terça-feira, 3 de março de 2026

Uma nova agressão americana contra o Irão


Uma nova agressão americana contra o Irão

3 de Março de 2026 Robert Bibeau


Por Robert Bibeau e Normand Bibeau .

O especialista americano Scott Ritter apresenta aqui uma análise relevante, embora parcial, da mais recente agressão do Império Americano contra o Estado iraniano, contra o governo legítimo e legal e contra todo o povo iraniano. Veja: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Guerra terrorista contra o Irão, que retalia atacando alvos americanos e israelitas (Scott Ritter, M. Marandi).

Contudo, é preciso questionar se Scott Ritter está a ser induzido ao erro pelas maquinações nos bastidores entre as potências imperialistas ocidentais (os Estados Unidos e seus vassalos) e as potências imperialistas orientais (China/Rússia/BRICS). Assim, é impossível compreender os motivos, os objectivos estratégicos e os meios tácticos dessa agressão sem situar esses eventos recentes, esses assassinatos e esses crimes de guerra no seu contexto histórico. Veja Irão: 165 mortos no bombardeamento de uma escola feminina.   https://www.youtube.com/watch?v=FfItI_RzTCY


Assim, a agressão americana contra o Irão não começou com a agressão israelita de 12 dias em Junho de 2025, nem mesmo em Novembro de 2015 com o acordo do chamado grupo imperialista P5+1 a respeito do programa de enriquecimento de urânio do Irão para fins civis. A interferência ilegal e ilícita do imperialismo americano teve início entre 1951 e 1953, durante o governo do presidente Eisenhower, com uma revolta palaciana e um golpe de Estado orquestrado pela CIA para derrubar o presidente eleito Mohammad Mossadegh, que havia legitimamente nacionalizado os poços de petróleo em benefício da burguesia iraniana.

Em 1951, o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh nacionalizou a Companhia Anglo-Persa de Petróleo (AIOC). Desde 1914, a AIOC detinha o controle exclusivo das reservas de petróleo do Irão e extraía 33 milhões de toneladas anualmente; apenas 18% dos lucros eram devolvidos ao povo iraniano. O Reino Unido reagiu impondo um embargo económico ao Irão e fomentando uma intervenção armada, embora inicialmente sem o apoio dos Estados Unidos. Essa política levou o Irão à beira da falência, mas tornou o primeiro-ministro muito popular por se opor a Londres. No entanto, a chegada de Dwight Eisenhower à Casa Branca levou Washington a considerar o controlo do Irão como um imperativo estratégico. Em Agosto de 1953, Mohammad Mossadegh foi deposto após uma conspiração orquestrada pelos serviços de inteligência britânicos e americanos , a Operação Ajax . Após a sua queda, o fantoche americano   Mohammad Reza Shah Pahlavi estabeleceu um regime político autocrático e ditatorial baseado no apoio americano. Em 1955, o Irão aderiu ao Pacto de Bagdade e, assim, alinhou-se  com o bloco americano durante a Guerra Fria . A vitória foi total para os Estados Unidos, que garantiram, dessa forma, uma presença duradoura na região. As forças seculares e nacionalistas enfrentaram uma repressão sangrenta.  https://fr.wikipedia.org/wiki/Iran

Conforme relatado pela Wikipédia, desde o início do Estado burguês iraniano, há 75 anos, o objectivo estratégico do imperialismo britânico, primeiro, e depois do imperialismo americano, era controlar as fontes de energia petrolífera e dominar as rotas de transporte de combustíveis fósseis.

A " revolução nacionalista burguesa " de 1979, manipulada pelo clero, agências de espionagem ocidentais, a grande media a soldo de países ocidentais e numerosos grupos políticos tanto de direita quanto de esquerda, às vezes patrocinados por potências estrangeiras, resultou na vitória fraudulenta do aiatolá Khomeini, apoiado pelos Estados Unidos, pelo clero xiita e por uma facção nacionalista da burguesia iraniana disposta a negociar a distribuição das receitas do petróleo com potências estrangeiras.

