Boualem
Sansal: um falso dissidente, um verdadeiro escriba medíocre que se voltou
contra o povo argelino.
13 de Abril de
2026 Robert Bibeau
Por Khider Mesloub .
Há escritores que confrontam o poder.
Outros que o contornam. E há aqueles que, incapazes de atacar as estruturas que
dominam a sua sociedade, escolhem um alvo mais conveniente: o seu próprio povo.
Boualem Sansal pertence a esta última categoria.
Um homem do sistema, não um desertor.
Contrariamente à lenda pacientemente construída em torno dele, Boualem Sansal nunca foi um opositor do regime argelino. Antes de ser aclamado como dissidente e voz crítica pelo meio literário parisiense, ele era, antes de tudo, um homem do sistema. Era uma engrenagem na sua máquina. Durante décadas, ocupou cargos dentro do aparelho estatal. Não foi marginalizado, nem perseguido, nem silenciado. Noutras palavras, Sansal não confrontou o sistema; ele serviu-o. E este ponto é crucial. Pois não se pode, sem distorcer a realidade, apresentar como dissidente alguém que participou tão amplamente na organização do poder.
Além disso, ao longo de toda a sua
carreira no serviço público, não se sabe que tenha oferecido qualquer crítica
estrutural ao sistema. Nenhuma denúncia da oligarquia. Nenhuma análise dos
mecanismos de predação. Nenhum questionamento dos aparelhos de dominação. O
silêncio é absoluto. E esse silêncio não é uma questão de prudência. Revela uma
postura: não se critica aquilo que se ajuda a perpetuar. As estruturas económicas,
às quais, no entanto, serviu fielmente por tanto tempo, permanecem nas sombras
das suas narrativas literárias. As dinâmicas do poder político são igualmente
diluídas, quando não totalmente esquecidas.
Foi somente após a sua saída do sistema e o
seu recrutamento pelo eixo Paris-Telavive que Sansal gradualmente assumiu o
papel de escritor crítico. No entanto, Sansal não se tornou um crítico do
regime. Ele tornou-se um crítico dos dominados, ou seja, do proletariado
argelino, a quem desprezava. O que ele nunca disse sobre os líderes, disse —
muitas vezes com virulência — sobre o povo argelino. O que ele nunca analisou
sobre as estruturas, transformou num juízo moral sobre a sociedade argelina,
deliberadamente deturpado. O que ele nunca denunciou nas elites, projectou
sobre as massas argelinas.
Uma crítica voltada contra o povo
argelino.
Assim, ocorre uma inversão: a sua crítica
passa de cima para baixo para atingir a base: o povo. Este é o cerne da sua
obra, uma denúncia anti-popular rabiscada com vitríolo e consistência metódica.
Na sua obra, Sansal omite o sistema a que serviu, as estruturas de dominação
que enfrentou e as elites às quais pertenceu. A sua crítica concentra-se noutro
lugar, consistentemente: na própria sociedade argelina, seu povo, sua cultura,
sua religião. Ele não ataca o sistema; ele desvia a sua crítica para direccioná-la
contra aqueles que sofrem sob o seu jugo. Ele dirige-a contra eles.
Essa mudança não é acidental. Ela
estabelece uma constante na sua obra: a acusação do povo argelino. Os seus
costumes são ridicularizados. A sua cultura é desvalorizada. A sua religião, o
Islão, é estigmatizada. E, sobretudo, é designada como a causa universal do
mal. De facto, o Islão nunca é compreendido como um facto social e histórico
repleto de contradições, mas é essencializado: a fonte de bloqueios, a matriz
da violência, um obstáculo a toda emancipação. Mas não se engane: isso não é
uma crítica ao Islão, mas uma fixação obsessiva nos muçulmanos. Toda a sua obra
gira em torno dessa mesma matriz: o Islão como a explicação total, os
muçulmanos como responsáveis por tudo. Isso não é análise. É uma patologia
discursiva. Em todo o caso, ele fez disso a sua marca registada.
Assim, em vez de explicar a sociedade
argelina, Sansal julga-a. Em vez de analisar as estruturas, ele moraliza o
comportamento. Isso não é mais crítica. É um julgamento, conduzido à maneira
dos fascistas: essencializando a questão social, interpretando os
comportamentos unicamente através das lentes da religião: o Islão.
A questão, então, torna-se simples: que
risco correu Boualem Sansal ao reivindicar o estatuto de opositor perseguido
pelo regime argelino? Durante quase trinta anos, este antigo funcionário
público de alto escalão publicou e divulgou livremente os seus escritos,
vivendo na Argélia sem ser perseguido. Os seus livros estavam disponíveis nas
livrarias argelinas. As suas posições tímidas eram notórias. As suas críticas
públicas eram amplamente aceites. Não sofreu qualquer tipo de prisão, proibição
oficial ou marginalização estrutural. Este facto, por si só, basta para
dissipar o mito do opositor político, do dissidente literário, fabricado pelos
meios culturais e mediáticos franceses. Não se pode, simultaneamente, estar
integrado no sistema, silenciar sobre os seus mecanismos, ser livre na
expressão e reivindicar ser dissidente. Isto não é uma questão de análise, mas
de ficção.
