quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Socialização fascista e comunismo

 



Socialização fascista e comunismo

"Vós, sombrios trabalhadores de Dalmine, abristes o horizonte. É o trabalho que fala em vós, é o trabalho que consagrou nas trincheiras o seu direito a não ser mais fadiga, miséria ou desespero, porque deve tornar-se alegria, orgulho, criação, conquista de homens livres na pátria livre e grande além das fronteiras." (Benito Mussolini, Discurso em Dalmine, 20 de Março de 1919).

"A lei do Duce sobre socialização será aprovada por todos aqueles que, acima dos interesses privados, veem no programa social do fascismo não só a salvaguarda para uma coexistência ordenada entre capital e trabalho, mas também a possibilidade de afirmar a personalidade e a iniciativa do indivíduo." (Vittorio Valletta, director-geral da FIAT, 1944).

A CGIL é um sindicato de natureza programática que considera a sua unidade e a democracia como características fundamentais. A própria autonomia da CGIL, também um valor primordial, encontra a sua base na capacidade de elaboração programática, principalmente em relação aos empregadores, instituições e partidos, e no carácter unitário e democrático das suas normas de vida interna.

1. Materialismo e Espiritismo

Implementação de instâncias reformistas

No final da Primeira Guerra Mundial, o cenário social abre-se para a revolução proletária. O percurso é conhecido: o Outubro soviético, o Biennio Rosso em Itália e na Alemanha, a confusão criada pelos partidos que, em palavras, se proclamam revolucionários enquanto, na realidade, alimentam a reacção parlamentarista, a absoluta inadequação dos partidos que pretendem guiar a classe operária, o refluxo do ímpeto generoso mas mal dirigido de milhões de homens por toda a Europa e noutras partes do mundo. Uma derrota histórica que vem deixando marca há um século.

Comumente explica-se tal derrota com o surgimento do fascismo, aquele de camisa negra, atribuindo a essa superestrutura um poder capaz de eliminar a luta de classes, ou pelo menos de a aniquilar, primeiro pelo terror, depois pela força do Estado, reavaliado e equipado para o efeito. O esquema sofre de simplificações demais, a primeira das quais é uma inversão entre causa e efeito. Antes da derrota proletária, o fascismo não era mais do que uma das muitas correntes do sindicalismo revolucionário intervencionista, não foi a causa, pelo contrário, precisamente, foi o efeito; e é um fenómeno muito mais complexo do que o apresentado pelas suas interpretações. Não é Mussolini, a camisa negra, o esquadrismo ou a democracia negada que o caracterizam. Também. Mas ele é o produto de uma época revolucionária a que faltou a revolução: uma contra-revolução construída com os restos da revolução.

É nesta perspectiva que estudamos o cenário que precede a grande derrota. No melhor dos casos, como forma de enobrecer o seu património histórico, protagonistas e observadores citam Proudhon, Bernstein, Bergson, Comte, Sorel e outros. Não era, no entanto, o “pensamento” dos grandes homens a influenciar o movimento de milhões de pessoas. Na realidade, era o movimento de milhões de pessoas que procurava uma teoria guia capaz de formar a espinha dorsal de um partido orientador. Bergson tinha desenvolvido uma teoria do conhecimento baseada na união de instinto e inteligência: a inteligência sozinha “sabe” o que procurar, mas é o instinto que pode encontrar; separados, não conduzem a nada, porque o instinto não é capaz de procurar e a inteligência não é capaz de encontrar. O homem é diferente de qualquer outro ser da natureza precisamente porque afirma a sua própria vontade, a qual não é um mero derivado de determinações que a antecedem, mas um verdadeiro acto criativo. Ele é a união entre instinto e inteligência. As declarações estrondosas do fascismo, esta espécie de revolução reaccionária, não são, de qualquer forma, produto do espiritualismo bergsoniano; é antes este último que oferece uma cobertura ideológica, com uma linguagem depurada, a todo o conjunto de acontecimentos em curso. A prova de que não é a filosofia ou o “pensamento” de alguém que influencia os acontecimentos é fácil de verificar: a contra-revolução não fala a língua dos seus teóricos, mas a de uma pequena burguesia decadente, a dos D'Annunzio, Marinetti, Mussolini e dos arditi. Bergson escreve numa língua essencial (dar-lhe-ão o Nobel da Literatura); os seus alegados discípulos enchem a linguagem de adornos indigestíveis. Quando Mussolini tentar atribuir-se ascendentes nobres, dirá ter contrabandeado um pouco de Bergson para o movimento socialista.

Na realidade, não faltava uma teoria revolucionária do conhecimento bem diferente, e, pelo contrário, ela tinha, de certo modo, constituído a base de um gigantesco aparelho social que ia desde as cooperativas da social-democracia alemã até ao aparelho estatal soviético russo. Um fenómeno imenso do qual se ramificaram correntes que representavam canais de ligação entre o antigo modo de produção, mortalmente ferido pela revolução na Rússia, e o novo que tentava nascer. A osmose entre o velho e o novo era inevitável, mas, se se aceitar esta leitura, torna-se também claro que o destino da revolução estava ligado à direcção predominante que os fluxos da osmose tomariam.

Nos anos 20, não foi o fluxo que se inspirava em Marx, Engels e no partido original da revolução que prevaleceu; ou pelo menos, no início prevaleceu uma sua versão reformista, perante a qual nem sequer se impôs uma clara orientação da burguesia, incapaz de regressar a uma nova era do iluminismo. Para sobreviver a si mesmo, o modo de produção capitalista estruturou-se teoricamente em função de uma extrema auto-defesa perante as forças que o ameaçavam. Historicamente desarmado em termos de teoria, encomendou, pois, uma à classe intermédia que, servilmente, a apresentou sem grande esforço: sendo uma classe intermédia, vaso de barro entre vasos de ferro, recolheu fragmentos de teorias que não lhe eram próprias espalhadas pelo cenário e deles criou um híbrido monstruoso, por sua vez sub-dividido em correntes: uma teoria intermédia. Milhões de homens Instintivamente sentiram que o mundo se dirigia para o socialismo, mas não possuíam a inteligência de uma teoria que lhes mostrasse como distinguir, entre todo esse socialismo, o original, o "verdadeiro", o sucedâneo.

O histórico partido a que pertencemos resolveu de uma vez por todas os problemas ligados à análise das múltiplas teorias pequeno-burguesas. Que, todas, para além dos nomes das pessoas, se baseiam em categorias invariáveis: a comunidade local democraticamente produtiva, o Estado ao serviço dos cidadãos (ou eliminado conforme o caso), a indústria entendida como unidade orgânica que abolir o dualismo patrão-operário, a forma social exterior roubada ao comunismo e esterilizada de modo a ser compatível com o capitalismo, etc.

E ao mesmo partido devemos outra definição poderosa: o fascismo é o realizador dialéctico das instâncias reformistas. Perfeito: para a realização das reformas é necessário o armamento adequado, ou seja, um Estado que não seja representado por um parlamento ocupado em entreter-se com conversas sobre si próprio e um executivo eficiente, capaz de programar escolhas económicas difíceis. E programar significa ter o controlo da força de trabalho; objectivo alcançável, mais do que com a utilização de aparelhos policiais úteis sobretudo na fase de afirmação fascista, através do sindicato, o único interlocutor natural para satisfazer as reivindicações operárias. Mussolini, em Dalmine em Março de 1919, durante a ocupação de uma fábrica de metalurgia (a Franchi Gregorini) durante a qual o ciclo produtivo não foi interrompido, exalta o trabalho como um valor universal antecipando o socialismo turinense que, com Gramsci, exaltará precisamente essa forma de ocupação "positiva" da fábrica.

Exaltação inter-classista do trabalho

Na realidade, como veremos, a guerra desperta todas as classes, confrontando-as com os seus deveres históricos, e todas as classes respondem lançando no palco da história aquilo que têm e o que podem ter. Não é por acaso que, devendo a sua existência ao trabalho, ou seja, à força de trabalho vendida a preço livre no mercado, todas as classes convergem para a exaltação do trabalho, quase como uma idolatria. Na Rússia, o estacanovismo é a manifestação mais evidente (tardia) disso, mas desde 1918, em todo o mundo, surge uma ideologia do trabalho coerente e compacta nas suas ramificações, que alcança o coração da política tradicional. Em Itália, antes mesmo de ser partido, o movimento fascista adquire a consciência de que, para vencer a batalha que se está a jogar no mundo, é necessário unir os factores de produção: capital e trabalho. Não é por acaso que, no imediato pós-guerra, enquanto as sedes das tradicionais organizações operárias são atacadas, se desenha o futuro sindical corporativo do fascismo. E não é por acaso que se infiltra no movimento fascista um ódio por aquela burguesia que não participa directamente na produção, ódio ao qual se dá dignidade teórica, uma vez que o capitalista ausente se auto-exclui do casamento entre capital e trabalho. Torna-se, em poucas palavras, um parasita. No programa fascista, este tipo de burguês deve ser eliminado da cena, expropriado.

A exaltação do trabalho em classes unidas não é, no entanto, uma invenção fascista. A pequena burguesia dannunziana já havia adoptado a mesma exigência. De forma menos teatral e mais apropriada à tragédia que se abateria sobre a Europa, na Alemanha industriais como Walther Rathenau teorizavam o advento de uma sociedade integrada na qual os capitalistas se convenceriam de que a sociedade não existia para lhes permitir embolsar dividendos substanciais, mas para encher de mercadorias os barcos que transitam pelo Reno. Rathenau inspirou o filme Metropolis de Fritz Lang (1926), onde os operários em revolta eram finalmente reconduzidos à cooperação pelo filho do grande capitalista. Parece que o filme era um dos preferidos de Hitler. Rathenau foi assassinado em 1922 por dois nazis, mas o conteúdo da sua doutrina foi um dos pilares sobre os quais o nazismo se apoiou.

Quando, no pós-guerra, os vencedores impuseram a ordem política democrática à Alemanha, a colaboração entre operários e patrões foi sancionada, além pela persistente natureza corporativa dos sindicatos, por comissões especiais que deveriam dedicar-se à Mitbestimmung, a co-determinação da empresa. Este cancro para-sindical também afectou o socialismo italiano, quando dentro dele se fez caminho a ideia de que os proletários poderiam conquistar posições úteis para a tomada do poder controlando eles mesmos o ciclo produtivo das fábricas, ideia que parecia estranha aos capitalistas da época, mas que Giolitti considerou perfeitamente em continuidade em relação ao que já acontecia com o “confronto” entre operários e capitalistas na vida sindical normal. Quando em 1920 as fábricas foram ocupadas, Giolitti foi tranquilamente de férias, sabendo bem que os operários estavam confinados impotentes dentro das fábricas enquanto o exército, a guarda régia, a polícia e os carabinieri dominavam a praça. No pós-guerra, em Itália, como na Alemanha, a estrutura sindical previa, para além das Comissões Internas, os Conselhos de Gestão, onde não se elaboravam "reivindicações", mas se realizava trabalho conjunto entre operários e capitalistas para o bom funcionamento do organismo comum que era a fábrica.

A persistência até hoje da prática corporativista é um claro sinal da existência de uma força social voltada para salvaguardar o capitalismo através desta fórmula consociativa. A concertação de 1992-93 em Itália é uma forte prova disso: os acordos a nível governamental não previam qualquer participação sindical de base, nem sequer formal, e foram assinados sem que a massa de operários fosse de alguma forma consultada (que expressou a sua raiva nas manifestações de rua atirando pedras aos próprios representantes). Outras fórmulas, como por exemplo a participação accionista dos operários, nunca tiveram sucesso, não tanto pelo receio de que os operários tomassem o controlo da fábrica através da maioria nos conselhos de administração (uma tomada de controlo proletária!), algo que se pode evitar com regulamentação, mas porque se refere a indivíduos que recebem ou compram acções; enquanto o corporativismo sanciona um pacto de classe universal.

Corporativismo tecnocrático

Uma forma mais sofisticada de corporativismo foi tentada por Adriano Olivetti: a fábrica não deveria ser concebida como uma unidade separada do resto da sociedade, mas como parte integrante de um todo que se expandia por um território urbano e agrícola. O qual, entendido como uma síntese entre os projectos de Owen, Proudhon e Fourier, poderia realizar a superação do dualismo cidade-campo, indústria-agricultura e seria auto-gerido. No âmbito deste programa, a fábrica, a real, já tinha estabelecido uma estrutura preliminar, fundando um sindicato (Autonomia empresarial) e um partido político (Comunidade). No seu livro Democracia sem partidos, Olivetti observa que o fundamento da democracia consiste numa representação que não seja mistificação, uma delegação portanto de muitos a um baseada na confiança e sobretudo na pertença a uma comunidade; enquanto no sistema de partidos a responsabilidade esbate-se uma vez que o partido se torna o recipiente da delegação e da representação, torna-se ou seja, pouco a pouco autónomo em relação àqueles que deveria representar.

A fábrica, segundo Olivetti, é o reservatório de conhecimento e de organização, portanto é natural que se torne também o elemento central da comunidade, a qual deve escolher não tanto os seus representantes, mas os seus dirigentes, ou seja, aqueles que devem dirigir fisicamente cada aspeto da vida comum. O partido tradicional mortifica a representação e substitui-a, enquanto o dirigente olivettiano desempenha simplesmente as tarefas que lhe são confiadas pela comunidade, tendo um papel técnico, não político. Ou pelo menos: a nova estrutura política da comunidade é aquela que se baseia na competência técnica. A democracia baseada na representação de partidos que usam a população para os seus próprios fins, em vez de estarem ao seu serviço, já cumpriu o seu tempo. É hora de quebrar o mecanismo perverso de um sistema que é unicamente capaz de conservar a si próprio.

A democracia parlamentar não reconhece as grandes mudanças que transformaram radicalmente, ao longo dos últimos cem anos, a estrutura da sociedade. Ela defende a liberdade também a favor das forças que tendem a destruí-la. Portanto, não pode mais dar origem a uma ordem social justa, mas tende agora a tornar-se a ponte de passagem para os regimes que causariam novas ditaduras… No novo Estado, o poder assentar-se-á firmemente não numa única força, a democracia, que é muito fácil presa do poder do dinheiro. O poder estará ancorado na cultura juridicamente organizada e, ao mesmo tempo, ao trabalho será conferido um determinado poder político… No final do fascismo, a maioria dos intelectuais via nos partidos um instrumento de liberdade. Eu não. São organismos que seleccionam pessoal político inadequado. Um governo expresso por um Parlamento tão pobre em conhecimentos específicos não antecipa as situações, é arrastado por elas.” (Adriano Olivetti, Democrazia senza partiti, Edições Fondazione Olivetti).

Conferir poder político ao trabalho. Na concepção "sindical" da revolução já não há lugar para a representação tradicional de tipo eleitoral: a reivindicação é superada pela realidade produtiva porque os operários e os capitalistas estão agora ligados às tarefas que têm de desempenhar; a comunidade liga-os a si pelo mesmo título, uns e outros trabalham para os mesmos resultados, e na fábrica – é normal – para atingir um certo resultado é necessário que todas as forças colaborem para esse fim. Nunca houve definição mais apropriada do que a leninista de sindicato como correia de transmissão entre o partido e as massas. Quer seja afirmado em sentido revolucionário ou em sentido reaccionário, a realidade material da relação sindicatos-massas é dada. Não existe outra forma organizativa que possa substituir o sindicato enquanto correia de transmissão. E a burguesia, deliberadamente ou não, roubou ao partido revolucionário a arma mais poderosa que este possui para se aproximar da classe.

Mas é através do sindicato corporativo que avança a religião do trabalho. Parece razoável: se uma estrutura reivindicativa defende os operários da voracidade dos capitalistas, não se vê porque a mesma estrutura não poderia atacar, arrancando aos capitalistas muito mais. Por exemplo, com regras destinadas a finalmente expressar a aptidão da classe operária para gerir directamente a fábrica. E esta condição foi realizada, não demasiado paradoxalmente, precisamente pelo fascismo, quando decidiu expropriar os capitalistas incapazes de produzir e vender, substituindo-os por funcionários remunerados, capazes de recuperar as fábricas desastrosas e de as vender no mercado. Aliás, se o estado intervém directamente no salvamento das empresas, o banco e o crédito em geral mostram-se totalmente inúteis.

A greve-mito

O positivismo tinha libertado a ciência do gueto em que a burguesia a tinha colocado, e com a nova visão do mundo, racional e mecânica, parecia que nada podia parar o “progresso”. Bergson tinha corrigido a abordagem introduzindo alguma dose de espiritualismo e Sorel tinha contaminado tudo com um pouco de marxismo adoçado através de Blanqui e Bernstein.

Mussolini admite ter contrabandeado Bergson e Blanqui entre as filas do Partido Socialista. Ainda não senhor do campo parlamentar, e portanto ainda não pronto para uma clara declaração de intenções, num discurso de 1921 em Montecitorio reconhece a dívida para com todas as personagens mencionadas e tenta ainda tingir de vermelho a sua política, chegando a propor à Confederação Geral do Trabalho uma colaboração activa, começando pelas propostas reformistas, como a das oito horas. Num artigo no Comunista, Bordiga responde que é precisamente essa coloração superficial que caracteriza os grandes renegados: Mussolini movia-se, como Turati e Noske, no plano de um movimento operário "politicamente incolor, independente, sonho de uma burguesia decadente." Bergson, quem era este? pergunta Bordiga. E acrescenta: "Parece-nos que está na hora de acabar com esta história de Bergson."

Entre todas as contaminações, a bergsoniana era a mais descaradamente idealista e tinha um peso considerável, pelo que precisava ser contida. Mas todas foram em alguma medida patrocinadas por Mussolini, certamente não uma águia no que diz respeito às subtilezas político-filosóficas. O facto é que a "fermentação do seu bergsonismo" ou o dinheiro vindo de França fizeram-no tornar-se interventista e mestre do idealismo da época. Mas não conseguiu angariar o maior número de seguidores entre os socialistas, e sim entre os da direita e os ultra-esquerdistas sindicalistas revolucionários à Sorel. Na verdade, foram estes últimos a representar a estrutura principal do futuro Partido Nacional Fascista.

Sorel remetia tanto a Bergson como a Marx. Do primeiro, tirava uma superioridade da consciência instintiva (sintética) sobre a racional (analítica); do segundo, referências à luta de classes. No seu esquema, a consciência ocupa um lugar relevante, na qual estaria depositada uma concepção fantástica do mundo, motor da vontade: aquela imagem do mundo que em cada um de nós representa um estímulo para o instinto (mito). O mito contrapõe-se à utopia; ele é uma força directamente e imediatamente disponível para a acção, enquanto a utopia pode ser ponderada e discutida através do raciocínio. Não importa se o mito, como a utopia, é realizável ou não: o importante é que esteja na base da acção. Pode-se falar eternamente de revolução sem produzir um movimento revolucionário; enquanto o mito, se é aquele complexo de imagens capaz de evocar instintivamente o confronto social nas massas, produz nova realidade. A greve geral é a manifestação prática do mito soreliano.

Um dos movimentos mais perfeitos da manifestação do mito seria, para Sorel, o cristianismo. Quer o seu programa fosse realizável ou não, assumiu forma social envolvendo milhões de pessoas, independentemente da racionalidade das premissas. Da mesma forma, transportado para os dias de hoje, o mito assume a forma de luta de classes, portanto a classe oprimida torna-se o sujeito do confronto para a mudança; e a greve geral a sua arma, "o mito no qual se encerra todo o socialismo".

Apenas a greve geral teria o poder de representar a catástrofe necessária para o surgimento de uma nova humanidade. Torna-se, portanto, perfeitamente compreensível a rejeição preconcebida por parte dos reformistas, que em vez disso pregam um gradualismo pacífico, uma transformação ao nível da mesa de negociações. É nesse terreno que se unem Bergson, Sorel, Proudhon e as correntes anarquistas: a violência não é um fenómeno racional que possa ser guiado segundo um programa, é antes um "ímpeto vital e criador", uma explosão espiritual, única premissa possível para formas de organização de mais alto nível.

O carácter espontaneísta deste relato histórico é evidenciado pelo facto de que a premissa de partida é verdadeira: as revoluções não são o resultado de um processo intelectual; o seu programa não é estabelecido por alguém que queira instaurar uma nova sociedade com características pre-determinadas. Mas os impulsos espontâneos para a mudança, numa situação revolucionária, organizam-se e orientam-se de acordo com uma polarização histórica, até darem origem ao poder directivo do partido da revolução. A violência não é um aspecto "ético" da revolução, é uma força material que precisa de ser orientada: "os partidos e as revoluções não se fazem, dirigem-se", disse a nossa corrente. Sem partido revolucionário não há revolução.

Sorel recolhe o que estava no ar e, apesar das frases estrondosas sobre a violência, não consegue esconder o verdadeiro aspecto reformista do seu programa. Em O futuro socialista dos sindicatos, atribui às cooperativas, aos gabinetes de emprego, às inspecções do trabalho e a outras instituições "sociais" a capacidade de treinar a classe operária para a gestão do poder. Atribuindo a este aspecto uma importância exagerada, eleva-o mesmo à categoria de "luta definitiva pelos poderes políticos":
"É uma luta para esvaziar de toda vida o organismo político burguês e transferir para um organismo político proletário, criado de forma a corresponder ao desenvolvimento do proletariado, tudo o que nele era útil.

"Se Mussolini antecipa Gramsci no discurso de Dalmine, Sorel antecipa Mussolini. Só que o fascismo apropria-se da dinâmica da revolução: não basta conquistar funções particulares, é preciso conquistar o Estado. Na nossa revolução conquista-se para o destruir e substituí-lo por um órgão transitório; na contra-revolução conquista-se para o reforçar e elevá-lo a verdadeiro poder executivo, livre da mistificação democrática."

Em comparação com o esquema de todos os descendentes de Proudhon, o fascismo manifesta-se a um nível superior. Em Sorel contempla-se uma luta gradual do proletariado pelo poder nas dobras da sociedade tal como é, "para obter uma legislação social favorável ao desenvolvimento da organização política… para arrancar ao Estado e ao município, uma a uma, todas as suas atribuições, para enriquecer os organismos proletários em formação, ou seja, os sindicatos". No fascismo, a questão do poder coloca-se de forma sumária: utilizando o mecanismo democrático e, ao mesmo tempo, absorvendo da doutrina revolucionária as características que lhe são úteis, o poder é objecto de conquista imediata e não de reivindicação gradual.

A ambiguidade criativa

Não é objectivo deste trabalho fazer uma crítica a Sorel ou a Bergson, mas interessa-nos descrever o ambiente bergsoniano no qual amadurece o carácter "sindical" do fascismo. Podemos também perguntar-nos por que razão Sorel era uma das leituras preferidas de Mussolini, mas sobretudo é importante compreender porque é que, num certo ponto, a revolução deu lugar à contra-revolução e o Estado tomou a forma de instituto corporativo, englobando os sindicatos e implementando uma política laboral que seria, a partir desse momento, a religião laica do Estado burguês, tornando-se, não por acaso, o artigo número um da constituição italiana, ou seja, a do primeiro país a tornar-se fascista.

Frequentemente foi afirmado que o sistema teórico de Sorel teve uma influência desproporcionada em relação aos seus conteúdos elementares. Seria mais correto dizer que a grande confusão existente durante a falhada transição de fase dos primeiros anos de 1920 deu origem à necessidade de simplificar os programas políticos perante massas desorientadas. O comportamento de Sorel foi, de qualquer forma, ambíguo. Oscilando entre anarco-sindicalismo e fascismo, teve simpatias pela extrema-direita anti-parlamentar francesa, mas opôs-se ao movimento d’Annunziano, considerou Lenine como o maior teórico revolucionário após Marx, mas distanciou-se do marxismo.

Não é surpreendente que fosse mais lido em Itália do que em França: segundo o historiador Zeev Sternhell, a abordagem teórica de Sorel, combinada com o realismo oportunista de Mussolini, forneceu a base programática do fascismo, além de, fenómeno altamente indicativo, quase todo o aparelho dirigente do partido fascista, cujos quadros, pelo menos em 80%, provinham das fileiras do sindicalismo revolucionário de matriz soreliana, enquanto os restantes 20% vinham mesmo das fileiras socialistas (Zeev Sternhell, Nascimento da ideologia fascista, Akropolis).

Este percurso-tipo foi partilhado por muitos, como demonstra, por exemplo, o de outro representante do sindicalismo francês, Hubert Lagardelle, que o próprio Mussolini, em A doutrina do fascismo, associa à mesma corrente histórica:

No grande rio do fascismo encontrarão os filões que se separaram de Sorel, de Lagardelle do Mouvement Socialiste, de Péguy, e da coorte de sindicalistas italianos, que entre 1904 e 1914 trouxeram uma nota de novidade ao ambiente socialista italiano, já desvirilizado e cloroformizado pela fornicação giolittiana, com as Páginas livres de Olivetti, A Loba de Orano, o Devenir Social de Enrico Leone.

Seguidor de Proudhon e de Sorel e atraído por Marx, Lagardelle fundou a revista Le mouvement socialiste (1899-1914), manifestando simpatias, depois da guerra, pela Revolução de Outubro. Mas, constatada a degeneração de Moscovo, afastou-se dela aproximando-se da direita e acabando por aderir, em 1926, ao fascismo francês.