Em 1 de Fevereiro de1979, Ruhollah Khomeini retornou ao Irão após um exílio de 15 anos. Após a proclamação da neutralidade das forças armadas na revolução, Khomeini declarou o fim da monarquia Pahlavi em 11 de Fevereiro e estabeleceu um governo provisório . Houve grande júbilo no Irão em torno da queda do Xá, mas também considerável discordância sobre o futuro do país. Embora Khomeini tenha conseguido reunir o clero xiita, havia dezenas de grupos revolucionários, facções liberais, marxistas, anarquistas, fascistas e seculares, bem como uma ampla gama de grupos religiosos financiados por uma potência estrangeira ou outra   .


Voltemos à nossa pergunta original: o objectivo desta última agressão do Império contra o Irão é realmente "  mudar o sistema económico em Teerão "? Não, certamente que não! O objectivo estratégico desta guerra, assim como de todas as que a precederam nestes 75 anos, é " mudar o regime em Teerão ", estritamente com o objectivo de substituí-lo por um " regime fantoche pró-americano " no lugar de um regime nacionalista chauvinista que seja membro da aliança das potências orientais (China/Rússia/Irão/BRICS) .

O agressor ianque sabe que bombardear a população iraniana  jamais provocará uma mudança de " sistema ". Uma " mudança de sistema económico  " resultará de uma revolta popular ou de uma guerra civil local, não do bombardeamento e massacre de civis. As diversas facções em guerra no Médio Oriente almejam o controle dos recursos naturais e dos mercados para benefício próprio e dos seus respectivos poderes dominantes.

Como exemplo, nesta revolta populista que começou em Junho de 2025, o agressor americano não apoiou essa revolta e permitiu que ela fosse esmagada pelo aparelho estatal iraniano, porque se os Estados Unidos querem uma mudança de " regime "... não querem ver um regime pró-China/pró-Rússia instalado e muito menos um governo revolucionário popular em Teerão.

Após a " Guerra dos Doze Dias " de Junho de 2025, o exército iraniano e a Guarda Revolucionária destituíram o Líder Supremo, Aiatolá Khamenei , dos seus poderes políticos e assumiram o controlo total do aparelho estatal. Eles esmagaram toda a resistência popular e aprisionaram milhares de mercenários criminosos do Mossad, da CIA, do MI6 e de outras agências, preparando-se assim para o próximo confronto.

Desde o primeiro dia do ataque americano, em 28 de Fevereiro, as forças militares iranianas permitiram o assassinato do ancião no seu apartamento em Teerão e, em seguida, a decapitação da velha intelectualidade iraniana (mais de 40 líderes, segundo relatos), a fim de sinalizar ao império em declínio e ao seu subserviente Israel que a mudança de guarda havia ocorrido em Teerão e que o eixo imperialista oriental (China/Rússia/Irão/BRICS) havia vencido esta primeira ronda da guerra sem fim entre as duas alianças.  https://www.youtube.com/watch?v=bU959c7Jr7c



No seu estudo, Scott Ritter oferece uma boa análise da situação desesperadora dos Estados Unidos e do destino que aguarda o "  velho, barrigudo e paralítico homem laranja, abandonado e traído pela sua comitiva MAGA, a quem ele decepcionou ", que Ritter resume da seguinte forma: " Trump está a presidir ao seu suicídio político. Ele perderá as eleições de meio de mandato e 2026 marcará o fim de sua presidência descontrolada ."

De facto, a viragem e o declínio desta enésima guerra contra o Irão, e desta sucessão de ataques, boicotes e sanções, estão no cerne do Médio Oriente. Dois impérios, um em declínio, que desde 1945 negoceia o seu poderio militar, que alega ser a garantia da "  segurança da região ", em troca da submissão dessas burguesias locais fantoches; e o outro império emergente, o candidato chinês à hegemonia mundial.

Desta vez, a China decidiu apoiar o seu protegido iraniano durante a crise. Tecnologias militares, radares modernos, drones, foguetes e munições foram enviados para o Irão. Uma frota chinesa significativa está estacionada no Golfo Pérsico. Satélites chineses de alta tecnologia monitorizam os céus e o território, guiando mísseis iranianos até aos seus alvos. Da mesma forma, a Rússia está a implantar o seu sistema S-400 e outros sistemas para detectar e destruir mísseis americanos e israelitas.

