por Robert Bibeau
Por Khider Mesloub
No campo da saúde, a incúria criminosa dos governos de
inúmeros países já não precisava de ser demonstrada. Mas, graças ao Covid-19,
essa constatação assume uma dimensão catastrófica. De facto, enquanto a
epidemia do coronavírus se espalhou maciçamente em muitos países, principalmente
na Ásia, os governantes agiram de má-fé, com muito atraso e na base da
improvisação, para agir. Medidas expeditas, não de saúde, mas securitárias. De
facto, em termos de política sanitária e
médica, esta mais se parece com uma
operação militar: confinamento obrigatório, encerramento de fronteiras,
fiscalização policial, mobilização do exército para fornecer pessoal de saúde,
cuidadores, sobrecarregados.
Isso assemelha-se a uma operação de "pacificação do país", digna das
guerras coloniais, onde as populações indígenas foram confinadas a locais
próprios, perseguidas, banidas dos centros urbanos, suspeitas de carregar uma
bomba, de atentar contra a vida do ocupante, mantidos à distância como se
fossem portadores de doenças contagiosas. Mas, acima de tudo, foram despojados
da sua dignidade, privados da sua liberdade, dos seus direitos políticos e
cívicos, militar e policialmente controlados, ditatorialmente confinados.
Podemos dar o exemplo da França, tardiamente recrutado para
a frente da luta contra a pandemia de coronavírus, o general Macron imediatamente
imprimiu sotaques belicosos ao seu discurso à retórica de guerra. "Estamos
em guerra!" repisou ele no seu discurso em 16 de Março. Em guerra com
quem? Contra o Covid-19 ou contra a população forçada a sofrer um confinamento
mais destrutivo do que o coronavírus, entendendo-se que nenhum outro tratamento
médico o acompanha, nem sob a forma de tratamento anti-viral nem sob o aspecto
de uma célula psicológica, deixando a população presa ao medo e espanto (esta
observação aplica-se à maioria dos
países, especialmente à Argélia). Na verdade, o governo Macron, como a maioria
das potências de outros países, está a navegar à vista, embarcados no seu navio
estatal em pleno naufrágio, sem qualquer controle sobre o leme, entregue às
tempestades atribuladas da economia em perdição e as vagas submergentes do desastre
político e institucional.
Hoje, face ao Covid-19, a gestão da saúde opera num
cenário de escassez de equipamentos médicos e privação de alimentos anunciada.
Na maioria dos países, em particular na Argélia, deplora-se uma cruel falta de
materiais de protecção. A escassez é geral: nenhum país possui stocks de equipamentos de segurança para
conter a pandemia. Os hospitais carecem do equipamento essencial: máscaras,
soluções hidro-alcoólicas, macas, vestuário, respiradores. Actualmente, em
muitos países, a equipa de enfermagem, perante o racionamento, é reduzida ao
uso de máscaras desactualizadas, ver já usadas. Os funcionários hospitalares "na linha da frente" (sic!) encontram-se,
pois, directamente expostos à doença.
Por todo o mundo o sistema de saúde está em ruínas,
sacrificado no altar do « rigor orçamental »
Numerosas camas de hospitais foram suprimidas, equipamentos
médicos reduzidos. Vale a pena realçar
que, se a Alemanha tem uma taxa de mortalidade por coronavírus muito menor do
que a França e a Itália, isso se deve ao alto número de vagas em terapia
intensiva (309 vagas em cuidados intensivos para 100.000 habitantes em França
contra 601 camas na Alemanha), mas também pela sua política de triagem maciça,
completamente ausente nesses dois países.
De resto, incapazes de gerir clinicamente a crise do
Covid-19, com a preocupação prioritária
de evitar o impacto sobre o aparelho de
produção, muitos países decidiram adoptar uma série de medidas de emergência, mais
parecidas com operações securitárias do que campanhas de saúde. A principal
medida introduzida foi a contenção tardia com geometria variável. Assim, devido
à sua incapacidade de fornecer materiais de protecção (máscaras, luvas,
soluções hidro-alcoólicas, testes) a toda a população, os governos optaram por medidas de segurança de contenção geral, cuja
ineficácia foi demonstrada pela Itália e pela França. Em França, essa
medida instituída tardiamente, no pânico causado pelo colapso económico e não
pelo agravamento da epidemia, deu origem a recomendações contraditórias
resumidas nessa injunção paradoxal, proferida pelo Presidente Macron: saiam
das vossas casas, mas sem sair; fiquem em casa para evitar a contaminação, mas
vão trabalhar - para manter a economia dos patrões a funcionar a fim de salvar
os seus lucros com o risco da sua própria vida.
Neste capítulo do incivismo
(falta de civismo – Nota do Tradutor), o poder tende à reversão contraditória.
