sábado, 12 de setembro de 2026

O Iémen, uma equação inevitável do poder decisório regional devido ao seu envolvimento na guerra em Gaza

 


O Iémen, uma equação inevitável do poder decisório regional devido ao seu envolvimento na guerra em Gaza

René Naba / 28 DE OUTUBRO DE 2024 / EM Décryptage

 

A conquista da cidade estratégica de Al Mokha permite aos Houthis completar o bloqueio do estreito de Bab el Mandeb e reforçar o bloqueio do estreito de Ormuz, um sucesso retumbante para os combatentes furtivos iemenitas e, por extensão, para o Irão.

René Naba

 

O dossier “Gaza, um ano depois”, em cinco partes, é co-publicado em parceria com a Escola Popular de Filosofia e Ciências Sociais (Argélia)

 

https://ecolepopulairedephilosophie.com/


https://www.madaniya.info/  dedica um dossier em dois capítulos a dois países do Médio Oriente, completamente opostos um ao outro na guerra israelita em Gaza,

– A Turquia, que tem o maior exército terrestre da NATO, reduzida a um papel de figurante devido à sua duplicidade.

– O Iémen, o país árabe mais pobre, vencedor de uma coligação das monarquias petrolíferas e agora uma equação inevitável do poder de decisão regional devido ao seu envolvimento activo na guerra anti-israelita em solidariedade com os palestinianos.

 


O Iémen, uma equação inevitável do poder decisório regional devido ao seu envolvimento na guerra em Gaza

O Iémen, uma reprodução em miniatura de Gaza; um ensaio geral antecipado da Guerra de Gaza. 

Soterrado por uma agressão dos petromonarcas desde 2015, juntamente com um bloqueio, tanto terrestre por parte dos petromonarcas, como naval por parte da 5ª Frota americana cujo ponto de ancoragem é em Manama, o Iémen tem sido uma reprodução em miniatura de Gaza. Um ensaio geral antecipado da guerra de Gaza de 2023-2024. 

Apesar da considerável desproporção de forças e da destruição sistemática das infraestruturas do Iémen pela aviação saudita, à semelhança dos israelitas em Gaza, os Houthis resistiram firmemente aos seus adversários, causando danos aos centros vitais da economia dos seus inimigos, como a ARAMCO saudita e as instalações petrolíferas do Abu Dhabi, à semelhança do Hamas contra Israel.

Se contra Gaza, os americanos enviaram para Israel uma força-tarefa de 2.000 soldados para proteger o perímetro do centro nuclear de Dimona e do Centro de espionagem electrónica de Ourim, os britânicos, por sua vez, instalaram no Iémen um importante centro de espionagem electrónica para o decifrar das comunicações dos Houthis na sequência de uma série de reveses das forças pró-monárquicas em Agosto e Setembro de 2021, culminando com a queda do reduto da Al Qaida no Iémen, no distrito de Al Bayda, geralmente designado por Tora Bora iemenita.

O centro de espionagem britânico foi construído no distrito de Al-Mahra, situado no sul da Península Arábica, na fronteira com Dhofar (Sultanato de Omão). Al-Mahra é uma zona cobiçada pela Arábia Saudita e pelo sultanato de Omã. Os britânicos instalaram este centro em Setembro de 2021, na sequência do ataque ao petroleiro israelita Mercer Street no mar de Omã. Um petroleiro gerido pelo bilionário israelita Eyal Ofer. O centro tem por missão decifrar, não só as comunicações dos Houthis, mas também as comunicações marítimas desta zona altamente estratégica na intersecção do Mar Vermelho, do Golfo de Aden, do Oceano Índico e do Golfo Pérsico.

Os britânicos estabeleceram um perímetro de segurança em torno desta base ao longo das margens do distrito, proibindo os moradores de pescar, o que gerou descontentamento na população privada de uma fonte de rendimento.

A instalação desta base britânica vem complementar a infraestrutura ocidental no Djibuti, que constitui um verdadeiro ponto de convergência de cabos submarinos, o «ponto de aterragem dos cabos submarinos de interligação entre a Europa, o Médio Oriente, a Ásia e África». Com 8 cabos submarinos, Djibuti é o quarto país mais conectado do continente africano. Desde 2013, acolhe o primeiro Data Center da região. Hoje, o país sonha em ser um hub digital regional.

Vitoriosos sobre os seus adversários unidos, os Houthistas, no entanto, desde a operação «Dilúvio Al Aqsa», em Outubro de 2023, envolveram-se numa guerra contra Israel em solidariedade com o Hamas palestiniano, perturbando o tráfego marítimo internacional numa zona que constitui uma veia jugular do sistema energético mundial.

