Andy Burnham e
a Crise da Democracia Burguesa
Depois de alguns milhões
de 'reinícios', inversões e rebranding que não conseguiram resolver o dilema de
impopularidade do governo, a burguesia trabalhista deposita as suas esperanças...
noutro rebranding. Até os sindicatos afiliados ao Labour, abandonando a recente
fachada de oposição ao Partido do Capital para se humilharem perante o 'Rei do
Norte',(2) já
enviaram a Burnham £20.000 (enquanto muitos trabalhadores passam fome ou
interrompem as greves por falta de fundos para greve). (3) Entretanto,
uma grande parte da classe dominante continua a apostar no Reform UK.
Literalmente. Com milhões de libras em doações (a mais recente, que mal chegou
a ser notícia, foi um montante de 5 milhões de libras, até então não divulgado,
do bilionário das criptomoedas Christopher Harborne, destinado pessoalmente a
Farage); cobertura mediática preferencial; e um canal de televisão de
propaganda a funcionar 24 horas por dia, o GB News, com o privilégio de uma
supervisão mínima por parte da Ofcom,(4) Farage
está actualmente prestes a vencer facilmente as próximas eleições gerais,
segundo as sondagens. Isto, combinado com a ascensão dos Verdes, alimentou
estas maquinações no Partido Trabalhista. Mas quem nos vai prejudicar até lá?
O primeiro candidato à
liderança do Partido Trabalhista a anunciar a sua candidatura foi o então
Secretário da Saúde e da Assistência Social, ex-presidente da União Nacional
dos Estudantes e eterno parasita Wes Streeting. A sua ambição declarada só é
igualada pela sua antipatia, mesmo nos círculos do Partido Trabalhista (razão
pela qual não conseguiu reunir os números necessários para lançar a sua própria
candidatura à liderança). Não há muito tempo, era considerado firmemente à
direita do partido. Quando os médicos residentes do Serviço Nacional de Saúde
(NHS) entraram em greve, ele ameaçou reduzir as vagas de formação se não a
suspendessem; votou a favor de cortes nos subsídios de invalidez; impulsionou a
privatização do NHS; e não teve qualquer problema em aderir ao pânico moral
transfóbico para obter capital político, tendo declarado ao jornal «The Sun»,
em 2024, que não mantinha a sua afirmação anterior de que «as mulheres trans
são mulheres»"(5) e
liderando medidas para suspender os bloqueadores da puberdade e segregar as
enfermarias hospitalares (ambas formas convenientes de cortar o SNS). Insistiu
que não estava qualificado para dizer se Israel estava a violar o direito
internacional – apesar de acreditar em privado nisso, como revelado nos
arquivos de Mandelson. Hoje apoia um imposto sobre a riqueza, envolve-se em
manifestações operáticas sobre a política do governo em relação a Gaza e
recorre à Pink News para declarar que
"toda a pessoa trans, cada criança merece sentir-se segura, respeitada e
incluída na nossa sociedade e no sistema de saúde que a serve". (6) Porquê
a conversão de Damasco? A resposta difícil de encontrar pode ser encontrada
numa entrevista de 2023 ao The Guardian:
Se eu estivesse implacavelmente focado na perseguição ao cargo principal, virava à esquerda... Ganhas a liderança trabalhista pela esquerda, como lembrei a Tony Blair de vez em quando. A sua proposta de 1994 não foi o Tony Blair de 2007. Por isso, mesmo um modernizador como ele ainda fez alguns ajustes à esquerda. (7)
Mesmo as mais pequenas
promessas de reforma capitalista são apenas material eleitoral para estas
pessoas. Mas Streeting está apenas a aproveitar a oportunidade que outra facção
abriu. O verdadeiro candidato é Andy Burnham.
Comentadores
pró-Burnham, e uma boa parte dos deputados trabalhistas que temem pela sua
própria sobrevivência e pela do seu partido, esperam que ele consiga
concretizar aquilo a que chama 'Manchesterismo' – o relativo sucesso do seu
mandato que sustentou a sua popularidade – no resto do país. A parte do 'ismo'
pretende implicar que Burnham tem um plano ideológico distinto para 'consertar
a Grã-Bretanha Quebrada'. O número de artigos de opinião publicados a tentar
perceber o que é esse 'ismo', tal como a Kremlinologia do século passado,
sugere o contrário. Burnham é, em parte, um candidato perfeito a
primeiro-ministro porque é um camaleão político de longa data: de um príncipe
nos ministérios de Blair e Brown, a um direitista e um esquerdista ao longo das
eleições para a liderança de 2015, a um membro leal do gabinete sombra de
Corbyn, até co-fundador da rede de centro-esquerda 'Mainstream'.
