Os Cadernos do Marxismo Vivo
Marxismo e Sindicatos
Les Cahiers do
marxismo vivo. Trata-se de uma publicação
dedicada à histórica militante do PCINT, Suzanne Voute, e à secção de Marselha
do mesmo partido. Destacamos, acima de tudo, o balanço que faz, no n.º 2, sobre
o «éclatament» (ruptura) do PCINT em 1982 e as causas do mesmo, decorrentes de
toda a dinâmica activista, economicista e «marxista-leninista» em que o grupo
do Programma Comunista foi caindo, na qual o partido se concebia como motor da
luta de classes e não como produto para poder vir a ser, posteriormente, um factor.
Da mesma forma, consideramos muito importante o texto sobre «Marxismo e
sindicatos» desse mesmo n.º 2, no qual se concretizavam algumas das questões
apontadas no texto sobre a «éclatement». Publicamos a tradução destes dois
textos graças à colaboração de um camarada.
Marxismo e sindicatos
Desde a sua origem, o partido proletário tem-se distinguido de todas as formas de utopismo por mostrar que a transformação revolucionária da sociedade burguesa em sociedade socialista será o resultado de um movimento real da classe oprimida. Este movimento real deve ser estudado em quatro fases sucessivas: nos primórdios do capitalismo, na sua fase idílica, terminada em 1914, após a Primeira Guerra Mundial e após a Segunda Guerra Mundial, apresentada como a guerra da democracia contra o fascismo.
Nos primórdios do capitalismo, "o proletariado formava uma massa dispersa e desmembrada pela competição". Os salários estavam totalmente determinados pela oferta e procura no mercado de trabalho, fazendo com que flutuassem acima e abaixo do mínimo fisiológico. Nessas condições, a "simples união por associação", a formação de "coligações contra a burguesia para a defesa dos assalariados" e ainda mais "associações permanentes com este fim" tinham um alcance revolucionário. No entanto, a partir dessa época, era uma característica distintiva do comunismo demonstrar que "todas as conquistas dos operários na sua luta são efémeras" e afirmar que "o verdadeiro resultado das suas lutas não é tanto o sucesso imediato, mas o crescimento da união dos operários" (Manifesto Comunista, 1848).
Nesta primeira afirmação da doutrina marxista, a constituição do proletariado como classe através da crescente união contra a patronal continua a aparecer como um mesmo e único processo que a sua constituição como partido. Da mesma forma, a única diferença entre "luta económica" ("a luta de classes no momento do seu surto") e a luta de classes em sentido estrito, ou seja, a "luta política", é que a primeira continua a ser de âmbito local, e a segunda de âmbito nacional.
No artigo Movimento social e luta política, Bordiga comentava esta terminologia da seguinte forma: "Em 1848, não havia grande perigo de que quando alguém dissesse ‘luta política’ para se referir à ‘luta revolucionária’, se entendesse como [...] luta eleitoral, pacífica, legalista. Precisamente porque as revoluções burguesas eram recentes ou ainda estavam na ordem do dia, estava claro que ‘as reivindicações políticas defendem-se com a guerra civil’".
Este conjunto de condições explica que a Primeira Internacional agrupava associações económicas e partidos proletários sob uma direcção centralizada única, mas a Primeira Internacional desapareceu antes que o socialismo pudesse obter a vitória sobre todas as correntes imaturas desta fase inicial.
