domingo, 12 de abril de 2020

A crise económica sistémica depois da crise sanitária do coronavirus




Os escribas em posição de combate

Os aduladores, escribas, analistas e economistas de todos os tipos cerram agora fileiras para programar a opinião pública em antecipação do período pós-pandemia - este período de recessão económica aterradora que se seguirá à epidemia e ao confinamento, qualificado por Donald Trump, de "remédio pior que o mal" e que destruirá a economia capitalista mundializada (1). Leiam o que dizem os "especialistas" contratados pela Oxford Economics:

"A recuperação económica global pode ser bastante rápida quando o coronavírus estiver sob controle, segundo analistas da empresa de pesquisa britânica Oxford Economics, que analisaram o impacto de epidemias de curto prazo no crescimento económico mundial". Eles tomaram como exemplo a epidemia de pneumonia atípica da SARS de 2003 e da pandemia de gripe suína de 2009 e concluíram que, após experimentar um declínio de curto prazo, a economia mundial experimentou uma recuperação rápida e significativa. (2)

"Os temores sociais aumentaram com o aumento das infecções, mas desapareceram rapidamente quando as epidemias foram controladas", disseram os analistas. A Oxford Economics prevê que a disseminação do coronavírus será interrompida no segundo semestre e, em seguida, a taxa de crescimento do PIB global poderá chegar aos 5%. "A história mostra que a economia recupera rapidamente, mesmo após fortes choques. Por agora, ainda estamos  à espera de uma recuperação significativa no segundo semestre, após o primeiro que foi terrível ", concluem especialistas da Oxford Economics, os campeões da farsa econométrica.

Os analistas britânicos permanecem em silêncio em relação a dois vectores que políticos amestrados e seus patrões, financeiros e banqueiros paralisados, manipularam fortemente durante a crise do coronavírus (Covid-19). No coração de uma crise financeira - monetária - de petróleo - do mercado de acções, marcada por um endividamento abismal dos estados, empresas e particulares, os bancos centrais emitiram e emprestaram, sem garantias, mais de 5.000 biliões de dólares de dinheiro faz de conta (do francês  monnaie de singe – Nota do tradutor) , somados aos 1.800 triliões de dólares de dívidas públicas e privadas acumuladas desde a pandemia da gripe suína de 2009. Pior ainda, essa questão de títulos do tesouro ilusórios foi operada quando metade da população mundial estava produtivamente parada, condenada ao confinamento, numa fase de sobre-endividamento no contexto de um  consumo anémico.

Sintetizando, nada vai bem nesta economia reclusa. Pepe Escobar acrescenta: “As fontes bancárias de Nova York disseram-me a verdade: o risco sistémico tornou-se muito mais grave em 2020 do que em 1979, 1987 ou 2008, devido ao risco extremamente aumentado de colapso do mercado dos derivativos financeiros de 1,5 quadriliões (quadrillion )de dólares (1,5 × 10 ^ 24). Como dizem as minhas fontes, a história nunca viu nada parecido com a intervenção do Fed através da eliminação pouco compreensiva das exigências de reservas dos bancos comerciais, desencadeando uma expansão potencialmente ilimitada do crédito para evitar uma implosão do mercado de derivativos financeiros resultante de um colapso total de matérias-primas e bolsas de valores em todo o mundo ”(3)..

O que um simples bilionário entende facilmente, um analista de renome como Patrick Artus é incapaz de entender. E eis o panfletário a especular sobre o futuro ameaçado da variante neoliberal do capitalismo moribundo.

Artus especula e interroga-se: "A crise do coronavírus irá provavelmente provocar um retorno às cadeias de valor regionais, em vez das cadeias de valor globais, ou seja, vai presidir a desglobalização-desmundialização das economias reais. Um aumento duradouro dos gastos públicos em saúde, indemnização por desemprego, apoio às empresas e, portanto, o fim da austeridade orçamental lá onde foi instalada (Europa) e o crescimento da concorrência tributária. Compreender o que é necessário para o Estado intervir para definir e desenvolver indústrias estratégicas (farmacêuticas, assim como Novas Tecnologias, energias renováveis, etc.). O entendimento (mesmo nos Estados Unidos) de que todas a população deve beneficiar de uma protecção social adequada ". Tudo isso significa claramente o fim do “capitalismo neoliberal” que escolhera globalização-mundialização, a redução do papel do Estado e da pressão tributária, as privatizações e, em certos países, a fragilidade da protecção social (4).

É precisamente aí que bastão magoa.

O capitalismo neoliberal, global e mundial, não é uma escolha do grande capital internacional, não mais do que a redução de um certo tipo de intervenção estatal, a implantação de paraísos fiscais, as privatizações e o adiamento e a cobrança directa aos trabalhadores das despesas sociais, sanotárias e médicas. Essa forma de capitalismo de Estado liberal-laxista para os trabalhadores, mas intervencionista a favor do capital, é uma necessidade, o destino consagrado nas inexoráveis ​​leis da produção e na acumulação de valor sob o capitalismo liberal ou intervencionista ... fazendo oscilar o pêndulo do estado burguês do polo esquerdo - intervencionista - do Estado providência num período de "descolagem" ou da retoma da acumulação. – Estes são períodos históricos de regozijo para esquerdas aburguesadas que são então chamadas a governar, sob protectorado financeiro, os destinos das sociedades "nacionalizadas"-. Invariavelmente, o sistema afunda-se nas suas contradições, no seu balancear entre os seus meios de produção superabundantes e as suas forças produtivas com desempenhos excessivos; as suas mercadorias em excesso e os mercados anémicos e sobre- endividados, o polo direito do Estado  providência é chamado à governança. Em anexo, apresentamos um resumo da análise da firma Nataxis, que explica a actual fase dessa crise do capitalismo e o que preparou a crise em análise.

As tácticas do capital não podem mascarar a sua estratégia a longo prazo.