A União Europeia parece completamente alheia ao cenário do Médio Oriente, assim como na frente ucraniana, onde prepara a sua capitulação às tropas russas, não sem antes impor uma última resistência à carne para canhão e à população ucraniana para salvar a honra desses plutocratas caídos… e quem ainda se importa com o desrespeito ao direito internacional, a democracia “violada” e as negociações fúteis sobre o enriquecimento de urânio iraniano?


QUE POSIÇÃO DEVEM TOMAR OS PROLETÁRIOS DIANTE DA AGRESSÃO BÁRBARA E FASCISTA DO CAPITALISMO MUNDIAL, PRINCIPALMENTE DOS SIONISTAS AMERICANOS/ISRAELITAS, CONTRA OS SEUS IRRESPONSÁVEIS DESCENDENTES IRANIANOS "ISLAMISTAS", A FIM DE SE APODERAREM DOS SEUS HIDROCARBONETOS E PRIVÁ-LOS DOS SEUS CONCORRENTES IMPERIALISTAS CHINESES?

CONTINUA

 

Fonte: Une nouvelle agression américaine contre l’Iran – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



segunda-feira, 2 de março de 2026

G.Bad - Sobre a existência de conselhos no Irão

 


G.Bad - Sobre a existência de conselhos no Irão

1º de março de 2026Olho de falcão6 visualizações0 comentários

Quando nos reclamamos do movimento dos conselhos de Pannekoek, de Rosa Luxemburg, é porque eles, na sua época, tinham sido os mais perspicazes na análise da revolução russa e dos órgãos de classe chamados a empreender a grande mutação para o socialismo. Desde então, o capitalismo transformou-se consideravelmente e, com ele, as organizações proletárias, ao ponto de, se quisermos permanecer fiéis à concepção de « autonomia operária », não devermos querer aplicar formas de organizações de uma época àquela que vivemos hoje. Daqui resulta que os meus camaradas de Echanges, agora em grande parte desaparecidos, tinham dúvidas sobre a existência destes chamados conselhos no Irão. No entanto, entrego-vos o documento do site « la Bataille socialiste » que dá conta da constituição de tal tentativa no Irão.

Hekmat (1951-2002)


Mansoor Hekmat,

Pseudónimo de Zhoobin Razani (primeiro pseudónimo: Nader)

« O ser humano é o fundamento do socialismo. O socialismo é o movimento para restaurar a vontade consciente do ser humano » (M. Hekmat)

Um dos poucos da esquerda iraniana a não apoiar a orientação islamista tomada pela Revolução de 1978-79. Estudante em Londres nos anos 70, onde terá estado próximo do Revolutionary Communist Group de D. Yaffe, participa no Irão na fundação do Marxist Circle for Worker’s Emancipation e da União dos Militantes Comunistas (UCM, chamada correntemente Sahand, 1978, que participou em 1982 numa conferência da CWO «ultra-esquerda» em Londres) e depois de um novo P.C. iraniano (1983, distinto do Toudeh pró-soviético que apoiava o regime de Khomeini) através da fusão de Sahand com o grupo curdo armado ex-maoísta Komala. Sai em 1991 com os seus amigos deste partido considerado demasiado «nacionalista de esquerda» [*] e funda o Partido Comunista-Operário do Irão, que:

considera que nunca existiram países socialistas, a URSS e a China não tendo abolido o assalariato e a exploração (se ele fala de capitalismo de Estado e considera que os bolcheviques estavam limitados pela cultura da IIª Internacional, considera a Revolução de Outubro como proletária, tentando construir e defender um Estado operário nos limites históricos do movimento real da época. A lição principal é sobretudo económica: se a classe operária no poder não estabelecer a propriedade comum dos meios de produção e não abolir o assalariato, o seu poder permanecerá provisório e estará condenado ao fracasso. cf) ;

e que defende a laicidade e os direitos das mulheres, a partir de uma experiência concreta do embuste da frente anti-imperialista com a reacção teocrática (que os fedayins justificavam pela teoria estalinista da revolução por etapas como na China dos anos 20).