***
Na segunda fase, a da II
Internacional, a influência do marxismo cresceu, especialmente na Alemanha, tal
como Engels tinha previsto. O que distingue esta fase da anterior é a mudança
na política da burguesia em relação aos sindicatos operários. A burguesia adoptou
uma atitude mais conciliatória em relação aos sindicatos operários,
afastando-se em numerosas ocasiões da doutrina liberal que não permitia
qualquer intermediário entre o cidadão e as autoridades e que, durante muito
tempo, tinha proibido até mesmo as associações patronais, para evitar uma
radicalização do proletariado em direcção a posições extremistas. Ao mesmo
tempo, o movimento político operário suplantou quase universalmente o
sindicalismo puro, mesmo no seio dos próprios sindicatos. Assim, numa atmosfera
de progresso capitalista relativamente pacífico, que não oferece qualquer
oportunidade para a luta revolucionária pelo poder em lado nenhum, excepto na
Rússia,
esta mutação da política
burguesa favorece um desvio reformista que conduz ao revisionismo total. Os
objectivos finais vão sendo gradualmente esquecidos. A luta política reduziu-se
à acção legal e parlamentar, com o intuito de obter da classe dominante leis a
favor dos assalariados. São os sindicatos que pressionam o partido político
para que triunfem os interesses imediatos que defendem. Dentro do partido,
apenas as fracções políticas de esquerda denunciam este imediatismo de visão
estreita, para o qual «os objectivos não são nada e o movimento é tudo», e
lutam não só contra a involução que isso provoca no plano político, mas também
contra a negação do marxismo revolucionário que a nova doutrina implica: a
transição do capitalismo para o socialismo será gradual, sem violência, sem
revolução. Esta segunda fase terminou com o colapso da Segunda Internacional
enquanto partido de classe.
***
A
terceira fase foi inaugurada pela Primeira Guerra Imperialista; as fracções de
esquerda denunciaram a política burguesa de unidade nacional de todas as
classes para a defesa da pátria, praticada pelos reformistas. Na Rússia,
eclodiu a revolução. Em 1919, formou-se a Terceira Internacional (CI) com base
no marxismo revolucionário restaurado e travou uma batalha feroz contra o
reformismo e o revisionismo.
No seu
II Congresso, realizado em Julho de 1920, a IC dedicou teses detalhadas à
«questão sindical». Estas teses estabeleciam as regras que os comunistas teriam
de seguir para quebrar a influência predominante que os reformistas e
revisionistas continuavam a exercer nas organizações operárias de massas.
Começam por destacar o afluxo de numerosos membros determinados a travar uma
luta anti-patrónica sem concessões nessas organizações desde o fim da guerra.
Denunciam a resistência da sua antiga burocracia, não só ao processo
revolucionário, mas ao próprio movimento reivindicativo. Condenam «toda a
deserção voluntária do sindicato», «toda a tentativa de criar artificialmente
novos sindicatos», «toda a iniciativa nesse sentido que não seja motivada pela
violência excessiva da burocracia sindical existente e pela sua estreita
subordinação aos interesses de uma aristocracia operária». Proclamam que «as
hesitações e indecisões políticas das massas só poderão ser superadas se os
operários comunistas avançados se revelarem líderes decididos da acção
económica, e não apenas propagandistas do comunismo». Advertem os comunistas de
que não devem recuar perante as cisões sindicais, se para as evitar fosse necessário abandonar o trabalho revolucionário;
«e que, nesse caso, só se deve recorrer à cisão com a certeza absoluta de que
esta será justificada aos olhos das amplas massas por interesses concretos e
imediatos e não por algum objectivo revolucionário distante e vago».
A estas alturas da história,
não há nada teoricamente errado nestas teses, embora não só as Esquerdas alemã
e holandesa da época, mas também os seus seguidores muito mais recentes, tenham
estabelecido a cisão como princípio. Mas nenhum marxista sério pôde, pode ou poderá
alguma vez acreditar que se a nova Internacional não obteve a vitória política
nos dois ou três anos decorridos desde a sua fundação, tenha sido por se ter
atrevido a provocar uma boa e clara cisão nos sindicatos controlados pelo
reformismo revisionista!
