domingo, 5 de abril de 2020

Por uma questão de saúde exigimos a demissão imediata da Directora-Geral da Saúde!




O descontrolo, a inépcia, a deriva, são uma recorrência das políticas de saúde levadas a cabo por este governo e pela Direcção-Geral de Saúde que executa as suas orientações. Muitas das primeiras, por seu turno, influenciadas pela péssima informação que a DGS lhe faz chegar.

Claro que a deriva a que assistimos, teve a sua génese na criminosa política de saúde que assenta no desinvestimento acelerado no sector, no modelo capitalista de gestão hospitalar para os hospitais públicos e na cegueira total face aos indicadores que faziam perceber que uma pandemia de dimensões catastróficas iria chegar muito rapidamente à Europa e, também, a Portugal.

Nem o governo nem a DGS cuidaram de prevenir a logística necessária dos meios para fazer face a uma pandemia, que a avaliar pelo que se passara na China e em outros pontos do continente asiático, iriam provocar um pressão inaudita sobre a capacidade hospitalar de fazer face ao atendimento, internamento e tratamento de um número tão vasto de infectados com a COVID-19 e de outros doentes.

Com o propósito de escamotear esta deriva criminosa, todos os dias somos bombardeados com os “pontos da situação” emitidos pela DGS e pela sua directora-geral, Graça Freitas, por vezes assessorada e acompanhada pelo Secretário-Geral de Estado da Saúde.

Escondem aos operários e trabalhadores, através de uma catadupa de números, a razão porque, quer o governo, quer a DGS, não acautelaram, com o tempo de que dispuseram e desperdiçaram, a falta de equipamentos e infraestruturas hospitalares, porque é que não anteciparam a necessidade de um adequado levantamento da capacidade produtiva instalada que lhes permitisse obstar o défice notório de máscaras, outros equipamentos de protecção e ventiladores.

Mais grave, fazem publicar números e estatísticas que se vêem a revelar falsas, deste o número de infectados até ao registo de mortes que não ocorreram, ao mesmo tempo que difundem informação que se vem a perceber não ter fundamento, como foi o recente caso da “cerca sanitária” à cidade do Porto.

A confiança, quer nos números, quer nas instruções, cuja fonte está na Directora-Geral da Saúde e no Secretário de Estado da Saúde, esvaiu-se completamente. Toda a gente vê, pelo que hoje é, amanhã deixa de ser para mais tarde voltar a ser, que os malabarismos instrutórios e explicativos dos dados são motivados não pela defesa da saúde pública mas pelas quantidades (nulas, previsões de chegadas, etc.) de equipamentos existentes em stock.


A inépcia e a irresponsabilidade instalaram-se na Direcção-Geral da Saúde e na Secretaria de Estado da Saúde. Trata-se, pois, de uma questão de saúde pública, a exigência da demissão imediata de Graça Freitas e do Secretário de Estado da Saúde.


Retirado de: http://www.lutapopularonline.org/index.php/pais/89-saude/2700-por-uma-questao-de-saude-exigimos-a-demissao-imediata-da-directora-geral-da-saude



sábado, 4 de abril de 2020

Face à pandemia do Coronavirus : dois impasses e uma conclusão



por Robert Bibeau


Parem de financiar a esquerda amestrada

 
Parem de financiar a esquerda amestrada, desde sempre que são o segundo violino que o grande capital internacional chama em seu socorro, quando nada dá certo para apaziguar a população amargurada e o proletariado em cólera. O grande capital internacional controla o poder económico, político, ideológico e mediático, e destruirá o proletariado se a esquerda não conseguir desviá-lo das suas frustrações e o desviar da tentação da insurreição. Nós proletários não vislumbramos senão duas opções face a esta crise económica e sanitária: cerrar fileiras atrás de uma ou outra das facções do grande capital infectado; ou então desenvolver a nossa própria estratégia de resistência de classe.
1) Conhecemos a facção-compaixão-sacrifício-repressão. Esta facção do grande capital internacional pensa que o confinamento de pessoas enquanto a pandemia ocorre e mata milhares de pacientes, associado a medidas de apaziguamento - parcela do salário garantida temporariamente - desemprego forçado compensado por um tempo - acompanhado por medidas repressivas em caso de insubordinação - se o proletariado partisse para a insurreição, esta facção do grande capital pensa que essa panaceia permitirá salvar o sistema capitalista moribundo. Ilusão deles e veremos o porquê ...

2) Existe também a facção - convulsão - sacrifícios - repressão. Esta facção do grande capital internacional pensa que é melhor deixar a pandemia fazer o seu caminho, para que ela elimine comodamente milhares de pessoas improdutivas - o que constituiria uma redução nos encargos sociais gerais - e libertaria orçamentos estatais para apoiar ainda mais as grandes corporações. Esta facção está a preparar-se para a repressão em massa enquanto espera que surja um remédio ou que a população desenvolva naturalmente um antivírus - como em todas as pandemias anteriores - o que permitiria salva o sistema capitalista em declínio. Mistificação da parte deles e veremos o porquê ...

