Radio Orient, o navio-almirante do império do clã
Hariri, sob controlo de uma holding dos Emirados Árabes Unidos
9 de Junho de 2026 Robert Bibeau
Por René Naba na Radio Orient, a última joia do império mediático do clã
Hariri, está a passar para o controlo de uma holding dos Emirados Árabes
Unidos.
O fim de um parêntese encantado
A Radio Orient, a última jóia da corôa
do que outrora foi o império mediático Hariri, cujo nome deriva do
primeiro-ministro e bilionário libanês-saudita Rafic Hariri, foi vendida em
2025 a um grupo empresarial dos Emirados Árabes Unidos, pondo fim a um período
áureo de 32 anos, durante o qual a dinastia Hariri dominou a vida política libanesa,
e influenciou amplamente a diplomacia francesa em relação ao mundo árabe,
nomeadamente na época da dupla Jacques Chirac-Rafic Hariri.
· Sobre o tandem Chirac-Hariri, veja este link: https://www.renenaba.com/la-france-et-le-liban-le-recit-dune-berezina-diplomatique/
· Sobre o desconforto político de Saad Hariri, cf; Este link: https://www.madaniya.info/2022/01/31/liban-saad-hariri-la-fin-sans-gloire-dun-heritier-problematique-dune-dynastie-ephemere/
O novo proprietário e agora único accionista da Radio Orient é a RO Holding
Limited (Emirados Árabes Unidos), localizada no emirado de Ras al Khaimah e
registada sob o nome "International Corporate Center ICC 202 40 500.
A Rádio Orient actuou como única accionista da empresa REGROUPEMENT DES
RADIOS MUSULMANES DE FRANCE. A Radio-Orient é uma sociedade anónima
simplificada com um capital de 175.000 euros, cuja sede registada se encontra
na avenida Victor Hugo, nº 98, em Clichy (92110), registada no Registo de
Comércio e Empresas de Nanterre com o número 339 765 786;
Não foi possível saber se a venda foi feita para satisfazer uma dívida do
herdeiro do clã ou em reconhecimento da hospitalidade que os Emirados Árabes
Unidos ofereceram a Saad Hariri, para o ajudar a sair do seu colapso político e
financeiro.
Mas o facto é que a venda da Radio Orient a uma holding dos Emirates
poderia alterar significativamente a linha editorial desta estação, que
anteriormente era sensível ao Líbano e à Arábia Saudita, dada a rivalidade
contida entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos e a animosidade que
reina entre os líderes das duas petro-monarquias, o saudita Mohamad Bin Salman,
e Mohamad bin Zayed, do Abu Dhabi, aliado privilegiado de Israel na região e da
direita radical europeia, devido à sua feroz hostilidade aos islamistas.
Para aprofundar este tema, veja estes links:
Sobre as ligações entre Abu Dhabi e a extrema-direita europeia, veja este
link
· https://orientxxi.info/les-emirats-arabes-unis-allies-de-l-extreme-droite-europeenne,8034
E o artigo da Mediapart datado de 19 de Janeiro de 2026, "o plano
secreto dos Emirados Árabes Unidos para influenciar o debate público interno em
França".
O império mediático do clã Hariri
Instituição lendária, indissociável da história do Líbano, Rafic Hariri,
que viria a liderar o governo libanês durante dez anos (1992-1998/2000-2003),
começou por tentar apaziguar a imprensa libanesa, disponibilizando do seu
próprio bolso a quantia de 250 000 dólares como contribuição para a construção
do novo edifício do sindicato da imprensa. No Outono de 1991, menos de um ano
antes da sua chegada ao poder, conquistou assim as boas graças do presidente do
sindicato dos jornalistas, o Sr. Melhem Karam, um homem sem preocupações
financeiras, proprietário de um importante grupo de imprensa que incluía uma
conceituada publicação francófona, «La Revue du Liban», e, além disso, patrão
inamovível do sindicato há quarenta anos.
Numa operação de relações públicas dirigida directamente aos jornalistas
libaneses, não hesitou, também, em fretar um avião especial para a cobertura da
primeira visita pós-guerra do presidente libanês à França, Elias Hraoui, no Outono
de 1991, oferecendo às suas custas uma festa aos cerca de sessenta
correspondentes que acorreram a Paris para a ocasião. Homem de poder e,
sobretudo, de plenos poderes, Hariri não tolerava a menor contestação. A
discordância era-lhe insuportável ao extremo, tal como as observações duvidosas
ou, mais simplesmente, interrogativas.