Vamos ver agora em que perspectiva
se enquadrava o trabalho atribuído aos comunistas nos sindicatos. No caso de se
evitarem todos os erros antes referidos, dizem as teses:
1°) “Será possível colocar os comunistas no lugar dos oportunistas à frente dos sindicatos”, e 2°) “Será possível parar a desintegração dos sindicatos causada pela deserção dos operários desiludidos com a sua política de colaboração e substituí-los por uniões industriais, ou seja, substituir a burocracia pelos representantes dos operários industriais, deixando às instituições centrais apenas as funções estritamente necessárias”.
É preciso admitir que esta perspectiva pressupunha uma nova fase no desenvolvimento relativamente pacífico do capitalismo, uma fase comparável à da Segunda Internacional. Isso não aconteceu, devido à ofensiva burguesa que tomou a forma da pseudo revolução fascista e nacional-socialista. Pressupunha sobretudo que os partidos da nova Internacional se mantivessem fiéis aos seus princípios fundacionais. Isso ainda se tornou menos certo. Já em 1921, a Internacional inaugurou uma política de frente unida com os social-democratas, que não podia senão causar confusão. Uns anos mais tarde, a contra-revolução começou na própria Rússia e transformou a IC numa vulgar “agência diplomática” da falecida república proletária soviética.
A verdade é que a ofensiva dos partidos e das milícias de Mussolini e Hitler contra todas as instituições democráticas, incluindo os sindicatos, tinha deslocado radicalmente o objectivo prioritário dos comunistas para um novo terreno. Em 1920, a Internacional Comunista tinha-o situado no terreno sindical, como acabámos de ver, porque considerava que era impossível eliminar a influência ainda dominante dos reformistas sem demonstrar que os comunistas eram os únicos defensores coerentes dos interesses imediatos dos operários. O objectivo não era apenas conquistar a direcção dos sindicatos, mas devolver aos operários industriais organizados a iniciativa na luta pelos seus interesses, paralisada pelo seu aparelho burocrático que colaborava com a burguesia; em suma, regenerar os sindicatos. Assim que a burguesia lançou um ataque preventivo contra eles com o objectivo de salvar o seu poder político, o objectivo prioritário mudou não só de terreno, mas também de natureza: o objectivo era dar uma resposta política e militar fulminante ao desafio fascista e hitleriano, ou seja, encorajar e unificar as respostas que isso provocava entre os operários, não para restabelecer o statu quo, mas para derrubar a classe capitalista que o tinha lançado.
A era “pacífica” tinha terminado. Se o desafio cínico da burguesia não desencadeou a luta de classes no sentido pleno do termo, ou seja, a luta política proletária, foi “por razões históricas inevitáveis” e não “como resultado de erros fortuitos dos indivíduos”. Não é menos certo que o novo movimento da IC não esteve à altura da nova época e que, longe de cumprir as suas promessas iniciais, recaiu rapidamente no oportunismo, muito antes de cair sob o domínio dos interesses nacionais do Estado soviético representados pela corrente estalinista. A luta armada da classe operária contra a ofensiva fascista que tinha começado em Itália sob a influência da Esquerda Comunista não se estendeu à Alemanha, onde Hitler triunfou sem problemas.
* * *
A quarta fase começou com a
Segunda Guerra Mundial e o segundo pós-guerra. A sua característica principal é
o desaparecimento do partido de classe à escala europeia e mundial, por um
lado, e por outro a integração dos sindicatos no Estado e o desaparecimento da
antiga “democracia operária”.
Em 1949, a pequena organização que reunia em Itália os poucos sobreviventes da debacle, antigos membros da Esquerda comunista italiana expulsos da IC nos anos 30, escrevia sobre este tema: “Em conjunção com o capitalismo monopolista, os sindicatos fascistas constituíram-se num sindicato estatal obrigatório que aprisionava os operários no aparelho do regime e destruía, tanto de facto como de direito, qualquer outra organização [...]. Este grande acontecimento novo da época contemporânea não é reversível, pelo contrário, fornece a chave para o desenvolvimento dos sindicatos em todos os grandes países capitalistas” (As cisões sindicais em Itália, “Al filo del tiempo”).