Um passeio de saúde que se transforma num pesadelo

O Iémen serve geralmente como um baluarte de segurança para a Arábia Saudita no seu flanco sul, uma função idêntica à do Bahrein no seu flanco norte, ao ponto de, para proteger o seu trono, a dinastia wahhabita ter intervindo militarmente nestes dois países nos primeiros sinais da Primavera Árabe, para sufocar, em Fevereiro de 2011, o levante popular em Manama e fazer recuar a revolta popular árabe para os países de estrutura republicana na margem mediterrânica (Líbia, Síria), e depois contra o Iémen, para derrotar a hidra houthis do Iémen com a ajuda do seu sindicato petrolífero monárquico e dos seus países satélite.

 Durante trinta e cinco anos, de 1960 a 1995, a Arábia Saudita exerceu assim um domínio total sobre a vida política do Iémen, tanto sob o mandato de Ali Abdallah Saleh como dos seus predecessores, nomeadamente o coronel Ibrahim Al Hamdi, que viria a mandar assassinar, ao ponto de se opor à constituição de um ministério da defesa para poder realizar subvenções directas tanto às forças armadas iemenitas como às grandes confederações tribais.

O baptismo de fogo do Rei Salman Bin Abdulaziz no Iémen, a 25 de Março de 2015, dois meses após a sua ascensão ao trono, pretendia ser uma demonstração de força e vigor do monarca, após dez anos de letargia induzida pelo seu predecessor nonagenário Abdullah. 

Obra do seu filho, o príncipe herdeiro Mohammad Bin Salman, a expedição punitiva deste monarca octogenário, que ainda sofria de uma doença incapacitante (Alzheimer), contra o país árabe mais pobre, transformou-se num pesadelo. O passeio sanitário virou uma viagem ao fim do inferno. 

O soberano, prudente, tinha, no entanto, tomado todas as precauções: Para a primeira guerra frontal da dinastia wahhabita desde a fundação do Reino há quase um século, foi formada uma coligação de sete países, alinhando 150.000 soldados e 1.500 aviões. Uma força-tarefa apoiada por mercenários de empresas militares privadas do tipo Blackwater, de sombria memória, e a conivência tácita das «Grandes Democracias Ocidentais ».

O castigo tinha de ser exemplar e dissuadir qualquer um que se levantasse contra a hegemonia saudita na região, especialmente os Houthis, seita cismática do Islão sunita ortodoxo, ainda mais que a dinastia wahabita considera como sua caça exclusiva, sua zona de segurança, o Iémen, este país situado à direita (Yamine) no caminho de Meca, segundo o seu significado etimológico. De 2015 a 2023, o saldo das perdas iemenitas é pesado: 150 000 pessoas mortas, mais de 227 000 iemenitas também morreram devido à fome e à falta de cuidados de saúde durante a guerra. A crise humanitária continua até hoje.

A expedição punitiva petrolífera monárquica – «A tempestade da firmeza» – revelou-se, no entanto, desastrosa, apesar do bloqueio naval da 5.ª frota americana na zona (Golfo Pérsico-Oceano Índico), e apesar da forte ajuda de França num mini-desembarque de tropas leais em Aden, desde a base militar francesa no Djibuti. Apesar da supervisão francesa das tropas sauditas assegurada pelo contingente da Legião Estrangeira estacionado na base francesa do Abu Dhabi, «Zayed Military City». Apesar da instalação de uma base de rectaguarda saudita na cidade portuária de Assab (Eritreia), no Mar Vermelho, para o recrutamento e formação dos quadros do exército leal pró-saudita. 

Mas a solidariedade com o combate palestiniano não é a única motivação dos Houthi.

Questões estratégicas do Golfo Árabe Pérsico e do Estreito de Ormuz

O Golfo Árabe-Pérsico, um dos principais fornecedores do sistema energético mundial, serve ao mesmo tempo como uma gigantesca base militar flutuante do exército americano, que aí se abastece abundantemente, em casa, a preços imbatíveis, junto dos seus protegidos petro-monárquicos. Todos, em maior ou menor grau, pagam o seu tributo, concedendo sem hesitação facilidades ao seu protector. A zona está, de facto, coberta por uma rede de bases aeronavais anglo-saxónicas e francesas, a mais densa do mundo. 

Via navegável com cerca de mil km de comprimento e cujo largura ronda os 50 km na sua parte mais estreita, o Golfo é uma zona de junção entre o Mundo Árabe e o Mundo Persa, entre o sunismo e o xiismo, os dois grandes ramos do Islão.