Ele tem – como é exigido
para os políticos hoje em dia – um pouco de auto-flagelação para mostrar aos
trabalhadores (também conhecidos como 'pessoas comuns') não só que compreende a
sua situação, mas que pessoalmente tem um truque simples para a acabar sem o
incómodo de derrubar o capitalismo (os médicos odeiam-no):
Acho que a Grã-Bretanha começou um caminho em meados dos anos 80 que nos levou até onde estamos hoje... Para mim, precisamos de um caminho diferente que volte a colocar essas coisas sob controlo público e as torne mais acessíveis. O caminho que a Grã-Bretanha tem seguido há 40 anos, na minha opinião, foi o caminho errado. Levou-nos a um ponto onde as pessoas não podem pagar o básico da vida, não podem pagar umas cervejas ao fim de semana, não podem pagar umas férias. E é por isso que dizem aos políticos, façam melhor. Isto não chega. E têm razão em dizer isso. Estou a dizer que há um novo caminho aqui, nova política para construir uma nova economia para a Grã-Bretanha. (8)
Caminhos diferentes;
caminhos errados; novos caminhos; nova política; uma nova economia (talvez até
um Novo Trabalhismo?). O génio claramente sabe lidar com as palavras, pelo
menos. Podes até pensar que ele está a tentar levar-te pelo caminho do jardim.
Ele fez do "fim do neo-liberalismo" um slogan no lançamento da sua
campanha em eleições suplementares. Mas, ao mesmo tempo, menos de um ano depois
de proclamar "temos de ultrapassar esta questão de estarmos presos ao
mercado obrigacionista", ele tranquilizou rapidamente os bancos de que as
famosas 'regras fiscais' do governo que restringem o empréstimo (e, portanto, o
investimento) continuarão a ser sagradas. A importância destas regras para o
capital financeiro britânico é tão evidente que a sua declaração reduziu
imediatamente o rendimento do gilt a 10 anos! (9) Portanto,
continuidade com Starmer aí. Qual mais é a nova solução de Burnham para a
economia em crise?
Manchester é a cidade
com a economia que mais cresce no Reino Unido, bem acima da média nacional
(embora isto não diga muito). Isto tem sido facilitado por uma relação próxima
entre as autoridades locais e os interesses empresariais, e por um enorme
investimento estatal (em grande parte financiado pelo governo central),
continuado por Burnham em administrações anteriores. Outra pista que nos deu é
o apelo ao 'controlo público' de activos como energia e água. Comentadores
associaram isto à 'Bee Network' de Manchester, que fornece autocarros, eléctricos,
bicicletas de aluguer e passadiços pedonais com tarifa limitada necessários
para levar trabalhadores aos locais de trabalho a um custo mínimo. A Grande
Manchester foi a primeira autoridade local a usar novos poderes para
restabelecer os serviços de autocarros sob franquia pública em 2017. De forma
semelhante, usou a Autoridade Combinada para construir milhares de habitações
municipais e apreender arrendamentos abaixo do padrão – chegando mesmo a
sugerir a apreensão de casas vazias – e juntou-se a Sadiq Khan na luta (sem
sucesso) para que o governo concedesse às autoridades locais o poder de impor
controlo de rendas. Ele foi bastante claro quanto à razão disto, para garantir
que não percebemos que as coisas são feitas para satisfazer as nossas
necessidades básicas, em vez de os restos que recebemos só serem dados quando
convém às necessidades do capital: "a habitação é um risco para o
crescimento... se as pessoas não encontrarem casas para alugar, não se mudam
para cá porque é demasiado difícil viver". (10)
Em suma, a grande nova
ideia de Burnham é a estatificação: maior envolvimento do Estado
na economia para apoiar o funcionamento do capital, sobretudo do capital
financeiro. Burnham já gere a Grande Manchester como uma grande corporação:
gerindo o fluxo de investimentos; negociações com empresas e senhorios; e
investir fundos (que a GMCA, ao contrário da maioria das outras autoridades,
possui) para reduzir o custo da habitação e dos transportes, permitindo
aumentar a taxa de exploração. Como qualquer CEO inteligente, especialmente
quem está a subir da gestão intermédia, sabe que uma empresa funciona de forma
mais eficiente quando delega efectivamente – daí o seu notório apoio à
devolução regional.
