O Iémen, uma
equação inevitável do poder decisório regional devido ao seu envolvimento na
guerra em Gaza
René Naba / 28 DE OUTUBRO DE 2024 / EM Décryptage
A conquista da cidade estratégica de Al Mokha permite aos Houthis completar o bloqueio do estreito de Bab el Mandeb e reforçar o bloqueio do estreito de Ormuz, um sucesso retumbante para os combatentes furtivos iemenitas e, por extensão, para o Irão.
René Naba
O dossier “Gaza, um
ano depois”, em cinco partes, é co-publicado em parceria com a Escola Popular
de Filosofia e Ciências Sociais (Argélia)
https://ecolepopulairedephilosophie.com/
https://www.madaniya.info/ dedica um dossier em dois capítulos a dois
países do Médio Oriente, completamente opostos um ao outro na guerra israelita
em Gaza,
– A Turquia, que tem o
maior exército terrestre da NATO, reduzida a um papel de figurante devido à sua
duplicidade.
– O Iémen, o país
árabe mais pobre, vencedor de uma coligação das monarquias petrolíferas e agora
uma equação inevitável do poder de decisão regional devido ao seu envolvimento
activo na guerra anti-israelita em solidariedade com os palestinianos.
O Iémen, uma
equação inevitável do poder decisório regional devido ao seu envolvimento na
guerra em Gaza
O Iémen, uma reprodução em miniatura de Gaza; um ensaio geral antecipado da Guerra de Gaza.
Soterrado
por uma agressão dos petromonarcas desde 2015, juntamente com um bloqueio,
tanto terrestre por parte dos petromonarcas, como naval por parte da 5ª Frota
americana cujo ponto de ancoragem é em Manama, o Iémen tem sido uma reprodução
em miniatura de Gaza. Um ensaio geral antecipado da guerra de Gaza de
2023-2024.
Apesar
da considerável desproporção de forças e da destruição sistemática das
infraestruturas do Iémen pela aviação saudita, à semelhança dos israelitas em
Gaza, os Houthis resistiram firmemente aos seus adversários, causando danos aos
centros vitais da economia dos seus inimigos, como a ARAMCO saudita e as
instalações petrolíferas do Abu Dhabi, à semelhança do Hamas contra Israel.
Se contra Gaza, os americanos enviaram
para Israel uma força-tarefa de 2.000 soldados para proteger o perímetro do
centro nuclear de Dimona e do Centro de espionagem electrónica de Ourim, os
britânicos, por sua vez, instalaram no Iémen um importante centro de espionagem
electrónica para o decifrar das comunicações dos Houthis na sequência de uma
série de reveses das forças pró-monárquicas em Agosto e Setembro de 2021, culminando
com a queda do reduto da Al Qaida no Iémen, no distrito de Al Bayda, geralmente
designado por Tora Bora iemenita.
O centro de espionagem britânico foi
construído no distrito de Al-Mahra, situado no sul da Península Arábica, na
fronteira com Dhofar (Sultanato de Omão). Al-Mahra é uma zona cobiçada pela
Arábia Saudita e pelo sultanato de Omã. Os britânicos instalaram este centro em
Setembro de 2021, na sequência do ataque ao petroleiro israelita Mercer Street
no mar de Omã. Um petroleiro gerido pelo bilionário israelita Eyal Ofer. O
centro tem por missão decifrar, não só as comunicações dos Houthis, mas também
as comunicações marítimas desta zona altamente estratégica na intersecção do
Mar Vermelho, do Golfo de Aden, do Oceano Índico e do Golfo Pérsico.
Os britânicos estabeleceram um perímetro
de segurança em torno desta base ao longo das margens do distrito, proibindo os
moradores de pescar, o que gerou descontentamento na população privada de uma
fonte de rendimento.
A instalação desta base britânica vem
complementar a infraestrutura ocidental no Djibuti, que constitui um verdadeiro
ponto de convergência de cabos submarinos, o «ponto de aterragem dos cabos
submarinos de interligação entre a Europa, o Médio Oriente, a Ásia e África».
Com 8 cabos submarinos, Djibuti é o quarto país mais conectado do continente
africano. Desde 2013, acolhe o primeiro Data Center da região. Hoje, o país
sonha em ser um hub digital regional.
Vitoriosos sobre os seus adversários
unidos, os Houthistas, no entanto, desde a operação «Dilúvio Al Aqsa», em Outubro
de 2023, envolveram-se numa guerra contra Israel em solidariedade com o Hamas
palestiniano, perturbando o tráfego marítimo internacional numa zona que
constitui uma veia jugular do sistema energético mundial.