Faz fronteira com o Irão, que se quer o porta-estandarte da Revolução Islâmica, o Iraque, que durante muito tempo se apresentou como a sentinela avançada do flanco oriental do Mundo Árabe, bem como seis monarquias petrolíferas de constituição recente, pouco povoadas e vulneráveis, mas cuja produção de petróleo está entre as maiores do mundo. 

É também uma zona intermédia entre a Europa, da qual é o principal fornecedor de petróleo, e a Ásia, que seria a primeira a ser afectada por uma eventual interrupção do tráfego marítimo. O Golfo apoia, por fim, segundo os estrategas ocidentais, o famoso «arco do islamismo» da confrontação no terceiro mundo, que vai do Afeganistão até Angola, passando pelo Corno de África.

A mais forte armada após o Vietname estava concentrada lá durante a guerra Irão-Iraque (1979-1989). Nada menos que 70 navios, com um total de 30.000 homens, pertencentes às frotas de guerra americana, soviética, francesa e britânica, cruzavam nas águas do Golfo, do estreito de Ormuz, do mar da Arábia e do norte do Oceano Índico. A esta armada juntavam-se as frotas dedicadas à defesa costeira dos países da região.

Durante a expansão do conflito Irão-Iraque, na sequência da decisão do Iraque de decretar uma «zona de exclusão marítima», 540 embarcações (petroleiros, cargueiros) foram afundadas ou danificadas – quase o dobro da tonelagem afundada durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), transformando esta via marítima num gigantesco cemitério marinho.

Um encerramento total do Estreito de Ormuz, por onde passam 90 por cento do petróleo produzido no Golfo, privaria o Ocidente de um quarto do seu consumo diário de energia. Vinte mil navios utilizam esta via marítima todos os anos, transportando um terço do abastecimento energético da Europa.

A frota americana instalou em Manama (Barém), o quartel-general da V Frota, responsável pelo Oceano Índico. Dispõe também de facilidades na ilha de Masirah (Sultanato de Omã), bem como na costa africana do Oceano Índico, em Berbera (Somália), em Mombaça (Quénia) e na ilha britânica de Diego Garcia.

Sinal da importância estratégica da zona, o Reino Unido, na época do protectorado britânico sobre a Arábia do Sul, tinha feito do porto de Adén, a grande cidade do sul do Iémen, a base forte da presença britânica a Este do Suez para a segurança da rota das Índias.

A militarização das rotas marítimas é, aliás, um dos objectivos de Washington nesta zona de não-direito absoluto que liga o Mediterrâneo ao Sudeste Asiático e ao Extremo Oriente através do Canal de Suez, do Mar Vermelho e do Golfo de Aden. Neste perímetro altamente estratégico, os Estados Unidos procederam ao maior destacamento militar fora do território nacional, em tempo de paz.

O mundo árabe reúne três das principais rotas de navegação transoceânicas, mas não controla nenhuma delas. O estreito de Gibraltar, que assegura a ligação entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo, está sob vigilância da base inglesa situada no promontório de Gibraltar, um enclave localizado no território de Espanha.

A ligação Mediterrâneo-Mar Vermelho está sob o controlo das bases inglesas situadas em ambas as extremidades do Canal de Suez (as bases de Dhekelia e Akrotiri (Chipre) e a base de Masirah (Sultanato de Omã).

Finalmente, o estreito que liga o Golfo Árabe-Pérsico ao Oceano Índico está sob o controlo apertado da série de bases da NATO: o campo franco-americano no Djibuti, a base aeronaval francesa no Abu Dhabi, o QG do CENTCOM no Qatar, e a base aeronaval americana de Diego Garcia.

Pelo princípio da liberdade de navegação, todas as rotas transoceânicas, à excepção do Estreito de Bering, estão sob controlo do Ocidente. Do Estreito de Gibraltar ao Estreito de Bósforo, ao Estreito dos Dardanelos, ao Estreito de Malaca, ao Estreito de Ormuz.

Se a China conseguiu contornar esse gargalo/estrangulamento desenvolvendo a sua «estratégia do colar de pérolas» através do estabelecimento de uma série de portos amigos ao longo das suas rotas de abastecimento, desde o Sri Lanka à África Oriental, até à Europa com a zona franca do Pireu, assim como a Rússia com Tartus e Banias, na costa síria do Mediterrâneo, isso não aconteceu com o mundo árabe. Para além de pôr em xeque este país refractário à hegemonia ocidental, o teste de força serve também como uma operação de contorno do estreito de Ormuz, substituindo a rota marítima pelo transporte terrestre de hidrocarbonetos do Golfo para a Europa, através dos portos mediterrânicos da Turquia, via o projecto TAP, o oleoduto transanatólico destinado a levar para a Europa a produção de petróleo bruto das petromonarquias e do Iraque.