O grande capital está preso num dilema insolúvel do qual a esquerda deseja libertá-lo. Seja porque impõe o confinamento o que leva à anemia da produção e do consumo de anemia, reduz os lucros e paralisa a economia mundial que ainda não se recuperou da crise de 2008. Seja porque o grande capital deixa vogar a economia capitalista directamente em direcção à hiperinflação, desvalorização das moedas, desemprego, recessão e fome que matarão muito mais pessoas do que qualquer outra pandemia. Analistas já especularam que o PIB cairá entre 25 a 50% em vários países.

Resumindo, seja porque o grande capital internacional faz o mínimo possível para parar a pandemia de coronavírus e desacelerar a economia, e então pandemia matará duramente (mais de 200.000 pessoas nos EUA prevêem os especialistas, dezenas de milhares na Europa e pior ainda em África); espalha o terror e paralisa a economia exangue, arriscando-se a
provocar problemas sociais até à insurreição popular. Seja porque o grande capital internacional impõe um confinamento drástico e prolongado, juntamente com cataplasmas de alívio que bombeiam  as finanças públicas já em défice, o que levará ao colapso da bolsa de valores, hiperinflação, desvalorização das moedas, fome e possivelmente problemas sociais até à insurreição popular. https://les7duquebec.net/archives/253785

Aqui está um resumo dos dois eixos políticos propostos pelo grande capital internacional. A esquerda amestrada agrega-se à primeira facção - a opção da compaixão com os novos dados cruzados pelos Estados financeiros, e rejeita ferozmente como anti-éticas as convulsões da opção convulsões- sacrifícios - repressão. Não obstante a esquerda, em ambos os casos, o esforço para salvar o sistema capitalista corre o risco de enfrentar um proletariado enfurecido que considera que já suportou o quanto baste.

A posição que o proletariado revolucionário deve adoptar

A posição que o proletariado revolucionário deve adoptar será a recusa das duas opções burguesas (repressão-compaixão e / ou repressão-frouxidão) e forjar a sua própria posição de classe diante da enésima crise económica, redobrada com a enésima crise sanitária, e financeira, social, moral e política. A posição proletária revolucionária consiste em tirar proveito da conjuntura económica - política - social - moral e ideológica para fortalecer as condições da insurreição popular.

A aposta das esquerdas reformistas

A aposta da batalha que o proletariado está a travar não é a de salvar tantas vidas quanto possível - salvar mais vidas do que a burguesia e os seus partidos poderiam fazer – de maneira a  demonstrar que um partido da esquerda comunista - socialista-afiliado, ou outra seita esquerdista reformista - poderia governar melhor que o estado burguês, do que os partidos do centro e da direita burguesa. Não, o proletariado revolucionário deseja tirar proveito desta conjuntura sem precedentes, onde o grande capital está preso, para derrubar o seu aparelho de estado e abolir o modo de produção capitalista que, todos admitem hoje, é a verdadeira fonte desta pandemia - desta crise económica e social que se está a formar desde 2008, e muito antes, e que prepara aquela  que se seguirá. Não devemos permitir que o capital salve a sua pele confinando-nos e dando-nos alguns presentes envenenados - salário pago pelo monte de piedade estatal enquanto aguardamos  que a garantia governamental nos venha extorquir para recuperar cem vezes mais do que aquilo que emprestou e fazer-nos viver pior que na Grande Depressão de 1929.

O nosso programa político proletário é simples: encerramento de todos os estaleiros, fábricas, empresas, armazéns, escritórios, escolas, creches, portos, aeroportos e outros meios de transporte com remuneração total pelos salários dos trabalhadores até o final do confinamento voluntário dos trabalhadores , até que a pandemia de coronavírus seja superada.








sexta-feira, 3 de abril de 2020

Uma vez mais somos contra o estado de emergência e o anúncio do seu prolongamento!




Aí está! A decisão do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa – que, cada vez mais ao estilo das conversas em família do outro Marcelo, o Caetano, a anunciou – em prolongar os efeitos do golpe de Estado que suspendeu as liberdades e garantias constitucionais, com o cúmplice acolhimento de Costa e da Assembleia da República, permitindo um prolongamento de mais 15 dias do estado de emergência.

O cinismo e a hipocrisia atingiram, aliás, um ponto alto quando, esta manhã, no hemiciclo da Assembleia da República foi proposta pelo deputado fascista do CDS/PP, Telmo Correia, a celebração da aprovação da Constituição ocorrida há precisamente 44 anos, a 2 de Abril de 1976, no contexto da anti-democrática decisão do então Conselho da Revolução em excluir o MRPP das eleições para a Constituinte, a mando dos social-fascistas do PCP de Álvaro Barreinhas Cunhal.

Não satisfeitos com as medidas fascistas que já integravam a anterior versão da Lei de Emergência Nacional, o Presidente da República, o governo de Costa/Centeno, os partidos do “arco parlamentar” – mesmo o Iniciativa Liberal que votou contra o decreto por motivos pueris e oportunistas e aqueles que se abstiveram –, fizeram passar uma extensão daquela lei fascista, com medidas ainda mais gravosas do que a versão anterior.

Ficam cientes os operários e os trabalhadores de que estão autorizados pelo governo dos patrões a ir para os seus locais de trabalho, neles permanecer e ser explorados para, finda a jorna, regressarem aos seus domicílios, estando-se o patronato e o governo nas tintas para assegurar as condições de segurança que obstem à contaminação de COVID-19, desde logo por não poderem garantir a distância exigível para que tal não ocorra.