Escusado será dizer que
isto não tem nada a ver com socialismo. Ignorem o barulho dos esquerdistas e
dos direitistas furiosos que pensam que a nacionalização é «socialismo», como
Owen Jones, que já se queixou de que Burnham utilizou a expressão vaga
«controlo público» em vez do seu disparate preferido, «propriedade pública
democrática».(11) Na verdade,
é exactamente o que Bukharin observou como consequência do desenvolvimento do
capitalismo monopolista em 1915:
Enquanto os grupos do
capital financeiro se tornam cada vez mais fortes, a interferência do Estado na
vida económica tem aumentado enormemente…
Os interesses do Estado e os interesses do capital financeiro coincidem cada vez mais. Por outro lado, a feroz luta competitiva no mercado mundial exige o máximo de centralização e o máximo de poder estatal. Estas duas últimas causas, por um lado, e as considerações fiscais, por outro, constituem os principais factores que levam à organização estatal da produção no seio da sociedade capitalista.(12)
Na época de Bukharin,
especialmente nas condições de guerra total, isto assumiu a forma de
nacionalizações em massa e de uma regulação sem precedentes da produção por
parte dos governos centrais. No século que se seguiu, a nacionalização surgiu e
desapareceu. Como observou Bukharin, «a burguesia nada perde ao transferir a
produção de uma das suas mãos para outra, uma vez que o poder estatal actual
não passa de uma empresa de empresários com um poder tremendo, liderada até
pelas mesmas pessoas que ocupam os cargos de liderança nos bancos e nos
consórcios». (13) De facto, a
burguesia tem recorrido à privatização para ultrapassar as suas crises tanto
quanto à nacionalização: para Thatcher e Yeltsin, foi um complemento essencial
a uma reestruturação massiva, permitindo o encerramento de indústrias
nacionalizadas não rentáveis e a eliminação de milhares de milhões de dólares
(e milhões de postos de trabalho) no processo.
Mais recentemente, o
governo tem dado passos claros no sentido da (re)nacionalização. Em Março de
2025, os proprietários da última siderurgia do Reino Unido capaz de produzir
aço virgem, a Scunthorpe Steelworks, anunciaram que deixariam de comprar
matérias-primas para a sua fábrica deficitária, encerrando-a efectivamente por
tempo indeterminado (os altos-fornos são extremamente difíceis de reactivar). O
Parlamento foi rapidamente convocado para uma sessão de emergência ao sábado —
um acontecimento raro, reservado para situações de grande gravidade, como a
morte de Isabel II ou a invasão das Malvinas — para aprovar a Lei da Indústria
Siderúrgica (Medidas Especiais) de 2025, que permite ao Secretário de Estado
emitir ordens directamente aos fabricantes de aço. Em Janeiro, o governo já
tinha gasto 377 milhões de libras para manter a fábrica em funcionamento. (14) Finalmente,
em Maio, o governo anunciou legislação para nacionalizar a fábrica. Também está
quase concluído um processo gradual de re-nacionalização das empresas
operadoras ferroviárias à medida que os seus contratos de concessão expiram.
Há cada vez mais apelos
para que a água e a energia sigam o mesmo caminho. Na verdade, a burguesia em
geral tem vindo a demonstrar um apoio crescente a um Estado mais activo. Apesar
de os laburistas mais ignorantes anunciarem isto como um regresso ao seu mítico
«socialismo» do pós-guerra — a segunda vinda de Clement Atlee —, os apelos a
este «socialismo» têm vindo da ala direita da classe dominante quase tanto
quanto da sua ala esquerda. Farage defendeu consistentemente que as siderurgias
fossem passadas para a propriedade pública, (15) e Richard
Tice apelou à criação de um fundo soberano para investir maciçamente na
indústria e «passar a ser efectivamente proprietário da British Steel».(16)
Mas esta viragem é menos
significativa do que pode parecer. Mesmo nos sectores privatizados, o Estado é
obrigado a manter um papel de liderança nesta época do capitalismo monopolista.