O desenvolvimento da capacidade do oleoduto da antiga IPC (Irak Petroleum Cy) dos campos petrolíferos do norte do Iraque para o terminal sírio de Banias também faz parte dos projectos dos petroleiros, na hipótese de queda do regime sírio, reduzindo assim a excessiva dependência da Europa Ocidental em relação aos hidrocarbonetos da Argélia e da Rússia, dois países fora da esfera da Aliança Atlântica. Um imperativo face à evolução do tráfego marítimo mundial: dos vinte maiores portos de contentores do mundo, treze estão na Ásia, um continente que assegurará, no ano 2020, mais da metade da produção mundial. 

Na perspectiva de um confronto, os Estados Unidos completaram um novo sistema de radar no Qatar, em complemento aos já instalados em Israel e na Turquia, para formar um amplo arco regional de defesa anti-míssil.

Quase 80 anos depois da sua independência, os países árabes continuam sob controlo. Sob o pretexto do princípio da liberdade de navegação esconde-se uma tutela drástica do mundo árabe e das suas jazidas petrolíferas. 

O mesmo acontece com a navegação e com o Direito à auto-determinação, que estranhamente concede independência ao Kosovo e ao Sudão do Sul, mas não à Palestina ou ao Saara Ocidental, reduzindo este princípio a uma variável de ajuste conjuntural.

O império marítimo do Abu Dhabi

Sob o impulso do seu presidente, Mohamad Ben Zayed, os Emirados Árabes Unidos têm levado a cabo, há quase dez anos, uma diplomacia de portos e de canhoneira, do Iémen à Bacia do Corno de África, tentando expandir a sua influência até ao oceano Índico. Se o Abu Dhabi se queixa das ambições expansionistas do Irão, censurando Teerão a sua anexação, na época do Xá do Irão, de três ilhéus do golfo árabe-persa (a ilha de Abu Moussa e a Grande e Pequena Tomb), não hesitou, ele também, em anexar a ilha iemenita de Socotra, à entrada do Golfo de Aden.

A presença israelita no Mar Vermelho

Mais para lá da solidariedade com os palestinianos, o envolvimento dos Houthistas na guerra contra Israel responde a um objectivo estratégico: aliviar o apertado cerco que envolve o Iémen tanto pela NATO quanto por Israel.

Israel reforçou consideravelmente a sua presença no Mar Vermelho para contrariar o Irão. A marinha israelita está presente na zona em portos da Eritreia, com pequenas unidades navais no arquipélago de Dahlak e em Massawa, e com um posto de escuta no Monte Amba Sawara. «A presença de Israel na Eritreia é muito centrada e precisa, envolvendo recolha de informações no Mar Vermelho e monitorização das actividades iranianas», sustenta a Stratfor, a consultora estratégica americana.

Paralelamente, Israel e os Emirados Árabes Unidos, que normalizaram as suas relações diplomáticas em 2020, assinaram um acordo de livre comércio «histórico», o primeiro do género entre o Estado hebraico e um país árabe.

Dubai e o Bahrein têm, aliás, contribuído discretamente para aliviar o bloqueio marítimo que afecta Israel desde a decisão dos Houthi do Iémen de impedir o abastecimento do porto de Eilat. Os cargueiros com destino a Israel descarregam a sua carga em Manama e Dubai para ser transportada de camião para o Estado Hebraico.

E a Dubai Port Authority (DPA), a empresa de gestão portuária DP World do Dubai, associou-se a um grupo israelita para concorrer a um dos dois principais portos de Israel e estudar a abertura de uma linha de navegação directa entre os dois Estados do Médio Oriente. A empresa pública DP World, que opera portos de Hong Kong a Buenos Aires, assinou uma série de acordos com a Dover Tower israelita, incluindo uma oferta conjunta para a privatização do porto de Haifa no Mediterrâneo, um dos dois principais terminais marítimos de Israel: os portos de Ashdod e Haifa estão na mira. A DPA está também presente em África, nomeadamente no Senegal e Abou Dhabi iniciou uma colonização económica silenciosa em África.

Para ir mais longe sobre este tema, vê este link  https://www.madaniya.info/2020/11/15/abou-dhabi-vers-une-colonisation-economique-de-lafrique/

Israel justificou a sua presença no Mar Vermelho pelo facto de que a tomada de poder pelos houthis teria como consequência imediata encorajar o tráfico de armas da faixa de Gaza controlada pelo Hamas, através da península egípcia do Sinai. Durante anos, as armas iranianas destinadas a este enclave, sujeito a um bloqueio israelita, passaram pelo Sudão. Mas as autoridades sudanesas, na sequência de vários ataques de drones atribuídos a Israel contra comboios de armas, recusaram que os iranianos estabelecessem uma base permanente no seu território. 

