domingo, 26 de abril de 2026

Sobre a Greve de Noida

 


Sobre a Greve de Noida 

A 13 de abril, eclodiu uma greve massiva em Noida, Índia, com a participação estimada de 40.000 a 60.000 operários. Esta demonstração esmagadora de força da classe operária parou completamente toda a zona industrial. Inúmeros operários de fábrica saíram em uníssono, profundamente frustrados com a dura realidade dos turnos brutais de 12 horas e salários de fome. Exigindo um salário mínimo de ₹20.000 (rupia indiana – NdT), rejeitaram com razão a oferta insultuosa e arrogante dos proprietários das fábricas de apenas um aumento de ₹350.

A escala e o poder desta acção colectiva provocaram uma vaga de pânico absoluto tanto entre os proprietários das fábricas como no governo estadual. Reconheceram rapidamente que, quando a classe operária age unida como uma força única e unificada, todo o sistema de lucro fica profundamente ameaçado. Incapaz de pacificar os operários ou convencê-los a aceitar mais exploração, o governo recorreu à repressão brutal para acabar com a greve. Centenas de polícias e seguranças fortemente armados foram destacados para as ruas. Atacaram as linhas de piquete com bastões e gás lacrimogéneo, transformando efectivamente as zonas industriais num confinamento militar. Com o aumento da vigilância policial, tornou-se difícil para os operários reunirem-se, falarem ou organizarem-se mais. Dezenas de operários foram detidos e bairros inteiros foram fortemente bloqueados.

No entanto, a traição à causa dos operários não se limitou à repressão externa. Os sindicatos estabelecidos, que afirmam representar os operários, abandonaram efectivamente as reivindicações imediatas dos operários no terreno. Quando o movimento cresceu para uma força de quase 60.000 — tão grande que a polícia inicialmente vacilou e recuou — os líderes sindicais intervieram não para escalar a luta, mas para a conter. Instruíram os operários a parar de tomar medidas reais, reduzir a sua agitação a manifestações passivas, cessar todas as iniciativas e esperar pacientemente por permissão oficial e instrucções dos sindicatos para fazer greve. Ao fazê-lo, redireccionaram um momento de força colectiva para canais controlados e burocráticos, retirando-lhe o seu potencial disruptivo.

Este tipo de resposta não é uma aberração, mas é característico dos sindicatos, que deixaram de funcionar como instrumentos de auto-actividade dos operários, passando a actuar como órgãos mediadores para o capital. O seu papel é regular o descontentamento dos operários, negociar compromissos fracos com os patrões e garantir que o conflito se mantenha dentro de limites geríveis. Perante um movimento de massas independente que ameaça ultrapassar esses limites, passam a disciplinar em vez de apoiar os verdadeiros interesses de classe dos operários.

A luta não se limitou apenas a Noida. Em vários centros industriais da NCR — incluindo Gurgaon, Faridabad, Panipat e Ghaziabad — os operários já estavam envolvidos em protestos contínuos sobre salários e condições de trabalho. Estas lutas anteriores, embora largamente localizadas e fragmentadas, reflectem uma realidade material partilhada de baixos salários, emprego precário e regimes de trabalho exaustivos em toda a região. Para evitar que o descontentamento dos operários se consolidasse num movimento regional mais amplo, o Estado agiu rapidamente para o conter. A Secção 163 da Bharatiya Nagarik Suraksha Sanhita, sucessora da Secção 144 da era colonial, foi imposta em várias áreas afectadas, restringindo a assembleia pública e impedindo que os operários se reunissem, organizassem e sustentassem a sua acção colectiva. Juntamente com as detenções e o destacamento policial, estas medidas limitaram fortemente a escalada dos operários, limitando o potencial para o movimento se consolidar numa luta mais ampla e unificada em toda a região da capital nacional.

Apesar de um desdobramento massivo de forças policiais, com quase 200 viaturas policiais e uma média de quatro agentes destacados por fábrica, estação de metro e área circundante, novas greves continuaram a surgir às escondidas das lutas antigas. Quando as trabalhadoras domésticas tentaram corajosamente juntar-se à greve dos operários de fábrica em solidariedade, o Estado utilizou criminosos políticos para atirar pedras e desencadear ataques policiais, resultando na hospitalização de muitos.

