Da auto-defesa proletária ao esmagamento da guerra imperialista
Por Comunismo de Esquerda . No Comunismo de Esquerda | NÃO um transtorno infantil
Publicamos esta primeira carta
após tomarmos conhecimento de um poderoso movimento de greve na Índia , da primeira
greve geral de defesa contra as consequências da guerra no Irão ,
seguida por uma greve geral
no Haiti .
Outros movimentos proletários de massa se seguirão à medida que se tornar
evidente que a deterioração das condições de vida dos trabalhadores em todo o
mundo é causada por um número crescente de guerras, abrindo caminho para a Terceira Guerra Mundial entre os
Estados Unidos, uma potência em declínio, e a China, uma potência imperialista
em ascensão.
A nossa iniciativa em relação a estas cartas reflecte outro aspecto dessa crescente consciência de classe entre as massas : a ascensão de indivíduos e grupos com espírito revolucionário em várias partes do mundo. Tendo publicado inúmeros textos a analisar as guerras na Ucrânia, Gaza, Médio Oriente, África e Ásia a partir de uma perspectiva proletária , damos mais um passo com estas cartas. Veja: Cartas Contra a Guerra nº 1 (24 de Abril de 2026) | Comunismo de esquerda
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Resumo
· Duas greves em massa: Índia e Haiti
· Notas sobre a consciência proletária, o capitalismo, o imperialismo e a luta autónoma.
Duas greves em massa: Índia e Haiti
Os
recentes protestos na Irlanda mostraram como o aumento dos preços dos
combustíveis pode levar agricultores, motoristas e outros segmentos da
população a mobilizarem-se. Mas duas outras lutas são ainda mais significativas
da perspectiva dos trabalhadores: os protestos em massa de operários no
cinturão industrial próximo a Nova Delhi e as manifestações de operários
têxteis no Haiti.
Esses
dois casos ocorreram em países muito diferentes. A Índia é uma potência
industrial gigante e em rápido crescimento, com imensas fábricas e uma grande
força de trabalho migrante. O Haiti é um dos países mais pobres das Américas,
marcado pela insegurança, violência de gangues e dependência da produção para
exportação com baixos salários. No entanto, essas duas lutas também
compartilham um perfil comum.
O
capitalismo divide os trabalhadores de muitas maneiras. Divide-os por salários,
contratos, região, situação jurídica, género, status imigratório e posição no
mercado mundial. Mas o capitalismo também submete regularmente esses grupos
distintos a uma pressão comum. A inflação, o aumento dos preços dos
combustíveis, o aumento do custo dos alimentos e a insegurança no emprego podem
levar trabalhadores em lugares muito diferentes a enfrentar o mesmo problema
fundamental: o custo de vida está a aumentar mais rápido do que os salários.
É por
isso que as recentes lutas sociais na Índia e no Haiti são importantes. Elas
mostram como uma crise mundial impacta a vida quotidiana na forma de pressão de
classe.
Índia:
Noida e o cinturão industrial próximo a Nova Déli
Na zona
industrial de Noida – onde se localizam as fábricas da Samsung – milhares de operários
protestaram contra os baixos salários, as duras condições de trabalho e os
abusos. As suas reivindicações eram simples e directas: um salário mínimo mais
alto, uma jornada de trabalho de oito horas e protecção contra a deterioração
das condições de trabalho.
Em 13
de Abril, os protestos intensificaram-se. Houve confrontos, incêndios e ataques
a veículos. Isso ensina-nos algo importante. Quando os operários são ignorados durante
muito tempo, o protesto pode ir além de petições e manifestações rotineiras. A
raiva cresce porque o problema não é simplesmente um mau chefe ou um erro
local. Essa evolução é inerente ao próprio conflito social.
O
governo local de Uttar Pradesh aumentou então o salário mínimo. Isso foi uma
concessão. Demonstrou que os protestos surtiram efeito. Mas também revelou as
limitações da reforma imposta de cima para baixo. O aumento só ocorreu após uma
onda de protestos. E mesmo assim, as causas subjacentes permaneceram.
Os operários
em Noida dependem fortemente de sistemas de trabalho migrante, sub-contratação
e da aplicação desigual das leis do trabalho. Os novos códigos do trabalho
foram apresentados pelo Estado como modernização. Na prática, muitos operários
viram algo completamente diferente: maior insegurança no emprego, mais chances
de demissão, restricções mais rígidas às greves e uma crescente discrepância
entre as promessas legais e a realidade.
Esta é
uma contradição fundamental do capitalismo. O Estado fala a linguagem da
eficiência e dos direitos formais. Mas a produção ainda depende de mão de obra
barata e flexível, frequentemente com intermediários entre o operário e a
empresa. Num sistema assim, mesmo reformas que parecem progressistas no papel
podem tornar-se instrumentos de maior controlo.