Contrastando com esta permissibilidade, a nova versão da Lei de Emergência proíbe o direito constitucional de reunião e manifestação. Isto é, os operários e trabalhadores estão proibidos de se reunir ou manifestar contra quem os explora, os lança no desemprego e não lhes garante o mínimo de segurança sanitária – veja-se o caso das operadores de caixa nos supermercados – ou o salário, como acontece com as centenas de operários que foram despedidos no parque industrial da Auto-Europa ou os estivadores do porto de Lisboa.

Uma medida que se compagina com a possibilidade de o governo requisitar às operadoras de telemóvel a monitorização dos telefones e chamadas telefónicas, como forma de conhecer os passos que o respectivo proprietário dá. É o policiamento à boa moda da extinta (?) PIDE, levado até às últimas consequências.


Quem tinha dúvidas àcerca do que afirmávamos quanto à natureza absolutamente fascista dos pressupostos da primeira versão da Lei de Emergência Nacional, não pode invocar distracção ou alheamento quanto à extensão e agravamento de tais medidas nesta segunda versão. Estas medidas fascistas visam a luta que os operários e trabalhadores vão ser forçados a protagonizar e os mais que previsíveis levantamentos populares e não qualquer preocupação sanitária com vista a travar o progresso da pandemia.
 
Isso mesmo se pode inferir do cada vez mais notório nervosismo da burguesia. A forma como encarrega a comunicação social vendida e os jornalistas de merda, de divulgarem as detenções dos que se indignam contra os abusos de poder decorrentes do golpe de Estado – e os seus números –, de forma detalhada, indicam que estão em pânico com a possibilidade cada vez mais real de que a situação, para além do descontrolo médico e sanitário, derrape para levantamentos populares, antecâmara da revolução.
Todos os dias, a toda a hora, o esforço mediático do governo e do Presidente da República, centra-se no elencar dos números:
•    O número de infectados, o número de internados – e, entre estes, os que se encontram em estado crítico –, o número de mortes;
•    O comportamento que a curva de infectados e mortos revela e as estratégias para que o pico da pandemia tenha um comportamento de “planalto”, em vez de ser muito pronunciado;
•    As acções de contenção que visam assegurar o respeito pelo confinamento social das populações, exibindo inúmeras reportagens sobre as acções levadas a cabo pelas forças militares, paramilitares e de segurança de repressão – mascarada, por vezes, de acção pedagógica de prevenção – sobre as populações;
•    Os número envolvidos na chegada de milhares de toneladas de equipamento médico, cirúrgico, de segurança, quer para satisfazer encomendas previamente colocadas, quer por virtude da “solidariedade” de outros países.

Números e notícias que servem, apenas e tão só, para alienar a consciência de operários e trabalhadores. Números em catadupa que nos contam uma parcela apenas do que se passa, para nos esconder porque é que as coisas se estão a passar assim e porque é que as medidas políticas e logísticas que o governo está a adoptar não resolverão a situação pandémica, sem antes terem feito milhares de vítimas, algumas delas fatais.

Números e notícias que escamoteiam o facto de que é a montante, e devido ao modelo de Serviço Nacional de Saúde existente no país, que se encontra o problema, tal como o  caracterizámos no artigo “Modelo capitalista na saúde responsável por dezenas de milhar de mortes”. Números ainda por cima pouco fiáveis quando se adensam suspeitas de que estão a ser manipuladas as taxas de infectados e mortes, no sentido de criarem uma realidade virtual, que permita conter a revolta e contestação popular.
O sistema colapsou, como demonstra toda a histeria que os intervenientes – Directora Geral da Saúde e Secretário de Estado da Saúde, por vezes assessorados por Centeno ou por Siza, sempre tutelados por Costa e Marcelo – exibem nas conferências de imprensa em torno da necessidade de “domar” a curva pandémica, tentando fazer crer que tal política induziria um comportamento de “planalto” à dita curva pandémica.

Isto é, a um comportamento que minimize o caos e o colapso do SNS que, decididamente,  não tem meios – como o denunciam recorrentemente as Ordens dos Médicos, Enfermeiros e Farmacêuticos – humanos e materiais para lidar com um tão grande afluxo de casos, situação que poderia e deveria ter sido devidamente amenizada e controlada se o Serviço Nacional de Saúde e a gestão hospitalar pública não assentasse no modelo capitalista que privilegia a rentabilidade económica, em vez da eficiência médica, quer na vertente da prevenção, quer na vertente do tratamento, ou seja um SNS que desse satisfação às necessidades de quem a ele acorre para mitigar o sofrimento, a dor e a doença.

A presente crise pandémica revela a total subserviência deste governo aos interesses capitalistas privados – hospitais, clínicas, laboratórios, etc. , sendo que a própria ADSE assenta, no essencial , num modelo privado. Revela que esta solução colapsou. Quando propomos a nacionalização de todo o sector da saúde, temos plena consciência de que essa medida, no quadro de um sistema capitalista,  nunca poderá ter uma natureza socialista.

Porém, acreditamos que a ser imposta, esta nacionalização corresponderá – tal como a reversão da privatização da TAP, dos CTT, da EDP, etc. – a uma vitória popular, numa matéria que terá como consequência imediata, melhorar, por um lado, a vida dos operários e trabalhadores e, por outro, elevar a sua consciência para a necessidade imperiosa de levar a cabo uma revolução comunista, para que o modo de produção capitalista e a escravatura assalariada que lhe está associada, sejam destruídos. Nesta matéria estamos nos antípodas do que propõem PCP e BE que entendem a nacionalização como um fim em si mesmo, apresentando-a como a solução para tornar mais “humano” o sistema capitalista.