Os houthis têm, portanto, uma antiga conta a acertar com Israel devido às suas intervenções secretas repetidas na guerra civil do Iémen, que remonta à década de 1960, devido à grande importância que este país tem aos olhos dos estrategas israelitas como saída de Israel para o Oceano Índico e o Extremo Oriente.

A vassalagem está tão bem interiorizada que o Abu Dhabi chegou mesmo a tentar obrigar o Iémen a normalizar as suas relações com Israel muito antes da conclusão do «pacto de Abraão», na primeira década do século XXI, durante o mandato do presidente Ali Abdallah Saleh, ao ponto de a agressão das monarquias petrolíferas contra o país árabe mais pobre ter parecido, em retrospectiva, uma tentativa de pôr em linha este país recalcitrante, considerado um ponto estratégico importante na navegação marítima internacional.

Ali Abdallah Saleh, assassinado a 4 de Dezembro de 2017, governou o Iémen durante 34 anos, primeiro como Presidente da República Árabe do Iémen de 1978 a 1990, e depois como Presidente do Iémen unificado de 1990 a 2012.

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos usaram contra o Iémen os mesmos métodos empregados pelos israelitas contra os palestinianos: eliminar civis indefesos para semear o terror e destruir de forma sistemática as infraestruturas do país com o objectivo de minar os fundamentos da vida cultural e social, tendo como objectivo subjacente forçar o Iémen a submeter-se à ordem petrolífera monárquica regional. E normalizar as suas relações com Israel. Esta é a principal revelação contida num documento publicado pelo jornal libanês Al Akhbar em 9 de Outubro de 2020. Israel trouxe a sua experiência à coligação petrolífera monárquica na sua guerra de agressão contra o Iémen, desencadeada em 2015, e procurou, em contrapartida, obter a restituição da nacionalidade iemenita a várias dezenas de milhares de judeus iemenitas que tinham fugido do país para Israel no momento da proclamação da independência do estado hebraico», acrescenta o jornal relatando as declarações do Sr. Yehya Sarih, porta-voz das forças armadas iemenitas.

A rivalidade entre o Abou Dhabi e o Qatar

A guerra territorial entre o Abu Dhabi e o Qatar constitui, em primeiro lugar, uma guerra de incendiários do Golfo com o objectivo de transferir para os outros a devastação do planeta que o petrolífero (Abu Dhabi) e o gasífero (Qatar) infligiram ao resto do Mundo pela desagregação programada do Mundo árabe. 

A promoção dos antigos corsários da pirataria marítima da «Costa dos Piratas», esses «anões petromonárquicos», ao estatuto de Mestres do Mundo árabe pelo campo atlântico, em nome da «democracia do carbono», ficará para a posteridade como o sintoma de uma grave aberração mental, contraproducente, ao mesmo tempo que uma mancha moral indelével a inscrever no passivo do Mundo ocidental.

Para além desta aversão mútua, o Abu Dhabi manifesta uma agressividade não contida para com o Qatar pelo seu papel como incubador do Jihadismo errático durante a sequência chamada da Primavera árabe, particularmente durante a guerra na Síria (2011-2014). O Abu Dhabi tinha acusado a Irmandade Muçulmana, cuja filial palestiniana é o Hamas, de terem fomentado um golpe contra a dinastia Ben Zayed. Tomando uma posição contrária à de Doha, o Abu Dhabi tinha então mostrado a sua solidariedade para com Damasco, mantendo activa com plenos poderes consulares, a embaixada síria na capital dos Emirados Árabes Unidos.

Desde então, o Abu Dhabi tem sofrido com a reabilitação da imagem terrível do Qatar na opinião ocidental, nomeadamente na sequência do papel de Doha na evacuação de cidadãos ocidentais do Afeganistão após a queda de Cabul nas mãos dos Talibãs, a 15 de Agosto de 2021, e do seu papel na libertação de reféns israelitas e ocidentais detidos pelo Hamas em Gaza, em Novembro de 2023

Quarto maior produtor mundial de gás (depois dos Estados Unidos, da Rússia e do Irão), membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), o Qatar recusou aderir à Federação dos Emirados Árabes Unidos. Por isso, gere para si próprio riquezas fabulosas. 

Padrinho da Irmandade Muçulmana, é, por isso, o financiador oficial de Gaza e do Hamas. 

