Carta N°1 des “Cahiers du Marxisme Vivant”
As lições de Dezembro de 1995
O plano Juppé ou a fanfarronice domesticada
Raramente o contraste entre as promessas eleitorais e as medidas efectivamente tomadas por um governo terá sido tão gritante como neste final de 1995.
Durante toda a campanha presidencial, a direita declarou-se pronta para combater o desemprego e a exclusão e defendia que «a folha de pagamento não era inimiga do emprego». A demagogia obriga. Quanto mais a situação das massas se agrava, quanto mais o consenso social se desmorona, tanto mais o discurso dos políticos, tanto da direita como da esquerda, tem de negar que existam fatalidades económicas infinitamente mais fortes do que todo o seu voluntarismo. Não se trata apenas de angariar votos, mas de impedir que as classes populares, e muito especialmente a classe assalariada, cheguem a perder a esperança no capitalismo. Nas altas esferas da economia, este tipo de discurso suscita inevitavelmente um encolher de ombros, pois os investidores e os decisores estão bem posicionados para conhecer perfeitamente as restricções que pesam sobre eles e, sobretudo, estão bem decididos a impô-las a toda a sociedade. Daí resultam equívocos cómicos.
Nada ilustra melhor a falta de liberdade dos governantes do que o relato esclarecedor que retiramos do «Bilan du Monde de 1996»:
«Em Março, o franco tinha caído para o seu nível mais baixo de sempre, devido às incertezas políticas e à aproximação das eleições presidenciais ( ... ) À medida que as intenções de voto a favor de Jacques Chirac aumentavam, os investidores questionavam-se sobre a ortodoxia monetária e orçamental do presidente da Câmara de Paris, nomeadamente na sequência da sua crítica pública e veemente ao apelo à moderação salarial lançado pelo governador do Banco de França. Mal eleito, Jacques Chirac procurou tranquilizar os operadores do mercado (...), mas o discurso de política geral do primeiro-ministro provocou uma nova onda de desconfiança por parte dos investidores, desapontados com a falta de clareza de uma política governamental que parecia hesitar entre relançamento e rigor". «No Outono, o franco viria a sofrer uma queda brusca, explicável pela ausência de reformas estruturais no projecto de orçamento para 1996». «Foi necessário o compromisso pessoal e solene do Presidente da República para tirar o franco desta fase difícil». (Balanço do Le Monde, p. 168)
Eis o segredo de uma reviravolta que surtiu o efeito de uma provocação e que foi atribuída, não só pela Esquerda, mas também por muitos líderes da maioria, à «falta de respeito» e de «amor» de um primeiro-ministro tecnocrata para com os cidadãos comuns!
Durante a campanha presidencial, a prioridade das prioridades, ostensivamente proclamada, era aliviar os males infligidos às massas trabalhadoras pelo desemprego e pela exclusão. Conquistado o poder, essa prioridade tornou-se exactamente o oposto: eram os capitalistas que era preciso aliviar da ameaça que os défices públicos, ou mesmo um aumento geral dos salários, representavam para o franco, bem como da frustração de ver «o sector público à francesa» fechado aos capitais em busca de investimentos lucrativos.
Está na natureza da democracia burguesa deixar a última palavra às potências da indústria e das finanças. Assim, todas as críticas mordazes dirigidas contra as «asneiras» de Juppé, tanto pelos seus rivais da esquerda como pelos seus bons amigos da maioria, não passam de pura tagarelice parlamentar, uma cortina de fumo incapaz de esconder o facto de que a democracia é a forma mais adequada às necessidades contraditórias da classe dominante.
***
O despertar de Dezembro
O vigoroso movimento social que, em três semanas, levou às ruas centenas de milhares, ou mesmo milhões, de trabalhadores dos sectores público e privado, de desempregados, de reformados e até mesmo de estudantes, não deve ser avaliado apenas pelos seus resultados. A sua importância reside no despertar que demonstrou, após mais de vinte anos de letargia.