Ao privilegiar a sacrossanta propriedade privada, o governo de Costa/Centeno, optou por não integrar os hospitais privados numa rede pública única, sob a direcção do sector público, assegurando privilégios e lucros chorudos  aos laboratórios de análises clínicas e meios complementares de diagnóstico, assinando protocolos e contratos que enchem os cofres dessas instituições privadas. O desplante chega ao ponto de o estado salvar o sector do turismo privado, protocolizando com alguns hotéis de todo o país, quartos e serviços pagos a peso de ouro, para instalarem doentes ou suspeitos de infecção para cumprirem períodos de quarentena a que sejam sujeitos. Ao adoptar este caminho, o governo amputou a possibilidade de uma acção de saúde coordenada e planificada.

Não que tenhamos ilusões àcerca da natureza de classe do poder – burguesa, capitalista e imperialista –, não que não tenhamos consciência, como comunistas, de que a presente crise pandémica não terá uma solução a contento dos interesses da classe operária e dos trabalhadores, no quadro de um sistema capitalista, como aquele que é dominante em Portugal. Mas, como comunistas, devemos exigir que medidas sejam tomadas para minimizar o quadro com que o país está a ser confrontado.

Retirado de: http://www.lutapopularonline.org/index.php/pais/104-politica-geral/2698-uma-vez-mais-somos-contra-o-estado-de-emergencia-e-o-anuncio-do-seu-prolongamento






As revoltas sociais vão propagar-se mais rapidamente que o coronavirus


por Robert Bibeau
Por khilder Mesloub.
A utopia ainda faz o seu caminho, mesmo que os governantes, aproveitando a crise da saúde, tentem cortar-lhe as pernas confinando-a ao isolamento domiciliar angustiante, propício a emoções suicidas desesperadas, à expressão ofuscante da raiva impotente.

Os períodos de crise revelam tanto o pior como o melhor nas sociedades humanas. Certas pragas emocionais activadas pelos governantes podem libertar as bestas imundas. Hoje, por detrás do clima de psicose sobre a pandemia do coronavírus alimentada pela comunicação social às ordens, é uma praga emocional xenófoba, uma psicose histérica que o governo está a destilar para esconder a sua negligência na gestão da crise de saúde do COVID -19. Hoje, a crise está a permitir aos governantes que tentem torturar psicologicamente a população e, acima de tudo, infectá-la com um sofrimento paralisante causado pelo confinamento debilitante.

As classes dominantes não recuam perante qualquer cinismo. Depois de ter demonstrado, em todos os países expostos a movimentos sociais, que a repressão policial é a única resposta sempre operacional do governo, nomeadamente pelo desencadeamento da violência policial contra manifestantes pacíficos, hoje, os governantes, incapazes de fornecer uma solução de saúde para a crise do COVID-19, decidiram ditatorialmente confinar toda a população em quarentena. Esse confinamento forçado é uma condição para a interiorização do protesto metida num colete domiciliário, da militarização da sociedade sujeita a leis de excepção. Isso faz-nos lembrar de quanto a democracia é uma palavra vazia.

Assim, depois de, pela sua negligência criminosa, ter permitido que a epidemia invadisse todas as casas, todos os países, governantes e outros pirómanos  oficiais fazem-se passar por salvadores. E como eles pretendem salvar-nos das chamas devoradoras do coronavírus, atiçadas pela ausência de mobilização sanitária precoce e falhanço logístico e médico, pelo confinamento de geometria variável da população sujeita a um controlo social totalitário e a uma quadratura policial e militar. Confinamento com geometria variável, porque não se aplica aos milhões de trabalhadores, obrigados a deslocar-se em transportes públicos para chegar ao seu local de exploração, fonte de contágio, mas acima de tudo fonte de lucro.

Na verdade, não fosse a deterioração acelerada da situação económica, ameaçada de colapso, os Estados não teriam intervindo para tentar em vão conter a crise sanitária do COVID-19 (subestimada deliberadamente no início da sua propagação), sobretudo com meios médicos irrisórios dignos das Repúblicas das bananas.

Seja como for, esta crise sanitária era previsível. Quando os trabalhadores dos hospitais se manifestaram desesperadamente durante anos para dar o alarme sobre a degradação do sistema de saúde, o estado enviou CRS (polícia de choque) contra os trabalhadores da saúde para resolver democraticamente a dramática questão sanitária. Hoje, esse mesmo estado finge pretender descobrir o estado de delapidação dos hospitais que estão desprovidos de equipamento essencial e, portanto, incapazes de tratar os doentes. Se fosse necessária uma prova de que o desmantelamento do sistema de saúde por questões de rentabilidade teria consequências catastróficas para a saúde humana e económica, ela é-nos hoje administrada pela pandemia de coronavírus. Essa gestão caótica da crise é inerente ao capitalismo financeiro globalmente dominante. A crise da saúde do coronavírus é sintomática da falência do estado-charlatão capitalista.