Devido à queda da taxa de lucro, é obrigado a sustentar artificialmente as
empresas através de subsídios generosos, desregulamentação e absorção dos
custos do insucesso, tanto para atrair investimento como para preservar cadeias
de abastecimento estratégicas (isto, por si só, explica o pânico em torno da
British Steel). Por exemplo, as empresas de água privatizadas foram apoiadas
pelo Estado desde o início: começando com acções subvalorizadas, seguidas de
anulações regulares de dívida, resgates financeiros, renacionalizações
temporárias e subsídios. Agora, encontram-se numa enorme espiral de
endividamento (a Thames Water, que abastece a Grande Londres, tem um défice de
17,6 mil milhões de libras) após terem pago os seus dividendos colossais ao
longo de anos de sub-investimento — o que também criou as famosas imagens de
esgotos a jorrar para os nossos rios a partir de transbordamentos pluviais (291
492 incidentes de derrame ao longo de 2024, num ano de seca recorde!).(17) Tal
como nas últimas décadas a burguesia esperava que a privatização fosse o seu
truque mágico para restaurar a rentabilidade através da introdução da
«inovação» e do «espírito empreendedor» (o que, naturalmente, não resultou),
agora espera que um pouco de nacionalização se revele mais eficiente.(18) Além
disso, consideram o investimento estatal como a única forma de impulsionar a re-industrialização
(ver o discurso de Tice), cuja importância se torna cada vez mais evidente à
medida que a guerra imperialista se torna cada vez mais aberta e em grande
escala. Seja como for, nada de fundamental irá mudar, pelo que os nossos
governantes não encontrarão a solução para a sua crise. E isso certamente não
impedirá a burguesia de nos atirar para a merda.
Apesar de Burnham ter
adoptado esse nome para dar a impressão de uma visão pessoal, o
«manchesterismo» de hoje é, obviamente, muito diferente do «manchesterismo» do
século XIX. Naquela época, significava comércio livre, não-intervenção
estrangeira e economia de laissez-faire, literalmente o oposto da estatização e
do rearmamento actuais, em preparação para uma guerra mundial. Representava os
interesses do capital industrial em expansão de Manchester, que atingiu o seu
auge com quase mil milhões de toneladas de algodão importado em 1914, (19) em
contraste com o crescimento estagnado de hoje, fortemente baseado em disputas
financeiras. Então, o que é que eles têm em comum?
Poder-se-ia utilizar
outro termo, tomando Manchester como exemplo do desenvolvimento capitalista:
«manchesterização», que significa a espiral descendente das condições de vida
da classe operária, no sentido das que se verificavam na Manchester do século
XIX.(20) Quando
Engels escreveu sobre a capital mundial do algodão, em 1845, fez a famosa
observação de que o crescimento espectacular da cidade tinha sido acompanhado
por um empobrecimento espectacular da população operária, forçada a viver em
condições chocantemente miseráveis, com jornadas de trabalho mais longas e
salários mais baixos (alcançados, sobretudo, através do trabalho à peça).(21) O
«Manchesterismo» de hoje, com a ajuda de uma base produtiva muito mais vasta,
não conduziu (ainda) a um empobrecimento absoluto tão extremo. Mas isso não
significa que esteja a funcionar a nosso favor. Tal como todos os outros operários,
os mancunianos de hoje enfrentam uma queda dos salários reais, cortes e, de um
modo geral, uma vida precária. Pouco mais de 1 em cada 20 está desempregado.(22) A
cidade que mais cresce no Reino Unido tem também — e não por acaso — a terceira
maior população de sem-abrigo.(23) Apesar
de Burnham ter discretamente abandonado a promessa de acabar com a situação das
pessoas que dormem na rua até 2020,(24) a taxa
de pessoas sem-abrigo na Grande Manchester tem, na verdade, vindo a aumentar
quase todos os anos, tal como no resto da Inglaterra — onde, em 2025, 1 em cada
153 pessoas se encontrava sem-abrigo, o que representa um aumento de 8 % num
ano.(25) De
acordo com a organização End Child Poverty, 238 226 crianças vivem em situação
de pobreza na Grande Manchester, com percentagens que variam entre os 26,8 %
das crianças em Trafford e os 43,6 % na própria cidade de Manchester.(26) Isto é
particularmente evidente no sudeste de Manchester, que não só acolhe grande
parte da população de Manchester nascida fora do Reino Unido, como é
predominantemente composto por famílias «carenciadas». Tal como há dois séculos
Manchester foi construída com base na sobre-exploração de trabalhadores
imigrantes irlandeses e, há setenta anos, importou milhares de trabalhadores
asiáticos para os sobre-explorar, hoje depende de centenas de milhares de
trabalhadores imigrantes de todo o mundo, especialmente em sectores-chave como
a saúde e a assistência social. Não admira que Burnham tenha declarado o seu
apoio ao regime implacável e anti-imigrante de Shabana Mahmood.(27) E tal
como o trabalho à tarefa permitiu esta sobre-exploração no século XIX, hoje
temos a chamada «economia gig». O segredo do sucesso relativo da Grande
Manchester não passa de condições propícias ao aumento da taxa de exploração,
aliadas a uma utilização eficaz da alavancagem financeira.