Um passeio de saúde que se transforma num
pesadelo
O Iémen serve geralmente como um
baluarte de segurança para a Arábia Saudita no seu flanco sul, uma função
idêntica à do Bahrein no seu flanco norte, ao ponto de, para proteger o seu
trono, a dinastia wahhabita ter intervindo militarmente nestes dois países nos
primeiros sinais da Primavera Árabe, para sufocar, em Fevereiro de 2011, o
levante popular em Manama e fazer recuar a revolta popular árabe para os países
de estrutura republicana na margem mediterrânica (Líbia, Síria), e depois
contra o Iémen, para derrotar a hidra houthis do Iémen com a ajuda do seu
sindicato petrolífero monárquico e dos seus países satélite.
Durante trinta e cinco anos, de 1960 a 1995, a
Arábia Saudita exerceu assim um domínio total sobre a vida política do Iémen,
tanto sob o mandato de Ali Abdallah Saleh como dos seus predecessores,
nomeadamente o coronel Ibrahim Al Hamdi, que viria a mandar assassinar, ao
ponto de se opor à constituição de um ministério da defesa para poder realizar
subvenções directas tanto às forças armadas iemenitas como às grandes
confederações tribais.
O baptismo de fogo do Rei Salman Bin
Abdulaziz no Iémen, a 25 de Março de 2015, dois meses após a sua ascensão ao
trono, pretendia ser uma demonstração de força e vigor do monarca, após dez
anos de letargia induzida pelo seu predecessor nonagenário Abdullah.
Obra do seu filho, o príncipe herdeiro
Mohammad Bin Salman, a expedição punitiva deste monarca octogenário, que ainda
sofria de uma doença incapacitante (Alzheimer), contra o país árabe mais pobre,
transformou-se num pesadelo. O passeio sanitário virou uma viagem ao fim do
inferno.
O soberano, prudente, tinha, no entanto,
tomado todas as precauções: Para a primeira guerra frontal da dinastia
wahhabita desde a fundação do Reino há quase um século, foi formada uma
coligação de sete países, alinhando 150.000 soldados e 1.500 aviões. Uma
força-tarefa apoiada por mercenários de empresas militares privadas do tipo
Blackwater, de sombria memória, e a conivência tácita das «Grandes Democracias
Ocidentais ».
O castigo tinha de ser exemplar e
dissuadir qualquer um que se levantasse contra a hegemonia saudita na região,
especialmente os Houthis, seita cismática do Islão sunita ortodoxo, ainda mais
que a dinastia wahabita considera como sua caça exclusiva, sua zona de
segurança, o Iémen, este país situado à direita (Yamine) no caminho de Meca,
segundo o seu significado etimológico. De 2015 a 2023, o saldo das perdas
iemenitas é pesado: 150 000 pessoas mortas, mais de 227 000 iemenitas também
morreram devido à fome e à falta de cuidados de saúde durante a guerra. A crise
humanitária continua até hoje.
A expedição punitiva petrolífera
monárquica – «A tempestade da firmeza» – revelou-se, no entanto, desastrosa,
apesar do bloqueio naval da 5.ª frota americana na zona (Golfo Pérsico-Oceano
Índico), e apesar da forte ajuda de França num mini-desembarque de tropas leais
em Aden, desde a base militar francesa no Djibuti. Apesar da supervisão
francesa das tropas sauditas assegurada pelo contingente da Legião Estrangeira
estacionado na base francesa do Abu Dhabi, «Zayed Military City». Apesar da
instalação de uma base de rectaguarda saudita na cidade portuária de Assab
(Eritreia), no Mar Vermelho, para o recrutamento e formação dos quadros do
exército leal pró-saudita.
Mas a solidariedade com o combate
palestiniano não é a única motivação dos Houthi.
Questões estratégicas do Golfo Árabe
Pérsico e do Estreito de Ormuz
O Golfo Árabe-Pérsico, um dos principais
fornecedores do sistema energético mundial, serve ao mesmo tempo como uma
gigantesca base militar flutuante do exército americano, que aí se abastece
abundantemente, em casa, a preços imbatíveis, junto dos seus protegidos petro-monárquicos.
Todos, em maior ou menor grau, pagam o seu tributo, concedendo sem hesitação
facilidades ao seu protector. A zona está, de facto, coberta por uma rede de
bases aeronavais anglo-saxónicas e francesas, a mais densa do mundo.
Via navegável com cerca de mil km de
comprimento e cujo largura ronda os 50 km na sua parte mais estreita, o Golfo é
uma zona de junção entre o Mundo Árabe e o Mundo Persa, entre o sunismo e o
xiismo, os dois grandes ramos do Islão.
Faz fronteira com o Irão, que se quer o
porta-estandarte da Revolução Islâmica, o Iraque, que durante muito tempo se
apresentou como a sentinela avançada do flanco oriental do Mundo Árabe, bem
como seis monarquias petrolíferas de constituição recente, pouco povoadas e
vulneráveis, mas cuja produção de petróleo está entre as maiores do mundo.
