O activismo geo-político dos militantes ou a santificação dos conflitos imperialistas
12 de Abril de 2026 Robert Bibeau
“Por Khider Mesloub .
O campisme (a escolha de um campo geo-político,
particularmente um anti-ocidental – não confundir com acampar NdT) nunca se apresenta como uma
ideologia. Apresenta-se como uma certeza política. Não debate: designa campos.
Não demonstra: atribui papéis. Não pensa: categoriza. E é precisamente aí que
reside a sua força e a sua ruína.
“Assim como o wokismo , com o qual compartilha as suas
estruturas profundamente enraizadas, o campisme surgiu de uma observação real:
a hipocrisia das potências ocidentais, a violência do seu imperialismo e a
manipulação da media. Dessa crítica legítima, transformou-se numa máquina moral
de classificação geo-política. O mundo não é mais analisado. Ele é julgado e,
em seguida, imediatamente categorizado. A estrutura das relações de produção é
substituída por uma estrutura de posições: baseada na identidade, num caso, geo-política,
noutro. A legitimidade não deriva mais das relações sociais, mas da posição
ocupada dentro de uma estrutura moral.
Geo-política como moralidade: Bem versus
Mal
O wokismo não raciocina em termos de
estruturas sociais, mas em termos de posições morais. O campisme opera da mesma
maneira. Em vez da análise materialista, impõe uma estrutura rudimentar: o
Ocidente é o Mal, os seus adversários são o Bem. A natureza dos regimes é
irrelevante. As relações de produção são irrelevantes. A exploração real das
populações é irrelevante. A posição geo-política torna-se o critério absoluto
de legitimidade. Assim, da mesma forma que o wokismo classifica os indivíduos
de acordo com a sua identidade, o campisme classifica os Estados de acordo com a
sua posição em relação a Washington (ou ao Ocidente em geral). Não é mais a
realidade social que fundamenta o julgamento. É a filiação ao campo.
O wokismo substituiu a hierarquia social
por uma hierarquia de identidades. O campisme reproduz esse mecanismo em escala
internacional. Certos Estados falam com legitimidade. Outros devem ser
condenados por princípio. Rússia, China e Irão tornam-se actores
"legítimos" simplesmente pela sua oposição ao Ocidente. Os seus
crimes são minimizados, relativizados, justificados. Por outro lado, tudo o que
emana do bloco ocidental é desqualificado a priori. Não é mais a análise que
importa, mas a origem do discurso. Não é mais a verdade das proposições que é
questionada, mas a posição de quem fala. A verdade não é mais valorizada pelo
que diz, mas pelo campo ao qual está ligada.
O trabalho fragmenta o corpo social numa
multiplicidade de identidades concorrentes. O campisme fragmenta o mundo em blocos
antagónicos. Em ambos os casos, o resultado é idêntico: a estrutura de classes
desaparece. As relações de produção, exploração e a condição dos operários
são relegadas para um segundo plano. São substituídas por uma leitura simbólica
do mundo: dominação ocidental aqui, resistência soberana ali. Mas essa oposição
mascara o ponto essencial: em todos os campos, as mesmas relações sociais
capitalistas predominam. Burguesias estatais. Operários explorados. Aparelhos
repressivos.
O campisme, assim como o wokismo, produz
uma política hipermoralizada, mas materialmente cega. É aqui que o paralelo se
torna crucial. O wokismo define quem tem o direito de falar. O campisme define
quem tem o direito de matar. Na lógica campista (de campo, bloco – NdT), a
violência não é abolida. Ela é redistribuída, legitimada. Os bombardeamentos
ocidentais são crimes. Os bombardeamentos russos tornam-se respostas. A
repressão ocidental é denunciada. A repressão iraniana é justificada. Isso não
é uma crítica à violência: ela é legitimada segundo o campo.
O campisme não abole a violência. Não a
condena. Não se opõe ao assassinato em massa. Ele classifica. Decide quais
mortes são escandalosas e quais são aceitáveis. Alguns actos de violência são
considerados bárbaros; outros tornam-se represálias, necessidades, actos de
soberania. A questão não é mais: matar deve ser rejeitado? Mas sim: quem tem o
direito de matar sem ser desqualificado? Todas as mortes não são mais iguais.
Algumas são lamentadas, outras relativizadas, outras apagadas. O campisme
organiza uma hierarquia de luto e indignação. Mas faz mais do que legitimar a
violência: ele encobre aqueles que a perpetram. No "campo da
direita", as bombas deixam de ser instrumentos de dominação. Tornam-se
respostas. A violência é purificada pelo sentimento de pertencimento. Não é
mais o acto que importa, mas a assinatura. E não são os "campos" que
matam. São os Estados. Os exércitos. Os aparelhos repressivos. A redistribuição
moral do direito de matar equivale à imunidade concedida a alguns. Por trás das
narrativas, são sempre poderes capitalistas organizados e armados que
administram a violência.
A guerra já não é entendida como um momento
de contradições de classe, mas como um episódio de uma narrativa moral. A
questão não é mais a quem ela serve, mas a qual lado ela confirma. A morte
torna-se aceitável, desde que seja administrada pelo lado "certo".
Assim se desenrola a lógica necropolítica: decidir quem pode viver e quem pode
morrer, não segundo uma análise das relações sociais, mas segundo um quadro
moral.