Esta oscilação do pólo esquerdo - intervencionista - para o pólo direito - laxista - do Estado capitalista-fetichista nunca põe em causa a necessidade estratégica imperativa da monopolização - globalização - mundialização dos meios de produção, de comercialização, de comunicação e em última análise, dos meios de acumulação - valorização do capital. É por isso que aconselhamos o proletariado internacional a preparar-se para resistir em todo o mundo aos períodos de restrição, convulsão, repressão e recessão económica que se seguirão ao confinamento que parecerá muito benigno em comparação com os "remédios" que nos serão infligidos para salvar este modo de produção moribundo. A pequena burguesia ao serviço da burguesia  nos meios de comunicação social já meteu mãos à obra afim de preparar a opinião pública para se resignar, permanecer confinada entre a casa e a oficina. Certamente, o Estado burguês aproveitará esta oportunidade para estreitar o seu domínio sobre o proletariado por meio da "Corona-ditadura", para quebrar toda a resistência popular (5).



ANEXO

Nataxis,  a nossa interpretação da presente crise é a seguinte:

·         existe um excesso mundial de capacidade de produção, principalmente devido essencialmente à globalização e a investimentos muito significativos (realocação) em países emergentes;
·         o excesso de capacidade deveria normalmente diminuir a lucratividade das empresas; em resposta a esta evolução, as empresas tentaram reduzir os salários, daí o declínio da parcela dos salários no PIB em muitos países, o que exacerba a procura insuficiente em relação à capacidade excedente da produção -comercialização. As grandes empresas estão a tentar  tornar-se líderes no seu sector de actividade para beneficiar de margens de oligopólio;
·         o excesso de capacidade produtiva empurra os Estados a adoptarem políticas não cooperativas, visando aumentar a taxa nacional de utilização e valorização das capacidades e da valorização do capital mundial: estímulo ao crédito pelas políticas monetárias muito expansionistas, de onde as bolhas especulativas sobre os preços dos activos, o excesso de dívida e as crises bolsista como índices de crises de acumulação – valorizações sistémicas; acompanhadas de subvalorização das taxas de câmbio (do valor real da moeda nacional) nos países emergentes. Isso penaliza os assalariados locais, que trabalham por salários da miséria. Por aqui podemos perceber o quanto o mercado de trabalho e da mão-de-obra estão totalmente integrados - globalizados - mundializados.

Os estão burgueses estão confrontados com:

§  A situação de excesso de capacidade relativa de produção;
§  a compressão dos salários implementada pelas empresas e pelo estado fetichista.
Existe, portanto, um excesso de oferta de bens e serviços (mercadorias) e a insuficiente procura. Confrontados com esta situação, os Estados adoptaram políticas não cooperativas de apoio à procura, na tentativa de evitar a interrupção do processo de acumulação - valorização aquilo que os economistas designam por  sub-utilização das capacidades de produção .

Essas políticas assumem a forma:

·         antes da crise, políticas monetárias expansionistas destinadas a estimular a procura doméstica, estimulando o crédito. Isso levou a um crescimento muito forte da dívida nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e área do euro, excluindo a Alemanha, com baixas taxas de juros em relação às taxas de crescimento. Desde a crise de 2008, a procura foi estimulada por défices públicos e crédito gratuito ou quase;
·         nos países emergentes, os governos estão a tentar corrigir a sub-utilização das capacidades de produção- valorização do capital, estimulando as exportações pela sub-avaliação das suas divisas. Essa desvalorização é assim mantida graças à acumulação de reservas cambiais em dólares nos países emergentes (de onde o yuan procura expulsá-lo), o que permite a esses países ganharem parcelas do mercado de exportação, objecto da guerra comercial em curso.
Nós interpretamos, portanto, as políticas de apoio ao crédito nas políticas da OCDE e de sub-valorização das taxas de câmbio nos países emergentes como políticas não cooperativas para responder ao excesso de capacidade global de produção e salários mais baixos pelas empresas, destinadas a rectificar a taxa de uso da capacidade produtiva (em última análise, a valorização do capital) de um país em detrimento de outros países.





Essas políticas interagem para gerar um enorme crescimento da liquidez mundial, que está na raiz das crises desde que elas viram a luz do dia:

§  bolhas financeiras (acções, imobiliária), que em seguida explodem
§  excesso de endividamento que descambou em 2007-2008 numa enésima crise financeira.
§

Notas

2.      Source : SPUTNIK
4.      Patrick Artus. Public Natixis FlashEconomie30mars2020-
















sexta-feira, 10 de abril de 2020

As grandes pandemias que marcaram a história






  Por Céline Deluzarche (revista de imprensa : Futura Sciences – 31/3/20)*.  Em France-Irak Actualité

As epidemias não esperaram pela globalização ou pela crise do coronavírus para se espalharem pelo mundo. Desde os tempos antigos, as doenças dizimaram populações inteiras no espaço de alguns meses ou mesmo dias, provocando o terror entre os habitantes diante de um mal desconhecido.

Versão globalizada da epidemia, a pandemia  (pandémie) é caracterizada por uma rápida disseminação e alta taxa de mortalidade. Transmitidas por vírus ou bactérias  (virus ou bactéries) desconhecidas na sua época, essas pandemias mataram milhões de pessoas e marcaram a história da humanidade.

A peste de Atenas (-430 à -426 antes de Cristo)

A primeira pandemia (pandémie)  documentada na história, a peste (peste) de Atenas é provavelmente devida à febre tifóide (fièvre ). Descrita pelo historiador Tucídides, ele próprio afectado pela doença, ela manifesta-se por febres intensas, diarreias (diarrhées), vermelhidão e convulsões (convulsions).  Vinda da Etiópia, ataca o Egipto e a Líbia, depois chega a Atenas no momento do cerco da cidade de Esparta, durante a Guerra do Peloponeso (guerre du Péloponnèse). Estima-se que um terço da cidade, ou 200.000 habitantes, pereceram durante esta epidemia que marcará o início do declínio de Atenas.

A peste Antonina (165-166)

Aqui de novo, esta pandemia não se deve à peste, mas à varíola (variole). Leva o nome da dinastia Antonina, da qual se destacou o imperador Marc-Aurèle, que reinava então sobre o Império Romano. A pandemia começou no final de 165 na Mesopotâmia, durante a guerra contra os Parthes e chegou a Roma em menos de um ano. Estima-se que tenha causado 10 milhões de mortes entre 166 e 189, enfraquecendo consideravelmente a população romana (la population romaine). A varíola, causada por um vírus (virus )e caracterizada por crostas (croûtes) avermelhadas, diarreia e vómito, foi declarada erradicada no ano 180.