Mussolini falava de 'grande rio do fascismo', mas deveria, mais correctamente, falar de 'grande rio da contra-revolução', que estava a varrer todas as posições e movimentos que poderiam ser utilizados para impedir o outro poderoso rio, ou melhor, o mar, da revolução russa. O movimento fascista era um dos muitos até que as circunstâncias, e certamente também aquele animal político que era Mussolini, o conduziram a assumir o controle. Entre as figuras que ele reivindica, pode parecer estranho encontrar Enrico Leone, que foi uma figura de destaque do sindicalismo 'revolucionário' italiano de matriz marxista. Foi, aliás, o principal animador e líder enquanto os sindicalistas revolucionários foram uma corrente dentro do PSI; no qual Leone estava próximo de Arturo Labriola, também sindicalista, e de Enrico Ferri, líder da facção intransigente. Na revista que fundou, Il divenire sociale, grande parte do material de Sorel foi publicado. A definição de "sindicalismo puro" em uso naqueles anos deriva do seu compromisso em favor da luta sindical autónoma. Leone permaneceu no PSI quando os sindicalistas revolucionários saíram do partido (1907), alinhando-se depois com os maximalistas e apoiando a revolução bolchevique, da qual, no entanto, se afastou após os primeiros sinais de cedência. Escreveu contra o idealismo activista de Sorel e contra o intuicionismo metafísico de Bergson. Era, portanto, um homem político de alguma coerência em comparação com o uso comum da época. Mas Mussolini não se enganava: também Leone fazia parte da corrente que aspirava à autonomia da classe operária relativamente à política dos partidos. Lutar, contudo, por essa autonomia significava, como a nossa corrente precisou, encerrar o proletariado no sistema fechado da fábrica e das categorias de ofício. Significava ter como interlocutor não toda a sociedade com o seu estado, mas um representante do capital com a sua fábrica. Tudo sancionado pela lei e pelo controlo do estado. A nova corporação, imaginada pela pequena burguesia antes de o fascismo a reivindicar, não era uma reedição da medieval, mas algo completamente diferente e perigoso: já não era um organismo formado por elementos da mesma classe de artesãos (tecelões, ferreiros, oleiros, armeiros, etc.), portanto com os mesmos interesses a defender, mas um organismo formado por elementos de duas classes com interesses irreconciliáveis. O novo corporativismo anunciava-se como a mais tremenda derrota do proletariado desde que esta classe pôde definir-se como tal.

É portanto verdade que um dos critérios, talvez o mais importante, para definir os conjuntos objectivos em que se dividiam as classes na época da revolução reaccionária é o do reformismo acompanhado pelo corporativismo da época imperialista. Existe um fio lógico que une Bergson a Mussolini, Bottai a Lama, Sorel a Gramsci, Leone a Buozzi, Rigola, d'Aragona. Que o leitor não se preocupe com os nomes das pessoas: mesmo que não os conheça, o denominador comum é, precisamente, o "sindicalismo puro", a comparação entre operários e capitalistas representados pelo conjunto "trabalho como factor de produção", sem intermediários, verdadeira transubstanciação de uma realidade material (trabalho) num efeito político (tentativa de eliminação da luta de classes).

2. Socialização intensa

D'Annunzio, paradigma das classes médias

O comportamento da pequena burguesia e das não-classes nunca é autónomos, mas depende da relação que estabelecem com os dois grandes classes frente a frente na sociedade capitalista; e oscilam a partir de um de acordo com o equilíbrio de poder que se estabelece entre burguesia e proletariado. O comportamento de D'Annunzio e dos seus seguidores será o produto desta oscilação.

Mencionámos que Bergson, Sorel, Mussolini e outras personagens aparecerão, mas os nomes servem-nos apenas como referência mnemónica, já que, Especialmente ao estudar a génese do fascismo "sindicalista", será fácil demonstrar que são produzidos caracteres e termos derivados dos seus nomes e Não são fatores históricos. A história humana, desde o nascimento da propriedade, tem sido História da luta de classes e esta é escrita por massas de homens, não os seus líderes, que são empurrados para a frente por isto ou Esse evento crucial. Por isso, falaremos sobre o movimento "D'Annunzio" como expressão das forças que operavam na sociedade da época; Forças que não o fazem limitaram-se a caracterizar este movimento, e nem sequer se organizaram no contexto dos acontecimentos, mas foram ativos e numerosos, quase todos movidos por princípios que tinham muito em comum e com base no que encontraram uma forma de agregar.

Neste contexto, uma biografia de D'Annunzio pode ser resumida como um resumo de biografias de participantes anónimos nos acontecimentos dessa época. Claro que o Poet era famoso pelas suas obras literárias, era um herói de guerra, tinha uma atração particular pelo gesto marcante, mas a sua vida era como a de muitos que foram arrastados para os mesmos factos.

Em 1897, D'Annunzio teve a sua primeira experiência política. Eleito nas fileiras da direita, tornou-se porta-voz de uma necessidade que mais tarde viria envolvia massas de homens: a superação, o finalizado, do velho e a formação de novos, motivados por convulsões como guerra e revolução. Como bom herdeiro do Transformismo, mudou imediatamente para a esquerda, explicando o gesto com o famoso frase "Estou a ir em direção à vida" (Mussolini mais tarde caminharia o invertido, e ambos se encontraram na mesma formação intervencionista). Nos primeiros cinco ou seis anos do século XX, portanto, foi muito renhido para o Partido Socialista e participou nos protestos contra o massacre de Bava Beccaris em Milão. Em 1901 fundou uma loja maçónica, e os maçons foram alguns dos seus companheiros de luta. Em 1910 juntou-se ao movimento nacionalista de Corradini. Proposto para um cargo académico, recusou, aconselhando o os seus interlocutores lutaram pela eliminação da escola. Na Em setembro de 1919, organizou uma unidade de soldados, ex-combatentes e voluntários civis para a ocupação de Fiume, que as potências vencedoras não fizeram tinha concedido à Itália (a "Vitória Mutilada").

Veremos mais tarde o significado destes eventos, por agora limitamo-nos a recordar que forças mistas participaram na empresa de Rijeka, entre os quais termos como "direita" e "esquerda" já não existiam sentido. D'Annunzio foi comandante das Forças Armadas de Rijeka e, juntamente com Alceste, de Ambris, líder da UIL, uma união patriótica de inspiração sindicalista revolucionário, escreveu uma constituição (a Carta de Carnaro, 1920) surpreendente do ponto de vista "social". Em 1920, o A Regência de Carnaro foi o único estado do mundo a reconhecer a República Soviético russo. E em 1922, por ocasião da Conferência de Génova na comércio internacional, foi D'Annunzio quem apresentou no seu Comissário dos Negócios Estrangeiros soviético Čičerin.

A antiga sociedade não tinha intenção de morrer e a nova não tinha intenção de morrer. Ele chegou ao nascimento. No imenso choque entre modos de produção, a revolução e a reação eram disfarçadas de acordo com o equilíbrio de forças ou das relações entre correntes políticas que atingiram níveis de confusão irrecuperável até certo ponto, a menos que o poder seja reformado Executivo da classe dominante.

O período pós-guerra rebenta

No final da Primeira Guerra Mundial, o período pós-guerra "rebentou" em Itália. Nos primeiros dias de setembro de 1918, realizou-se em Roma o XV Congresso do Partido Socialista. Os participantes notam que o grupo tem que resistiu ao teste da guerra e que, entretanto, amadureceu fortemente simpatias pela Revolução de Outubro. O ar que respiras no congresso é bem descrito pelo discurso de Luigi Repossi, a favor da luta até ao fim Para o poder:

"Chega de lisonjes, classe contra classe, por um lado a burguesia todos juntos contra nós, do outro só nós contra o mundo inteiro, Esta é a tarefa dos socialistas."

Dentro do grupo há um conflito contínuo entre a parte dos supers (os "direitistas") e a extrema-esquerda (movimento Salvatori) que reúne a maioria no Congresso tanto na sequência de desastres humanos como materiais devido à guerra e ao poderoso eco dos acontecimentos na Rússia.

No mesmo ano, realizou-se o VII Congresso Nacional da FIOM (ramo dos metalúrgicos da CGL) aprova o dia jornada de trabalho de oito horas, o salário mínimo garantido, o pagamento de Feriados, igualdade no trabalho das mulheres e a regulação da vida da fábrica, enquanto a Confederação Geral do Trabalho lança o proposta para a convocação de uma Assembleia Constituinte, reunindo o apoio da Republicanos e reformistas.

A direcção socialista, por outro lado, rejeita a proposta da CGL sobre a Constituinte, pois considera-a uma reivindicação burguesa, além de ser defendida por aqueles que desejavam a guerra. A facção abstencionista também a ataca veementemente, considerando-a uma manobra para desviar a atenção da questão do poder. A Constituinte era concebida como uma assembleia nacional eleita por sufrágio universal, um órgão sem função legislativa, chamado simplesmente a renovar a constituição existente dentro das relações burguesas. Mais uma mistificação para alimentar a lenda da soberania popular, argumento sempre usado para iludir a classe operária. Uma mistificação que objectivamente tendia a fazer passar entre os proletários a falsa necessidade de unidade entre diferentes formações políticas, numa óptica interclassista. É claro que o Partido Socialista tende, com a sua oposição, a fazer saltar a hipótese de uma participação dos socialistas no governo, situação que teria amarrado as mãos do partido, tal como esperavam os apoiantes (por exemplo, Nitti) de um envolvimento que afastasse o perigo de revoltas.

Em Janeiro de 1919, nasce o Partido Popular de Don Sturzo e, nas eleições de Novembro do mesmo ano, os votos que ele obtém, somados aos do Partido Socialista, alcançam a maioria. Mas faltam completamente os pressupostos políticos para um governo formado pelos dois partidos. Todos os equilíbrios políticos que se determinaram em tempo de guerra foram quebrados e o novo panorama político é caracterizado por uma situação de difícil governabilidade para a burguesia italiana.

Instabilidade política, cresce a luta

A sucessão de governos que são «fruto de alquimias parlamentares» (De Felice, Mussolini il rivoluzionario) certamente não garante a estabilidade de que a economia do pós-guerra precisaria e, acima de tudo, é um factor de desconfiança no sistema parlamentar. Com o fim da guerra, cai a razão de ser da coligação entre as forças políticas que deram origem, em 1917, ao Fascio parlamentare di difesa nazionale (mais de 150 deputados e 90 senadores), e que se baseava na intenção comum de salvaguardar as condições para a continuação da guerra até à vitória. É difícil, na crescente confusão política, manter unidas forças que são, na realidade, incompatíveis. Mas muitos (entre os quais Antonio Salandra, ex-presidente do Conselho) desejavam a sobrevivência do Fascio parlamentare, uma agregação criada para responder às mesmas necessidades que deram origem ao Fascio d'azione rivoluzionaria interventista, e cujo manifesto político tinha sido redigido no final de 1914 por intervencionistas de esquerda com o objectivo de levar os proletários a lutar para defender a nação.

O intervencionismo apresentava uma gama de posições que iam do liberalismo conservador dos nacionalistas aos projectos mais radicais dos sindicalistas revolucionários e dos republicanos. No final de 1917, após a publicação do Pacto de Londres pelos bolcheviques que chegaram ao poder, assinado em 26 de Abril de 1915 pela Itália e pelos representantes da Tríplice Entente e mantido em segredo até então, eclodiram fortes contrastes políticos no seio da burguesia italiana. De acordo com o Pacto, a Itália, entrando em guerra contra os Impérios Centrais, deveria obter uma parte da Dalmácia, o Trentino, o Tirol do Sul, a Veneza Júlia e muito mais. Mas a política do presidente Wilson não contemplava tal solução: os Estados Unidos entraram na guerra mais tarde e não assinaram nenhum acordo.

Dentro da frente nacionalista italiana, surge agora toda uma série de posições relacionadas com a aceitação ou não do conteúdo expresso no Tratado. Os mais radicais defendem que não se pode ceder em nada em relação às promessas feitas e que é absolutamente necessário obter a adição de Fiume, que em 1915 a Entente tinha atribuído à Jugoslávia.

Fiume

Neste ponto, é útil uma breve história da cidade de Fiume para compreender a posição dos nacionalistas pró-italianos, que defendiam que a cidade deveria necessariamente tornar-se italiana, devido ao voto expresso nesse sentido pelo Conselho Nacional Italiano de Fiume, em 29-30 de Outubro de 1918. Esse órgão, cujo presidente era o istriano Antonio Grossich, tinha precisamente o objectivo de incluir Fiume no reino da Itália.

Durante os séculos XVIII e XIX, Fiume, apesar de se encontrar dentro do território croata, esteve sob soberania magiar, passando por vicissitudes, até que em 1867 foi unida ao reino húngaro como Corpus separatum, conservando assim um certo grau de independência. Tinha a sua própria administração e o seu próprio governador, podendo assim manter os seus estatutos e privilégios, como o de utilizar oficialmente a língua italiana.

Os húngaros, exercendo o seu domínio à distância, a fim de contrariar as ambições de anexação da Croácia, tinham incentivado a cidade a desenvolver relações comerciais com a Itália, facilitando assim a formação de uma burguesia italiana e, indirectamente, o nascimento, em 1905, de um movimento irredentista, “La Giovine Fiume”, que exigia a anexação de Fiume à Itália e que o governo húngaro dissolveria em 1911. Com o colapso do Império Austro-Húngaro, a situação mudou completamente e Fiume, no final da Primeira Guerra Mundial, foi ocupada por tropas multinacionais (inglesas, francesas, italianas e americanas). Nesta situação, que se revelou imediatamente carregada de tensões, insere-se a acção espetacular de Gabriele D'Annunzio.

Conflito entre reformistas

Voltemos aos acontecimentos italianos do pós-guerra. Um defensor tenaz do Pacto de Londres era o ministro dos Negócios Estrangeiros Sidney Sonnino, que nunca escondeu a sua aversão à política das nacionalidades de Wilson. Em nome do princípio da nacionalidade, uma fórmula bastante vaga, havia quem pedisse a anexação de Fiume à Itália e quem se opusesse a isso.

O problema assume um peso internacional e o clima torna-se cada vez mais tenso. Pensemos nas forças intervencionistas democráticas e no seu expoente, Leonida Bissolati, segundo o qual é necessário pôr de lado os interesses italianos na Dalmácia, porque a única forma de combater o perigo bolchevique é a política das nacionalidades de Wilson, com quem se encontra a 4 de Janeiro de 1919. O presidente do Conselho, Vittorio Emanuele Orlando, e Sonnino, por outro lado, viam no nacionalismo a única defesa contra o comunismo. Duas posições antagónicas que obrigam Bissolati a demitir-se do governo e a proferir o discurso «renunciatório» da Scala (11 de Janeiro de 1919), no qual propõe renunciar à Dalmácia, ao Tirol e ao Dodecaneso. Arditi, futuristas e fascistas, que organizaram uma manifestação patriótica pró-Dalmácia em frente ao teatro, atacam-no duramente.

Orlando e Sonnino, encorajados pela intransigência do rei Vítor Emanuel III, abandonam a Conferência de Paz, em curso em Paris, organizada pelos países vencedores da Primeira Guerra Mundial (18 de Janeiro de 1919) com o objetivo de delinear novos equilíbrios geo-políticos na Europa e redigir os tratados de paz com os países derrotados. Manifestando claramente a sua oposição à política de Wilson, resumiram a sua posição na fórmula «Tratado de Londres + Fiume». No entanto, terão de regressar à mesa das negociações, que continuaram mesmo na sua ausência. O regresso da Itália à Conferência é visto pelos nacionalistas italianos como uma capitulação e contribui para reforçar a componente mais intransigente. De notar que, nos primeiros meses de 1919, a situação económica é péssima e há greves contra o aumento do custo de vida em toda a península. Por um lado, as críticas dos nacionalistas e, por outro, as greves dos trabalhadores levam à crise do governo Orlando e à constituição do governo Nitti em Junho de 1919.

Reorganização das forças intervencionistas

O novo governo não consegue produzir nenhuma melhoria económica efectiva e, no plano político, a situação piora devido à hostilidade da direita em relação ao novo presidente do Conselho. Em alguns círculos da direita nacional, começa-se a discutir a necessidade de um golpe de Estado ou de uma acção armada para defender a italianidade de Fiume.

Como já antecipámos, com o fim da guerra, as forças intervencionistas encontram-se deslocadas e tentam sobreviver reorganizando-se. A classe dirigente italiana está completamente desacreditada e são necessários novos programas, novas palavras de ordem e novos líderes para revitalizar o capitalismo. Mussolini tem muitos pontos em comum com o reformismo socialista e com as teorias produtivistas: ele defende que o proletariado deve visar o aumento incessante da produção, única fonte de bem-estar e desenvolvimento social dos produtores. Os artigos publicados no Il Popolo d'Italia entre o final de 1918 e os primeiros meses de 1919 exaltam, por um lado, a vitória militar italiana e, por outro, procuram dar-lhe um conteúdo social. Num artigo desse período, intitulado “Vão ao encontro do trabalho que voltará das trincheiras” (Il Popolo d'Italia, 9 de Novembro de 1918), Mussolini lança a ideia do “sindicalismo nacional” e da unidade de acção entre ex-combatentes e trabalhadores.

Os seus interlocutores privilegiados são agora os trincheiristas, os ex-combatentes e os grupos de veteranos que retornam do front. Lembramos que, se no início da guerra as forças armadas tinham 142 generais, no final eram 1.246, um número enorme se pensarmos em toda a hierarquia dos oficiais. Havia também aqueles que ganharam dinheiro e garantias durante a guerra e não pretendiam abrir mão deles. O exército não ficava atrás: os oficiais obviamente opunham-se à decisão do governo de reduzir o seu número aos níveis pré-guerra.

Uma parte dessas forças organizou-se, em Março de 1919, na Associação Nacional dos Combatentes, expressando uma série de reivindicações que reflectiam as do reformismo socialista: convocação da Constituinte, abolição do Senado, distribuição de terras não cultivadas aos ex-combatentes, de acordo com a promessa feita pelo governo durante a guerra.

A tentativa de Mussolini de estender a sua influência sobre a Associação não obteve os resultados esperados, dada a moderação política que a caracteriza, mas a operação terá sucesso com a ligação aos futuristas e aos arditi.

Fascistas, futuristas e arditi

O nascimento do futurismo, como movimento artístico e cultural, remonta ao início do século XX, na fronteira entre a decadente Belle Époque e a nova era das máquinas e do capital financeiro. Na Itália, em 5 de Fevereiro de 1909, é publicado o Manifesto Futurista, escrito por Filippo Tommaso Marinetti, que interpreta bem essa fase de transição:

“Queremos cantar o amor ao perigo, o hábito à energia e à temeridade. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, a corrida, o salto mortal, a bofetada e o soco. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu com uma nova beleza: a beleza da velocidade.”

Grande parte dos futuristas provinha de experiências anarquistas e não era influenciada pelas fanfarronices de Marinetti, mas após a guerra o seu movimento aproximou-se do fascismo. A sua natureza sintetiza perfeitamente o dualismo de uma época de transição em que se decide a vitória ou a derrota do movimento revolucionário. Como corrente artística, portanto, reflexo simplificado das condições materiais em que se encontram as classes, ela adapta-se às relações de força reais: por isso, no seu interior, formam-se correntes análogas às que se formaram na sociedade, todas “revolucionárias”, embora com modalidades e posições diferentes. A modalidade fascista prevalecerá sob a bandeira da linguagem pomposa de Marinetti, enquanto a socialista permanecerá em segundo plano para depois se extinguir. A prova desse camaleonismo artístico dá-se na Rússia, onde o futurismo se alia decididamente à revolução, pelo menos enquanto esta é vitoriosa.

Na Itália, os futuristas, especialmente aqueles que se alinharam com o fascismo, sentem-se à vontade no mundo agressivo do intervencionismo, glorificam a guerra (“único saneamento do mundo”), o militarismo, o patriotismo, o gesto de ruptura dos libertários e as ideias pelas quais vale a pena morrer. Em 1914, foram os primeiros a sair às ruas contra a Áustria e, em 1915, participaram nas “radiosas jornadas de Maio”, uma série de manifestações intervencionistas realizadas em muitas cidades italianas. D'Annunzio também participa dessa embriaguez patriótica e, em 5 de Maio, no Scoglio di Quarto, em Génova, com um discurso belicoso, convida a Itália a entrar na guerra ao lado da Tríplice Entente, ao grito de “Viva Trento e Trieste! Viva a guerra!”.

O movimento futurista, que até então tinha um carácter principalmente artístico-literário, após a guerra ganha uma estrutura e objectivos políticos. Em 20 de Setembro de 1918, na capital, nasce Roma Futurista, “Jornal do partido político futurista”, dirigido por Mario Carli, Tommaso Marinetti e Emilio Settimelli. O partido, que terá vida curta (1918-1920), desenvolverá uma acção de propaganda principalmente entre os arditi.

Os arditi, uma especialidade da infantaria do Exército Real, eram grupos de assalto formados durante a Primeira Guerra Mundial, na primavera de 1917, por iniciativa do general Luigi Capello, com a missão de realizar incursões nas linhas inimigas e abrir caminho para a infantaria. O exército os apresentava como combatentes que enfrentavam o perigo cantando, arrogantes, em busca da “bela morte”. Essas unidades especiais ganharam fama principalmente nas batalhas do Piave e de Vittorio Veneto. Na frente de batalha, eles tinham péssimas relações com os carabineiros devido à sua indisciplina e, quando a guerra terminou, o corpo dos arditi foi dissolvido.

Muitos deles, especialmente aqueles que antes do conflito bélico estavam próximos ao futurismo, retomaram os contatos no pós-guerra. No entanto, as adesões ao Partido Político Futurista não foram numerosas: a partir de Dezembro de 1918, começaram a formar-se os primeiros fasci futuristi e, em Fevereiro de 1919, eram cerca de vinte. Mario Carli, em 20 de Setembro de 1918, publicou na Roma Futurista um “Primo appello alle Fiamme” (Primeiro apelo às Chamas), no qual convocava os arditi:

“A mim, Chamas Negras! Com este grito de guerra que nunca foi lançado em vão... convoco espiritualmente em torno desta folha todos os “Arditi” da Itália... Convoco-os agitando uma bandeira tricolor na minha mão de escritor ainda quebrada e informo-os desta nova batalha. Há muito a fazer aqui em baixo. Há que destruir, varrer, limpar em todos os sentidos... Agora temos uma missão. A Itália criou os arditi para a salvar de todos os seus inimigos. É preciso ter esperança e pedir tudo aos arditi.”

O inimigo, portanto, também é interno: é composto pelos especuladores da guerra, pelos neutralistas e pela burguesia parasitária e enriquecida. Em Janeiro de 1919, Carli fundará a Associação dos Arditi da Itália e, em Maio do mesmo ano, esta começará a publicar o jornal L'Ardito, que o próprio Carli dirige juntamente com Ferruccio Vecchi. O jornal fará campanha pela anexação de Fiume à Itália sob a bandeira da “Vitória mutilada”.

Entre 1918 e 1919, futuristas, arditi, ex-combatentes e fascistas encontraram-se em pelo menos quatro ocasiões: em Dezembro de 1918, muitos futuristas aderiram ao projecto de Mussolini para uma constituinte do intervencionismo; em Janeiro de 1919, Mussolini e Marinetti participaram na manifestação da Scala contra Bissolati; em Março, os futuristas participam em Milão da fundação dos Fasci di combattimento; e, em Abril, com os arditi e os fascistas, atacam a sede do Avanti em Milão.

A ação contra a sede do Avanti insere-se no clima exaltado do Biennio Rosso (Biénio Vermelho) e é o resultado daquele dinamismo que se transforma em exaltação ideológica, à qual se dá brilho filosófico invocando o “impulso vital” bergsoniano contra todo o passatismo. “Marchar, não apodrecer”, este era o lema de Marinetti, dos futuristas e dos arditi. Mussolini tenta dar ordem e enquadrar este magma social em ebulição numa função anti-socialista. Entrevistado poucos dias após os acontecimentos de Milão pelo Giornale d'Italia, declara:

“Tudo o que aconteceu no Avanti! foi espontâneo, um movimento da multidão, um movimento de combatentes e de pessoas cansadas da chantagem leninista. O clima estava insuportável. Milão quer trabalhar. Quer viver. A formidável recuperação da actividade económica era ofuscada por esse estado de espírito de expectativa e medo, especialmente visível naquela parte da burguesia que passa as tardes nos cafés em vez de nas fábricas. Tudo isso tinha que acabar. Tinha que explodir. Foi uma explosão climática, tempestuosa. A fúria do furacão desencadeou-se. O primeiro episódio da guerra civil aconteceu. Tinha que acontecer nesta cidade de paixões impetuosas. Nós, dos fasci, não preparamos o ataque ao jornal socialista, mas aceitamos toda a responsabilidade moral pelo episódio.”