No seu
folheto Os sindicatos na época imperialista,
publicado no final dos anos 30, o seu velho adversário León Trotsky tinha
desenvolvido a mesma análise de forma suficientemente notável para merecer uma
citação:
«Há um aspeto
comum no desenvolvimento — ou, melhor dizendo, na degeneração — das organizações
sindicais modernas em todo o mundo: a sua aproximação e fusão com o poder do
Estado. Este processo observa-se em todos os sindicatos, sejam eles neutros,
social-democratas, comunistas ou anarquistas. Este facto, por si só, indica que
a tendência para se fundir com o Estado não
é inerente a tal ou tal doutrina, mas resulta das condições sociais comuns
a todos os sindicatos. O capitalismo monopolista não se baseia na concorrência
e na iniciativa privada, mas sim no comando central. As camarilhas capitalistas
à frente de poderosos trusts, sindicatos patronais e consórcios bancários
controlam a vida económica no mesmo grau que o Estado e recorrem constantemente
à sua colaboração. Por sua vez, os sindicatos operários dos principais ramos da
indústria perdem a margem de manobra que lhes tinha proporcionado a
concorrência entre empresas. Tiveram de enfrentar um adversário capitalista
centralizado, estreitamente ligado ao poder. Daí decorre, para os sindicatos
reformistas, [... ] a necessidade de se adaptarem ao Estado capitalista e de
lutarem para obter a sua cooperação.
Aos olhos da burocracia sindical, a sua tarefa essencial é libertar o Estado da empresa capitalista, enfraquecendo a sua dependência dos trusts e atraindo-o para o seu lado. Esta política está em completa harmonia com a posição social da aristocracia e da burocracia operária que lutam por umas migalhas na distribuição das mais-valias excedentes do capitalismo imperialista.
Nos seus discursos, os burocratas sindicais fazem todo o possível para tentar mostrar ao Estado democrático quão convenientes são, até indispensáveis em tempos de paz e sobretudo em tempos de guerra. Ao transformar os sindicatos em órgãos do Estado, o fascismo não inventa nada. Limita-se a levar até às suas últimas consequências todas as tendências inerentes ao imperialismo.
Para completar este quadro eloquente, acrescentou:
«Os sindicatos democráticos no sentido antigo da palavra, ou seja, organizações nas quais as diferentes tendências se confrontam mais ou menos livremente, não podem existir por muito mais tempo. Assim como é impossível regressar ao Estado democrático burguês, é impossível regressar à antiga democracia operária. O destino de um reflecte o destino do outro.»
Não há nada de surpreendente no facto de dois marxistas, mas também dois adversários políticos como Bordiga e Trotsky, terem a mesma posição teórica sobre os sindicatos na época imperialista, mas terem tirado conclusões radicalmente opostas. Trotsky concluiu a sua análise com base numa «dialéctica» que se afastava perfeitamente do materialismo: «A primeira consigna é: independência total dos sindicatos em relação ao Estado. A segunda consigna é a democracia nos sindicatos; decorre da primeira e pressupõe a sua concretização». Por outras palavras, as consignas revolucionárias transitórias devem reivindicar aquilo que a análise teórica considera historicamente excluído num regime capitalista, mas hipoteticamente possível em caso de revolução!
Por sua vez, no final dos anos 60, a corrente activista-sindicalista do Pcint lançou uma campanha de massas, com jornal e comités especiais, para a “defesa do sindicato de classe”, ou seja, o equivalente italiano da nossa CGT francesa, que naquela época já estava completamente podre, com o pretexto de que a integração do sindicato no Estado não era de todo irreversível... enquanto não estivesse ainda consagrada na Constituição!
O que mais teria sido necessário para que os militantes reconhecessem sem dúvidas, neste sentido, que não lhes estava a ser proposta, mas sim imposta, a vitória do “marxismo-leninismo” tipo Terceira Internacional na pequena organização fundada em princípio sobre as teses fundamentais de Bordiga? Não sabemos.