A peste negra (1347-1352)

Depois de ter assolado a China, a pandemia da peste negra (peste) chegou em 1346 à Ásia Central, entre as tropas mongóis que cercavam o porto de Caffa, no Mar Negro, mantido por comerciantes genoveses. A doença, manifestada por horríveis bolhas (bubons), espalhou-se para o norte de África e depois para a Itália e a França, onde chegou pelo porto de Marselha através de navios genoveses. Estima-se que essa epidemia, também apelidada de "a grande peste", tenha causado entre 25 e 40 milhões de mortes na Europa, ou seja, entre um terço a metade da sua população na época.

A gripe espanhola (1918-1919)

Causada por um vírus do tipo A H1N1 particularmente virulento, a gripe espanhola (grippe espagnole)  é na realidade de origem asiática. A seguir chega aos Estados Unidos, depois atravessa o Atlântico trazida por soldados que vieram ajudar a França. Se foi apodada de gripe espanhola (grippe), é porque o país, não sujeito a censura e guerra, relata as primeiras notícias alarmantes. Quando se extinguiu em Abril de 1919, o balanço foi terrível. A gripe espanhola matou 20 a 30 milhões de pessoas na Europa e até 50 milhões à escala mundial, não poupando quase nenhuma região do globo. Estima-se que um terço da população mundial tenha sido infectada.

A cólera (1832-1932)


Endémica durante vários séculos no delta do Ganges, na Índia, a cólera (choléra ) espalhou-se para a Rússia em 1930, depois para a Polónia e Berlim. Desembarcou em França em Março de 1832, através do porto de Calais, e depois chegou a Paris. Manifestando-se por diarreias brutais e vómitos, a cólera (cuja causas desconhecemos, a bactéria Vibrio choleræ) (choléra) causa desidratação rápida (déshydratation), às vezes levando à morte em poucas horas. A epidemia causará quase 100.000 mortes em menos de seis meses em França, incluindo 20.000 em Paris. Chegará então ao Quebec-Canadá através de imigrantes irlandeses, onde também causará estragos.

A gripe asiática (1956-1957)

Ligada ao  virus influenza H2N2, a gripe de 1956 é a segunda pandemia de gripe mais letal depois da ocorrida em 1918. Causará de dois a três milhões de mortes em todo o mundo, incluindo 100.000 em França, 20 vezes mais do que a gripe clássica sazonal (grippe saisonnière). Com origem na China (daí o seu nome), o vírus espalha-se para Hong Kong, Singapura e Bornéu, depois Austrália e América do Norte, antes de atingir a Europa e a África. Alguns anos depois, transferiu-se para o H3N2 para causar uma nova pandemia em 1968-1969, apelidada de "gripe de Hong Kong". Esta última marcará o início das primeiras vacinas eficazes contra a influenza (vaccins antigrippaux).

A sida (1981-até aos dias de hoje)


Originário de Kinshasa (República Democrática do Congo), o vírus da sida (virus du sida) vê a luz do dia em 1981, quando a agência epidemiológica de Atlanta, nos Estados Unidos, alertou para casos incomuns de pneumocistose (uma pneumonia rara -  pneumonie - presente em pacientes imunodepressivos). O HIV (VIH )não foi identificado senão dois anos depois, em 1983, por uma equipa de pesquisadores do Instituto Pasteur liderada por Luc Montagnier. No auge da epidemia, na década de 2000, dois milhões de pessoas morriam do vírus a cada ano. Actualmente, 36,9 milhões de pacientes vivem com HIV, mas a terapia anti-retroviral (antirétroviraux) reduziu significativamente a mortalidade.


Céline Deluzarche formou-se no Institut Français de Presse em 2004. Criou e alimentou a rúbrica Ciência no site L'Internaute até 2007, antes de trabalhar para a secção de negócios do Journal du Net.


O tempo das «Corona-ditaduras». Os golpes de Estado “sanitário-democráticos»!



10 de Abril de 2020 Robert Bibeau
Por Luc Michel.

REVISTA DE IMPRENSA com o jornal Le Temps (Suisse) :
« Existem situações onde é preciso colocar, por um momento, um véu sobre a liberdade como escondemos as estátuas dos deuses ».  – Montesquieu (o filósofo das democracias ocidentais).

"Existe um perigo real de que a pandemia do Covid-19 se torne na nossa nova guerra ao terrorismo, uma desculpa para vários governos minarem os direitos fundamentais, explorando os medos das pessoas (...) Uma vez que os governos tenham adquirido novos poderes, é difícil para os cidadãos exigir a recuperação dos seus direitos, analisa o jornal. Tomemos como exemplo os ataques de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos. Algumas das medidas de emergência adoptadas pelo governo dos Estados Unidos ainda estão em vigor. A prisão de Guantanamo ainda está aberta. Os assassinatos direccionados ainda são praticados e a vigilância em massa continua ”- Le Temps (3 de abril).
Eu não sou o inventor, nem o primeiro utilizador, do termo "corona-ditadura". Os inventores são o partido flamengo NVA, o partido líder na Flandres e na Bélgica, no poder na região flamenga do estado federal belga. Partido que foi corrido do poder federal por uma coligação de partidos minoritários belgas, incluindo os liberais franceses e flamengos do MR e do VLD OPEN, derrotados nas últimas eleições. Golpe de estado constitucional sob o pretexto de combater à pandemia, dizem com razão os nacionalistas flamengos!
Foi neste 3 de Abril que um diário importante no sistema suíço, Le Temps de Genebra, que denunciou os golpes constitucionais em todo o bloco ocidental. Uma constatação sem apelo…
* Ver em LUC-MICHEL-TV/ em https://vimeo.com/399472517

« O CORONAVIRUS BARALHA E REPARTE AS CARTAS, TODAS AS CARTAS »
(LE TEMPS, GENEBRA, 3 DE ABRIL DE 2020)
Trecho 1: "Vocês certamente perceberam isso: o episódio que vivemos neste momento está a mudar as nossas vidas. E há uma forte possibilidade de que muitas dessas mudanças continuem, muito depois da crise. Primeiro, na política, alguns estados exploram a situação actual para abafar qualquer oposição e controlar melhor as suas populações. Historicamente, sabemos que as leis de emergência geralmente sobrevivem muito tempo depois das causas que serviram para justificá-las (...) Ao nível administrativo, também. A crise actual inebria os defensores de uma rápida transformação das nossas instituições e da adopção maciça de novas tecnologias. O E-Governo (electrónico – Nota do Tradutor), a identidade digital, o parlamento virtual ... são aclamados para evitar o bloqueio do país. O que realmente levará à redução do controle democrático.