Para passar à frente do seu rival do gás, o Abu Dhabi envolveu-se, aliás, na restauração da Autoridade Palestiniana com o objectivo de substituir esta entidade contestada pelo Hamas em Gaza no final das hostilidades, de acordo com os desejos dos israelitas e dos americanos.

Os Estados Unidos reactivam a guerra no Iémen, através das tribos iemenitas sob tutela do Abu Dhabi para conter os ataques contra Israel

Os houthis, preocupados em não comprometer a sua trégua com a Arábia Saudita, avisaram Riade da sua intenção de realizar disparos balísticos contra Israel, numa abordagem que pareceu ser um pedido de passagem inofensiva dos seus projécteis. Marcados pela sua experiência no Iémen, os sauditas adoptaram um perfil discreto face a esta nova crise regional, limitando-se a lançar apelos à «contenção», uma forma educada de desinteresse. No entanto, esta aparente neutralidade não impediu a Arábia Saudita de participar, em meados de Junho de 2024, em Manama, numa reunião conjunta do chefe do estado-maior israelita, Herzi Halévi, com os seus homólogos de cinco países árabes (Egipto, Jordânia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein). Esta reunião secreta, realizada sob a égide do Centcom, o comando central dos Estados Unidos, visava coordenar a defesa destes países contra os disparos balísticos dos países do 'eixo da resistência' (Iémen, Iraque, Líbano) e considerar “o dia seguinte” em Gaza, nomeadamente a participação de forças árabes na manutenção da ordem no enclave em substituição do Hamas.

A Arábia Saudita exerce indirectamente pressão sobre Sanaa através das restricções impostas às actividades bancárias árabes e islâmicas que operam no Iémen, mas os Houthis, em resposta, instalaram um escritório de coordenação em Bagdade com a milícia iraquiana Al Hachd Al Chaabi

Para o falante de árabe; cf este link.

Mas esse comportamento ambivalente dos sauditas não agradou aos americanos, que se empenharam em reactivar a guerra no Iémen, através das tribos iemenitas sob tutela do Abu Dhabi, para conter os ataques contra Israel. Melhor ainda, os líderes do sul do Iémen pró-Abu Dhabi apressaram-se em oferecer os seus serviços. Assim, Aidarous Al Zoubeidi, presidente do Conselho Transitório do Sul do Iémen, mobilizou-se em apoio a Israel, oferecendo serviços aos americanos, chegando mesmo a propor a abertura de uma nova frente no norte do Iémen para aliviar a pressão sobre o Estado Hebreu. 

Preocupados, no entanto, em prevenir uma extensão do conflito entre Israel e Gaza para a zona ultra-sensível do Golfo Árabe-Pérsico, o Oceano Índico e o Mar Vermelho, os americanos condicionaram o seu acordo à colocação dos sul-iemenitas sob o comando do General Tarek Saleh, chefe do Estado-Maior do governo do sul do Iémen, cujas forças estão posicionadas nas proximidades do Estreito de Bab El Mandeb, coordenando ainda as suas operações com o comando da 5.ª frota americana baseada em Manama.

O general Tarek Saleh foi encarregado pelo Abu Dhabi da defesa do Golfo de Aden. 

Quaisquer que sejam os seus acordos, o Egipto ficou responsável por neutralizar os primeiros mísseis iemenitas lançados em direcção a Israel, levando os Houthis a alterarem a sua trajectória. 

Para além do seu tratado de paz com Israel, o Cairo parece preocupado com que a tensão no Mar Vermelho não atrapalhe a navegação no Canal de Suez, o que privaria o Egipto de rendimentos substanciais resultantes do direito de passagem através da via de água que liga o golfo Pérsico ao Mediterrâneo. 

Mais de 68 navios por dia passam pelo canal de Suez para transportar 12% das mercadorias trocadas no mundo. Além disso, o desvio do tráfego marítimo via Cabo da Boa Esperança vai aumentar consideravelmente os custos do transporte marítimo e, por consequência, relançar a inflação na Europa já afectada pela Guerra na Ucrânia.

O trânsito pelo Mar Negro foi amplamente perturbado após a invasão da Ucrânia pela Rússia; a seca reduziu os caudais de água no canal do Panamá, limitando o transporte marítimo e aumentando os custos. 

Em todos os aspectos, a guerra destrutiva de Israel em Gaza, pelos seus altos e baixos, parece catastrófica, tanto para a imagem de Israel, fortemente degradada na opinião ocidental, como para a credibilidade dos Estados Unidos, que não conseguem conter as tendências vingativas do seu pupilo israelita, e também para a economia europeia e o Ocidente em geral. 