Sansepolcrismo

Em 23 de Março de 1919, realiza-se em Milão, na praça San Sepolcro, nas instalações da Associação de Comerciantes e Empresários, uma reunião programática, anunciada pelo Il Popolo d'Italia, na qual participam vários grupos. O mais numeroso é representado pela velha guarda intervencionista: sindicalistas revolucionários (com De Ambris, seu principal expoente) e fascistas. As outras forças são ex-combatentes, arditi e futuristas. O programa é sintético e inequívoco. Reproduzimo-lo integralmente porque resume bem o clima sincrético daqueles anos e relaciona-se com a Carta do Carnaro do ano seguinte:

Para o problema político, queremos:

a) Sufrágio universal por lista regional, com representação proporcional, voto e elegibilidade para as mulheres.

b) A idade mínima para votar reduzida para 18 anos; a idade mínima para ser deputado reduzida para 25 anos.

c) A abolição do Senado.

d) A convocação de uma Assembleia Nacional com duração de três anos, cuja primeira tarefa seja estabelecer a forma de constituição do Estado.

e) A formação de Conselhos Nacionais técnicos do trabalho, da indústria, dos transportes, da higiene social, das comunicações, etc., eleitos pelas colectividades profissionais ou de ofício, com poderes legislativos e direito de eleger um Comissário Geral com poderes de Ministro.

Para o problema social, queremos:

a) A rápida promulgação de uma lei do Estado que estabeleça para todos os trabalhos a jornada legal de oito horas de trabalho.

b) Os salários mínimos.

c) A participação dos representantes dos operários no funcionamento técnico da indústria.

d) A confiança às mesmas organizações proletárias (que sejam moral e tecnicamente dignas) da gestão de indústrias ou serviços públicos.

e) A rápida e completa reorganização dos ferroviários e de todas as indústrias de transportes.

f) Uma necessária modificação do projecto de lei de seguro de invalidez e velhice, baixando o limite de idade, actualmente proposto em 65 anos, para 55 anos.

Para o problema militar queremos:

a) A criação de uma milícia nacional com serviços educativos de curta duração e Tarefa exclusivamente defensiva.

b) A nacionalização de todas as fábricas de armas e explosivos.

c) Uma política externa nacional destinada a reforçar, em competições, da civilização, a nação italiana no mundo.

Para o problema financeiro queremos:

(a) Um grande imposto especial sobre o capital de natureza progressiva, que tem a forma de uma verdadeira expropriação parcial de todos os riquezas.

b) A apreensão de todos os bens das congregações religiosas, e a abolição de todas as cantinas episcopais, que constituem uma enorme passividade para a nação e privilégio de poucos.

c) A revisão de todos os contratos de abastecimento de guerra e a apreensão de 85% dos lucros de guerra.

As histórias políticas que conduzem ao desenvolvimento do programa San Sepolcro.

Entre meados de Abril e o final de Maio de 1919, De Ambris escreveu um artigo significativo em Il Rinnovamento (31 de Maio de 1919) intitulado "Os limites da expropriação necessária", no qual argumenta que

Por um lado, trata-se de garantir que, ao expropriar uma parte do O capital, a produção não diminui, mas sim aumenta. Do outro lado Trata-se de garantir que o aumento da produção se torne maior benefício para os produtores."

O artigo foi muito apreciado por Mussolini (afinal, na altura em que escrevi o "Manifesto dos Fascis de Combate Italianos" colaborou na mesma De Ambris), que o publica sob a forma de um panfleto. A expropriação, que sempre foi um objectivo de socialistas e comunistas, actualmente é também utilizado pelos Nacional-Socialistas. No artigo "Necessário dissoluções" (n+1, n° 36), observámos:

Os pontos do conciso programa fascista poderiam muito bem ter sido redigidos por Radek durante uma das numerosas reuniões da frente com representantes social-democratas ou, de qualquer forma, do inimigo oportunista. Na verdade, no que diz respeito à “expropriação dos expropriadores”, superava todos os programas da frente, enquanto nas declarações de Mussolini apareciam claramente os traços reformistas da futura “nação proletária”, trabalhadora e sindicalizada.

Mussolini, como vimos, também toma posição sobre a agitação na Franchi Gregorini de Dalmine (Março de 1919), onde foi organizada uma grande greve. A UIL está presente na fábrica, e a ocupação da fábrica é uma primeira experiência de controlo operário da produção. Desde os primeiros dias da ocupação, uma bandeira tricolor é hasteada no telhado. Mussolini percebe imediatamente a importância de se inserir nessa luta, vai a Dalmine e lá, num discurso já parcialmente citado, pronuncia a famosa frase demagógica: “que os ricos paguem a crise” (vejam como o líder do fascismo é moderno e “de esquerda”) e antecipa temas que serão desenvolvidos pela Ordine Nuovo de Gramsci, como, por exemplo, o controle operário da produção. O ex-diretor do Avanti declara que zomba de rótulos e definições ideológicas; os fascistas não são nem socialistas nem anti-socialistas e, dependendo das necessidades, decidem marchar no terreno “da colaboração de classes, da luta de classes e da expropriação de classes” . Eles são, como ele anuncia, “problemistas” e o seu é um anti-partido que não tem princípios fixos, que tem como norma apenas a acção do momento. Acrescentemos ao conjunto contrarrevolucionário o social-democrata Bernstein. Quando dizia que “o fim é nada, o movimento é tudo”, ele demonstrava-nos que Mussolini era aluno de muitos mestres; ou eram os muitos mestres, incluindo Mussolini, que eram alunos de um único e monstruoso conjunto de forças reaccionárias?

Vitória Mutilada

Em Julho de 1919, em vários países europeus, milhares de proletários e socialistas saíram às ruas contra as imposições do tratado de paz assinado em Versalhes pelas potências vencedoras, contra o apoio aos exércitos “brancos” oferecido pela Entente e em defesa das revoluções na Rússia e na Hungria. Mas a “greve geral” de 20 e 21 de Julho não determina nenhum movimento revolucionário e, pelo contrário, revigora a frente anti-proletária.

As negociações de paz ainda em curso em Paris não satisfazem os círculos nacionalistas italianos. São realizados vários comícios em que se reivindica com veemência a anexação de Fiume à Itália. O movimento pela Fiume italiana fortalece-se e começa a tomar forma a organização de um golpe militar, com negociações de alto nível. Muito provavelmente, os líderes do governo sabiam que algo estava a ser tramado...

“Arriscaremos a hipótese de que não foi o facto em si, mas certos detalhes da sua execução que surpreenderam Nitti: ele devia saber, mas talvez tenha sido enganado em relação a certas modalidades acordadas.” (“Fiume e o proletariado”, Rassegna Comunista, 15 de Setembro de 1921)

E aqui entra em cena D'Annunzio. O “poeta-soldado” alista-se no exército já com mais de cinquenta anos e imediatamente se destaca com uma série de acções temerárias, como a famosa façanha de Buccari, uma incursão militar realizada, em Fevereiro de 1918, contra os navios austro-húngaros na baía de Buccari, na Croácia, e o voo sobre Viena, uma travessia aérea na qual milhares de panfletos tricolores são lançados no céu da capital austríaca. D'Annunzio é carismático, conhecido no meio cultural e social italiano e também apreciado nos meios militares; é uma verdadeira figura representativa, um divulgador da ideologia do meio, um reclame que atrai a atenção. Naturalmente, a nossa doutrina há muito tempo demoliu a crença de que a história é feita por grandes homens, à maneira de Carlyle, heróis ou líderes capazes de moldar os acontecimentos. Como escrevemos num dos nossos textos,

O culto paroxístico do Eu atinge o auge na viragem do século, quando a grande burguesia, ocupada com a acumulação espantosa, deixa às classes médias a tarefa de expressar as formas filosóficas, políticas, sociológicas e literárias específicas dessa verdadeira infecção. E o individualismo, pouco a pouco, passa de heróico a negativo. O poético super-homem de D'Annunzio antecede o medo de uma civilização do homem-massa negadora da liberdade individual profetizada por Ortega y Gasset” (Carta aos companheiros militantes das revoluções, 1996).

No final da guerra, D'Annunzio recebe um título de nobreza. Além de Vate, poeta de uma época, medalha de ouro por valor militar, agora ele é príncipe de Montenevoso. Com a sua conduta na guerra, ele garantiu o privilégio de ser ouvido, mas, por ironia da história, a sua influência acabará por criar muitos problemas para os governos italianos. Problemas passageiros, no entanto, já que o fascismo será capaz de engolir e utilizar para os seus próprios fins até mesmo essa figura incómoda.

3. Zona autónoma temporariamente?

A expedição legionária

A organização prática da empresa de Rijeka começa no Verão em 1919, quando nasceu um Comité para Reivindicações Nacionais, do qual várias associações irredentistas são membros, incluindo a Dante Alighieri, a Associação Trento-Trieste, a Associação de Lutadores e a Associação dos Mutilados de Guerra, em contacto com os fascistas, os futuristas e os Arditi.

Forma-se uma rede que reúne em pouco tempo todos os elementos ultra-nacionalistas italianos, com ligações também em sectores empresariais e no exército, pronta para a “defesa” do Adriático. E que também interessa aos círculos governamentais, com os quais mantém contato um industrial italiano defensor da causa da italianidade de Fiume (e financiador da empresa), Oscar Sinigaglia. Outro actor em cena em Fiume é Giovanni Giuriati, advogado veneziano voluntário na Primeira Guerra Mundial e presidente da Associação Trento-Trieste, que mais tarde se tornará chefe de gabinete de D'Annunzio.

Já em Junho, havia rumores sobre a preparação de uma acção em Fiume com o objectivo de defender a sua italianidade contra as decisões previsíveis da Conferência de Paz. Entram em contacto com Badoglio, com o comando do exército italiano, mas a tentativa de envolvimento não dá certo e alarma as autoridades: em 31 de Julho, Badoglio ordena aumentar a vigilância nas fronteiras italianas.

Um facto agrava a situação. Como vimos, após a guerra, uma presença militar multinacional estabelece-se em Fiume. Há tropas francesas, inglesas, americanas e italianas que dividem o controlo da cidade. Em Julho, ocorrem confrontos entre tropas italianas (os granadeiros da Sardenha) e soldados franceses. Os confrontos deixam uma dezena de mortos e geram uma situação complicada, a ponto de ser nomeada uma comissão de inquérito e, em Agosto, ser decidida a transferência dos granadeiros de Fiume para Ronchi, uma cidade em território italiano, perto de Monfalcone. O descontentamento com a partida de Fiume leva sete oficiais estacionados em Ronchi a entrar em contacto com Peppino Garibaldi, Corradini, Federzoni e Mussolini, mas apenas D'Annunzio aceita liderar uma iniciativa que visa obter a anexação de Fiume à Itália. Num artigo da nossa corrente, encontra-se a descrição detalhada da ocupação:

Na noite de 12 de Setembro de 1919, Gabriele D'Annunzio, que partiu de Veneza à tarde, partiu do cemitério de Ronchi, perto de Trieste, com cerca de 1000 homens marchando em caminhões, rumo a Fiume. Fiume estava ocupada por forças italianas em nome dos aliados. Forças italianas vigiavam ao redor da cidade, a linha do armistício. Toda a Veneza Júlia e os arredores de Trieste ainda eram mantidos por forças imponentes do exército italiano, os “legionários” [...] passaram sem dificuldade e, juntamente com o batalhão de Fiume que os encontrou na linha do armistício, entraram em Fiume, tomando posse dela.” (“Fiume e il proletariato”, Rassegna Comunista de 15 de Setembro de 1921).

Participam na empreitada granadeiros e bersagliers rebeldes, além de grupos de arditi que acorreram prontamente e personalidades de várias origens políticas. A sua chegada determina uma situação extremamente tensa, pois configura-se como um acto de deserção e motim, tanto por parte dos granadeiros que estavam estacionados em Ronchi quanto por parte do exército de fronteira que deveria impedir a passagem dos rebeldes.

Há quem veja em Fiume dannunziana o posto avançado do nacionalismo, quem veja a capital futurista da Itália, alguém fala até mesmo da república soviética. Alguns anarquistas falam de Fiume como de uma comuna, a nossa corrente no artigo acima citado escreve:

“Tivemos recentemente a oportunidade de visitar a cidade e não pretendemos escrever com intenções críticas, mas apenas para esclarecer os leitores com os dados que colectámos. Os elementos de Fiume mais próximos de nós, os operários e os companheiros comunistas ou simpatizantes, expressam-se no sentido de que o regime de D'Annunzio era intolerável e que as prepotências e as vessazioni (abuso, tortura, assédio, perseguição, prepotência, moléstia – NdT) contra os operários eram contínuas, mas atribuem estes factos mais ao ambiente que se tinha formado em torno do ‘comandante’ do que ao próprio, de quem poucos falam com aversão.”

Em Fiume, obviamente, não havia nenhuma comuna, nenhum soviete e nenhuma república socialista. Mas é interessante o facto de que muitos protagonistas pensavam assim, induzidos pela sobreposição e hibridização de programas e expectativas.

A ocupação de Fiume

 

Em Setembro de 1919, a maioria dos legionários, entre eles principalmente os graduados do exército, pensam numa acção simbólica que provoque efeitos imediatos a nível governamental e que tenha uma conclusão em pouco tempo. Mas isso não acontece porque “o fogo aceso em Fiume” não provoca nenhum incêndio: o governo Nitti não cai, a população italiana da Dalmácia não se revolta e nem mesmo há grandes movimentos populares na Itália.

Os legionários deparam-se, então, com o problema de como administrar a sua presença em Fiume, como organizar as actividades administrativas correntes e como estabelecer relações com o governo italiano e as outras forças presentes na cidade.

A partida dos contingentes americano, francês e inglês, que deixam a cidade para evitar conflitos, mas com a garantia do governo italiano de que a situação será resolvida em breve, facilita o trabalho dos legionários. Fiume permanece nas mãos dos dannunzianos e dos carabinieri. D'Annunzio deixa a administração da cidade para o conselho nacional, formado após a guerra, e ocupa-se das relações com o exterior.

Já em Outubro, um mês após a ocupação de Fiume, Mudanças políticas que causam descontentamento no burgueses e militares presentes na cidade. O discurso de d'Annunzio, Itália e Vida, de 24 de Outubro de 1919, dá-nos uma ideia do novo clima que se respira:

“Todos os insurgentes de todas as raças reunir-se-ão sob o nosso sinal. E os desarmados serão armados. E a força será oposta à força. E a nova cruzada de todas as nações pobres e empobrecidas, a nova cruzada de todos os homens pobres e livres, contra as nações usurpadoras e acumuladoras de toda a riqueza, contra as raças predadoras e contra a casta dos usurairos que ontem exploraram a guerra para explorar hoje a paz, [...]. Toda a insurreição é um esforço de expressão, um esforço de criação. Não importa que seja interrompida no sangue, desde que os sobreviventes transmitam ao futuro [...]. Para todos os combatentes, portadores da cruz que subiram o seu calvário de quatro anos, é hora de se precipitar sobre o futuro.”

O apelo aos povos pobres contra as nações usurpadoras é totalmente voltado contra o Tratado de Versalhes e a política de nacionalidades de Wilson. Para complicar ainda mais a situação, Giuseppe Giulietti, presidente da Federação Italiana dos Trabalhadores do Mar (FILM), um sindicalista intervencionista que tem contactos com anarquistas e sindicalistas revolucionários, entra em cena. Em 10 de Outubro, Giulietti organiza com a FILM a captura do navio italiano Persia, que transporta 1.300 toneladas de armas destinadas às forças brancas que estão a combater os bolcheviques na Rússia.

O caso do Persia causa grande comoção na Itália, tanto pela quantidade de armas apreendidas quanto pelo facto de estas terem sido desviadas para Fiume. A aventura de Fiume, que no início se caracterizou claramente como nacionalista, com a entrada em cena de Giulietti e do sindicato dos “marítimos”, vai assumindo conotações políticas diferentes. Outro facto relevante ocorre no mês seguinte: a expedição de D'Annunzio a Zara, enquanto as eleições estão a ser organizadas na Itália. Zara é controlada pelo almirante Millo, chefe de um contingente militar italiano. D'Annunzio chega à cidade, recebido benevolentemente pelo almirante, e faz um discurso apaixonado no qual declara legítima a passagem de Zara para a Itália, despertando a preocupação do governo italiano, que teme que a rebelião se estenda a toda a Dalmácia.

À procura de alianças

Desde Setembro de 1919, D'Annunzio estabelece contactos com o governo italiano, iniciam-se negociações e discute-se um projecto que prevê o controle italiano da cidade, deixando, porém, o porto e a ferrovia sob o controle da Sociedade das Nações. Trata-se de encontrar um modus vivendi para a cidade de Fiume que satisfaça a todos. Mas a parte mais intransigente dos legionários não aceita meias medidas e reclama a anexação imediata; enquanto isso, forma-se uma facção que considera necessário chegar a um compromisso com o governo italiano. As negociações são interrompidas. É convocado um referendo que envolve toda a população de Fiume e, na confusão, verifica-se que a maioria é favorável ao compromisso. D'Annunzio decide então invalidar o referendo e romper definitivamente as negociações para o modus vivendi.

A partir desse momento, ocorre uma ruptura dentro do Comando, e Giuriati, chefe de gabinete de D'Annunzio, renuncia. Inicia-se o que podemos definir como a segunda fase da empreitada, talvez a mais interessante, pois o lugar deixado vago por Giuriati é ocupado por Alceste De Ambris, que chega a Fiume em Janeiro de 1920.

A iniciativa de D'Annunzio, que começou com intenções nacionalistas e irredentistas, transforma-se agora noutra coisa. A dupla Sinigaglia-Giuriati, que havia apostado tudo na queda de Nitti como premissa para a anexação de Fiume, está agora fora de jogo. Desde os primeiros dias da sua chegada a Fiume, De Ambris começa a elaborar o que será chamado de Carta do Carnaro, anunciada em Julho e tornada pública em Setembro de 1920. Além das relações com os sindicalistas revolucionários, D'Annunzio e seus seguidores mantêm contacto tanto com os fascistas quanto com os “homens do mar” de Giulietti. Este último, nos primeiros dias de Janeiro, também após a chegada de De Ambris, envia a D'Annunzio uma mensagem na qual o exorta a organizar uma marcha sobre Roma que envolva a FILM, os socialistas e os anarquistas, a fim de estabelecer uma nova ordem social e resolver assim também a questão de Fiume.

A resposta de D'Annunzio é reveladora da mudança “para a esquerda” do Comando:

“ O significado da minha empresa e da minha resistência obstinada torna-se cada dia mais evidente. Todas as vontades de revolta — no vasto mundo — orientam-se para o incêndio de Fiume, que lança as suas faíscas muito longe. Também os croatas, desejosos de sacudir o jugo sérvio, voltam-se para mim. A revolução dos “separatistas” está pronta. Deve eclodir antes de 15 de Março. Tenho as armas também; tenho milhões de cartuchos do Persia.” (cit. de Michael A. Ledeen, D'Annunzio a Fiume, passim).

Eis o testemunho do anarquista Malatesta:

“No início de 1920, tratava-se de um projecto insurreccional, uma espécie de marcha sobre Roma, se assim se quiser chamar. O primeiro idealizador da coisa [Giulietti], que poderia ter recebido ajuda de homens e especialmente de armas de Fiume, colocava como condição sine qua non a participação ou pelo menos a aprovação dos socialistas, tanto para um maior sucesso quanto porque temia que pudessem qualificá-lo de agente d'Annunzio. Houve algumas reuniões a esse respeito em Roma; os socialistas não quiseram saber, e assim nada se fez. (E. Malatesta, Carta a Luigi Fabbri 1930, “Pagine di lotta quotidiana”, Umanità Nova, 1920-1922)

Os projectos insurrecionais acabam por não se concretizar. A ideia de envolver o Partido Socialista, evidentemente, não se sustenta: a aversão a D'Annunzio e aos intervencionistas ainda é forte no meio socialista. Há quem sustente até hoje que o Partido Socialista perdeu uma oportunidade revolucionária ao recusar apoiar os acontecimentos de Fiume (Basile e Leni, Amadeo Bordiga político). Mas uma atitude desse tipo por parte do partido era impensável: os maximalistas de Serrati, apesar de estarem acostumados a compromissos (nunca negaram o seu apoio à direita ultra-reformista), não podiam negar até aquele ponto a política de Bissolati, contrária à anexação de Fiume. Por outro lado, a Esquerda Comunista “italiana” já havia demonstrado uma forte coerência na identificação de todos os obstáculos que se interpunham entre o proletariado e a revolução, em primeiro lugar o interclassismo. De qualquer forma, a classe operária manteve-se alheia aos acontecimentos de Fiume, mesmo que (ou precisamente porque!) muitos dos seus líderes sindicais estivessem presentes. É verdade que todo o movimento para-insurreccional daqueles anos apresentava aspectos avaliáveis em termos favoráveis ao proletariado, mas a ocupação de Fiume não podia ser analisada da mesma forma. Os factores em jogo estavam demasiado ligados à composição interclassista objectiva dos protagonistas, à inevitável preeminência dos factores nacionalistas. Se é plausível que Lenine também tenha visto na aventura de Fiume uma oportunidade revolucionária perdida, é preciso observar que a extrema lucidez táctica do grande revolucionário em relação à difícil situação da Rússia não tinha o seu equivalente na situação dos países ocidentais. Em tempos revolucionários, a obsessão pela frente e a táctica eleitoral são armas mortais do inimigo contra a revolução.

Também Gramsci, escrevendo em Janeiro de 1921 no L'Ordine Nuovo, traçou um balanço não negativo da iniciativa e criticou o trabalho do PSI, que havia demonstrado, “pelos acontecimentos de Fiume, a mesma incapacidade política e a mesma ineficácia em organizar o proletariado como classe dominante, que havia demonstrado” noutras ocasiões. Nicola Bombacci foi além, sustentando que “o movimento d'Annunzio é perfeitamente e profundamente revolucionário, porque D'Annunzio é revolucionário” (La tribuna, 30 de Dezembro de 1920, citado em C. Salaris, Alla festa della rivoluzione). É totalmente natural que, diante desse tipo de infatuação pela teoria das oportunidades perdidas, se acabe procurando oportunidades que deveriam ser conscientemente não apenas “perdidas”, mas rejeitadas. Por exemplo, a nossa corrente criticou duramente a táctica nacional-bolchevique apresentada por Radek à Internacional (cf. “La questione nazionale”, Prometeo n. 4 de 1924). Radek havia manifestado simpatia por um militar nacionalista alemão, um certo Schlageter, fuzilado pelos franceses por ter cometido atentados contra o Tratado de Versalhes.

Entre outras coisas, a esquerda não deixou de prestar atenção aos acontecimentos em Fiume: O jornal Il Soviet, no artigo “Parva favilla” (28 de Setembro de 1919), apesar de ridicularizar a acção romântica de D'Annunzio, avalia as possíveis consequências do seu gesto, vislumbrando a possibilidade de os comunistas se inserirem autonomamente no caos social em curso para desferir um golpe contra a burguesia italiana:

“A pequena faísca ameaça provocar um incêndio. A ocasião é propícia, o ministério pode ir por água abaixo e imediatamente as esperanças surgem e as ambições se exaltam. [...] O gesto de D'Annunzio é soberbo, diz o aspirante a ministro; é deplorável, diz o ministro em exercício que não quer desistir. A coroa é colocada em jogo. A burguesia está toda em alvoroço. A classe operária não pode e não deve ficar inerte, ela deve estar vigilante. Não se trata apenas de impedir novas loucuras e dar apoio aos chamados anti-militaristas da burguesia contra os outros. [...] Que os burgueses se digladiem entre si, nós ficamos de vigia e preparamos as nossas armas, prontos para atacá-los no momento oportuno. Os acontecimentos podem precipitar-se, seria culpa nossa não sabermos tirar proveito disso.”

Portanto, não havia indiferença por parte do grupo do Soviet, mas uma defesa ferrenha das fronteiras de classe e, ao mesmo tempo, a necessidade de se preparar para a acção caso surgisse a oportunidade certa.

Nos primeiros meses de 1920, nasce a Liga de Fiume, uma tentativa de promover uma anti-Sociedade das Nações posicionada contra o Tratado de Versalhes e a favor dos povos colonizados, com o objectivo de transformar a cidade na “Pátria das pátrias”. Um dos idealizadores do projecto é o poeta belga Leon Kochnitzky, que chegou lá fascinado pela empreitada de D'Annunzio e que, a partir da cidade, tentará tecer relações com os nacionalistas irlandeses e egípcios e com os revolucionários russos.

Em Abril, ocorre uma grande greve dos operários em Fiume. D'Annunzio desempenha um papel de mediação e chega-se a um acordo para pôr fim à agitação; mas, após o fim da greve, os empresários não respeitam os acordos e desencadeia-se uma repressão na qual, no entanto, parece que o poeta não tenha participado.

A constituição da Liga agrava ainda mais as relações com a componente militar mais moderada estacionada na cidade. Em Maio de 1920, a companhia dos carabinieri reais, cujo comandante se destacou pela repressão à greve operária de Abril, abandona Fiume com algumas centenas de homens, envolvendo-se também num tiroteio com os arditi que se opunham a ela. Trata-se de um motim dentro do motim.