É também uma zona intermédia entre a
Europa, da qual é o principal fornecedor de petróleo, e a Ásia, que seria a
primeira a ser afectada por uma eventual interrupção do tráfego marítimo. O
Golfo apoia, por fim, segundo os estrategas ocidentais, o famoso «arco do
islamismo» da confrontação no terceiro mundo, que vai do Afeganistão até
Angola, passando pelo Corno de África.
A mais forte armada após o Vietname
estava concentrada lá durante a guerra Irão-Iraque (1979-1989). Nada menos que
70 navios, com um total de 30.000 homens, pertencentes às frotas de guerra
americana, soviética, francesa e britânica, cruzavam nas águas do Golfo, do
estreito de Ormuz, do mar da Arábia e do norte do Oceano Índico. A esta armada
juntavam-se as frotas dedicadas à defesa costeira dos países da região.
Durante a expansão do conflito
Irão-Iraque, na sequência da decisão do Iraque de decretar uma «zona de
exclusão marítima», 540 embarcações (petroleiros, cargueiros) foram afundadas ou
danificadas – quase o dobro da tonelagem afundada durante a 2ª Guerra Mundial
(1939-1945), transformando esta via marítima num gigantesco cemitério marinho.
Um encerramento total do Estreito de
Ormuz, por onde passam 90 por cento do petróleo produzido no Golfo, privaria o
Ocidente de um quarto do seu consumo diário de energia. Vinte mil navios
utilizam esta via marítima todos os anos, transportando um terço do
abastecimento energético da Europa.
A frota americana instalou em Manama
(Barém), o quartel-general da V Frota, responsável pelo Oceano Índico. Dispõe
também de facilidades na ilha de Masirah (Sultanato de Omã), bem como na costa
africana do Oceano Índico, em Berbera (Somália), em Mombaça (Quénia) e na ilha britânica
de Diego Garcia.
Sinal da importância estratégica da
zona, o Reino Unido, na época do protectorado britânico sobre a Arábia do Sul,
tinha feito do porto de Adén, a grande cidade do sul do Iémen, a base forte da
presença britânica a Este do Suez para a segurança da rota das Índias.
A militarização das rotas marítimas é,
aliás, um dos objectivos de Washington nesta zona de não-direito absoluto que
liga o Mediterrâneo ao Sudeste Asiático e ao Extremo Oriente através do Canal
de Suez, do Mar Vermelho e do Golfo de Aden. Neste perímetro altamente
estratégico, os Estados Unidos procederam ao maior destacamento militar fora do
território nacional, em tempo de paz.
O mundo árabe reúne três das principais
rotas de navegação transoceânicas, mas não controla nenhuma delas. O estreito
de Gibraltar, que assegura a ligação entre o Oceano Atlântico e o Mar
Mediterrâneo, está sob vigilância da base inglesa situada no promontório de
Gibraltar, um enclave localizado no território de Espanha.
A ligação Mediterrâneo-Mar Vermelho está
sob o controlo das bases inglesas situadas em ambas as extremidades do Canal de
Suez (as bases de Dhekelia e Akrotiri (Chipre) e a base de Masirah (Sultanato
de Omã).
Finalmente, o estreito que liga o Golfo
Árabe-Pérsico ao Oceano Índico está sob o controlo apertado da série de bases
da NATO: o campo franco-americano no Djibuti, a base aeronaval francesa no Abu
Dhabi, o QG do CENTCOM no Qatar, e a base aeronaval americana de Diego Garcia.
Pelo princípio da liberdade de
navegação, todas as rotas transoceânicas, à excepção do Estreito de Bering,
estão sob controlo do Ocidente. Do Estreito de Gibraltar ao Estreito de
Bósforo, ao Estreito dos Dardanelos, ao Estreito de Malaca, ao Estreito de
Ormuz.
Se a China conseguiu contornar esse
gargalo/estrangulamento desenvolvendo a sua «estratégia do colar de pérolas» através
do estabelecimento de uma série de portos amigos ao longo das suas rotas de
abastecimento, desde o Sri Lanka à África Oriental, até à Europa com a zona
franca do Pireu, assim como a Rússia com Tartus e Banias, na costa síria do
Mediterrâneo, isso não aconteceu com o mundo árabe. Para além de pôr em xeque
este país refractário à hegemonia ocidental, o teste de força serve também como
uma operação de contorno do estreito de Ormuz, substituindo a rota marítima
pelo transporte terrestre de hidrocarbonetos do Golfo para a Europa, através
dos portos mediterrânicos da Turquia, via o projecto TAP, o oleoduto
transanatólico destinado a levar para a Europa a produção de petróleo bruto das
petromonarquias e do Iraque.