* * *
A expulsão sucessiva destes «correctores» indesejáveis dos sindicatos e, posteriormente, de todos os opositores do maldito «marxismo-leninismo» pelo PCINT trouxe consigo um esclarecimento valioso, mas não total, uma vez que, assim que a política de «reorientação» foi condenada, muitos dos excluídos lançaram-se na «reconstrução de novos sindicatos», que partia de erros quase idênticos.
Por isso, concluiremos com algumas considerações de princípio e de prática para fixar bem as ideias.
1°) Como vimos, a integração irreversível dos sindicatos no Estado
resulta «das condições sociais comuns a todos eles, seja qual for a sua
doutrina». Estas condições resumem-se da seguinte forma: no capitalismo
contemporâneo, a gestão da força de trabalho não é deixada ao critério dos
dirigentes das empresas, mas sim gerida pelo próprio Estado no âmbito da
política económica do momento (defesa da moeda, estímulo inflaccionista,
redução dos custos empresariais, equilíbrio ou défice orçamental, etc.).
Esta gestão obedece a uma lógica exclusivamente capitalista, independentemente das variações da política económica impostas pela conjuntura ou pela alternância democrática. O Estado defende as empresas face aos assalariados; defende o capitalismo nacional face à concorrência estrangeira; mas também, e sobretudo, a preservação do capitalismo como modelo económico face aos apetites desmedidos dos grupos capitalistas e aos interesses dos pequenos e médios proprietários.
Neste sistema, os sindicatos desempenham um papel regulador, mas o próprio sistema assenta num compromisso entre as classes fundamentais da sociedade, que, naturalmente,
tem um duplo
limite: as respectivas reivindicações. O primeiro exemplo histórico deste tipo
de organização na Europa foi proporcionado, no início do século, pelo fascismo
e pelo nacional-socialismo, que, após esmagarem «os vermelhos», impuseram a
disciplina estatal aos grupos capitalistas e levaram ao limite o reformismo em
relação aos assalariados.
Um dos pais da Perestroika, Alexander Yakovlev, escreveu recentemente que, se os russos pagaram todos os custos da revolução de 1917, foram os assalariados do Ocidente os únicos que beneficiaram imediatamente. Tinha toda a razão, pois sem o temor salutar que o bolchevismo inspirava na burguesia mundial, esta não teria conseguido reformar-se a tal ponto.
2°) A expansão económica sem precedentes dos « gloriosos anos trinta » permitiu ao capitalismo fazer concessões aos assalariados que teriam sido impossíveis e inconcebíveis no início do século. No contexto da produção em massa de bens de consumo e da «democratização» de antigos produtos de luxo, como os automóveis, etc., «a luta de classes deu lugar à satisfação combativa», como afirmou um observador burguês, pelo menos nas categorias melhor ou mais ou menos bem remuneradas.
Numericamente importantes, mas fragmentadas e marginalizadas, as categorias desfavorecidas (imigrantes, mão-de-obra feminina mais ou menos temporária, jovens sem qualificações, trabalhadores domésticos, etc.) não conseguiram alterar este clima geral.
Embora não tenham faltado
conflitos laborais, estes nunca puseram em causa o domínio burguês. Enquanto os
operários avaliarem o capitalismo pela dimensão da folha de pagamentos e o
considerarem, em geral, tolerável, as fracturas inevitáveis numa sociedade
fundamentalmente opressiva e desigual não ocorrerão na fronteira entre a classe
dominada e a dominante, mas sim ao longo das inúmeras linhas que separam as
corporações, profissões, faixas etárias, nacionalidades, género, categorias,
estatuto, etc. A luta de classes perde-se na arena, mas a competição entre
categorias e o corporativismo causam estragos.
