Quando a França
burguesa se comove com as rixas entre pequenos grupos e banaliza os massacres
israelitas em Gaza
21
de Fevereiro de 2026 Robert Bibeau
Por Khider Mesloub .
Poucas sociedades revelam as suas
prioridades morais com tanta clareza quanto a França, na forma como priorizam
as formas de violência que escolhem retratar. A media e os políticos franceses
são mestres em exibir a violência quotidiana, ao mesmo tempo que normalizam a
violência estatal, seja policial ou militar, tanto na França quanto em Israel.
Essa hierarquia da violência não é abstracta: ela molda a narrativa política e
mediática francesa diariamente.
Na França, um vídeo a mostrar alguns
adolescentes a empurrar-se e a confrontar-se num comboio ou uma altercação no
saguão de um prédio é suficiente para colocar imediatamente em movimento a grande
máquina da dramatização histérica. Dos estúdios climatizados da CNEWS às
colunas do Le Figaro, dos sets da BFM aos discursos dos ministros macronistas,
o mesmo refrão é repetido: "a brutalização da sociedade", "a
perda de rumo", "a barbárie dos subúrbios", "a falha da
autoridade".
Éric Zemmour vê provas da sua profecia
apocalíptica em cada notícia: " A França está a tornar-se
um país de Terceiro Mundo ". Pascal Praud
engasga ao falar sobre "zonas proibidas". Gérald Darmanin, então
Ministro do Interior, não hesitou em declarar que "a selvajaria está a ganhar
terreno", prometendo cada vez mais polícias e cada vez mais repressão.
Bruno Retailleau exigiu "uma vaga de ordem", enquanto Jordan Bardella
denunciou "uma juventude tornada selvagem pela imigração".
Cada agressão de rua torna-se um símbolo
nacional. Representantes de sindicatos policiais e especialistas em segurança
são constantemente convocados para explicar que "a França está à beira do
abismo". Há apelos por leis de emergência, recolher obrigatório para
menores, penas mínimas obrigatórias e o fim da "desculpa da minoria".
Um soco no metro de Paris gera mais comentários do que uma guerra inteira. Tal é
a farsa diária. O problema não é a atenção dada às vítimas francesas, mas a
hierarquia implícita das vidas humanas.
A notícia sensacionalista é reconfortante:
aponta para um culpado identificável. Crimes patrocinados pelo Estado obrigam-nos
a questionar o sistema. Essa é uma exigência que a media francesa, corrompida
pelo sionismo, evita cuidadosamente.
Mas há outra cena, muito menos discutida.
Uma cena em que essa mesma classe política e mediática revelou a sua verdadeira
natureza imoral. Durante mais de dois anos, enquanto esses moralistas
hipócritas clamavam por barbárie por causa de uma scooter roubada em Marselha,
toda a população palestiniana era sistematicamente esmagada em Gaza sob bombas
israelitas. Cidades arrasadas, hospitais pulverizados, escolas destruídas,
famílias inteiras dizimadas. Dezenas de milhares de mortos, a grande maioria
mulheres e crianças. E diante disso? Silêncio cúmplice. Justificações cínicas.
Uma obscenidade constante.
Os estúdios de televisão franceses
preferem notícias sensacionalistas a crimes de Estado.
Lembremos: quando as primeiras imagens de
prédios desabados em Gaza circularam, Pascal Bruckner explicou calmamente na
LCI que Israel estava a travar "uma guerra de civilizações". Alain
Finkielkraut declarou na Europe 1: "Gaza não é uma prisão, é uma base militar
do Hamas" (noutras palavras: todos os seus habitantes merecem ser
aniquilados). Na CNEWS , o General
Dominique Trinquand justificou os bombardeamentos em massa afirmando que
"a proporcionalidade não existe na guerra contra o terror" (mais uma
vez, uma justificação para o massacre de civis palestinianos).
Enquanto milhares de crianças palestinianas
morriam sob os escombros (55 crianças massacradas por dia), Raphaël Enthoven
afirmou que "a emoção não deve substituir a razão estratégica" (noutras
palavras: a estratégia ocidental-sionista exige o extermínio de crianças
palestinianas). Caroline Fourest denunciou "a hipocrisia das lágrimas selectivas
por Gaza" (noutras palavras: nenhuma lágrima pelos habitantes de Gaza e
mais armas para as Forças de Defesa de Israel). O deputado macronista Meyer
Habib aplaudiu todas as ofensivas israelitas na Assembleia Nacional, chegando
ao ponto de chamar de "cúmplices do Hamas" todos aqueles que pediam
um cessar-fogo.
O próprio presidente Emmanuel Macron, tão
rápido em comentar o menor acto de descortesia na França, declarou já em Outubro
de 2023 o seu "apoio incondicional a Israel" e o "seu direito de
se defender" (contra civis palestinianos inocentes). Quando a ONU falou em
possíveis crimes de guerra, a BFM e a CNEWS convidaram
"especialistas" para explicar que tudo não passava de propaganda.