OTAN versus BRICS: Geo-política reduzida
a um conflito de legitimidades
Nessa lógica, a oposição entre a OTAN e os BRICS funciona como
uma transposição geo-política do modelo wokiano. O wokianismo distribui
legitimidade com base na identidade. O campisme distribui-a com base na
filiação a um bloco. A OTAN personifica o polo inerentemente ilegítimo. Os
BRICS são investidos de legitimidade automática. Não importa que esses estados
sejam capitalistas. Não importa que explorem impiedosamente os seus operários.
Não importa que reprimam, prendam e matem dissidentes. A posição em si já
basta. ( Veja
este importante artigo sobre os BRICS : Que
o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: A construção da Fortaleza América em
preparação para a Terceira Guerra Mundial.)
A análise desaparece, substituída por um juízo moral: a OTAN é considerada estruturalmente culpada e os BRICS, legítimos. Essa estrutura impede qualquer pensamento dialéctico. Torna-se impossível considerar simultaneamente que a OTAN é um aparelho imperialista e que os seus adversários são, eles próprios, potências capitalistas concorrentes. Essa dupla verdade precisa ser reprimida para que a ficção moral do mundo permaneça intacta. É precisamente essa repressão que permite ao campisme manter a coerência da sua narrativa. A guerra não é mais entendida como um choque entre burguesias. Ela transforma-se numa narrativa moral. A OTAN administra a violência em nome da "democracia". Os BRICS, em nome da "soberania". Em ambos os casos: militarização, exploração, repressão, a gestão política da morte. O campisme não combate esses aparelhos. Ele escolhe aquele que legitima. O campisme proíbe certas análises em nome do "anti-imperialismo", que muitas vezes é indistinguível de um anti-americanismo simplista. Dizer que a China é uma potência capitalista torna-se suspeito. Mencionar a sangrenta repressão no Irão torna-se "ocidentalizado". Falar sobre operários explorados torna-se secundário.
“Como qualquer ideologia moral, o campisme não tolera
nada que perturbe a sua narrativa. O marxismo analisa o
mundo em termos de relações sociais . O campisme, assim como o obreirismo,
reconstrói-o em termos de posições morais. Já não se pergunta: quem explora?
Mas sim: quem está do lado certo? Isso representa um grande retrocesso. Porque,
uma vez estabelecida a moralidade, tudo se torna justificável: exploração,
repressão, guerra, desde que sejam praticadas pelos "bons".
Wokismo/campisme: uma estrutura
espelhada
O obreirismo e o campisme compartilham o
mesmo fundamento ideológico. Duas esferas distintas. A mesma lógica em acção.
Essas duas correntes burguesas operam segundo os mesmos mecanismos. A
moralidade substitui a análise, a posição substitui a realidade e a fala é
desqualificada com base na sua origem. A realidade é fragmentada, o conflito é
deslocado para o âmbito simbólico e a legitimidade é distribuída
assimetricamente. A violência não é abolida; é justificada. O mundo é reduzido
a uma narrativa binária. A crítica é neutralizada: não refutada, mas deslocada,
fragmentada e redireccionada para áreas que não ameaçam a ordem vigente.
E, no final do processo, o resultado é
sempre o mesmo: o desaparecimento da luta de classes, ou seja, o apagamento do
capitalismo como objecto central de crítica. O capitalismo como sistema mundial
desaparece por trás de categorias fragmentadas, enquanto as relações de
produção continuam a organizar a exploração em todos os lados.
“O obreirismo e o campisme parecem ser opostos. Na
realidade, cumprem a mesma função: moralizar a realidade, fragmentar os
dominados, neutralizar a análise materialista e tornar a ordem vigente
aceitável. Um fala a linguagem das identidades. O outro, a das nações. Mas
ambos neutralizam os conflitos reais, deslocando-os para um campo de jogo
higienizado. Enquanto a classificação e a moralização acontecem, o capital
explora, os Estados militarizam-se e a guerra avança.
O campisme não é
anti-imperialismo. É obreirismo geo-político. E, como qualquer moralidade sem
análise, não liberta nada: categoriza, justifica e perpetua a ordem vigente.
Não produz actores, mas espectadores que categorizam, aprovam ou condenam, sem
jamais compreender os mecanismos que afirmam denunciar. Não age como um agente
histórico determinado a transformar o mundo. Apenas o interpreta através de uma
lente idealista e particularista, e aplaude as supostas conquistas económicas e
as imaginárias vitórias militares dos seus mestres.
Para
concluir
A observação dessas duas correntes revela o fundamento comum da sua ideologia burguesa. O obreirismo e o campisme emergiram num momento histórico específico: o declínio do marxismo, o enfraquecimento do internacionalismo operário e o desaparecimento do capitalismo como objecto central de crítica. Privado dessa estrutura materialista, o pensamento reconfigura-se como moralidade: identitária na esfera social, geo-política na esfera internacional. Em ambos os casos, o capital como sistema mundial desaparece por trás de categorias fragmentadas, enquanto o Estado permanece como o principal agente de dominação, organizando a militarização, a repressão e a gestão política da morte.
Essas duas correntes não produzem actores
capazes de compreender o mundo para transformá-lo, mas sim espectadores
moralizantes, incumbidos de julgar, classificar e tomar partido de uma identidade
ou grupo. Por trás da sua aparente oposição, participam no mesmo movimento:
neutralizar a crítica radical e assegurar a reprodução da ordem capitalista mundial.
Para
além dessas duas correntes identitárias e campistas, permanece a necessidade de
se reconectar com a crítica radical ao capitalismo, a fim de restituir aos
dominados a sua capacidade de acção, que foi distorcida por esses dois
movimentos contra-revolucionários.
Khider MESLOUB
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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