O «Clube de leitura progressista» no Canadá e a nossa intervenção
Um dos nossos camaradas interveio no « Clube de leitura progressista do Suroît » (Salaberry-de-Valleyfield, uma cidade industrial a cerca de 90 km a sul de Montreal). O tema da reunião era o Manifesto do Partido Comunista. Estavam presentes cerca de vinte pessoas. Eis o seu relato.
Em resposta àqueles que achavam que Marx tinha destacado a luta de classes, o camarada citou uma carta a J. Weydemeyer (Março de 1852): «Agora, no que me diz respeito, não me cabe a mim o mérito de ter descoberto a existência das classes na sociedade moderna, nem a luta que nelas ocorre. Historiadores burgueses tinham exposto muito antes de mim a evolução histórica desta luta de classes e economistas burgueses tinham descrito a sua anatomia económica. O que eu trouxe de novo foi:
1. demonstrar
que a existência das classes só está ligada a fases históricas determinadas do
desenvolvimento da produção;
2. que a luta
de classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado;
3. que esta
ditadura, ela própria, não representa senão uma transição para a abolição de
todas as classes e para uma sociedade sem classes.
É de importância primordial insistir na ditadura do proletariado em Marx, salientou uma participante. Defendi que a burguesia nunca aceitará perder o seu poder, os seus meios de produção, e que resistirá em todos os níveis políticos, económicos, ideológicos e militares. Daí a importância da ditadura proletária sobre esta classe parasitária. Um anarquista opunha-se a esta, sobretudo se fosse dirigida por um partido comunista, que ele assimilava aos partidos estalinistas e maoístas. Para a Esquerda comunista, a Rússia de Estaline, a China, Cuba, o Vietname, são ou foram apenas formas particularmente brutais de capitalismo de Estado. Qualquer apoio, mesmo crítico, ao carácter supostamente socialista ou progressista destes países é contra-revolucionário. É preciso discutir francamente com os anarquistas e mostrar que as suas posições políticas conduzem à derrota do proletariado e não são revolucionárias, mesmo que alguns deles pensem que partir os vidros de um banco o é.
Outra intervenção foi dar um exemplo sobre o materialismo histórico, com base na questão eleitoral. Na época de Marx e até à Primeira Guerra Mundial, os partidos operários deviam participar nas eleições parlamentares. Mas desde a 1.ª Guerra Mundial, o parlamento e as campanhas eleitorais, e de forma geral a democracia burguesa, já não podem ser utilizados pelo proletariado para a sua afirmação enquanto classe e para o desenvolvimento das suas lutas. Qualquer apelo a participar no jogo eleitoral e a votar, como faz o Québec Solidaire (QS), não faz mais do que reforçar a mistificação que apresenta estas eleições como uma verdadeira escolha para a classe operária. Nesse sentido, o QS prejudica mais o desenvolvimento da consciência comunista do que um Mathieu-Bock Côté. 21.
Também abordei o papel dos sindicatos como sabotadores das lutas. Perante a nossa denúncia dos sindicatos como sabotadores das lutas, uma sindicalista apresentou o argumento em defesa dos sindicatos segundo o qual estes tinham conquistado instrução gratuita e creches subsidiadas, esquecendo-se de que isso se tinha feito sob pressão da base dos militantes e numa altura em que a crise do capitalismo não era tão profunda, bem como a marcha para a guerra generalizada. Ao contrário de várias das pessoas presentes, esta mesma sindicalista afirmou que ninguém esperava a grande revolução (sic).
A defesa dos sindicatos é reaccionária. Os líderes sindicais foram recompensados pelo seu trabalho de reforma do capitalismo em crise e pela manutenção do isolamento das lutas: Louis Laberge (FTQ) teve direito a funerais nacionais, Yvon Charbonneau (CEQ) foi nomeado embaixador da Unesco e Marcel Pépin (CSN) professor universitário. Os sindicatos do Québec participaram na modernização da economia capitalista enquanto apoiavam a lei contra o défice zero. Em Março de 1996, durante uma primeira cimeira económica sem precedentes: o governo, os sindicatos, os patrões e os grupos sociais participaram num consenso em torno do equilíbrio orçamental e numa lei para o alcançar. Isto permitiu mais tarde realizar cortes drásticos na educação e nos cuidados de saúde. Os sindicatos foram «recompensados» pelo seu apoio ao campo do imperialismo americano após a segunda guerra mundial através da fórmula Rand.22. No Canadá, eles destacam greves isoladas por sector, por sindicato, por pequenas greves de algumas horas a dois ou três dias. Por exemplo, a greve isolada dos carteiros, dos comissários de bordo da Air Canada, dos trabalhadores ferroviários.