«O COVID-19 PODE TRANSFORMAR-SE NA NOSSA NOVA GUERRA CONTRA O TERRORISMO » (LE TEMPS, GENEBRA, 3 DE ABRIL DE 2020)
Trecho 2: "As restrições impostas para combater a crise sanitária causada pelo coronavírus preocupam os defensores dos direitos humanos. Elas poderão durar muito para além do fim da pandemia (…) e recordam os efeitos ainda duradouros de tais medidas nos Estados Unidos após os ataques de 11 de Setembro de 2001. O Covid-19 é a oportunidade perfeita para autocratas no poder fortalecerem o seu poder? Alguns cientistas vêem uma correlação entre uma maior prevalência de doenças numa população e um aumento nas políticas autoritárias (…) O prolongamento dos confinamentos, o compromisso do exército e da polícia em aplicá-los, a suspensão aparentemente temporária dos parlamentos em benefício do poder executivo são, sem dúvida, medidas necessárias. Mas os seus efeitos a longo prazo são preocupantes. Medidas excepcionais são necessárias diante da emergência sanitária da pandemia de SARS-CoV-2 (…) De acordo com os defensores dos direitos humanos, no entanto, muitas das liberdades que estão no centro das democracias, liberdade de expressão, associação, demonstração, imprensa, etc. estão em perigo. Eles estão a fazer soar o alarme (...) O American Patriot Act deixou marcas. "

"ABUSO DO ESTADO DE EMERGÊNCIA EM FRANÇA"

Trecho 3: “As organizações de direitos humanos denunciaram na época os abusos do estado de emergência em França após os ataques terroristas em Novembro de 2015. As medidas de excepção adoptadas durante esse período agora pertencem à lei comum. Quando o presidente Emmanuel Macron declara que "estamos em guerra" contra o coronavírus, a metáfora é forte e provavelmente suscitará a consciencialização do público sobre o real perigo da pandemia. Mas esse vocabulário de guerra poderia justificar medidas repressivas "e transformar uma crise sanitária numa crise de segurança", adverte Florian Bieber em Política Externa (Foreign Policy).”

Trecho 4: “As democracias também limitam essas liberdades em nome da justificada luta contra a pandemia. É tudo sobre proporcionalidade. Nos dias que correm, a Coreia do Sul deu um exemplo da sua triagem sistemática que ajudou a conter a disseminação do Covid-19. Seul "transmitiu informações detalhadas e muito claras sobre o movimento de pessoas a todo o indivíduo que pudesse ter estado em contacto com elas", apresentando, contudo, o director da HRW algumas nuances. O Covid-19 é um pretexto muito conveniente para fortalecer massivamente a vigilância digital dos cidadãos. ”


A OPINIÃO: A VIGILÂNCIA,  A LIDAR COM EXTREMA PRECAUÇÃO
Trecho 5: "Uma das liberdades que preocupa os defensores da democracia são as eleições. A começar pelos Estados Unidos. Donald Trump deixa planar a dúvida, se bem que a Constituição seja clara sobre esse assunto, forçando o presidente cessante, se não for reeleito, a deixar a Casa Branca em Janeiro de 2021. Na Sérvia e no norte da Macedónia, as eleições de Abril foram adiadas, como as eleições locais de Maio no Reino Unido. Florian Bieber é categórico: "Adiar as eleições durante meses provavelmente privará os referidos governos da sua legitimidade e permitirá que os autocratas explorem esses atrasos para fortalecer o seu poder" ... "



FACE AO VÍRUS, A TENTAÇÃO DA LIDERANÇA FORTE

Trecho 6: "O mundo está" em guerra ". Uma guerra que causa estragos económicos, que prende aviões ao solo, mas que também começa a implantar em toda parte os seus efeitos políticos: da Hungria à Índia, de Israel ao Chile, das Filipinas ao Iraque, o recurso à liderança forte tornou-se tentador, um pouco por toda a parte. Pandemia e autoritarismo não parecem, à primeira vista, uma boa combinação, dada a prevalência de pedidos de razão e ciência. No entanto, por mais que os regimes "iliberais" pareçam sofrer o impacto da sua própria incompetência, eles levaram apenas um tempo muito curto para se recompor e levantar a cabeça. No coração da Europa, a Hungria voltou a ser o emblema desse movimento. No início desta semana, o primeiro-ministro Viktor Orban obteve do parlamento o direito de legislar por decreto graças à instauração de um "estado de emergência" proclamado por tempo indefinido. Medidas “excepcionais” - fortemente criticadas pela oposição húngara, mas também pelos parceiros da União Europeia - que não apenas suspendem os direitos do parlamento, mas também possibilitam pesadas sanções contra aqueles que espalham “notícias falsas” »(5 anos de prisão) ou aqueles que tentam escapar do confinamento (até 8 anos de prisão). O líder húngaro é acusado há dez anos de ataques crescentes aos direitos humanos e à independência da justiça. A "lei coronavírus" dá a Viktor Orban novas prerrogativas com as quais, de acordo com os partidos da oposição, ele sonha há muito tempo. "O medo é que o governo de Orban se transforme numa ditadura real hoje", escreve o jurista húngaro Daniel Karsai. "

Trecho 7: A tentação de aumentar a vigilância por causa do vírus é uma realidade em todas as (ex) democracias ocidentais! "Para combater a pandemia, muitos estados estão a implementar sistemas de rastreamento populacional, alguns à força, outros voluntariamente. Parte dessas medidas poderia continuar após a crise, sem fundamento real, alertam os defensores da privacidade ”, comenta Le Temps (Genebra)…

« EM SINGAPURA, CENTENAS DE MILHAR DE CIDADÃOS ACEITARAM UTILIZAR A APLICAÇÃO TRACE TOGETHER (PROCURA CONJUNTA – Nota do Tradutor) » (LE TEMPS, GENEBRA, 3 DE ABRIL DE 2020)
Trecho 8: "A inquietude mudou de forma. Ontem, o nosso telefone ainda era visto como um espião para o Facebook e o Google. Localização, actividades, interacções ... Aninhados no coração dos nossos smartphones, os gigantes digitais sabem tudo sobre nós. Mas desde o início da pandemia, essa espionagem foi relegada para segundo plano. Doravante,  são os estados que desejam rastrear os nossos dispositivos para perseguir o vírus. Mas também cidadãos e pesquisadores que nos incentivam a usar esses dados para nos analisar  e detectar os doentes que visitamos.