Numa sociedade dividida em classes, aquela que detém o poder por possuir os meios de produção não só está plenamente consciente dos seus interesses, como também está bem preparada para os defender. O mesmo não se passa com a classe assalariada, da qual, aliás, os operários constituem apenas uma parte. O assalariado pressupõe o capital. Mas sem assalariados para realizar todos os trabalhos socialmente necessários, desde a produção até aos múltiplos serviços de que os homens não poderiam prescindir sem prejuízos, não haveria capital. Na visão do trabalhador isolado, porém, é o contrário que parece verdadeiro: é o capital que o faz viver, proporcionando-lhe um emprego e os meios de subsistência correspondentes!
Esta visão distorcida das relações reais serve poderosamente à classe dominante. Constitui mesmo uma garantia de sobrevivência muito mais forte do que toda a demagogia de que os políticos são pródigos e até do que todo o «arsenal repressivo» de que dispõe. É por isso que, numa sociedade burguesa, um movimento de massas nunca pode ter um resultado mais importante do que quebrar a resignação da classe explorada à sua dependência. Só então é que pode surgir uma aspiração colectiva a uma sociedade diferente, a uma civilização diferente daquelas que foram moldadas pela burguesia. Por mais que os oprimidos se contem às centenas de milhões no mundo, enquanto essa aspiração colectiva e as lutas que ela inspira estiverem ausentes, eles continuam a ser reféns da classe dominante. Durante os conflitos, cada um pode imaginar que o objectivo a alcançar é abolir a injustiça particular que lhe foi infligida. Mas, uma vez que as injustiças particulares se inscrevem na lei da miséria, da insegurança e do embrutecimento que o regime social em vigor impõe a todos, é evidente que o verdadeiro objectivo é quebrar essa lei e impor pela força a de uma sociedade totalmente nova e oposta.
O facto de estarmos longe disso não autoriza ninguém a julgar o que
aconteceu e o que acontecerá no futuro sem outra perspectiva senão a de uma
repetição interminável de «lutas inúteis». Num país onde 20% da população detém
68% do património, contra 12% para os restantes 60% (1), o Primeiro-Ministro
achou por bem invocar «a justiça» para fazer passar a sua contra-reforma!
Recebeu a resposta que merecia. Os ferroviários, cujo efectivo passou de 400
000 para 160 000 entre 1945 e 1995, foram apresentados como «privilegiados»,
cujo regime de reforma aos 50 anos era uma ofensa para os outros trabalhadores,
que, por sua vez, têm de trabalhar mais dez anos. Quando são maquinistas, estes
«privilegiados» partem para o trabalho com horários diários imprevisíveis.
Conduzem sozinhos comboios cada vez mais rápidos (uma vez que a mecanização da
segurança tornou o segundo agente «supérfluo»), apesar de serem responsáveis
por centenas de vidas. A duração do serviço, que afasta o agente da sua
residência, pode atingir 36 horas e, muitas vezes, tem de pernoitar em
dormitórios onde ressoa o barulho dos comboios. Foram estes «privilegiados» que
disseram «não ao plano Juppé», exigiram a sua retirada e constituíram a ponta
de lança do movimento geral. Nada de surpreendente.
No entanto, mesmo nas chamadas classes populares, não faltaram pessoas que consideraram paradoxal, ou mesmo escandaloso, que fossem precisamente os trabalhadores que gozam de uma relativa segurança no emprego a entrar em greve e a manifestar-se.
O verdadeiro paradoxo está noutro lado. Longe de ser «escandaloso», é a melhor razão para ter esperança no futuro que nos foi dada há décadas. Isto deve-se ao facto de estes assalariados, cinicamente ou estupidamente estigmatizados como «devoradores do orçamento», não terem lutado pelos seus privilégios, mas sim contra os males de que toda a classe operária sofre actualmente.
