sexta-feira, 24 de abril de 2026

G.Bad - Quando a sobreprodução industrial mundial leva a uma economia de guerra generalizada.

 


G.Bad - Quando a sobreprodução industrial mundial leva a uma economia de guerra generalizada.

24 de Abril de 2026 Oeil de faucon


Abril de 2026 — Acabámos de saber que o Pentágono pretende mobilizar empresas privadas, colocando as suas capacidades produtivas ao serviço da produção de material bélico. Uma prova, como já referimos1, de que o mundo inteiro está a entrar numa economia de guerra. O Wall Street Journal relata que altos responsáveis do Pentágono mantiveram contactos com vários grandes grupos americanos, entre os quais a General Motors, a Ford, a GE Aerospace e a Oshkosh Corporation, a fim de avaliar em que medida as suas fábricas, o seu pessoal e as suas cadeias de produção poderiam ser mobilizados para aumentar a produção de munições, equipamentos tácticos e outros materiais militares.

A empresa Oshkosh já confirmou estar em diálogo com o Pentágono. O seu responsável, Logan Jones, explicou que a empresa estava a reflectir sobre a forma de mobilizar capacidades relacionadas com o seu know-how.

O secretário da Guerra, Pete Hegseth, declara querer passar para um «regime de guerra» no que diz respeito ao aparelho de produção militar americano. Tal como na Alemanha, pretende utilizar as capacidades dos grandes grupos automóveis para compensar o esgotamento dos stocks provocado pelas entregas de armas a Kiev e pela guerra americano-israelita contra o Irão. O Pentágono procura, acima de tudo, acelerar a produção de munições e armamento táctico, numa altura em que os recursos disponíveis se reduzem.

Esse tipo de reorientação já ocorreu nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, quando a indústria automobilística foi colocada a serviço do esforço de guerra.


O que é uma economia de guerra e quais são suas consequências para a classe operária?

De modo geral, considera-se que um país está em uma economia de guerra quando mais de um quarto da sua riqueza é destinada à defesa. Não podemos contentar-nos com essa definição enquanto ignoramos a ameaça de uma guerra mundial e os países e empresas que dependem da produção e venda de armas (como a França...).
Uma economia de guerra é caracterizada por uma queda na procura privada, um aumento nos impostos para financiar a produção militar e um aumento nos défices públicos, seguido de inflação. Uma economia de guerra prioriza a indústria bélica para o fornecimento de matérias-primas. Ela
ajuda empresas civis a requalificarem-se para a produção militar. Países capitalistas de Estado operam há muito tempo dentro de uma estrutura de economia de guerra. Embora a Coreia do Norte e a Ucrânia estejam sujeitas à cota de 25% para "defesa", outros estão a seguir o mesmo caminho, incluindo Rússia, China, Estados Unidos, Irão, Argélia e os países do Golfo. A Europa
está no caminho certo nessa direcção com a sua iniciativa "ReArm Europe", e Emmanuel Macron
anunciou, em 13 de Junho de 2022, na feira Eurosatory, a entrada do seu país e da União Europeia numa "economia de guerra".

Os gastos militares da Polónia representam 4,3% do seu PIB nacional, os da Lituânia 4%, os da Letónia 3,74%, os da Estónia 3,42% e os da Noruega 3,2%. Esses cinco países superam até mesmo os Estados Unidos nesse quesito (3,19%). As principais potências económicas europeias, por outro lado, encontram-se relegadas para o meio do ranking: 2,31% do PIB destinado a gastos militares no Reino Unido, 2,39% na Alemanha e 2,05% na França, o que mal ultrapassa a regra de 2% em vigor na OTAN desde 2006. Em muitos aspectos, isso assemelha-se à encenação de Pearl Harbor.