O desenvolvimento da capacidade do
oleoduto da antiga IPC (Irak Petroleum Cy) dos campos petrolíferos do norte do
Iraque para o terminal sírio de Banias também faz parte dos projectos dos
petroleiros, na hipótese de queda do regime sírio, reduzindo assim a excessiva
dependência da Europa Ocidental em relação aos hidrocarbonetos da Argélia e da
Rússia, dois países fora da esfera da Aliança Atlântica. Um imperativo face à
evolução do tráfego marítimo mundial: dos vinte maiores portos de contentores
do mundo, treze estão na Ásia, um continente que assegurará, no ano 2020, mais
da metade da produção mundial.
Na perspectiva de um confronto, os
Estados Unidos completaram um novo sistema de radar no Qatar, em complemento
aos já instalados em Israel e na Turquia, para formar um amplo arco regional de
defesa anti-míssil.
Quase 80 anos depois da sua
independência, os países árabes continuam sob controlo. Sob o pretexto do
princípio da liberdade de navegação esconde-se uma tutela drástica do mundo
árabe e das suas jazidas petrolíferas.
O mesmo acontece com a navegação e com o
Direito à auto-determinação, que estranhamente concede independência ao Kosovo
e ao Sudão do Sul, mas não à Palestina ou ao Saara Ocidental, reduzindo este
princípio a uma variável de ajuste conjuntural.
O império marítimo do Abu Dhabi
Sob o impulso do seu presidente, Mohamad
Ben Zayed, os Emirados Árabes Unidos têm levado a cabo, há quase dez anos, uma
diplomacia de portos e de canhoneira, do Iémen à Bacia do Corno de África,
tentando expandir a sua influência até ao oceano Índico. Se o Abu Dhabi se
queixa das ambições expansionistas do Irão, censurando Teerão a sua anexação,
na época do Xá do Irão, de três ilhéus do golfo árabe-persa (a ilha de Abu
Moussa e a Grande e Pequena Tomb), não hesitou, ele também, em anexar a ilha
iemenita de Socotra, à entrada do Golfo de Aden.
A presença israelita no Mar Vermelho
Mais para lá da solidariedade com os
palestinianos, o envolvimento dos Houthistas na guerra contra Israel responde a
um objectivo estratégico: aliviar o apertado cerco que envolve o Iémen tanto
pela NATO quanto por Israel.
Israel reforçou consideravelmente a sua
presença no Mar Vermelho para contrariar o Irão. A marinha israelita está
presente na zona em portos da Eritreia, com pequenas unidades navais no arquipélago
de Dahlak e em Massawa, e com um posto de escuta no Monte Amba Sawara. «A
presença de Israel na Eritreia é muito centrada e precisa, envolvendo recolha
de informações no Mar Vermelho e monitorização das actividades iranianas»,
sustenta a Stratfor, a consultora estratégica americana.
Paralelamente, Israel e os Emirados
Árabes Unidos, que normalizaram as suas relações diplomáticas em 2020,
assinaram um acordo de livre comércio «histórico», o primeiro do género entre o
Estado hebraico e um país árabe.
Dubai e o Bahrein têm, aliás,
contribuído discretamente para aliviar o bloqueio marítimo que afecta Israel
desde a decisão dos Houthi do Iémen de impedir o abastecimento do porto de
Eilat. Os cargueiros com destino a Israel descarregam a sua carga em Manama e Dubai
para ser transportada de camião para o Estado Hebraico.
E a Dubai Port Authority (DPA), a
empresa de gestão portuária DP World do Dubai, associou-se a um grupo israelita
para concorrer a um dos dois principais portos de Israel e estudar a abertura
de uma linha de navegação directa entre os dois Estados do Médio Oriente. A
empresa pública DP World, que opera portos de Hong Kong a Buenos Aires, assinou
uma série de acordos com a Dover Tower israelita, incluindo uma oferta conjunta
para a privatização do porto de Haifa no Mediterrâneo, um dos dois principais
terminais marítimos de Israel: os portos de Ashdod e Haifa estão na mira. A DPA
está também presente em África, nomeadamente no Senegal e Abou Dhabi iniciou
uma colonização económica silenciosa em África.
Para ir mais longe sobre este tema, vê este link : https://www.madaniya.info/2020/11/15/abou-dhabi-vers-une-colonisation-economique-de-lafrique/
Israel justificou a sua presença no Mar
Vermelho pelo facto de que a tomada de poder pelos houthis teria como
consequência imediata encorajar o tráfico de armas da faixa de Gaza controlada
pelo Hamas, através da península egípcia do Sinai. Durante anos, as armas
iranianas destinadas a este enclave, sujeito a um bloqueio israelita, passaram
pelo Sudão. Mas as autoridades sudanesas, na sequência de vários ataques de
drones atribuídos a Israel contra comboios de armas, recusaram que os iranianos
estabelecessem uma base permanente no seu território.