Daqui por diante, o medo de uma vigilância generalizada espalha-se por todo o planeta. E muitos cidadãos estão preocupados: sob o disfarce da luta contra o coronavírus, não estarão as autoridades tentadas a estabelecer sistemas de monitorização da população que sobreviverá à pandemia? E não estamos a falar de ditaduras ... "

« EM FRANÇA, OS DADOS DOS OPERADORES DE TELEFONE MÓVEL PERMITIRAM DETERMINAR COM PRECISÃO O ÊXODO DOS PARISIENSES PARA A PROVÍNCIA»

Trecho 9: "À escala do continente, a União Europeia deseja usar os dados dos operadores para medir os fluxos populacionais. A Swisscom envia todos os dias, às 8h da manhã, um relatório à Confederação sobre multidões em locais públicos. Em Israel, o rastreamento é individual, as autoridades usam métodos de combate ao terrorismo para seguir os portadores do vírus.

Existem também meios de vigilância mais insidiosos, quando as autoridades sugerem fortemente aos seus cidadãos que baixem aplicativos que os alertam quando se cruzam com portadores do vírus. Na Coreia do Sul, a polícia sabe em quais autocarros ou cafés os doentes passaram e alertam as pessoas que frequentaram esses lugares. Em Singapura, centenas de milhar de cidadãos concordaram em usar o aplicativo Trace Together: ela permite, via Bluetooth, saber quem está dentro de um raio de poucos metros, para também alertar a posteriori aqueles que se cruzaram com uma pessoa doente.

Esses serviços podem bem funcionar de forma voluntária, mas é preciso desconfiar, alerta Sylvain Métille, advogado e professor de protecção de dados e direito penal informático na Universidade de Lausanne: "Mesmo que o objectivo seja nobre, você deve ser cauteloso sobre o real objectivo dessas aplicações e a qualidade do seu desenvolvimento. Mesmo com um produto perfeito e usado de forma voluntária, existe o risco de que as pessoas sejam forçadas a usá-lo, por exemplo, se um empregador ou uma loja exigir que você instale o aplicativo, ou mesmo se a pressão social dos seu colegas não lhe deixam outra opção. ”…”

« VIGIAR OS «SERVIÇOS DOS GIGANTES DA TECNOLOGIA» QUE REFORÇAM O SEU CONTROLO …

Trecho 10: “Raphael Rollier, que desenvolve inovações com geodados na Swisstopo, faz uma analogia com os serviços de gigantes da tecnologia. Para ele, "um aplicativo que solicita acesso aos seus dados de GPS é a única solução que permite a rastreabilidade dos contactos. No entanto, não acho que ela deva ser obrigatória. É uma ferramenta de prevenção que deve ser oferecida voluntariamente e o usuário deve poder interrompê-la a qualquer momento. Da mesma forma que decidimos fornecer a nossa geolocalização ao Google em troca de um serviço de navegação, o usuário decide fornecer esses dados de localização para facilitar a rastreabilidade dos contactos entre pessoas doentes e saudáveis ​​". Raphael Rollier acrescenta que "para obter suporte suficiente, a chave é ter um actor confiável e transparente que proponha esse serviço".

Os riscos de deriva são muito numerosos. Esses aplicativos incentivarão os pacientes a não declarar o seu estado de saúde? Estes deixarão os seus smartphones em casa quando saírem? E o que acontecerá se os dados individuais - correctos ou falsos - forem tornados públicos por engano? "



quarta-feira, 8 de abril de 2020

Lares de idosos – há que travar o genocídio sanitário!




 Quase todos os dias o Ministério da Saúde e a Direcção-Geral da Saúde (DGS), brindam-nos com conferências de imprensa – por vezes mais do que uma por dia - onde somos bombardeados com números, sem que nunca se explique como é que eles são consequência de políticas que, ao longo dos anos, levaram à fragilização do Serviço Nacional de Saúde, no contexto de uma estratégia perseguida pela classe dominante de vir a privatizar esse activo.

Um dos casos mais gritantes da inépcia criminosa daquelas duas instituições do Estado, revela-se no que está a ocorrer em dezenas de lares e instituições que cuidam de idosos, por todo o país.

O mais recente caso, que teve lugar em Aveiro e onde morreram já 15 idosos, é gritante e explica em parte a razão porque exigimos a demissão imediata, quer de Graça Freitas, directora-geral da saúde, quer do Secretário de Estado da Saúde. O lar e a edilidade de Aveiro esperaram mais de duas semanas para que a tutela lhes enviasse umas simples zaragatoas, imprescindíveis para testar utentes e funcionários para saber se estão, ou não, infectados pelo COVID-19.

Num universo de centenas de lares e instituições para idosos – alguns deles em manifesta ilegalidade – já há a lamentar mais de 60 mortes e 1000 infectados. Uma enormidade, tendo em conta que a percentagem de idosos falecidos em relação ao número de óbitos ocorridos a nível nacional até à data – 345 – se situa entre os 18 e os 20%!

Sabendo-se que o confinamento dos idosos, que normalmente têm grandes limitações quanto à mobilidade, foi alargado na sequência da imposição da Lei de Emergência Nacional, torna-se claro que, a serem infectados, como foram, tal só podia ocorrer por contágio dos funcionários que, para assegurarem um trabalho incansável e arriscado de ajuda a estes idosos, não são sujeitos a constrangimentos de mobilidade, sendo os únicos que podem, de forma regular e constante, entrar e sair daquelas instituições.

Sendo parte da solução e nunca o problema, não se pode, pois, assacar aos trabalhadores dos lares de idosos a responsabilidade de o contágio por COVID-19 ter alastrado como fogo sobre uma pradaria seca como está a acontecer. Os responsáveis, únicos e exclusivos, são os órgãos da tutela que têm – ou deveriam ter – por missão prevenir estas situações.