Quer se goste ou não, através da sedução ou da coação, do dinheiro ou da
violência, Hariri construiu assim, ao longo de 15 anos, um verdadeiro império
mediático, apoiado por uma plêiade de escribas aduladores, para sua maior
glória e a dos seus projectos. Muitos jornalistas sucumbiram às seduções
materiais por necessidade de sobrevivência num país exangue, ou mais
simplesmente para satisfazer uma vaidosa sede de reconhecimento social que os
fastos do poder geram.
Fazer uma peregrinação diária ao City Café de Beirute, ao pé da residência
do primeiro-ministro, e exibir-se na companhia do porta-voz e distribuidor da
maná haririana, Nihad Machnouk, constituía então um ritual da mais alta
elegância, o cúmulo da consagração profissional e da consideração social
durante o mandato de Hariri.Na altura da sua morte, Rafik Hariri encontrava-se,
após vinte e cinco anos de vida política, à frente de um sistema multimédia
composto por seis vectores, incluindo um canal de televisão, uma estação de
rádio e ligações a seis grandes publicações libanesas. Como sinal de ecumenismo
ou oportunismo, o recrutamento de uma coorte de cerca de uma centena de
jornalistas heterogéneos abrange toda a gama de sensibilidades políticas
libanesas e árabes, desde antigos militantes comunistas até milicianos das
forças libanesas.
Para além da Radio-Orient, que assumiu na véspera da sua chegada ao poder
em 1992, Hariri fundou um canal de televisão "Al-Mostaqbal", que
significa "O Futuro", um título que anuncia o seu projecto político
futurista. Comprou a revista com o mesmo nome "Al-Mostaqbal",
publicada durante muito tempo em Paris por nacionalistas árabes que lutavam
contra o colonialismo, antes de fundar um partido político com o mesmo nome
cuja direcção confiou a um antigo líder comunista, Mohamad Kichleh.
Rádio Orient, uma bandeira de
conveniência numa zona sem lei
Primeira rádio comunitária de língua árabe da Europa continental e, devido
à sua localização, a primeira rádio de língua árabe da Europa, a Radio-Orient,
a transmitir a partir de Paris, meio de comunicação offshore por excelência,
constituiu durante muito tempo um pavilhão de conveniência numa zona de
impunidade, um resumo da história da comunicação e das relações triangulares de
subordinação entre Paris, as monarquias petrolíferas do Golfo e o bilionário
libanês-saudita.
A Radio Orient assegurava assim a retransmissão da oração de sexta-feira em
directo de Meca, incluindo o sermão do pregador do islamismo rigorista
wahabita, destinado ao seu público muçulmano em França; um privilégio
exorbitante, incompatível com o princípio da laicidade que rege a vida pública
do único país do mundo que se reivindica deste princípio.
Sem se preocuparem com considerações morais, os países ocidentais há muito
que tinham cedido aos encantos discretos dos petrodólares e, por uma mão-cheia
de dólares, tinham vendido a sua alma.
Sobre este ponto, veja este link: https://www.madaniya.info/2018/02/02/europe-islam-djihad-pour-une-poignee-de-petrodollars-l-europe-a-vendu-son-ame-1-2
No entanto, a batalha no plano simbólico não terminará aqui. Rafic Hariri ocupará as primeiras páginas dos principais jornais libaneses que marcaram gerações de militantes nacionalistas no último quarto do século XX: «Saout Al-Ourouba», a voz do arabismo, órgão do partido Najjadé de Adnane Hakim, jornal mítico da juventude muçulmana de Beirute, cujo lema «o petróleo dos árabes deve voltar para os árabes» soava como uma repulsa à política energética dos amigos de Hariri, os monarcas petrolíferos do Golfo pró-americanos. O bilionário libanês-saudita também se apoderará do jornal «Al-Hoda» e de um diário de língua francesa, «Le Matin».
Estes três títulos não são publicados, mas constituem uma espécie de
reserva estratégica. A sua colocação em circulação deveria ser decidida em
função das necessidades da sua política, nomeadamente na hipótese de se impor a
necessidade de ampliar o seu poder de fogo face aos seus detractores ou ainda
para agraciar com uma sinecura um servo zeloso distinguido com o cobiçado título
de director de jornal. Para além da satisfação de um clientelismo de boa
qualidade, a posse de uma licença de um jornal de língua francesa respondia, no
entanto, a um objectivo eminentemente político: fazer pesar o risco de
concorrência sobre o «Orient-Le Jour», num mercado exíguo, e levá-lo a
transigir.