Tendo deixado de ser autênticos «sem reservas», dotados de uma «pequena reserva patrimonial», em suma, «tendo algo a defender», como dizia Bordiga, enquanto os activistas se lançavam de cabeça no miserabilismo anacrónico, os operários vacilavam perante a acção directa e a greve, abandonando praticamente a iniciativa à corporação sindical. É claro que houve excepções a esta renúncia, mas foi uma constante do último pós-guerra.
Gerado pelas condições económicas e sociais acima descritas, que exacerbaram o espírito privatista mesmo na classe que outrora tinha fama de ser a mais resistente de todas a este defeito burguês, testemunha o desaparecimento do antigo sindicalismo, politicamente de visão estreita, mas anti-burguês e combativo.2
3°) Numa altura em que ainda não se manifesta qualquer ruptura entre as classes, em que a consciência, ainda difusa, de um objectivo comum para além da sociedade actual desapareceu; em que as aspirações mais comuns se limitam a aumentar ou manter o poder de compra, o consumo, a segurança e a ascensão social dos filhos; quando os problemas e sacrifícios de uma luta revolucionária inspiram o mesmo horror que a própria guerra, não existe qualquer base social sobre a qual o partido revolucionário possa desenvolver-se.
O partido histórico pode perfeitamente sobreviver durante dezenas e dezenas de anos, aceitando a vida ardente, mas dura e subterrânea, dos círculos, tal como Lenine a descreve no seu comentário a «O Que Fazer?» e Bordiga em «Activismo», mas quando se recusa a reconhecer a ausência actual dessa base social, condena-se a si próprio à morte.
Os apelos mais apaixonados à «luta de classes», à «independência» e aos «métodos de classe» continuam a ser completamente ineficazes quando, precisamente, a única coisa que falta é exactamente aquilo que lhes confere toda a sua força, todo o seu significado na doutrina revolucionária: a convicção inabalável de que o capitalismo é um modo de produção transitório na história da humanidade e que a sociedade burguesa está condenada a desaparecer. A força do comunismo crítico é tal que consegue encontrar novos adeptos em cada geração e nas situações mais sombrias, garantindo a continuidade dos círculos e, por conseguinte, a sobrevivência do partido histórico. A impotência das fórmulas de agitação — não por estarem ultrapassadas, mas por serem desprovidas de significado face à consciência dominante ou por se terem tornado suspeitas devido ao abuso a que foram submetidas pelos partidos e, sobretudo, pelos governos estalinistas — é tal que essa agitação não pode trazer nada ao partido além da desmoralização e do abrandamento oportunista que nasce dos reveses.
Devemos falar a linguagem do comunismo crítico, não a linguagem rígida de um «marxismo-leninismo» retrógrado.
4°) O ponto anterior não deve ser considerado uma digressão, porque a questão sindical faz parte de um todo indissociável. A diferença entre a posição de “defesa do sindicato de classe” e a de “reconstrução de novos sindicatos”3 reside no facto de a primeira não considerar concluída a degeneração da CGIL italiana (o equivalente à CGT francesa), ao passo que a segunda sim.
Dito isto, tal implica a mesma perspectiva: se houvesse sindicatos livres da influência dos partidos operários burgueses, a luta reivindicativa poderia desenvolver-se sem obstáculos e a situação da classe operária melhoraria consideravelmente. De onde tiram os
militantes que defendem esta posição tal convicção? Não é
evidente, pelo contrário, que se os principais partidos operários burgueses
foram capazes de negociar com o Estado durante décadas em nome da classe
operária e, em geral, dos trabalhadores assalariados, sem provocar uma cisão
nos sindicatos, é porque essa vontade de luta não era tão feroz como querem
fazer crer? O que os leva a acreditar que, se a luta fosse mais decidida, a
situação imediata seria melhor? Ignoram que, embora não haja um limite teórico à mais-valia patronal,
existe um limite prático tão restritivo que, quando é ultrapassado, as empresas
fecham as portas ou substituem os operários por máquinas? De onde tiram a ideia
de que, se os sindicatos não fossem dirigidos por partidos operários burgueses,
mas por outras correntes ou mesmo — não se sabe por que milagre — por
revolucionários, cujo extremismo, no entanto, a maioria dos assalariados
repudia, poderiam escapar às condições sociais que obrigaram os outros a
colaborar com o Estado ou a desaparecer? De
onde tiram a ideia de que, se os sindicatos não fossem dirigidos por partidos
operários burgueses, mas por outras correntes ou mesmo — não se sabe por que
milagre — por revolucionários, cujo extremismo é, no entanto, rejeitado pela
maioria dos assalariados, poderiam escapar às condições sociais que obrigaram
os outros a colaborar com o Estado ou a desaparecer? De onde tiram a ideia de
que o Estado, reformista por desejo de conservação social, seria obrigado a ceder às reivindicações
sindicais maximalistas?