Os
protestos de Noida também mostram que a classe operária não é enfraquecida
apenas por más ideias ou crenças falsas. Ela é subjugada materialmente. O
capital controla a fábrica, a lei, o processo de contratação, a cadeia de
suprimentos e a actuação policial. É por isso que os operários podem viver sob
o mesmo sistema durante anos sem se unirem, e então explodir repentinamente
quando o aumento dos preços e a deterioração das condições de trabalho tornam o
quotidiano insuportável.
Haiti: Operários
têxteis e o custo da sobrevivência
As
manifestações no Haiti revelam a mesma contradição, mas de forma mais aguda e
marcante.
No dia
20 de Abril, milhares de operários têxteis em Porto Príncipe foram às ruas para
exigir um salário mínimo de 3.000 gourdes por dia para uma jornada de oito
horas. O salário actual de 685 gourdes foi descrito como inferior ao preço de
um galão do combustível mais comum. Esse simples facto diz muito. Significa que
o salário já não é suficiente nem mesmo para as necessidades básicas diárias
dos operários.
Os
manifestantes também exigiam auxílio para habitação, transporte, educação e itens
de primeira necessidade. Noutras palavras, não estavam apenas a pedir um aumento
salarial. Alegavam que o custo de vida em geral havia-se tornado insuportável.
O setor
têxtil haitiano opera segundo o modelo de zona franca, com foco na produção
voltada para a exportação. Isso é significativo. Significa que os operários
produzem para os mercados mundiais enquanto vivem num dos ambientes sociais
mais frágeis do hemisfério. Os seus salários são mantidos baixos para preservar
a competitividade. Mas, quando os preços dos combustíveis e dos alimentos
sobem, todo o modelo se torna mais difícil de sustentar.
Os operários
também denunciaram a insegurança e os vínculos entre as autoridades estatais e
os grupos armados. Isso é crucial. No Haiti, a luta de classes não ocorre
dentro de uma estrutura cívica normal e estável. Ela está inserida numa crise
social mais ampla, onde o poder dos gangues, a fragilidade do Estado, o medo e
as dificuldades económicas estão interligados.
Isso
confere ao movimento haitiano um duplo significado. É uma luta por salários,
mas também uma luta pelas próprias condições de existência social. Os operários
não estão apenas a confrontar os empregadores. Estão a confrontar todo um
sistema em que os baixos salários, a insegurança e o silêncio político se
reforçam mutuamente.
Guerra,
crise e o retorno da pressão no quotidiano.
Essas
duas lutas não devem ser consideradas como histórias nacionais isoladas. Elas
fazem parte de um padrão histórico mais amplo.
Crises
económicas severas e guerras imperialistas são manifestações interligadas das
contradições do capitalismo. A guerra não se resume a mísseis e exércitos. Ela
também envolve inflação, choques de oferta, pressões fiscais, medidas de
emergência e a reorganização do trabalho em condições mais severas. A guerra no
Médio Oriente elevou os custos de energia e interrompeu rotas de transporte.
Isso, por sua vez, impacta os preços dos combustíveis, os custos dos alimentos
e a agitação social em países distantes do campo de batalha.
É por
isso que os operários na Índia e no Haiti estão a reagir não apenas à injustiça
local, mas também a um processo mundial. A guerra energética e as sanções
impactam o quotidiano na forma de pressão de classe. O que acontece em torno
das rotas de petróleo, das vias marítimas e das rivalidades estratégicas afecta
cozinhas, autocarros, alugueres, refeitórios de fábricas e contas não pagas.
É por
isso que os elementos mais conscientes e combativos do proletariado afirmam que
o imperialismo é a condição mundial da luta de classes moderna. A classe operária
não enfrenta apenas capitalistas locais. Ela enfrenta um sistema mundial no
qual o trabalho, os preços, o comércio, a militarização e as crises estão
organizados em escala internacional. Ao mesmo tempo, capitais nacionais e
blocos estatais enfrentam-se em guerras locais, preparando o terreno para a
Terceira Guerra Mundial entre os Estados Unidos, a potência imperialista número
um em declínio, e a China, a potência imperialista em ascensão. Essa ameaça de
destruição da humanidade demonstra que somente a classe operária mundial detém
a chave para a solução.
Pressão
semelhante, formatos diferentes
Os dois
ataques são semelhantes, mas não idênticos.
Na
Índia, a luta desenrolou-se num vasto corredor industrial ligado à produção mundial,
particularmente nos sectores de electrónica, terceirização automóvel e outros
sectores manufactureiros. Os operários enfrentavam baixos salários,
desigualdades regionais, terceirização e novas regulamentações de trabalho que
pareciam enfraquecer as protecções. O Estado ainda tinha poder suficiente para
responder com uma combinação de concessões e medidas coercitivas.
No
Haiti, a luta desenrolou-se num contexto ainda mais frágil. A questão não era
apenas os baixos salários, mas a sobrevivência numa cidade assolada pela insegurança
e pelo colapso económico. Lá, o modelo de exportação depende ainda mais
abertamente de mão de obra extremamente barata. A margem de manobra do Estado
para fazer concessões também é muito mais limitada.