É verdade que os trabalhadores do sector público têm, em relação aos do sector privado, a vantagem de não poderem ser despedidos tão facilmente por participarem em greves. Pois bem, eles valeram-se desse privilégio para tentar repelir uma ofensiva daquilo a que se chamaria «capitalismo selvagem» se se tratasse da Rússia, da Ásia ou de outras regiões semi-desenvolvidas, mas que, na França civilizada, se denomina «a modernização necessária»! Os trabalhadores do sector privado não se enganaram quanto a isso, com excepção da ralé política dos anti-grevistas ferrenhos. Os ferroviários afirmaram, aliás, claramente que, se viessem a ceder, toda a classe assalariada seria prejudicada. Não se comportaram como defensores dos direitos adquiridos, mas sim como vanguarda de todos os que não têm direitos. O seu grande mérito é ter colocado em primeiro plano a exigência de unidade da classe assalariada — sindicalizados e não sindicalizados unidos —, não apenas nas palavras, mas nos factos, multiplicando os contactos horizontais com outras categorias e praticando a mais ampla solidariedade entre os grevistas.
Perplexos, os líderes sindicais não opuseram a estes «excessos» — algo totalmente novo — a resistência a que estavam habituados nos tempos em que detinham o poder (2). O espectáculo oferecido pela CFDT Notat, que seguiu a linha tradicional da F.O., e pela F.O. Blondel, que, já tarde, reproduziu perante as câmaras as «ousadias» da CFDT dos primórdios, diz muito sobre a importância a atribuir aos rótulos sindicais.
A principal preocupação de todos estes profissionais do sindicalismo de negociação era defender as posições de força que ainda ocupavam nas mútuas, porque estas lhes permitiam financiar organizações abandonadas pelos trabalhadores.
Afinal, tal despertar social era para eles uma oportunidade inesperada. As suas práticas corporativistas, o seu autoritarismo em relação à base e o receio de que distúrbios demasiado generalizados prejudicassem a economia nacional tinham, ao longo do tempo, transformado a classe operária francesa na mais des-sindicalizada da Europa. A agitação iria talvez devolver-lhes a «representatividade» perdida, para que pudessem voltar a apresentar-se aos governos como interlocutores incontornáveis, mas ponderados e respeitadores das exigências da economia nacional. Os políticos nunca esconderam o quanto lamentavam os tempos em que os sindicatos eram poderosos e as dificuldades que lhes tinham sido criadas por «coordenações» vindas de se sabe lá onde e animadas por uma consternante falta de civismo. Não podiam deixar de aproveitar a oportunidade. A classe operária, por seu lado, sente perfeitamente que as fanfarronices televisivas de Blondel e Viànet não significam, de forma alguma, uma mudança na função que pretendem desempenhar na sociedade burguesa: os bombeiros das lutas de ontem não podem tornar-se os incendiários das lutas de amanhã.
«A classe operária não precisa deles e acaba de provar que, para ela, a des-indicalização não significava abdicação, mas sim capacidade de lutar.»
***
Uma nova geração
A sucessão das gerações só provoca mudanças profundas na mentalidade colectiva na medida em que as condições gerais em que cada uma delas nasceu, cresceu e viveu também tenham mudado profundamente.
Aquelas que entraram no mercado de trabalho durante «os gloriosos anos trinta » foram, para usar uma imagem consagrada, levadas pelo «elevador social» muito acima do nível de vida das gerações da guerra e do período pré-guerra.
É certo que o que define a condição proletária não é, na visão revolucionária de Marx que é a nossa, «o nível de vida», mas sim o assalariado. Bem ou mal remunerados, os proletários das diferentes épocas e das diferentes regiões do mundo têm em comum o facto de venderem a sua capacidade de trabalho como uma mercadoria ao capital. O capital só a compra se precisar dela para se valorizar. O proletariado define-se, portanto, como uma classe cuja existência está totalmente submetida às exigências, historicamente e conjuncturalmente variáveis, da classe que monopoliza o capital social. É evidente que um escravo continua a ser um escravo mesmo quando está bem alimentado, mas a consciência que tem da sua condição não pode ser totalmente independente do tratamento que o senhor lhe dispensa.
