Mais de um mês após as declarações de Marta Temido e Graça Freitas, respectivamente Ministra da Saúde e Directora-Geral da Saúde, de que era despiciente e inútil o uso de máscaras, eis que, num aparente volte face “técnico”, as duas instituições governamentais vêm, numa das suas famigeradas “conferências de imprensa” diárias afirmar que, afinal, existem razões fundadas para o seu uso.
Porém, esse uso, que como sempre deve ser obrigatório, é-o
apenas para espaços fechados. O que esta gente escamoteia é precisamente aquilo
que denunciamos desde o início da pandemia do COVID-19.

Isto é, sem armazenamento de máscaras, gel desinfectante,
viseiras, testes de despistagem, ventiladores e outros materiais fundamentais
para um primeiro ataque à pandemia. Privado desses instrumentos que
permitiriam, numa primeira fase, proceder à despistagem dos infectados para,
numa segunda fase, se proceder ao seu tratamento, preferiu-se o confinamento
geral da população.
Claro que, numa situação como aquela que denunciamos, não
havendo vontade política de preparar o sistema de saúde para fazer frente à
pandemia COVID-19, a solução, apresentada como facto consumado, só poderia ser
a do confinamento. Contudo, não foi, como agora se comprova, a boa ou sequer, a
melhor, solução.
Logo que a experiência da progressão e extensão da crise
pandémica ocorreu nos países asiáticos – China, Coreia do Sul, Taiwan,
Singapura, Índia, etc. – e mesmo na Europa, com o caso de Itália, se este fosse
um governo apostado em assegurar um serviço de saúde para os operários e os
trabalhadores, teria de imediato tomado uma série de medidas, entre as quais se
destacam:
·
Constituição de uma rede hospitalar que
integrasse hospitais, clínicas e laboratórios de análises públicos e privados
que colmatasse as necessidades que a pressão sanitária iria, obviamente, operar;
·
Plano de armazenamento de todo o tipo de
materiais necessários a fazer face à pandemia . Vejam-se as sistemáticas
denúncias das Ordens dos Médicos, dos Farmacêuticos e dos Enfermeiros sobre a
ausência dos mesmos;
·
Levantamento da capacidade produtiva do país de
forma a identificar que indústrias poderiam ser de imediato contactadas para
ajudarem na produção de muitos dos materiais necessários. Face à paralisia
governamental, assistimos à iniciativa de várias empresas e centros
universitários em dar uma resposta que, se tivesse sido organizada pelo governo
e pela DGS, evitaria muitos dos custos que a pandemia COVID-19 reclama.
·
Plano de triagem da população, sobretudo
daqueles que representam os maiores “grupos de risco”, como é o caso de centenas
de milhar de trabalhadores que ainda asseguram actividades produtivas – desde
logo médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, etc. – como supermercados,
transportes públicos, distribuição de correio, construcção cívil, trabalhadores
dos lares de idosos e respectivos utentes, etc.
Bem pode agora Marta Temido e Graça Freitas virem afirmar
que têm seguido caninamente as indicações da OMS (Organização Mundial da Saúde)
sobre o benefício do usos de máscaras pela generalidade dos trabalhadores.
Mesmo que aquela organização que representa, no fundo, os interesses da
burguesia capitalista e imperialista - apostada em destruir, em todo o mundo,
um Serviço Nacional de Saúde público -, a favor da saúde privada -, se
mostrasse, como se mostrou pelo menos atá à pouco tempo, desfavorável ao uso de
máscara, deveria ter seguido o exemplo de outros países que, sendo embora
capitalistas e imperialistas, viraram as costas aos técnicos e recomendações da
OMS.
São vários os exemplos, como são distintos os resultados.
Veja-se o caso da Coreia do Sul, de Singapura, da República Checa, entre muitos
outros. Apostaram fortemente na vertente preventiva e não sofrem, tal como se
assiste noutros países que se decidiram por outro caminho, como foi o caso de
Portugal, a pressão sobre os serviços, sobretudo os hospitalares e, dentro
destes, os cuidados intensivos.

Um combate que só poderá ser ganho com a inteligência, com a
ciência, o equipamento – sanitário e médico – a previsão e o planeamento do armazenamento
de materiais médicos e sanitários. E não certamente com os discursos de embalar
que têm sido promovidos, afundando o telespectador em números que respondem à
questão do quanto, mas nunca às
questões, muito mais ponderosas, do porquê
e, sobretudo, do como erradicar a
pandemia e tratar dos doentes infectados.
Esta inépcia governamental, esta política criminosa, estão a
suscitar mais psicose do que segurança. Do que os trabalhadores necessitam é de
mais protecção médica ou vacinal, essenciais para a sua saúde mental individual
e para a sua resiliência colectiva, e não do prolongar desta política de confinamento debilitante.
Os marxistas revolucionários são bem
claros quanto às suas intenções. Não pretendemos governar o Estado burguês,
devendo o capital desenvencilhar-se dos seus falaciosos discursos. Apoiamos
todas as medidas ou programas que reduzam, mesmo que temporariamente, as
consequências desta pandemia para a classe operária e para os trabalhadores. Estamos convictos que a solução deste ou de
qualquer outro quadro de pandemia, nunca poderá ser resolvido no contexto do
sistema capitalista e imperialista, no contexto de um modo de produção que visa
o lucro e não a saúde e o bem estar de quem trabalha.
Entretanto, dizemos ao proletariado de
todos os países e, no caso em particular, de Portugal: não se deixem ludibriar,
com ou sem confinamento, com esmolas ou sem esmolas de compensação salarial,
através desta gigantesca crise económica sistémica, os sobreviventes do grande
capital internacional entregar-vos-ão, no final, a factura, após o colapso do
sistema. Será neste preciso momento que a classe operária se verá obrigada, pelo
destino, a tomar o poder económico da sociedade humana.
Retirado de: http://www.lutapopularonline.org/index.php/pais/104-politica-geral/2705-covid-19-nao-e-com-discursos-encantatorios-que-se-combate-a-pandemia
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