Burnham descreveu a sua ideologia como «socialismo
favorável às empresas». Uma contradição em termos para aqueles de nós que
entendem o socialismo como a libertação da classe operária da escravidão
salarial, mas uma descrição adequada para aqueles que o utilizam para nos
enganar e nos manter na escravidão. Pode não ter ideias novas por trás de todo
este alarido, mas acreditamos nele quando afirma que o seu «caminho» significa
mais «manchesterização».
A crise da democracia burguesa
O facto de Starmer
enfrentar um desafio à liderança apenas dois anos depois de ter conquistado uma
maioria de 174 lugares é algo sem precedentes. A única outra vez que um
primeiro-ministro no governo enfrentou um desafio à liderança num período tão
curto foi a moção de censura que Theresa May enfrentou em 2018, durante um
governo minoritário, e o caos das negociações do Brexit, em que May (apoiante
da permanência na UE) lutava constantemente para negociar com a ala eurocéptica
do seu próprio partido. O governo trabalhista não enfrenta tal divisão interna
sobre uma política importante. Tal como o seu antecessor, Starmer está
simplesmente a ser forçado a sair como bode expiatório pela incapacidade de
qualquer governo de resolver a crise capitalista.
Os adversários de
Starmer não parecem estar em melhor forma. Ao contrário da eleição para a
liderança conservadora de 2019 para suceder a May, que viu dez candidatos
nomeados entre 313 deputados, os 402 do Labour só conseguem reunir quatro ou
cinco adversários, sendo o favorito (28) dos quais ainda nem sequer é deputado! Por causa
disso, apesar de todo o barulho que os deputados têm feito sobre a oposição a
Starmer desde Novembro, Starmer não foi formalmente desafiado. O plano dos
aliados de Burnham é candidatar-se à eleição suplementar de Makerfield, marcada
para 18 de Junho, esperar que ele ganhe e depois lançar um desafio à liderança.
Este plano complicado que dura há meses sugere que o Partido Trabalhista está a
ficar sem opções.
Do outro lado do
corredor, a promessa do Reform de 'algo novo' torna-se confusa à medida que
cada vez mais rostos deles lhes parecem familiares. Cinco dos seus oito deputados
são desertores conservadores, incluindo a antiga Ministra do Interior Suella
Braverman; o Ministro da Habitação de Johnson, o Ministro da Saúde de Truss e o
Ministro da Imigração de Sunak, todos uma só pessoa, o antigo candidato à
liderança conservadora Robert Jenrick; além de uma cúpula de ex-perdedores
parlamentares, incluindo dois ex-presidentes recentes do Partido Conservador,
Nadhim Zahawi e Jake Berry. Isto está a atingir níveis tão absurdos que não
escapou ao cérebro sonolento de um deputado Lib-Dem, Max Wilkinson, que
respondeu ao discurso de Jenrick "Onde estamos, menos de dois anos
depois?" com "Estás noutro partido" e (apontando para a linha da
frente do governo) "Tu costumavas estar ali!".
Alguém deveria lembrar
Wilkinson que, quando começou a sua carreira no Conselho Municipal de
Cheltenham em 2014, o seu partido também estava 'ali', ajudando a implementar
uma austeridade implacável em coligação com os Conservadores. Por outro lado,
também o era o outro político que prometia 'algo novo', Zack Polanski. Em 2015,
ele literalmente cantava e dançava alegremente no palco da conferência
dos Lib-Dems (29) enquanto milhões de crianças passavam
fome, milhares juntando-se a elas desde que o seu partido foi eleito para o
governo. (30) "O que fizemos em cinco anos no governo
para nos orgulhar?" exclamou ele.