Eis pelo menos um assunto de reflexão para as vítimas de confinamento forçado. A contenção, se abolir a liberdade de circulação, não pode impedir a circulação de idéias, de viajar. A quarentena é propícia à abertura de discussões levadas a cabo nas redes sociais e por telefone. Esse confinamento é uma oportunidade inesperada para reflectir sobre a sociedade, em particular a sua transformação social radical.

Em todo o caso, esta crise sanitária permitiu descobrir uma nova realidade atmosférica. De facto, a interrupção da actividade económica, a cessação de perturbações produtivistas, tornaram possível reduzir a poluição mundial. É certo que o coronavírus terá dizimado alguns milhares de pessoas, mas pelo menos ofereceu igualmente a oportunidade de poupar a morte programada de milhões de pessoas. Certamente que os pulmões de algumas pessoas já frágeis foram maltratados, mas a natureza redescobriu a sua respiração há muito reprimida pela poluição industrial. Assim, por ter subordinado a saúde da população às leis da rentabilidade e do lucro, o capitalismo está prestes a causar hoje uma catástrofe sanitária mundial.

Além disso, não se deve deplorar o colapso desta civilização capitalista mortífera. Não é o fim do mundo, mas de um mundo imundo. De qualquer forma, por toda a parte, surgem interrogações sobre a perenidade desta ordem mundial fúnebre. A partir de agora, em toda a parte, a crise sanitária e económica está a desencadear lutas sociais, nomeadamente em Itália. Os trabalhadores lançam greves violentas para exercer o seu direito de reforma, em nome da salvaguarda das  suas vidas ameaçadas não pelo coronavírus, mas pelos patrões responsáveis ​​pelo seu confinamento a esses cárceres industriais vectores de contaminação letal, cárceres mantidos em funcionamento para salvaguardar os lucros, apesar da periculosidade e contagiosidade. Em França e nos Estados Unidos, assistimos igualmente à emergência de revoltas sociais. A este ritmo, a disseminação de levantamentos sociais vai espalha-se mais rapidamente do que a pandemia de coronavírus.





quinta-feira, 2 de abril de 2020

27 milhões de americanos sem seguro ameaçados de ruína em caso de infecção por coronavirus



por Robert Bibeau
Fonte -  Alter-Info.

Confrontados com a pandemia, milhões de americanos correm o risco de não conseguir  ter acesso aos tratamentos vitais devido à falta de cobertura de saúde (como em África). Um fenómeno agravado pelo aumento da desigualdade de rendimentos e pela eliminação dos cuidados do Obamacare (que de qualquer maneira não cobriam este tipo de contaminação).

De acordo com um relatório recente do FAIR Health (Healthcare Cost Database), os americanos sem seguro infectados pelo Covid-19 pagariam em média 73.300 dólares por uma estadia hospitalar de seis dias. No entanto, como os sintomas do Covid-19 variam amplamente consoante os diferentes tratamentos, os custos hospitalares podem ser mais baixos ou muito mais altos.

Seria um custo enorme para cerca de 27 milhões de americanos sem cobertura médica. Mais do que uma simples inquietude perante os sintomas, naturais enquanto pandemia, pode revelar-se caro mesmo se as pessoas que os manifestem se revelem saudáveis.

O estudo cita casos de pessoas que tiveram resultado negativo e não foram hospitalizadas e que ainda tiveram que pagar cerca de 3.000 dólares por outros tratamentos e testes relacionados. Essa situação é agravada pelas crescentes desigualdades sociais observadas desde que Donald Trump chegou ao poder.

Assim, o Censo, uma agência federal de estatística, escreve que “a rendimento familiar médio […] aumenta todos os anos desde 2013, mas o aumento de um ano para o outro em comparação a 2017 é menor que o dos três anos anteriores " Releva também  que desde que Donald Trump chegou ao poder, o índice Gini da desigualdade de rendimento  aumentou significativamente em comparação com a era de Obama, onde havia registado uma baixa.

Enfim, apesar de os Estados Unidos serem o primeiro país do mundo no que respeita a despesas de saúde em relação ao produto interno bruto (16,9%), muito à frente da Suíça (12,2%) e da França (11,2%), estão longe de ser os melhores preparados para enfrentar uma epidemia desta envergadura, com apenas 2,6 médicos por 1.000 habitantes, em comparação com 5,2 na Áustria, 4,3 na Alemanha e 3,2 em França.

Em contraste eles ficam à frente, de acordo com o comparador americano de sistemas de saúde da fundação Peterson KFF (rastreador de sistemas de saúde), no número de pessoas que declaram dificuldades financeiras para fazer face às despesas de saúde. Ao preparar–se para a epidemia, a fundação também estima que "a carga de doenças causadas por condições médicas que expuseram pacientes a um número elevado de complicações graves do Covid-19 é maior nos Estados Unidos que nos países comparáveis ​​”. (comparável à Itália e à Espanha ...)




