domingo, 13 de setembro de 2026

O que distingue o «socialismo à chinesa» do capitalismo à americana? (2/2)

 


O que distingue o «socialismo à chinesa» do capitalismo à americana? (2/2)

13 de Setembro de 2026 Robert Bibeau


Por Normand Bibeau.

A primeira parte deste artigo, que compara alguns aspectos das economias chinesa e norte-americana, foi publicada aqui: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: O que distingue o "socialismo com características chinesas" do capitalismo com características americanas?

«DESIGNAR MAL A UMA COISA É AUMENTAR A INFELICIDADE DO MUNDO […] E, precisamente, a grande miséria humana […], é a MENTIRA». (Albert Camus)

O meu camarada Robert chamou-me a atenção para o facto de a minha denúncia marxista intransigente do regime «nacional-socialista» chinês dos bilionários levar os «socialistas de caviar» — aqueles a quem MARX, ENGELS e LENINE chamavam «socialistas utópicos», «burgueses», «pequeno-burgueses», «conservadores», «reaccionários», «vulgares» e «oportunistas», todos esses «kapos» dos capitalistas que actuam no seio do movimento proletário para o desviar da via revolucionária, alegam ignominiosamente que trabalho para a «CIA» ao denunciar os «nacionalistas chineses», que seriam a única alternativa viável à hegemonia imperialista ianque dos EUA e do Ocidente colectivo, pois, para esses renegados: «fora da ideologia burguesa, não há salvação» e «estão comigo ou contra mim» (dito pelo criminoso de guerra e contra a humanidade, genocida do povo iraquiano, o imundo George W. Bush).

«O SOCIALISMO À CHINESA, UMA CÓPIA DO CAPITALISMO YANKEE DOS EUA».

Ao ler a propaganda goebeliana do imperador Xi sobre o «sucesso chinês da modernização», que teria: «erradicado a miséria absoluta» na República «Popular» da China; «melhorado o nível de vida dos chineses»; «restaurado o orgulho milenar da civilização chinesa» e permitido ao Império «chinês» restabelecer as vias de colonização das «rotas da seda».

Parece que estamos a ler a propaganda nazi, que também se gabava:

 

«de ter tirado a Alemanha da Grande Depressão económica dos anos 30»;

«de ter “erradicado” o desemprego»;

«construído auto-estradas»;

«formado um exército alemão pronto para partir à conquista do Leste num LEBENSRAUM NAZI que daria a cada ariano um domínio “no Leste” e escravos “eslavos” após ter exterminado os “bolcheviques soviéticos”.

Será este o único traço comum entre a ideologia «nacional-socialista» chinesa e a alemã: negar a luta de classes e promover descaradamente os «benefícios aparentes» da exploração capitalista?

Certamente que não.

Para demonstrar a semelhança entre a sociedade capitalista chinesa e a de todas as outras sociedades capitalistas, analisemos cientificamente as CLASSES SOCIAIS na actual Meca do capitalismo: os EUA.

Numa análise marxista das classes sociais, a questão central não é:

«Quanto ganha uma pessoa?»

mas sim:

«Os seus rendimentos provêm do seu capital ou do seu trabalho?».

Assim, nos EUA, em 2025, a revista Forbes registava 902 bilionários em dólares americanos (contra 610 bilionários na R«P»C) que, no seu conjunto, possuíam 6,800 mil milhões de dólares americanos (contra 2,200 mil milhões de dólares americanos na R«P»C).  Assim, 0,00027% (contra 0,000038% na R«P»C) da população detém 22,6 vezes mais riqueza do que os 50% mais pobres (contra 10 000 na RPC).

Se somarmos TODOS os bilionários, os multimilionários, os grandes accionistas, os proprietários de grandes empresas, os dirigentes-proprietários, os grandes proprietários de terras, os grandes investidores, os altos dirigentes de empresas, de bancos e da função pública que se apropriam de uma percentagem significativa da mais-valia extorquida aos seus escravos assalariados, chega-se a cerca de 10% da população que constitui a BURGUESIA YANKEE dos EUA (fonte: forbes.com, 2025).

A estes «senhores» do capitalismo, há que acrescentar a «PEQUENA BURGUESIA», ou seja, aqueles que possuem os seus «meios de produção»: empresas privadas, profissões liberais e explorações agrícolas.

Em 2022, a Reserva Federal dos EUA estimava que 20% das famílias norte-americanas possuíam uma «empresa privada» para sustentar as suas necessidades. Tratava-se de «empresas familiares» com um património entre ~566 000 $ e ~4,07 milhões $ e que contavam com entre 0 e ~5 empregados, com um rendimento de ~617 000 $ para o empregador com 5 empregados (re:federalreserve.gov, 2019-2022).

Face a estes «capitalistas» que vivem, em maior ou menor grau, da exploração da escravidão assalariada, opõe-se o PROLETARIADO, aqueles sobre os quais MARX e ENGELS escreveram no «Manifesto do Partido Comunista»: que «não têm nada a perder senão as suas correntes», uma vez que nada mais possuem.

Este PROLETARIADO define-se pela ausência de «capital produtivo», ou seja, uma vez que não possui quaisquer meios de produção, está condenado a «alugar a sua força de trabalho em troca de um salário para garantir a sua subsistência e reprodução».