O padrão em todos os
países parece ser substituições cada vez mais frequentes de governos
incumbentes. Em 2025, das 38 eleições nacionais razoavelmente democráticas
realizadas, 21 resultaram na perda de assentos ou da maioria para o partido no
governo. (31) Isto continua a tendência de 2024, o 'ano da
democracia' auto-elogiosa da burguesia (74 eleições nacionais e mais de mil
milhões de votos), em que, pela primeira vez, todos os governos em funções dos
doze países desenvolvidos perderam quota de votos. (32)
Isto deve-se ao facto de
a crise de rentabilidade estar a tornar-se aguda. Na verdade, nenhum político
tem uma solução para a crise em que a humanidade se encontra, ou para o
descontentamento colectivo que está a gerar. Excepto, claro, na guerra mundial. Só esse tipo de destruição massiva de capital à escala mundial será capaz
de restaurar a taxa de lucro e iniciar um novo ciclo de acumulação. Na prática,
embora consiga tornar a administração mais eficiente, Burnham terá extremamente
dificuldade em implementar uma abordagem económica fundamentalmente diferente
em relação a Starmer (como o investimento em massa pelo qual é conhecido em
Manchester), pois a burguesia, perante uma taxa de lucro estagnada, é
extremamente contra a despesa pública – daí o fiasco em torno das regras
fiscais. Sempre que um governo inevitavelmente se revela incapaz de resolver a
crise (tanto em termos de queda dos lucros como do crescente descontentamento
da classe operária), a burguesia tende simplesmente a substituir esse governo
por outro em loop. Muitos políticos simplesmente não querem assumir este papel
sacrificial, daí a queda de candidatos e o aumento de rostos reconhecíveis.
A crise também limita o
alcance do que podem fazer a nível político. Manter a taxa de lucro requer a
empobrecimento da classe operária, o que, por sua vez, exige violência,
intimidação e o sistema de dividir para vencer para antecipar a resistência. Mesmo
um traficante compassivo como Burnham, que prefere deixar o trabalho sujo para
outros, teve de mudar de estratégia para se preparar para a sua iminente
coroação como primeiro-ministro. Assim, apesar de anteriormente ter manifestado
apoio à eliminação das restricções aos benefícios para migrantes, agora apoia
as medidas de repressão à imigração de Shabana Mahmood. (33) Ou, embora tenha argumentado anteriormente que
as pessoas trans deveriam poder usar as casas de banho da sua identidade de
género, agora declara o seu apoio à nova orientação da EHRC – que afirma o
contrário e dá carta branca para que isso seja aplicado desafiando indivíduos
com base no seu "físico ou aparência física",(34) o mais recente ganho bárbaro do pânico moral
transfóbico – acrescentando rapidamente que deve ser implementado "da
forma mais justa e compassiva possível" e "temos de seguir em
frente". (35)
Para além da Reforma de
Farage está o Restore Britain, de Rupert Lowe. As suas promessas de "[não
apenas] parar a imigração em massa, mas revertê-la"(36) através da "deportação em massa", e
de que o "Restore acredita que a Grã-Bretanha é um povo definido por
ascendência britânica indígena e fé cristã",(37) fazem do Restore possivelmente o partido mais
de direita no parlamento desde 1945. Lowe já tem um assento no parlamento, o
apoio de Elon Musk, o apoio/membros da maioria da Direita neo-fascista aberta,
e venceu todos os dez assentos de Greater Yarmouth a que o Restore concorreu
nas eleições locais – mais do que o BNP alguma vez poderia esperar. Ou talvez a
burguesia opte por alguém ainda mais à direita. Quanto mais a democracia
continua instável (e quanto mais a guerra se aproxima), mais atraente se torna
a ditadura individual. A burguesia tem-se mostrado extremamente flexível
politicamente ao longo do último século e pouco mais. Mas a forma como os
nossos governantes escolhem organizar-se – ditadura descarada ou teatro
democrático – é algo que lhes cabe decidir. Eles vão atacar-nos de qualquer
forma.
Por uma democracia operária revolucionária
Isto soa-lhe a
democracia? A verdade (bastante óbvia) é que a democracia burguesa é uma
fachada para a ditadura dos ricos. As decisões já foram tomadas à porta fechada
e, mais importante ainda, no mercado mundial. O capitalismo exige que, enquanto
os deputados bebem durante o dia no trabalho e cheiram cocaína na casa de
banho (38) por £98.599 por ano, nós fiquemos cada vez
mais famintos.
