Quando a criminalização do anti-sionismo prenuncia a abolição de toda a dissidência
23 de Abril de 2026 Robert Bibeau
Por Khider Mesloub .
Quando começaram a perseguir milhões de
militantes pró-palestinos, muitos desviaram o olhar; diziam, não passavam
de «islamistas». A sua desqualificação foi suficiente para tornar o seu destino
indiferente. Não nos preocupamos com as injustiças que afectam aqueles que já
excluímos do campo da legitimidade política e privados de toda dignidade
humana.
Quando proibiram as manifestações de milhões e milhões de cidadãos em cerca de cem países do mundo contra o genocídio dos palestinianos de Gaza, as vozes indignadas tornaram-se ainda mais raras; dizia-se, era para preservar a «ordem pública». A restricção das liberdades deixou de ser vista como um problema, tornando-se uma evidência – uma exigência da burguesia. E aquilo que deveria preocupar foi apresentado como uma protecção.
Quando perseguiram, marginalizaram e, por fim, silenciaram os intelectuais anti-sionistas, instalou-se o silêncio; dizia-se que era para «combater o anti-semitismo». A acusação bastou para desacreditar qualquer discurso pró-palestiniano, qualquer crítica à entidade israelita. Já não se respondia aos argumentos: suspeitava-se, estigmatizava-se e, depois, excluía-se. Pois já não se tratava apenas de desqualificar ou marginalizar, mas de silenciar a oposição maciça ao genocídio de um povo: de transformar uma posição política num delito e aqueles que a defendiam em alvos a vigiar, a isolar e até a punir. A solidariedade com os árabes palestinianos deixou de ser discutida: foi progressivamente tornada suspeita, depois reprimida e, finalmente, criminalizada.
Depois,
o mecanismo ultrapassou este primeiro quadro. Os trabalhadores em luta, os
militantes sindicais e os revolucionários foram, por sua vez, visados,
desqualificados, designados como factor de perturbação, e as suas mobilizações
como desvios a reprimir. Mais uma vez, foram mobilizados os mesmos
procedimentos: deslegitimar as reivindicações, desqualificar e difamar os
militantes, criminalizar as formas de organização. O que ontem se enquadrava no
conflito social foi progressivamente reclassificado como perturbação da ordem
pública e, posteriormente, como ameaça que legitimava a proibição de qualquer
manifestação.
Quando a própria opinião começou a ser
tratada como um delito, já quase não restava ninguém para protestar. Não porque
todos tivessem desaparecido, mas porque as próprias condições da contestação
tinham sido aniquiladas.
É assim que se procede ao sufocamento da liberdade: não por um golpe de força brutal, mas por uma série de renúncias aceites, de excepções toleradas, de desqualificações consideradas legítimas.
Assim, pouco a pouco, em França, o campo do dizível foi-se estreitando. Em público, o que ontem era objecto de debate tornou-se proibido; nas famílias, o que ainda podia ser discutido tornou-se indizível.
Paralelamente, a contestação social foi metodicamente desarmada: o que ontem era parte da luta operária foi desqualificado; o que podia ser organizado sindicalmente foi impedido.
Cada etapa repressiva foi justificada, cada recuo da liberdade imposto como necessário, cada silêncio perante as guerras genocidas erigido em conduta ponderada e razoável.
E quando toda a crítica foi proibida, já não havia ninguém para protestar, não porque todos consentissem, mas porque já ninguém estava autorizado a não consentir.
Em França, já não se tratava apenas do bloqueio de todo o debate, mas de uma sistemática submissão.
Após a criminalização do anti-sionismo, veio a do anti-capitalismo. Então, criticar o capitalismo tornou-se proibido; desafiá-lo, impensável; combatê-lo, impossível.
Nesse mesmo movimento destrutivo, a mentalidade de
guerra e o espírito beligerante tomaram conta de toda a sociedade francesa,
agora profundamente militarizada e treinada para se sacrificar sem reservas nas
intermináveis guerras do capital... onde todos eram obrigados a alistar-se.
Khider MESLOUB
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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