Para conseguir ter uma visão mais clara da situação caótica, os anarquistas enviam a Fiume um redactor da Umanità Nova, Randolfo Velia, que relata:

«Assim que cheguei a Fiume, quis ouvir a voz dos quartéis e tive de me convencer de que aqui a disciplina não é a disciplina férrea que domina nas fileiras de todos os exércitos. Vi soldados a brincar com oficiais, que, na verdade, se aglomeravam à minha volta para me convencer de que não eram eles que comandavam, mas os soldados que obedeciam. O juramento dos recrutas já não é o mesmo que se usa em Itália, as bandeiras já não têm a coroa do rei e a «marcha real» foi abolida. Entre os soldados e oficiais, reconheci muitos que estiveram connosco nos motins da Semana Vermelha, mas que depois foram arrastados por um entusiasmo doentio para a infame guerra. Todos expressaram um ardente desejo de renovação social; todos se declararam mais revolucionários do que nós; todos prometeram juntar-se a nós na iminente revolução social. Um capitão, acreditando que eu ria incrédulo, disse-me: «Não ria com ironia e diga a Malatesta que aqui [sic] não está a escória do exército, como ele escreveu, mas há um pequeno exército pronto a sacrificar-se pelo triunfo dos mais elevados ideais sociais».

A Carta do Carnaro

Por sua vez, D'Annunzio declara ao enviado anarquista:

«Sou a favor do comunismo sem ditadura [...]. Não é de admirar, pois toda a minha cultura é anarquista e porque está enraizada em mim a convicção de que, após esta última guerra, a história dará um novo salto em direcção a um progresso audacioso. [...] É minha intenção fazer desta cidade uma ilha espiritual a partir da qual possa irradiar uma acção, eminentemente comunista, para todas as nações oprimidas.» (Randolfo Velia, «Lettera sulla situazione fiumana», Umanità nova, 9 de Junho de 1920).

O poeta passa, portanto, do nacionalismo ao «comunismo» com certa desenvoltura, numa espécie de esquizofrenia política típica das classes médias em crise.

A autonomização do Comando da metrópole é atestada pelo conteúdo da constituição da Regência Italiana do Carnaro:

«A vossa vitória está em vós. Ninguém pode salvar-vos, ninguém vos salvará: nem o Governo da Itália, que é insípido e impotente como todos os seus antecessores; nem a nação italiana que, após a vindima da guerra, se deixa pisar pelos pés sujos dos desertores e traidores como um monte de bagaço para fazer aguada... Peço à Cidade da vida um acto de vida. Fundemos em Fiume d'Italia, na Marca Oriental da Itália, o Estado Livre do Carnaro.» (Discurso de D'Annunzio de 12 de Agosto de 1920, no qual proclamou a Regência Italiana do Carnaro).

A «Regência» só foi reconhecida juridicamente pela Rússia e foi transformada no Estado Livre de Fiume em dezembro do mesmo ano.

Um artigo sobre o movimento d'Annunzio publicado na revista Prometeo em 1924 analisa, numa primeira parte, a doutrina a partir da Carta do Carnaro e, numa segunda parte, a política. Para além das referências pomposas à Roma imperial, ao Risorgimento e aos municípios italianos, a Carta contém todas as reivindicações «populares» que podemos encontrar no Programa fascista de San Sepolcro e no programa do Partido político futurista: o voto às mulheres, o sufrágio universal, a laicidade da escola, o referendo, a nacionalização do porto. Não faltam as reivindicações de carácter social, como o salário mínimo, aliado à garantia estatal contra o desemprego, a assistência aos doentes e inválidos, as pensões de velhice. São pontos relativos à questão social que não estão em antítese com um estatuto burguês clássico.

A estrutura da Carta é claramente corporativa: o Estado deve proteger todos os produtores; mas se o Programa de San Sepolcro contempla a constituição de um Estado corporativo onde haja uma representação paritária de todas as categorias, a Carta do Carnaro prevê que as corporações dos operários, ao elegerem o Conselho Provisório, órgão que governará o Estado, tenham um número maior de votos do que as corporações que representam a burguesia e as classes médias. É uma diferença não negligenciável em relação ao programa dos fascistas:

«[A Regência] amplia, eleva e sustenta acima de qualquer outro direito os direitos dos produtores».

A expressão pode ser considerada bastante vaga, mas certamente tem um valor tendencial: na medida em que existe, em segundo plano, uma «preferência» pelos cidadãos produtores.

Na Carta aparece outro conceito particular, retomado directamente da Constituição francesa de 1793 ditada por Robespierre, em que se diz que a propriedade é o direito de que goza cada cidadão de dispor da porção de bens garantida pela lei; o direito de propriedade é limitado, como todos os outros direitos, pela obrigação de respeitar os direitos alheios; não pode prejudicar nem a segurança nem a liberdade.

Portanto, estabelece-se uma limitação ao direito de propriedade, que é respeitado desde que não prejudique outros cidadãos. Mas são introduzidas algumas adições: o Estado não reconhece a propriedade como o domínio absoluto da pessoa sobre a coisa, mas considera-a como a mais útil das funções sociais. O único título legítimo de domínio sobre qualquer meio de produção e de troca é o trabalho: o Estado deve, portanto, intervir expropriando indústrias não utilizadas ou terras não cultivadas. São pontos que deslocam a Carta de D'Annunzio mais para a «esquerda» em relação ao fascismo sansepolcrista.

No artigo de Prometeo citado, é desmistificada a ilusão de alguns anarquistas que viam num Estado como o de Fiume, baseado em corporações, uma semelhança com o sistema soviético. Escusado será dizer que a diferença entre as duas experiências é abismal: enquanto, por um lado, se exaltam as categorias profissionais (interclassismo), por outro, os sovietes baseiam-se numa rede proletária de tipo territorial que exclui os pertencentes a outras classes. Os comunistas baseiam a sua doutrina na luta de classes, colocando em primeiro plano, em relação ao sindicalismo, a forma partidária, que vai além dos interesses imediatos desta ou daquela categoria e tem como objectivo a abolição de todas as classes e da divisão social do trabalho. É justo, portanto, estabelecer um paralelo entre o espiritualismo de D'Annunzio e o sindicalismo: o espírito de categoria está relacionado com o individualismo e o sindicalismo é a moral soreliana do produtor:

«O espiritualismo de D'Annunzio sente que a sociedade actual é pouco moralizável e ‘heroizável’, excepto nas forças virgens que irrompem do proletariado: ele não sabe ir além da saudação que presta a esses fermentos do amanhã.» («Il movimento dannunziano»).

O futurismo em Fiume

Pelo menos desde 1848, data da publicação do Manifesto, temos à nossa disposição todos os instrumentos teóricos para nos ligarmos firmemente ao futuro e lutarmos eficazmente contra o antigo ambiente. Nenhum movimento interclassista pode ter instrumentos tão eficazes. Para nos ligarmos ao futuro, é preciso enterrar o passado, não basta proclamar intenções para o futuro, é preciso rejeitar o presente nos factos. Não se pode ser socialista e nacionalista mantendo a coerência. Esse oxímoro, essa união impossível entre opostos, obriga os movimentos interclassistas a escolher, e eles sempre escolhem a contra-revolução. Isso significa, banalmente, conservar o passado. De facto, os dannunzianos e futuristas italianos, embora declarem querer uma mudança radical da sociedade, limitam-se a expressar a sua simpatia, mesmo através de acções espalhafatosas, pelos «fermentos do amanhã», sem, no entanto, serem capazes de atacar as velhas formas para as destruir. Pode-se dizer que o teste decisivo para avaliar um movimento revolucionário não é o grau de construção que ele consegue inserir no seu programa, mas o grau de destruição, de aniquilação do passado.

Marinetti e D'Annunzio conhecem-se desde antes da guerra no meio do intervencionismo e ambos criticam a política das nacionalidades de Wilson. A 13 de Setembro de 1919, Marinetti, ao tomar conhecimento da iniciativa de D'Annunzio, dirige-se a Fiume, onde os futuristas organizam performances artísticas. Em Outubro, ele regressa a Itália e intervém no primeiro congresso fascista, realizado em Florença, no teatro Olimpia, a 9 de Outubro, aplaudindo a chegada dos artistas ao poder em Fiume. No segundo congresso dos Fasci, realizado no teatro Lirico de Milão, em Maio de 1920, verifica-se uma ruptura entre Marinetti, Carli (que já mencionámos) e Mussolini. Os fundadores do partido futurista não concordam com a política reaccionária do fascismo, que se opõe às greves, abandonando os preconceitos anti-monárquicos e anti-clericais (Marinetti: «Nós vamos em direcção ao Carso. Mas não iremos em direcção à Reacção!»).

Os resultados eleitorais de 1919 são péssimos para o fascismo e obrigam-no a correr a certos reparos. Com o segundo congresso, ele abandona todo o armamento reivindicativo de "esquerda" e vira decisivamente para a direita. Nada de novo, o trasformismo é uma especialidade inventada em Itália. Entre aqueles que rompem com o fascismo, Mario Carli, que em Fiume dirige o jornal La testa di ferro, no qual expressa uma tendência nacional-bolchevique, é um dos que mais encarnam o oxímoro passado/futuro.

Para Carli, o bolchevismo tem aquela carga mística de que o Ocidente carece. A sua estética de massas e as suas vitórias militares, em comparação, fazem parecer as manifestações operárias italianas não como exércitos em marcha, mas como "procissões de cordeirinhos inocentes". O soviete, este fantasma da burguesia nacional, é tão funcional ao processo revolucionário que não se entende como ainda existam resistências a introduzi-lo na vida política e militar.

"Entre Fiume e Moscovo talvez exista um oceano de trevas. Mas, indiscutivelmente, Fiume e Moscovo são duas margens luminosas. É necessário, o quanto antes, lançar uma ponte entre estas duas margens." (Mario Carli, "O nosso bolchevismo", in La Testa di Ferro, 15 de Fevereiro de 1920).

Lenine é visto pelo periódico dirigido por Carli como um herói carliano capaz de dar à guerra de massas anónimas, dedicadas à furiosa destruição do existente, o carácter da construção gigantesca da vontade. Não é de Lenine que as massas ocidentais devem defender-se, mas da coligação dos plutocratas que as oprimem. O "gigante de Moscovo" aproxima-nos da luta comum contra o inimigo comum. Entretanto, Gabriele D'Annunzio é chamado de camarada pelos proletários de Fiume. "Depois vê-se".

É um pouco impressionante ouvir chamar camarada a alguém como D'Annunzio, mas esta é a realidade percebida por demasiados para ser ignorada como se não existisse.

"Tomando a Rússia como modelo típico de revolução social, vê-se acima de tudo que o bolchevismo foi um movimento, não tanto estreitamente expropriatório, quanto inovador, porque quis reconstruir sobre ideais vastos e profundos o edifício social, absurdamente inclinado sob o débil regime czarista" (Ibid.).

Em Fiume há, portanto, uma componente que simpatiza com a Rússia bolchevique e procura ligações com ela. Uma simpatia semelhante podemos também encontrar num texto de Marinetti intitulado "Além do comunismo", publicado a 15 de Agosto de 1920, sempre na La testa di ferro:

"Fico satisfeito por saber que os futuristas russos são todos bolcheviques e que a arte futurista foi durante algum tempo arte estatal na Rússia. As cidades para a última festa de Maio, foram decoradas por pintores futuristas. Os comboios de Lenine eram pintados no exterior com formas coloridas dinâmicas muito semelhantes aos de Boccioni, Balla e Russolo. Isto homenageia Lenine e celebra-nos como a nossa própria vitória.

Todos os Futurismos do mundo são filhos do Futurismo italiano, criado por nós em Milão há doze anos. Todos os movimentos futuristas, no entanto, são autónomos. Todos os povos tiveram ou têm ainda assim, o seu pastismo vertido. Não somos bolcheviques porque temos a nossa revolução para fazer."

A adesão incondicional a teses simplificadoras, se é aceitável para Sorel e a sua teoria do mito que estimula a acção, presta-se a críticas racionais. A aproximação do futurismo ao fascismo também pode ser explicada por impulsos sociais e individuais. Mas, de facto, se o futurismo tem um carácter de ruptura efectivo inerente até ao seu nome, o fascismo não pode gabar-se de tanta coerência. O jornalista e escritor Giuseppe Prezzolini, por exemplo, escreve com lucidez:

O Fascismo quer ser, se não me engano, hierarquia, tradição, obediência à autoridade. O Fascismo deleita-se em evocar Roma e a classicidade… Quer manter-se nas linhas traçadas pelos grandes italianos e pelas grandes instituições italianas, incluindo o Catolicismo. Ora, o futurismo é exactamente o oposto disso. O Futurismo é uma protesto contra a tradição; é luta contra os Museus, contra o classicismo, contra as glórias escolares… Quanto ao Futurismo, é preciso reconhecer que ele logicamente se encontrou no seu lugar apenas num único estado: na Rússia. Ali, Bolchevismo e Futurismo fizeram aliança. A arte oficial do Bolchevismo foi o futurismo. Os monumentos da revolução, os cartazes de propaganda, os livros levaram a marca da arte e das ideias futuristas. E isso é perfeitamente lógico e coerente. As duas revoluções, as duas anti-histórias, aliaram-se. Uma como a outra querem destruir o passado e refazer tudo sobre bases novas, de tipo industrial. A fábrica foi a fonte das ideias políticas bolcheviques; e foi a inspiradora da arte futurista. Mas como a arte futurista possa ir de acordo com o Fascismo italiano, não se vê. (Il secolo de 3 de Julho de 1923).

Para a nossa corrente, a linguagem é um meio de produção, faz parte de toda estrutura social porque é o meio pelo qual o homem transforma a prática (projecta); mas os materialistas não devem confundir a linguagem com a ideologia que ela pode veicular. O futurismo, como também observa Prezzolini, é um movimento de ruptura, uma linguagem internacional, em Itália é absorvido pelo fascismo, enquanto na Rússia consegue expressar-se da melhor forma assumindo um perfil revolucionário e internacionalista (até ser banido e substituído pelo reaccionário "realismo socialista").

Um ambiente "criativo"

As revoluções, quando o são, actuam tão profundamente na sociedade que mudam, além da estrutura, todos os aspectos da vida. Elas recebem a marca da classe revolucionária, mas arrastam todas as classes e sub-classes para a luta. Isso não significa que sejam interclassistas, mas sim que obrigam todas as classes a dançar ao ritmo da música revolucionária. Nesse contexto, pode acontecer que homens de uma certa classe sejam levados a lutar pelos interesses de outra classe. Numa revolução, a pertença é determinada pelo programa pelo qual se combate, não pelo registo civil. No caso de Fiume e do fascismo, a pequena-burguesia põe-se ao serviço da grande burguesia, mas isso podia não ser um dado adquirido. Durante a Revolução Francesa houve, deste ponto de vista, a máxima confusão em relação à pertença: os burgueses, aqueles que teriam retirado reais benefícios dos resultados da revolução, foram os que menos nela participaram. Os sans-culottes, que se tornariam os explorados do futuro, combateram na linha da frente. Muitos dos burgueses, nobres e intelectuais de pequena burguesia que tinham preparado a formidável enciclopédia-programa já estavam mortos. Movimentaram-se, então, os sem reservas com lojistas falidos, nobres decadentes, militares que mudaram de lado após a batalha de Valmy (cf. "Primaveras florescentes do Capital"). Foi a tentativa extrema de defender as conquistas e garantias obtidas no passado que obrigou os homens a questionarem a velha sociedade.

As posições ambíguas de D'Annunzio, De Ambris ou Marinetti foram fruto de um período histórico extremamente contraditório, principalmente para a pequena burguesia, oscilante entre a conservação e a mudança. E talvez seja por isso que as obras literárias possam conter mais informação do que as históricas. Contos, diários ou correspondência como os de Guido Keller, Giovanni Comisso, Mario Carli e até mesmo D'Annunzio, oferecem-nos um retrato da sociedade que nos mostra a estrutura das revoluções não através de reconstruções teóricas, mas através das dinâmicas da vida, aquelas que revelam as razões pelas quais milhares ou milhões de homens se movem em massa em direcção ao objectivo da mudança. E se os líderes traírem ou se desviam, a revolução não para, agarra os instrumentos que encontra e utiliza-os. O fascismo é mais "moderno" do que a democracia: não havendo possibilidades de o proletariado tomar o poder, a revolução concentrou-se na forma social burguesa mais adequada para representar o domínio do capital. O fascismo é a socialização do capitalismo, é aquele invólucro que Lenine declara já não corresponder ao seu conteúdo.

Como recordou a nossa corrente, as revoluções (e as contra-revoluções) têm um cenário histórico, um motor social, actores e figurantes, e também uma estética, uma linguagem, através da qual se expressam. Além da documentação original e da literatura histórica, é útil situar o material que transmite essa linguagem. O romance O porto do amor e a coletânea As minhas estações, de Giovanni Comisso, ajudam a ter a percepção do ambiente decorrente da guerra e amadurecido no terrível pós-guerra, que vê sobrepor-se o Bienio Rosso à experiência de Fiume (de Setembro de 1919 a Dezembro de 1920). Em Fiume acontecia uma síntese, onde o componente "criativo" dos legionários levava

"o povo a viver fora das cidades, a destruir, em direcção à terra e ao mar. Desfrutar do espírito, acreditar na vastidão da própria individualidade, reduzir ao mínimo as necessidades materiais, desprezar o dinheiro, o luxo, geradores de estupidez." (As minhas estações).

Nessas páginas é lembrado Henry Furst, jornalista e encenador teatral, funcionário da imprensa estrangeira na secretaria de D'Annunzio. Furst, e o poeta Leon Kochnitzky,

"achavam que o mundo deveria caminhar para o comunismo e iludiam-se ao pensar que podiam influenciar as decisões do Comandante, definido por Lenine aos comunistas italianos, que foram a Moscovo, como o único capaz de fazer uma revolução em Itália".

Outras obras permitem-nos captar a atmosfera legionária: Con D'Annunzio a Fiume, Trillirì e Arabeschi fiumani de Carli e La quinta stagione de Kochnitsky. Interessante pelo mesmo motivo é o recente (2002) ensaio de Claudia Salaris Alla festa della rivoluzione. Artisti e libertari con D'Annunzio a Fiume, que recorda, entre as figuras que rodeavam o Comandante, a de Guido Keller, descrito como um hippie ante litteram e verdadeiro contemporâneo do dadaísmo. Salaris vê nas expressões mais originais do fiumanismo a antecipação de ideias, estilos e iniciativas que caracterizarão a experiência dos movimentos juvenis de contestação dos anos Sessenta: o uso de drogas, a liberdade sexual e a contestação da autoridade. Parece que a "rebelião" que se respirava em Fiume também tinha contagiado alguns religiosos: um grupo de frades capuchinhos residentes na cidade tentou uma reforma radical que deveria incluir o controlo sobre os fundos da ordem e a eleição a partir da base dos seus superiores; e em sinal de desafio a Roma fizeram hastear no mosteiro uma bandeira com o lema latino tirado de D'Annunzio: "Hic manebimus optime" (aqui estaremos muito bem).

Hakim Bey, escritor cyberpunk e libertário, fala do Fiume de D’Annunzio como uma TAZ (Zona Temporariamente Autónoma), um lugar temporariamente libertado do poder:

"A festa nunca acabava. Todas as manhãs, D’Annunzio lia poesia e proclamações da sua varanda; todas as noites havia um concerto, depois fogo de artifício. Isto consistia em toda a actividade do governo."

No livro de Marco Rossi, Arditi, não gendarmes!, é mencionada a variedade de pessoas que chegaram a Fiume durante os meses de ocupação: os jornalistas japoneses Harukichi Shimoi e Takeo Terasaki; o médico húngaro discípulo de Freud e já ministro no governo de Béla Kun, Miklos Sisa; o poeta húngaro Szandor Garvay e Luigi Bakunin, neto napolitano de Michail; irlandeses irredentistas, comunistas húngaros fugidos do terror branco de Horthy, croatas de Radić e até nacionalistas indianos seguidores de Gandhi.

Em Fiume surge a revista Yoga, dirigida por Comisso e Mino Somenzi, da qual nascerá o grupo "Unione Yoga", chamado "a União de espíritos livres tendentes à perfeição" com o objectivo – lembra Comisso – de

"organizar um grupo entre os legionários mais inteligentes e preparar, com assembleias e discussões, um movimento para desalojar do Comandante toda a gente pesada e desorganizada."

Os temas abordados nele variam da abolição do dinheiro ao amor livre, da abolição das prisões ao embelezamento das cidades, antevendo uma espécie de revolução cultural. O manifesto do grupo lembra o dos anarco-futuristas russos e dos dadaístas alemães. Guido Keller, aviador, que fazia parte do grupo, realiza um gesto marcante tornando-se famoso porque, após a assinatura do Tratado de Rapallo (12 de Novembro de 1920), quando o governo italiano ameaça desalojar Fiume à força, voa para Itália e deixa cair um penico sobre o parlamento.

A brincadeira de Keller é sugerida pelo poema O avião do Papa de Marinetti, no qual o futurista imaginava realizar uma viagem de propaganda de avião sobrevoando Roma e derramando excrementos sobre os passatistas. O seu gesto, no entanto, não é apenas uma ideia individual, mas deve ser inserido num movimento internacional de ruptura: pense-se no Manifesto A anti-tradição futurista de Guillaume Apollinaire, ou nas ações espetaculares dos futuristas e nas obras "irracionais" do Clube Dada de Berlim. Os artistas da época querem cortar os laços com o passado, visam romper todos os cânones e têm como objectivo a crítica da vida quotidiana.

No Verão de 1920, caiu o governo de Nitti, ao qual sucede Giovanni Giolitti, e De Ambris, vindo de Fiume, procura contactos com o novo presidente do Conselho de Ministros com o objectivo de encontrar um compromisso para a solução da questão de Fiume. Mas essas tentativas não têm sucesso, pois Giolitti tem uma posição mais rígida do que Nitti e está determinado a pôr fim à situação anómala. Enquanto é publicada a Carta del Carnaro, em Setembro de 1920, em Itália decorre um vasto movimento de ocupação das fábricas e, num contexto social fervilhante, o bloqueio das negociações com o governo leva D'Annunzio a projectar a sua acção para os Balcãs, tentando organizar improváveis insurreições. Os resultados do activismo do Poeta não conduzem a nada, o tempo da Regência do Carnaro está para expirar.

4. Gabriel Benito Proudhon

O tempo está a esgotar-se

Em Novembro de 1920, o ministro Giolitti assinou a Tratado de Rapallo. Com ele, a Itália obteve algumas ilhas dálmatas, a soberania sobre Zara e uma fronteira estratégica que corre ao longo da linha de bacia hidrográfica alpina, através do Monte Nevoso; renúncia, em troca, da Dalmácia e aceita que Rijeka seja erguida como um estado livre. Segundo Mussolini Esta é uma solução aceitável para a "questão adriática".

A um ultimato do governo italiano, D'Annunzio responde com a ocupação de algumas ilhas atribuídas à Jugoslávia, como Veglia e Arbe. Giolitti envia os navios da Marinha Real para bombardear a residência do poeta. A 24 de Dezembro, na cidade, entre os voluntários donnazumianos e os soldados do exército regular italiano, deflagram combates armados que se prolongam durante cinco dias, provocando dezenas de mortos. No artigo "Natal de Sangue" de Dezembro de 1920, com o seu estilo característico, D'Annunzio escreve:

"O crime está consumado. As tropas régias deram a Fiume o Natal fúnebre. Durante a noite transportamos nas macas os nossos feridos e os nossos mortos. Resistimos desesperadamente, um contra dez, um contra vinte. Ninguém passará, senão sobre os nossos corpos. Fizemos saltar todas as pontes do Éneo. Lutaremos a noite toda. E amanhã, à primeira luz do dia, esperamos olhar em frente os assassinos da cidade mártir" (Gabriele D'Annunzio, Natal de Sangue, Fiume, Dezembro de 1920).

Apesar dos propósitos combativos do Poeta, os legionários são obrigados a render-se e D'Annunzio entrega finalmente a cidade ao Conselho Nacional de Fiume para que trate da rendição. Assim termina a experiência legionária de Fiume.

Antes da tentativa desesperada de provocar uma reacção ao ultimato de Giolitti, De Ambris tinha estabelecido contactos com Mussolini com vista à organização de tentativas insurreccionais não precisamente definidas em Itália, com o objectivo de realizar os princípios contidos na Carta de Carnaro. Mas, embora durante todo o ano de 1920 Il Popolo d'Italia tivesse apoiado a imprensa de Fiume defendendo uma política anexacionista, Mussolini não implementa nada de prático para apoiar os legionários d'annunzianos, a não ser uma inócua colecta (evidentemente, os tempos para uma "marcha sobre Roma" ainda não estavam maduros).

Os fascistas deixam, portanto, que a repressão militar se realize sem intervir de qualquer forma, e isso leva a uma ruptura entre D'Annunzio e Mussolini. No entanto, se a aventura de Fiume terminou, com ela não morre a sua Constituição, a Carta de Carnaro. D'Annunzio, de facto, convida os legionários a reunirem-se numa associação própria, a publicar um jornal e a romper qualquer relação com "os traidores da causa".

O movimento de D'Annunzio após Fiume

Surge então a Federação Nacional dos Legionários de Fiume, fundada em Milão em Janeiro de 1921. Os legionários decidem levar adiante o seu programa em Itália, envolvendo também a Associação Arditi de Itália, que adopta a Carta de Carnaro como seu manifesto político e designa D'Annunzio como presidente honorário. Apesar disso, no início de 1921, a Associação Arditi estava quase completamente nas mãos dos fascistas, que podiam alegar uma afinidade entre a Carta de Carnaro e o programa de San Sepolcro. No entanto, D'Annunzio pronuncia-se a favor da autonomia da Associação e consegue obter uma posição 'à esquerda'. A componente fascista dissidente reúne-se então em Bolonha nos dias 22 e 23 de Outubro de 1922 e funda a Federação Nacional Arditi de Itália de clara orientação fascista. De 1921 a 1924 continuam as agregações e as cisões dentro do movimento que vê legionários fiumanos e arditi disputarem o protagonismo. Em 1921, a agregação entre a Associação Arditi d'Italia e a Federação Legionária dá origem a um movimento que conta com 11 federações regionais e cerca de noventa secções locais sob as ordens de D'Annunzio. A estrutura dispõe de cerca de dez periódicos, sendo os mais importantes La Vigilia de Milão e La Riscossa dos legionários fiumanos de Bolonha. Reforça ainda os laços com a FILM, o sindicato dos portuários.