Ao iniciar a “incursão militar mais bem-sucedida do século XXI”, segundo a expressão de William Scott Ritter, antigo inspetor da comissão especial das Nações Unidas no Iraque entre 1991 e 1998, o Hamas reabilitou-se aos olhos da opinião árabe do seu desvio no início da Primavera Árabe, ao juntar-se, em 2011, à coligação islâmico-atlantista, contra os seus irmãos de armas da Síria e do Hezbollah libanês.

Ao colocar-se como verdadeiro defensor da Mesquita Al Aqsa, o movimento islamista palestiniano é agora visto por uma grande parte dos palestinianos como o representante autêntico da luta nacional palestiniana, face a uma Autoridade Palestiniana desacreditada. O mesmo se aplica ao canal transfronteiriço em árabe do Qatar, Al Jazeera, que pagou um pesado tributo à liberdade de informação numa guerra que Israel queria que se desenrolasse à porta fechada.

Desde o início da resposta israelita contra Gaza, a 8 de Outubro de 2023, os Houthis lançaram mais de uma centena de ataques contra navios na passagem do Mar Vermelho. Eles usam drones fabricados por eles próprios, que custam 2 000 dólares cada. Em resposta, a marinha americana tenta abatê-los com mísseis que custam entre 1 e 4 milhões de dólares cada.

É, no fim de contas, o movimento de resistência mais pobre e menos armado que criou a principal surpresa deste final de 2023: os Houthis, que começaram a visar de forma selectiva os navios com destino a Israel ou ligados ao país. O resultado líquido desta acção é uma redução de 85% no tráfego do porto israelita de Eilat.

Os combatentes iemenitas aplicam a sua própria versão da política do duplo standard ocidental, no sentido em que todos os outros navios podem passar livremente. Os navios russos, chineses e iranianos, assim como os registados no resto do mundo, atravessam sem problemas o estreito de Bab el-Mandeb para seguir pelo Mar Vermelho em direcção ao Canal de Suez.

A batalha de Radfan

Para memória, os bombardeamentos anglo-americanos no Iémen coincidiram com o 60º aniversário da chamada revolta de Radfan, em 1964. Um facto que caiu no esquecimento da história na memória dos anglo-saxões, mas não na dos Houthistas.

Radfan é uma região montanhosa situada a cerca de cinquenta quilómetros a norte de Aden, o principal porto do sul do Iémen. No início da década de 1960, fazia parte de uma criação colonial britânica – a Federação da Arábia do Sul, um agrupamento de cheikhs e sultanatos estabelecido por Londres.

O Reino Unido estava pronto para conceder a independência à Arábia do Sul, sob certas condições. Sir Kennedy Trevaskis, o Alto-Comissário em Aden, observou que a independência deveria “garantir que os plenos poderes passem de forma decisiva para mãos amigas”. O território assim permaneceria “dependente e sujeito à nossa influência”.

Uma grande parte da população recusou cooperar com os planos britânicos. Em Janeiro de 1964, tribos do Radfan desencadearam ataques contra alvos da Federação e comboios britânicos na região.

Na memória viva dos povos, as feridas nunca cicatrizam. A luta contra o colonialismo ocidental continua viva no Iémen, o que explica a determinação dos Houthi.

É notável que o tráfego marítimo dos países do «Sul global» (Ásia, América Latina, África) não tenha sido afectado por este confronto entre o país árabe mais pobre e o país mais poderoso do Mundo. 

Ao reconhecer a capacidade de perturbação regional de um movimento até agora confinado no complexo teatro iemenita, os Estados Unidos acabam por jogar a favor do poder houthi. Perante os novos conflitos na Europa (Ucrânia) e no Médio Oriente (Israel-Palestina), e tensões no Indo-Pacífico, Washington tem de mobilizar forças em todas as frentes, o que acentua as vulnerabilidades do seu aparelho militar numa fase política crucial.

Os Houthis, o principal desafio à marinha americana na época contemporânea

A batalha do Mar Vermelho conduzida pelos Houthistas constitui o maior desafio para a marinha americana da época contemporânea, pois coloca em causa o primado da marinha americana nesta zona crucial, por onde passam dois terços do abastecimento estratégico de Israel. 

Na aplicação da «teoria dos anéis marítimos», os Estados Unidos pretendiam, de facto, conter a China e a Rússia, já vistas como os dois grandes concorrentes dos EUA no século XXI. 