1941 – Pearl Harbor e a entrada dos Estados Unidos na guerra:
 Enquanto a guerra assolava a Europa, os Estados Unidos, assim como durante a Primeira Guerra Mundial, tentaram manter-se neutros, ao mesmo tempo que utilizavam a sua indústria bélica para alimentar o conflito. Assim, foi implementado o programa Lend-Lease, essencialmente uma guerra de crédito. A lei de 11 de Março de 1941 autorizou Roosevelt a vender material bélico considerado vital para o país. A crise de 1929, seguida pela de 1936, reacendeu o risco de desemprego em massa, com a consequência de potenciais insurreições que precisavam ser sufocadas no seu início, exportando o excedente de desempregados para o esforço de guerra.
O ataque surpresa de 11 de Dezembro de 1941, pelo militarismo japonês à base naval de Pearl Harbor, revelaria alguns aspectos obscuros do establishment americano. Roosevelt foi acusado durante muito tempo de ter sido informado do ataque japonês e de ter simplesmente deslocado os porta-aviões.
Rápida conversão da economia para uma economia de guerra:
Roosevelt queria entrar na guerra para fornecer mercados para as indústrias privadas. Para alcançar esse objectivo, ele precisava aumentar os impostos e obter a aprovação do orçamento de guerra pelo Congresso. O Congresso aprovou quase unanimemente a entrada na guerra contra o Japão. Em resposta, em 11 de Dezembro de 1941, a Alemanha e a Itália declararam guerra aos Estados Unidos.
As consequências para as famílias foram imediatas: o recrutamento militar obrigatório foi aprovado em 20 de Dezembro de 1941, tornando todos os americanos entre 20 e 40 anos elegíveis para o serviço militar. Para converter a economia de tempos de paz numa economia de tempos de guerra, foi aprovada a Lei do Máximo Geral (que limitava a inflação e aumentava significativamente o imposto de renda) para financiar encomendas de armamentos. Essa política fiscal foi reforçada pela Lei de Receita em Outubro de 1942.

Seguiu-se o crescimento do complexo militar-industrial.
O presidente Roosevelt declarou: "Devemos aumentar a nossa produção de aeronaves a um ritmo tão acelerado que, em 1942, estaremos a produzir 60.000 aeronaves. [...] A taxa de crescimento aumentará de modo que, em 1943, estaremos a produzir 125.000 aeronaves, incluindo 100.000 aeronaves de combate." O programa era igualmente ambicioso para tanques, canhões anti-aéreos e navios mercantes. Para atingir esses objectivos, Roosevelt recorreu aos métodos que lhe haviam servido com diferentes graus de sucesso durante o New Deal. Por fim, entre 1941 e 1944, os Estados Unidos construíram 171.257 aeronaves de combate e 1.200 navios de guerra.
Uma economia mista, combinando capitalismo privado e intervenção governamental, foi estabelecida para atender às necessidades da guerra. No âmbito social, as áreas rurais sofreram êxodo rural e sobreprodução agrícola. Afro-americanos do Sul migraram para os centros urbanos e industriais do Nordeste. Na classe operária, o período foi marcado por inúmeras greves devido ao congelamento de salários e ao aumento da jornada de trabalho. O desemprego caiu como resultado da mobilização, e a taxa de emprego feminino subiu para 84%. Em 30 de Janeiro de 1942, o Congresso aprovou legislação emergencial sobre controlo de preços e alugueres. Três meses depois, Roosevelt aumentou os impostos de rendimento para pessoas físicas e jurídicas, congelou salários e preços agrícolas e incentivou a poupança e o pagamento de dívidas. Em Setembro, ele reconheceu a necessidade de novas medidas e, com alguma dificuldade, obteve-as de um Congresso relutante em enfrentar os seus eleitores em Novembro seguinte, após a adopção de medidas impopulares.

As consequências actuais do rearmamento mundial.

Com o plano "Rearmando a Europa", a Europa está a entrar numa economia de guerra
. Para a classe operária, isso significa insegurança contínua no emprego, desemprego e excesso de mão de obra, aumento de preços, desmantelamento de programas de bem-estar social e ataques aos sistemas de previdência, tudo exacerbado por máquinas, robótica, digitalização e inteligência artificial que estão a minar tanto o trabalho físico quanto o intelectual. Significa também o retorno do serviço militar obrigatório.