Embora Boualem Sansal tenha sido de facto
preso e encarcerado na Argélia em Novembro de 2024, não foi pelas suas obras
literárias. Durante quase trinta anos, ele publicou livremente sem jamais ser
perseguido. A sua prisão decorreu das suas posições políticas secessionistas,
particularmente declarações afirmando que cidades no oeste da Argélia, como
Oran e Tlemcen, pertenciam ao Marrocos, ecoando assim argumentos que
questionavam a integridade territorial da Argélia. É essa posição — e não a sua
obra — que está em questão.
A criação de uma dissidência literária ao
serviço de um propósito político.
A questão que permanece é: porque é que Sansal é apresentado como um opositor, um escritor dissidente? Simplesmente porque a sua crítica é tendenciosa. Ela não se dirige às estruturas de dominação, às elites governantes ou à lógica do poder. Ela dirige-se à própria sociedade argelina. E essa parcialidade torna-o particularmente útil. Útil para mudar o foco da crítica. Útil para despolitizar as relações de dominação. Útil para transformar um problema político num problema cultural, religioso ou social. Tal discurso não representa nenhuma ameaça a qualquer poder.
Essa utilidade encontra a sua expressão
concreta na sua consagração. No cenário literário francófono, dominado por
instituições parisienses, Sansal surge como um escritor unanimemente celebrado:
veículos de comunicação, editoras e programas de televisão endossam-no. Essa
unanimidade, contudo, deveria suscitar preocupações. Obras que desafiam o
status quo jamais alcançam tal consenso. Essa consagração provém de um sistema
centrado em Paris, a capital da legitimação francófona, onde Sansal aparece
como um escritor de fabrico francês, moldado pelas suas redes editoriais e mediáticas.
Assim, Boualem Sansal não é um opositor do
regime argelino. Ele é um ex-servidor leal que se tornou um acusador do seu
próprio povo. A sua trajectória não representa uma ruptura com o passado.
Revela uma continuidade: do serviço ao Estado ao descrédito da sociedade
argelina. E se a sua obra ressoa com tanta força, é precisamente por essa
razão. Pois, num mundo onde as estruturas devem permanecer invisíveis, nada é
mais valioso do que um escritor que acusa os oprimidos em vez dos opressores,
que castiga e estigmatiza o proletariado em vez da burguesia.
Para Sansal, a Argélia não é mais uma
sociedade estruturada por relações de poder; torna-se um povo decadente,
aprisionado, segundo ele, por costumes arcaicos e bárbaros, atolado numa
religião obscurantista. O argelino não é mais um sujeito histórico, mas um objecto
de crítica, um alvo de estigmatização. As suas crenças são ridicularizadas, as suas
práticas desprezadas, a sua cultura desacreditada.
Na obra de Sansal, a mudança de foco não é
neutra. Ela produz uma inversão: a dominação torna-se um pano de fundo,
enquanto o povo se torna o problema. Consequentemente, esse povo argelino
"atrasado", segundo ele, é incapaz de se superar, excepto através do
seu alinhamento com a França e a sua adesão ao modelo ocidental.
Assim, constrói-se um quadro simples: se a
sociedade argelina está em declínio, é porque está doente. E se está doente, é
porque é culturalmente deficiente e religiosamente frágil. Esse raciocínio faz
parte de uma longa tradição: a do olhar colonial, que moldou a visão de Boualem
Sansal a ponto de cegá-lo para o seu próprio povo, que ele continua a perceber
através das lentes dos seus senhores.
Boualem Sansal não se limita a criticar a
sociedade argelina contemporânea e a estigmatizar o Islão: ele desenvolve um
projecto de distorção histórica e ideológica ao serviço das expectativas do
sistema neo-colonial ocidental.
Essa lógica neo-colonial atinge o seu
ponto mais cínico na sua relação com a história da Argélia, particularmente no
tratamento da sequência relacionada com a guerra de libertação.
Reescrever a história da guerra de
libertação para deslegitimar a luta anti-colonial.
Nos seus escritos, Boualem Sansal não se limita a comentar a realidade. Ele distorce-a. A guerra de libertação nacional não é mais retratada como um momento de emancipação anti-colonial, mas como uma sequência de deriva autoritária e uma empreitada quase teocrática realizada sob a bandeira do islamismo, comparável às formas contemporâneas de salafismo, à custa de anacronismos flagrantes e falsificações descaradas. A FLN é comparada aos movimentos obscurantistas actuais. Essa reinterpretação não é simplesmente uma interpretação equivocada: faz parte de uma mudança estratégica que consiste em absolver as estruturas coloniais e capitalistas de dominação, atribuindo os seus próprios infortúnios às sociedades dominadas.