A diferença substancial entre legionários e fascistas é lucidamente analisada por Amadeo Bordiga na segunda parte do artigo de Prometeo sobre o movimento dannunziano:

"Os dannunzianos representam aqueles elementos das classes médias, nutridos por uma ideologia de guerra, que adoptaram como seu o primeiro programa do fascismo, que ostentava atitudes com tendências de esquerda. O fascismo é uma mobilização das classes médias operada por e em benefício da alta burguesia industrial, bancária e agrária, mobilização que as próprias classes médias tomam inicialmente pelo problemático advento de uma função histórica autónoma e decisiva, quase como árbitros no conflito entre a burguesia tradicional e o proletariado revolucionário. Assim, o fascismo, que parece o concentrado de todas as forças anti-proletárias em defesa do antigo fortificado do capitalismo, encontra os seus efectivos e quadros numa gama inteira de elementos sociais, postos em movimento pelo grande cataclismo bélico, que se iludem em fazer um esforço original e, em certo sentido, revolucionário."

"Consolidado o fascismo e demonstrando-se como uma máquina nas mãos das chamadas classes parasitárias"

É difícil para os elementos pequeno-burgueses distanciar-se dele para seguir o seu próprio caminho, faltando-lhes os meios adequados para uma tarefa independente, e permanecendo a maior parte dos seus líderes satisfeitos ou presos nos cargos de direcção do complexo movimento fascista. Mas algum núcleo de idealistas sinceros ou de concorrentes desiludidos na partilha do bolo permanece e tende a diferenciar-se: com isto pode-se dizer que se esboçou certa explicação da formação do movimento d’Annunziano.

A ideia de que a liderança do país deve ir para quem combateu na guerra une no início fascistas e d’Annunzianos,

“mas enquanto, para os primeiros, a fórmula não é senão o passaporte da defensiva burguesa contra o proletariado vermelho, que não queria a guerra e que, das suas consequências, é empurrado para a luta pela sua ditadura revolucionária, para os segundos a fórmula é aceite como autêntica, como uma afirmação dirigida também contra as velhas castas dirigentes burguesas e impregnada de um certo espírito heróico de renovação, como condenação não tanto do derrotismo extremista mas do dos especuladores e parasitas da frente interna, verdadeiros profanadores do sacrifício e da vitória. Esta segunda ala, embora muitas vezes de forma ambígua, gostaria de se orientar para as forças livres do proletariado: a primeira organiza os pretorianos do capital e os esclavagistas da Agrária.”

O magma de onde emerge o movimento dandunziano é o mesmo do qual provêm os sansepolcristas, mas quando o fascismo mostra estar-se a tornar uma ferramenta nas mãos das classes consideradas "parasitárias", uma parte de idealistas sinceros – como são definidos – separa-se e volta-se com simpatia para o proletariado. O artigo de Bordiga termina assim: que D'Annunzio se expresse, que os legionários se expressem… digam com quem querem alinhar-se.

Se para os fascistas o caminho obrigatório é o nacionalismo e o corporativismo, para os dannunzianos (os ex-combatentes, os trincheiristas, os futuristas) é necessário afastar do poder aqueles que obtiveram lucros com a guerra e entregar o país às forças vivas do trabalho para que construam um estado federal dos produtores. Dirigentes da Federação como De Ambris, Mecheri, Foscanelli, que vieram das fileiras do sindicalismo revolucionário, querem, segundo o que é teorizado no Manifesto dos sindicalistas de Angelo Oliviero Olivetti, uma república social federativa. A ruptura entre dannunzianos e fascistas (agora apelidados com o epíteto de "esclavagistas") torna-se inevitável e é formalmente oficializada pelo jornal legionário La Vigilia com o artigo "Aos Legionários!", de 29 de Janeiro de 1921:

Cuidado, portanto! Que os Legionários saibam que quem os incita a ocupar o lugar de um grevista, talvez possa ser amigo dos tubarões, mas certamente não é amigo da nossa Causa, que de todo não se propõe combater aqueles que trabalham para proteger aquela burguesia que aplaudia os reais carabinieri e as guardas reais quando cometiam o assassinato de Fiume.

Determina-se assim uma situação de confronto entre legionários e fascistas que se prolonga durante todo o ano de 1921. Os fascistas acusam os legionários de serem apolíticos, por serem uma força transversal que não se posiciona claramente entre as forças em campo. Os legionários rebatem acusando os fascistas de se terem alinhado abertamente com o patrão. Neste contexto insere-se a análise de Gramsci segundo a qual a diferença entre fascistas e legionários não é apenas política, mas é uma diferença de classe:

"Há isso enquanto os fascistas, especialmente em Turim, são jovens estudantes abastados, preguiçosos, profissionais, antigos oficiais que viviam de expedientes, etc., etc., em suma, pessoas que não sentem muito sobre as necessidades Porque vivem à custa de alguém (família, clientes, tesouro público), nos Legionários há muitos que sentem as limitações da crise económica geral [...] São pessoas que [...] não veem outra saída colectivamente senão num movimento que tem o carácter militar e insurreccional do de Fiume" (Antonio Gramsci, "Fascisti e Legionari", L'Ordine Nuovo, 19 de Fevereiro de 1921).

No livro Nino Daniele: um legionario comunista com D'Annunzio em Fiume, de Vito Salierno, o autor relata uma tentativa de encontro entre Gramsci e D'Annunzio em Gardone, na Primavera de 1921, que, no entanto, não se teria realizado. Gramsci estava interessado em estabelecer contactos com os legionários que nesse momento tinham assumido um perfil anti-fascista. Em Turim, ao longo de 1921, foram frequentes os confrontos entre dannunzianos e fascistas: reuniões impedidas à força, agressões por parte de esquadristas, que são minimizadas por Mussolini, que não tinha qualquer interesse em opor-se à figura imponente de D'Annunzio. E, de facto, Mussolini chegou mesmo a propor a sua candidatura em Zara nas listas dos Blocos Nacionais. Mas D'Annunzio recusa e responde ao futuro Duce com a candidatura de Alceste De Ambris em Parma numa lista autónoma, com função anti-fascista. Em suma, uma situação oscilante, que sugere uma curva à esquerda dos legionários. Em Roma, no Verão de 1921, a maioria separou-se da Associação Arditi d'Italia e deu vida aos Arditi del Popolo, uma associação criada para a defesa dos operários contra a violência fascista, liderada por Argo Secondari, um antigo combatente, corajoso e anarquista (envolvido na conspiração do Forte de Pietralata em Roma, uma tentativa insurreccional organizada pelos Arditi e anarquistas no Verão de 1919 e travada pela raiz pela polícia). Neste momento, parecia que se desenvolvia rapidamente anarquistas, mazinianos, radicais, D'Annunzio e até alguns comunistas, mas seria de curta duração.

Os Arditi del Popolo

No outono de 1921, os Arditi del Popolo dissolvem-se, deixando um legado político nas fileiras do Partido Comunista de Itália. A secção romana do PCd'I gostaria, de facto, de participar activamente nas acções anti-fascistas dos Arditi del Popolo, mas o C.E. do partido desaconselha os seus membros de se juntarem a organizações militares fora do seu controlo:


"Isto significa que o trabalho para a constituição e o treino das equipas comunistas deve portanto continuar a iniciar-se onde ainda não se iniciou, mas respeitando o rigoroso critério de que o enquadramento militar revolucionário do proletariado deve basear-se no partido, estreitamente ligado à rede dos órgãos políticos do Partido; e, portanto, os comunistas não podem nem devem participar em iniciativas desta natureza provenientes de outros partidos e de qualquer forma surgidas fora do seu partido." ("Para o enquadramento do Partido", Il Comunista de 14 de Julho de 1921).

Em agosto, o C.E. volta a tratar do tema com um longo comunicado que reafirma a ordem de não participar nas actividades dos Arditi del Popolo, esclarecendo claramente os motivos.

"O enquadramento proletário militar, sendo a forma extrema e mais delicada de organização da luta de classes, deve realizar o máximo de disciplina e deve ter como base o partido [...] O Partido Comunista é aquele que, por definição, se propõe a enquadrar e dirigir a acção revolucionária das massas; daí resulta uma evidente e gritante incompatibilidade [com a organização dos Arditi del Popolo]." ("Enquadramento militar das forças comunistas", Il Comunista de 7 de Agosto de 1921).

De facto, estas forças por um lado declaram querer combater o fascismo, por outro não têm qualquer intenção de derrubar as instituições políticas da burguesia, também porque – como vimos – reúnem representantes de várias crenças políticas. São, em suma, os precursores das formações partidárias: não querem revolucionar a sociedade, mas "restabelecer a dialéctica democrática".

D'Annunzio, sobrinho de Proudhon?

Em 1922 a situação política ainda era muito fluida. Para se ter uma ideia da confusão que reinava naquele período no país, basta lembrar que em Parma as forças que em Agosto de 1922 combatiam, armadas, contra os esquadrões eram grupos ligados aos Arditi del Popolo e à Legião Proletária Filippo Corridoni (que com esse nome prestava homenagem ao sindicalista intervencionista morto na guerra, posteriormente reivindicado, em 1933, pelos fascistas com um monumento no Carso goriziano e uma epígrafe comemorativa que dizia: "Aqui caiu o heróico combatente Filippo Corridoni, fertilizando com o sacrifício da vida a glória da pátria e o futuro do trabalho").

Outro episódio significativo: por ocasião de uma disputa entre marítimos (gente do mar, tripulantes, trabalhadores portuários) e armadores em 1922, Giulietti, o presidente da FILM, sob a pressão de fascistas e capitalistas que queriam suprimir o sindicato, pede a protecção dos legionários, e setenta mil marítimos passam para o controlo de D'Annunzio. O qual, nesta fase, por um lado, volta a atenção para o proletariado e as suas organizações, por outro mantém um papel de pacificador entre as classes.

Todo este marasmo político leva Errico Malatesta a escrever na Umanità Nova (17 de Junho de 1922):

"Hoje a Itália está em crise, crise de regime político e económico. D'Annunzio é, ou poderia ser, um factor determinante no desenrolar dos próximos acontecimentos."

Mas as escolhas de D'Annunzio poderiam realmente ter deslocado o centro de gravidade político a favor da revolução proletária, invertendo a história política italiana? Com o benefício da retrospectiva, é fácil dizer que isso já poderia ser excluído; mas na época podia parecer possível, a situação não se apresentava tão consolidada, mas aberta a desenvolvimentos, e por isso deveria ser seguida com firmeza teórica, uma vez que era susceptível a efeitos materiais diferentes.

Para enquadrar melhor o comportamento de D'Annunzio, citamos a carta de Marx a Annenkov de 28 de Dezembro de 1846, no trecho em que descreve o socialismo pequeno-burguês de Proudhon:

“Numa sociedade avançada e pressionada pela sua própria situação, o pequeno-burguês torna-se, por um lado, socialista e, por outro, economista, ou seja, está cego pelo esplendor da grande burguesia e compadece-se do sofrimento do povo. Ele é burguês e povo ao mesmo tempo. No íntimo da sua consciência orgulha-se de ser imparcial, de ter encontrado o equilíbrio certo, avançando a pretensão de ser algo diferente do justo meio. Um pequeno-burguês deste tipo diviniza a contradição, porque a contradição é o núcleo do seu ser. Ele não é mais do que a contradição social posta em acção. Ele tem necessariamente de justificar, através da teoria, aquilo que ele é na prática, e Proudhon tem o mérito de ser o intérprete científico da pequena burguesia francesa; e este é um mérito real, porque a pequena burguesia será uma parte integrante de todas as revoluções sociais que se estão a preparar.”

O contexto de esquizofrenia em que vivem D'Annunzio e o seu movimento, a pretensão de ser algo diferente do justo meio, é confirmado pela sua constante oscilação entre as duas classes em luta, burguesia e proletariado… até que este último é sobrepujado pela reacção capitalista.

No decorrer de 1922, por exemplo, na sua residência em Gardone (que mais tarde se tornará no Vittoriale degli Italianos), D'Annunzio recebe a visita de alguns representantes do sindicalismo italiano, como Gino Baldesi e Ludovico D'Aragona da CGL. E encontrará, como já foi mencionado, o comissário dos assuntos estrangeiros soviético que veio a Itália para a Conferência de Genebra.

Entretanto nasce a Aliança do Trabalho, e na frente única operária participam também os legionários, tanto que A Ressurreição dos legionários de Fiume saúda o nascimento da Aliança como "primeiro sintoma da autonomia e da unificação das forças operárias" (cit. de D'Annunzio polí­tico, Cadernos dannunzianos). Mas o comportamento de D'Annunzio continua a ser ambíguo e contraditório. Como virá a demonstrar novamente em Milão, quando os fascistas, depois de esmagarem com violência a "greve legalista" promovida pela Aliança do Trabalho, invadem a sede da Câmara Municipal. D'Annunzio, que se encontrava na cidade, é convencido a intervir com um discurso no Palazzo Marino, discurso que será de pacificação e de celebração de uma conquista anti-proletária:

“Hoje, não sem embriaguez, parece-me renovar os grandes diálogos nocturnos que tive nas margens do Carnaro sob estrelas vigilantes com um povo que nada desejava senão a pátria futura e não tinha no rosto senão um punhado de lama. Esta noite a cidade parece e é uma festa que dá o exemplo a toda a Itália, uma festa de segura disciplina, de alegre serenidade e de promessas leais. Hoje, daqui, assinamos um pacto de fraternidade e nunca como hoje, enquanto parece que a paixão partidária se acirra, enquanto as feridas ainda sangram, jamais como hoje uma palavra de bondade teve tanta potência”.(A revolta dos legionários de Fiume a 5 de Agosto de 1922).

De qualquer forma, não poderia ir mais longe neste jogo oscilante, mas, em última análise, acabou por ceder perante o fascismo. Pouco tempo depois seria organizada a 'marcha sobre Roma' e em alguns círculos corre a voz de que D'Annunzio faria um discurso público para convocar as Forças Armadas e os arditi sob a sua protecção, de forma a frustrar a marcha. Se alguma vez houve uma ocasião para afirmar a famosa autonomia, seria essa, mas o 'camarada' poeta, normalmente falador em demasia, desta vez permanece em silêncio.

Entre os motivos pelos quais a nossa corrente acompanhou com atenção a evolução do movimento legionário encontra-se a experiência oferecida pelo Comité Nacional de Acção Sindical Dannunziana. Após a marcha sobre Roma, a reacção intensifica-se e uma série de forças sindicais aproxima-se dos legionários, que começam a ter um seguimento considerável. O Comité nasce por iniciativa de De Ambris, em Setembro de 1922, e declara-se autónomo de qualquer partido e fiel aos princípios expressos na Carta de Carnaro. Ali está o Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários Italianos, a Federação Italiana dos Trabalhadores Ferroviários Italianos, Livreiros, os Postelegrafonici (funcionários das empresas de correios e telégrafos de Itália), a Câmara dos Sindicatos da Toscana Económico, o Sindicato Italiano dos Trabalhadores.

A experiência sindical d’Annunziana terminou ao longo de 1923 devido a uma série de medidas policiais contra os legionários mais activos e também pelo comportamento renunciatório de D’Annunzio e o seu progressivo afastamento da actividade política. O Comité transformou-se, em pouco tempo, numa espécie de clube recreativo até ser renomeado, em Março de 1923, União Espiritual D’Annunziana. Nela convergem o que resta do Comité Nacional de Acção Sindical D’Annunziana e a Associação Arditi d’Italie. O regime dissolverá a União em 1926, e a parte do movimento legionário que não se integrará completamente ao fascismo, restante órfã do pai espiritual (retirado da vida pública), irá confluir nas forças anti-fascistas, Itália Livre e nas oposições aventinianas.

Máximo de sincretismo

Nos anos 20, em toda a Europa, massas de homens pressionavam por mudanças, acabando por apoiar aqueles que, pelo menos aparentemente, representavam essas mudanças. Tendo-se revelado impossível uma radicalização e generalização de um movimento autenticamente anti-formal, passou-se a uma re-forma radical do sistema capitalista. De facto, os fascismos não são mais do que coordenações estatais ao serviço do capital, independentemente da cor política que assumam de a cada volta.

No Fiume d'annunziano atingiu-se o auge do sincretismo de classes: o legionário-tipo representava todos os matizes políticos produzidos pelo confronto entre o futuro modo de produção e o velho e decrepito do passado. Era socialista, anarquista, futurista, sindicalista, intervencionista e, naturalmente, fascista. Contanto que a pertença a um destes grupos significasse, de qualquer forma, iludidamente, mudança. O inimigo era o conservador, mesmo que o legionário também o fosse. Perante a tragédia alemã, na qual centenas de milhares de proletários armados foram derrotados, falar-se-á mais tarde de "revolução conservadora". O oxímoro não é trivial. Como escreveu Marx a Annenkov:

"Os homens nunca renunciam ao que conquistaram, mas isso não significa que nunca renunciem à forma social em que adquiriram determinadas forças produtivas."

A revolução como tentativa de conservar o que se tinha alcançado. Na Rússia, a revolução foi espúria (democrático-proletária) porque os homens ainda não tinham atingido o nível de quem tem algo a perder para além das suas próprias correntes. No Ocidente, a revolução foi espúria porque havia demasiado a perder. Na Rússia, como em Itália, na esteira dos desastres causados pela Grande Guerra, milhões de homens foram "forçados a modificar todas as suas formas sociais tradicionais", uns do lado da revolução, outros do lado da reacção. No Ocidente, havia vencido a reacção; no Oriente, tornar-se-ia problemático salvar a revolução.

É improvável que renasça um movimento sincretista à maneira de D'Annunzio. Surgirão certamente movimentos pequeno-burgueses contra o status quo e, como de costume, tenderão a alinhar-se do lado da classe vencedora. O fascismo conseguiu operar uma síntese entre as classes e blindar a sociedade, dando-lhe de algum modo estabilidade. Mas isso já não é possível: a chamada envoltura leninista "que já não corresponde ao seu conteúdo" generalizou-se pelo mundo. As classes médias arruinadas são empurradas para baixo, em direcção à classe dos sem reservas, e este processo não poderá não ter consequências políticas.

Podia-se esperar que movimentos ou partidos pequeno-burgueses se colocassem do lado do proletariado em luta, mas isso não significava que o proletariado devesse estabelecer uma aliança com eles, confundir-se ou, ainda pior, renunciar à disciplina de partido no campo militar, como no caso dos Arditi del Popolo. Os revolucionários nunca são indiferentes perante o que acontece no campo dos grandes agrupamentos de classe. A Esquerda Comunista "italiana", perante movimentos como o dannunziano, avaliou atentamente as forças em presença, a natureza dos agrupamentos, os programas, para dele tirar previsões. Em determinados momentos históricos, influenciar ou, pelo menos, neutralizar a acção política de certos estratos sociais pode fazer a diferença. Após a Segunda Guerra Mundial, o problema colocou-se com as lutas anti-coloniais de libertação nacional. Nesse caso, embora burguesas, as forças anti-coloniais eram directamente revolucionárias e, portanto, a situação apresentava-se simplificada: uma sinergia de todas as classes era positiva nesse caso, incluindo a participação contingente do proletariado, desde que este não fosse submisso aos programas de outras classes.

A força dos comunistas está, antes de tudo, no conteúdo original do seu programa, na demonstração de que o problema do nosso tempo não consiste, por exemplo, em especulações financeiras ou na ganância de empresários e/ou banqueiros, mas na dissipação estrutural inerente ao modo de produção capitalista, superável apenas através da passagem para outra organização da sociedade. Nenhuma outra classe fora do proletariado tem, no seu programa, a abolição de todas as classes, abolição possível apenas com a superação do capitalismo.

"Esta nova organização difere pela abolição da iniciativa privada e da economia individual da concorrência, e pelo estabelecimento de uma administração central e colectiva das forças de produção. A superioridade do desempenho desta nova organização reside na sua correspondência com o uso científico dos recursos disponíveis para a humanidade hoje, uma vantagem ainda maior do que aquela que resultaria numericamente da abolição do desperdício de riqueza causado pelo parasitismo dos capitalistas vivos à custa do trabalho expropriado do proletariado." ("O movimento D'Annunzio" cit.).

5. A correia de transmissão

Repressão, tolerância, cooptação

Retomemos uma observação muito conhecida de Marx sobre a dinâmica da produção de tipo capitalista: a classe burguesa não pode existir sem revolucionar continuamente a sua forma de produzir e, portanto, todas as relações sociais (Manifesto). Disto conclui-se que não é necessário esperar pela queda do capitalismo para ver revolucionadas, pelo menos em parte, as referidas relações sociais. Isto significa que uma mudança importante na forma de produzir (estamos necessariamente no plano técnico, caso contrário teríamos de falar de processo revolucionário político) deve implicar uma mudança nas relações sociais.

Se analisarmos a relação de tipo sindical (em sentido amplo) entre a burguesia e o proletariado, verificamos que, de facto, a cada momento de crescimento contínuo da força produtiva social correspondeu uma mudança de carácter descontínuo nas relações entre o sindicato e a "contrapartida" burguesa. A nossa corrente identificou três etapas-chave na história dessas relações: uma fase de repressão, uma de tolerância e uma de coaptação. Devemos conseguir perceber uma relação entre a posição jurídica e a realidade de facto à medida que o modo de produção amadurece.

A primeira fase ocorre no início da manufactura, quando os ateliers eram pouco mais do que aglomerados de artesãos sob o mesmo proprietário, e ainda estava vivo a memória das corporações. Talvez também por isso a associação de trabalhadores fosse proibida, como se fosse um retorno ao feudalismo apesar da Revolução. De qualquer forma, os operários não estavam suficientemente organizados para negar ou invalidar a proibição.

A segunda fase ocorre quando, com a introdução das verdadeiras indústrias, o operário parcial substitui o operário completo e surgem as primeiras máquinas em série. O Estado começa a regulamentar a matéria relacionada com o trabalho e o movimento sindical deixa de ser proibido, passando a ser tolerado por contribuir para a ordem industrial geral. Isso não significa de forma alguma que o conflito de classes desapareça; pelo contrário, é precisamente neste período que são conquistadas algumas "vitórias" através de grandes lutas.

Finalmente chega a fase em que a produção se torna tão complexa que exige necessariamente planeamento e controlo, pelo que, se não se estabelece um canal directo entre capitalistas e trabalhadores, o sistema corre o risco de colapsar. É também a fase em que já não é o estado a controlar o capital, mas, pelo contrário, é o capital que controla o estado. É a fase mais delicada, porque entretanto as máquinas se tornaram sistemas de máquinas, automatizando-se a ponto de se tornarem robôs capazes de substituir muitas das capacidades humanas. Agora o estado precisa de um interlocutor capaz de fazer dialogar os operários e os capitalistas, da mesma forma que as máquinas dialogam com os homens (através de linguagens e ferramentas específicas). A coacção é uma forma de fazer com que mundos diferentes se comuniquem entre si fornecendo-lhes uma linguagem comum. Podemos dizer que nesta terceira fase é necessária a adopção de um léxico comum que impeça a incompreensão entre as partes. A linguagem da produção é simples, não sofre de ideologismos, é igual para o patrão e para o operário (o parafuso é um parafuso, o verbo tornar significa apenas uma coisa, um processo produtivo é descrevível com um vocabulário partilhado, etc.), une em vez de dividir, é democrática porque todos são iguais diante de uma linha de montagem que produz mercadorias todas iguais, diante do preço que não é fixado pelo Fulano, Beltrano ou Sicrano mas pelo mercado, anónimo e poderoso, global e padronizador.

O fascismo é moderno: a sua característica principal é a adaptação darwiniana das ideologias, quaisquer que sejam, à defesa dos interesses materiais da classe dominante. ("O que é o fascismo", Il Comunista de 3 de Fevereiro de 1921). Como dizia o próprio Mussolini, o fascismo não é isto ou aquilo, é tudo ao mesmo tempo, desde que seja útil para os fins para os quais nasceu. É uma máquina para resolver problemas. E como os problemas do capitalismo são graves, o fascismo não brinca quando se trata de medidas para o salvar.

No auge da cooptação sindical, quando surge a corporação sob nova forma, o fascismo-sindicato é o representante perfeito dos interesses materiais da burguesia: é garante perante o estado do bem-estar, aliviando o trabalhador do encargo de poupar para médico, pensão ou educação dos filhos. Com o IRI garante a distribuição privada dos lucros e a socialização das perdas; ao adoptar a religião do trabalho assegura um stacanovismo médio permanente, útil para sustentar a pátria. O sindicato operário, "que era inimigo e sabotador do investimento burguês", torna-se agora o garantidor desse investimento, assumindo a responsabilidade pela economia nacional como bem comum de todas as classes ("Fazer investir os nus", Fio do tempo de 1950).