E não o fizeram! De forma negligente e criminosa! Era suposto que, quer o Ministério da Saúde, quer a Direcção-Geral da Saúde por ele tutelada, mesmo antes dos primeiros casos de morte e infecção de idosos internados em lares ocorrerem , e dado tratarem-se de um grupo de elevado risco para a infecção com COVID-19, tivessem implementado – ou feito implementar – planos de contingência que incluíssem testes aos funcionários desses lares que pudessem determinar, com rigor, se estavam, ou não, infectados e se poderiam constituir, ou não, um perigo de contágio para os idosos a seu cargo.

Uma medida absolutamente indispensável, tanto mais quanto é sabido que os portadores de COVID-19 apresentam, na esmagadora maioria dos casos um quadro assintomático. Mas, não! Não só não foram implementados esses planos de contingência como, quer o Ministério da Saúde, quer a DGS, apesar das “lágrimas de crocodilo” que vertem, continuam a bloquear o fornecimento de testes – como as zaragatoas – e outros meios de diagnóstico e protecção, que assegurem uma prevenção mais eficaz e atempada das infecções entre os idosos internados em lares e que, sobretudo, travem a dramática percentagem de ocorrência de mortes entre esta população.

Estamos, portanto, perante um genocídio sanitário que, não sendo inteiramente possível solucionar com a demissão dos supracitados responsáveis pode, no entanto, essa medida, exigida por inúmeros trabalhadores da saúde – médicos, enfermeiros, farmacêuticos, auxiliares, etc. - servir de contenção à escalada de mortes a que assistimos entre os idosos internados em lares por esse país fora.

Retirado de: http://www.lutapopularonline.org/index.php/pais/89-saude/2701-lares-de-idosos-ha-que-travar-o-genocidio-sanitario


segunda-feira, 6 de abril de 2020

Os governos não têem outro tratamento senão a coerção para erradicar a pandemia





por Robert Bibeau


Por Khider Mesloub
No campo da saúde, a incúria criminosa dos governos de inúmeros países já não precisava de ser demonstrada. Mas, graças ao Covid-19, essa constatação assume uma dimensão catastrófica. De facto, enquanto a epidemia do coronavírus se espalhou maciçamente em muitos países, principalmente na Ásia, os governantes agiram de má-fé, com muito atraso e na base da improvisação, para agir. Medidas expeditas, não de saúde, mas securitárias. De facto, em  termos de política sanitária e médica, esta mais se parece com uma operação militar: confinamento obrigatório, encerramento de fronteiras, fiscalização policial, mobilização do exército para fornecer pessoal de saúde, cuidadores, sobrecarregados.

Isso assemelha-se a uma operação de "pacificação do país", digna das guerras coloniais, onde as populações indígenas foram confinadas a locais próprios, perseguidas, banidas dos centros urbanos, suspeitas de carregar uma bomba, de atentar contra a vida do ocupante, mantidos à distância como se fossem portadores de doenças contagiosas. Mas, acima de tudo, foram despojados da sua dignidade, privados da sua liberdade, dos seus direitos políticos e cívicos, militar e policialmente controlados, ditatorialmente confinados.

Podemos dar o exemplo da França, tardiamente recrutado para a frente da luta contra a pandemia de coronavírus, o general Macron imediatamente imprimiu sotaques belicosos ao seu discurso à retórica de guerra. "Estamos em guerra!" repisou ele no seu discurso em 16 de Março. Em guerra com quem? Contra o Covid-19 ou contra a população forçada a sofrer um confinamento mais destrutivo do que o coronavírus, entendendo-se que nenhum outro tratamento médico o acompanha, nem sob a forma de tratamento anti-viral nem sob o aspecto de uma célula psicológica, deixando a população presa ao medo e espanto (esta observação  aplica-se à maioria dos países, especialmente à Argélia). Na verdade, o governo Macron, como a maioria das potências de outros países, está a navegar à vista, embarcados no seu navio estatal em pleno naufrágio, sem qualquer controle sobre o leme, entregue às tempestades atribuladas da economia em perdição e as vagas submergentes do desastre político e institucional.

Hoje, face ao Covid-19, a gestão da saúde opera num cenário de escassez de equipamentos médicos e privação de alimentos anunciada. Na maioria dos países, em particular na Argélia, deplora-se uma cruel falta de materiais de protecção. A escassez é geral: nenhum país possui stocks de equipamentos de segurança para conter a pandemia. Os hospitais carecem do equipamento essencial: máscaras, soluções hidro-alcoólicas, macas, vestuário, respiradores. Actualmente, em muitos países, a equipa de enfermagem, perante o racionamento, é reduzida ao uso de máscaras desactualizadas, ver já usadas. Os funcionários hospitalares "na linha da frente" (sic!) encontram-se, pois, directamente expostos à doença.

Por todo o mundo o sistema de saúde está em ruínas, sacrificado no altar do « rigor orçamental »  

Numerosas camas de hospitais foram suprimidas, equipamentos médicos reduzidos. Vale a pena  realçar que, se a Alemanha tem uma taxa de mortalidade por coronavírus muito menor do que a França e a Itália, isso se deve ao alto número de vagas em terapia intensiva (309 vagas em cuidados intensivos para 100.000 habitantes em França contra 601 camas na Alemanha), mas também pela sua política de triagem maciça, completamente ausente nesses dois países.

De resto, incapazes de gerir clinicamente a crise do Covid-19, com a preocupação prioritária de evitar  o impacto sobre o aparelho de produção, muitos países decidiram adoptar uma série de medidas de emergência, mais parecidas com operações securitárias do que campanhas de saúde. A principal medida introduzida foi a contenção tardia com geometria variável. Assim, devido à sua incapacidade de fornecer materiais de protecção (máscaras, luvas, soluções hidro-alcoólicas, testes) a toda a população, os governos optaram por medidas de segurança de contenção geral, cuja ineficácia foi demonstrada pela Itália e pela França. Em França, essa medida instituída tardiamente, no pânico causado pelo colapso económico e não pelo agravamento da epidemia, deu origem a recomendações contraditórias resumidas nessa injunção paradoxal, proferida pelo Presidente Macron: saiam das vossas casas, mas sem sair; fiquem em casa para evitar a contaminação, mas vão trabalhar - para manter a economia dos patrões a funcionar a fim de salvar os seus lucros com o risco da sua própria vida.