Os houthis têm, portanto, uma antiga
conta a acertar com Israel devido às suas intervenções secretas repetidas na
guerra civil do Iémen, que remonta à década de 1960, devido à grande
importância que este país tem aos olhos dos estrategas israelitas como saída de
Israel para o Oceano Índico e o Extremo Oriente.
A vassalagem está tão bem interiorizada
que o Abu Dhabi chegou mesmo a tentar obrigar o Iémen a normalizar as suas
relações com Israel muito antes da conclusão do «pacto de Abraão», na primeira
década do século XXI, durante o mandato do presidente Ali Abdallah Saleh, ao
ponto de a agressão das monarquias petrolíferas contra o país árabe mais pobre
ter parecido, em retrospectiva, uma tentativa de pôr em linha este país
recalcitrante, considerado um ponto estratégico importante na navegação
marítima internacional.
Ali Abdallah Saleh, assassinado a 4 de Dezembro
de 2017, governou o Iémen durante 34 anos, primeiro como Presidente da
República Árabe do Iémen de 1978 a 1990, e depois como Presidente do Iémen
unificado de 1990 a 2012.
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes
Unidos usaram contra o Iémen os mesmos métodos empregados pelos israelitas
contra os palestinianos: eliminar civis indefesos para semear o terror e
destruir de forma sistemática as infraestruturas do país com o objectivo de
minar os fundamentos da vida cultural e social, tendo como objectivo subjacente
forçar o Iémen a submeter-se à ordem petrolífera monárquica regional. E
normalizar as suas relações com Israel. Esta é a principal revelação contida
num documento publicado pelo jornal libanês Al Akhbar em 9 de Outubro de 2020.
Israel trouxe a sua experiência à coligação petrolífera monárquica na sua
guerra de agressão contra o Iémen, desencadeada em 2015, e procurou, em
contrapartida, obter a restituição da nacionalidade iemenita a várias dezenas
de milhares de judeus iemenitas que tinham fugido do país para Israel no
momento da proclamação da independência do estado hebraico», acrescenta o
jornal relatando as declarações do Sr. Yehya Sarih, porta-voz das forças
armadas iemenitas.
A rivalidade entre o Abou Dhabi e o Qatar
A guerra territorial entre o Abu Dhabi e
o Qatar constitui, em primeiro lugar, uma guerra de incendiários do Golfo com o
objectivo de transferir para os outros a devastação do planeta que o petrolífero
(Abu Dhabi) e o gasífero (Qatar) infligiram ao resto do Mundo pela desagregação
programada do Mundo árabe.
A promoção dos antigos corsários da
pirataria marítima da «Costa dos Piratas», esses «anões petromonárquicos», ao
estatuto de Mestres do Mundo árabe pelo campo atlântico, em nome da «democracia
do carbono», ficará para a posteridade como o sintoma de uma grave aberração
mental, contraproducente, ao mesmo tempo que uma mancha moral indelével a
inscrever no passivo do Mundo ocidental.
Para além desta aversão mútua, o Abu
Dhabi manifesta uma agressividade não contida para com o Qatar pelo seu papel
como incubador do Jihadismo errático durante a sequência chamada da Primavera
árabe, particularmente durante a guerra na Síria (2011-2014). O Abu Dhabi tinha
acusado a Irmandade Muçulmana, cuja filial palestiniana é o Hamas, de terem
fomentado um golpe contra a dinastia Ben Zayed. Tomando uma posição contrária à
de Doha, o Abu Dhabi tinha então mostrado a sua solidariedade para com Damasco,
mantendo activa com plenos poderes consulares, a embaixada síria na capital dos
Emirados Árabes Unidos.
Desde então, o Abu Dhabi tem sofrido com
a reabilitação da imagem terrível do Qatar na opinião ocidental, nomeadamente
na sequência do papel de Doha na evacuação de cidadãos ocidentais do
Afeganistão após a queda de Cabul nas mãos dos Talibãs, a 15 de Agosto de 2021,
e do seu papel na libertação de reféns israelitas e ocidentais detidos pelo
Hamas em Gaza, em Novembro de 2023
Quarto maior produtor mundial de gás
(depois dos Estados Unidos, da Rússia e do Irão), membro da Organização dos
Países Exportadores de Petróleo (OPEP), o Qatar recusou aderir à Federação dos
Emirados Árabes Unidos. Por isso, gere para si próprio riquezas fabulosas.
