O comboio imperialista americano perde
as rodas
Não há dúvida de que a eleição de Trump em 2024 foi uma acção decisiva da burguesia americana para transformar os Estados Unidos numa potência mais agressiva, tanto a nível interno como externo. Do ponto de vista do capitalismo americano, isto correspondia à incapacidade da política de Biden de abrandar ou travar as crescentes dificuldades e o declínio do capitalismo e do imperialismo americanos face à China e a todos os outros rivais económicos e imperialistas. Do ponto de vista do capitalismo mundial e do proletariado internacional, a escolha de Trump, com as suas políticas «disruptivas» e a sua ideologia MAGA, é o produto do aumento dramático das contradições económicas capitalistas — expressas por uma sobreprodução geral de capitais e mercadorias — e um factor de aceleração do seu desfecho final: uma guerra mundial que destruiria essa sobreprodução geral das forças produtivas. As empresas tecnológicas estavam às ordens de Trump durante a tomada de posse e, na frente cultural, as empresas de comunicação social estavam ansiosas por proclamar uma «mudança de clima», anunciando uma nova era de normas MAGA a dominar a vida quotidiana11. No entanto, a aposta e o desafio para a burguesia americana eram saber se Trump e o MAGA seriam suficientemente eficazes para reverter o curso negativo dos acontecimentos para o capitalismo americano. O primeiro sinal de fraqueza surgiu com a incapacidade da coligação eleitoral de Trump de vencer as eleições especiais imediatamente após a eleição presidencial e a anulação pelo Supremo Tribunal do seu plano tarifário inicial. Além disso, o suposto isolacionismo do MAGA foi rapidamente substituído por um programa expansionista com conflitos com os Houthis do Iémen, Maduro da Venezuela e a própria NATO em relação ao Canadá e à Gronelândia12.
Os primeiros sinais de que as contradições do trumpismo ameaçavam a longevidade do movimento surgiram em Minneapolis. O «comandante em chefe» da patrulha fronteiriça e chefe das operações nas Twin Cities, Greg Bovino, assumiu imediatamente a responsabilidade pelos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti e foi substituído por Tom Homan, czar das fronteiras e membro mais moderado da administração Trump13. A 5 de Março, a secretária de «segurança interna», Kristi Noem, também foi despedida após o seu desempenho medíocre numa audição no Senado que abordava tanto os acontecimentos em Minneapolis como a sua utilização pessoal dos fundos do DHS14. Embora a princípio não parecesse que esta operação fosse muito diferente de outras operações ocorridas em cidades como Chicago e Los Angeles, estes assassinatos tornaram Trump cada vez mais impopular e dinamizaram um movimento de protesto contra ele e o ICE. O ICE matou outras pessoas, como Luis Gustavo Núñez Cáceres num centro do ICE no Texas, mas o eco e as circunstâncias destes assassinatos provocaram uma reacção mais intensa.
É antes importante notar que as políticas anti-imigrantes do governo americano não acontecem de forma isolada, mas constituem uma tentativa de estabelecer a política interna na procura de bodes expiatórios durante um período de austeridade e de guerra. Trump e os seus semelhantes prometem um paraíso idealizado e nostálgico. Sempre que personalidades do governo são interrogadas sobre o custo de vida, a sua resposta acusa os imigrantes de serem a fonte de todos os problemas. Estes custos não podem ser separados do avanço generalizado em direcção à guerra, o que o governo americano agora admite quase abertamente15. Quando Trump declarou recentemente que « estamos em guerra » contra os imigrantes, isso deve ser entendido não apenas como um grito de convocação racista, mas como uma descrição da forma como as políticas anti-imigração e a preparação para a guerra vão atualmente de mãos dadas 16. Tudo isso parece ter-se voltado contra os Estados Unidos por enquanto, tendo em conta as manifestações, mas essas políticas de divisão dos trabalhadores pelo uso do racismo e do anti-imigrante não desaparecerão, como indica a ascensão contínua dos partidos de extrema-direita na Europa.
No entanto, o maior fracasso do trumpismo não ocorreu no interior, mas no estrangeiro. Aparentemente encorajados pela captura de Maduro, os Estados Unidos e Israel lançaram um golpe de decapitação contra os líderes iranianos. Esperando aparentemente uma vitória imediata, os Estados Unidos viram-se envolvidos numa guerra que rapidamente envolveu grande parte do Médio Oriente e ameaçou degenerar até ao bloqueio de grande parte da economia mundial, até a um cessar-fogo recente e frágil. O Irão demonstrou não apenas a sua capacidade de retaliar contra alvos americanos, israelitas e do Golfo, mas, mais importante ainda, a sua capacidade de fechar o Estreito de Ormuz. Ao quebrar o mito da dominação americana sobre os mares e enfraquecer o petrodólar, o Irão, embora ferido e derrotado, saiu claramente vencedor deste conflito.
A guerra iraniana já era impopular desde o seu início. As manifestações actuais nos Estados Unidos podem parecer à primeira vista ser o núcleo de uma resposta proletária à marcha para a guerra mundial. Os ataques à fracção imigrante da classe operária nos Estados Unidos, através das raids do ICE nas cidades e bairros, forneceram o terreno proletário para uma resposta. Todos estes protestos não foram caracterizados apenas pelas grandes marchas dóceis lideradas pelo movimento No Kings, mas por um confronto directo entre os manifestantes e os agentes do ICE e do DHS no terreno. Para defender os seus vizinhos da classe operária imigrante, os residentes das cidades americanas, particularmente em Minneapolis, tiveram confrontos diários com os agentes do ICE, assobiando frequentemente e tentando interpor-se fisicamente entre o ICE e as suas vítimas. Esta dinâmica de trabalhadores americanos tentando deliberadamente opor-se aos objectivos do governo para o bem de outrem é um sinal de combatividade da classe operária muito mais significativo do que qualquer coisa de que se tenha memória recentemente. Até agora, os limites destas manifestações, do ponto de vista proletário, eram que os confrontos com o governo federal permaneceram inteiramente ligados às expulsões.
