domingo, 14 de junho de 2026

BOUALEM SANSAL OU A LENDA DE UM ENCARCERAMENTO MARTIRIAL

 


BOUALEM SANSAL OU A LENDA DE UM ENCARCERAMENTO MARTIRIAL

14 de Junho de 2026 Robert Bibeau



Por Khider Mesloub.

Mal acabou de ser libertado, Boualem Sansal publica um livro com um título revelador: A Lenda. A escolha da palavra merece atenção. Porque ao ler as primeiras apresentações do livro, o leitor descobre menos um simples testemunho sobre um ano de detenção e mais uma grande obra de construção memorial em que a narrativa pessoal por vezes tende a confundir-se com a criação de uma figura heroica.

Uma história de sofrimento sob o signo da lenda

Segundo os relatos publicados na imprensa francesa, o escritor descreve aí uma experiência carcerária particularmente difícil: cela pequena, arbitrariedade judicial, humilhações administrativas, solidão e degradação física. O retrato pretende mostrar um homem duramente afectado por um ano passado atrás das grades.

No entanto, um detalhe chamou a atenção de muitos comentadores no momento da sua libertação: a aparência física do escritor. Enquanto a opinião pública tinha sido preparada durante meses para descobrir um homem quebrado pela prisão, as imagens divulgadas após a sua saída deram uma impressão bastante diferente.

Muitos destacaram a sua boa aparência, a sua aparente vivacidade e o seu estado geral maravilhosamente preservado para um homem de mais de «oitenta anos» que supostamente teria passado por condições particularmente duras durante o seu encarceramento nas prisões argelinas. Longe da imagem de um prisioneiro fisicamente quebrado pela experiência, Sansal parecia, aos olhos de muitos testemunhos, um homem ainda alerta, enérgico e surpreendentemente sereno. O seu rosto mal mostrava os sinais que se poderiam esperar de um ano de detenção apresentado como particularmente rigoroso. Pelo contrário, a sua aparência geral parecia mais evocar a de um homem que atravessou a prova sem danos aparentes do que a de um detido profundamente marcado pelas privações e sofrimentos descritos hoje no seu relato.

Não se podia deixar de ficar impressionado com o contraste entre as representações que acompanharam o caso Sansal durante a sua detenção e a imagem que ele apresentava à saída. Durante vários meses, parte da imprensa e da classe política francesa tinha mantido a ideia de um escritor idoso, gravemente afectado, cuja prisão poderia levar a uma deterioração física irreversível. No entanto, longe de ter a aparência de um homem esmagado pela experiência, Boualem Sansal parecia exibir um rosto descontraído e uma postura geral que muitas das pessoas que seguiram o caso consideraram surpreendentemente rejuvenescida.

As prisões argelinas descobriram o elixir da juventude?

Essa impressão naturalmente alimentou comentários e ironias. Ao ver o escritor aparecer diante das câmeras, alguns quase chegariam a acreditar que ele regressava não de um estabelecimento prisional, mas sim de uma estância de repouso. Outros foram ainda mais longe na brincadeira, sugerindo que talvez as prisões argelinas tivessem descoberto o segredo do elixir da juventude. A expressão é obviamente exagerada, mas traduz bem o espanto provocado pelo contraste entre as previsões alarmistas difundidas durante meses e as imagens realmente observadas após a sua libertação.

Ao ver as imagens da sua libertação, alguns teriam mesmo podido acreditar que as autoridades penitenciárias argelinas estavam a experimentar secretamente uma nova terapia anti-idade reservada aos presos mais célebres. A ironia é voluntariamente exagerada, mas ilustra a surpresa provocada pela aparência de um homem que se anunciava há meses fisicamente arruinado pela sua detenção. Boualem Sansal surgiu assim para muitos como um homem que mais ganhou do que perdeu em vitalidade. Alguns chegaram mesmo a afirmar que parecia ter rejuvenescido várias décadas. 

Desde então, a leitura da sua obra, na qual descreve condições de detenção particularmente difíceis e um estado físico fortemente degradado, não pode senão reforçar a impressão de contradição. Quanto mais o relato insiste na extrema dureza da provação, mais ressurgem na memória as imagens da sua libertação, que tinham causado na opinião a impressão exactamente inversa.