Este jornal, com uma tiragem modesta que nada tem a ver com a sua
notoriedade, considera-se o grande diário francófono do Líbano e de todo o
Oriente Árabe. Nessa qualidade, beneficiou durante muito tempo de uma subvenção
dissimulada da França, sob a forma de fornecimento gratuito de papel de jornal,
a título de apoio à Francofonia. «Le Matin», trunfo secreto de Rafic Hariri,
bem como o isco que representava o apoio de Hariri à candidatura presidencial
do director do jornal, Michel Eddé, eterno candidato à magistratura suprema,
será, na verdade, o seu principal argumento para obrigar a burguesia
empresarial cristã francófona e francófila a selar uma parceria política e
eleitoral com o bilionário libanês-saudita e a entronizá-lo no círculo
político.
Sempre no plano simbólico e, sem dúvida, por inclinação para os seus amores
de juventude, o movimento dos nacionalistas árabes de Georges Habbache, de quem
foi simpatizante em Saida (Sul do Líbano), contribuirá para a aquisição, por um
dos seus próximos, o Sr. Abdel Karim Khalil, da revista «Al-Hadaf», porta-voz
da organização marxista da Frente Popular para a Libertação da Palestina
(FPLP), durante muito tempo dirigida por um dos líderes palestinianos mais
mediáticos, o poeta Ghassane Kanafani. Mesmo o prestigiado jornal «Al-Nahar»,
há muito porta-voz da intelectualidade árabe liberal, não resistiu à atracção
de Hariri.
Artífice da revolução editorial que deu origem ao jornalismo árabe moderno
na década de 1960, o proprietário do «Al-Nahar», Ghassane Tuéni, antigo
conselheiro diplomático do presidente Amine Gemayel, será sócio de Hariri,
assim como o seu cunhado, Marwane Hamadé, um dos membros mais activos dos
governos Hariri.
Em 2002, no entanto, Hariri cedeu as suas participações no «Al-Nahar» ao
príncipe libanês-saudita Walid Ben Talal, que lhe disputava a liderança sunita
de Beirute devido à sua filiação com o antigo primeiro-ministro e pai da
independência libanesa, Riad el-Solh.
Outros títulos gloriosos da imprensa libanesa, que foram na sua época
porta-vozes da coligação palestino-progressista durante a guerra do Líbano,
mostraram-se posteriormente receptivos às suas tentativas de sedução e a
subsídios mais ou menos directos, nomeadamente o «Al-Charq» e o «Al-Liwa».
Procurando, sem dúvida, neutralizar as oposições, o antigo
primeiro-ministro alargou o seu alcance, como atesta o organograma do seu
império mediático.
Os nomes das grandes famílias muçulmanas
figuravam ali ao lado de antigos membros das Forças Libanesas (milícias
cristãs), como Rima Torbey, ou de antigos militantes marxistas, como Nassir
al-Assaad e Tony Francis. No topo da pirâmide encontravam-se, no entanto, os
representantes da alta burguesia muçulmana, nomeadamente Assaad Mokaddem,
antigo diplomata na Liga Árabe, e Mohamad Al-Samak, veterano do jornalismo
pró-saudita, antigo conselheiro político do ex-primeiro-ministro Saëb Salam e
membro do diálogo islâmico-cristão, bem como Nihad Al-Machnouk, sobrinho de um
antigo líder nacionalista de Beirute, ou ainda Nadim Al-Mounla, presidente da
«Future T.V.».
Este canal serve de ponto de chegada
para antigos militantes reconvertidos ao realismo político, como Paul Chaoul, e
para antigos sindicalistas, como Issam Jurdi, sem falar no cargo de porta-voz
da SOLIDERE, que se pretendia a montra do império imobiliário de Hariri, que
ele confiará, paradoxalmente, a um jornalista com um percurso conturbado,
Rached Fayed, de quem, no entanto, o afastou quando o jornal «Le Monde»
denunciou, num artigo estrondoso publicado em Julho de 1998, «as estupidezes
forçadas dos visitantes de todos os quadrantes» registadas no boletim
trimestral do grupo Solidere, numa altura em que o Líbano enfrentava «uma
catástrofe patrimonial num contexto de especulação e de dinheiro branqueado».