Padrinho da Irmandade Muçulmana, é, por
isso, o financiador oficial de Gaza e do Hamas.
Para passar à frente do seu rival do
gás, o Abu Dhabi envolveu-se, aliás, na restauração da Autoridade Palestiniana
com o objectivo de substituir esta entidade contestada pelo Hamas em Gaza no
final das hostilidades, de acordo com os desejos dos israelitas e dos
americanos.
Os Estados Unidos reactivam a guerra no
Iémen, através das tribos iemenitas sob tutela do Abu Dhabi para conter os
ataques contra Israel
Os houthis, preocupados em não
comprometer a sua trégua com a Arábia Saudita, avisaram Riade da sua intenção
de realizar disparos balísticos contra Israel, numa abordagem que pareceu ser
um pedido de passagem inofensiva dos seus projécteis. Marcados pela sua
experiência no Iémen, os sauditas adoptaram um perfil discreto face a esta nova
crise regional, limitando-se a lançar apelos à «contenção», uma forma educada
de desinteresse. No entanto, esta aparente neutralidade não impediu a Arábia
Saudita de participar, em meados de Junho de 2024, em Manama, numa reunião
conjunta do chefe do estado-maior israelita, Herzi Halévi, com os seus
homólogos de cinco países árabes (Egipto, Jordânia, Arábia Saudita, Emirados
Árabes Unidos e Bahrein). Esta reunião secreta, realizada sob a égide do
Centcom, o comando central dos Estados Unidos, visava coordenar a defesa destes
países contra os disparos balísticos dos países do 'eixo da resistência'
(Iémen, Iraque, Líbano) e considerar “o dia seguinte” em Gaza, nomeadamente a
participação de forças árabes na manutenção da ordem no enclave em substituição
do Hamas.
A Arábia Saudita
exerce indirectamente pressão sobre Sanaa através das restricções impostas às actividades
bancárias árabes e islâmicas que operam no Iémen, mas os Houthis, em resposta,
instalaram um escritório de coordenação em Bagdade com a milícia iraquiana Al
Hachd Al Chaabi
Para o falante de árabe; cf este link.
Mas esse comportamento ambivalente dos sauditas não agradou aos americanos, que se empenharam em reactivar a guerra no Iémen, através das tribos iemenitas sob tutela do Abu Dhabi, para conter os ataques contra Israel. Melhor ainda, os líderes do sul do Iémen pró-Abu Dhabi apressaram-se em oferecer os seus serviços. Assim, Aidarous Al Zoubeidi, presidente do Conselho Transitório do Sul do Iémen, mobilizou-se em apoio a Israel, oferecendo serviços aos americanos, chegando mesmo a propor a abertura de uma nova frente no norte do Iémen para aliviar a pressão sobre o Estado Hebreu.
Preocupados, no entanto, em prevenir uma
extensão do conflito entre Israel e Gaza para a zona ultra-sensível do Golfo Árabe-Pérsico,
o Oceano Índico e o Mar Vermelho, os americanos condicionaram o seu acordo à
colocação dos sul-iemenitas sob o comando do General Tarek Saleh, chefe do
Estado-Maior do governo do sul do Iémen, cujas forças estão posicionadas nas
proximidades do Estreito de Bab El Mandeb, coordenando ainda as suas operações
com o comando da 5.ª frota americana baseada em Manama.
O general Tarek Saleh foi encarregado
pelo Abu Dhabi da defesa do Golfo de Aden.
Quaisquer que sejam os seus acordos, o
Egipto ficou responsável por neutralizar os primeiros mísseis iemenitas
lançados em direcção a Israel, levando os Houthis a alterarem a sua trajectória.
Para além do seu tratado de paz com
Israel, o Cairo parece preocupado com que a tensão no Mar Vermelho não
atrapalhe a navegação no Canal de Suez, o que privaria o Egipto de rendimentos
substanciais resultantes do direito de passagem através da via de água que liga
o golfo Pérsico ao Mediterrâneo.
Mais de 68 navios por dia passam pelo
canal de Suez para transportar 12% das mercadorias trocadas no mundo. Além
disso, o desvio do tráfego marítimo via Cabo da Boa Esperança vai aumentar
consideravelmente os custos do transporte marítimo e, por consequência,
relançar a inflação na Europa já afectada pela Guerra na Ucrânia.
O trânsito pelo Mar Negro foi amplamente
perturbado após a invasão da Ucrânia pela Rússia; a seca reduziu os caudais de
água no canal do Panamá, limitando o transporte marítimo e aumentando os
custos.
Em todos os aspectos, a guerra
destrutiva de Israel em Gaza, pelos seus altos e baixos, parece catastrófica,
tanto para a imagem de Israel, fortemente degradada na opinião ocidental, como
para a credibilidade dos Estados Unidos, que não conseguem conter as tendências
vingativas do seu pupilo israelita, e também para a economia europeia e o
Ocidente em geral.