 Neste capítulo do incivismo (falta de civismo – Nota do Tradutor), o poder tende à reversão contraditória. Nesta gestão caótica da crise, os verdadeiros delinquentes não são os proletários pobres que são deixados à sua própria sorte por falta de protecção médica, mas os líderes incompetentes e criminosos, apenas capazes de administrar um drama de saúde por meio de medidas coercivas. De facto, por falta de meios sanitários para impedir a propagação do coronavírus, os governos da maioria dos países não têm outra escolha, para evitar a hecatombe, do que estabelecer medidas de contenção e toque a recolher, apoiados por um exército de policias e militares destacados sobre todo o território, responsáveis ​​por manter sob respeito as suas  populações respectivas, atordoadas, aterrorizadas (e em breve esfomeadas) pelo medo de serem contaminadas pelo coronavírus, sem nenhuma chance de serem tratadas por falta de vagas em hospitais mal equipados, que também estão sobrecarregados.

 Na verdade, os governos da maioria dos países, no meio da crise da Covid-19, associada a um colapso económico, criminalmente privados de soluções sanitárias por falta de equipamento médico, não podem fazer outra coisa senão mobilizar as suas forças da ordem. Esta política securitária, em vez de uma campanha de saúde, visa acostumar a população à militarização da sociedade quando o "inimigo interno" não for mais o coronavírus, mas a classe trabalhadora, as classes populares famintas, em luta.
Como prova da celerada mistificação dos governos supostamente preocupados com a saúde dos trabalhadores, a escandalosa manutenção da abertura de empresas não absolutamente indispensáveis para as actividades económicas essenciais neste período de pandemia. De facto, ao mesmo tempo que os governos impõem o confinamento generalizado para combater a disseminação do coronavírus, afirmam que estão a forçar milhões de trabalhadores (sob o golpe propagandistico da "sagrada união nacional", da requisição estatal ou da ameaça de sanções) a empilhar-se diariamente nos transportes públicos, a movimentar-se dentro das fábricas, administrações, supermercados, locais por excelência de contágio.

"A minha prioridade é salvar o aparelho de produção francês", recordava recentemente o ministro da Economia da França, Bruno Le Maire (e não salvar prioritariamente a vida do povo: a confissão tem pelo menos o mérito de ser explícita). Essa admissão soa como uma profissão de fé, que todos os líderes de todos os países adoptam por conta própria, sem formulá-la com tanto cinismo burguês e desprezo de classe. Assim, para o deus-capital , em plena fase paroxística da pandemia, o ministro está pronto para sacrificar a vida de milhões de trabalhadores, enviados para a linha de frente, sobre a frente da produção de lucros, para morrer no  "campo de batalha" (casse-pipe, em francês – Nota do tradutor), com os riscos de contaminação inerentes às concentrações de trabalhadores nas unidades de produção e nos transportes públicos.

A esse respeito, não é de somenos mencionar aqui as reais razões para a mortalidade excepcionalmente alta, em comparação com outros países, registada em Itália. Além das já mencionadas deficiências nos equipamentos médicos, a outra principal explicação para o excesso de mortalidade está na economia. É frequentemente esquecido, mas as principais vítimas do genocídio italiano da "saúde" residiam na região industrial e de trabalho vital da Itália, ao redor de Milão, onde todas as empresas e transportes públicos continuavam a operar, apesar dos riscos. de contagiosidade do coronavírus, em pandemia total. O poder criminoso italiano estabeleceu o confinamento a todo o território, mas manteve a "liberdade de movimento e concentração" dos trabalhadores obrigados a ir todos os dias para o seu local de exploração, usando o transporte público comum, com todos os riscos de contagiosidade e disseminação do coronavírus. Isso explica o número dramaticamente alto de mortes nessa população nessa região industrial. Não foi a inconsciência dos pobres proletários italianos que provocou o genocídio da saúde coronavirisca, mas a irresponsabilidade criminosa das classes dominantes italianas preocupadas principalmente com a preservação dos seus lucros proporcionados pelas empresas mantidas abertas, nas quais os trabalhadores estavam forçados a fazer rodar o mecanismo da produção. Portanto, moverem-se massivamente, concentrarem-se estreitamente, circularem amplamente, transportarem o coronavírus, infectarem colegas, vizinhos, parentes.

Claro que a contenção é eficaz, mas apenas quando é totalmente aplicada. De facto, para ser eficiente, a contenção deve ser completa, com uma interrupção geral na produção e circulação, encerramento absoluto de todas as empresas que não sejam essenciais para gerir a luta contra a disseminação do coronavírus. Pelo menos tempo suficiente para parar a pandemia. No entanto, hoje, o confinamento ilusório, aplicado pela maioria dos governos, é uma mistificação, porque eles mantêm a produção capitalista a operar para não penalizar os lucros das classes ricas. É uma farsa. Esse confinamento não tem efectividade para a saúde (a França, a Espanha e a Itália demonstram isso dramaticamente com a explosão de casos e mortes corona-positivos).

Uma coisa é certa: na maioria dos países, as pessoas não se sentem protegidas pelos seus respectivos governos, devido à inércia em termos de gestão da crise sanitária do Covid-19, conduzida com uma ímperícia impregnada de uma escandalosa hipocrisia. Em vez de lhes proporcionar saúde e protecção médica,  terrivelmente em falta, as autoridades oferecem-lhes para todo o tipo de tratamento a espera,  o confinamento sob controle policial.

O confinamento selectivo inscreve-se na lógica do capitalismo.

A funesta pandemia não deve impedir a "sustentabilidade" da economia nacional. No entanto, qualquer gestão eficiente de uma crise sanitária viral envolve duas variáveis ​​de ajuste: contenção total e triagem sistemática. Os dois estão intimamente associados e complementarizam-se. Uma política de contenção parcial é uma operação de quarentena própria das sociedades da Idade Média, essencialmente sem saúde e infraestrutura médica, ou seja, atrasada. Isso explica a taxa de mortalidade excepcionalmente alta em Itália, devido a uma política de contenção parcial, ainda por cima amputadas de medidas de teste de despistagem. É como travar uma guerra contra um exército moderno com bestas.