Embora esta reunião possa parecer relativamente « limitada », tanto do ponto de vista local como, sobretudo, político, parece-nos que ela exprime uma tendência nascente no seio do proletariado, certamente através de minorias mais ou menos alargadas, e mais ou menos claras, de querer retomar os princípios e os métodos da luta de classes. Não há dúvida de que a situação internacional marcada pela guerra e pelas suas consequências em todos os países sobre o proletariado contribui para este despertar no seio da classe operária. O Clube progressista de leitura não pretende situar-se no terreno do comunismo e ainda menos da Esquerda comunista. No entanto, tende a expressar uma necessidade entre os proletários: reunir-se e compreender colectivamente os desafios históricos da situação para poder responder a eles. Da nossa parte, é o que chamamos de «círculo de discussão». Consideramos que, na medida das nossas forças e capacidades, pretendemos intervir para defender as posições de classe e o programa comunista e incentivar a reapropriação das lições históricas do proletariado.
Normand, Março de 2026
K. Marx, excerto
de « Salário, preço e lucro », 1865
« A tendência geral da produção capitalista não é elevar o nível médio dos salários, mas sim rebaixá-lo, ou seja, reduzir, mais ou menos, o valor do trabalho ao seu limite mais baixo. Mas, sendo esta a tendência das coisas neste regime, será que isso quer dizer que a classe trabalhadora deve renunciar à sua resistência contra os ataques do capital e abandonar os seus esforços para arrancar, nas ocasiões que se apresentarem, tudo o que possa trazer uma melhoria temporária à sua situação? Se ela o fizesse, reduzir-se-ia a nada mais do que uma massa informe, esmagada, de seres famélicos para os quais já não haveria salvação. Penso ter mostrado que as suas lutas por salários normais são incidentes inseparáveis do sistema assalariado no seu conjunto, que, em 99 casos em cada 100, os seus esforços para aumentar os salários não são mais do que tentativas de manter o valor atribuído ao trabalho, e que a necessidade de disputar o preço com o capitalista está ligada à condição que a obriga a vender-se como uma mercadoria. Se a classe operária desistisse na sua luta quotidiana com o capital, privar-se-ia certamente da possibilidade de iniciar tal ou tal movimento de maior envergadura. Ao mesmo tempo, e totalmente fora da servidão geral que implica o regime do assalariamento, os operários não devem exagerar o resultado final desta luta quotidiana. Não devem esquecer que lutam contra os efeitos e não contra as causas desses efeitos, que só podem reter o movimento descendente, mas não mudar a sua direção, que apenas aplicam paliativos, sem curar o mal. Não devem, portanto, deixar-se absorver exclusivamente pelas escaramuças inevitáveis que surgem continuamente com as invasões ininterruptas do capital ou as variações do mercado. Eles precisam compreender que o regime actual, com todas as misérias de que os sobrecarrega, gera ao mesmo tempo as condições materiais e as formas sociais necessárias para a transformação económica da sociedade. Em vez da palavra de ordem conservadora: ‘Um salário justo por um dia de trabalho justo’, devem inscrever na sua bandeira a palavra de ordem revolucionária: ‘Abolição do salário’. |
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Folhetos (pedido para intleftcom@gmail) A táctica do Comintern (O. Vercesi) Plataforma do GIGC (2021) Moral proletária, luta de classes e
revisionismo (Fracção interna do CCI e GIGC) A questão da guerra, 1935 (Fracção
interna do CCI) Luta estudantil e assembleias de bairro
(Comunistas Internacionalistas – Klasbatalo) A degenerescência do IC: o PCF
(1924-1927) (Fracção interna do CCI) Grupo dos Trabalhadores Marxistas,
México, 1938 (Fracção interna do CCI) Os sindicatos contra a classe operária,
1976 (fac-símile do folheto do CCI). |
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20. Québec Solidaire é um partido social-democrata na província canadiana de Québec que defende a soberania da província.
21. Cronista de extrema-direita canadiano.
22. « A fórmula Rand é uma medida legislativa ou
uma cláusula de convenção colectiva que permite a um sindicato que representa
os trabalhadores incluídos numa unidade de negociação exigir que o empregador
deduza na fonte as contribuições sindicais pagáveis obrigatoriamente por todos
os trabalhadores membros dessa unidade de acreditação, mesmo aqueles que não
fazem parte do sindicato. » (wikipedia)
23. Mobilizações proletárias no Canadá e
intervenção dos revolucionários igcl.org/Mobilisations-proletariennes-au
Fonte: Révolution ou Guerre # 33 – Groupe International de la Gauche Communiste (www.igcl.org)
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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