Nesta gestão caótica da crise, os verdadeiros delinquentes não são os
proletários pobres que são deixados à sua própria sorte por falta de protecção
médica, mas os líderes incompetentes e criminosos, apenas capazes de administrar
um drama de saúde por meio de medidas coercivas. De facto, por falta de meios
sanitários para impedir a propagação do coronavírus, os governos da maioria dos
países não têm outra escolha, para evitar a hecatombe, do que estabelecer medidas de contenção e toque a
recolher, apoiados por um exército de policias e militares destacados sobre
todo o território, responsáveis por manter sob respeito as suas populações respectivas, atordoadas,
aterrorizadas (e em breve esfomeadas) pelo medo de serem contaminadas pelo
coronavírus, sem nenhuma chance de serem tratadas por falta de vagas em
hospitais mal equipados, que também estão sobrecarregados.
Na verdade, os governos da maioria dos países, no meio
da crise da Covid-19, associada a um colapso económico, criminalmente privados
de soluções sanitárias por falta de equipamento médico, não podem fazer outra
coisa senão mobilizar as suas forças da ordem. Esta
política securitária, em vez de uma campanha de saúde, visa acostumar a
população à militarização da sociedade quando o "inimigo interno" não
for mais o coronavírus, mas a classe trabalhadora, as classes populares famintas,
em luta.
Como prova da celerada
mistificação dos governos supostamente preocupados com a saúde dos trabalhadores,
a escandalosa manutenção da abertura de empresas não absolutamente indispensáveis para as actividades económicas essenciais neste período de
pandemia. De facto, ao mesmo tempo que os governos impõem o confinamento
generalizado para combater a disseminação do coronavírus, afirmam que estão a
forçar milhões de trabalhadores (sob o golpe propagandistico da "sagrada
união nacional", da requisição estatal ou da ameaça de sanções) a empilhar-se
diariamente nos transportes públicos, a movimentar-se dentro das fábricas, administrações,
supermercados, locais por excelência de contágio.
"A minha prioridade é salvar o aparelho de produção francês", recordava recentemente o ministro da Economia da França, Bruno Le Maire (e não salvar prioritariamente a vida do povo: a confissão tem pelo menos o mérito de ser explícita). Essa admissão soa como uma profissão de fé, que todos os líderes de todos os países adoptam por conta própria, sem formulá-la com tanto cinismo burguês e desprezo de classe. Assim, para o deus-capital , em plena fase paroxística da pandemia, o ministro está pronto para sacrificar a vida de milhões de trabalhadores, enviados para a linha de frente, sobre a frente da produção de lucros, para morrer no "campo de batalha" (casse-pipe, em francês – Nota do tradutor), com os riscos de contaminação inerentes às concentrações de trabalhadores nas unidades de produção e nos transportes públicos.
A esse respeito, não é de somenos mencionar aqui as reais
razões para a mortalidade excepcionalmente alta, em comparação com outros
países, registada em Itália. Além das já mencionadas deficiências nos equipamentos
médicos, a outra principal explicação para o excesso de mortalidade está na
economia. É frequentemente esquecido, mas as principais vítimas do genocídio
italiano da "saúde" residiam na região industrial e de trabalho vital
da Itália, ao redor de Milão, onde todas as empresas e transportes públicos
continuavam a operar, apesar dos riscos. de contagiosidade do coronavírus, em
pandemia total. O poder criminoso italiano estabeleceu o confinamento a todo o
território, mas manteve a
"liberdade de movimento e concentração" dos trabalhadores obrigados a
ir todos os dias para o seu local de exploração, usando o transporte público
comum, com todos os riscos de contagiosidade e disseminação do coronavírus.
Isso explica o número dramaticamente alto de mortes nessa população nessa
região industrial. Não foi a inconsciência dos pobres proletários italianos que
provocou o genocídio da saúde coronavirisca,
mas a irresponsabilidade criminosa das classes dominantes italianas preocupadas
principalmente com a preservação dos seus lucros
proporcionados pelas empresas mantidas abertas, nas quais os trabalhadores
estavam forçados a fazer rodar o mecanismo da produção. Portanto, moverem-se
massivamente, concentrarem-se estreitamente, circularem amplamente, transportarem
o coronavírus, infectarem colegas, vizinhos, parentes.
Claro que a contenção é eficaz, mas apenas quando é
totalmente aplicada. De facto, para ser eficiente, a contenção deve ser
completa, com uma interrupção geral na produção e circulação, encerramento
absoluto de todas as empresas que não sejam essenciais para gerir a luta contra
a disseminação do coronavírus. Pelo menos tempo suficiente para parar a
pandemia. No entanto, hoje, o confinamento ilusório, aplicado pela maioria dos
governos, é uma mistificação, porque eles mantêm a produção capitalista a
operar para não penalizar os lucros das classes ricas. É uma farsa. Esse
confinamento não tem efectividade para a saúde (a França, a Espanha e a Itália
demonstram isso dramaticamente com a explosão de casos e mortes
corona-positivos).