quarta-feira, 1 de abril de 2020

Covid-19 – crise sanitária – ecológica – económica – mundial






por Robert Bibeau





A sociedade – a natureza – o coronavirus

A esfera "natural-ambiental-ecológica" já está incluída num sistema capitalista totalmente mundializado, conseguindo mudar as condições climáticas básicas e devastando todos os ecossistemas pré-capitalistas (feudais, escravos, primitivos) que não funcionam mais como antes. Esse é um factor causal, uma vez que todos esses processos de devastação ecológica reduzem "o tipo de complexidade ambiental em que a floresta rompe as cadeias de transmissão". Na realidade, é errado considerar essas regiões "selvagens-naturais" como uma "periferia" do modo de produção capitalista. O capitalismo já está mundializado e já está prestes a"totalizar-se" (globalizar). Não existe mais uma fronteira ou cume natural  capitalista que o ultrapasse, e, portanto, não existe mais uma grande cadeia de desenvolvimento económico na qual os países "atrasados" seguiriam aqueles que os precedem na sua ascensão na cadeia de valor, nem verdadeira natureza selvagem capaz de ser preservada numa espécie de estado imaculado e intacto. O mito do "retorno à terra mãe que nos alimenta" sobreviveu. O capital não possui  mais do que um país atrasado subordinado, ele próprio  integrado em todas as cadeias de valor mundial. Os sistemas sociais daí resultantes - incluindo tudo o que vai desde o chamado "tribalismo, casta e comunitarismo", até ao renascimento das religiões fundamentalistas - são produtos contemporâneos e quase sempre estão de facto conectados com os mercados mundiais do consumo excessivo e do  desperdício.
Nesta foto de arquivo obtida em 30 de Junho
   de 2017, um jovem pangolim alimenta-se
de formigas no Zoo de Singapura.
 O mesmo vale para os sistemas biológicos e ecológicos que daí resultam, uma vez que as zonas " selvagens - autênticas - tribais" realmente entram nessa economia mundial, ambas no sentido abstracto da dependência da estrutura económica global e da super-estrutura social (a indústria do turismo exótico e tóxico) que a ela estão ligadas e no sentido concreto da integração nessas cadeias de valor mundializadas.

Esse contexto complexo cria as condições necessárias para a transformação de estirpes virais "selvagens" em pandemias globais. O que provavelmente aconteceu nesta nova cidade de Wuhan, na encruzilhada da modernidade capitalista industrial e tecnológica, a urbanidade dos arranha-céus - e o feudalismo camponês chinês no processo de desintegração-absorção - mercado higienizado e climatizado adjacente matadouros abertos e favelas próximas. Mas o Covid-19 não é o pior de todos. “Uma ilustração ideal do princípio básico - e do perigo global - está no Ebola. O vírus Ebola é um caso claro de um reservatório viral existente que se espalha pelos seres humanos. As evidências actuais sugerem que os seus hospedeiros originais são várias espécies de morcegos da África Ocidental e Central, que agem como transportadores, mas não são afectados pelo vírus. O mesmo não ocorre com outros mamíferos selvagens, como primatas e cefalópodes, que contraem periodicamente o vírus e sofrem surtos rápidos e fatais. O vírus Ebola tem um ciclo de vida particularmente agressivo, além das espécies que o tornam um reservatório. Ao entrar em contacto com qualquer um desses hospedeiros selvagens, os humanos também podem ser infectados, com resultados devastadores ". (1) https://les7duquebec.net/archives/253400

A doença é frequentemente apresentada como se fosse um desastre natural, na melhor das hipóteses aleatórias, na pior das hipóteses atribuível às práticas culturais "impuras e selvagens" das populações atrasadas que vivem nas florestas. Mas o momento dessas duas grandes epidemias (2013-2016 na África Ocidental e 2018, como é o caso na RDC) não é coincidência. Ambos ocorreram precisamente no momento em que a expansão das indústrias primárias deslocou ainda mais as populações florestais e perturbou os ecossistemas locais. De facto, "toda a epidemia de Ebola parece estar ligada a mudanças no uso da terra induzidas pelo capital, inclusive desde a primeira epidemia em Nzara, no Sudão, em 1976, onde uma fábrica financiada pelo Reino Unido se instalou para produzir algodão tecido local ”(…)“ Da mesma forma, as epidemias de 2013 na Guiné ocorreram logo após um novo governo começar a abrir o país aos mercados mundiais e a vender grandes extensões de terra a conglomerados internacionais da indústria agro-alimentar.

A indústria de óleo de palma, conhecida pelo seu papel no desmatamento e destruição ecológica à escala global, parece ter sido particularmente responsável, porque as suas monoculturas devastam de uma vez só, os robustos recursos ecológicos que contribuem para a interrupção das cadeias de transmissão e retiram literalmente as espécies de morcegos “chauve-souris” que servem de reservatório natural para o vírus. »(2) https://les7duquebec.net/archives/253400

A indústria das ONG ecologistas contra caçadores aborígenes
 Ao mesmo tempo, a venda de grandes extensões de terra para empresas multinacionais agro-florestais resulta em desapropriação de moradores da floresta e interrupção das suas formas locais de produção e colheita, que dependem do ecossistema. Isso geralmente deixa os pobres rurais sem outra opção a não ser mergulhar ainda mais no seio da floresta, mesmo que o seu relacionamento tradicional com esse ecossistema tenha sido interrompido. Como resultado, a sobrevivência depende cada vez mais da caça de animais silvestres ou da colheita de flora e madeira locais para venda nos mercados mundiais. Essas populações são postas de lado pelas organizações ecológicas mundiais e da indústria de ONGs ambientais, que as descrevem como "caçadores furtivos" e "madeireiros ilegais" responsáveis ​​pelo desmatamento e destruição ecológica que os empurraram para esse tipo de comércio. Frequentemente, o processo é muito mais sombrio, como na Guatemala, onde os paramilitares da guerra civil foram transformados em forças de segurança "verdes-ecológicas", encarregadas de "proteger" a floresta da extracção ilegal de madeira de espécies "nativas", da caça e do narcotráfico, que eram os únicos empregos disponíveis para esses habitantes indígenas – empurrados para essas actividades justamente por causa da repressão brutal sofrida por esses mesmos paramilitares durante a guerra. Desde então, esse modelo foi replicado em todo o mundo, incentivado pela comunicação social de países com alto rendimento que celebram o assassinato (frequentemente fotografado) de "caçadores indígenas" por mercenários - paramilitares – que se auto-proclamam "verdes e ecológicos". (3) https://les7duquebec.net/archives/253400
A natureza do Estado burguês