Aterrorizado pela agitação contínua, o governo, em pânico, anunciou rapidamente um aumento salarial repentino para os operários de Noida, antes mesmo de realizar uma reunião formal com os representantes dos operários. Esta foi uma tentativa desesperada e de última hora por parte do Estado de atirar algumas migalhas ao movimento para neutralizar a sua agitação. Simultaneamente, o Estado lançou uma campanha massiva de mentiras, atribuindo a greve a agitadores externos, a países estrangeiros e a conspirações radicais, que incluíam financiamento estrangeiro proveniente do Paquistão, e acusações de que o naxalismo se estava a desenvolver na região. Isto foi feito para obscurecer a verdade óbvia: a greve nasceu de estômagos vazios, de condições brutais nas fábricas e da humilhação diária da exploração capitalista extrema.

Os acontecimentos em Noida e no cinturão industrial circundante revelam, sem qualquer ambiguidade, a verdadeira natureza do Estado capitalista. Quando os operários se organizam, o Estado recorre aos cassetetes. Quando o movimento se alarga, impõe leis que criminalizam a reunião. Quando a repressão por si só falha, oferece a menor concessão possível, ao mesmo tempo que espalha calúnias e mentiras. E quando tudo o resto falha, recorre à burocracia sindical para conduzir os operários de volta à passividade. Todas as alavancas do poder – legais, judiciais, políticas e físicas – são accionadas com o único objectivo de manter a exploração da qual todo o sistema depende.

Para resistir a isto, os operários devem emergir e agir como uma única classe, em todas as regiões e em todos os sectores, porque todos sofrem sob o mesmo sistema.

A luta em Noida serve como um claro aviso à classe dominante e uma lição vital para os operários. As revoltas espontâneas e a coragem pura, embora inspiradoras, não são suficientes por si só. Os operários devem, antes de mais, alcançar uma compreensão clara do sistema capitalista antes de poderem desmantelá-lo com sucesso. O governo, a polícia, os proprietários das fábricas e os sindicatos oficiais não agem por engano; todos operam em conjunto sob a lógica totalizante do capitalismo. A luta por pequenas melhorias no dia-a-dia no local de trabalho, embora seja um ponto de partida necessário, nunca conduzirá por si só a uma revolução. Limitar a luta a exigências defensivas por um «salário justo» é uma armadilha; sob este sistema, quaisquer ganhos monetários temporários serão rapidamente devorados pela inflação, por ritmos de trabalho mais acelerados ou por despedimentos em massa. Por isso, a incrível coragem actualmente vista nas ruas deve transformar-se de uma luta por salários num movimento político consciente e de toda a classe para abolir completamente o sistema salarial. Por fim, este conflito monumental não pode ser vencido isoladamente.(1) O capitalismo é uma rede mundialmente integrada. Os operários devem rejeitar a armadilha do nacionalismo e reconhecer que a sua luta é uma batalha internacional. Ao assumirem a luta nas suas próprias mãos, os operários de todas as fronteiras devem unir-se para derrubar a máquina estatal e o próprio sistema de exploração que os aprisiona.

 

Topaz & Asherah
Class War (South Asia)
20 de Abril de 2026

Notas:

Imagem: recolher obrigatório na zona industrial de Noida

(1) Os camaradas da Class War (Sul da Ásia) tentaram intervir directamente no terreno em Noida, especificamente na zona do Sector 62, para estabelecer contacto com os trabalhadores domésticos e os trabalhadores a tarefa em greve. No entanto, a intervenção física e a distribuição de panfletos foram severamente restringidas pelo bloqueio policial agressivo imposto pelo Estado, pela forte presença de efetivos da CRPF e pelos encerramentos retaliatórios das fábricas, destinados a dispersar os operários. Apesar destas barreiras tácticas imediatas, tais intervenções continuam a ser absolutamente vitais. Os revolucionários devem intervir activamente nestas revoltas espontâneas para quebrar o isolamento local dos operários, combater a influência pacificadora dos sindicatos oficiais e generalizar activamente a luta por toda a classe operária.

Terça-feira, 21 de Abril de 2026

 

Fonte: On the Noida Strike | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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