É por isso que os « gloriosos anos trinta » da burguesia — que, no pós-guerra,
acumulou o seu capital a um ritmo sem precedentes — foram os « vergonhosos anos
trinta » do proletariado, no sentido em que este perdeu a fé numa sociedade
superior conquistada por uma grande revolução social, ao mesmo tempo que o anti-capitalismo,
mesmo que ingénuo, ou mesmo «primitivo», das gerações anteriores...
Vinte anos após o início da crise, a situação dos recém-chegados ao mercado de trabalho é totalmente diferente. O elevador que subia alegremente os andares não ficou irremediavelmente bloqueado, como afirmava um certo Madelin, que perdeu o cargo de ministro devido à sua falta de tacto. Trata-se antes (segundo os economistas que reprovam o alarmismo destinado a intimidar as massas) de uma esteira rolante que avança à velocidade de uma tartaruga, quer se trate de crescimento, quer de poder de compra. .
De qualquer forma, as mudanças na mentalidade colectiva de uma geração do proletariado resultam da imagem que esta formou da sociedade, não através do estudo das estatísticas, mas sim da observação e da experiência directas. O que é determinante para a mentalidade actual é que, há pelo menos vinte anos, a situação material não melhorou para quem tem emprego e que, para quem não consegue encontrar um, deteriorou-se completamente. Não é sem razão que os políticos se assustam com esta perda de confiança generalizada, mesmo que se tornem detestáveis quando afirmam, como Juppé ou Trichet (o optimista governador do Banco de França), que ela é injustificada e que pode ser restabelecida graças a esforços de persuasão que incumbem aos sábios do governo.
Na realidade, a perda de confiança está ligada ao facto de «o proletariado representar agora mais de 75% da população deste país» (3). Foi esta mutação social que deu força ao movimento de Dezembro, obrigando o Juppé de serviço a arquivar provisoriamente os seus projectos de reforma dos regimes de pensões dos funcionários públicos.
Se a repercussão deste movimento surpreendeu, foi porque, no pensamento comum, o proletariado é a classe operária empobrecida do século passado, cujo desaparecimento ainda ontem era anunciado pela multidão de «burros eruditos» que grassam nos meios de comunicação oficiais e não oficiais (4) . Não é a primeira vez que se comete um erro científico, quando se trata de fazer crer que «o marxismo já não é funcional» na sociedade contemporânea e de relegar a revolução social dos séculos vindouros para o museu das ideologias extintas. Mas a força do marxismo impõe-se mesmo aos não-revolucionários (5), uma vez que foi no artigo acima mencionado do *Le Monde* que se podia ler em Dezembro: «o termo “classe operária” é conceptualmente totalmente inadequado para designar aquilo que representa. O proletariado operário não é uma classe social, mas um dos meios sociais da classe proletária ( ... ) que, fundamentalmente, é aquela que vive da venda da sua força de trabalho».
A burguesia pode muito bem imaginar que, ao automatizar e deslocalizar as empresas em grande escala, está a enfraquecer «a classe perigosa» dos operários produtores de mercadorias. Na realidade, tudo o que faz é transformar em «classe perigosa» todos os assalariados prestadores de serviços, apagando assim a fronteira entre os «trabalhadores manuais» — há muito considerados os únicos proletários autênticos — e os «trabalhadores de escritório», relegados para a categoria tranquilizadora das «novas classes médias».
***
O peso do passado
Esforçámo-nos por demonstrar que não se devia minimizar o alcance da oposição que a nova geração do proletariado francês opôs ao governo. É, no entanto, verdade que a importância do serviço público em França explica a característica que impediu que esta oposição fosse reduzida a um mero reflexo dos funcionários contra as ameaças que pesavam sobre o seu estatuto específico. Isso não lhe retira, de forma alguma, o seu carácter exemplar para os trabalhadores de outros países, mas reflecte os limites que lhe devemos reconhecer e que são sublinhados pelo ressurgimento de duas reivindicações tipicamente reformistas: a relançamento através do consumo e a defesa do serviço público, que são os cavalos de batalha do PS e do PC há décadas.