Vimos que o pano de fundo do fascismo é constituído em grande parte pelo movimento sindicalista revolucionário, que vê no "mundo do trabalho" a espinha dorsal produtiva da sociedade e, portanto, a estrutura em torno da qual deve formar-se a "política". A obra-prima política fascista não é a ditadura em botas de cano alto, mas o diálogo inédito instaurado entre as forças produtivas, identificadas não nas classes, mas na nação. Em 1914-15, a corrente intervencionista da União Sindical Italiana (USI), que reunia os representantes do sindicalismo revolucionário patriótico, foi expulsa. A guerra tinha impedido a reorganização dos dissidentes, mas em 1918 estes reuniram-se e fundaram a União Italiana do Trabalho (UIL), cujo congresso constitutivo foi convocado por Edmondo Rossoni, futuro representante do corporativismo fascista. Desde 1919 que a UIL foi dirigida por Alceste De Ambris, autor da Carta de Carnaro, e mais tarde anti-fascista. Como já sublinhámos, não se tratava apenas de ambiguidade política, mas de um movimento que considerava conciliáveis os extremos de classe na relação laboral. Era uma tendência histórica, que os casos individuais de deserção de De Ambris não alteraram. De resto, foram poucos aqueles que deram as costas à tendência que ajudaram a determinar. A UIL, apesar de sustentar a necessidade de um poder legislativo baseado nas corporações, manteve-se um sindicato com um próprio programa reivindicativo, o que levou à saída da componente fascista (Rossoni, Bianchi, Panunzio), a qual adoptou o programa político expresso na Carta do Trabalho (1927) e posteriormente colocado como base do corporativismo enquanto essência do fascismo.

Considerar conciliáveis os extremos da relação de trabalho passou incólume pela guerra e pelo retorno do parlamentarismo democrático. De facto, da experiência fascista nunca mais se regressou atrás. Isso não significa que os dirigentes sindicais inclinados a manter os Conselhos de Gestão e a subscrever o pacto laboral para a reconstrução fossem fascistas. Mas, com a sua atitude colaborativa em apoio ao crescimento económico, pretensão de todos, contribuíam para perpetuar as características do sindicalismo herdado da época anterior. O facto é que, dado um sistema invariante, qualquer actividade dentro dele, sem o propósito de demolir as suas raízes, realiza-se a favor do próprio sistema.

Sindicalismo revolucionário

A constituição da UIL em 1918 é apenas uma peça do mosaico sindicalista de tendência fascista. Aliás, como já foi referido, seria melhor dizer "cenário fascista de tendência sindicalista", dada a preponderância entre os quadros fascistas de homens provenientes do sindicalismo revolucionário.

Portanto, para abordar a história do sindicalismo moldado pela época imperialista é necessário começar pelo menos com a história do "sindicalismo revolucionário", uma corrente que nasce em ambiente internacional, tem sucesso inicialmente em França, pátria de Proudhon, Bergson e Sorel, enraíza-se em Itália e encontra espaço dentro do Partido Socialista. Em Itália, enraíza-se não apenas por uma espécie de predisposição histórica devida a um ambiente anarquista particular, distante do bakuninismo (Malatesta, Cafiero, Costa), mas também pela atitude do Partido Socialista, partido que sustenta por princípio a independência e a autonomia do sindicato e se propõe como objectivo a greve geral expropriadora. São várias as revistas que acolhem as posições do sindicalismo revolucionário: Pagine libere, revista teórica aparecida em 1906 e dirigida por Angelo Oliviero Olivetti, um dos fundadores do PSI; Avanguardia socialista de Arturo Labriola e Il Divenire sociale de Enrico Leone.

Recordamos que na entrada "Doutrina do fascismo", redigida para a Enciclopédia Italiana, Mussolini em 1932 reivindica não apenas a corrente que se posiciona em continuidade histórica entre Sorel e o fascismo, mas também aquela que permanece ancorada no socialismo e que tem como referência Enrico Leone.

Quando a publicação de Pagine Libere começa, os sindicalistas revolucionários já estão em rota de colisão com o Partido Socialista. Em Julho de 1907, eles reúnem-se finalmente em congresso em Ferrara e decidem sair do partido. A situação continua, no entanto, contraditória, dado que alguns grupos eram contra a cisão apesar de terem aprovado as suas razões teóricas. O caso mais significativo foi o da federação de Roma, cujo animador era o futuro secretário do partido Costantino Lazzari (1912-1919). Encontramos entre os dissidentes Michele Bianchi (Bolonha), que mais tarde se tornou fascista, e Alceste De Ambris (Parma). Saídos do PSI, os sindicalistas revolucionários continuam o seu trabalho dentro da CGL para conquistar a direcção, o que não conseguirão dado o predomínio de elementos moderados à sua frente. Muito combativos, especialmente entre os trabalhadores agrícolas, após a recusa da CGL em organizar uma greve geral, saem dela e constituem-se em Comité de resistência, dando origem, em 1912, à União Sindical Italiana, entre cujos fundadores estão Alceste De Ambris e Filippo Corridoni. Os militantes da USI serão muito activos durante a Semana Vermelha (1914) e em muitas das lutas dos metalúrgicos e trabalhadores agrícolas que se desenvolvem na Península.

O assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo provoca um abalo no seio da organização, levando alguns dirigentes sindicais a adoptarem posições intervencionistas; todos serão expulsos, e com o início da guerra alguns deles abandonarão a actividade sindical para se colocarem "ao serviço da Pátria", armados. O novo secretário da USI é Armando Borghi.

Em Dezembro de 1914, os sindicalistas expulsos da USI (entre os quais o próprio De Ambris), e algumas personalidades como Benito Mussolini, deram origem aos "Fasci d'azione rivoluzionaria internazionalista". No mesmo período em que ocorreu a ruptura entre neutralistas e intervencionistas nas fileiras da USI, começaram as publicações de Il Popolo d'Italia dirigido por Mussolini, jornal socialista intervencionista que na manchete traz duas citações: "A revolução é uma ideia que encontrou baionetas" (Napoleão); "Quem tem ferro, tem pão" (Blanqui). No final do conflito, alguns sindicalistas intervencionistas que participaram activamente na guerra reorganizaram-se e fundaram L'Italia nostra (Subtítulo: "A pátria não se nega, conquista-se"), semanário dirigido por Edmondo Rossoni, ex-militante do PSI que passou para o nacionalismo.

A definição de pátria como objecto não de negação, mas de conquista é particularmente adequada para tornar evidente a transição histórica do internacionalismo socialista para o nacionalismo, primeiro intervencionista, depois sindicalista, e finalmente fascista: segundo o sindicalismo revolucionário, também o proletário terá a tarefa de superar o negacionismo na sua relação com o capitalista, conquistando o acesso às estruturas produtivas das quais será co-responsável, cuidador e defensor. O alerta lançado a tempo pela Esquerda Comunista "italiana" não teve efeito: o sindicalismo revolucionário era um falso amigo do proletariado, pois não só não contemplava a função revolucionária do partido, como confiava a revolução à mística da união entre "produtores". Desde antes da guerra, a nossa corrente teve de criticar e combater tanto o reformismo-revisionismo do tipo da Segunda Internacional como a inevitável reacção imediatista do proletariado. Teve então de travar uma batalha para demolir a concepção evolucionista gradualista que tendia ao "razoável" superamento da doutrina catastrofista (incluindo a parte integrante sobre a função do partido), mas também para demolir a concepção igualmente "razoável" da acção directa, da organização autónoma que, sozinha, teria permitido evitar os efeitos da traição dos partidos.

A nossa corrente sempre rejeitou as mistificações ideológicas sobre o "santo proletariado". Se este não "se ergue como partido", a classe dos sem reservas não é capaz de se mover como classe e permanece um elemento interno à sociedade capitalista. É o partido que dirige a classe, que nele se reconhece. Para o sindicalismo revolucionário, pelo contrário, a classe operária tem todo o interesse em conquistar autonomamente, auto-organizando-se, posições de força dentro desta sociedade. Escreve, por exemplo, Angelo Oliviero Olivetti, ex-socialista convertido ao intervencionismo:

À medida que o operário e o camponês conquistarem melhores condições de existência, tornar-se-ão mais italianos, mais cidadãos, mais homens. E vice-versa, ou melhor, reciprocamente, o aumento da capacidade política, cultural e moral das classes trabalhadoras tornar-lhes-á mais dignas e mais aptas a assumir o lugar que lhes compete como classe dirigente da nação." ("Ripresa", L'Italia Nostra, 1 de Maio de 1918).

Este difundido sentido de "socialização", bandeira da social-democracia alemã à viragem do século XIX para o XX (cf. E. Ströbel), estava presente no mundo socialista-sindicalista revolucionário vinte anos antes de Gramsci compilar a sua versão. A classe operária deve viver pela nação e tornar-se ela própria nação. Da reivindicação socialista passa-se à nacional-socialista, numa espécie de patriotismo operário, que assume e generaliza um léxico híbrido e audacioso. Enrico Corradini, um dos representantes do nacionalismo italiano, defende, por exemplo, a libertação das nações proletárias do controlo das nações plutocráticas: "O socialismo é nosso mestre mas nosso adversário", dizia. Mestre porque ensina a utilizar a luta de classes numa dimensão internacional, adversário porque é pacifista. Mussolini fala de uma Itália proletária e fascista, e Pascoli declama "A Grande Proletária Moveu-se" num incrível discurso d'annunziano proferido na ocasião do ataque à Líbia; enquanto mais próximo de nós no tempo, dedica também Pasolini um arrepio à nação proletária.

Produtivismo

Já foi dito que, em Junho de 1918, um núcleo de militantes sindicais nacionalistas deu origem à União Italiana do Trabalho. Durante o congresso de fundação do novo sindicato, delinearam-se duas posições: a de Edmondo Rossoni, que defendia a apoliticidade da organização, a autonomia e a unidade proletária para alcançar a constituição de um Estado de tipo sindical; e a de Alceste De Ambris, republicana e federalista, que via o sindicato co-existir com outras instituições estatais sem se substituir a elas. A posição de Rossoni, que podemos definir como operária, é a que prevalece: o primeiro artigo dos Estatutos da UIL prevê, de facto, a possibilidade de

"Atribuir diretamente à classe operária organizada a gestão da produção, da distribuição e da troca da riqueza", e defende que o sindicato deve elevar o proletariado "à dignidade e à capacidade de resolver todos os problemas da produção, da cultura e da justiça social."

Os pontos fulcrais do Estatuto da UIL são muito semelhantes aos enunciados no Manifesto dos fascios italianos de combate (1919) e discutidos na reunião fascista de San Sepolcro em Milão, embora Mussolini esteja mais próximo da posição de De Ambris do que da do "sindicalista puro" Rossoni.

É o período em que Mussolini desenvolve as suas teorias produtivistas (o subtítulo do Popolo d'Italia de "quotidiano socialista" torna-se "quotidiano dos produtores") tomadas emprestadas da CGT francesa e da americana AFL, que há muito trabalhavam para a realização de uma democracia produtiva, um corporativismo moderno. Para estas forças sindicais, empregadores e operários devem colaborar para aumentar a riqueza nacional, incrementando a produtividade do trabalho. O facto de o produtivismo ter enraizado em diversos países ao mesmo tempo demonstra que o processo de fascistização da sociedade era uma necessidade que emergia do profundo da estrutura capitalista, cada vez mais em crise e cada vez mais necessitada de intervenções de cima. O tema da nacionalização, ou seja, da intervenção do Estado na propriedade em função de uma utilidade colectiva, sempre foi bastante controverso. Na maioria dos casos, a nacionalização não afecta minimamente a estrutura da propriedade, mas apenas a transfere. Do ponto de vista do funcionamento capitalista, não faz qualquer diferença se as fábricas estão nas mãos de privados ou do Estado. Não existe qualquer relação directa entre nacionalização e socialismo. Podemos imaginar que toda a estrutura produtiva de um país esteja nacionalizada; mas se a estrutura de um sistema baseado no mercado, nas empresas e na produção de mercadorias não for posta em causa, a relação capitalista continua a existir. Introduzir dinheiro no ciclo produtivo para obter mais dinheiro é capitalismo para todos os efeitos, mesmo que não existam capitalistas individuais. O sindicalismo revolucionário afirma que a expropriação dos expropriadores é um acto político mais do que uma reforma económica. Dizemos que é uma condição necessária, mas não suficiente. Quem se coloca numa posição mediadora entre o trabalho e o capital pode conceber a nacionalização como um factor decisivo, mas quem se coloca em decidida antítese vê, pelo contrário, muito bem que a chave do problema económico não é a nacionalização, mas a eliminação do sistema de empresa. Ou seja, os novos parâmetros para avaliar a produção social devem ser derivados do benefício que dela resulta para a sociedade como um todo, e não do balanço empresarial. O controlo do Estado sobre a economia pode ser independente da propriedade física directa. Esse controlo, que é "o resultado natural de todo o seu desenvolvimento histórico"

"pode chegar até à eliminação da forma jurídica da propriedade privada individual dos meios de produção não apenas sem eliminar, mas pelo contrário reforçando, o que é o dado fundamental do sistema de produção capitalista: a exploração do trabalho humano através da apropriação da mais-valia." ("As nacionalizações, arma do capitalismo", Prometeo, 1946).

Este pressuposto é de importância extraordinária: em todo o mundo, entre as duas guerras, impôs-se a necessidade de os Estados controlarem o facto económico: de Portugal à Argentina, de Itália ao Japão, da Alemanha aos Estados Unidos, da Rússia à Espanha. Um efeito colateral destas políticas de controlo económico é o controlo social, que normalmente, em vez disso, é entendido como um factor determinante, como "ataque da burguesia à classe operária", como "ofensiva patronal", etc. A estatização da economia e das estruturas sindicais é uma consequência da crise histórica do capital quando este atinge a sua fase suprema, da resposta combativa do proletariado e da necessidade de contrariar a queda da taxa de lucro. Não há uma relação mecânica entre as etapas desta sequência, mas é claro que a queda da taxa se deve ao amadurecimento da estrutura capitalista, e para a contrariar não há outro caminho senão controlar as causas materiais do fenómeno e favorecer a acumulação.

Il Popolo d'Italia dedica muitas páginas às questões debatidas nos primeiros dois congressos da UIL. Mussolini tem todo o interesse em ter um apoio sindical que sirva de caixa de ressonância para as suas posições políticas, nesse período orientadas para a "esquerda". Ele considera fundamental a unidade sindical, a obter através da fusão dos vários sindicatos: a intenção do fascismo, que por agora é um fenómeno sobretudo milanês, é disputar ao PSI a hegemonia do movimento sindical. E é nesta perspetiva que o jornal citado dá um enorme espaço às questões sindicais, especialmente se significativas para o fascismo, como a greve dos fundidores milaneses (Janeiro de 1919), durante a qual os sindicalistas de "direita", com as suas reivindicações, superam à "esquerda" a CGL e a FIOM no tema dos salários mínimos e dos salários por hora.

Os grevistas que ocupam a fábrica de Dalmine, hasteando o tricolor no mastro da instalação, não fazem senão pôr em prática alguns pontos das teorias produtivistas: querem demonstrar que mesmo reduzindo o horário de trabalho se pode produzir mais e melhor. De facto, durante toda a duração da "greve", a produção continua sob controlo operário. Quando pouco depois a Ordine Nuovo de Gramsci dará forma teórica à ilusória e prejudicial ideia de poder resolver o problema social com uma fórmula organizativa dos produtores, generalizar-se-á a ocupação das fábricas (1920), em continuidade com a experiência de Dalmine, na fronteira entre a socialização fascista e a socialista.

Uniões económicas

Para os dias 20 e 21 de Julho de 1919 foi organizada uma greve internacional em solidariedade com a Rússia bolchevique e contra a presença de tropas da Entente na Rússia e na Hungria. A mobilização não produz os efeitos desejados: os sindicatos franceses retiraram-se à última hora e em Inglaterra a adesão à greve é modesta; o mesmo acontece em Itália. Trata-se de uma derrota que leva a burguesia italiana a recuperar coragem para lançar uma contra-ofensiva contra o movimento operário.

"Sob este ponto de vista — escreve De Felice — pode mesmo dizer-se que com a 'grande greve' de Julho de 1919 começou em Itália o declínio da onda vermelha, esse declínio que, através do fracasso da greve de Turim em Abril de 1920, será irremediavelmente consagrado pouco mais de um ano depois pelo fracasso da ocupação das fábricas". (Mussolini o revolucionário 1883-1920).

Durante a "grande greve" (como será chamada) alguns grupos de trabalhadores (em primeiro plano os dos correios e telégrafos) boicotam o chamado à luta e não interrompem o trabalho. Trata-se de um primeiro abalo na "frente do trabalho": esses grupos darão origem pouco depois à fascio dos correios e telégrafos e organizar-se-ão nos chamados Sindicatos económicos, que se declaram apolíticos, autónomos inclusive da UIL, considerada demasiado politizada. Durante a greve de Julho, a UIL assume uma posição ambígua: no início opõe-se à agitação, por ser contrária a manifestar solidariedade aos bolcheviques, mas, fazendo parte do comité internacional dos sindicatos intervencionistas que adere à mobilização, decide finalmente participar mantendo, no entanto, uma posição autónoma.

Após o II Congresso dos Fasci realizado em Milão em Maio de 1920, o movimento fascista abandona o programa da frente de unidade proletária, deixa de apoiar a UIL, considerada demasiado à esquerda, e simpatiza com os novos organismos. Em Novembro é fundada a Confederação Italiana dos Sindicatos Económicos, que, apesar da sua pretensa apoliticidade, será rapidamente orientada para um sindicalismo declaradamente anti-socialista. Em paralelo ao "deslocamento para a direita" do fascismo, tornam-se mais frequentes as greves em solidariedade com a Terceira Internacional, e os trabalhadores aderentes ao Sindicato dos Ferroviários (SFI) apoiam todas as acções organizadas contra o envio de armas para a Rússia destinadas às forças contra-revolucionárias. Mas as greves são pontualmente dificultadas pelo Sindicato Económico dos Ferroviários, apoiado pelos fascistas que, esquecendo as simpatias filo-bolcheviques do primeiro momento, já não têm qualquer objectivo "socializante" e, por isso, nenhuma motivação política para apoiar a onda histórica que passara por Moscovo.

 

6. Pacto assinado, trabalho enjaulado

Os sindicatos fascistas

Em Novembro de 1921, no seu Terceiro Congresso, o movimento fascista constitui o Partido Nacional Fascista (PNF), dando-se uma estrutura Organizacional mais rígido.

Os sindicatos económicos são gradualmente absorvidos pelos sindicatos fascistas em formação: o PNF defende a rejeição da luta de classes, a condenação das greves dos funcionários públicos e o reconhecimento jurídico dos sindicatos pelo Estado. Afirma ainda que a apoliticidade da organização sindical é pura ficção, uma vez que a neutralidade na política não existe; trata-se, pelo contrário, de politizar cada vez mais os sindicatos, colocando-os sob o controlo do partido. A ambiguidade manifesta é explicável: o fascismo não é o movimento da Itália atrasada, dos 'agrários' reaccionários, mas a mudança de que a indústria precisa. A pequena burguesia e a propriedade agrícola fornecem a ideologia sincretista, que aplaude o nacionalismo, a pátria e também a Revolução Bolchevique e Lénine, mas quando chega ao confronto, os termos da 'questão sindical' clarificam-se rapidamente. As classes médias, que forneceram teoremas políticos oscilantes e sobretudo muita mão de obra de grupos de choque, agora devem alinhar-se em defesa do capitalismo, concentrando-se no tema principal pelo qual tanto trabalharam: a colaboração de classes.

Para alcançar este resultado, elas foram indispensáveis portadoras do oportunismo. Infiltraram na classe operária concepções ideológicas próprias até que, esgotado o ímpeto pelo objectivo alcançado, revelaram a sua verdadeira natureza. Serviram de suporte às posições confusas sobre uma indistinta “socialização”, mas acabaram por tornar-se portadoras de ideias “inspiradas mais ou menos conscientemente nas ideias-mãe, ou seja, nos interesses sociais da classe dominante.” (Tese de Milão, 1966)

O primeiro congresso sindical fascista realiza-se em Bolonha, em Janeiro de 1922, e nessa ocasião Edmondo Rossoni, apesar de ter aderido plenamente ao fascismo, reapresenta a sua teoria sobre a autonomia sindical em contraposição à visão "política" de um sindicato ligado ao partido na sua actividade operacional. A linha de Rossoni é derrotada, mas ele é, no entanto, designado secretário da Confederação Nacional das Corporações Sindicais e, em Março de 1922, assume a direcção do Il Lavoro d'Italia, jornal da Confederação.

À medida que se avança na formação de uma central única das organizações sindicais fascistas, verificam-se greves importantes, uma das quais ocorre em Ferrara em Maio de 1922 e implica uma contradição significativa dentro do fascismo. É Mussolini quem recorda que os sindicatos fascistas não devem de forma alguma reproduzir a acção do sindicalismo vermelho e devem tender para a colaboração de classes.

Mas entre as proclamações e a realidade intercalam-se interesses económicos opostos: a Confederação sindical fascista, para poder controlar os operários, tem de ceder pelo menos em parte às suas reivindicações, organizando algumas greves e, de facto, colocando-se contra os empresários, os mesmos que apoiam e sustentam o fascismo. Surgem assim discussões e rupturas nos organismos dirigentes fascistas sobre as acções a tomar para não desagradar à burguesia industrial e agrícola sem, no entanto, se inimizar com operários e trabalhadores rurais.

No decorrer de 1922, a partir de um acordo entre sindicatos de esquerda, nasce a Aliança do Trabalho que proclama, como já vimos, uma "greve legalista" contra a chamada ofensiva fascista. Trata-se de um genuíno movimento de classe, apoiado pelos comunistas, que dura poucos dias e depois se extingue, também devido a uma repressão duríssima:

“A 31 de Julho de 1922, a Aliança do Trabalho consegue provocar, em resposta aos terríveis ataques contra as organizações proletárias da Romagna, a greve geral nacional. Mas os fascistas sentem que a greve não se sustenta e organizam uma série de represálias violentíssimas que se desencadeiam no final da greve que durou três dias: famosas são as de Génova, Milão e Parma; nesta última cidade, o proletariado, organizado militarmente, resiste, porém vitorioso, a todos os ataques. Mas, para o fascismo, a tomada do poder já se torna indispensável: a destruição dos sindicatos, a assunção ou conquista de numerosos organismos e instituições fez-lhe herdar também problemas e conflitos que só podem ser resolvidos tornando ele próprio a força dominante do governo.” ("Notas para uma análise do fascismo. Das origens à marcha sobre Roma", 1946)

A marcha sobre Roma de 28 de Outubro de 1922 decretou a ascensão ao poder do PNF e este, consolidada a sua posição, passou imediatamente a ligar mais estreitamente os sindicatos fascistas através da constituição dos Grupos de Competência, organismos que têm como objectivo unir os sindicatos operários, os sindicatos de profissionais e os dos capitalistas.

Eles são pouco activos mas muito úteis do ponto de vista do princípio, tanto que sobreviveram até aos nossos dias como "Entidades bilaterais": entidades que reúnem de forma paritária tanto os organismos sindicais dos trabalhadores como as associações de capitalistas de uma mesma categoria profissional, tendo a função de discutir o conteúdo dos contratos colectivos e as modalidades da sua aplicação, além de outras tarefas de regulamentação. Como escreve eficazmente o órgão da Confindustria Il Sole-24 Ore:

“Eles representam uma forma concreta e eficaz de colaboração entre capital e trabalho, indicativa da tendência de superação do modelo excessivamente conflituoso. Têm diversos objectivos: mutualização de obrigações remuneratórias (por exemplo, salários adicionais, férias) para trabalhadores que mudam frequentemente de empregador (por exemplo, na construção civil); formação profissional; segurança no trabalho; prestações assistenciais. Há alguns anos, a lei começou a promover o papel das entidades bilaterais, reconhecendo-lhes funções relativamente ao mercado de trabalho, à formação profissional, à assistência da vontade das partes na celebração de contratos e na disposição de direitos. Seria oportuno, para garantir segurança e reduzir litígios, que o legislador confiasse às entidades bilaterais: a certificação da segurança no trabalho, com exclusão de qualquer responsabilidade por parte do empregador honesto que se submeta ao controlo e cumpra as prescrições da entidade; a gestão dos mecanismos de protecção social, para uma reintegração efectiva dos beneficiários; a instrução e eventual conciliação na empresa das queixas dos trabalhadores sobre despromoções, maus-tratos, assédio moral.”

Citámos na íntegra estas interessantes observações oficiais da Confindustria porque, na sua essência propositiva, são praticamente idênticas ao programa de conquista da responsabilidade sindical em Georges Sorel, citado na primeira parte deste artigo (O futuro socialista dos sindicatos).

A Assembleia Constituinte dos Sindicatos

Mussolini, ao chegar ao poder, não abandona, no entanto, as tentativas de envolvimento da CGL, ao ponto de propor a Gino Baldesi, dirigente reformista do "sindicato vermelho", a liderança do Ministério do Trabalho.