Definições de privacidade

Ele participa em breve na fundação de um Partido Comunista-Operário do Iraque, com os dois partidos a estar intimamente ligados desde a origem. Refugiado em Londres, Mansoor Hekmat morre de cancro em Julho de 2002. Os seus apoiantes permanecem muito activos na diáspora iraniana e no sindicalismo iraquiano (sabe-se menos sobre a implantação no terreno no Irão), as suas ideias e a sua experiência permanecem actuais entre os apoiantes do «terceiro Campo» (nem imperialismo dos EUA, nem islamismo político) que se opõem tanto à teoria da CIA da «guerra das civilizações» como à da frente anti-imperialista incluindo os islamistas (que contaminou o trotskismo ocidental).
Nota

[*] O PC do Irão de onde saíram os hekmatiatas ainda existe (www.cpiran.org ), essencialmente no Curdistão iraniano, onde recuperou a designação Komala.

TEXTOS:

A Revolução Iraniana e o papel do proletariado, com Hamid Taghvaie (1978)
O Mito da Burguesia Nacional e Progressista (Volume 1) (1979) (Volume 2) (1980)
Uma Consideração da Teoria Marxista da Crise (02-1980) pdf
A invasão do regime iraquiano e as nossas tarefas (09-1980) [+ em ]
Guerra, Teoria e a «Teoria da guerra» (1980)
Populismo no programa mínimo: crítica de «O que os Fedayeen dizem sobre o povo» [1] (1981)
O Estado em períodos revolucionários (1985)
A experiência da revolução operária na União Soviética [1] – [2] – [3] – [4] (1986) [+pdf ; [en, sve]
Sobre o recente debate entre Sweezy e Bettelheim (1986)
Conselhos operários e sindicatos: as questões cruciais da discussão (1986)
Nacionalismo de esquerda e comunismo operário (1987) [+ en] [+ ca]
A situação internacional e o estado do comunismo (12-1988) [+ sve][+ de]
As nossas diferenças [1] + [2] [+ en, it., sve]
Eventos na Europa Oriental e perspectivas para o socialismo operário (1990) [+ engl.]
Guerra dos EUA no Médio Oriente (02-1991) pdf 
Os desafios que o comunismo enfrenta hoje (09-1991)
Entrevista sobre a crise no Médio Oriente (10-1991)
Fim da Guerra Fria e perspectivas para o socialismo operário (Entrevista da Rádio KPFK) (10-1991)
Comunicado sobre a formação do PCOI [+ en (11-1991)
As Características Fundamentais do Partido Comunista Operário (trad. revista) [+ pdf (trad. antiga)] (1992) [+ it , ca ]
O Marxismo e o Mundo Moderno [1] e [2] (1992) [+ en , de , it ]
Democracia: Concepções e Realidades (1993)
Um Mundo Melhor, Programa do Partido Comunista Operário (1994) pdf [+ en , de , it , esp ]
Os Sonhos Proibidos dos Mujahidin (1994)
Terrorismo Islâmico (1994)
A Mulher na Vida e na Morte: De Frederick West a Anthony Kennedy (1994)
Algumas Palavras em Comemoração à Revolução de 1979 (1995) [+ en ]
Federalismo é um Slogan Reaccionário (1996)
Islão, Direitos da Criança e o Véu (1997) [+ ca ]
Partido e Sociedade: De Grupo de Pressão a Partido Político (1998) [+ en ]
Sob o Véu da Repressão (1998) [+ en ]
O Islão Faz Parte do 'Lumpenismo' na Sociedade (1999)
A Situação no Irão e a Posição Distinta do Partido Comunista Operário (Discurso no 3º Congresso do Partido Comunista do Irão) (2000)
Pena de Morte: A Forma Mais Deplorável de Assassinato Deliberado (2000)
20 de Junho de 1981: 20 Anos Depois (2000)
Acabar com o Terrorismo é Nossa Tarefa (2001) [+ it.]
Sobre a Luta Contra a Religião (2001) [+en ]
O Mundo Depois do 11 de Setembro (2001) [pdf] [+ it.]
A Ascensão e Queda do Islão Político (2001) [+ it.][+ en.]
Arquivos de M. Hekmat
O nosso Dossier sobre o Comunismo da Classe Operária
Panfletos de Hekmat do Partido Comunista Iraquiano
Vídeo de Mansoor Hekmat
Mansoor Hekmat, Marxista Filantropo Privado de Seus Sonhos para o Irão [+ en] (The Guardian, 2002)
Obituário do Serviço de Imprensa do Irão
Mansoor Hekmat, Marxista Iraniano [+ en] (News and Letters, 2002)
Morte Prematura de Respeitado Líder Comunista (Green Left Weekly, 2002)
Quem Foi Mansoor Hekmat?, Hamid Tagvaie
Mansoor Hekmat, Do Marxismo Revolucionário ao Comunismo da Classe Operária, Nicolas Dessaux (2003) [+ pdf]
Descobrindo Mansoor Hekmat, Ken MacLeod (2003)
Mansoor Hekmat e o Comunismo Operário, Hamid Tagvaie (2004) [pdf] 
Arquivos de M. Hekmat
Nosso dossier sobre o Comunismo Operário
Panfletos de Hekmat do Partido Comunista Iraquiano
Vídeo de Mansoor Hekmat
Mansoor Hekmat, marxista filantropo privado de seus sonhos para o Irão [+ en] (The Guardian, 2002)
Obituário do Serviço de Imprensa do Irão
Mansoor Hekmat, marxista iraniano [+ en] (News and Letters, 2002)
Morte prematura de respeitado líder comunista (Green Left Weekly, 2002)
Quem foi Mansoor Hekmat?, Hamid Tagvaie
Mansoor Hekmat, do marxismo revolucionário ao comunismo operário, Nicolas Dessaux (2003) [+ pdf]
Descobrindo Mansoor Hekmat, Ken MacLeod (2003)
Mansoor Hekmat e o Comunismo Operário, Hamid Tagvaie (2004) pdf 