«O relançamento do crescimento através do consumo» pressuporia o regresso das condições que tornaram possível a expansão do pós-guerra.
A primeira dessas condições reside nas enormes destruições da Segunda Guerra Mundial imperialista. A necessidade de reconstrução proporcionou, de facto, ao capital um campo de actividade inesperado antes de 1939, mas que, após trinta anos de expansão «pacífica», lhe faz agora uma falta cruel.
A segunda é, muito simplesmente, o medo que a revolução de 1917 e a agitação dos «anos loucos» inspiraram na classe capitalista e que se prolongou ao longo de toda a Guerra Fria, ou seja, durante décadas após o desaparecimento de qualquer ameaça revolucionária. Embora a actual geração da classe operária pense que se trata de um passado ultrapassado, sem influência na nossa vida actual, foi precisamente desse medo que nasceu a famosa política keynesiana, hoje continuamente oposta ao cinismo do liberalismo. O que Keynes conseguiu fazer com que a burguesia aceitasse foi, muito simplesmente, o facto de que o custo social e político das recessões cíclicas características do século anterior se tinha tornado demasiado elevado, com o aumento paralelo da massa de capitais investidos e da classe assalariada, para que se pudesse deixar aos mecanismos caprichosos do mercado a tarefa de a manter no poder. Foi, portanto, num espírito de conservação social que a burguesia, quer queira quer não, aceitou um crescimento impressionante do papel do Estado na economia, o que, no entanto, lhe custou muito caro.
O paradoxo da situação actual reside no facto de, nos países europeus, o liberalismo ser amplamente considerado uma política burguesa, enquanto a política do Estado-providência — cujos objectivos conservadores há muito foram esquecidos — continua a ser amplamente vista como uma política «proletária»!
Mesmo se nos limitássemos ao aspecto puramente económico, “o relançamento da produção pelo consumo” só foi possível nos “gloriosos anos trinta” graças a um aumento sem precedentes da produtividade do trabalho. O crescimento simultâneo dos lucros capitalistas, do número de operários e de trabalhadores dos serviços, do nível médio dos salários e das despesas do Estado pôde fazer acreditar a toda uma geração que o capitalismo, afinal, não merecia a condenação feita contra ele pelo marxismo revolucionário dos primeiros tempos da Internacional Comunista.
São milhões de homens que hoje têm de fazer o luto por essa ilusão à qual a geração anterior se agarrou. É, no entanto, claro que a produtividade não podia aumentar indefinidamente sem prejudicar o pleno emprego, sem gerar um desemprego que, ao diminuir a massa salarial e, portanto, a procura, assim como os recursos fornecidos ao Estado pelos impostos, provocaria uma recessão gigantesca que minaria as bases da protecção social. Seja quais forem, de facto, as exagerações interessadas do poder em vigor sobre a dimensão dos défices da Segurança Social, é evidente que a perda de milhões de contribuintes afectada pelo desemprego devia abrir nas suas contas um buraco que os capitalistas não se sentiriam de forma alguma obrigados a preencher, dado que a sua única razão de ser é fazer e acumular lucros.
Mais cedo ou mais tarde, a vontade de forçá-los a isso irá apoderar-se das massas assalariadas reduzidas ao desespero, não apenas em França, mas em vários países europeus também atingidos pela crise. Um movimento desses pode perfeitamente desencadear-se com a ilusão de voltar à situação mais suportável dos tempos de expansão e de restaurar um pouco de “justiça” numa sociedade “iníqua” “fazendo os ricos pagar”. Não pode nem desenvolver-se nem triunfar sem que o verdadeiro objectivo, ou seja, o salto para além do capitalismo, se imponha à consciência da sua vanguarda militante. É por isso que o jornalista que, numa revista nada menos que extremista, propôs consagrar “Karl Marx, homem do ano” não é assim tão louco quanto poderia parecer.