Da Télé Liban ao canal «Al-Mostaqbal»: da pilhagem ao mecenato
Num país atingido pela amnésia na sequência de quinze anos de guerra entre
facções (1975-1990), cujos arquivos nacionais foram saqueados — quer se trate
do Museu Nacional, da Biblioteca da Universidade Libanesa ou mesmo dos arquivos
da Segurança Geral —, os centros de documentação dos órgãos de imprensa
tornaram-se o local privilegiado para a preservação da memória.
Amputado da sua segunda metade por quinze anos de guerra, o libanês viveu a
guerra numa espécie de amnésia parcial, amnésico da outra metade do Líbano,
amnésico do passado do Líbano, amputado daquilo que constituía a sua
consciência nacional.
Promovidos ao estatuto de memória viva do Líbano, os jornais, nomeadamente
os mais antigos e os mais bem estruturados, como o «An-Nahar» da família Tuéni
e o grupo «As-Sayyad» de Saîd Freyha, publicaram, no final da guerra, luxuosos
álbuns fotográficos, muitas vezes de qualidade, de tom nostálgico, com alcance
pedagógico e finalidade mercantil, numa operação que pode resumir-se nesta
fórmula: a lacrimalidade memorial ao serviço da caixa registadora de jornais,
muitas vezes à beira da apoplexia financeira.
O acervo documental da Télé-Liban, o maior arquivo áudio-visual de um dos
meios de comunicação mais antigos do Médio Oriente, constituía, nesse sentido,
um verdadeiro tesouro de guerra. Hariri apoderou-se desse espólio, deitando
assim a mão a um importante património documental (imagens e som), histórico e
afectivo, da nostalgia libanesa do período pré-guerra.
O bilionário adquiriu 49% das acções da Télé-Liban, a televisão oficial
libanesa, pelo valor de cinco milhões de dólares.
Dispôs assim, durante três anos, de uma tribuna duplamente oficial, na
qualidade de chefe do governo e de empresário, accionista principal da
televisão pública. Mas, para além desta infeliz confusão de papéis nos seus
aspectos políticos e mediáticos, o caso revelou-se uma lucrativa operação
comercial. O chefe do governo manteve, de facto, a sua presa durante o tempo
necessário à duplicação dos arquivos da televisão pública libanesa, antes de a
devolver, como generoso mecenas, ao Estado, poupando-se, sob o pretexto da
beneficência, ao pagamento de substanciais direitos de autor.
Perante a pressão parlamentar, o Sr. Hariri teve de devolver ao Estado a
sua participação pelo valor de oito milhões de dólares, embolsando, de
passagem, uma mais-valia de três milhões de dólares, com a vantagem adicional
de ficar com todo o acervo documental deste canal, que os seus colaboradores
duplicaram durante os três anos em que o seu patrão foi o proprietário.
Uma verdadeira arte da dissimulação, a pilhagem disfarçada de mecenato:
antes de ser adquirida por Hariri, a Télé Liban detinha o monopólio exclusivo
da transmissão até ao ano de 2012. Após a revenda das suas acções, a televisão
pública perdeu os dois trunfos que constituíam a sua força: o monopólio da
transmissão e o monopólio documental, dos quais está agora privada.
A reprodução gratuita, em nome do seu novo canal privado Future TV, do valioso
acervo de arquivos do Médio Oriente constituído por trinta anos de actividades
televisivas privou, além disso, a Télé-Liban de receitas substanciais a título
de direitos de retransmissão.
Seja como for, a proeminência financeira e mediática
do bilionário libanês-saudita, bem como o comportamento evasivo do seu
sucessor, o seu filho mais novo Saad, durante a guerra destrutiva de Israel
contra o Líbano, em 2006, que lhe valeu a alcunha de «escondido» de Beirute,
serão, no entanto, de pouco peso face à contestação dos seus adversários, os
meios de comunicação que gravitam na órbita do Hezbollah, cuja credibilidade
retira a sua força da fiabilidade do seu líder, Hassan Nasrallah, artífice de
duas gloriosas vitórias contra Israel, a retirada militar israelita do sul do
Líbano, em 2000, e a sua resposta balística vitoriosa no interior estratégico
de Israel durante a guerra de 2006, bem como «Al Mayadeen», o canal fundado por
Ghassane Ben Jeddo, um jornalista libanês-tunisino, constituído por dissidentes
do canal do Qatar «Al Jazeera».
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice

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