A Alemanha está a militarizar a sua indústria automobilística.
A sobreprodução de todo o sector automobilístico é agora flagrantemente óbvia na Alemanha e em toda a Europa. Empresas alemãs como Volkswagen, Mercedes, Bosch, ZF, Porsche, Ford, Audi, etc., estão a optar por desvalorizar/eliminar milhares de operários para evitar a desvalorização do capital. Demissões, desemprego, desemprego parcial e cortes salariais são as ferramentas que elas empregam sistematicamente.
A guerra comercial e tarifária foi desencadeada por Donald Trump com a sua chantagem de tarifas de 25% sobre veículos e peças de reposição da UE, reduzidas para 15% após uma verdadeira negociação com Ursula von der Leyen.
A crise emergente revela a obsolescência do capitalismo mundial, que inicialmente leva ao rearme mundial, e mais especificamente ao da Europa.
Os líderes desses países exaltam os benefícios dessa militarização impulsionada pela segurança, alegando que ela cria empregos, citando o exemplo da Fundição da Bretanha, na França, transformada numa fábrica de projécteis.4
Da mesma forma, na Alemanha, a indústria automobilística está a converter-se para a produção de material bélico. O grupo alemão Rheinmetall, especializado em armamentos e equipamentos automóveis, converterá duas das suas fábricas de automóveis — as de Berlim e Neuss — para produzir equipamentos militares. Para esse fim, o Ministro das Finanças, Klingbeil (SPD), aprova um orçamento de austeridade que corta todos os sectores sociais e triplica os gastos militares.
Em Junho de 2024, a Rheinmetall assinou um acordo com a fornecedora automóvel Continental, que enfrenta dificuldades, para assumir e treinar cerca de 100 funcionários de uma fábrica que fechará em 2027. A empresa alemã não é a única a redireccionar as suas fábricas para a defesa. A KNDS, outra empresa alemã do sector de defesa, anunciou no início de Fevereiro de 2025 que assumiria a fábrica da Alstom em Görlitz para produzir tanques em vez de comboios.
A Rheinmetall também assinou um contrato-quadro de 8,5 mil milhões de euros para fornecer projécteis de 155 mm para a Bundeswehr e seus países aliados, Holanda, Estónia e Dinamarca.

O serviço militar e o recrutamento obrigatório estão de volta.

Na grande maioria dos países europeus, o serviço militar está de volta, particularmente nos países do Leste Europeu. A Alemanha destaca-se nesse aspecto.

Se o alistamento voluntário não atingir as metas de recrutamento, o projecto de lei autorizaria o Parlamento a introduzir o recrutamento obrigatório para jovens, possivelmente seleccionados aleatoriamente, que teriam passado por um exame médico completo previamente. O objectivo é aumentar o número de soldados no activo de 183.000 para entre 255.000 e 270.000 até 2035. Também está previsto o recrutamento de mais 200.000 reservistas.
Todos os jovens de 18 anos receberão um questionário sobre as suas motivações e aptidão para o serviço militar; este questionário será obrigatório para os homens. Além disso, um exame médico para avaliar a aptidão física e mental dos potenciais recrutas voltará a ser obrigatório para todos os homens nascidos a partir de 1 de Janeiro de 2008, em conformidade com o pedido do Ministro da Defesa, Boris Pistorius. Para atrair o maior número possível de voluntários, estão previstos incentivos como uma ajuda de custo mensal de aproximadamente 2.600 euros (bruto) e um subsídio para a obtenção da carteira de habilitação.

“Para mim, o ponto decisivo é que estamos a procurar uma abordagem abrangente para atrair jovens voluntários, e o segundo ponto importante é a implementação generalizada de exames médicos”, declarou Pistorius na conferência de imprensa. “Outros países europeus, particularmente no norte da Europa, demonstraram que o princípio do voluntariado, combinado com incentivos, funciona, e espero exactamente o mesmo aqui”, afirmou após as reuniões dos grupos parlamentares da CDU/CSU e do SPD no Bundestag.

Em resumo e para concluir,

fica claro que a mobilização contra a guerra permanece confinada ao Médio Oriente e à Ucrânia. Por  ora, ela manifesta-se através de recusas em participar em guerras, migrações em massa e derrotismo. Não estão a surgir movimentos pacifistas significativos; algumas das chamadas lutas anti-imperialistas apenas se posicionam num campo contra o outro, variando do “nacionalismo de esquerda ao campismo (apoio de um bloco imperialista contra outro bloco, igualmente imperialista – NdT)”, todos dominados pela geo-política. Não devemos deixar-nos enganar pela retórica da paz nem exigir uma “guerra limpa” sob o direito internacional, uma lei que sempre será a lei do mais forte. Veja também sobre este assunto

Os direitos humanos estão a bombardear a Sérvia.

Um atoleiro jurídico burguês internacional.

G. Bad, Abril de 2026

 

Fonte: G.Bad- Quand la surproduction industrielle mondiale débouche sur l’ économie de guerre généralisée. – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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