«O relançamento da produção através do consumo» não é apenas uma impossibilidade económica fora das condições de que acabámos de falar, um sonho vazio de conservadores e reformistas que não conseguem aceitar a ideia de que o capitalismo não é eterno. É uma reivindicação que tem a sua origem no que há de mais absurdo e anti-social no capitalismo. Antes dele, a humanidade nunca trabalhou e produziu apenas para «consumir», ou seja, satisfazer as suas necessidades. O capitalismo inverteu completamente esta relação. Para ele, a produção não tem outro objectivo senão enriquecer os detentores do capital. Apenas reconhece as necessidades humanas na medida em que estas oferecem um mercado para as suas mercadorias. O consumo das massas trabalhadoras assalariadas, dos trabalhadores independentes e dos próprios capitalistas não é o objectivo da actividade produtiva, mas uma condição, uma simples condição desta.
É por isso que, em tempos de boom, não são os ramos da actividade social
capazes de satisfazer necessidades vitais que se desenvolvem, mas sim aqueles
que oferecem ao capital as melhores perspectivas de acumulação. Não é por acaso
que a civilização dos ' gloriosos anos trinta ' foi a civilização do automóvel
e do entretenimento, cujas facturas aumentaram de forma incomparável com as de
outros sectores do ramo dos bens de consumo. Mas, tal como a procura solvente
não pode crescer indefinidamente, o capitalismo também não é capaz de
desenvolver infinitamente as necessidades que ele próprio suscitou: no que diz
respeito a automóveis, electrodomésticos, diversões, etc., a saturação acontece
mais cedo ou mais tarde.
Em tempos de crise como os actuais, a população desorientada apercebe-se de que, depois de ter acedido, dentro de certos limites, ao «luxo» outrora reservado aos privilegiados, tem a maior dificuldade em satisfazer as suas necessidades vitais. Se, ao longo dos « gloriosos anos trinta », «a satisfação litigiosa substituiu a secular luta de classes», o Movimento de Dezembro demonstrou que se iniciava uma reviravolta, que a era da luta de classes se reabria de novo, ou seja, que os dias das velhas superstições alimentadas pelo reformismo anémico da Esquerda estão agora contados.
Para além da «outra política» continuamente invocada (e que supostamente «relança a produção através do consumo»), a assimilação dos serviços públicos a um sector «socialista» implantado no seio da sociedade capitalista conta-se entre as piores dessas superstições. Sugere, com efeito, que a principal tarefa do proletariado hoje é defender esse sector agora ameaçado. Se isso fosse verdade, seria preciso ir mais longe e afirmar abertamente que o objectivo do proletariado é transformar a economia privada numa economia de Estado. Já ninguém se atreve a fazê-lo, após o fiasco, tanto económico como político, da Europa de Leste e da China «comunistas».
Apesar do que se possa dizer hoje, a economia estatal resolveu, de forma muito mais eficaz do que a economia privada teria conseguido, a questão crucial que se colocava a esses países em atraso. Era-lhes necessário realizar a sua revolução industrial, ou seja, dotar-se do capital produtivo e das infraestruturas de que careciam. A exploração «normal» de um proletariado urbano reduzido e primitivo não teria sido suficiente e teria prolongado desmesuradamente os prazos da transformação. Era necessário explorar ao máximo a classe alimentadora, a mais estática e a menos controlável de toda a sociedade, ou seja, o campesinato, que representava a esmagadora maioria da população. O horror que este suposto «socialismo» inspirou no Ocidente deve-se, em última análise, ao facto de ter concentrado em poucas décadas uma massa de sofrimentos que, na revolução industrial dos países mais avançados, se tinha estendido por um século ou mais.
Que relação tem isto com as questões que se colocam ao proletariado do segundo milénio?
A infelicidade para todos aqueles que tomaram e tomam a epopeia industrialista do Oriente atrasado ou o sector público mais ou menos amplo dos países avançados como «socialismo» é que o socialismo (ou melhor, o comunismo) é, na doutrina de Marx, uma revolução do modo de distribuição da riqueza que o capitalismo impõe a todos os membros da sociedade.