No sexto mês do conflito israelo-palestiniano, uma manobra naval conjunta dos países do BRICS (Rússia, China, África do Sul), juntamente com o Irão, o Paquistão, o Cazaquistão e o Azerbaijão, ocorreu na zona de confronto dos Houthistas com a marinha ocidental (Estados Unidos, Reino Unido, França), a 12 de Março de 2024, na área do Mar Vermelho-Golfo de Aden, numa acção subliminar destinada a contestar à marinha dos três países da NATO a livre disposição deste perímetro altamente estratégico.

Sobrepondo-se a essas manobras, os houthis bombardearam o arquipélago de Socotra, precisamente o ilhéu Abd al Kuri, que abriga uma base conjunta do Abu Dhabi e dos americanos, numa demonstração das capacidades de intervenção das milícias iemenitas. O bombardeamento de Socotra visava também impedir que a base americano-emiradense se transformasse numa plataforma de orientação da navegação em direcção ao porto israelita de Eilat (Oum Al Rachrach na designação palestiniana).

Socotra é a maior ilha do arquipélago de Socotra, composto, além de Socotra, por Abd al Kuri, Darshas e os ilhéus rochosos de Sabuniyah e Kal Firawn. Socotra tem 133 quilómetros de comprimento e cerca de quarenta quilómetros de largura, com uma área de 3 579 km². Localizada a 1000 km de Sana’a, com 140 km de comprimento por 40 km de largura, Socotra é um arquipélago de quatro ilhas isoladas e dois ilhéus rochosos, situando-se no noroeste do oceano Índico, ao largo do Corno de África.

Para relembrar: desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os americanos procederam ao seu posicionamento geo-estratégico segundo a configuração do mapa do Almirante William Harrison, concebido em 1942 pela marinha americana, com o objectivo de cercar todo o mundo eurasiático, baseando a sua presença num eixo com três pontos-chave: o estreito de Bering, o Golfo Arabo-Pérsico e o estreito de Gibraltar.

O objectivo era provocar uma marginalização total da África, uma marginalização relativa da Europa e confinar num cordão de segurança um "perímetro insalubre" constituído por Moscovo-Pequim-Delhi-Islamabad, contendo metade da humanidade, três mil milhões de pessoas, mas também a maior densidade de miséria humana e a maior concentração de droga do planeta.

85 anos depois, os Houthis mantêm uma posição firme contra a frota ocidental, enquanto a marinha iraniana controla toda uma das margens do Golfo Arábico-Pérsico e a China, que possui uma base no Djibuti, está também fortemente presente economicamente na Etiópia, além de ser padrinho do acordo de normalização das relações entre as duas potências regionais do Golfo petrolífero, os dois líderes antagónicos do mundo muçulmano, a Arábia Saudita e o Irão.

Para ir mais longe sobre este assunto, veja este link  https://www.madaniya.info/2023/06/01/accord-iran-arabie-saoudite-sous-legide-de-la-chine/

A nova versão da guerra de Gaza confirma-o: Nas extremidades do mundo árabe, os combatentes furtivos dos planaltos do Iémen, na zona do Golfo, e os combatentes do Hezbollah, no Mar Mediterrâneo, pela sua intervenção, colocam-se agora como uma equação incontornável do poder de decisão regional; um indicador evidente do início da desocidentalização do planeta.

A propósito da guerra de desgaste levada a cabo pelo Hezbollah contra Israel, cf este link              

https://www.madaniya.info/2023/12/12/france-gaza-un-plan-abracadabrantesque-francais-pour-la-cessation-des-hostilites-a-gaza/

PARA IR MAIS LONGE SOBRE O TEMA DO IÉMEN, VEJA ESTES LINKS PARA O LOCUTOR DE ÁRABE :

Os Estados Unidos estão a reactivar a guerra no Iémen, através das tribos iemenitas sob tutela do Abu Dhabi para conter os ataques dos Houthis contra Israel, a ler neste link.

Os líderes do sul do Iémen pró-Abu Dhabi estão a correr para fazer as suas ofertas de serviço, a ler neste link.

As grandes companhias marítimas internacionais estão a evitar o Mar Vermelho por medo da balística houthi.

O Egipto e a Arábia Saudita abateram os primeiros mísseis iemenitas disparados em direcção a Israel, levando os houthis a alterar a sua trajectória.

Os houthis informaram previamente a Arábia Saudita do seu envolvimento na guerra em Gaza em apoio ao Hamas, segundo consta neste link.

Sobre a problemática das petromonarquias face ao Iémen, veja estes links:

 

IlustraÇÃO

Os confrontos não param entre as forças de Sana e os fuzileiros navais americanos e britânicos (AFP)

 

Fonte: Le Yémen, une équation incontournable du pouvoir décisionnaire régional du fait de son engagement dans la guerre de Gaza - Madaniya

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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