O desporto é um facilitador das relações
internacionais... Ou não!
16 de Junho de 2026 Robert Bibeau
Por René Naba. Sobre o desporto como facilitador das relações internacionais –
Madaniya
"O desporto é um facilitador das relações internacionais quando os dois protagonistas são igualmente poderosos"
"O desporto não deve ser obrigado a suportar mais do que pode
suportar!" diz René Naba, antigo chefe do mundo árabe-muçulmano no serviço
diplomático das AFP, antigo correspondente rotativo do escritório regional da
AFP em Beirute.
O diretor do https://www.madaniya.info/ site, René
Naba, foi gentil o suficiente para responder às nossas perguntas
LEGISPORT: Existem
semelhanças ou desacordos entre o desporto e as relações internacionais?
René Naba: Há tanta semelhança quanto diferença entre desporto e Relações
Internacionais. A competição é igualmente feroz para ambos, mas as
consequências são radicalmente diferentes. A vitória no desporto é, antes de
mais, uma satisfação moral, com por vezes repercussões materiais. Não há mortes
de homens.
Em Relações Internacionais, a vitória pressupõe ou a conquista de um
mercado e, portanto, para o vencido, a perda de um mercado com as suas
inevitáveis consequências económicas no mercado de trabalho no país derrotado;
ou a conquista de um território com a sua procissão de morte e destruição. De
qualquer forma, não devemos obrigar o desporto a suportar mais do que ele pode!
LEGISPORT: O desporto
é um factor na normalização das relações internacionais?
RN: Pode ser ou pode não ser. O caso mais famoso é a "diplomacia do
pingue-pongue" iniciada pela China Comunista e pelos Estados Unidos na
década de 1970, que levou à normalização das relações diplomáticas entre o
gigante asiático e o líder do campo ocidental, a principal potência militar da
era moderna.
Esta competição entre jogadores de ténis de mesa dos dois países abriu
caminho para um renascimento das relações sino-americanas por ocasião da visita
do Presidente dos EUA, Richard Nixon, à China em 1972 e da admissão da China
como membro permanente do Conselho de Segurança com poder de veto, substituindo
Taiwan.
LEGISPORT: Em alguns
dos seus escritos, menciona que o desporto é uma "ilustração do discurso
disjuntivo do Ocidente".
RN: Um discurso disjuntivo é um discurso selado com o selo da duplicidade,
no sentido em que defende a promoção de valores universais para a protecção dos
interesses materiais; um discurso que parece universal, mas tem um tom moral
variável, adaptável aos interesses particulares dos Estados e dos líderes.
O Paquistão e o Irão são duas potências muçulmanas na Ásia, uma, o
Paquistão é sunita, uma potência nuclear de pleno direito, e a outra, o Irão, é
xiita, uma potência nuclear de limiar. Mas o comportamento do Ocidente em
relação a estes dois países asiáticos revela o seu discurso disjuntivo. O mesmo
se aplica à Coreia do Norte.
O princípio da não proliferação nuclear é um exemplo típico do discurso
disjuntivo do qual o Paquistão tem sido o principal beneficiário, assim como
Israel perante o Irão e os outros países árabes...
Mas vamos voltar ao desporto
RN:D Esta área, que é o tema da nossa entrevista, é o caso do Irão. O jogo
de futebol entre o Irão e os Estados Unidos a 21 de Junho de 1998 continua a
ser um modelo do género.
A FIFA rapidamente classificou este jogo como "de alto risco". Ao
contrário dos jogadores de ténis de mesa, os jogadores de futebol não serviram
como facilitadores da normalização entre os dois países, pois a competição
iraniano-americana de futebol diferia significativamente da diplomacia do
"ping-pong". Simplesmente, no caso da China, o presidente americano,
Richard Nixon, estava sob uma dupla pressão: por um lado, o desgaste da Guerra
do Vietname e, por outro, a pressão das revelações do escândalo Watergate, que
prevaleceriam. O Sr. Nixon procurava, portanto, um sucesso diplomático
retumbante a nível mundial para salvar o dia.
