sábado, 18 de abril de 2026

França: um TOC chamado racismo

 


França: um TOC chamado racismo

18 de Abril de 2026 Robert Bibeau



Por Khider Mesloub .

Em França, o racismo pode ser apreendido como uma patologia social específica, que se poderia, por analogia psiquiátrica, qualificar como transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) de carácter pigmentário, cultural e patronímico (1).

Esta qualificação não resulta de um efeito de estilo gratuito: permite tornar inteligível a regularidade, a repetitividade e, sobretudo, a automaticidade das reacções racistas observáveis em muitas situações ordinárias. Pois este racismo não se manifesta primeiramente como uma opinião explicitamente formulada ou como uma ideologia sistematizada, uma vez que transcende as obediências políticas e as categorias sociais; manifesta-se sob a forma de sequências comportamentais patológicas, desencadeadas por estímulos precisos e imediatamente identificáveis.

"Estes estímulos são conhecidos: uma pigmentação de pele percebida como não branca, sinais de pertença religiosa associados ao islamismo ou, ainda, em contextos administrativos onde a interacção é mediada pela escrita, a presença de um apelido com sonoridade árabe. A partir destes elementos, desencadeia-se um mecanismo compulsivo, cuja rapidez de execução exclui qualquer mediação reflexiva.

O racismo quotidiano como um automatismo patológico colectivo


O mecanismo é simples e, acima de tudo, observável. Basta um gatilho. Aparece uma pessoa, percebida como de pele escura ou negra. Uma mulher com véu avistada no passeio. Um nome próprio é pronunciado. Um nome é lido num processo. E, imediatamente, algo acontece. Não é uma reflexão. Não é um julgamento construído. É uma reacção compulsiva, uma percepção já orientada, saturada de significados previamente incorporados. Na rua, isso traduz-se em gestos minúsculos, mas reveladores: uma mulher aperta a mala com um pouco mais de força ao cruzar-se com um jovem percebido como árabe; um transeunte altera ligeiramente a trajectória, sem sequer se aperceber; um olhar demora-se, não por curiosidade, mas por vigilância suspeita. Nada é dito, mas tudo já está lá. Nos transportes, a cena repete-se. Um lugar fica vazio ao lado de uma pessoa que, no entanto, é como as outras, cuja única diferença visível reside na sua pigmentação ligeiramente mais escura. Os olhares evitam-na, ou, pelo contrário, escrutam-na com insistência, como para lhe lembrar o seu lugar: o de indesejável. É feita uma verificação, e certos perfis são abordados mais rapidamente do que outros, como se a escolha fosse óbvia.

Nas lojas, o mecanismo assume outra forma. Um cliente é seguido de perto, espreitado e, por vezes, até acompanhado discretamente entre as prateleiras. O vendedor torna-se subitamente atento, não para aconselhar, mas para vigiar. A dúvida precede qualquer acção.

Nas repartições públicas, a reacção torna-se mais estruturada. Um processo com um nome de origem árabe suscita, de imediato, mais verificações. Exige-se um documento adicional, depois outro. Enquanto os requerentes com nomes franceses passam sem obstáculos, aqueles com nomes de origem árabe têm de provar mais, explicar mais detalhadamente, justificar o que, para os primeiros, é óbvio.

No mundo do trabalho, o gatilho actua mesmo antes do encontro. Um currículo é descartado com a simples leitura de um nome. Ou então seleccionado, mas com reservas. Com competências iguais, a dúvida instala-se, discreta mas decisiva. A entrevista, se acontecer, começa já sob suspeita: a guilhotina discriminatória recai sistematicamente sobre o candidato a emprego.

 


A fabricação mediática e institucional do reflexo racista

Nos meios de comunicação social, este mecanismo não se limita a repetir-se: ele é fabricado. Os meios de comunicação actuam como agentes de manutenção desse TOC. Ao associarem sistematicamente rostos árabes ou muçulmanos à criminalidade ou a problemas sociais, instilam um reflexo racista no espectador. A dúvida desaparece: a presunção de indesejabilidade torna-se a regra. O que se repete no ecrã prolonga-se na vida real.

A informação não é relatada da mesma forma consoante as pessoas a quem diz respeito. Quando um facto envolve um indivíduo percebido como árabe ou muçulmano, os mesmos elementos surgem imediatamente: a origem, a religião, o bairro são destacados, martelados. E muito rapidamente, ocorre uma inversão: o indivíduo é tratado como se já fosse culpado, a presunção inverte-se. Por outro lado, quando os factos envolvem indivíduos considerados franceses ou brancos, esses elementos desaparecem, como se não tivessem qualquer importância. Este tratamento de geometria variável cria reflexos: à força da exposição, o olhar habitua-se, antecipa, reage antes mesmo de compreender.

Tal como um doente com TOC repete rituais para acalmar a sua angústia, a sociedade francesa reproduz gestos de exclusão – apertar a mala, afastar um currículo – e perpetua assim, sem sequer se aperceber, a ordem segregacionista herdada e interiorizada.

Tal como no TOC, tudo assenta na repetição. Perante os mesmos sinais, as mesmas reações compulsivas repetem-se. Perceção, tensão, distanciamento. Sempre a mesma sequência, repetida sem reflexão, como um automatismo social. Mas este automatismo racista não tem nada de espontâneo: obedece a uma lógica, a de um racismo que já não se manifesta verbalmente, mas age através de reflexos motores e cognitivos irreprimíveis.