Uma coisa é certa: na maioria dos países, as pessoas não se
sentem protegidas pelos seus respectivos governos, devido à inércia em termos
de gestão da crise sanitária do Covid-19, conduzida com uma ímperícia
impregnada de uma escandalosa hipocrisia. Em vez de lhes proporcionar saúde e
protecção médica, terrivelmente em falta,
as autoridades oferecem-lhes para todo o tipo de tratamento a espera, o confinamento sob controle policial.
O confinamento selectivo inscreve-se na lógica do capitalismo.
A funesta pandemia não deve impedir a
"sustentabilidade" da economia nacional. No entanto, qualquer gestão
eficiente de uma crise sanitária viral envolve duas variáveis de ajuste:
contenção total e triagem sistemática. Os dois estão intimamente associados e
complementarizam-se. Uma política de contenção parcial é uma operação de
quarentena própria das sociedades da Idade Média, essencialmente sem saúde e
infraestrutura médica, ou seja, atrasada. Isso explica a taxa de mortalidade
excepcionalmente alta em Itália, devido a uma política de contenção parcial,
ainda por cima amputadas de medidas de teste de despistagem. É como travar uma
guerra contra um exército moderno com bestas.
Na verdade, para ser eficiente, a
fim de impedir a pandemia, uma autêntica gestão da sanitária deve implicar uma
política de contenção total por um período de pelo menos quatro semanas, acompanhada
pelo encerramento de todas as empresas não essenciais, transporte público , a
requisição de todas as grandes superfícies a serem geridas directamente pelos
habitantes da cidade, a fim de organizar a distribuição directa de alimentos
aos residentes, a fim de evitar a concentração de clientes nas lojas, a
proibição do tráfego de pedestres e automóveis, tudo isso combinado com a protecção
da saúde materializada por testes maciços de despistagem à escala nacional,
distribuição gratuita de máscaras de protecção respiratória e outros
equipamentos de segurança para os raros trabalhadores requisitados pelo
interesse público de trabalhar em áreas vitais para a sobrevivência da
população confinada.
Tudo isso aliado a uma comunicação pública transparente, baseada no
respeito dos direitos do povo e não sobre a coerção apoiada por uma política de
segurança policial e militar, ditada exclusivamente pela preocupação com a
protecção dos interesses financeiros e a perpetuação do domínio político das
classes ricas, apavoradas porque ameaçadas de desaparecer sob o efeito da erupção
de terremotos sociais iminentes e inevitáveis. Uma coisa é certa: a gestão da actual crise sanitária,
associada a uma crise económica, deve ser cuidada colectivamente por todos os
membros do povo e não ser delegada nos actuais representantes oficiais do
estado, desqualificados, responsáveis, além disso, pela incúria sanitária e
pelo colapso económico. Também não deve ser "governada" pelas forças
da ordem, braços armados das classes dominantes, ligadas à manutenção da sua
ordem social e, consequentemente, da sua riqueza, porque se trata de resolver
um problema de saúde e económico "civil", e não de supervisionar uma
operação securitária e de aplicação da lei e da ordem.
O povo não deve confiar nos governantes responsáveis pela actual
crise económica e sanitária. Hoje, graças à mortal crise económica, a
prioridade das classes dominantes, como podemos ver, é a de salvar as suas
riquezas (as suas empresas, os seus bancos, os seus investimentos, os seus bens
imóveis) e não a de proteger a vida das pessoas. A união nacional defendida
pelos governos para lutar supostamente contra o coronavírus visa defender apenas o seu sistema de
exploração e opressão ameaçado pela crise económica e pelas inevitáveis revoltas
sociais insurreccionais, não para salvar
a vida das pessoas que já estão há muito mortas socialmente.
E se o coronavírus era o melhor aliado do proletariado, ele vem relembrar-lhe, no momento certo, a natureza criminosa das classes dominantes e do seu sistema dominante alienante, especialmente a necessidade de, finalmente, ter de resolver tomar o seu destino económico, social e político em mãos, livrando-se definitivamente do vírus capitalista (personificado pelas classes dominantes) e do coronavírus. De facto, o coronavírus é menos perigoso que o "capitalismo-vírus" porque o primeiro acaba por morrer naturalmente no corpo humano, pelo menos em 98% dos casos. Pelo contrário, o "capitalismo-vírus", mata de forma permanente o "nosso" corpo social, sem descanso.
Mesloub
Khider

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