quarta-feira, 17 de junho de 2026

Boualem Sansal ou o prisioneiro dos lápis invisíveis

 


Boualem Sansal ou o prisioneiro dos lápis invisíveis

16 de Junho de 2026 Robert Bibeau

Por M. Yefsah

A nossa época carece de mágicos. Felizmente, ainda nos restam alguns escritores. Veja-se, por exemplo, o caso de Boualem Sansal. O homem sai da prisão e conta o seu calvário. Uma cela de 6 m², depois de 6,5 m². Uma cela tão despojada que até um monge da Idade Média a teria considerado austera. Noutros locais, falava-se de 9 m². A cela parece encolher a cada entrevista, como uma camisola lavada a uma temperatura demasiado elevada. A este ritmo, daqui a seis meses, terá estado detido numa caixa de sapatos. Mas isso não é o mais surpreendente.

O escritor explica que não tinha nem papel, nem caneta, nem livros. Nada. Nem sequer um jornal velho para guardar as memórias. Uma fome intelectual absoluta. O nosso prisioneiro afirma ter estado sozinho na cela. Uma solidão tão completa que teria deixado Robinson Crusoé com inveja. Passam-se alguns dias e eis que, do fundo dessa cela estéril, surgem uma carta ao presidente, poemas compostos com os companheiros de prisão, reflexões registadas preto no branco e leituras meditadas entre duas paredes. O problema é que os companheiros de prisão chegam depois da solidão. Já não sabemos bem se estamos perante um relato carcerário ou numa sessão de espiritismo. Os companheiros de cela aparecem quando o enredo assim o exige e desaparecem assim que a cena termina.

O autor explica que não tinha papel, nem caneta, nem livros. Nada. Nem sequer um jornal velho para embrulhar as recordações. Uma fome intelectual absoluta. O nosso prisioneiro afirma ter estado sozinho na cela. Uma solidão tão completa que teria deixado Robinson Crusoé com ciúmes. Passam-se alguns dias e, das profundezas desta cela estéril, emerge uma carta ao presidente, poemas compostos com outros reclusos, reflexões gravadas a preto e branco e leituras meditadas entre duas paredes. O problema é que os companheiros de prisão chegam depois da solidão. Já não está claro se estamos numa história de prisão ou numa sessão espiritualista. Os companheiros de cela aparecem quando o guião precisa deles e desaparecem assim que a cena termina.

«A Lenda». Diz-se que essa alcunha lhe terá sido dada pelos próprios reclusos. O homem comum sai da prisão com mais algumas rugas. Ele sai de lá como uma lenda. A esta altura, já não estamos a falar de um testemunho. Estamos perante uma autobiografia redigida por um serviço de comunicação. Antigamente, as lendas nasciam após a morte. Exigiam séculos. Feitos heróicos. Batalhas. Obras. Hoje, surgem nas entrevistas. É mais rápido. Franz Kafka teria pedido uma assinatura da revista Koléa.

O auge é atingido quando o nosso herói confessa ter-se considerado Nelson Mandela. Alguns prisioneiros lêem para passar o tempo, outros jogam dominó; ele, por sua vez, convive directamente com os gigantes da História. A vaidade sobe às nuvens. «Eu achava-me o Nelson Mandela». E quando a jornalista Laurence Ferrari, apesar de complacente, subitamente tomada por um lampejo de lucidez, lhe responde: «Eu sei que não é isso que pensa». O homem comum baixa a cabeça e perde o sorriso. Quase se ouve o balão a esvaziar-se. Pschitt! O Mandela de Koléa volta à terra.

É assim que as coisas são. Um dia, ele não consegue ler e a biblioteca da prisão só disponibiliza obras em árabe e o Alcorão. O leitor fica surpreendido. Porque não também romances islandeses e um tratado sobre os samurais? Estamos na Argélia, não na Gronelândia. O que, já agora, não se pode reprovar a uma biblioteca de Koléa por se parecer com a de Cambridge. Mas, no dia seguinte, ele pede e recebe livros. Coisas de peso: Victor Hugo e Henry de Montherlant, que parece estar a descobrir… A escassez transforma-se em abundância. Neste caso, os livros têm o mesmo destino que os metros quadrados da cela. O seu número varia consoante as entrevistas.

Noutro dia, anuncia que vai deixar definitivamente a França, mas fica. «Sou francês. Ponto final. » O ponto não durou muito tempo. Depois, pede o seu passaporte argelino. Já não é um testemunho. É uma rotunda. Cada declaração toma uma saída diferente. Entretanto, os programas de televisão maravilham-se, os jornalistas abanam a cabeça, os comentadores aplaudem. Ninguém parece reparar no elefante que atravessa a sala de estar de chinelos.

 

Sr. Yefsah

(Fonte: Algeria54)

Fonte: Boualem Sansal ou le prisonnier aux crayons invisibles – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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