Estes PROLETÁRIOS assalariados representam cerca de 70% da população

Dividem-se numa grande variedade de empregos assalariados, que vão desde os «profissionais assalariados» — engenheiros, advogados, médicos, contabilistas, etc. —; quadros, técnicos, operários, etc.; trabalham em todos os sectores de actividade, desde a função pública, o comércio, a banca, os transportes, a indústria ligeira e pesada, etc.; ora estão a trabalhar, ora encontram-se no desemprego temporário ou permanente («lumpenproletariado»); estão na fábrica ou no campo de batalha; «em casa» ou no «estrangeiro», formando todos, em conjunto, o exército ao serviço do capital, despossuído dos seus meios de subsistência e condenado a produzir a «mais-valia», fonte da riqueza dos seus exploradores, para poderem subsistir.

Para além da retórica patenteada: «capitalismo-imperialismo YANKEE» versus «socialismo à chinesa» e da propaganda goebeliana rebuscada do «mundo unipolar» versus «mundo multipolar», o que nos revelam os NÚMEROS da economia dos EUA e da economia «socialista chinesa», existe uma diferença qualitativa entre estas duas economias e será «marxista» ver aí uma distinção de CLASSES?

EUA. República «Popular» da China.

População: 347,3 milhões (EUA) vs. 1,416 mil milhões (China);

Número de bilionários em 2026: 989 vs. 539;

% da população: 0,00027% vs. 0,000038%;

Fortuna acumulada dos bilionários: 8,400 mil milhões de dólares dos EUA contra 2,200 mil milhões de dólares dos EUA;

% do rendimento nacional: 20,7% contra 15,7%;

% da riqueza nacional detida pelos 1% mais ricos: 34,8% contra 30,2%;

% do rendimento nacional dos 10% mais ricos: 46,8% contra 43,3%;

Rendimento médio dos 10% mais ricos em comparação com os 50% mais pobres: 34,6x contra 31,4%;

Riqueza média dos 10% mais ricos em comparação com os 50% mais pobres: 696 x contra 108 x;

% da riqueza nacional dos 50% mais pobres: ~1% contra ~6,3%;

BURGUESIA: 10% contra 10%;

PEQUENA BURGUESIA: 20% contra 20%;

PROLETARIADO: 70% contra 70%.

(ref.: World Inequality Report 2026, wir2026.wid.world; forbes.com, 19/03/2026 e outras 75 fontes)

Em CONCLUSÃO

Nenhum analista marxista consegue distinguir, do ponto de vista das classes sociais, o sistema «nacional-capitalista» dos EUA do sistema «nacional-socialista» chinês, uma vez que ambos apresentam a mesma composição de classes sociais, em que uma BURGUESIA minoritária domina a economia e um proletariado amplamente maioritário sofre a sua ditadura impiedosa.

Mesmo no que diz respeito à «igualdade», estes dois sistemas, supostamente diferentes, são idênticos: os PROLETÁRIOS partilham a mesma fatia minúscula e anémica da riqueza nacional: 1% nos EUA e cerca de 6,3% na China, no reino dos trabalhadores chineses sob a ditadura do partido único.

Em 2025, as empresas capitalistas privadas chinesas registaram 2,281 mil milhões (Md) de yuans de lucros, contra 2,056 Md de yuans para as empresas estatais, ilustrando o ditado de que «o sector privado fica com os lucros e o sector público fica com as perdas».

Mao Tse-Tung, na sua «Análise das classes sociais da sociedade chinesa», de 1926 — muito antes da Revolução burguesa de 1949 —, tinha identificado claramente o papel do «Estado feudal» chinês e da sua estrutura burocrática ditatorial como instrumento privilegiado da ditadura dos proprietários de terras, da burguesia compradora e dos camponeses ricos.

Com o seu imenso aparelho administrativo burocrático, a sua hierarquia de quadros, a sua selecção de dirigentes políticos, o seu vasto controlo territorial, as suas empresas estatais, os seus bancos, o seu controlo do exército e a sua ideologia confucionista, a burocracia feudal imperial chinesa apoiava o sistema feudal na dominação e exploração do campesinato, tal como o «partido» único apoia a burguesia chinesa na dominação e exploração do proletariado.

Já o autor Étienne Balazs (1905-1963) demonstrava na sua obra: «A Burocracia Celestial», da administração imperial à administração «socialista à chinesa», este «continuum» histórico entre a burocracia do milenar império feudal chinês «celestial» e a sua burocracia «imperial» dominante e tentacular, e a burocracia igualmente tentacular e dominante do falso «Partido Comunista Chinês», uma versão do século XX do dinossauro do feudalismo obscurantista medieval (re:publishing.cdlib.org: «Medieval Chinese Society and the Local ‘Community’», 1985; marxists.org; cambridge.org: «The Beginning of Bureaucracy in China: The Origin of Hsien», 2011).

 

A SEGUIR: a RÚSSIA CZARISTA DO NEO-CZAR PUTIN

 

Fonte: Qu’est-ce qui distingue le « socialisme à la Chinoise » du capitalisme à l’Américaine ? (2/2) – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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