquanto isso, no mundo paralelo do poder político libanês, as comemorações continuam nos palácios dos políticos, com o Sul “a retornar ao seio do Estado”. Contudo, as lições do passado recente demonstram que ambições agressivas não são novidade e nunca cessaram ao longo de quase oito décadas, e que a inacção do Estado tem sido um tema recorrente durante todo esse período.

Ali Srour

16 de Fevereiro de 2026

 

Fonte: La colonisation frappe aux portes de Jabal Amel! Le peuple Libanais résiste – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



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