Com o seu livro *A Aldeia do Alemão*,
Sansal faz mais do que simplesmente oferecer uma obra de ficção. Ele provoca
uma mudança. A guerra de libertação deixa de ser um processo histórico
enraizado na violência colonial. Ela torna-se um espaço de contaminação moral.
O argelino colonizado deixa de ser vítima e passa a ser culpado. A introdução
de um ex-nazi no centro da narrativa não é um mero recurso literário. Ela
produz um efeito específico: obscurecer a distinção entre dominação e
resistência, deslegitimar a luta anti-colonial e lançar dúvidas morais sobre a
história da Argélia.
A sociedade argelina durante a Guerra da
Independência é retratada como dominada pelo rigorismo islâmico. Essa afirmação
não é uma questão de interpretação, mas sim uma caricatura criada para
sustentar uma tese implícita: a suposta incapacidade do mundo árabe-muçulmano,
e portanto da Argélia, de abraçar a modernidade. Nem mesmo os movimentos
islamistas contemporâneos exerceram tal controle social na Argélia. Mas para
Sansal, a realidade importa pouco. O foco está em deturpar, exagerar e
caricaturar a história argelina. Porque vende mais.
Mas essa empreitada não é meramente
produto de viés ideológico; ela decorre de uma reorientação estratégica. Ao
redireccionar a crítica para as próprias sociedades dominadas, Sansal ajuda a
absolver as estruturas históricas de dominação — colonial, imperial,
capitalista — cuja análise ele desvia. A história torna-se, então, um argumento
incriminador contra os povos que sofreram sob o seu jugo. Essa inversão
transforma uma crítica potencialmente subversiva num mecanismo para legitimar a
ordem dominante.
Esse posicionamento encaixa-se perfeitamente
num mercado intelectual ocidental ávido por discursos que confirmem as suas
próprias representações das sociedades árabes e muçulmanas. Ao ocupar o papel
esperado de "nativo crítico", Sansal fornece uma voz interna que
valida, a partir de dentro, as categorias analíticas dominantes.
Consequentemente, o seu trabalho deixa de ser uma crítica e torna-se uma
função: a de desviar a análise das relações de poder reais para uma denúncia
culturalizada dos próprios dominados.
Assim, longe de desconstruir os mecanismos
de poder, Boualem Sansal participa na sua reprodução. Ele transforma a história
argelina numa acusação contra o seu próprio povo, converte a crítica política numa
acusação civilizacional e contribui para exonerar as verdadeiras estruturas de
dominação. O escritor torna-se, então, menos um opositor do que um auxiliar
objectivo da ordem estabelecida, tanto nacional quanto internacional.
Esse tipo de discurso não surge do nada.
Ele responde a uma exigência ideológica. Em certos meios de comunicação
ocidentais, existe uma expectativa: ouvir um argelino dizer que o seu povo é
atrasado, ouvir um muçulmano denunciar os muçulmanos, ouvir uma pessoa que
viveu num país colonizado desacreditar o seu próprio passado. Boualem Sansal
cumpre essa função perfeitamente.
A sua obra é legível. Compreensível. E,
acima de tudo, compatível. Compatível com os estereótipos dominantes. Com
narrativas pós-coloniais invertidas. Com uma visão de mundo culturalista. Não é
por acaso que ele é aclamado. É lógico.
Assim, ao final dessa jornada, emerge uma
constante: Boualem Sansal jamais ataca as estruturas de dominação, mas sempre
aqueles que sofrem sob elas. A sua crítica não se dirige ao governo, mas ao
povo argelino. Não são os mecanismos que organizam a sociedade argelina que ele
questiona, mas os costumes, crenças e práticas daqueles que nela vivem.
Na sua obra, o argelino deixa de ser um
sujeito histórico para se tornar objecto de reprovação. A sua cultura é
desacreditada, o seu comportamento ridicularizado, a sua religião culpada por
todos os males. Longe de iluminar a realidade social argelina, a obra de Sansal
simplifica-a, caricatura e condena. Assim, o que aparenta ser uma crítica é, na
realidade, nada mais que uma acusação — não contra o governo, mas contra o
próprio povo argelino.
Assim, Boualem Sansal representa menos uma figura de
dissidência do que uma função ideológica: a de um ideólogo que desloca a
crítica, na Argélia, do sistema para o povo argelino e, à escala internacional,
do capitalismo e do sionismo para os muçulmanos e o islamismo.
Khider MESLOUB
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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