A 3 de Outubro de 1922 ocorre mais uma cisão no campo socialista: após a de 1921 que levou à constituição do PCd'I, dá-se uma divisão entre maximalistas e reformistas, da qual nasce o Partido Socialista Unitário sob a liderança de Giacomo Matteotti. A divisão do campo socialista em três ramos determina a ruptura da ligação histórica que a CGL tinha estabelecido com o PSI. No interior da CGL co-existem agora diferentes orientações políticas e, para evitar cisões, o sindicato deixa os membros livres de qualquer vínculo político e coloca-se "na explicação da sua actividade não contra nem fora da nação", abrindo as portas a uma possível colaboração com o fascismo.

Em Outubro de 1922, Angelo Oliviero Olivetti funda o jornal La Patria del Popolo, um "semanário sindicalista-dannunziano". A sua linha política é sintetizada no Manifesto dos sindicalistas – adoptado pela UIL no seu quarto congresso – no qual se defende que

"o verdadeiro órgão da revolução proletária e, ao mesmo tempo, da reconstrução social é o sindicato, o qual não nega de forma simplista e apriorística o capitalismo, mas supera-o, socializando-o e separando o capital e a sua função útil da pessoa do capitalista. O sindicalismo não é anti-capitalista no sentido técnico, mas é contrário à detenção ilícita e arbitrária dos meios de produção por uma casta privilegiada através de ordenamentos jurídicos e políticos."


Nesta perspetiva, o sindicato deixa de ser um organismo de luta dos proletários e torna-se um instrumento útil à acumulação capitalista e à defesa dos interesses nacionais:

"O sindicalismo reconhece o facto e a existência da nação como uma realidade histórica iminente que não pretende negar, mas integrar. Pelo contrário, a própria nação é concebida como o maior sindicato, como a livre associação de todas as forças produtivas de um país dentro desses limites e com essa unidade imposta pela natureza da história, pela linguagem e pelo génio profundo e invencível da raça. O facto nacional é imanente, fundamental e supremo, é o maior interesse de todos os produtores. Alienígenas à nação são apenas os parasitas, os elementos improdutivos."

 

Após esclarecer a função do "sindicalismo" e reafirmar o seu próprio conceito de nação, Olivetti aborda o problema da separação entre propriedade e capital: para Olivetti, o objectivo do sindicalismo não é negar o capitalismo, mas socializá-lo cada vez mais, transferindo a propriedade e a produção do controlo exclusivo dos capitalistas para o do Estado. Uma vez que a tendência do Capital é a máxima socialização do trabalho, é necessária uma superestrutura político-sindical-governamental, adequada para gerir este processo, impedindo que ele leve a uma saída revolucionária. Aliás, como diz Engels,

"o carácter social das forças produtivas força os próprios capitalistas a abandonar os grandes organismos de produção e comunicação primeiro às sociedades por acções, depois aos trusts e, finalmente, ao Estado. A burguesia torna-se uma classe supérflua: todas as suas funções são agora desempenhadas por funcionários assalariados". (Anti-Dühring)

Uma vez concluída a experiência em Fiume no final de 1920, foram feitas tentativas de unificação entre o sindicalismo nacional de Olivetti e o d’annunziano. A Constituinte sindical d’annunziana tinha como objectivo construir uma frente única independente dos partidos, envolvendo todas as forças laborais, desde os sindicalistas revolucionários, à CGL, dos legionários aos anarquistas, com o objectivo declarado de alcançar uma pacificação geral em Itália. Mas a tentativa de frente não vai avante porque as relações de força já favorecem o fascismo e porque D’Annunzio se retira da operação. Rossoni fecha as portas a qualquer ideia de colaboração com os sindicalistas socialistas, e o fascismo já pode mover-se autonomamente no âmbito sindical, mesmo que o sindicalismo “vermelho” resista.

A CGL tinha visto na proposta da Constituinte sindical a possibilidade de sair do isolamento a que tinha sido obrigada pelo fascismo e, através de alguns dos seus dirigentes (entre os quais Rinaldo Rigola), propõe mesmo a constituição de um Partido do Trabalho. É de notar que também noutros momentos históricos o "sindicato vermelho", ao perder a ligação com o partido histórico de referência, acariciará a ideia de se constituir como partido. Um exemplo recente é a proposta apresentada a 5 de Dezembro de 2002 por alguns dirigentes da esquerda da CGIL "Por uma nova representação política do mundo do trabalho". É particularmente significativo o facto de o apelo se destinar à constituição de um novo "partido do trabalho" e não "dos trabalhadores".

Também Roberto Farinacci, que será secretário do Partido Nacional Fascista, opõe-se a qualquer hipótese de Assembleia Sindical Constituinte que devesse unir forças totalmente heterogéneas; o fascismo prefere gastar as suas energias no projecto mais realista de unificação e consolidação dos sindicatos fascistas, reivindicando para as suas associações o monopólio da organização sindical. O estatuto da Confederação das Corporações Sindicais adopta naturalmente os temas do produtivismo: o sindicalismo não deve referir-se apenas às categorias, mas a todo o povo, que, por conseguinte, deve identificar-se com a nação. O elemento dinâmico da história não é mais a luta de classes, mas uma evolução competitiva entre as categorias, no seio das quais emergem as elites capazes de guiar não apenas a sua própria corporação, mas, no limite, a pátria.

Corporativismo bipolar

Para o fascismo, a acção sindical deve, portanto, estar subordinada às necessidades da produção, ao bem-estar da nação, e qualquer conflito entre trabalhadores e empregadores deve ser mediado pelos Grupos de competência, compostos por técnicos e especialistas nos vários sectores. A corporativização da sociedade bloqueia desde o início qualquer iniciativa autónoma dos operários e representa um obstáculo às greves.

O corporativismo capitalista já não pode reunir dentro de cada agrupamento profissional os elementos de uma única categoria como na era feudal. Ele é moderno, no sentido de ser a expressão de uma sociedade dividida não tanto por ofícios, mas pela propriedade dos meios de produção. Em vez da corporação unipolar feudal, diz a nossa corrente, o fascismo realiza um modelo de corporação bipolar, dentro do qual, queiram ou não, existem dois polos opostos da sociedade: quem não tem nada além da sua força de trabalho e quem possui tudo o que é necessário para produzir, desde os meios de produção aos capitais. Na economia capitalista, já não existem pessoas físicas individuais a representar a sua classe, mas os dois blocos opostos são o resultado de uma máxima socialização do trabalho; pelo que a responsabilidade para com a pátria económica se traduz numa inevitável limitação da greve, substituída por uma colaboração cujo resultado é a salvaguarda dos interesses de uma única parte.

Estes temas são desenvolvidos num artigo publicado em 1949 pelo Partido Comunista Internacionalista (Corporativismo e socialismo), quando ainda estava vivo o debate em torno da criação dos Conselhos de trabalho e de economia, organismos que deveriam facilitar o envolvimento dos trabalhadores nas decisões das empresas, tornando co-responsáveis os representantes das categorias produtivas de bens e serviços nos sectores público e privado:


"É interessante que, após a queda do fascismo, aqueles mesmos grupos que, ao sucedê-lo, se comportaram como enterradores e destruidores de cada vestígio do regime, regressem no entanto com insistência à exigência de continuar a reconstruir muitos dos órgãos desse sistema social, como os Conselhos de trabalho e de economia."

Se quisermos que tudo permaneça essencialmente como está, é necessário que tudo mude na aparência; esta é a lógica gattopardesca que guia a acção da classe dominante italiana, inclusive e sobretudo no pós-guerra. Não por acaso, após o fim da guerra, na delicada fase de transição entre o antigo corporativismo fascista e o novo, democrático, Togliatti tinha gritado que era necessário recolher o tricolore que a burguesia tinha deixado cair na lama e lutar por um novo renascimento.

Sindicalismo integral

Retornando à nossa história do sindicalismo fascista, vemos que os Grupos de competência, ao limitarem a iniciativa sindical, alimentam uma contra-ofensiva dos industriais e dos proprietários rurais e, por consequência, provocam uma reacção dos operários. Com o sindicalismo de classe fortemente enfraquecido, os capitalistas aproveitam a situação para baixar os salários e piorar as condições de trabalho.

O reacender da luta de classes representa um problema para o PNF, e Rossoni, à frente da Confederação dos sindicatos fascistas, pensa em resolvê-lo lançando a fórmula do "sindicalismo integral", que prevê a existência de uma formação social "organicista" que acolha todos os elementos do trabalho, desde o operário, ao técnico, ao empresário. Para Rossoni, o sindicato deve ser nacional e deve incluir no seu seio tanto as forças do capital como as do trabalho.

Mas esta forma de sindicalismo encontra a oposição dos industriais porque põe em causa a sua autonomia e ameaça os seus interesses. Segundo os empresários, que apoiaram o fascismo em função anti-comunista, Rossoni queria uma continuação da luta de classes de outra forma, o que colocaria em perigo a harmonia social corporativa. Certamente não os tranquiliza o facto de ele declarar que "a indisciplina e a revolta bolchevique das massas são nefastas para a Nação, mas igualmente o são o egoísmo e a especulação das classes sordidamente opacas". ("Compreender ou perecer", Il Lavoro d'Italia, 22 de Fevereiro de 1923).

As polémicas chegam ao Grande Conselho do Fascismo de 1923, no qual se confrontam duas posições: uma a favor do "sindicalismo integral" (Farinacci e Rossoni) e outra pela autonomia dos sindicatos patronais (Corgini). Mussolini faz de mediador: reconhece nas corporações um aspecto da revolução fascista, mas declara-se contrário ao monopólio sindical. No mesmo ano, reúne-se o Conselho Nacional das Corporações sindicais, onde são discutidas e aprovadas duas resoluções: 1) as corporações fascistas são incapazes de impor aos empregadores o cumprimento dos contratos livremente acordados; 2) a única forma de sair desta situação é reconhecer os sindicatos como associações de facto e como órgãos de direito público. Será este o caminho que o fascismo seguirá de agora em diante.

O Pacto do Palazzo Chigi

As propostas de Rossoni não passam e são superadas com o acordo assinado em 1923, conhecido como Pacto de Palazzo Chigi. O governo, que não pretende absorver nas corporações também os sindicatos dos patrões e visa acabar definitivamente com a CGL, exige, no entanto, que a Confindustria reconheça os sindicatos fascistas de forma a estabelecer com eles relações contratuais. Para os teóricos do sindicalismo nacional, é do interesse de todos mediar os conflitos e procurar sempre um ponto de conciliação, garantindo que as relações entre o governo, as organizações dos empresários e dos trabalhadores sejam contínuas e não esporádicas.

Na ordem do dia aprovada sob a presidência de Mussolini na reunião de 21 de Dezembro de 1923, a Confederação Geral da Indústria Italiana e a Confederação Geral das Corporações Fascistas afirmam

“o princípio de que a organização sindical não deve basear-se no critério do conflito irreconciliável de interesses entre industriais e operários, mas deve inspirar-se na necessidade de estreitar cada vez mais relações cordiais entre os empregadores e trabalhadores individuais e entre as suas organizações sindicais, procurando assegurar a cada um dos elementos produtivos as melhores condições para o desenvolvimento das respectivas funções e a mais justa remuneração pelo seu trabalho, o que se reflecte também na celebração de contratos de trabalho segundo o espírito do Sindicalismo nacional.”

Posta de lado, portanto, a ideia do "sindicalismo integral", Mussolini garante o apoio da Confindustria em vista das eleições legislativas de Abril de 1924, que levarão à vitória do Listone (cujo símbolo é o feixe de lictores). Antonio Stefano Benni, representante dos industriais, eleito deputado na lista fascista, pronuncia no Teatro Lírico de Milão um discurso no qual avalia positivamente a actuação do governo fascista.

Apesar do Pacto de Palazzo Chigi, o conflito entre capital e trabalho e a desconfiança entre as "partes" não se apaziguam, e as greves continuam, como é natural numa sociedade dividida em classes, onde se confrontam interesses opostos.

O Pacto do Palazzo Vidoni

Uma tentativa ulterior de resolver ou pelo menos limitar a luta insuprimível entre as classes é o Pacto de Palazzo Vidoni em Outubro de 1925. Este acordo, em continuidade com a abordagem do de Palazzo Chigi, representa um avanço do ponto de vista político: não há um simples reconhecimento das duas forças, corporações fascistas de um lado e Confindustria do outro, há o reconhecimento da representação exclusiva dos trabalhadores pelo fascismo com a abolição das comissões internas de fábrica. São assim ultrapassadas as representações de base e tudo é assumido pelos sindicatos fascistas locais directamente controlados pelo PNF:

“A Confederação Geral da Indústria reconhece na Confederação das Corporações Fascistas e nas Organizações a ela subordinadas a representação exclusiva das mãos-de-obra trabalhadoras.
A Confederação das Corporações Fascistas reconhece na Confederação Geral da Indústria e nas Organizações a ela subordinadas a representação exclusiva dos industriais.
Todas as relações contratuais entre industriais e trabalhadores devem ocorrer entre as Organizações subordinadas à Confederação da Indústria e aquelas subordinadas à Confederação das Corporações.
Em consequência, as comissões internas de fábrica são abolidas e as suas funções são atribuídas ao sindicato local, que as exercerá apenas em relação à correspondente Organização industrial.”

Este facto leva ao bloqueio de qualquer acção autónoma dos operários, pois é negada até a mínima possibilidade de actuação dentro das fábricas.

Durante a sessão do Grande Conselho do Fascismo de 6 de Outubro de 1925, discutem-se os temas do reconhecimento oficial dos sindicatos e da necessidade de uma Magistratura do Trabalho. A discussão leva à formulação da lei de 3 de Abril de 1926, que regula juridicamente as relações colectivas de trabalho, estabelece a Magistratura do Trabalho e define o princípio de que o mundo sindical deve ser controlado e enquadrado no Estado. Surge o Ministério das Corporações, dirigido por Giuseppe Bottai.

O "reconhecimento" é concedido a um único sindicato para cada tipo de empresa ou categoria de trabalhadores. Os sindicatos que são reconhecidos pelas instituições têm o poder de celebrar contratos colectivos de trabalho com efeito obrigatório para todos, enquanto os sindicatos não legalmente reconhecidos podem continuar a existir, mas apenas como associações de facto.

Este princípio fundamental do sindicalismo fascista sobrevive até aos nossos dias. Explica, por exemplo, a angustiante corrida dos sindicatos menores ao reconhecimento por parte dos empregadores. Significativo é o Texto Único sobre a Representação Sindical assinado pelos três maiores sindicatos italianos a 10 de Janeiro de 2014: ele estabelece a validade formal apenas dos acordos entre as partes signatárias do TURS, acordos aos quais, no entanto, todos devem obedecer, mesmo que discordem do seu conteúdo.

 

7. Integração total

Os Problemas do Trabalho

Após a promulgação das chamadas leis fascistíssimas, que transformam de facto o ordenamento jurídico do Reino de Itália no regime fascista, e à dura repressão contra as Câmaras do Trabalho e as sedes sindicais (a 10 de Novembro de 1926 os fascistas devastaram a CdL de Milão e a da FIOM em Turim), abre-se uma discussão no seio dos grupos dirigentes da CGL que leva, em Janeiro de 1927, à decisão de dissolver a organização.

Da França, Bruno Buozzi e outros exilados declaram não partilhar essa escolha. Os líderes sindicais que permaneceram em Itália não se limitam a dissolver a organização e a retirar-se para a vida privada: dirigentes como Baldesi e Calda têm encontros com Mussolini e Rossoni (já em 1923 tinham ocorrido aproximações com Mussolini e desenhava-se uma tendência frontalista dentro da CGL), durante os quais informam os hierarcas fascistas da vontade de fundar uma revista que se chamará I Problemi del Lavoro (dirigida por Rinaldo Rigola e Ludovico D'Aragona). O objectivo, como de costume, seria actuar contra o fascismo pressionando-o pela esquerda. Para se ter uma ideia da linha política da revista, no primeiro número (25 de Março de 1927) afirma-se explicitamente que a substituição dos sindicatos pelas corporações, no fim de contas, não deve ser avaliada negativamente:

" Este objectivo dado de facto demonstra que um princípio venceu, ainda que ao custo do sacrifício de concepções particulares e dos homens que as encarnavam. Quem viveu em épocas em que o sindicalismo era inicialmente adversado, tanto pela ciência económica como pela política, pode fazer comparações. Mais sindicalismo hoje do que ontem, apesar da guerra contra os sindicatos.."

Certo, mais sindicalismo “de hoje do que de ontem”, mas que tipo de sindicalismo? A fundação da revista e da associação Estudos do Trabalho é aceite pelos fascistas, que têm todo o interesse em demonstrar ser tolerantes e abertos às reivindicações que chegam do mundo do trabalho.

I Problemi del Lavoro foi publicada de 1927 a 1940. A revista tem como objectivo oficial ajudar o sistema político e institucional a concretizar os postulados expressos pelos vários pactos e visa dar um fundamento "socialista" ao estado fascista. O grupo dirigente da então Confederação do Trabalho cede assim em toda a linha, inserindo-se no debate em curso na Itália fascista sobre a implementação dos postulados contidos na Carta do Trabalho. Além disso, a cedência também se refere a outros aspectos da política fascista: por exemplo, chegar-se-á a justificar as empresas coloniais e imperialistas do regime, defendendo até que a África é um apêndice natural de Itália.

A Carta do Trabalho

Chegamos assim à Carta do Trabalho (redigida por Carlo Costamagna, revista por Alfredo Rocco), aprovada em 21 de Abril de 1927. O mundo industrial podia considerar-se satisfeito com o desempenho do grupo dirigente da CGL e com a progressiva institucionalização do sindicato. Não podia dizer-se satisfeito o proletariado que, naqueles anos, tinha de lidar com a famigerada revalorização da Lira para a 'cota 90', com o aumento do desemprego e com a diminuição dos salários. Em consequência do aumento do desemprego, houve uma migração, dirigida pelo governo, do Véneto e da Emília para o Agro Pôntino, onde estavam em curso as famosas drenagens mussolinianas (uma descrição romanesca realista encontra-se em Canale Mussolini de Antonio Pennacchi). O estado corporativo tinha intervindo para atenuar os processos de empobrecimento com grandes obras públicas que, por um lado, saneavam territórios pantanosos e, por outro, colocavam em movimento novos ciclos de acumulação agrária local. Faltavam ainda dez anos para a publicação do manifesto keynesiano e o capitalismo italiano já sentia a necessidade de dar um enquadramento estatal à economia com investimentos significativos em obras públicas.

O conteúdo sindical da Carta do Trabalho deveria, entre outras coisas, remediar, com melhorias normativas e assistenciais, o processo de empobrecimento da população devido ao facto, confessado, de que as corporações não conseguiam fazer cumprir as decisões junto das indústrias, que, em consequência, se sentiam livres para manter os salários extremamente baixos. A isso juntava-se a revalorização da Lira, pouco funcional, que dizia respeito apenas a uma questão formal de prestígio; enquanto a Itália, pelo contrário, teria precisado de desvalorizar para aumentar a competitividade dos seus produtos no mercado externo. Resultado, de qualquer forma, que se tentou alcançar baixando os salários com uma redução entre 10 e 20%. Em suma, a Carta do Trabalho deveria compensar, com um welfare ante litteram, tanto os sacrifícios exigidos para aumentar o valor da moeda, como a tendência natural dos capitalistas de baixar o salário ao mínimo permitido pelo mercado de trabalho.

A Carta consistia em 30 enunciados divididos em 4 grupos que diziam respeito ao estado corporativo e à sua organização, ao contrato de trabalho e às garantias salariais, aos serviços de emprego e à segurança social, à assistência e à educação do povo italiano.

Os enunciados fundamentais contemplavam a colaboração de classes e a harmonia entre os diferentes factores de produção, a primazia da iniciativa privada sobre a intervenção estatal no campo económico, a negociação colectiva sob a direcção do sindicato único e a magistratura do trabalho.

O direito-dever ao trabalho é colocado em primeiro plano:

O trabalho, em todas as suas formas organizacionais e executivas, intelectuais, técnicas e manuais, é um dever social. Por este motivo, e apenas por este motivo, é protegido pelo Estado. O conjunto da produção é unitário do ponto de vista nacional; os seus objectivos são unitários e resumem-se no bem-estar dos indivíduos e no desenvolvimento do poder nacional.

Com a Carta do Trabalho, a Itália tornava-se um país capitalista avançado em termos de "garantias" concedidas aos seus cidadãos. O sindicalismo fascista e as políticas de bem-estar surgem quase simultaneamente e, embora tenham como efeito impedir a luta de classes, demonstram como a constante revolução das relações de produção não é apenas um parágrafo no Manifesto de Marx, mas uma necessidade material que tem reflexos na superestrutura política.

Luta de classes insuprimível

Apesar das repetidas tentativas do PNF de alcançar a paz social, a luta de classes certamente não está adormecida; os industriais ignoram as leis e os operários agem em conformidade, fazendo greves. Para Rossoni, o destacado representante da esquerda fascista, a autonomia excessiva concedida aos industriais provoca um desequilíbrio social que a longo prazo pode tornar-se perigoso. De facto, verificam-se importantes agitações operárias ao longo de 1927, e mais uma vez os sindicatos fascistas encontram-se sob a pressão dos capitalistas por um lado e dos operários pelo outro.

Rossoni chega a ameaçar os industriais, afirmando que o Estado deveria assumir a propriedade das grandes indústrias para confiar a sua gestão a funcionários pagos. A males extremos, remédios extremos: o capitalismo moderno deu demasiado poder ao capital, com a consequência de permitir-lhe a máxima autonomia em relação aos seus proprietários individuais. Rossoni tem razão. Do ponto de vista da salvaguarda do capitalismo, seria melhor que o capitalismo prescindisse dos capitalistas. Mais uma vez, a Italietta abalada por confrontos épicos produz teoria de alto nível ao serviço do mundo: um capitalismo sem capitalistas está-se a consolidar na Rússia, e nos Estados Unidos surge uma teoria social baseada até no nascimento de uma nova classe 'gestional', formada exclusivamente por técnicos.

A ameaça de Rossoni é extremamente significativa, mas é na verdade um sinal de fraqueza: no fundo, o fascismo não tem o poder nem a coragem de ser radical em relação às suas próprias origens. Numa dinâmica histórica de tragédia infinita como a dos anos 20, o sincretismo político entre sindicalismo revolucionário, dannunzianismo e corporativismo é a montanha que pariu o rato. As premissas históricas são mais poderosas do que as componentes políticas conseguem reunir. Ter de reconhecer que, perante o capital que se autonomiza (como aliás previsto por Marx), o Estado não é capaz de disciplinar os capitalistas individuais, antes lhes permite empobrecer a tão glorificada classe operária, é uma rendição humilhante para os fascistas que permaneceram fiéis às origens. Mas qual seria a estrutura do capitalismo-fascismo se de facto os capitalistas fossem substituídos por funcionários remunerados? Note-se que, no caso de indústrias à beira da falência, o estado fascista já requisita as fábricas, substituindo os proprietários por técnicos encarregados de reestruturá-las e de as relançar no mercado. Rossoni, portanto, não faz um discurso pessoal, mas exprime um facto: a onda revolucionária perdeu a sua força e a socialização da economia assume uma forma estatal, centralizada e burocrática. Na Itália e na Rússia soviética isso é particularmente visível, mas também, com alguns anos de atraso, na Alemanha e nos Estados Unidos. Neste último país, o reflexo da socialização manifesta-se através do movimento tecnocrático, um desenvolvimento totalmente americano das premissas fascistas.

Este movimento nasce após a Primeira Guerra Mundial nos Estados Unidos e reforça-se nos primeiros anos de 1930 na onda da grande crise de 1929 que, como qualquer crise, apenas demonstra como o capitalismo é uma forma de produção transitória: se quiser atrasar o seu fim, deve revolucionar a si próprio. A palavra Tecnocracia é usada pela primeira vez por um engenheiro californiano, William Henry Smyth, em 1919, para descrever uma "democracia industrial" a alcançar através da utilização de cientistas e técnicos ao serviço da produção. Os operários, sob a orientação dos técnicos, devem ser integrados nos processos de decisão. Isso através de escolhas programadas ou através de uma revolução.

Os tecnocratas, ao contrário dos fascistas, não criam um movimento político, propõem "simplesmente" opor à desastrosa política tradicional um governo de técnicos que aja com base em programas científicos, fundamentados no cálculo com dados objectivos. Não se pode excluir que, mesmo dentro do corporativismo italiano dos anos 30, tenham existido tendências nessa direcção, mas, se se manifestaram, foram esmagadas pelos interesses predominantes de uma burguesia míope, incapaz de realizar o seu próprio programa histórico.

O movimento tecnocrático defende que o tempo do capitalismo acabou e que é necessário passar de uma medida baseada no valor-dinheiro para uma baseada em quantidades físicas. Em 1936, Marion King Hubbert publica na revista Technocracy (série A, n.º 8) um artigo intitulado "Horas-homens e distribuição - Uma quantidade decrescente", precisamente para demonstrar a eficiência de uma contabilidade sem relações de valor (ele propunha o cálculo com base na troca de energia). Retomando, ainda que não intencionalmente, o ponto de vista marxista, segundo o qual a contabilidade da sociedade futura será baseada em quantidades físicas, como horas de trabalho, números de objectos e de pessoas, relacionadas com o processo produtivo e distributivo, ou, exactamente, troca de energia.