Ao iniciar a “incursão militar mais
bem-sucedida do século XXI”, segundo a expressão de William Scott Ritter,
antigo inspetor da comissão especial das Nações Unidas no Iraque entre 1991 e
1998, o Hamas reabilitou-se aos olhos da opinião árabe do seu desvio no início
da Primavera Árabe, ao juntar-se, em 2011, à coligação islâmico-atlantista,
contra os seus irmãos de armas da Síria e do Hezbollah libanês.
Ao colocar-se como verdadeiro defensor
da Mesquita Al Aqsa, o movimento islamista palestiniano é agora visto por uma
grande parte dos palestinianos como o representante autêntico da luta nacional
palestiniana, face a uma Autoridade Palestiniana desacreditada. O mesmo se
aplica ao canal transfronteiriço em árabe do Qatar, Al Jazeera, que pagou um
pesado tributo à liberdade de informação numa guerra que Israel queria que se
desenrolasse à porta fechada.
Desde o início da resposta israelita
contra Gaza, a 8 de Outubro de 2023, os Houthis lançaram mais de uma centena de
ataques contra navios na passagem do Mar Vermelho. Eles usam drones fabricados
por eles próprios, que custam 2 000 dólares cada. Em resposta, a marinha
americana tenta abatê-los com mísseis que custam entre 1 e 4 milhões de dólares
cada.
É, no fim de contas, o movimento de
resistência mais pobre e menos armado que criou a principal surpresa deste
final de 2023: os Houthis, que começaram a visar de forma selectiva os navios
com destino a Israel ou ligados ao país. O resultado líquido desta acção é uma
redução de 85% no tráfego do porto israelita de Eilat.
Os combatentes iemenitas aplicam a sua
própria versão da política do duplo standard ocidental, no sentido em que todos
os outros navios podem passar livremente. Os navios russos, chineses e
iranianos, assim como os registados no resto do mundo, atravessam sem problemas
o estreito de Bab el-Mandeb para seguir pelo Mar Vermelho em direcção ao Canal
de Suez.
A batalha de Radfan
Para memória, os bombardeamentos
anglo-americanos no Iémen coincidiram com o 60º aniversário da chamada revolta
de Radfan, em 1964. Um facto que caiu no esquecimento da história na memória
dos anglo-saxões, mas não na dos Houthistas.
Radfan é uma região montanhosa situada a
cerca de cinquenta quilómetros a norte de Aden, o principal porto do sul do
Iémen. No início da década de 1960, fazia parte de uma criação colonial
britânica – a Federação da Arábia do Sul, um agrupamento de cheikhs e
sultanatos estabelecido por Londres.
O Reino Unido estava pronto para
conceder a independência à Arábia do Sul, sob certas condições. Sir Kennedy
Trevaskis, o Alto-Comissário em Aden, observou que a independência deveria
“garantir que os plenos poderes passem de forma decisiva para mãos amigas”. O
território assim permaneceria “dependente e sujeito à nossa influência”.
Uma grande parte da população recusou
cooperar com os planos britânicos. Em Janeiro de 1964, tribos do Radfan
desencadearam ataques contra alvos da Federação e comboios britânicos na
região.
Na memória viva dos povos, as feridas
nunca cicatrizam. A luta contra o colonialismo ocidental continua viva no
Iémen, o que explica a determinação dos Houthi.
É notável que o tráfego marítimo dos
países do «Sul global» (Ásia, América Latina, África) não tenha sido afectado
por este confronto entre o país árabe mais pobre e o país mais poderoso do
Mundo.
Ao reconhecer a capacidade de
perturbação regional de um movimento até agora confinado no complexo teatro
iemenita, os Estados Unidos acabam por jogar a favor do poder houthi. Perante
os novos conflitos na Europa (Ucrânia) e no Médio Oriente (Israel-Palestina), e
tensões no Indo-Pacífico, Washington tem de mobilizar forças em todas as frentes,
o que acentua as vulnerabilidades do seu aparelho militar numa fase política
crucial.
Os Houthis, o principal desafio à marinha
americana na época contemporânea
A batalha do Mar Vermelho conduzida
pelos Houthistas constitui o maior desafio para a marinha americana da época
contemporânea, pois coloca em causa o primado da marinha americana nesta zona
crucial, por onde passam dois terços do abastecimento estratégico de
Israel.
Na aplicação da «teoria dos anéis
marítimos», os Estados Unidos pretendiam, de facto, conter a China e a Rússia,
já vistas como os dois grandes concorrentes dos EUA no século XXI.