De onde é que, afinal, tiraram a ideia de que qualquer sucesso no terreno imediato favoreceria a abertura de uma situação revolucionária, ou seja, uma luta pelo poder?
Em tudo isto
não fica qualquer vestígio da postura do comunismo crítico sobre os sindicatos
tal como se desenvolveu historicamente, mas sim uma apologia da luta económica,
uma sobrestimação dos seus efeitos sobre a condição do proletariado na
sociedade capitalista, um silêncio sistemático sobre as condições próprias da
época imperialista, no melhor dos casos digno de um sindicalismo revolucionário
atrasado.
Ao integrarem-se no Estado, os
sindicatos chegaram ao fim do ciclo histórico que lhes foi atribuído pelos seus
próprios limites. Ao demonstrarem, pela primeira vez, a sua hostilidade para
com estas organizações desprovidas de qualquer vida, as massas sancionaram essa
integração. Numa situação caracterizada não tanto pela pauperização dos operários
assalariados em actividade, mas sim pelo desemprego crescente — que aumenta e
continuará a aumentar ao ritmo das inovações técnicas e do encerramento de
fábricas abaladas pela concorrência —, as massas também sancionaram, sem o
saberem, os limites de toda a acção sindical, porque este fenómeno já coloca, e
colocará ainda mais no futuro, um
problema directamente político. E tudo o que ocorre aos «reconstrutores» é
encorajá-los a formar novos sindicatos, ou seja, pedir à geração mais jovem que
recomece todo o ciclo desde o seu início longínquo? É uma postura, no mínimo,
indefensável.
5°) A única explicação para semelhante aberração reside num erro fundamental. Consiste em acreditar que, na dinâmica flutuante e inevitavelmente descontínua das lutas corporativas, sindicais, políticas e até insurreccionais locais, o partido necessitaria de uma âncora sólida e fixa, uma posição estratégica inquebrável. Para a IC de princípios de século e para os nossos sindicalistas revolucionários de hoje, esta preocupação expressava-se e expressa-se na reivindicação de conquistar a direcção dos sindicatos.
Enquanto a IC trabalhava nesta tarefa, a contra-revolução fascista e nacional-socialista destruiu a âncora com a qual tinha sonhado; hoje os sindicatos chegaram a tal estado de dissolução que não podem oferecer nenhum ponto de apoio sólido, mas os reconstrutores não desistem da esperança de encontrar um mais firme a que se agarrar nos muito hipotéticos novos sindicatos.
Como não ver que esta obsessão por um ponto de apoio é uma herança das práticas e concepções da Segunda Internacional, que tinha construído tantos “bastiões operários” quanto fosse possível no “território” da classe inimiga? O exemplo das revoluções do século XX mostra que a luta pelo comunismo não é uma guerra de posição, mas sim uma guerra de movimento. Numa guerra assim, não pode haver nenhuma âncora, nenhuma base sólida para qualquer partido revolucionário, excepto o seu próprio desenvolvimento através da actividade e da luta das massas, e a ligação entre as suas aspirações e os objectivos que persegue. O facto de, no século XX, a primeira destas revoluções ter sido uma dupla revolução, e a segunda uma revolução burguesa-camponesa ainda mais afastada de uma revolução comunista do que a primeira, não muda absolutamente nada este aspecto da questão.