Isso dá-nos uma ideia da natureza do estado burguês, mostrando-nos como ele desenvolve técnicas inovadoras de controle social e "contenção" de crises, que podem ser implantadas mesmo em condições onde o aparato estatal é deficiente.  Tais condições, por outro lado, oferecem uma imagem ainda mais interessante de como a classe dominante de um determinado país pode reagir quando crises generalizadas e insurgências reconhecidas causam vazios de poder em estados totalitários. A crise do coronavírus mostrou que os vários países capitalistas desenvolvidos se colocaram pela segunda vez depois da segunda guerra mundial atrás do desafiante chinês e contra a hegemónica América. (4) https://les7duquebec.net/archives/253280
Na China, como nos países ocidentais (França, Itália, Estados Unidos), a epidemia viral tem sido favorecida em todos os aspectos pela fraca coordenação entre os diferentes níveis de governo: a insuficiência de recursos preventivos locais e a negligência das autoridades locais vão contra os interesses do governo central; mecanismos ineficazes de denúncia em hospitais e a prestação extremamente pobre de cuidados básicos de saúde são apenas alguns exemplos. Enquanto isso, na China, diferentes governos locais voltaram à normalidade normal em ritmos diferentes, quase completamente fora do controle do estado central. Essas quarentenas de bricolage (“faça você mesmo” – Nota do Tradutor) fizeram com que as redes de logística cidade a cidade, entre longas distâncias, continuem interrompidas, pois qualquer governo local parece ter a capacidade de simplesmente impedir que comboios ou camiões de carga cruzem as suas fronteiras. E essa incapacidade básica dos governos obriga-os a tratar a crise do vírus como se fosse uma insurreição popular, jogando a guerra civil e a repressão contra um inimigo invisível (o vírus) e o seu bode expiatório (o povo ) O mesmo problema parece ter-se instalado hoje nos Estados Unidos. https://les7duquebec.net/archives/253280

Essa repressão em particular beneficia do seu carácter aparentemente humanitário, pois o estado é capaz de mobilizar um cada vez maior número de locais para ajudar no que é, essencialmente, a nobre causa de estrangular a propagação do vírus ao estrangular a avareza e a negligência do proletário indiferente (sic). Mas, como seria de esperar, essas medidas repressivas voltam-se sempre contra o proletariado e a população. A contra-insurgência é, afinal, um tipo de guerra desesperada travada apenas quando formas mais sólidas de conquista política, apaziguamento social e alienação económica se tornam ineficazes. Essas acções caras, ineficazes e reaccionárias traem a profunda incapacidade do poder responsável pela sua implantação - sejam os interesses coloniais franceses ou britânicos, o declínio do Império Americano ou o Conquista hegemónica chinesa. O resultado da repressão é quase sempre uma segunda insurreição, ensanguentada pelo esmagamento da primeira e ainda mais desesperada.

"Mas outros efeitos foram menos visíveis, embora sejam provavelmente muito mais significativos. Muitos trabalhadores migrantes, incluindo aqueles que permaneceram na sua cidade de trabalho para o festival da primavera ou que puderam retornar antes que os vários confinamentos fossem estabelecidos, agora estão presos num perigoso beco sem saída. Em Shenzhen, onde a grande maioria da população é composta por migrantes, os moradores relatam que o número de pessoas sem-abrigo começou a aumentar. Mas as novas pessoas que aparecem nas ruas não são sem-abrigo de longa duração, mas parecem literalmente atiradas para lá por não terem para onde ir - usam sempre roupas relativamente bonitas, não sabem onde dormir ao ar livre ou onde encontrar comida. Vários prédios da cidade registaram um aumento de pequenos furtos, principalmente de alimentos entregues às portas dos moradores que ficam em casa de quarentena. Regra geral, os trabalhadores estão a perder os seus salários porque a produção parou. Os melhores cenários durante as paralisações de trabalho são as quarentenas inactivas, como a imposta na fábrica da Foxconn em Shenzhen, onde novos retornados ficam confinados aos seus aposentos por uma semana ou duas, recebem cerca de um terço de seu salário normal e são autorizados a regressar à linha de produção. As empresas mais pobres não têm essa oportunidade, e é improvável que a tentativa do governo chinês e dos governos dos países industrializados de oferecer novas linhas de crédito baratas para pequenas empresas seja benéfica a longo prazo. Em alguns casos, parece que o vírus simplesmente acelera as tendências preexistentes de realocação de fábricas, já que empresas como a Foxconn estão a aumentar a produção no Vietname, Índia e México para compensar a desaceleração. (5) https://les7duquebec.net/archives/253400 .A crise económica, acelerada pela crise da saúde, não altera em nada as leis do desenvolvimento capitalista que a produziu.