Muitos esquerdistas
sentem-se inexplicavelmente entusiasmados com a perspetiva de Burnham governar
de forma diferente. Mesmo aqueles que decidiram contra ele mantêm a opção
aberta para um político verdadeiramente 'radical' da Esquerda Capitalista, por
precaução. Por exemplo, Judy Cox, do SWP, escreve:
Ganhar reformas requer um confronto com as grandes empresas através da luta da classe operária fora do parlamento. Hoje, Burnham faz parte da "esquerda suave" do Partido Trabalhista. Vê o parlamento como a única forma de promover mudança, em vez da luta da classe operária nas ruas e nos locais de trabalho. (39)
Como se a 'esquerda
radical' fosse diferente! Perderam eles os últimos 100+ anos em que o Partido
Trabalhista esmagou e descarrilou essa luta da classe operária? Claro que isto
não surpreende quem conhece o modus operandi do SWP. A implicação é que isto
não seria o caso para um político capitalista suficientemente 'de esquerda',
como aqueles que tem apoiado repetidamente, desde George Galloway à Esquerda
Trabalhista – mais notoriamente Corbyn (que recentemente retribuiu o favor
expulsando-os sem cerimónias do seu Your Party). Assim, na última edição
da Socialist Worker, Rob Hoveman critica
Burnham por não apoiar medidas "radicais" como "um imposto sobre
a riqueza" e "em vez de se submeter aos mercados obrigacionistas,
garantir fundos de pensões britânicos... emprestar dinheiro ao
governo". (40)
Apesar dos esforços dos favoritos
dos políticos, nós, operários conscientes de classe, não nos deixamos enganar
pensando que pode haver outro caminho sob o capitalismo. A única alternativa
real é o proletariado começar a organizar-se como uma força política
independente.
Não é um 'partido dos operários
de massas'. Esta é a prática oportunista dos partidos social-democrata e
trotskista. Na prática, como a 'massa' de operários só se torna revolucionária
nos pontos altos da luta, 'construir um partido operário de massas' significa
sempre abandonar oportunisticamente o socialismo em favor do reformismo e de
alianças com a burguesia. Nem a bastardização estalinista do 'partido de
vanguarda', um governo em espera que substitui a ditadura do proletariado pela
ditadura do partido, e o socialismo pelo capitalismo de Estado.
Os operários precisam de
assumir uma recusa claramente compreendida em apoiar qualquer parte dos
capitalistas, perseguindo independentemente a nossa liberdade através da luta
de classes, fortalecendo-nos através da unidade de classes internacionalista. O
partido mundial do proletariado unirá a minoria de operários que já perceberam
a necessidade do socialismo revolucionário, para argumentar e lutar por esta
direcção política dentro da luta de classes. Já não teremos de ver operários
irritados caírem sob a liderança de qualquer facção burguesa actualmente na
oposição.
Devíamos saber que o
parlamento dos patrões não serve para mais ninguém além deles próprios perder
tempo lá. Nós, operários, temos outra forma de mostrar o nosso poder. O local
de trabalho é a nossa urna, a greve é o nosso boletim de voto, e o comunismo mundial é o nosso candidato. O que ainda não temos são 'parlamentos'
operários. Ou seja, os conselhos operários (também conhecidos como sovietes).
Claro que estes não serão nada parecidos com um parlamento actual, mas sim a
expressão viva da luta de classes revolucionária. Enquanto os parlamentos
burgueses são teatros de porcaria que nos distraem das maquinações dos
ministros e conselhos de administração, os conselhos operários são corpos
vivos, coordenando constantemente democraticamente os esforços da classe operária
para quebrar as suas correntes, transformar a sociedade e conter a reacção da
ex-classe dominante. Enquanto os parlamentos burgueses funcionam melhor quando
estamos exaustos e facilmente ordenados, os conselhos operários vivem da
energia socialmente criativa activa da classe operária, nada mais, nada menos. Enquanto
os políticos burgueses são eleitos por um mandato de cerca de cinco anos para
fazerem o que bem entenderem durante esse período, os conselhos operários são
compostos por delegados que podem ser destituídos
e estão vinculados ao seu mandato: votam exactamente como os seus eleitores
lhes ordenam e, se estes não estiverem satisfeitos, podem substituir o(s)
seu(s) representante(s) a qualquer momento. Ao destruir os Estados burgueses
que hoje nos governam, as repúblicas de conselhos compostas por estes
constituirão uma verdadeira democracia operária – democrática não só em termos
de máxima liberdade política no seio da classe operária, mas também em termos
de toda a sociedade, uma vez que a classe operária constitui hoje a vasta
maioria.