* * *
Conclusão
Se a integração irreversível dos sindicatos no Estado significasse que a subordinação da classe dominada à classe dominante também é irreversível, toda a reflexão seria em vão.
É perfeitamente compreensível
que a burguesia proclame que a era das revoluções terminou definitivamente; ou
que os numerosos e variados desertores do partido a acompanhem em voz baixa,
declarando que Marx e o comunismo estão obsoletos; estas pobres especulações
deixam-nos absolutamente indiferentes. Tirar de algumas décadas de história europeia conclusões aplicáveis a todo o mundo e a todos os séculos
vindouros não tem nada a ver com o método experimental da ciência. O seu método
apenas tende a dar crédito à ideia de que o capitalismo é insuperável ou de que
a salvação depende dos indivíduos (o que é o conservadorismo e o idealismo mais
arcaicos), ou a aumentar, se é que isso é possível, a confusão e o pessimismo
gerais, pintando quadros sombrios e estagnados do futuro ao estilo da ficção
científica mais grosseira.
A enorme convulsão que sacudiu a China há quatro anos multiplicou o número de exemplos de actividade e iniciativa independentes, da eliminação de individualismos e corporativismos perante a causa colectiva, de sacrifícios deliberados por essa causa, até desafios heroicos às forças armadas. Foi a sua propagação para a Europa de Leste, inflamando com estes exemplos, que levou ao colapso de estados supostamente socialistas. Tudo isto confirma que nenhuma ordem estabelecida é indestrutível, por mais firmemente enraizada que parecesse. Recusar tirar conclusões disso para a sociedade ocidental não é realismo, mas cegueira e derrotismo, quando não é um odioso medo da revolução.
Mesmo os burgueses admitem que a actual crise do mundo capitalista será duradoura. Mas ela não pode sustentar-se sem que mude a consciência colectiva; sem que, como resultado dessas mudanças, surjam novas formas de luta e de organização correspondentes às condições da época imperialista. O capitalismo não pode lutar durante décadas nas contradições da economia de lucro e de mercado sem que as verdades antecipadas pelo partido há mais de um século não se abram caminho; sem que pelo menos um sector da consciência colectiva perceba que a única via de salvação é a transição para uma economia não mercantil, não subordinada aos interesses de uma só classe; em resumo, sem que todas as superstições políticas e sociais caiam no esquecimento para dar lugar a assuntos sérios.
Os atrasos, os rodeios, os
contratempos, as sequências no espaço e no tempo são difíceis de prever. O
facto é que são inevitáveis mudanças ainda mais profundas do que acabámos de
experienciar com o colapso do mito do socialismo no Oriente e no Extremo
Oriente, que já tem três quartos de século. É para este futuro que devemos
olhar, em vez de tentar transmitir às novas gerações os preconceitos e erros do
passado, insistindo de forma maníaca em cantar-lhes velhas canções.
1 Refere-se àqueles que acabariam por constituir, no início dos anos 70 Il Partito a partir da secção toscana do Pcint.
2 O plano de o ressuscitar com o pretexto de que constituía uma condição objectiva mínima para o desenvolvimento do partido é um dos melhores exemplos da estupidez fundamental do activismo. O partido assegura o subjectivo do seu desenvolvimento eliminando os erros sucessivos, mas não sem esforço, não sem lutas e às vezes terríveis desagrados. Quanto a assegurar as condições objectivas, não há necessidade de perturbar o materialismo histórico para demonstrar que ele não tem poder para tal. Basta o bom senso, mas esta é precisamente a qualidade modesta de que o iluminismo missionário mais carece.
3 Por exemplo em
Espanha essa é a posição do El Comunista (nota de Barbaria).
Fonte: Cahiers du marxisme vivant: Marxismo y sindicatos – Barbaria
Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
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