LEGISPORT: Para si,
com o Irão, a situação era radicalmente diferente
RN: O Irão, que durante muito tempo foi o super-polícia americano no Golfo
na época do regime imperial, posicionava-se agora como líder do eixo
contestatário à hegemonia israelo-americana nesta região petrolífera.
Além disso, a América ainda se lembrava da humilhação da tomada de reféns na embaixada americana em Teerão: dois factos que excluíam qualquer normalização entre estes dois países. Muitas vezes quer-se fazer o futebol suportar um peso que não é seu. E, por vezes, dar a um jogo virtudes que frequentemente o ultrapassam. É levar a bola um pouco longe demais. O desporto facilita as Relações Internacionais quando os dois protagonistas têm igual poder.
LEGISPORT: Mesmo hoje,
nas notícias recentes, evoca um discurso disjuntivo...
RN: Com a Rússia e Israel, este é o exemplo perfeito de um duplo padrão.
Grande nação desportiva, a Rússia está desde 2016 privada das suas cores na
arena olímpica, primeiro por causa do escândalo de dopagem orquestrado pelo
Estado, que a fez competir sob a bandeira olímpica (2018), e depois por causa
da guerra na Ucrânia. Israel, por outro lado, participou nos Jogos Olímpicos de
2024 em Paris apesar da polémica que a presença do Estado hebraico nesta
competição suscitou. A participação de Israel gerou polémica devido às
acusações relacionadas com a guerra em Gaza.
LEGISPORT: Deputados franceses pediram ao Comité Olímpico Internacional que Israel participasse sob bandeira neutra, sem que o seu hino nacional fosse tocado, como acontece com os atletas russos cujo país invadiu a Ucrânia.
RN: As autoridades francesas afirmaram, ao contrário, que o país era bem-vindo e que seria protegido 24 horas por dia durante os Jogos de Paris, e o COI considerou que a carta olímpica não foi violada e recusou sancionar os atletas israelitas.
LEGISPORT: Porquê?
RN: Muito simplesmente, o peso do genocídio hitleriano ainda recai sobre a
consciência ocidental e paralisa qualquer debate sobre o Estado hebraico. Tendo
em conta o balanço humano particularmente pesado do lado palestiniano e as
consideráveis destruições infligidas ao enclave de Gaza em retaliação pelos
assassinatos e tomadas de reféns de 7 de Outubro de 2023, os palestinianos
surgem, retrospectivamente, como as últimas vítimas, por efeito indirecto, do
genocídio hitleriano. O assunto é tabu no Ocidente, mas cada vez mais sugerido
em amplas camadas do quarto mundo.
LEGISPORT: A 27 de novembro de 2025, a
Federação Internacional de Judo decidiu reintegrar a Rússia nas suas
competições com o hino nacional. Vê nisso um apelo à paz?
RN: Digamos,
de forma caridosa, que a Federação veio em socorro da vitória, segundo o
conhecido ditado «já que estes mistérios nos ultrapassam, finjamos ser os
organizadores» (Jean Cocteau).
Está em cima
da mesa o plano de paz americano, o contínuo avanço russo sobre territórios
ucranianos apesar das sanções económicas e políticas ocidentais… Tudo isto cria
um microclima propício a acções audazes. Concretamente, a posição da Federação
Internacional de Judo situa-se na linha da adoptada pelo «Sul Global» no início
da guerra na Ucrânia, onde o quarto-mundo colorido recusou ser englobado sob a
bandeira do Ocidente no que pareceu ser «uma rixa entre brancos».
René Naba é
especialista em Médio Oriente, autor de vários livros, incluindo A Arábia
Saudita, um reino das trevas, Da nuclearização ao surgimento da Ásia, Síria
(2011-2021), crónica de uma guerra sem fim, O Paquistão diante do desafio do
Mundo pós-ocidental e da Eurásia, todos publicados pelas Edições Golias.
Entrevista publicada no LEGISPORT n.º
177, Janeiro-Fevereiro de 2026
Fonte: Le
sport est facilitateur des relations internationales…ou pas ! – les 7 du quebec
Este
artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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