Quando organizações humanitárias descreveram uma catástrofe absoluta, foram
recebidas com argumentos fornecidos pela embaixada israelita. Hospitais
bombardeados? "Centros terroristas." Jornalistas mortos? "Danos
colaterais." Comboios humanitários alvejados? "Erros
lamentáveis." Crianças despedaçadas? "Responsabilidade do
Hamas."
A palavra "selvajaria" jamais
foi usada para descrever esses massacres em escala industrial perpetrados pela
horda militar israelita fanática. Jamais.
Assim, a morte de um adolescente francês
esfaqueado gera horas de cobertura na media, o que é normal. Mas a morte de
milhares de crianças palestinianas suscita apenas uma linguagem cautelosa,
relativizações prudentes e apelos abstractos à "moderação de ambos os
lados".
Recordamos aquela declaração arrepiante do
colunista Yves Thréard no Le Figaro: "Israel tem o direito de se defender,
custe o que custar". "Custe o que custar": incluindo a vida de
dezenas de milhares de civis, mesmo que a maioria sejam crianças e mulheres.
Selvajaria imaginária versus barbárie
muito real
Recordamos também a declaração de Bruno Le
Maire de que "a França se solidariza inequivocamente com Israel",
enquanto imagens de crianças carbonizadas circulavam incessantemente nas redes
sociais.
Essa é a moral deles. Uma moral com
padrões flexíveis. Uma moral onde uma rixa em Créteil se torna uma tragédia
nacional, mas onde uma vala comum em Gaza se torna um mero "contexto geo-político
complexo". Essas pessoas não se indignam com a violência em si. Elas indignam-se
apenas com certos tipos de violência: aqueles que servem à sua narrativa
política.
Mas essa obsessão com a "violência quotidiana"
não se resume à segurança; trata-se, principalmente, de identidade. Esses
políticos e comentadores só se interessam por esses incidentes isolados porque
eles fornecem o pretexto perfeito para designar um bode expiatório conveniente:
a imigração muçulmana. Cada rixa torna-se uma oportunidade para martelar o
mesmo refrão: o Islão como um problema nacional. Sob o pretexto de discutir
ordem e autoridade, eles constroem metodicamente uma narrativa islamofóbica,
onde a delinquência é apresentada como a expressão natural de uma cultura
supostamente estrangeira à França.
Eles não procuram compreender a violência
social; querem é etnicizá-la e confessionalizá-la. Para eles, a notícia de
jornal é apenas uma ferramenta: transformar dificuldades sociais em ameaça
civilizacional, fazer de um punhado de adolescentes turbulentos o símbolo de
uma «invasão cultural». A sua indignação é, portanto, selectiva e direccionada:
serve para alimentar o medo do islamismo e para legitimar cada vez mais
repressão contra os bairros operários.
A violência banal dos pobres na França horroriza-os.
A violência terrorista patrocinada pelo Estado, promovida pelo regime de
Netanyahu, deixa-os indiferentes. Falam de "anarquia" quando jovens
de comunidades carentes entram em confronto, mas permanecem em silêncio quando
um exército de 400 mil soldados sionistas fanáticos arrasa bairros inteiros com
bombas de 900 quilos. Indignam-se com insultos contra a polícia, mas não com
médicos palestinianos assassinados a tiro em salas de cirurgia. Denunciam as
redes sociais por "normalizarem a brutalidade", mas prontamente
convidam generais israelitas para discursarem sobre como bombardear "de
forma limpa" uma cidade de dois milhões de habitantes.
A sua indignação não é moral: é política.
Serve para disciplinar socialmente as classes populares francesas, ao mesmo
tempo que justifica as guerras imperialistas e coloniais travadas pelos seus
aliados, nomeaadamente os sionistas de Israel.
Quando a violência vem de baixo,
chamam-lhe barbárie. Quando vem de cima, chamam-lhe geo-política. Quando atinge
um bairro operário, exigem estado de emergência. Quando atinge o povo palestiniano
sitiado, invocam "a complexidade do conflito". Este duplo padrão é
uma vergonha histórica.
A verdadeira selvajaria não reside nas rixas
de adolescentes, mas nos bombardeamentos perpetrados contra civis palestinianos
pelo regime fascista israelita e o seu aparelho militar fanático. Reside nas
crianças amputadas sem anestesia. Reside nos hospitais destruídos. Reside nas
fomes orquestradas. Reside nos governos ocidentais que financiam e armam esses
crimes enquanto dão lições de civilização aos outros.
Ao gritarem incessantemente "selvajaria"
sobre tudo e qualquer coisa, acabaram por esvaziar a palavra do seu significado.
Porque, se existe selvajaria, é sobretudo a das elites francesas, capazes de se
comoverem com uma montra partida em Nanterre, enquanto consideram normal que
milhares de crianças palestinianas estejam soterradas sob toneladas de betão em
Gaza.
A farsa moralista deles já não engana mais
ninguém. Por trás dos seus grandiosos discursos republicanos, esconde-se uma
verdade simples: para eles, nem todas as vidas são iguais. E talvez seja aqui,
mais do que na violência que dizem denunciar, que a França revela as suas
verdadeiras prioridades morais. Este é o cerne da sua barbárie.
Khider MESLOUB
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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