Até agora, as consequências económicas da guerra no Irão
sobre os operários não conduziram a uma resposta proletária. No entanto, a
classe dirigente americana está bem consciente deste risco. Não só as
manifestações burguesas No Kings organizadas pelo Partido Democrata e pela
esquerda em geral visam arrastar os operários, considerando-se cidadãos, para o
terreno burgês democrático, anti-Trump, No King. Esta campanha reforça-se ainda
mais ao concentrar-se agora na destituição de Trump. Mas, ainda mais perigoso,
esta campanha democrata anti-Trump visa desviar os operários da defesa dos seus
interesses de classe económica como operários através de greves generalizadas e
manifestações. Um tal movimento de classe pode oferecer um caminho autêntico e
eficaz para combater a deriva guerreira liderada pela classe dirigente
americana no seu conjunto, Trump, os Republicanos assim como os Democratas,
para a guerra 17. Seria tentador qualificar as manifestações de fracasso, mas é
antes um sucesso da fracção liberal da burguesia para controlar a raiva do
proletariado e da utilização pelo lado da burguesia do chauvinismo e do racismo
na marcha para a guerra.
Para compreender como a burguesia nos Estados Unidos tenta explorar esta reacção contra Trump, é necessário olhar para a chamada "greve geral" de 23 de Janeiro em Minneapolis. Não foi uma greve do proletariado, mas um encontro de esquerdistas gerido pela burguesia para que as pessoas libertassem as suas frustrações. É notável que os manifestantes tenham podido usar o metro, que não estava em greve, para ir às manifestações e que não houve uma paragem geral de trabalho. Além disso, os sindicatos, embora parecessem apoiar este evento, não chamaram realmente os seus trabalhadores à greve. Ao mesmo tempo que se mencionava o conflito de classes, grande parte deste movimento procurou, na realidade, estreitar os laços entre o proletariado e a burguesia de forma análoga aos movimentos anti-fascistas anteriores.
Com os fracassos crescentes da administração Trump e a sua ineficiência evidente nas frentes económica, social, política e internacional, a burguesia americana já procura formas de impor a Trump que ele rectifique as suas políticas ou, eventualmente, como alguns talvez já pensem, de se livrar dele de alguma forma. Se esses movimentos proletários emergentes que vemos não se desenvolverem para desafiar directamente a máquina de guerra americana através de uma verdadeira luta proletária geral, eles deixarão espaço para a burguesia continuar a desviar o «descontentamento» para manifestações anti-Trump e No Kings como uma válvula de escape para a raiva proletária. Isso já aconteceu muito recentemente nos Estados Unidos. O movimento Black Lives Matter contribuiu para incentivar a participação eleitoral, aspirando mais a classe operária americana para um jogo viciado que ela não pode ganhar 19. Esta vitória da burguesia não ocorreu no vazio, mas devido às ilusões dos operários sobre a política eleitoral e à fraqueza da Esquerda comunista. Não basta que os manifestantes tornem o trabalho dos polícias do ICE mais difícil ou mesmo que denunciem a guerra, eles devem romper explicitamente com a burguesia e lutar com bases de classe. Enquanto os preços da gasolina e dos alimentos aumentam e as condições de vida dos operários se degradam radicalmente, devido à intervenção militar americana mesmo no Irão, o único caminho para os operários é lutar contra qualquer novo sacrifício, qualquer corte nas suas condições de vida e de trabalho, face à inflação, por aumentos salariais, não aos cortes sociais, ao seguro de saúde e às prestações sociais, etc. Isso significa que os operários devem lutar enquanto operários, e não enquanto cidadãos, através de greves, manifestações de rua, a extensão e a generalização de qualquer luta local. É a primeira etapa de uma reacção proletária ao curso actual em direcção à guerra. E é também a primeira etapa da luta revolucionária que o proletariado precisa desenvolver para destruir o capitalismo e as suas guerras e catástrofes dramáticas. Estando na América, ou seja, no coração do poder central do capitalismo mundial hoje, qualquer resposta do proletariado nos Estados Unidos é e será uma das chaves para que o proletariado mundial possa opor-se à dinâmica actual em direcção à guerra mundial imperialista.
Fred, 10 de Abril de 2026
11. https://www.aei.org/op-eds/the-vibe-shift-hits-hollywood/org)
12. Quelles que soient les intentions de Trump concernant le Groenland et le Canada, ses propos ont contribué à accélérer la militarisation des États-Unis ainsi que celle des autres membres de l'OTAN.
13. https://www.vox.com/politics/477197/tom-homan-cbp-dhs-ice-bovino-noem-trump-minneapolis.
14. https://www.npr.org/2026/03/05/nx-s1-5667546/kristi-noem-homeland-security-fired.
17. https://www.cnn.com/2026/03/28/us/live-news/no-kings-protests-03-28-26.
18. https://www.wsws.org/en/articles/2026/01/30/pzgh-j30.html.
19 https://www.nbcnews.com/politics/elections/voter-registration-surged-during-blm-protests-study-finds-n1236331;
https://bsky.app/profile/vickyacab.bsky.social/post/3md7ogi6cmc2k.
Il est très révélateur que l'auteur
anarchiste de « In Defense of Looting » semble louer la capacité de BLM à mobiliser
les électeurs pour Joe Biden.
Fonte: Révolution ou Guerre # 33 – Groupe International de la Gauche
Communiste (www.igcl.org)
Este artigo
foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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