O racismo não descreve a realidade: ele produ-la. Em França, não se trata apenas de deslizes individuais, mas de um dispositivo incorporado que transforma relações sociais herdadas – coloniais, pós-coloniais – em evidências naturais. Consiste em inscrevê-las na «raça», ficção biológica mobilizada para legitimar e perpetuar a dominação. A raça não explica nada: ela justifica a posteriori as desigualdades já existentes. O racismo não parte de diferenças; ele cria-as como essência. Assim, certos corpos, certos nomes, certos sinais desencadeiam imediatamente uma reacção: são percebidos como estranhos, suspeitos, distantes. Este reflexo não tem nada de acidental. Assenta numa mecânica antiga que fixa os indivíduos naquilo que supostamente são, como se o seu lugar já estivesse escrito: o de uma inferioridade congénita. O que se apresenta como automatismo não é, portanto, um desvio: é o funcionamento comum de um olhar treinado para classificar, hierarquizar, manter à distância. A raça não existe, mas age. Por outras palavras, o racismo reconfigura-se incessantemente para se manter: cor da pele, religião, apelido. Ontem, a figura do judeu constituía o seu ponto de fixação obsessiva; hoje, a do magrebino polariza, por sua vez, a atenção paranóica. 


Um reflexo racista herdado, normalizado e nunca questionado

É precisamente essa normalização que garante a sua persistência. E, no entanto, este mecanismo mantém-se porque é simultaneamente banalizado e negado. Não tem cor política. Não se limita a um campo nem a uma ideologia. Está presente em todos os discursos, incluindo os mais virtuosos. Este racismo compulsivo não é apanágio de figuras caricaturais ou assumidas: ele reside no cerne dos comportamentos comuns, em indivíduos que se consideram abertos, tolerantes, por vezes até empenhados na luta contra a discriminação.

Todos se acreditam imunes, todos se consideram do lado certo. Os gestos são demasiado insignificantes para serem reconhecidos, os desvios demasiado discretos para serem assumidos. Fala-se de prudência, de intuição, de experiência. Invoca-se o contexto, as circunstâncias, por vezes até justificações racionais. Mas nunca o próprio reflexo racista. Esta rejeição funciona de forma ainda mais eficaz por não ser expressa: age sem se nomear. O racismo nunca se apresenta como tal: justifica-se, mascara-se, reveste-se de evidências. E porque se impõe antes mesmo de a relação humana ter começado, já não é a pessoa que é vista, mas o sinal que lhe é atribuído.

É preciso dizer que este reflexo racista não surge do nada. Insere-se numa longa história, numa memória social profundamente enraizada. Alimenta-se de um ambiente constante, onde imagens, narrativas e associações acabam por impor-se como evidências. Uma certa França construiu-se ao longo de séculos sobre relações de dominação – esclavagistas, coloniais, supremacistas – que produziram categorias, representações, formas de ver e classificar os seres humanos, ainda hoje marcantes. Estes esquemas discriminatórios não desapareceram com as transformações políticas ou jurídicas: deslocaram-se, difundiram-se, banalizaram-se. Não se apagam séculos de estruturação supremacista por mero decreto moral. O que foi aprendido, transmitido e naturalizado ao longo do tempo continua a operar, muitas vezes de forma discreta, nos reflexos mais comuns. E é precisamente porque estes mecanismos racistas parecem hoje evidentes, quase invisíveis, que escapam à crítica. Pois o que não é reconhecido nem questionado repete-se indefinidamente, com a tranquilidade de quem nunca tem a sensação de ter cometido uma falta moral.

Para concluir.

Já se sabia que a França figurava entre os principais consumidores de psicotrópicos do mundo, a julgar pela quantidade de anti-depressivos e ansiolíticos ingeridos diariamente por muitas pessoas para conter os seus próprios demónios interiores. Descobre-se hoje a natureza de alguns desses demónios. Assumem uma forma bem identificável: uma obsessão, uma fixação, uma reacção imediata a certos sinais exteriores considerados indesejáveis. Uma pessoa com véu, um rosto moreno, um nome árabe, e o mecanismo desregulado é accionado. Sem reflexão. Sem distância. Como um TOC.

Assim, o que se pensava ser um distúrbio íntimo revela  outra dimensão: uma forma de desregulação colectiva que se poderia qualificar de neurose racista.

Um racismo neurótico que nem sempre se manifesta, mas que se activa, se repete, se reproduz como um mecanismo mental avariado. Sempre os mesmos gatilhos, sempre as mesmas reacções, sempre os mesmos afastamentos.

Não é nem uma excepção nem um acidente. Tornou-se uma disposição: o sintoma de uma mente desregulada, o de uma França com TOC.

 

Khider MESLOUB

(1)    O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é um transtorno caracterizado por pensamentos intrusivos (obsessões) que provocam comportamentos repetitivos (compulsões) que a pessoa se sente obrigada a realizar. A maioria dos comportamentos obsessivo-compulsivos está relacionada com medos irracionais relativos ao perigo ou ao risco para si próprio ou para o seu entorno. Esses medos induzem no paciente obsessões, pensamentos ou imagens recorrentes, indesejadas e muito ansiogénicas.

 

Fonte: France : un TOC nommé racisme – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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