sábado, 18 de abril de 2026

O PAPA NA ARGÉLIA: A FABRICAÇÃO MEDIÁTICA DE UMA EXPECTATIVA MESSIÂNICA

 


O PAPA NA ARGÉLIA: A FABRICAÇÃO MEDIÁTICA DE UMA EXPECTATIVA MESSIÂNICA

18 de Abril de 2026 Robert Bibeau



Por Khider Mesloub .

A julgar por parte da imprensa argelina, a visita do Papa Leão XIV ultrapassou largamente o âmbito diplomático ou inter-religioso. Esta visita foi construída, amplificada e encenada como um acontecimento de alcance quase salvador. O vocabulário utilizado, as narrativas e as ênfases repetidas acabaram por produzir um efeito preciso: o de uma expectativa que ultrapassou o político e roçou o religioso invertido.


De qualquer forma, esta visita do Papa Leão XIV, cujos meios de acção são, em primeiro lugar, espirituais e diplomáticos, foi investida de um peso simbólico desproporcional, como se devesse, por si só, produzir um renascimento diplomático ou económico, ou mesmo uma regeneração moral ou espiritual da Argélia. Ao multiplicarem as referências a uma Argélia «terra de tolerância», «encruzilhada espiritual», «herdeira de Agostinho de Hipona», os meios de comunicação social não se limitaram a contextualizar a visita: construíram um relato compensatório. Um relato que visa menos descrever uma realidade do que produzir uma imagem valorizante, restaurar simbolicamente aquilo que o real já não consegue encarnar.

Este tratamento não é insignificante. Não diz nada sobre o papa, mas muito sobre aqueles que o comentaram nos meios de comunicação social. Pois por trás desta encenação de um evento apresentado como excepcional, delineou-se outra coisa: uma expectativa deslocada, quase subsidiária.

Tudo aconteceu como se, perante instituições nacionais, religiosas ou culturais que se debatem para produzir sentido e estruturar um horizonte colectivo mobilizador, o papa tivesse sido investido de uma missão milagrosa: a de realizar, apenas com a sua presença em solo argelino, aquilo que nenhum programa consegue alcançar: o milagre económico e prodígios diplomáticos.

A julgar por alguns meios de comunicação, a Argélia parecia esperar o papa como o messias, como o seu salvador supremo. O Papa Leão XIV, cujo nome evoca o do rei Luís XIV, foi recebido na Argélia como se fosse um soberano taumaturgo, investido de poderes sobrenaturais, dos quais o mais emblemático é a cura milagrosa de doenças, nomeadamente a mais estigmatizante: a escrofulose. Os jornalistas acorreram ao augusto pontífice, fazedor de milagres, para que ele traçasse um sinal da cruz, como se ele pudesse, por esse único gesto sagrado, libertar a Argélia dos seus males socio-económicos e erradicar as suas feridas políticas e diplomáticas. Mesmo em países africanos de maioria cristã, os jornalistas não cedem a tal exagero devocional em torno da figura papal.

O Papa na Argélia: um fervor mediático revelador de um vazio político

O paradoxo é impressionante. Num país onde o Islão constitui a referência religiosa dominante, é a vinda do chefe da Igreja Católica que parece, pelo menos na comunicação social, ter suscitado uma espécie de elevação simbólica. Como se a legitimidade espiritual devesse agora provir de outro lugar: do papado. Como se a alteridade religiosa, longe de ser simplesmente reconhecida, servisse para colmatar um défice interno que nenhuma força política argelina consegue resolver.

É aí que se opera a deslocação. Pois, ao exagerar o alcance do evento, acabou-se por atribuir-lhe uma função implícita: a de reparar, reabilitar, quase regenerar a Argélia. Como se uma visita papal pudesse, apenas pelo seu peso simbólico, devolver uma profundidade espiritual a um espaço público em decadência moral.

Esta deslocação estava carregada de significado. Não se inscrevia nem na abertura nem no diálogo – noções frequentemente invocadas de forma incantatória –, mas num fenómeno mais profundo: a fragilização dos quadros de produção de sentido e a tentação de os externalizar.

 

Neste contexto, a referência ao «país de Agostinho de Hipona» terá assumido uma dimensão particular. Permitiu reinscrever simbolicamente a Argélia numa história cristã antiga, prestigiada, quase mitificada. Mas, mais uma vez, esta mobilização do passado funcionou como um revelador: quando um presente carece de consistência, procura na história ou no Outro – o papa – os recursos que já não consegue produzir por si mesmo.

No fundo, o que este tratamento mediático terá revelado não é um fervor popular espontâneo, mas uma operação de encenação: fazer passar uma visita ordinária como um evento histórico. Até prova em contrário, o papa não assinou nenhum contrato comercial de vários milhares de milhões de dólares com a Argélia no final da sua visita.

A visita papal terá, assim, funcionado como um revelador: não é o evento que é excepcional, é o tratamento mediático que lhe é dado que o torna artificialmente assim. No fundo, estas práticas mediáticas traduzem uma mutação mais profunda: a passagem de um meio de comunicação que informa para um meio que encena, de um meio que descreve o real para um meio que o recompõe simbolicamente para o tornar suportável, valorizável, apresentável. E talvez seja aí o ponto mais crítico: ao produzir incessantemente ilusões simbólicas, o sistema mediático argelino acaba por substituir-se à realidade que deveria esclarecer.

A ironia da história é que este fervor papal só existiu no discurso mediático: o povo argelino, felizmente, não terá de forma alguma partilhado desta «papa-manía». Mais perspicaz, não acredita nem em milagres mediáticos nem em prodígios papais. 

Khider MESLOUB

 

Fonte: LE PAPE EN ALGÉRIE : LA FABRICATION MÉDIATIQUE D’UNE ATTENTE MESSIANIQUE – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Sem comentários:

Enviar um comentário