 

Fonte: G.Bad- A propos de l’ existence de conseils en Iran – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




domingo, 1 de março de 2026

Mélenchon e "Epstine": quando a acusação de anti-semitismo se torna uma ferramenta de desqualificação

 


Mélenchon e "Epstine": quando a acusação de anti-semitismo se torna uma ferramenta de desqualificação

1 de Março de 2026 Robert Bibeau


Por Khider Mesloub .

Desde a reabertura do caso Jeffrey Epstein, um cenário mediático singular emergiu na França. Duas dinâmicas paralelas – aparentemente distintas – desenvolveram-se simultaneamente, revelando uma mudança gradual na narrativa.

Por um lado, diversos jornais e programas de notícias publicaram inúmeros artigos dedicados ao que chamaram de "aspecto russo" do caso: mencionando "conexões com o Kremlin", destacando e-mails que mencionam contactos próximos ao governo russo e questionando a possibilidade de um traficante de influência ou um agente ligado a Moscovo. O padrão é familiar: acúmulo de pistas, contextualização geo-política, lembranças das tensões pós-2014 e inserção no contexto mais amplo da interferência atribuída à Rússia.

Contudo, os factos publicamente comprovados limitam-se a contatos e tentativas de reaproximação. Nenhuma prova judicial demonstra que Epstein tenha sido contratado por um serviço de inteligência russo ou que tenha transmitido informações estratégicas ao Estado russo. A teoria, portanto, existe como uma hipótese mediática, mas permanece juridicamente não comprovada. Mesmo assim, tem sido enfatizada com insistência suficiente para ter um impacto duradouro na cobertura mediática do caso.

Entretanto, e é aqui que a sequência se torna reveladora, esses mesmos meios de comunicação franceses dedicaram artigos inteiros a um debate linguístico inesperado: como se deveria pronunciar "Epstein"? "Epstine"? "Epchtaïne"? Dever-se-ia privilegiar a pronúncia americana ou recorrer à etimologia germânica do sobrenome? Plataformas online retransmitiram comentários de ouvintes sobre as variações ouvidas no ar. Jornais publicaram análises sobre a origem asquenaze (ver nota do tradutor no final do artigo) do nome e a fonética alemã do sufixo "-stein". Através de comentários constantes, a questão tornou-se um tema editorial por si só. Nenhuma acusação de anti-semitismo foi feita contra essas redacções por debaterem publicamente a pronúncia de um nome de origem judaica asquenaze. O tratamento continuou a ser percebido como puramente linguístico e técnico. É aqui que o equilíbrio é rompido.