Tentam erradicar a pandemia conservando os lucros
Em alguns países (França, Alemanha, Canadá, Japão, Rússia e certas empresas chinesas, etc.), o Estado previu o pagamento de indemnizações (até 75% do salário ou semanas de férias pagas) aos trabalhadores colocados em desemprego forçado. Sem concertação entre eles, esses governos capitalistas do Oriente e do Ocidente aproveitam-se dessa luta sistemática contra a pandemia para refinar as suas políticas, programas e medidas económicas e sociais para propagar (propaganda), fazer as pessoas aceitarem (produzir consentimento, resignação  e arrependimento), controlar, reprimir se necessário, e arrastar a população sob a bota do estado totalitário militarizado, supostamente em guerra total pela salvação da pátria e do planeta. O exército é chamado a contribuir para o esforço da guerra sanitária total, cuja intensidade deve ser mantida no mais alto nível de histeria, a fim de justificar o imenso esforço colectivo para a qual a população ainda não imagina a escala dantesca que está para vir, quando chegar a hora de pagar a dívida omnipresente, exactamente como após cada guerra mundial. Ontem, pedia-se ao soldado da frente para sacrificar a sua vida pela pátria e pela sua casa. Hoje, exige-se a cada cidadão "mundializado" -  agora que a guerra é global e total - é que sacrifique as suas liberdades, o seu rendimento, o seu pensamento livre, para salvar o estado totalitário compassivo e a humanidade traumatizada (sic).

Em todo o caso, esse problema apresenta rapidamente os seus limites. Durante as primeiras semanas de Março de 2020, milhões de trabalhadores foram forçados ao desemprego, alguns com remuneração parcial, a maioria sem remuneração. Ao paralisar o seu aparelho produtivo real dessa maneira (vamos esquecer a economia especulativa do mercado financeiro sem controle sobre as forças produtivas e de comercialização), os estados do G20 secaram as suas fontes de rendimento enquanto, ao mesmo tempo, esses estados sobre-endividados (dívida global 1,8 biliões de dólares) adoptou planos de emergência para um total de 5000 biliões de dólares em despesas adicionais: 2000 biliões de dólares para os Estados Unidos já endividados em 22.000 biliões, 110 biliões de dólares canadenses para o Canadá, 1200 biliões de euros para a Alemanha etc.

A pequena parte desse capital virtual - desse falso crédito monetário  - é destinada às grandes empresas multinacionais que forjam a economia mundializada, o que explica por que as bolsas de valores do mundo recuperaram temporariamente dos abismos em que se perderam no início da pandemia. Mas cada um dos apostadores da bolsa que presentemente se vangloriam histericamente sabe muito bem que esse sopro fugaz e ilusório de ar não vai durar até o final da primavera. O que acontecerá com esses governos em sobre-endividados, despesistas, em pânico, gastando com uma mão o dinheiro do "Monopólio", que eles imprimem e não possuem, e reduzindo as suas fontes de rendimento com a outra mão? O que acontecerá com esse confinamento resignado de centenas de milhões de pessoas em pânico que são convidadas a escolher entre passar fome ou a gripe? Quando esses sacrifícios fúteis lhes foram impostos, fingindo ter escapado de ambos.

O germe da insurreição e da revolta

 O risco é grande no momento em que milhões de proletários, unidos pelo capital numa economia mundial integrada e globalizada, como demonstra esta pandemia mundial, começam a pensar que a verdadeira fonte do problema não é tanto esse vírus místico e misterioso, fácil de erradicar, mas sim o vírus do lucro e da acumulação capitalista. O capitalismo certamente constituiu a resposta económica e lucrativa aos limites do feudalismo, mas hoje representa um obstáculo à evolução humana, forçada a ultrapassá-lo por um modo de produção superior.
Essa crise económica e social interligada oferece lições importantes para uma época em que a destruição causada pela acumulação sem fim se espalhou tanto para cima, para o sistema climático global, quanto para baixo, para os substratos microbiológicos da vida na Terra. Uma primeira lição a ser retida: tais crises económicas, sociais, de saúde e ecológicas só se multiplicarão no futuro. À medida que a crise secular do capitalismo assume um carácter aparentemente não económico, novas epidemias, fomes, inundações e outros desastres "naturais" serão usados ​​pelo capital e seus subordinados políticos para justificar a extensão do controle do estado totalitário, e a resposta a essas crises será cada vez mais uma oportunidade para testar novas ferramentas de contra-insurgência. Uma política proletária sistémica e coerente deve compreender o conjunto desses factos . Teoricamente, isso significa entender que a crítica do capitalismo se torna mais pobre cada vez que é separada da ciência e da economia política. Mas, ao nível prático, isso também implica que o único projecto político possível hoje é o que é capaz de se orientar num terreno definido sob um desastre ecológico e microbiológico generalizado, sob uma matriz económica que atingiu o limite das suas capacidades de produzir e distribuir os bens necessários à vida. É porque a matriz económica capitalista atingiu os seus limites e nenhuma reforma - reconstrução - paliativa é possível para que todas as esperanças sejam permitidas à classe proletária emancipadora.