Assim,
o capitalismo generaliza a pressão, mas não da mesma forma em todos os lugares.
Num caso, isso traduz-se numa luta salarial no cerne da modernização
industrial. Noutro, é uma luta directa contra salários de miséria numa ordem
social em decadência.
O que é
que essas lutas revelam sobre a organização?
Esses
movimentos também levantam a questão da organização.
Os
sindicatos e organizações similares não podem ser julgados apenas pelo nome. Às
vezes, como mediadores entre capital e trabalho, é do seu interesse ajudar os
trabalhadores a coordenar lutas defensivas. Outras vezes, a sua função
principal é canalizar a raiva para caminhos seguros. A questão crucial é tanto
prática quanto histórica: quem controla a luta, como é que as decisões são
tomadas e se o movimento ultrapassa os limites legais estabelecidos?
Na
Índia, assim como no Haiti, a primeira fase foi defensiva. Os operários
exigiram salários mais altos, melhores condições de trabalho e alívio do
aumento dos preços. Isso é normal. A luta começa na defensiva.
Mas se
permanecer isolada, local ou rigidamente controlada por sindicatos, pode ser absorvida.
Um aumento salarial numa região ou sector pode acalmar a situação
temporariamente, sem alterar as circunstâncias para os operários noutros
lugares. O mercado de trabalho não é local; é nacional e internacional. É por
isso que a expansão é importante: expansão entre sectores, entre categorias
legais, entre migrantes e cidadãos, entre trabalhadores permanentes e
temporários e entre fronteiras estaduais, como na Índia.
As
formas mais avançadas de luta operária não são cargos permanentes que falam em
nome dos operários, mesmo em situações sem luta, quando os operários não
desenvolvem poder. Os avanços dão-se através de assembleias de massa, comités
controlados directamente, delegados eleitos e revogáveis, e formas de
coordenação que surgem da própria luta. Essas formas existem apenas dentro da
luta e desaparecem com ela, até que a luta se torne permanente, numa situação
pré-revolucionária. Isso pode parecer uma perspectiva muito distante, mas, como
comunistas, sabemos pela história que, sem avançar nessa direção, as lutas
defensivas não alcançarão nem mesmo os seus objectivos limitados.
Obstáculos
ideológicos
Há
outro problema. Mesmo quando os operários se mobilizam, não o fazem partindo do
zero. O nacionalismo, as ilusões democráticas, a fé nos líderes, a confiança no
Estado, a competição entre grupos de operários, o legalismo e o medo
enfraquecem a acção independente. Na Índia, as divisões por região, estado
federal, status social e sistema de trabalho podem isolar grupos de operários.
No Haiti, a insegurança e o colapso social podem dificultar muito a organização
colectiva.
Isso
significa que a deterioração das condições de vida não produz automaticamente
unidade. A degradação capitalista não cria, por si só, uma consciência
revolucionária. Ela apenas cria o terreno sobre o qual os operários podem
começar a desafiar as suas divisões.
Por
isso, a teoria deve rejeitar duas ideias falsas. A primeira é que a miséria por
si só unirá os operários. A segunda é que reformas ou melhorias temporárias
eliminam a exploração. Nenhuma das duas é verdadeira. O capitalismo pode
conceder benefícios enquanto simultaneamente fortalece o seu domínio. Também
pode mergulhar os operários em crises, como em 1929, sem gerar, com isso, uma
luta comum efectiva.
Conclusão
final
As
greves na Índia e no Haiti fazem parte do mesmo processo mundial, mas demonstram-no
de maneiras diferentes.
Ambos
os estudos revelam como a crise mundial permeia o quotidiano através da
inflação, dos preços dos combustíveis e das pressões salariais. Ambos mostram
que o capitalismo divide o proletariado, mas também submete periodicamente
diferentes sectores a pressões comuns. Ambos confirmam que a guerra e a crise
não são externas ao conflito social; elas contribuem para a sua produção.
Ao
mesmo tempo, essas duas lutas demonstram que não existe um caminho automático
do sofrimento à unidade. Os operários começam por se defender. Lutam por
salários, jornada de trabalho, transporte, alimentação, moradia e
sobrevivência. Se essas lutas permanecerão locais e limitadas, ou se evoluirão
para uma organização de classe mais ampla e autónoma, dependerá da sua
expansão, auto-organização e da luta contra as ideologias que mantêm os operários
divididos.
A
principal lição, portanto, é simples: os efeitos sociais da crise imperialista
estão a disseminar-se, mas a resposta da classe operária permanece desigual.
Essa contradição define o momento actual. A pressão está a tornar-se universal.
A organização de massas capaz de lhe dar resposta, assim como as organizações
minoritárias de operários conscientes de classe, ainda estão nos seus
primórdios.
Fonte: De
l’autodéfense prolétarienne à l’écrasement de la guerre impérialiste – les 7 du
quebec
Este
artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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