No sexto mês do conflito
israelo-palestiniano, uma manobra naval conjunta dos países do BRICS (Rússia,
China, África do Sul), juntamente com o Irão, o Paquistão, o Cazaquistão e o
Azerbaijão, ocorreu na zona de confronto dos Houthistas com a marinha ocidental
(Estados Unidos, Reino Unido, França), a 12 de Março de 2024, na área do Mar
Vermelho-Golfo de Aden, numa acção subliminar destinada a contestar à marinha
dos três países da NATO a livre disposição deste perímetro altamente estratégico.
Sobrepondo-se a essas manobras, os houthis
bombardearam o arquipélago de Socotra, precisamente o ilhéu Abd al Kuri, que
abriga uma base conjunta do Abu Dhabi e dos americanos, numa demonstração das
capacidades de intervenção das milícias iemenitas. O bombardeamento de Socotra
visava também impedir que a base americano-emiradense se transformasse numa
plataforma de orientação da navegação em direcção ao porto israelita de Eilat
(Oum Al Rachrach na designação palestiniana).
Socotra é a maior ilha do arquipélago de
Socotra, composto, além de Socotra, por Abd al Kuri, Darshas e os ilhéus
rochosos de Sabuniyah e Kal Firawn. Socotra tem 133 quilómetros de comprimento
e cerca de quarenta quilómetros de largura, com uma área de 3 579 km².
Localizada a 1000 km de Sana’a, com 140 km de comprimento por 40 km de largura,
Socotra é um arquipélago de quatro ilhas isoladas e dois ilhéus rochosos,
situando-se no noroeste do oceano Índico, ao largo do Corno de África.
Para relembrar: desde o fim da Segunda
Guerra Mundial, os americanos procederam ao seu posicionamento geo-estratégico
segundo a configuração do mapa do Almirante William Harrison, concebido em 1942
pela marinha americana, com o objectivo de cercar todo o mundo eurasiático,
baseando a sua presença num eixo com três pontos-chave: o estreito de Bering, o
Golfo Arabo-Pérsico e o estreito de Gibraltar.
O objectivo era provocar uma
marginalização total da África, uma marginalização relativa da Europa e
confinar num cordão de segurança um "perímetro insalubre" constituído
por Moscovo-Pequim-Delhi-Islamabad, contendo metade da humanidade, três mil
milhões de pessoas, mas também a maior densidade de miséria humana e a maior
concentração de droga do planeta.
85 anos depois, os
Houthis mantêm uma posição firme contra a frota ocidental, enquanto a marinha
iraniana controla toda uma das margens do Golfo Arábico-Pérsico e a China, que
possui uma base no Djibuti, está também fortemente presente economicamente na
Etiópia, além de ser padrinho do acordo de normalização das relações entre as
duas potências regionais do Golfo petrolífero, os dois líderes antagónicos do
mundo muçulmano, a Arábia Saudita e o Irão.
Para ir mais longe sobre este assunto, veja este link https://www.madaniya.info/2023/06/01/accord-iran-arabie-saoudite-sous-legide-de-la-chine/
A nova versão da guerra de Gaza confirma-o: Nas extremidades do mundo árabe, os combatentes furtivos dos planaltos do Iémen, na zona do Golfo, e os combatentes do Hezbollah, no Mar Mediterrâneo, pela sua intervenção, colocam-se agora como uma equação incontornável do poder de decisão regional; um indicador evidente do início da desocidentalização do planeta.
A propósito da guerra
de desgaste levada a cabo pelo Hezbollah contra Israel, cf este link
PARA IR MAIS LONGE SOBRE O TEMA DO IÉMEN, VEJA ESTES LINKS PARA O LOCUTOR
DE ÁRABE :
Os Estados Unidos estão a reactivar a guerra no Iémen, através das tribos iemenitas sob tutela do Abu Dhabi para conter os ataques dos Houthis contra Israel, a ler neste link.
Os líderes do sul do
Iémen pró-Abu Dhabi estão a correr para fazer as suas ofertas de serviço, a ler neste link.
As grandes companhias
marítimas internacionais estão a evitar o Mar Vermelho por medo da balística
houthi.
O Egipto e a Arábia Saudita abateram os primeiros mísseis iemenitas disparados em direcção a Israel, levando os houthis a alterar a sua trajectória.
Os houthis informaram previamente a Arábia Saudita do seu envolvimento na guerra em Gaza em apoio ao Hamas, segundo consta neste link.
Sobre a problemática das petromonarquias face ao Iémen, veja estes links:
- https://www.renenaba.com/larabie-saoudite-face-au-double-defi/
- https://www.renenaba.com/larabie-saoudite-face-au-double-defi-2/
IlustraÇÃO
Os confrontos não param entre as forças de Sana e os
fuzileiros navais americanos e britânicos (AFP)
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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