O prisioneiro quebrado esperado e o homem rejuvenescido descoberto

Esta observação leva-nos a questionar a diferença entre a imagem pública do detido libertado e o relato dramático desenvolvido no seu livro, que se assemelha menos a um testemunho do que a uma narrativa encomendada destinada a impor uma leitura martirial do período carcerário na Argélia. Quanto maior parece ser esta distância, mais legítima se torna a questão da encenação literária.

Ainda por cima, La Légende não se limita a contar uma experiência carcerária. O livro também inclui acertos de contas com os seus antigos editores, considerações políticas, justificações financeiras relacionadas com a mudança de editora e várias reflexões destinadas a reinscrever o seu percurso numa narrativa mais ampla. A detenção torna-se então um dos elementos de uma narrativa mais geral centrada na figura do próprio autor.

Em certos momentos, a leitura de A Lenda dá quase a impressão de que o principal trauma de Boualem Sansal não nasceu da sua estadia na prisão, mas da sua saída da prisão. Pois as imagens divulgadas nessa ocasião apresentavam um grande inconveniente: mostravam um homem com boa forma física e serenidade, pouco compatíveis com o retrato de um detido fisicamente devastado pela experiência. O livro, publicado hoje, surge então como uma vasta operação de recuperação da memória destinada a restabelecer, pelo poder do relato, aquilo que as imagens tinham inadvertidamente comprometido. A Lenda parece querer restabelecer, através das palavras, a figura do mártir que as imagens haviam desmentido.

A questão, portanto, não é saber se Boualem Sansal sofreu na prisão. A resposta, muitos puderam ler no seu rosto surpreendentemente radiante que ele mostrava no momento da sua libertação. A impressão foi tal que alguns comentadores, não sem ironia, falaram verdadeiramente de um banho de juventude. A verdadeira questão está noutro lado. Consiste em determinar em que medida o relato publicado hoje é um testemunho factual ou faz parte de uma construcção literária destinada a dramatizar retrospectivamente a experiência carcerária. Quanto mais as descrições contidas em A Lenda insistem na extrema dureza das condições de detenção, mais ressurgem a imagem do Sansal libertado, cuja aparência parecia contradizer as previsões catastróficas divulgadas durante toda a sua prisão.

Da detenção à criação de uma lenda

Portanto, o leitor tem o direito de se questionar. Está ele a ler o relato fiel de uma realidade prisional excepcional pela sua brutalidade ou está a assistir a um processo de reconstrucção lendária onde as necessidades do testemunho se misturam com as exigências da encenação literária, que dá a impressão de ter sido escrita por encomenda? A questão merece ser colocada, ainda mais porque a obra não se limita ao relato da prisão, mas participa mais amplamente na construção de uma figura pública cuja experiência carcerária constitui agora um dos principais motores narrativos.

O título escolhido por Sansal poderia, afinal, constituir a melhor chave de leitura da sua obra. Porque o que está em causa talvez não seja apenas o relato de uma detenção, mas a criação de uma lenda.

No fim das contas, A Lenda talvez nos informe menos sobre as condições reais da detenção de Boualem Sansal do que sobre a imagem que ele agora pretende deixar para a posteridade. Entre o detido descrito no livro e o homem que apareceu diante das câmeras na sua libertação, a diferença é suficientemente marcante para gerar dúvidas.

Jean Cocteau escreveu: «A história é o real que se deforma, a lenda é o falso que se encarna.» A julgar pelos primeiros ecos de A Lenda, a fórmula parece particularmente adequada. Porque tudo acontece como se o objectivo não fosse apenas contar uma detenção, mas fixar definitivamente a versão heróica dela. O problema é que algumas fotografias da libertação parecem ter conservado uma memória mais autêntica do que o relato.

Toda a lenda tem o seu calcanhar de Aquiles. Neste caso, ela assume a forma de uma série de fotografias que mostram um homem que parecia ter esquecido de parecer tão desgastado quanto a história dizia que ele devia estar. E é precisamente nesta diferença entre as imagens e o relato que a lenda começa a ocupar o lugar da história. 

Khider MESLOUB

 

Fonte: BOUALEM SANSAL OU LA LÉGENDE D’UNE INCARCÉRATION MARTYRIALE – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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