Corporativismo e managerialismo entre as duas guerras são tentativas do capitalismo de se salvar a si próprio negando os traços que decretam objectivamente o seu fim. De facto, ao introduzir a hipótese de novos elementos de governo do facto económico, o capitalismo aproxima-se do limite com uma sociedade completamente diferente. O choque representado pela crise de 1929 exorta a uma maior programação económica, ou seja, a uma maior intervenção do Estado na economia. Escrevem-se ensaios como A burocratização do mundo de Bruno Rizzi e A revolução gerencial de James Burnham, que analisam a posição social dos gestores, a sua marcha para o poder e a transformação em curso nas relações de propriedade, necessária para dar fôlego ao capital. Para sobreviver, o capitalismo é forçado a emprestar estruturas centrais e organismos políticos de governo adequados a acompanhar o processo de autonomização do Capital:

" Na linha do estudo Propriedade e Capital vemos o factor essencial da actual fase capitalista mundial na empresa – a construção fornece um exemplo sugestivo – que opera sem sede própria e instalações estáveis, com capital mínimo mas para um lucro máximo e pode fazer isto porque o Estado foi subjugado, distribuindo o capital e assumindo as perdas. O funcionário não é uma figura central, mas um simples mediador; em contrapartida ao corpo de funcionários do Estado há o das contras-gestões das empresas, onde abundam consultores de todo o tipo e se dedicam a alinhar o Estado aos interesses das empresas.” (Lições das contra-revoluções, PCInt. 1951)

Hoje, o capitalismo de Estado já não é aquele em que o Estado controlava a economia, mas sim aquele em que a economia controla o Estado. Chegada a este último nível, a sociedade está em transição.

O "desbloqueio" dos sindicatos

As discussões no PNF sobre a implementação do Estado corporativo levam ao “desbloqueio” dos sindicatos, uma vez que a Confederação dos sindicatos fascistas é considerada por Augusto Durati (secretário do partido) e por Giuseppe Bottai como um veículo para a reapresentação da luta de classes.

“Não é possível contar com uma colaboração corporativa das classes e categorias, se entre as classes e categorias se continua a manter o sistema da ‘frente única’, o qual, plausível num regime de luta de classes, se torna ilógico num regime que pretende afirmar-se na restauração da unidade do Estado.” (Giuseppe Bottai, Experiência Corporativa. 1929 - 1934).

 

Segundo Bottai, a Confederação dos sindicatos fascistas tinha sido necessária para enquadrar os operários e erradicar o sindicalismo de classe: alcançado o objectivo, era preciso passar à página seguinte. Um Estado (sindical) dentro do Estado não podia ser aceite pelo fascismo, que há muito se afastara das suas origens sindicalistas revolucionárias. O Estado devia englobar a sociedade civil e não era tolerável a persistência de um sindicalismo que, não obstante a estrutura corporativa e pacificadora, ainda se baseava no confronto entre classes. Em nome de um aperfeiçoamento adicional do estado corporativo, foi então decidido o desmembramento do sindicato fascista, uma força que reunia pelo menos dois milhões de membros. 21 de Novembro de 1928 é a data do "desbloqueio": todas as federações provinciais que compõem a Confederação sindical fascista são transformadas em confederações e uniões provinciais autónomas umas das outras. Formam-se 13 Confederações nacionais, seis dos operários e seis dos empregadores, mais uma de profissionais liberais.

E visto que, para além da confrontação entre classes, tende também a persistir a união entre os proletários, perigosa antecâmara do movimento político, o regime considera prudente dividi-los:

"A burguesia sente que, enquanto for possível manter o proletariado no terreno das necessidades imediatas e económicas que o afectam categoria a categoria, está a fazer um trabalho conservador ao evitar a formação daquela perigosa consciência 'política' que é a única revolucionária, porque visa o ponto vulnerável do adversário: a posse do poder." ("Partido e Classe", Revista Comunista de 15 de Abril de 1921).

Fragmentado e separado, o proletariado não tem nenhuma força, parece mesmo desaparecer como classe. O "desbloqueio" aniquila o desdobrar da acção sindical e, eliminado o sindicalismo "vermelho", deixa de haver também a necessidade do "negro". Uma vez que os operários são representados apenas pelas corporações, não têm agora qualquer possibilidade de se organizarem de forma autónoma e fazer valer as suas reivindicações: as corporações são os únicos organismos de ligação entre o governo e os grupos industriais, e, desde 1939, a Câmara dos Deputados é substituída pela Câmara dos Fascios e das Corporações.

O período que vai de 1928 à queda do regime vê o sindicalismo sair de cena, mas o fascismo vangloriar-se-á de ter construído uma série de "garantias" que ainda hoje alguns sectores da esquerda parlamentar e não parlamentar lamentam e querem preservar. Enumeremo-las:

- férias pagas;
- indemnização por despedimento;
- manutenção do posto em caso de doença;
- proibição de despedimento durante a maternidade;
- abonos familiares;
- expansão das caixas de assistência mútua das empresas;
- assistência social da Obra Nacional de Recreio.

Se, desde o "desbloqueio" dos sindicatos até à legislação sobre a ordem corporativa (1934), nada de relevante acontece do ponto de vista das lutas operárias, temos, no entanto, a formulação de curiosas teorias políticas: durante o segundo Congresso de estudos sindicais e corporativos, realizado em Ferrara em 1932, o filósofo Ugo Spirito apresenta a sua teoria para uma "corporação proprietária": o controlo do capital deveria passar dos accionistas (sujeito passivo no que diz respeito à produtividade e ao trabalho) para os operários da empresa, enquanto a propriedade dos meios de produção, e portanto da empresa, seria prerrogativa da corporação.

Esta teoria é ilustrada no seu livro Capitalismo e corporativismo, publicado em 1933, no qual também se aborda o tema da separação entre propriedade e controle nas grandes sociedades anónimas. Coincidência ou não, nos mesmos anos surge em França o "planismo", uma teoria económica segundo a qual, através do planeamento, é possível mudar a sociedade, ou pelo menos contrariar os efeitos perversos do capitalismo, e que influenciou socialistas, sindicalistas e fascistas. No congresso de Ferrara participou também o sociólogo e economista alemão Werner Sombart, que nessa ocasião disse: "Estado e Nação são duas potências e a economia deverá submeter-se à força política. Também na Rússia se manifesta a mesma tendência; mas o primeiro país a dar passos pelo novo caminho é a Itália." (O futuro do capitalismo, Introdução de Alberto Ghislanzoni).

Um fio único liga as teorias sindicalistas revolucionárias da UIL, o sansepolcrismo, o "sindicalismo integral" de Rossoni, a Carta do Trabalho e o Manifesto de Verona (1943) redigido durante a República de Salò, no qual se propõe a colaboração dentro de cada empresa entre técnicos e operários para a justa repartição dos lucros:

“Em todas as empresas (industriais, privadas, para-estatais ou estatais) as representações de técnicos e operários cooperam intimamente (através de um conhecimento directo da gestão) na fixação justa dos salários, bem como na justa repartição dos lucros, entre o fundo de reserva, o fruto do capital accionista e a participação nos próprios lucros por parte dos trabalhadores. Em algumas empresas, isso poderá ocorrer com uma extensão das prerrogativas das actuais comissões de fábrica. Noutras, substituindo os conselhos de administração por conselhos de gestão, compostos por técnicos e operários, com um representante do Estado; e noutras ainda, sob a forma de cooperativa parasindical. (Manifesto di Verona).

En passant: não se deve esquecer que, em regime burguês, as nacionalizações das empresas, a co-gestão e a participação nas decisões empresariais, de que ainda hoje muitos esquerdistas falam, enquadram-se num processo de exacerbação e aceleração do ritmo de acumulação capitalista, e, por isso, de exploração da força de trabalho.

Abaixo a república burguesa...

Terminada a guerra, derrotado o fascismo em "camisa negra", o corporativismo não desaparece, mas apresenta-se numa nova forma, a da reconstrução pós-guerra. Aliás, se o fascismo é uma necessidade que emerge do profundo da sociedade capitalista para estabelecer uma ordem perante a enorme complexidade atingida, tal processo não pode senão continuar e evoluir, actualizando instrumentos e métodos de intervenção.

A breve experiência da "CGL vermelha" no Sul da Itália em 1943-44, que se inspira no sindicalismo pré-fascista e está em polémica com o interclassismo, é rapidamente absorvida pelo sindicato tricolor reconstruído (cf. L'altra Resistenza); e nem mesmo as cisões sindicais dos anos 40 e 50, que deram origem à CISL e à UIL, representam uma ruptura no processo de subjugação do sindicato às instituições burguesas, pelo contrário, não fazem senão reforçar o próprio processo.

Pode ser útil a leitura do livro de Pietro Neglie, Irmãos de camisa negra. Comunistas e fascistas do corporativismo à CGIL 1928-1948, que, como indica o título, evidencia a continuidade também física entre o corporativismo fascista e o corporativismo demo-fascista, ou seja, as múltiplas relações que existiram, durante o Ventennio e além, entre estalinistas italianos e fascistas, sobretudo no domínio sindical. Nada de novo para quem se refere à Esquerda: a nossa corrente em Abaixo a república burguesa, abaixo a sua constituição (1947) declarava sem rodeios que o processo de integração dos sindicatos iniciado nos anos 20 estava a ser concluído pelos governos pós-fascistas.

"O sindicato económico proibido na prática inicial da revolução burguesa é primeiro admitido, depois corrompido, e depois integrado no Estado. O jogo das iniciativas económicas, que no início deve ser incontestado por um sagrado cânone (versão directa daquilo que é a inviolabilidade da pessoa), vê intervenções cada vez mais frequentes e directas do poder político, em nome do interesse social!"

No artigo citado há uma descrição clara do legado do Ventennio: enquanto "realizador dialéctico das instâncias reformistas", o fascismo desloca a forma sindical de fora das instituições burguesas para dentro delas, visando uma reforma. Com a Carta do Trabalho e com os outros documentos fundamentais do regime, os sindicatos tornam-se uma questão do Estado. Não é estranho que, com a vitória dos Aliados e da resistência anti-fascista, a nova república seja fundada no trabalho, como afirma o artigo 1.º da Constituição, e que a forma corporativa sobreviva.

Do ponto de vista do proletariado, entendido como classe "para si", não é uma conquista o facto de as organizações operárias serem reconhecidas pela burguesia: o caminho proletário não está "dentro" do Estado. Com mais razão, os organismos de luta do proletariado não têm interesse em serem reconhecidos pelos capitalistas: sendo sabotador do investimento burguês, o proletariado em luta não dialoga com as instituições da classe inimiga, não aceita contratos que prevejam reduções salariais e despedimentos, não aceita novas derrotas em troca de promessas fantasmagóricas como a defesa do emprego, os investimentos produtivos ou políticas monetárias para estimular a economia.

A tese da integração do sindicato é uma peculiaridade da Esquerda Comunista "italiana", mas é interessante notar como alguns historiadores chegam a conclusões similares, capitulando ideologicamente perante a teoria revolucionária. Eis o que escreve Alessio Gagliardi no ensaio O corporativismo fascista:


"A [...] construção do novo sistema sindical [após a Segunda Guerra Mundial] foi influenciada por vestígios de heranças corporativistas: a impossibilidade de propor novamente um sistema como aquele construído nas duas primeiras décadas do século, baseado na autonomia mútua do Estado e das organizações de representação social, e, ao mesmo tempo, o reconhecimento institucional das novas organizações sindicais, garantido por uma legislação que regulava a sua função e pela integração nos processos de tomada de decisões em matéria económica e social, tornavam inevitável o delicado confronto com a experiência fascista."

Não se pode fazer a roda da história girar para trás, é impossível reproduzir a experiência dos primeiros anos do século XX em que, em relação ao Estado, as organizações dos trabalhadores ainda tinham uma certa autonomia. A partir da inclusão dos sindicatos nos processos de formação de decisões em matéria económica e política, não se volta ao passado remoto. Não por acaso, a Esquerda em Tendências e Socialismo (1947), afirma provocativamente que quem quiser ser progressista deve ser fascista: a sucessão, de facto, não é "fascismo, democracia, socialismo – ela é antes: democracia, fascismo, ditadura do proletariado."

8. Historicamente irreversível

Auto-definição

Em 1933 é publicado um pequeno opúsculo com uma conferência do sociólogo economista Werner Sombart (já presente no congresso de Ferrara) sobre O futuro do capitalismo. A introdução, escrita por um fascista, é extraordinariamente precisa em comparação com as lendas sociais sobre a vitória militar da democracia contra o fascismo e, portanto, sobre a natureza deste último:

“O Sovietismo e o Fascismo representam dois tipos colossais de construções novas para a organização interna e para as relações externas da vida dos povos… Profundamente contrastantes na doutrina, nos objectivos políticos e sociais, os dois sistemas apresentam não raras analogias de métodos, não raras analogias na avaliação de certos elementos, de certos factores da vida. Um e outro sepultaram definitivamente o mundo liberal com as suas teorias políticas e económicas e potenciaram ao máximo a autoridade do Estado, fazendo sentir a necessidade de enquadramento dos produtores na vida colectiva. Deram ao capital uma nova função, completamente diferente da do passado: um, o comunismo, suprimindo a propriedade, a iniciativa privada e concentrando tudo no Estado; o outro, o fascismo, mantendo a propriedade e a iniciativa privada, mas subordinando ambas aos mais altos objetivos nacionais e sociais e fazendo com que o Estado intervenha apenas para dirigir e controlar. O Fascismo, com a carta do Trabalho, assim como superou a luta de classes proletária, também superou o capitalismo na acepção corrente da palavra. Não foi apenas uma vez que Mussolini repetiu que o capital deve obedecer, nem têm meios de se opor à vontade do Estado; que o capital não é uma divindade, mas um instrumento.”

A citação é longa, mas necessária. No folheto apresentado desta forma, Sombart analisa as possibilidades de desenvolvimento futuro do capitalismo chegando a considerar três: 1) o capitalismo "sobrevive" remendando de vez em quando o tecido social onde há falhas; situação esta que ninguém deseja excepto os governantes actuais; 2) o filme do capitalismo é projectado para trás até ao período da acumulação madura, quando na sociedade é claro o predomínio ilimitado dos industriais e do mercado. Mas este cenário não é realista, primeiro, porque um retorno ao capitalismo liberal é impedido pela complexidade económica, tanto do ponto de vista das modalidades técnicas de produção e distribuição, como do ponto de vista da estrutura industrial-financeira, com enormes bancos e monopólios poderosos, aos quais se junta o sistema de controlo tanto do processo económico como das relações entre as classes; 3) Sendo o passado definido como liberdade e arbítrio sem programa, e o presente como um conjunto de constrangimentos e regulamentações estabelecidas ad hoc, sem programa, o futuro não poderá ser senão uma negação das duas fases anteriores, ou seja, uma sociedade caracterizada por uma ordem programada da economia.


"Talvez se possa falar de economia ordenada, estruturada, domesticada, racional, que também se poderia indicar como economia orgânica, se se estiver convencido de expressar a coisa através de uma imagem, dizendo: tratar-se-ia de restabelecer uma conexão racional como se esta fosse um organismo. Em ambos os casos, estamos a lidar com um todo cujas partes individuais devem manter entre si uma relação racional." (Sombart, op. cit.).

E visto que uma programação parcial, assim como uma racionalização parcial, é um absurdo, a economia planificada deve ser entendida como aplicada a nível nacional. No sentido de que uma economia nacional deve ser programada e uma economia programada só pode ser nacional. Todo programa precisa de um centro de planeamento que possa basear-se no princípio da não contradição entre as partes em interacção. Resulta daí que este princípio exclui a desarmonia social da relação contraditória entre as classes. Citando Marx, Sombart observa que a economia-programa será necessária também para enfrentar o mercado mundial: a taxa de mais-valia absoluta diminuirá porque os salários subirão e a jornada de trabalho se encurtará, enquanto a taxa de mais-valia relativa não aumentará na mesma proporção do aumento de produtividade. A programação, portanto, recorrerá a todos os instrumentos que o capitalismo inventou no seu crescimento caótico. Ai do capitalista tolo que renunciar a algum deles por receio de que uma organização capitalista mais racional lhe retire poder.

Processo histórico irreversível

Ora, se dissermos que a forma fascista do capitalismo é a mais moderna e avançada, que fase estamos a atravessar? Trata-se certamente de um período em continuidade com o fascista e, por diversas ocasiões, falámos do segundo pós-guerra como fase demo-fascista do capitalismo, que aperfeiçoou o sistema público integrando muitas funções sociais:

“Foi reiteradamente esclarecido pelo nosso movimento que a actual fase da dominação capitalista é, em essência, fascista, na medida em que tende a concretizar, ainda que por outros meios, o mesmo enquadramento rígido das massas operárias no Estado, o mesmo esvaziamento do carácter classista dos órgãos sindicais, o mesmo controlo da opinião pública, que os Estados totalitários haviam conseguido impor anteriormente. Este enquadramento ocorre não só através do reforço rápido e extremamente eficaz dos órgãos tradicionais do Estado capitalista, mas também (e com não menos eficácia) através da rede apertada dos grandes partidos, cujo alternância na direcção da 'coisa pública' serve apenas para fazer parecer menos rígido e sufocante o método totalitário de governo.” ("Le nazionalizzazioni arma del capitalismo", Prometeo 1946).

Com as leis fiscais (Vanoni), as obras públicas (Fanfani) e a indústria estatal (IRI), a intervenção do Estado na economia continua e amplia-se. Hoje, deixando formalmente para trás a Primeira e também a Segunda República, as políticas de assistência pública, as “garantias” sociais de memória fascista, estão a dissolver-se como neve ao sol. Nós não consideramos este processo negativo; tendo feito nosso o ditado do Manifesto do Partido Comunista, estamos convencidos de que

"Os proletários não têm nada de próprio a proteger; só têm de destruir as seguranças e garantias privadas existentes até agora".

O capitalismo está a facilitar o trabalho aos comunistas: dissolvendo o estado social e colocando amplas camadas da população encostadas à parede, torna a sociedade dualista, classe contra classe. No caso de uma “escolha”, as moléculas sociais dirigem-se em torno de dois polos distintos. Os Estados estão cada vez mais em dificuldade e cada vez menos conseguem cumprir as suas funções: a república italiana fundada no trabalho vê um perigoso aumento do desemprego, da desigualdade social e uma incapacidade das instituições (incluindo a Triplice sindical) de o remediar. No “Relatório Jovem 2017”, encomendado por bancos e outras entidades italianas, são apresentados números pesados sobre a situação dos jovens entre os 18 e os 32 anos. Mais de 70% dos jovens que vivem em família declaram não se poderem afastar por motivos económicos. E, sempre por motivos económicos, 80% dos desempregados que já não procuram trabalho atribuem a sua situação a isso. 79% dos jovens empregados com contratos a termo afirmam que não conseguem sobreviver sem a ajuda da família. E 81% daqueles que têm um emprego declaram não poder ter filhos, ainda por causas económicas. 92% dos jovens da faixa etária em estudo vê a sua situação mantida ou piorada em relação a 2016. Em conclusão, na investigação afirma-se que aos jovens não é permitido aceder aos meios que permitem a reprodução da espécie. Teoricamente, se esta situação se prolongasse até ao desaparecimento dos pais dos jovens mencionados, nos países ocidentais estaríamos, por causas económicas, perante a extinção de uma parte da humanidade.

A famosa sala dos botões

Saltando algumas décadas, chegamos aos primeiros anos de 1980 em Itália, quando, após o recuo das lutas depois da conclusão do "Sessantotto lungo vent'anni" ( "Sessenta e oito ao longo de vinte anos") (cf. artigo nesta revista n.º 14), formam-se os sindicatos de base, nos quais muitos agrupamentos de esquerda depositam as últimas esperanças na renascença de um sindicato de classe.

Para quem se liga à Esquerda Comunista "italiana", a distinção entre os grandes sindicatos tricolores e os pequenos sindicatos minoritários (para os quais os primeiros seriam corporativos e vendidos em bloco, alguns dos segundos miraculosamente intactos) assenta, na melhor das hipóteses, numa ilusão. A natureza de um sindicato não é determinada pelo seu grupo dirigente, ou pela boa vontade dos seus membros, ou por alguém que ofereça apoio externo: é um resultado histórico. Alguém pode considerar aqueles que chamámos de "sindicatinhos fotocópia" como prelúdios ao sindicato de classe, mas na realidade são totalmente inúteis, criam confusão e falsas expectativas. Vão à negociação como Nenni ia às eleições prometendo levar o PSI "para a sala dos botões", ou seja, do comando, fingindo não saber que é preciso mudar o sistema, e não o operador. Quanto à sua essência "classista", não oferecem novidades em relação ao panorama dos últimos setenta anos, são apenas mais pequenos do que os tricolores, relegados a áreas de nicho onde preenchem o vazio deixado pelos grandes. Recolhem, obviamente, o descontentamento de algumas camadas operárias, podem ter uma base combativa e de boa-fé, enfim, são forçados a ser radicais justamente para conseguir aquele mínimo de consenso perdido pelos concorrentes. Ignorados pela política sindical oficial, anseiam pelo reconhecimento por parte do Estado e das “contrapartes”, ou seja, candidatam-se a ser perfeitamente homologados.

Para apagar o efeito histórico da cooptação do sindicato pelo estado burguês seria necessário um revés social de dimensão gigantesca. Se isso não acontecer, nenhum sindicato poderá fazer mais do que mediar entre capitalistas, estado e proletariado de acordo com as regras da concertação e negociação introduzidas pelo fascismo e que já não são reversíveis. Quando útil, uma radicalização aparente é perfeitamente gerida pelos sindicatos tricolores. No seu interior existem todos os pressupostos para a recuperação ou expulsão daquela parte de filiados que tente rebelar-se. Em 1968-69, a CISL apresentou-se como alternativa de "esquerda" à CGIL, considerada pelos jovens operários da época como demasiado complacente. Em 1980, durante os 35 dias de greve na Fiat, a CGIL fingiu estar ao lado dos operários com determinação, para depois os traírem pelas costas. No início dos anos 90, quando houve uma revolta interna contra as hierarquias sindicais pelo famoso Protocolo, a CGIL enviou a Torino Claudio Sabattini e Giorgio Cremaschi, um duro da velha guarda e um esquerdista da geração seguinte.

Existem forças internas na CGIL mais numerosas e organizadas, susceptíveis de radicalização tanto quanto ou mais do que as dos pequenos sindicatos; faz mais sentido trabalhar com essas do que com novas siglas. Normalmente, aqui surge inevitavelmente a pergunta: mas se isso se tornar impossível (expulsões, etc.), o que podem fazer os trabalhadores? Se o proliferar de pequenos sindicatos é o efeito de condições objectivas, não se segue automaticamente que criar pequenos sindicatos possa modificar essas condições. E de facto não as modifica, precisamente porque a relação de trabalho se baseia historicamente no pressuposto contratual, e o contrato assinado torna-se o objectivo de qualquer greve, mesmo quando estão em jogo despedimentos ou questões que não podem/devem ser objecto de negociação e compromissos.

O resultado dos conflitos por motivos laborais não depende da forma como esses conflitos se manifestam, mas da força que se consegue mobilizar. E não existe uma escala de valores onde se possa inserir os vários sindicatos, o único critério é o da eficácia em relação aos objetivos. Mas para além do óbvio "juntos é melhor", negamos que hoje qualquer sindicato possa ser definido como "de classe". Nem sequer como tendência, porque ninguém, no momento, pode deixar de agir de acordo com regras que não tem poder para mudar. Se a natureza do sindicato de hoje é o produto de um processo histórico irreversível, enquanto não mudar radicalmente a relação entre as classes, todo sindicato é "oportunista" e cada dirigente seu é um "bonzo", como se diz desde os anos 20 do século passado.

Leitura aconselhada

  • AA.VV., Socialfascismo. Do Programa San Sepolcro à socialização de empresas, ed. Noctua, 1999.
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  • Bordiga Amadeo, "Fiume e il proletariato", Rassegna Comunista, Setembro de 1921.
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  • Comisso Giovanni, Le mie stagioni, Longanesi.
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Ao povo italiano, aos soldados, aos camisas negras, aos ex-combatentes e voluntários de África

"Temos razões para nos orgulharmos do nosso país. Esta Bela Itália, estas riquezas são o resultado do trabalho dos nossos operários, os nossos trabalhadores rurais, os nossos engenheiros, dos nossos técnicos, do génio do nosso povo [...]. Nós, comunistas, fazemos o nosso próprio programa fascista de 1919, que é um programa de paz, liberdade, defesa dos interesses dos trabalhadores; camisas negras, ex-combatentes e voluntários de África, lá Pedimos-vos que lutem juntos pela concretização deste programa […]. Proclamamos que estamos dispostos a lutar juntos convosco, fascistas da velha guarda e jovens fascistas, para o realização do programa fascista de 1919, e para cada reivindicação que expressa uma reivindicação imediata, particular ou dos trabalhadores e do povo italiano. Vamos apertar as mãos e Marchar lado a lado para roubar o direito de sermos deuses cidadãos de um país civilizado como o nosso. Sofremos as mesmas penas, temos a mesma ambição: a de tornar a Itália forte, livre e feliz.

"Manifesto para a salvação da Itália e a reconciliação do povo italiano" publicado no nº 8 de Estado Operário, Agosto de 1936. Assinado Palmiro Togliatti.

 

Fonte: quinterna.org/pubblicazioni/rivista/42/socializzazione_fascista_comunismo8.htm

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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