Do "aspecto russo" ao debate fonético: uma história em movimento

Bastou Jean-Luc Mélenchon mencionar esse debate num comício — ironicamente comentando a "russificação" do nome no contexto de uma conexão russa amplamente divulgada — para que uma controvérsia irrompesse. As suas observações visavam explicitamente a forma como a media francesa abordou a história: segundo ele, a ênfase na hipótese de Moscovo direccionou a interpretação do caso para uma narrativa de interferência estrangeira, em detrimento de outras interpretações focadas nos mecanismos internos que protegiam as elites.

Na sua declaração, o alvo explícito era, portanto, a cobertura da media, e não a identidade pessoal de Epstein. As suas observações não continham nenhuma referência à religião do financeiro, nem qualquer caracterização étnica. Faziam parte de uma crítica à narrativa dominante e seus planos manipuladores. Contudo, em poucas horas, a ironia foi reinterpretada: a discussão sobre o enquadramento tendencioso da media transformou-se num julgamento moral, e a acusação de anti-semitismo dominou uma agenda política e mediática francesa já altamente polarizada pela persistente hostilidade em relação à França Insubmissa (LFI).

 Quando a acusação de anti-semitismo dita a gramática política francesa

Essa mudança revela os excessos do debate político francês, dominado por correntes reaccionárias. Num contexto de polarização e radicalização acentuadas da media e do cenário político dominantes, as acusações de anti-semitismo tornam-se uma reacção instintiva, brandida como arma de desqualificação instantânea, mesmo antes de se examinar o conteúdo das declarações. O efeito percebido — ou, mais importante, o efeito atribuído — ofusca, então, o alvo explícito do discurso. A mudança é impressionante.

Quando a media debateu a pronúncia de "Epstein" durante vários dias, nenhuma grande controvérsia ética surgiu. Quando Jean-Luc Mélenchon trouxe à tona esse mesmo debate apenas uma vez, num comício, para criticar a forma como a media francesa abordou o assunto, a acusação de anti-semitismo apareceu instantaneamente.

Portanto, o problema não é a sílaba em si, mas sim a pessoa que a pronuncia.

Esse contraste reforça, entre os seus apoiantes, a sensação de duplo padrão: tolerada quando veiculada pelos meios de comunicação, a mesma declaração torna-se repreensível assim que é proferida pelo líder da LFI, que é alvo frequente de parte da media e do cenário político francês.

Isso não significa afirmar a existência de uma estratégia concertada sem provas. Mas a diferença na recepção é clara. Num contexto em que cada declaração de Jean-Luc Mélenchon é imediatamente analisada e interpretada através de ópticas já fortemente influenciadas pela extrema-direita, é inegável uma dinâmica persistente de desqualificação proveniente de um segmento dos meios de comunicação e da esfera política.

Neste clima de extrema guinada à direita e polarização exacerbada, uma única sílaba proferida por Mélenchon é suficiente para colocar em movimento a máquina política e mediática e desencadear uma dinâmica de desqualificação através de acusações de anti-semitismo.

Quando uma única sílaba é suficiente para desencadear uma acusação moral, não é mais a língua que está em questão. É o estado da gramática política francesa.

Khider MESLOUB

 

Nota do Tradutor  - Asquenazes são judeus cujos ancestrais se estabeleceram na Europa Central e Oriental (Alemanha, França, Polónia, Rússia) durante a Idade Média. Derivado do hebraico Asquenaz (Alemanha medieval), este grupo desenvolveu uma cultura e língua iídiche distintas. Representam a maioria da população judaica mundial actual, com cerca de 12 milhões.

 

Fonte: Mélenchon et «Epstine» : quand l’accusation d’antisémitisme devient un instrument de disqualification – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Guerra terrorista contra o Irão, que retalia atacando alvos americanos e israelitas (Scott Ritter, M. Marandi)

 


Guerra terrorista contra o Irão, que retalia atacando alvos americanos e israelitas (Scott Ritter, M. Marandi)

1 de Março de 2026 Robert Bibeau


Seyed M. Marandi: Israel e os Estados Unidos lançarão um ataque surpresa contra o Irão em 28 de Fevereiro de 2026.

 


Fonte: Guerre terroriste contre l’Iran qui réplique en frappant des cibles américaines et israéliennes (Scott Ritter, M. Marandi) – les 7 du quebec

Títulos introdutórios aos vídeos traduzidos para Língua Portuguesa por Luis Júdice