Os correios, os caminhos de ferro, as telecomunicações, a distribuição de electricidade, gás e água, os hospitais e a educação: eis as actividades que se enquadram no sector público em França, com a justificação de que se trata de «actividades de interesse geral». Impõe-se uma dupla observação: a primeira é que, em essência, todas as actividades que visam satisfazer as necessidades vitais dos seres humanos são «de interesse geral». Por que razão seria escandalosa a distribuição de gás e de electricidade por empresas capitalistas, mas perfeitamente normal entregar a alimentação e a habitação a essas mesmas empresas? A segunda observação confirma a futilidade de tal distinção. Se na Itália, em França e na Austrália a totalidade ou quase toda esta área faz juridicamente parte do sector público, o seu número reduz-se quando passamos à Suécia, à Alemanha, aos Países Baixos ou ao Canadá, sendo os campeões da economia privada a Grã-Bretanha, o Japão e os Estados Unidos.
Numa sociedade capitalista, o sector público está necessariamente limitado, quer a sectores que exigem capitais demasiado avultados para as empresas privadas ou uma gestão rigorosamente centralizada, quer a serviços cuja subordinação a uma procura solvente teria um carácter escandaloso, como a educação e a saúde. É, em suma, o preço que a classe capitalista tem de pagar para garantir uma base sólida. Dito isto, é financiado pelo sector privado — incluindo capitalistas, assalariados e trabalhadores independentes — e o trabalho que nele é realizado é trabalho assalariado. Obedece, portanto, às mesmas exigências que nas empresas que geram lucro para os capitais nelas investidos.
Que os salários sejam mais altos e o emprego mais seguro não basta de forma alguma para que toda a classe operária esteja interessada em mantê-los. A classe operária interessa-se pelo socialismo, que se poderia definir de forma aproximada como uma generalização do princípio do interesse geral a todos os ramos da produção e dos serviços. Isso equivale a banir de toda a actividade social não apenas o par conflituoso do lucro e do salário, mas também o do desemprego e a duração legal excessiva do trabalho, e a pôr fim a todas as suas derivações patológicas, como a corrupção, a fraude e os produtos que degradam física e culturalmente os seres humanos.
***
Em conclusão, o que falta à nova geração é ter uma
visão do objectivo a alcançar, livre de toda a confusão gerada por um
expansionismo capitalista que já está em declínio há vinte anos e pelo suposto
fracasso do comunismo em países onde este nem sequer estava na ordem do dia. As
declarações recolhidas pelo «Libération» junto de activistas que trabalham na
SNCF (edição de 23 de Janeiro) mostram que a empresa está bem ciente disso:
«Seria necessário um ideal de sociedade. Não o temos, por isso temos agido ao
dia, caso a caso ( ... ) Pega-se em cinco tipos da SNCF, dois da Renault, os
desempregados, os jovens dos subúrbios que vão receber 4000 balles para cuidar
de parques, todos pensam o mesmo, mas não há nada que os una».
«Um ideal de sociedade» é um programa de classe. «O
que une» é um partido político que ousa opor-se a todas as mentiras e a todas
as superstições. Não se poderia definir melhor aquilo de que o proletariado
necessita do que o fez um trabalhador anónimo que, certamente, não é o único em
França a ter sentido essa falta em Dezembro de 1995.
Notas:
1 Le Monde diplomatique , Dezembro de 1995.
2 A taxa de
sindicalização em França em 1940 era de 42%, de 26% em 1970, de 21% em 1980 e
de 11% em 1993. (Bilan du Monde, p.136)
3 Le monde de 7 de Dezembro, M. Cohen "Le nouveau prolétariat vous salue bien”
4 Em 1995, 'a Marcha do Século' dedicava um programa a uma questão ao mesmo tempo ingénua e pérfida: Onde desapareceu a classe operária?
5 Em Janeiro de 1995, um comentador
da agitação social de Dezembro propôs numa revista “respeitável” consagrar Karl
Marx como “homem do ano 1995”
Fonte: Cahiers
du marxisme vivant (nº 1-2 et lettres) – Barbaria
Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice
Sem comentários:
Enviar um comentário