Tudo isso é crucial. Os
conselhos operários colocam genuinamente milhares de milhões de operários no
poder — e não políticos bem-intencionados que agem no «seu melhor interesse» —
e reflectem nada mais do que a sua própria energia. Ao contrário das grandes
ideias dos políticos, os conselhos operários não são apenas artimanhas
inteligentes para «consertar a Grã-Bretanha em ruínas» (os operários alemães
não se aperceberam disso em 1919 e foram recompensados com a reacção mais
sangrenta da história). O socialismo não pode ser simplesmente aprovado como
uma lei. Temos de o compreender, escolher e construir conscientemente, munidos
de uma consciência socialista pela ala revolucionária da classe operária
internacional organizada num partido mundial.
À medida que a produção
passa a ser propriedade comum (ou seja, deixa de ser propriedade privada dos
patrões e passa a ser propriedade de todos), as divisões entre classes perdem o
seu significado e, com elas, até mesmo o Estado operário. Só então – e apenas
então – teremos uma humanidade unida de produtores livremente associados, onde
todos têm uma palavra a dizer nas suas próprias vidas, em vez de viverem à
mercê desses cabrões exploradores.
A crise da democracia
burguesa terminará de duas formas. Crise cada vez mais profunda, redução das
nossas condições de vida e tratamento cada vez mais autoritário, culminando
numa guerra imperialista mundial, possivelmente acompanhada por ditadura
individual; Ou pode ser uma abertura para a classe operária varrer tudo isso e
dar origem a um mundo diferente.
ZAH
Communist Workers’ Organisation
June 2026
Notas:
Imagem: Número 10
(OGL3), commons.wikimedia.org
(2) Este título
foi concedido a Burnham, tanto por apoiantes como por críticos, depois de ter
negociado com sucesso subsídios financeiros do governo Johnson durante a
pandemia. Reflecte a sua interpretação do regionalismo do Norte ao opor-se a
Londres e Westminster.
(4) Ao abrigo do
código de radio-difusão, os radio-difusores do Reino Unido devem pelo menos
fingir ser politicamente imparciais e equilibrados. Claro que isto só significa
'equilíbrio' dentro da perspectiva burguesa (por exemplo, convidar um deputado
conservador a discordar de um deputado trabalhista), e os canais antigos têm
treinado durante décadas para inserir a sua narrativa, independentemente disso.
(9) bbc.co.uk e theguardian.com
(12) N. I.
Bukharin, Imperialismo e Economia Mundial (1915), cap.
13. marxists.org
(13) Ibid.
(18) Para um
estudo de caso antigo: leftcom.org
(20) Usámos
ocasionalmente este termo, por exemplo: leftcom.org
(21) Ver
Friedrich Engels, A Situação da Classe Operária em
Inglaterra (1845).
(24) greatermanchester-ca.gov.uk
(28) A terceira
classificada, a ex-vice-líder Angela Rayner, está muito atrás nas sondagens,
com 8% dos votos de primeira preferência contra 47% de Burnham e 31% de
Starmer. yougov.com
(29) Não vigiar
sem protecção auditiva adequada: youtu.be
(31) Vitórias dos
candidatos à reeleição: Filipinas, Singapura, Albânia, Kosovo (Dezembro),
Liechtenstein, Noruega, Polónia, Austrália, Vanuatu, Camarões, Costa do Marfim,
Argentina, Belize, Canadá, Equador, Guiana, Santa Lúcia, Iraque. Derrotas dos
candidatos à reeleição: Coreia do Sul, Chequia, Alemanha, Kosovo (Fevereiro),
Moldávia, Países Baixos, Roménia, Samoa, Gabão, Guiné-Bissau, Maláui,
Seicheles, Bolívia, Chile, Honduras, Jamaica, São Vicente, Suriname, Trinidad,
Japão.
Quarta-feira, 17 de Junho de 2026
Tendência Comunista Internacionalista
Fonte: Andy Burnham and the Crisis of Bourgeois Democracy | Leftcom
Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
Sem comentários:
Enviar um comentário