Na verdade, para ser eficiente, a fim de impedir a pandemia, uma autêntica gestão da sanitária deve implicar uma política de contenção total por um período de pelo menos quatro semanas, acompanhada pelo encerramento de todas as empresas não essenciais, transporte público , a requisição de todas as grandes superfícies a serem geridas directamente pelos habitantes da cidade, a fim de organizar a distribuição directa de alimentos aos residentes, a fim de evitar a concentração de clientes nas lojas, a proibição do tráfego de pedestres e automóveis, tudo isso combinado com a protecção da saúde materializada por testes maciços de despistagem à escala nacional, distribuição gratuita de máscaras de protecção respiratória e outros equipamentos de segurança para os raros trabalhadores requisitados pelo interesse público de trabalhar em áreas vitais para a sobrevivência da população confinada.

Tudo isso aliado a uma comunicação pública transparente, baseada no respeito dos direitos do povo e não sobre a coerção apoiada por uma política de segurança policial e militar, ditada exclusivamente pela preocupação com a protecção dos interesses financeiros e a perpetuação do domínio político das classes ricas, apavoradas porque ameaçadas de desaparecer sob o efeito da erupção de terremotos sociais iminentes e inevitáveis. Uma coisa é certa: a gestão da actual crise sanitária, associada a uma crise económica, deve ser cuidada colectivamente por todos os membros do povo e não ser delegada nos actuais representantes oficiais do estado, desqualificados, responsáveis, além disso, pela incúria sanitária e pelo colapso económico. Também não deve ser "governada" pelas forças da ordem, braços armados das classes dominantes, ligadas à manutenção da sua ordem social e, consequentemente, da sua riqueza, porque se trata de resolver um problema de saúde e económico "civil", e não de supervisionar uma operação securitária e de aplicação da lei e da ordem.


O povo não deve confiar nos governantes responsáveis ​​pela actual crise económica e sanitária. Hoje, graças à mortal crise económica, a prioridade das classes dominantes, como podemos ver, é a de salvar as suas riquezas (as suas empresas, os seus bancos, os seus investimentos, os seus bens imóveis) e não a de proteger a vida das pessoas. A união nacional defendida pelos governos para lutar supostamente contra o coronavírus visa defender apenas o seu sistema de exploração e opressão ameaçado pela crise económica e pelas inevitáveis ​​revoltas sociais insurreccionais,  não para salvar a vida das pessoas que já estão há muito mortas socialmente.

E se o coronavírus era o melhor aliado do proletariado, ele vem relembrar-lhe, no momento certo, a natureza criminosa das classes dominantes e do seu sistema dominante alienante, especialmente a necessidade de, finalmente, ter de resolver tomar o seu destino económico, social e político em mãos, livrando-se definitivamente do vírus capitalista (personificado pelas classes dominantes) e do coronavírus. De facto, o coronavírus é menos perigoso que o "capitalismo-vírus" porque o primeiro acaba por morrer naturalmente no corpo humano, pelo menos em 98% dos casos. Pelo contrário, o "capitalismo-vírus", mata de forma permanente o "nosso" corpo social, sem descanso.

Mesloub Khider


















domingo, 5 de abril de 2020

Por uma questão de saúde exigimos a demissão imediata da Directora-Geral da Saúde!




O descontrolo, a inépcia, a deriva, são uma recorrência das políticas de saúde levadas a cabo por este governo e pela Direcção-Geral de Saúde que executa as suas orientações. Muitas das primeiras, por seu turno, influenciadas pela péssima informação que a DGS lhe faz chegar.

Claro que a deriva a que assistimos, teve a sua génese na criminosa política de saúde que assenta no desinvestimento acelerado no sector, no modelo capitalista de gestão hospitalar para os hospitais públicos e na cegueira total face aos indicadores que faziam perceber que uma pandemia de dimensões catastróficas iria chegar muito rapidamente à Europa e, também, a Portugal.

Nem o governo nem a DGS cuidaram de prevenir a logística necessária dos meios para fazer face a uma pandemia, que a avaliar pelo que se passara na China e em outros pontos do continente asiático, iriam provocar um pressão inaudita sobre a capacidade hospitalar de fazer face ao atendimento, internamento e tratamento de um número tão vasto de infectados com a COVID-19 e de outros doentes.

Com o propósito de escamotear esta deriva criminosa, todos os dias somos bombardeados com os “pontos da situação” emitidos pela DGS e pela sua directora-geral, Graça Freitas, por vezes assessorada e acompanhada pelo Secretário-Geral de Estado da Saúde.

Escondem aos operários e trabalhadores, através de uma catadupa de números, a razão porque, quer o governo, quer a DGS, não acautelaram, com o tempo de que dispuseram e desperdiçaram, a falta de equipamentos e infraestruturas hospitalares, porque é que não anteciparam a necessidade de um adequado levantamento da capacidade produtiva instalada que lhes permitisse obstar o défice notório de máscaras, outros equipamentos de protecção e ventiladores.

Mais grave, fazem publicar números e estatísticas que se vêem a revelar falsas, deste o número de infectados até ao registo de mortes que não ocorreram, ao mesmo tempo que difundem informação que se vem a perceber não ter fundamento, como foi o recente caso da “cerca sanitária” à cidade do Porto.

A confiança, quer nos números, quer nas instruções, cuja fonte está na Directora-Geral da Saúde e no Secretário de Estado da Saúde, esvaiu-se completamente. Toda a gente vê, pelo que hoje é, amanhã deixa de ser para mais tarde voltar a ser, que os malabarismos instrutórios e explicativos dos dados são motivados não pela defesa da saúde pública mas pelas quantidades (nulas, previsões de chegadas, etc.) de equipamentos existentes em stock.


A inépcia e a irresponsabilidade instalaram-se na Direcção-Geral da Saúde e na Secretaria de Estado da Saúde. Trata-se, pois, de uma questão de saúde pública, a exigência da demissão imediata de Graça Freitas e do Secretário de Estado da Saúde.


Retirado de: http://www.lutapopularonline.org/index.php/pais/89-saude/2700-por-uma-questao-de-saude-exigimos-a-demissao-imediata-da-directora-geral-da-saude